Palocci e Francenildo

Depois do insulto, o deboche

Único participante do estupro da conta bancária do caseiro Francenildo Costa que o STF esqueceu de absolver, o companheiro Jorge Mattoso não precisa perder tempo em audiências no tribunal à espera do sinal verde tão previsível quanto a chegada da primavera. Basta percorrer a trilha generosamente desmatada pelo Ministério Público.

O processo criminal na 1ª instância nem dará a largada caso o ex-presidente da Caixa Econômica Federal aceite submeter-se a dois castigos. Primeiro: durante dois anos, dar palestras sobre o sistema democrático, uma a cada dois meses, para alunos de escolas públicas. Segundo: doar 50 resmas de papel braille para uma entidade beneficente que trabalhe com deficientes visuais.

Parece piada. Mas é isso mesmo. Na abertura da sessão do STF, o ministro Gilmar Mendes informou que os defensores dos três denunciados haviam recusado a proposta. Todos confiavam na Justiça. O ex-ministro Antonio Palocci e o jornalista Marcelo Neto deram-se bem. Mattoso deveria ter desconfiado de que talvez sobrasse para alguém. Como a oferta continua de pé, é provável que agora a examine com menos arrogância.

A absolvição de dois culpados foi o insulto. A pena alternativa oferecida ao terceiro é o deboche. Não pode abrir a boca sobre o sistema democrático, cujos pressupostos incluem a existência de três Poderes independentes e eficazes, uma prova ambulante da leniência do Judiciário. A aparição desse tipo de palestrante numa escola pública só ensina que o Brasil não aprendeu a engaiolar a bandidagem da classe executiva.

A especialidade de Mattoso é o estupro de contas bancárias. Se a Justiça funcionasse, estaria há muito tempo dando aulas sobre o tema num pátio de cadeia.

Augusto Nunes