Economia – Bancos italianos, a próxima dor de cabeça da União Europeia

Ainda sob o impacto do Brexit, a Europa se vê diante de mais um problema: bancos da Itália precisam de bilhões de euros para se reerguer, enquanto FMI reduz previsão de crescimento para o país. Quem vai pagar a conta?

Monte dei Paschi di Siena
Monte dei Paschi di Siena, um dos bancos italianos em maior dificuldade

Quanto mais se olha para alguns problemas na Europa, piores eles parecem ficar. O setor bancário italiano é um deles. A Autoridade Bancária Europeia (EBA) estima em 200 bilhões de euros o volume de “créditos podres”, ou seja, empréstimos sem cobertura concedidos por bancos italianos; outros órgãos calculam que a soma chegue a até 360 bilhões de euros.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

A dimensão desse volume depende de como ele é calculado. Mas a mensagem é clara: se empréstimos dessa ordem não forem honrados, o Estado italiano não poderá arcar sozinho com as dívidas, e também a comunidade de países da zona do euro ficaria sobrecarregada.

Um problema básico é a conjuntura econômica ainda fraca na Itália. “A economia italiana quase não cresceu, estando em parte em recessão”, afirma Martin Faust, professor de Economia na Frankfurt School of Finance. “A situação das empresas e das famílias italianas não é boa, e algumas já não podem pagar juros e amortizações.”

Nesta terça-feira (12/07), o Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu seu prognóstico de crescimento para a Itália. Neste ano, a terceira maior economia da zona do euro deverá crescer “pouco menos de 1%” e, no próximo, 1%, informou o FMI. Anteriormente, a previsão de crescimento era de 1,1% para 2016 e 1,25% para 2017.

De acordo com o FMI, o referendo no Reino Unido em que se decidiu pelo Brexit – a saída do Reino Unido da União Europeia – aumentou a volatilidade dos mercados financeiros e os riscos para a Itália. O país está diante de “desafios monumentais”, declarou o fundo.

Problema de longa data

Os bancos italianos vêm enfrentando dificuldades há anos. No final de 2014, nove instituições financeiras do país não passaram em testes de estresse realizados em toda a Europa. O maior buraco de capital foi verificado no Monte dei Paschi di Siena (MPS), o banco mais antigo ainda operante no mundo.

Desde então, muita coisa aconteceu, mas provavelmente não o suficiente. No início de 2015, uma diretriz da União Europeia (UE) estipulou que esses erros do passado não deveriam se repetir. Desde então, bancos não podem ser facilmente resgatados com o dinheiro do contribuinte, como aconteceu após a crise financeira de 2008. Antes de o Estado entrar em ação, acionistas e credores devem arcar com as responsabilidades.

“Detentores de obrigações bancárias e mesmo aqueles que possuem poupanças que vão além dos limites legais mínimos também têm razões para temer a perda de parte de seu dinheiro”, explicou Faust. “Isso não é realmente um estímulo para a estabilidade bancária, pois agora ficou difícil para muitos investidores emprestar dinheiro aos bancos. Eles estão com medo de, no final, servirem de avalistas.”

Círculo vicioso

Conjuntura fraca, investidores hesitantes – em vez de diminuir, os problemas dos bancos italianos aumentaram cada vez mais ao longo do tempo. E não há fim à vista. “É de se esperar que as perdas bancárias cresçam consideravelmente nos próximos anos”, avaliou o professor da Frankfurt School of Finance.

“O problema é que os empréstimos não honrados também reduzem o capital dos bancos. E sem capital próprio, eles não podem sobreviver”, acrescentou o professor. Trata-se de um círculo vicioso, pois é justamente em tempos de conjuntura fraca que as empresas precisam de bancos fortes.

No início de 2016, o governo italiano entrou em acordo com a UE sobre a possibilidade de repassar “créditos podres” para chamados “bad banks”, ou seja, bancos que possam concentrar ativos tóxicos. Em abril, foi criado o fundo de resgate Atlante, que recebeu quase 4 bilhões de euros dos bancos italianos.

Pouco depois de sua criação, o Atlante teve muito que fazer: dois bancos regionais tiveram de ser ajudados, primeiramente o Banca Popolare di Vicenza, e depois o Veneto Banca. Isso consumiu metade do volume do Atlante, e desde então há uma controvérsia sobre quem vai preenchê-lo novamente. “Muitos bancos não dispõem de capital para aumentar esse fundo de resgate”, disse Faust.

Nova ajuda governamental?

Durante uma cúpula da União Europeia no fim de junho, o primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, apresentou o plano de utilizar novamente o dinheiro dos contribuintes para ajudar os bancos. Renzi pretende abastecer as instituições financeiras com até 40 bilhões de euros de capital novo, para que possam voltar a respirar. A justificativa do primeiro-ministro: a votação do Brexit criou uma situação excepcional em que tais auxílios são permitidos.

Premiê Matteo Renzi
Renzi diz que Brexit criou “situação excepcional”

Uma desculpa, afirma Thomas Hartmann-Wendels, professor de Economia da Universidade de Colônia. “Não existe nenhuma correlação entre o Brexit e os atuais problemas dos bancos italianos.”

Embora o professor defenda que os institutos financeiros italianos precisam ser saneados, ele afirma que isso deve acontecer segundo as novas regras: primeiramente, a conta deve ser paga pelos acionistas e credores, depois pelo Estado. “Após a crise financeira, prometeu-se que os contribuintes nunca mais assumissem a responsabilidade por negócios arriscados”, diz Hartmann-Wendels. “Agora tudo isso é colocado em questão.”

Segundo o professor, Renzi está sofrendo pressão política e as garantias estatais só incorrem em custos quando surge uma emergência. “Esta é a solução mais fácil, mas, no longo prazo, não leva a uma saída do impasse.”

A próxima prova

O drama interminável mostra claramente os pontos de ruptura da união monetária. A economia da Itália não consegue avançar, porque faltam reformas fundamentais e, para as condições do país, o euro é demasiadamente caro. E quanto mais longa for a crise, mais problemas virão.

“As crises que temos na zona do euro ainda estão longe de estarem resolvidas”, aponta Faust. “Nos últimos anos, os problemas estruturais só foram adiados, mas não resolvidos.”

Dado o grande volume de “créditos podres” na Itália, Hartmann-Wemdels espera que, mais cedo ou mais tarde, o contribuinte europeu sirva de avalista dos bancos. “Isso será necessário. O Estado italiano não conseguirá arcar sozinho com o problema, já que está profundamente endividado.”

Para recapitalizar seus bancos, a Espanha recebeu, entre 2012 e 2014, por volta de 40 bilhões de euros do fundo europeu de resgate financeiro. As negociações com vista a um programa semelhante para a Itália poderiam ser uma prova de fogo para as relações já tensas dentro da união monetária.
DW

Economia: Rejeite o argumento do futuro

Economia Blog do MesquitaO FMI (Fundo Monetário Internacional), que normalmente exerce o papel de disciplinador sério de governos perdulários, deu um conselho incomum aos Estados Unidos. “Desencarnem!”, recomendou o FMI. “Curtam a vida! Aproveitem o momento!”

É claro que os dirigentes do FMI não usaram exatamente essas palavras, mas chegaram perto disso com um artigo na revista “IMF Survey” intitulado “Reduzir Cortes nos Gastos para Incentivar Recuperação dos EUA”.

Em sua declaração mais formal o Fundo argumentou que os cortes de gastos federais que entraram em vigor em março deste ano, além de outras formas de contração fiscal, vão reduzir o índice de crescimento dos EUA deste ano quase pela metade, prejudicando o que, de outro modo, poderia ser uma recuperação bastante dinâmica. E esses cortes nos gastos não são nem recomendáveis, nem necessários.

Infelizmente, parece que o FMI não conseguiu romper por completo com o discurso de austeridade visto como insígnia de seriedade no mundo político. Ao mesmo tempo em que nos exortou a elevar os déficits por enquanto, Christine Lagarde, a diretora do Fundo, nos pediu que “pressa com a implementação de um mapa do caminho de médio prazo para restaurar a sustentabilidade fiscal no longo prazo”.

Minha pergunta é a seguinte: exatamente por que precisamos nos apressar? É urgente acordarmos agora como vamos enfrentar os problemas fiscais das décadas de 2020, 2030 e mais adiante?[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

SUSTENTABILIDADE…

Não, não é. E, na prática, focar sobre a “sustentabilidade fiscal no longo prazo” – que geralmente acaba se resumindo principalmente a “reformas dos benefícios sociais”, ou seja, cortes à Seguridade Social e outros programas– não é uma maneira de ser responsável. Pelo contrário – é uma desculpa, uma maneira de evitar lidar com os problemas econômicos graves que enfrentamos agora.

Qual é o problema de focar sobre o longo prazo? Parte da resposta –se bem que talvez seja a parte menos importante– é que o futuro distante é altamente incerto (surpresa!) e que projeções fiscais para o longo prazo devem ser vistas principalmente como um tipo especialmente entediante de ficção científica. Em especial, projeções de déficits futuros imensos se fundamentam, em grande medida, na suposição de que os custos da saúde vão continuar a subir em ritmo substancialmente maior que a renda nacional. Mas o custo da saúde vem crescendo dramaticamente menos nos últimos anos, e o quadro do longo prazo já está parecendo muito menos assustador do que parecia pouco tempo atrás.

A incerteza, por si só, nem sempre é motivo para inação. No caso das mudanças climáticas, por exemplo, a incerteza quanto ao impacto dos gases estufa sobre as temperaturas globais reforça os argumentos em favor da ação, para evitarmos o risco de catástrofe.

Mas política fiscal não é como política climática, apesar de algumas pessoas terem tentado traçar essa analogia (enquanto pessoas de direita que afirmam estar profundamente preocupadas com a dívida de longo prazo permanecem estranhamente indiferentes às preocupações ambientais de longo prazo). Adiar a ação em relação ao clima significa lançar bilhões de toneladas de gases estufa na atmosfera enquanto discutimos a questão; adiar a ação sobre a reforma dos benefícios sociais não tem custo comparável.

CORTES NOS BENEFÍCIOS

Na realidade, todo o argumento em favor de ação precoce sobre questões fiscais de longo prazo é surpreendentemente frágil. Como gosto de observar, a visão convencional sobre essas coisas parece ser que, para evitar o perigo de cortes futuros nos benefícios, precisamos agir agora para cortar os benefícios futuros. E não estou ironizando.

Mesmo assim, enquanto uma “grande barganha” que vincule austeridade reduzida agora a mudanças fiscais de mais longo prazo possa não ser necessária, será que buscar uma barganha desse tipo causa algum efeito nocivo? Sim. Isso porque a verdade é que não vamos ter esse tipo de acordo –o país simplesmente não está politicamente preparado para isso. Logo, o tempo e energia gastos tentando fechar tal acordo são tempo e energia desperdiçados e que seriam mais bem gastos tentando ajudar os desempregados.

Expliquemos assim: os republicanos no Congresso já votaram 37 vezes para revogar a reforma da saúde, a grande conquista política do presidente Barack Obama. Você realmente imagina que esses mesmos republicanos vão chegar a um acordo com o presidente sobre o futuro fiscal do país, que está estreitamente ligado ao futuro dos programas de saúde federais? Mesmo que um acordo desse tipo fosse alcançado de alguma maneira, você imagina realmente que o Partido Republicano honraria esse acordo se e quando reconquistasse a Casa Branca?

Quando estaremos prontos para fechar um acordo fiscal para o longo prazo? Minha resposta é: quando os eleitores tiverem se pronunciado decisivamente em favor de uma das duas visões rivais que alimentam nossa polarização política atual. Talvez uma futura presidente Hillary Clinton, depois de uma vitória inesperada nas eleições parlamentares de 2018, seja capaz de negociar um acordo orçamentário de longo prazo com os republicanos derrotados; ou, quem sabe, os democratas desmoralizados adiram ao plano de um futuro presidente Paul Ryan de privatizar o Medicare. De uma maneira ou de outra, a hora para grandes decisões sobre o longo prazo ainda não chegou.

E, porque essa hora ainda não chegou, pessoas influentes precisam parar de usar o futuro como desculpa para inação. O perigo real e imediato é o desemprego em massa, e precisamos lidar com ele agora, já.
Paul Krugman/Folha

 

Economia: Crise dos EUA pode ser pior do que a de 2008

Cálculos do Centro para o Progresso Americano apontam recuo de 2,3% no PIB americano se o Congresso não aprovar elevação do teto da dívida

A economia dos Estados Unidos pode afundar numa recessão mais profunda do que a do segundo semestre de 2008 se o Congresso americano não elevar o teto da dívida pública do país, de US$ 14,3 trilhões.

Nos cálculos do economista Michael Etllinger, vice-presidente do Centro para o Progresso Americano, o Produto Interno Bruto (PIB) do país despencará para 2,3% negativos, em termos nominais, em agosto e setembro próximos.

Essa retração na produção doméstica compensaria um inevitável cumprimento dos compromissos externos, por parte do governo americano.

Porém, causaria um dano catastrófico para a economia dos EUA e do resto do mundo.

“Enquanto Barack Obama for o presidente e Tim Geithner, o secretário de Tesouro, os EUA vão honrar sua dívida externa. Eles vão encontrar os recursos para rolar os compromissos de curto prazo e/ou para pagá-los, efetivamente, mesmo com maior sacrifício no âmbito doméstico”, afirmou Ettlinger ao Estado.

Segundo ele, não existe “plano B”, para o caso de o acordo não ser fechado pelos líderes republicanos e democratas do Congresso até o próximo dia 2 de agosto.

No último dia 14, o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney, havia dito que a equipe de Obama preparava essa alternativa. Se não o fizesse, insistiu Carney, seria uma “irresponsabilidade”.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Para o economista, entretanto, não podem ser chamadas de “plano B” as únicas possibilidades. “Priorizar credores externos, manter a casa em ordem, dar o calote nas despesas sociais e de defesa e evitar que as coisas horríveis se tornem catastróficas.”

Brasil. Como o impacto desse cenário se estenderia mundo afora, a exemplo das Depressões dos anos 30 e de 2008, Etllinger acredita na “generosidade” de países com amplas reservas internacionais e/ou fundos soberanos.

A China seria uma óbvia fonte de ajuda. Mas o economista também considera possível uma iniciativa do Brasil.

Em sua opinião, não interessa a nenhuma economia, especialmente às emergentes, conviver de novo com a queda das importações americanas e dos preços das commodities, com outro risco de colapso no sistema financeiro e com uma segunda queda na atividade mundial em apenas três anos.

O socorro do Fundo Monetário Internacional, ainda que possível, seria uma alternativa mais remota, para Ettlinger.

Conforme avaliou, não passaram de “blefes” as advertências das agências de classificação de risco Moody”s e Standard & Poor”s e do governo da China, na semana passada.

As agências alertaram sobre a inevitável redução da nota da dívida pública americana – até ontem, ainda a mais alta – se o acordo sobre a elevação do teto não for concluído. O governo chinês apelou para o dever dos EUA de proteger seus credores externos. “Esses anúncios foram feitos apenas para pressionar os negociadores.”

Apesar de considerar esse quadro mais pessimista e calcular seu efeito no PIB americano, Ettlinger acha provável o acordo entre os líderes do Congresso sobre a elevação do teto da dívida pública.

A questão crucial, emendou, é saber se o acerto virá acompanhado por um pacote fiscal vigoroso. Em sua opinião, esse pacote poderá até mesmo permitir o aumento temporário de despesas com medidas fiscais de estímulo produtivo de curto prazo.

Sem esse mecanismo, o Federal Reserve não terá saída senão adotar novas medidas de expansão monetária, na linha das que vigoraram até junho, para dar impulso à atividade econômica.

Na semana passada, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Ben Bernanke, indicou essa possibilidade, mas recuou no dia seguinte. Segundo Ettlinger, a economia americana ainda está emitindo “sinais ambíguos”.

Denise Chrispim Marin/O Estado de S.Paulo

G8: a reunião surrealista

Espetáculo surrealista

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, abriu com grande pompa a Cúpula do G-8, as oito nações mais ricas do planeta, em Deauville, belo e elegante balneário turístico na costa da Normandia.

Há dois séculos, Napoleão III adorava frequentá-lo, e sua mulher, Eugénie de Montijo, ali se banhava de maiô guarnecido de grandes saias.

Sarkozy tem motivos para se rejubilar.

Normalmente, um outro francês estaria presente nessa cúpula do G-8, Dominique Strauss-Kahn (DSK), o ex-diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), cuja presença teria com certeza eclipsado a de Sarkozy.

Mas DSK, depois de uma vertigem inexplicável, teve a ideia, há 10 dias, de violentar uma jovem negra em sua suíte no Hotel Sofitel em Nova York.

Num instante, DSK caiu na sarjeta como um boneco desengonçado.

Ele desapareceu das telas. E Sarkozy reina sozinho, grandioso e eterno sobre a cúpula do G-8, sobre o “planeta dos ricos”.

Esse “planeta dos ricos” tem uma aparência curiosa.

Entre os oito ricos, há seis pobres, depois de excluídos a Rússia e o Canadá.

Examinemos esses pobres: a dívida pública do Japão é de 200% de seu Produto Interno Bruto (PIB), belo desempenho, e seu déficit orçamentário de 10% do PIB.

Os Estados Unidos, comprovado colosso, tem uma dívida interna da ordem de 90% do seu PIB e um déficit orçamentário de 9%.

Para a Alemanha, essas cifras são de 83% e 3,3%.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Para a Inglaterra, 80% e 10%. Na Itália, a dívida pública se avizinha de 119% do PIB e o déficit orçamentário de 4,6%.

Na França, as duas cifras são 82% e 7%.

Desastre, portanto.

E ainda mais surpreendente quando se comparam esses balanços ridículos com os de países que não fazem parte do clube dos ricos, aqueles chamados de “emergentes” (China, Índia, Brasil, África do Sul) cujas finanças estão mais sadias que as dos países do Norte.

Um exemplo: as reservas cambiais da China somam US$ 3 trilhões. Esses US$ 3 trilhões estão investidos, aliás, em grande parte, em bônus do Tesouro americano.

Deauville é, portanto, um espetáculo surrealista.

À mesa dos oito ricos se banqueteiam e peroram oito “mendigos”, enquanto no serviço, no subterrâneo, estão os verdadeiros ricos, a China e países do Sul, que não têm acesso ao banquete.

Estamos num mundo da ilusão, do discurso, da mentira.

Os “ricos” fazem como se estivessem no ano de 1920 ou de 1950 quando o resto do planeta morria de fome.

Os oito países de Deauville lembram aristocratas decaídos que continuam a viajar nos carros suntuosos do Orient Express quando, na realidade, mal têm com que pagar uma velha charrete puxada por um burro cambaio.

Mas os países ricos não perderam a pose.

Eles seguem em frente com seu número de prestidigitação. Eles são tão bons oradores que os outros, os dito “pobres”, ainda os escutam.

O caso do Fundo Monetário Internacional é, desse ponto de vista, notável.

Eis um organismo internacional criado em 1954 e confiado em seguida aos “ricos” que são tão mais inteligentes, para manter o equilíbrio financeiro mundial e ajudar os “países pobres” – os países do Sul – a fecharem suas contas orçamentárias, a pagarem suas dívidas, etc.

Hoje, porém, que os “ricos” estão “pobres”, seria lógico que a direção do FMI não coubesse aos europeus, como ocorre há 60 anos em nome de uma tradição não escrita, mas aos novos países ricos, aos emergentes.

E o que acreditam que ocorrerá? Acham que o FMI vai para um indiano, um mexicano, um ruictro?

Absolutamente. Ele retornará a um europeu (quase certamente à ministra das Finanças da França, Christine Lagarde). Por quê? Como vou saber?

Tradução de Celso Paciornik

Gilles Lapouge/O Estado de S.Paulo

Um ano depois, Brasil passa no teste e sai da crise maior do que entrou

Para especialistas, avanço do País e de outros emergentes é uma das características do mundo pós-crise

Fernando Dantas –  O Estado de São Paulo

O Brasil saiu da turbulência global maior do que entrou. Às vésperas do mês em que se completa um ano da crise iniciada com a concordata do Lehman Brothers, em 15 de setembro, o otimismo com o País tornou-se consensual. “O fato de que o Brasil passou tão bem pela crise tinha mesmo de instilar confiança”, diz Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para Jim O?Neill, do Goldman Sachs, e criador da expressão Bric (o grupo de grandes países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China), “o Brasil passou por essa crise extremamente bem, e pode crescer a um ritmo de 5% nos próximos anos”.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]O crescimento de importância do Brasil e de outras economias emergentes é uma das características do novo mundo surgido com a crise econômica. Para comentar essa e várias outras mudanças, o Estado ouviu oito grandes economistas estrangeiros e brasileiros: Rogoff; O?Neill; Barry Einchengreen, da Universidade de Berkeley; José Alexandre Scheinkman, de Princeton; Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC) e sócio gestor do Gávea Investimentos; Edmar Bacha, consultor sênior do Itaú BBA e codiretor do Instituto de Estudo de Políticas Econômicas – Casa das Garças (Iepe/CdG); Affonso Celso Pastore, consultor e ex-presidente do BC; e Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco.

Pastore observa que a recessão no Brasil foi curta, de apenas dois trimestres, comparada a quatro em países como Estados Unidos, Alemanha e França. Goldfajn nota que há os países que estão saindo da recessão no segundo trimestre e os que estão saindo no terceiro – o Brasil está entre os primeiros, com várias nações asiáticas. “Mesmo no primeiro trimestre, se olhar mês contra mês, há números fortes de crescimento no Brasil”, acrescenta.

Para Goldfajn, a crise foi um teste de estresse para diversos países, no qual alguns passaram, outros não, alguns tiveram nota boa e outros nota ruim. “Acho que o Brasil tirou nota boa, e agora está todo mundo olhando e dizendo ?esse cara é bom?”, diz Goldfajn.

Uma das principais razões para o sucesso do Brasil em enfrentar a crise, segundo Pastore, é que ela pegou o País com o regime macroeconômico adequado – câmbio flutuante, bom nível de reservas, inflação controlada, superávit primário, dívida pública desdolarizada e caindo em proporção ao Produto Interno Bruto (PIB). Essa solidez combinou-se com o sistema financeiro capitalizado, pouco alavancado, que estava proibido pela regulação de operar com os ativos perigosos, como os títulos estruturados no mercado americano de hipotecas subprime. “Uma das lições da crise é que países que tinham uma abordagem equilibrada da regulação do mercado financeiro, como Brasil, Austrália, Canadá , não tiveram crise bancária”, diz O?Neill.

A política anticíclica, baseada em corte de impostos e ampliação de gastos públicos, também ajudou, embora esta segunda parte seja criticada pelos efeitos de médio prazo. Para Pastore, os aumentos do funcionalismo e do Bolsa-Família tiveram efeitos contracíclicos, mas “por coincidência”, já que foram decididos antes da crise. “O defeito é que, se fosse política contracíclica mesmo, teria de expandir gastos transitórios, e não permanentes.”

Para a maioria dos economistas, o aumento dos gastos públicos correntes reduz o espaço do investimento, e impede que o Brasil cresça a um ritmo ainda mais forte do que os 4% a 5% que estão sendo previstos. “Não é nem preciso dizer que há um monte de coisas que o Brasil poderia fazer para crescer mais rápido”, comenta Rogoff.

De qualquer forma, o sucesso diante da crise jogou o Brasil no radar dos investidores. “À medida que continuarmos a crescer mais que o mundo, é natural que o País receba um aporte muito grande de investimentos estrangeiros diretos”, diz Pastore, acrescentando que eles aumentaram, mesmo com recessão e queda de lucros nos países que sediam as empresas que investem no Brasil.

A contrapartida dos fluxos de capital é o câmbio valorizado e o déficit em conta corrente, o que significa que o mundo está financiando o Brasil para consumir muito (o que implica poupar pouco) e investir ao mesmo tempo. Segundo Goldfajn, os brasileiros serão um dos povos convocados, junto com os asiáticos, a preencher o espaço deixado pelo fim da exuberância do consumidor americano, atolado em dívidas e necessitado de reconstruir seu patrimônio.

Economia brasileira – Brasil empresta US$ 10 bi ao FMI

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Quem viveu viu, Brasil credor do FMI, eu estou vendo!!!!

Anúncio foi feito pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega.
Brasil vai adquirir bônus do Fundo Monetário, informou ele.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, informou nesta quarta-feira (10) que o Brasil emprestará US$ 10 bilhões ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e, com isso, voltará a ser credor da instituição de crédito internacional, algo que não acontecia desde 1982. Os financiamentos ao FMI serão feitos por meio da compra de bônus (uma forma de título) do Fundo, informou Mantega.

Ajuda à comunidade internacional
De acordo com Mantega, os recursos serão emprestados pelo FMI a outros países em desenvolvimento com “escassez de capital“. “É a primeira vez que isso acontece no caso brasileiro. O Brasil está encontrando as condições de solidez para emprestar recursos ao FMI. No passado, era o contrário: o FMI que socorria o Brasil quando era um país menos sólido. Agora, o Brasil acumulou as reservas para ajudar a comunidade internacional”, disse o ministro.

Aplicação das reservas
Segundo o ministro da Fazenda, a operação será realizada assim que o FMI concluir o formato de emissão dos novos bônus que serão emitidos. “Assim que o FMI terminar essses bônus, faremos esse aporte de US$ 10 bilhões. Na realidade, é uma aplicação que o Brasil está fazendo com parte das reservas”, disse Mantega. De acordo com ele, as aplicações no FMI não terão impacto nas reservas internacionais, que continuarão sendo contabilizados como uma “disponbilidade de recursos”.

Rendimento
Mantega não informou qual o rendimento que o Fundo Monetário Internacional oferecerá pelos bônus. “Não vamos esperar um grande rendimento, se não o FMI teria de repassar a um custo mais elevado aos países que precisam”, disse o ministro. Segundo ele, o Banco Central efetuará o resgate de parte das aplicações das reservas internacionais (que estão acima de US$ 200 bilhões aplicadas em títulos de outros países) para fazer o aporte ao FMI.

Mobilização de recursos
O Ministério da Fazenda informou que a contribuição do governo brasileiro para o FMI faz parte de um “esforço” para a mobilização de recursos para o FMI atender a outros países em dificuldades. Além do Brasil, a China comprará US$ 50 bilhões neste tipo de novo bônus, e a Rússia outros US$ 10 bilhões. A necessidade de captação de recursos por parte do FMI, de acordo com o Ministério da Fazenda, é de US$ 500 bilhões. em relação aos níveis anteiores à crise financeira. O governo lembra que essa foi uma das concordâncias da cúpula do G-20 de Londres, realizada no início de abril.

do G1

Para FMI, governos agora devem elevar gasto público

“Ave, Locke, morituri te salutant!”
Quem se arrisca a entender estes caras? Quanto mais especialistas e analistas, mais confusos e contraditórios!
No liberalismo dos outros é refresco?

Sempre associado à pregação de rígidos princípios de austeridade fiscal, o Fundo Monetário Internacional (FMI) diz que chegou o momento de os governos promoverem a expansão dos gastos públicos para impulsionar o crescimento. Num cenário de forte desaceleração da economia global causado pelo impacto da crise financeira, o diretor-gerente do FMI, Dominique Strauss-Kahn, defendeu ontem ações coordenadas de estímulo fiscal entre vários países, por considerá-las mais efetivas. O número um do FMI participou das discussões do G-20, em São Paulo.

“Pode parecer surpreendente que o FMI esteja propondo medidas de estímulo fiscal”, reconheceu Strauss-Kahn, destacando, porém, que a expansão dos gastos públicos não é um receituário que se adapte a qualquer país. Para seguir esse caminho, é necessário ter contas públicas em ordem. Ele enfatizou que as medidas fiscais devem ser tomadas em tempo adequado, de um modo focado e temporário, e saudou a iniciativa do governo da China, que anunciou um pacote de estímulo à economia de US$ 586 bilhões, além de notar que o presidente eleito americano, Barack Obama, já manifestou a intenção de adotar medidas fiscais para impulsionar a economia dos EUA. Strauss-Kahn não deu explicações detalhadas de como funcionariam as ações coordenadas de política fiscal.

Questionado se o Brasil teria espaço para adotar uma política fiscal expansionista num cenário em que alguns vêem pressões inflacionárias, Strauss-Kahn foi diplomático. Lembrou que “em toda a América Latina a inflação é uma preocupação”, ainda que as perspectivas para o ano que vem pareçam mais favoráveis do que neste ano, devido à queda dos preços do petróleo e de outras commodities. “Eu não vou culpar de modo nenhum o governo e o BC brasileiros por estarem preocupados com a inflação”, disse ele, acrescentando não querer interferir numa questão brasileira. “Cada governo deve medir a possibilidade de sustentar o crescimento.”

Strauss-Kahn ressaltou que a vigilância da inflação não deve desaparecer, ainda que as previsões para os índices de preços estejam melhores hoje do que há seis meses. Segundo ele, em termos globais, a preocupação maior é com a atividade econômica do que com os preços, mas isso não quer dizer que em alguns países não haja uma situação inflacionária mais delicada. “Isso não é uma questão de preto ou branco”, afirmou ele.

O diretor-gerente do FMI apontou o apoio unânime dos participantes do encontro do G-20 às medidas de estímulo fiscal onde isso for possível. Mesmo os banqueiros centrais, tradicionalmente mais cautelosos em relação a esse assunto, concordaram com a proposição, notou Strauss-Kahn. Ele defendeu também estímulos monetários para impulsionar a economia, num momento em que as previsões do FMI apontam para uma retração do PIB dos países avançados em 2009, o que, se concretizado, ocorrerá pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra.

Strauss-Kahn lembrou que a instituição revisou na semana passada números que divulgara há apenas um mês, e que mesmo assim há risco grande de que a expansão seja menor do que a projetada.

Marisa Cauduro / Valor