“Estamos vivendo a primeira crise econômica do antropoceno”

Antropoceno, a era geológica marcada pela ação humana.

Se toda a história da Terra fosse condensada em apenas um dia, estaríamos nos últimos 20 segundos. Não se engane: não faz muito tempo que habitamos este planeta!

A exploração dos recursos fósseis provocou o nascimento de uma nova era geológica na Terra – uma proeza levada a cabo pelas nações industrializadas e por suas elites, as quais basearam sua supremacia em trocas ecológicas desiguais.

Apesar de os seres humanos não habitarem a Terra há muito tempo, já deixaram uma marca difícil de apagar.

O que está em jogo é a troca entre atividade econômica e morte. Não podemos dizer que não fomos avisados. Desde o famoso relatório Limites ao Crescimento, realizado pelo clube de Roma em 1972, especialistas vêm destacando as forças naturais que podem interromper o caminho triunfante do crescimento econômico.

Esqueça o efeito borboleta, este é o efeito morcego – nossa influência sobre a natureza desencadeou o surto de coronavírus. E a pandemia está nos forçando a repensar como administrar nosso mundo em rede.

Todo mês de abril, Washington DC recebe as reuniões da primavera do FMI e do Banco Mundial. Mas, no mês passado, a diretora administrativa do FMI, Kristalina Georgieva, se dirigiu a seus colegas em vídeo. O mundo estava enfrentando, declarou ela, uma “crise como nenhuma outra”. Pela primeira vez desde o início dos registros, toda a economia mundial está se contraindo, tanto os países ricos quanto os pobres.

Mas não é apenas o impacto imediato que torna essa crise econômica sem precedentes. É a sua gênese. Isso não é 2008, que foi desencadeado por um colapso do setor bancário do Atlântico Norte. E não é a década de 1930; um terremoto que se originou nas linhas de falha deixadas pela primeira guerra mundial.

A emergência econômica Covid-19 de 2020 é o resultado de um grande esforço global para conter uma doença desconhecida e letal. É uma demonstração surpreendente de nosso poder coletivo de parar a economia e um lembrete chocante de que nosso controle da natureza, sobre o qual repousa a vida moderna, é mais frágil do que gostamos de pensar. O que estamos vivendo é a primeira crise econômica do Antropoceno.

Esta é a época em que o impacto da humanidade na natureza começou a nos afetar de maneira imprevisível e desastrosa. A grande aceleração que definiu o Antropoceno pode ter começado em 1945, mas em 2020 estamos enfrentando a primeira crise em que o blowback desestabiliza toda a economia. É um lembrete de quão abrangente e imediato é esse desafio. Enquanto a linha do tempo da emergência climática tende a ser medida em anos, o Covid-19 circulou o mundo em questão de semanas.

E o choque é profundo. Ao questionar nosso domínio da vida e da morte, a doença sacode a base psicológica de nossa ordem social e econômica. Coloca questões fundamentais sobre prioridades; altera os termos do debate. Nem na década de 1930 nem depois de 2008, havia qualquer dúvida de que levar as pessoas de volta ao trabalho era a coisa certa a fazer.

Salientar a natureza sem precedentes do choque do Covid-19 não significa que os problemas expostos pela crise financeira de 2008 ainda não estão conosco hoje. Com o aumento da pandemia em março de 2020, a fragilidade dos mercados financeiros ficou aparente demais. Se os bloqueios forem seguidos por uma recessão prolongada, como é mais do que provável, os bancos sofrerão danos graves. A ênfase na singularidade do choque covarde também não implica que as tensões geopolíticas entre a China e os EUA não importem. Eles fazem. O conflito sino-americano coloca o futuro da economia mundial em questão e isso é ainda mais alarmante, à medida que crescem as tensões sobre a política do vírus todos os dias.

Mas o ponto crucial é que a estabilidade financeira e a geopolítica estão agora entrelaçadas com um desafio que, como afirmou o presidente francês Emmanuel Macron, é antropológico: o que está em jogo é a troca entre atividade econômica e morte. Uma mutação casual na panela de pressão ambiental da China central colocou em risco toda a nossa capacidade de realizar nossos negócios diários. É uma versão maligna do efeito borboleta. Chame isso de efeito morcego.Desespero … trabalhadores da saúde protestando na região de Piemonte, na Itália. Fotografia: Alberto Ramella / AGF / REX / Shutterstock

Como circulou pelo mundo, o Covid-19 escalou a linha do tempo do progresso. Hospitais sofisticados na China, Itália e EUA foram reduzidos ao desespero caótico e impotente. As enfermeiras de Nova York passaram a se embrulhar em sacos de lixo. Máscaras faciais foram fabricadas à mão em máquinas de costura. Empilhamos os mortos em caminhões de geladeira.

Temos que enfrentar a possibilidade de estarmos vivendo em um intervalo encantador. No século desde a gripe espanhola de 1918-19, o aumento entrelaçado da globalização e dos estados de bem-estar nacional ocorreu no contexto de condições de doenças relativamente benignas. Graças à melhoria da nutrição, saneamento e habitação, saúde pública, farmacologia e medicina de alta tecnologia, observamos um progresso notável na expectativa de vida humana. A conquista da varíola em 1977 foi emblemática.

A sensação de que doenças infecciosas eram coisa do passado sustentava uma promessa de proteção. Com o Covid-19, o custo dessa proteção aumentou bastante. Em uma horrível distorção da mente, as economias avançadas de repente se vêem diante dos tipos de dilemas habitualmente enfrentados pelos países pobres. Nós não temos as ferramentas. No mundo pobre, o resultado diário é que as crianças são atrofiadas e as famílias empobrecidas. Milhões morrem por falta de tratamento. O Covid-19 entregou uma amostra disso ao mundo rico.

Não podemos dizer que não fomos avisados. Desde o famoso relatório Limites ao Crescimento, realizado pelo clube de Roma em 1972, especialistas vêm destacando as forças naturais que podem interromper o caminho triunfante do crescimento econômico. Após os choques do petróleo na década de 1970, o esgotamento de recursos foi uma grande preocupação. Nos anos 80, a crise climática assumiu o controle. Mas, no mesmo momento, o choque do HIV / Aids despertou a consciência de um tipo diferente de blowback da natureza: a ameaça de “doenças infecciosas emergentes” e, especificamente, as geradas por mutações zoonóticas.

Partindo de uma famosa conferência na Universidade Rockefeller em 1989, foi argumentado repetidamente que isso não é coincidência. É o resultado da incorporação incansável da humanidade da vida animal em nossa cadeia alimentar. HIV / Aids, Sars, gripe aviária, gripe suína e Mers podem ser atribuídos a esse apetite perigoso. Como a crise climática, as epidemias não são meramente acidentes da natureza. Eles têm drivers antropogênicos.

Recomendo a leitura. Assim se aprende o que o Antropoceno

As implicações desta análise são radicais. Mas os médicos e epidemiologistas que o fazem não são revolucionários. O que eles insistentemente pediram é uma infraestrutura global de saúde pública proporcional aos riscos que a globalização acarreta. Se quisermos manter enormes estoques de animais domesticados e invadir cada vez mais profundamente os últimos reservatórios remanescentes de vida selvagem; se vamos nos concentrar em cidades gigantes e viajar em números cada vez maiores, isso traz riscos virais.

Meio Ambiente,Fauna,Flora,Agrotóxicos,Abelhas,Vida Selvagem,Poluição.Agricultura,Alimentos,Crimes Ambientais,Natureza,Blog do Mesquita Se desejamos evitar desastres, devemos investir em pesquisa, monitoramento, saúde pública básica, produção e armazenamento de vacinas e equipamentos essenciais para nossos hospitais.

Obviamente, isso exigiria considerável coordenação política e algum investimento. Mas sempre ficou claro que a recompensa seria enorme. A pandemia de gripe de 1918, que se acredita ter matado 50 milhões de pessoas, define um nível alto. Se uma pandemia surgisse e tivesse que ser contida em quarentena, era sempre óbvio que os custos chegariam aos trilhões de dólares.

Com a crise climática, sabemos o que impede uma reação adequada. Os combustíveis fósseis são essenciais para o nosso modo de vida. Poderosos interesses comerciais têm um grande interesse na negação do clima. Os interesses estratégicos dos EUA, Arábia Saudita e Rússia são todos investidos em petróleo. A descarbonização é cara, tecnicamente complicada e os benefícios são difusos e de longo prazo.Poluição,Meio Ambiente,Blog do Mesquita 01

Em relação à política global de saúde, existem rivalidades burocráticas entre diferentes agências nacionais e globais. Existem diferenças de abordagem entre especialistas em segurança global em saúde e humanitários biomédicos. A indústria farmacêutica não investirá em medicamentos, a menos que obtenha lucro. Os hospitais preocupados com os custos querem minimizar os gastos com camas. Mas tudo isso parece cerveja pequena em comparação com os riscos envolvidos.

Embora se possa razoavelmente dizer que estruturas gigantes como o capitalismo e a geopolítica impedem a crise climática, o mesmo não ocorre com Covid-19. O custo de vacinar o mundo inteiro é estimado em cerca de US $ 20 bilhões. Isso equivale a aproximadamente duas horas do PIB global, uma pequena fração dos trilhões que a crise está custando. O fato de esse vírus ter se tornado uma crise global não é explicável em termos de interesses opostos em massa. É antes de tudo um fracasso do governo.

 Acontece que podemos fazer uma pausa na economia mundial. Mas agora enfrentamos a incrível responsabilidade de reabri-lo

Por serem relativamente baratos e a escala do risco ser enorme, todos os principais países tinham, de fato, preparativos para uma pandemia. Nenhuma era tão ampla quanto poderíamos desejar agora. Mas em lugares como Coréia do Sul, Taiwan e Alemanha, eles trabalharam. Fazer bons planos, segui-los e fazer as coisas básicas corretamente acaba importando. Enfrentar a crise climática coloca o grande desafio de desacelerar todo o sistema. O que Covid-19 ensina é que não é apenas a grande figura que importa. O nosso sistema global é tão unido que pequenas falhas de governança em alguns nós cruciais podem afetar todos no planeta.

O mais notável do Covid-19 é que ele traz os riscos do Antropoceno para cada um de nós individualmente. Os bloqueios não foram simplesmente uma medida governamental de cima para baixo. Foram as próprias pessoas que decidiram em massa sua própria resposta à ameaça, frequentemente à frente de seus governos. Isso se refletiu mais dramaticamente nos mercados financeiros, que começaram uma corrida global pela segurança. Foi isso que acionou primeiro os bancos centrais e depois os parlamentos e governos. Acontece que somos capazes de pausar a economia mundial.

Mas agora enfrentamos a incrível responsabilidade de reabrir. Se Georgieva está certo de que esta é uma crise como nenhuma outra, o mesmo ocorre com o problema do reinício. As apostas dificilmente poderiam ser maiores. Por um lado, estão os enormes riscos médicos; por outro, uma crise econômica desastrosa. Como podemos fazer o trade-off? É tentador rejeitar a escolha como impossível ou falsa. Não apenas isso não é verdade, mas também nega o fato de que, em circunstâncias normais, nos envolvemos rotineiramente em trocas de vida e morte. Mesmo nas sociedades mais ricas, são tomadas diariamente decisões motivadas financeiramente que decidem as chances de morte devido a acidentes de trabalho, poluição, acidentes de carro, financiamento hospitalar, aquisição de medicamentos e seguro de saúde.

Mas nunca antes a questão foi colocada em termos tão diretos para nações inteiras. O resultado é previsivelmente divisivo. Atualmente, os EUA estão embarcando em um teste de colisão, com estados republicanos do sul, como a Geórgia, avançando apesar dos testes inadequados ou do apoio médico. Incitadas pelo próprio presidente, milícias armadas ocupavam a capital do estado de Michigan exigindo “libertação” do bloqueio. Enquanto isso, na Alemanha, Angela Merkel reprisou seu papel na crise da zona do euro, tentando reprimir qualquer discussão. Não foi um momento para “orgias de debate sobre reabertura”, ela insistiu. Margaret Thatcher “não há alternativa” era, mais uma vez, a ordem do dia.

A bala mágica seria uma solução médica – testes de anticorpos, tratamentos eficazes, uma vacina. Foram necessários cinco anos para desenvolver uma vacina contra o Ebola, embora recursos muito maiores estejam sendo lançados para esse problema. Mas o que estamos contando não deve ser confundido com os negócios, como de costume. Nunca desenvolvemos com sucesso uma vacina corona. Estamos apostando não na ciência normal, mas em uma maravilha moderna, um “milagre científico”. E, mesmo na melhor das hipóteses, se uma vacina for lançada em 2021, não podemos escapar da lógica da sociedade de risco. Agora sabemos o que esse tipo de ameaça pode fazer. Sabemos que perdemos uma grande fatia de 2020. Como avançamos a partir daqui?

A solução óbvia é fazer os investimentos em saúde pública global exigidos pelos especialistas desde os anos 90. Haverá obstáculos políticos e comerciais a serem superados. China e EUA estão em desacordo e parecem determinados a politizar a pandemia. Além disso, o vasto custo financeiro da crise ficará sobre nós. Dívidas enormes provavelmente incentivarão a conversa sobre austeridade. Desde a década de 1990, as políticas econômicas voltadas para o mercado no setor público enfraqueceram os sistemas de saúde em todo o mundo. Em última análise, a política será decisiva e os últimos seis meses trouxeram derrotas esmagadoras para a esquerda em ambos os lados do Atlântico. O teor político predominante da crise, até agora, tem sido conservador e nacionalista.

Diante da crise, Jair Bolsonaro e Donald Trump reduziram números absurdos. Mas eles expressam um profundo desejo de negar o significado do choque.

Quem não preferiria pensar que isso era simplesmente gripe? Diante dessa tentação, o que devemos evitar não é uma exibição aberta de negação, mas a alternativa suave. O Covid-19, como os furacões sem precedentes e os incêndios devastadores de 2019, será descartado como uma aberração da natureza. Isso é reconfortante. Será bom para os negócios no curto prazo. Mas isso nos prepara para outra crise. Se é certo que o Covid-19 é uma crise como nenhuma outra, o que deve ser temido é que haverá mais chances de ocorrer.

Economia,Blog-do-Mesquita,Bancos,Finanças 02

Coronavírus: crise causada pela pandemia levará 30 milhões de latino-americanos à pobreza

Para especialista, mulheres e os novos pobres serão os mais prejudicados pelos efeitos econômicos e sociais da pandemia do novo coronavírus.


Direito de imagemAFP
A secretária-executiva da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), Alicia Bárcena, disse que as mulheres e os novos pobres serão os mais prejudicados pelos efeitos econômicos e sociais da pandemia do novo coronavírus.

Em entrevista ela disse que na quarentena muitas sofrem violência de gênero. Além disso, as mulheres têm tido jornadas mais longas, com tarefas extras como a maior atenção às crianças em casa, já que elas estão sem aulas.

E, muitas vezes, estas tarefas são somadas, em função da pandemia, ao trabalho em esquema de home office. A pandemia mostrou ainda que mais de 70% dos profissionais da área de saúde são mulheres e é hora de cuidar ainda mais delas, disse.

Bárcena repassou as novas projeções econômicas da Cepal para a América Latina, com uma queda de 5,3% do PIB da região, que é a pior da sua história desde a Grande Depressão na década de 1920.

A queda empurrará quase 30 milhões para a pobreza na América Latina, incluindo aqueles que tinham saído da pobreza na época do boom das commodities, até 2014.

Os dados da instituição ligada às Nações Unidas (ONU) foram feitos a partir da previsão de queda de 3,8% do PIB da Estados Unidos, a maior economia do mundo. A situação poderia ser mais grave, admitiu Bárcena, se o comportamento da economia americana for pior, como prevê o Fundo Monetário Internacional (FMI).

BBC News Brasil – Devido aos efeitos da pandemia do novo coronavírus, a economia da América Latina cairá 5,3% e a da América do Sul cerca de 5,2% neste ano, segundo o relatório da Cepal. A economia regional já tinha problemas, com baixo crescimento ou recessão, dependendo do país…

Alicia Bárcena– É verdade. A região já vinha com crescimento baixo e suas políticas fiscais tinham espaços limitados. Existem fatores internos e externos que afetaram a região, ainda mais agora na pandemia.

Do ponto de vista externo, a queda enorme dos sócios comerciais da região, como China, Estados Unidos e Europa. São economias que frearam suas demandas agregadas e houve um desabamento das exportações da nossa região (para estes sócios comerciais).

Em segundo lugar, houve uma queda nos preços das commodities. Veja o caso do petróleo, por exemplo. Mesmo falando de preços no mercado futuro, este é um produto muito importante para a região, principalmente a América do Sul (Venezuela e Brasil, por exemplo) e México que são exportadores de petróleo e de commodities em geral.

Em terceiro lugar, temos a forte queda do turismo. Obviamente, não há viagens, voos, enfim.Direito de imagem EPA/MARCELO MACHADO DE MELO
Comércio fechado na região central de São Paulo

E em quarto lugar, temos a queda das remessas (de imigrantes para seus familiares) e isso afeta, principalmente, a América Central e o México. E, por último, há uma grande aversão ao risco por parte dos movimentos financeiros (que buscam os Estados Unidos, por exemplo).

Na nossa região, entre 2018 e 2019, houve uma diferença de menos US$ 80 bilhões de financiamento e saída de capitais da região. Ou seja, existem os efeitos da pandemia na região e no mundo inteiro, mas nossa região já vinha com problemas.

BBC News Brasil – No relatório da Cepal, afirma-se que o desemprego será de cerca de 11% e que a pobreza aumentará. Com isso, surgem os novos pobres. Aqueles que já tinham saído das classes D ou E e chegado a C estão em risco pelo efeito da pandemia?

Bárcena– Acho que o aumento da pobreza virá exatamente destes setores que tinham conseguido sair da pobreza e da pobreza extrema e que vão voltar a esta condição.

Além disso, pelo que vemos da problemática da América Latina e do Caribe, é que muita gente que saiu da pobreza continua num estado de muita vulnerabilidade. E já não têm o perfil para os programas de apoio dos governos como, por exemplo, o Bolsa Família, as transferências, que exigem certas condições, para os mais vulneráveis.

Com o aumento de 186 milhões para 214 milhões de pobres, estamos falando de quase 30 milhões de pobres a mais na região. Nesse número, está incluída a pobreza extrema. A região tinha conseguido avançar, mas agora estamos preocupados porque estamos numa situação de retrocesso.

BBC News Brasil – A pandemia leva a região para a época de antes do boom das commodities (2000-2014)?

Bárcena– Não sei se voltaremos a aquela época, de antes das commodities. Com o boom das commodities conseguimos tirar mais de 40 milhões de pessoas da pobreza. Mas, definitivamente, temos um problema. Estamos voltando a um quadro no qual a região já tinha deixado para trás.Direito de imagemREUTERS – Economias como a do México têm uma relação muito direta com os Estados Unidos, que sofrerá forte baque

BBC News Brasil – O desemprego chegará a cerca de 11,5% na região, após incremento de 3,4% em relação a 2019, e o numero de desempregados chegaria a 37,7 milhões, ainda de acordo com o relatório, e o PBI regional terá forte retrocesso. Mas a Cepal ressalva que isto ocorrerá se a economia americana recuar 3,8%. O que pode acontecer então se a queda da economia dos Estados Unidos for ainda maior?

Bárcena– Se a economia americana (a maior do mundo) cair mais, o impacto na região será muito severo. E, principalmente, para economias como a do México e as da América Central que têm uma relação muito direta com os Estados Unidos.

Nós fizemos nossa projeção com este índice de 3,8%, mas o Fundo Monetário Internacional fez projeção de (queda) de 5,9%. A situação seria muito mais complicada.

BBC News Brasil – Quais são as alternativas para tentar amenizar a tragédia social na região?

Bárcena– Uma das coisas que já estão fazendo na região é proteger o emprego e os salários. Acho que essa é a parte mais importante das medidas que estão sendo tomadas pelos países. Manter o emprego dos trabalhadores formais, mas também dos informais.

A região tem 53% de pessoas que trabalham na informalidade. Essas pessoas também precisam de apoio. E as pequenas e médias empresas também precisam de proteção. Porque é importante evitar a perda da capacidade produtiva da região.

Na década de 1980, a década perdida da América Latina, levamos cinco anos para recuperar a renda per capita, entre o fim dos anos 1980 e início dos 1990. Mas demoramos 25 anos para recuperar as cifras de pobreza.

O fundamental é proteger os mais vulneráveis. Em 2002, a região tinha cerca de 226 milhões de pobres e a região conseguiu diminuir esta cifra fortemente entre 2002 e 2014. E chegou a ter, em certo momento, 174 milhões de pobres. E agora estamos falando de 214 milhões de pobres (como efeito da pandemia).

BBC News Brasil – Esse número de 214 milhões de pobres, com os cálculos feitos a partir da queda de 3,8% da economia americana?

Bárcena– Exato. De 186 milhões de pobres a 214 milhões de pobres na América Latina (não incluindo o Caribe). Estamos falando agora de um aumento de quase 30 milhões de pobres.

BBC News Brasil 30 milhões neste ano?

Bárcena– Sim, de aumento.REUTERS/ADRIANO MACHADO – Os restaurantes estão na lista de empresas que sofrer mais com a crise.

BBC News Brasil – Em que países, principalmente, estão estes 30 milhões de novos pobres? No Brasil? No México? Que são os maiores países da região?

Bárcena– É difícil precisar. Nós fizemos o cálculo a partir da elasticidade do crescimento e do emprego, a partir do PIB. Mas ainda estamos calculando país por país.

Entre os informais estão manicures, eletricistas, os que vivem de fazer bicos. Eles poderiam ser os novos pobres? A pandemia dificulta o trabalho de muitos deles.

As pessoas que trabalham por conta própria não têm contrato, não têm salários fixos. Têm que sair todos os dias para buscar sua fonte de renda. Por um lado, são trabalhadores informais. O setor informal inclui muitos segmentos como vendedores ambulantes e os independentes, por exemplo. E muitos são vulneráveis.

BBC News Brasil – Agora também se afirma que esta será uma década perdida para a América Latina. (O FMI disse, na semana passada, que a região poderia ter uma nova década perdida que iria de 2015 a 2025). Qual a diferença para aquela dos anos 1980? A tecnologia? Ou a atual poderia ser mais dramática com problemas como o aumento da violência?

Bárcena– A década perdida dos 1980 começou com os problemas da dívida e dos preços do petróleo. Foi uma combinação de crises, que incluiu os índices de inflação alta e hiperinflação em vários países da região.

Foram criadas desde então instituições econômicas muito mais sólidas, como bancos centrais independentes. Acho que a crise de agora é diferente. Não é de bancos, é de pessoas.

O problema público é global, uma pandemia muito letal e existe muita incerteza. Não sabemos quanto tempo vai durar, quando será realmente o pico. Não temos respostas. E os países estão tentando reagir com estímulos fiscais muito importantes, mas a magnitude da queda deste ano só nos levaria ao que aconteceu em 1914.

BBC News Brasil – A Grande Depressão.

Bárcena– Exatamente. É tão grave o que está acontecendo que deveríamos pensar naquele período, 1914-1930.

Para especialista, problemas internos impedem que a China seja motor da economia global depois da crise

BBC News Brasil – Pode ocorrer agora aumento da criminalidade a partir da maior gravidade da situação social?

Bárcena– Acho que é o que os governos estão tentando evitar. Tentam melhorar a renda dos mais vulneráveis para que não exista um circulo vicioso de pobreza, violência etc.

BBC News Brasil – Além dos auxílios que os governos da região estão dando aos mais vulneráveis, o que mais pode ser feito?

Bárcena– A renegociação das dívidas das pessoas físicas. Ou seja, são ações de emergência. Mas é importante pensar também como vamos fazer depois da pandemia, que não sabemos quanto vai durar. Uma saída importante é como o Brasil está fazendo com a renda básica (auxílio de emergência) e pensar no médio prazo quais serão os setores mais dinâmicos que podem coordenar com os demais setores.

Acho que se buscará cada vez mais diversificar a produção em setores da indústria, como a automotiva, por exemplo. E com o home office deveremos pensar em como reduzir também a desigualdade digital. A área digital será cada vez mais importante. E ainda intensificar a maior integração comercial na região.

BBC News Brasil – A China tem forte presença na região. Foi lá que foi detectado o novo coronavírus e o país não crescerá como antes. Este fato também preocupa e contribui para a situação econômica complicada da região?

Bárcena– Acho, sim, preocupante. Nós estimamos que a China não crescerá mais que 1,8%. A China é um dos principais sócios comerciais da região e por isso sua reativação é muito importante. Acho que a China não voltará a ser o motor que foi depois da crise de 2008. Mas ainda assim terá papel importante.

BBC News Brasil – Por que a senhora diz que a China não será o mesmo motor que em 2008?

Bárcena– Essa agora é uma crise diferente. No caso da China, muitas empresas ficaram paradas (por causa das medidas contra o novo coronavírus). Não sabemos como será sua recuperação, se terá ou não as mesmas cadeias de valor que tinha antes. Não sabemos. Em 2008 e em 2009, a China tomou medidas importantes, com estímulos fiscais e crédito. A China colocou muito dinheiro naquela recuperação.

BBC News Brasil – A senhora entende que o confinamento devido ao novo coronavírus provoca maior desigualdade de gênero. Por quê?

Bárcena– Primeiro, 71% das pessoas dos serviços médicos são mulheres. Ao mesmo tempo, aumentou a pressão contra as mulheres com a pandemia. Agora, elas são responsáveis pelos adultos, pelos idosos, pelas crianças. Elas devem apoiar seus filhos na parte escolar, porque às vezes os parceiros ajudam e às vezes não.

Aumentou a pressão contra as mulheres nas casas. Ou porque têm que fazer home office ou porque o trabalho aumentou porque as crianças não estão indo ao colégio. Então, elas têm uma pressão dobrada. Além disso, existe a violência doméstica e esse é um assunto muito preocupante nessa pandemia.

BBC News Brasil – A violência de gênero na quarentena. Feminicídio…

Bárcena– Feminicídio, exatamente. Elas são as que mais estão sofrendo os efeitos desta pandemia.

BBC News Brasil – Mas a presença de 71% de mulheres entre os profissionais da área de saúde não seria algo positivo?

Bárcena– Claro que é positivo. Mas por isso mesmo elas precisam de mais apoio e que a sociedade entenda que é muito importante apoiar as mulheres neste momento tão forte. Porque hoje as mulheres têm maior pressão e mais responsabilidade e são as que, de alguma maneira, mais estão sofrendo esta crise.

BBC News Brasil – Ou seja, sobrecarga de trabalho e salários baixos em comparação com cargos similares com homens.

Bárcena– Às vezes, elas não têm um salário fixo ou quando têm salário existe a diferença salarial com os homens. O que nos preocupa é o aprofundamento das desigualdades provocada pela pandemia. As mulheres, os povos indígenas, as pessoas que não têm nenhum tipo de assistência de saúde ou previdência social.

BBC News Brasil – A crise da pandemia evidenciou a necessidade de investimentos na saúde pública?

Bárcena– Sim. E como os países não estavam investindo o que era recomendável. A OMS (Organização Mundial da Saúde) diz que é preciso investir 6% do PIB e nossos países estão investindo cerca de 2% ou 2,5% do PIB na área da saúde. E isso é muito importante.

PEC 241 é um meteoro preste a cair no Brasil

Imagine-se a trágica notícia de que um meteoro está prestes a cair no Brasil! Embora o exemplo de um desastre natural possa parecer exagerado, é o que se deduz de uma simples leitura da proposta de Emenda à Constituição 241, apresentada pelo Governo Temer, no mês de junho de 2016.

PEC 241 é um meteoro preste a cair no Brasil

Vejamos os problemas específicos da PEC 241. Primeiro, ela se propõe a congelar o orçamento por até vinte anos. Exemplificando, um casal que gasta por mês R$ 600,00 em saúde e educação com um único filho e planeja ter um segundo, por óbvio sua despesa dobrará, totalizando assim R$ 1.200,00. Caso se aplicasse a regra semelhante da PEC 241, o valor a ser gasto seria apenas R$ 600, atualizado com o índice da inflação, o que resultaria em pouco menos de R$ 700,00 para ambos os filhos.

Imagine-se a possibilidade de se congelar essa despesa por até vinte anos? A população brasileira irá crescer. Segundo o IBGE, no ano 2000 o Brasil tinha pouco mais de 173 milhões de habitantes, encontrando-se atualmente com 206 milhões, com uma perspectiva de atingir a marca de 220 milhões em 2027 (dez anos após a vigência da PEC 241), significando que o Estado precisará aumentar os gastos com a prestação de serviços públicos.

Segundo, foi escolhido o orçamento do ano de 2016 como parâmetro. Ora, esse ano é trágico, marcado por um agressivo corte orçamentário, atingindo as áreas de Educação, Saúde e Judiciário.

O Ministério da Saúde sofreu um corte de R$ 2,5 bilhões, em um orçamento bastante semelhante ao ano anterior, enquanto que a Justiça Federal teve um corte de quase 40% e a Justiça do Trabalho de cerca de 45%. Já o Ministério da Educação teve um bloqueio de R$ 1,3 bilhão. Definir um ano deficitário como paradigma do congelamento não é nada razoável!

O Governo se defende. Pretende, com a PEC 241, diminuir os gastos públicos, para fins de gerar superávit primário, permitindo o pagamento dos juros da dívida e melhorando a letra de crédito do Brasil. Mas como diminuir as despesas públicas de educação, saúde e outros serviços em um país com tamanha concentração de renda?

No Brasil, 1% dos mais ricos detém 27% de toda a renda, um dos maiores índices de concentração do mundo. Isso tem consequências: aumento da pobreza e, por isso, também da necessidade de criação de políticas públicas, implicando em crescimento das despesas do Estado. Conforme a Agência Nacional de Saúde, 75% dos brasileiros são usuários do SUS. Além disso, a atual crise econômica e o desemprego aumentarão esse número, visto que outros brasileiros cancelarão seus planos de saúde.

No Brasil, 1% dos mais ricos detém 27% de toda a renda, um dos maiores índices de concentração do mundo. Isso tem consequências: aumento da pobreza e, por isso, também da necessidade de criação de políticas públicas, implicando em crescimento das despesas do Estado.

Mas não é só! Caso seja descumprido os limites propostos pela PEC 241, as consequências serão, entre outras, a vedação a reajustes dos servidores públicos e a proibição de concurso público. Será praticamente impossível cumprir tais metas e isso terá um grave preço aos servidores, que sofrerão com salários ainda mais defasados, reduzindo sua qualidade de vida. Será um verdadeiro sucateamento dos serviços públicos.

Em tempos de tratamentos privilegiados aos superávits primários, resta questionar o Governo se educação e saúde geram retorno ao país, afinal não é com educação que se pretende emancipar um povo, qualificando-o para o emprego e a consequente geração de renda? Não deveríamos melhorar a educação oferecida, como grande investimento do Brasil?

Neste ritmo, com tantas reformas apresentadas de forma brusca e impensada, a Constituição Federal de 1988 corre o sério risco de se transformar, definitivamente, em uma “mera folha de papel” (Lassale), contrariando o seu objetivo fundamental (art. 3, III) de erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais.

Fruto de um belo trabalho da Constituinte de 86, a qual absorveu os desejos democráticos da população, a Constituição apresentou um extenso leque de direitos sociais. Saúde e educação foram alçados como direito de todos e dever do Estado.

Não se está aqui a advogar a desnecessidade de um ajuste fiscal nas contas públicas, porém a forma escolhida pelo Governo Temer pretende amputar direitos, penalizando uma população numerosa e necessitada, ao invés de colocar a conta para as elites do país. Por que não priorizar a cobrança da dívida dos devedores com o Governo federal que, aliás, ultrapassou R$ 1 trilhão? Um dos diretores da Fiesp, por exemplo, possui uma dívida de cerca de R$ 6,9 bilhões. Por que não taxar as grandes fortunas do país?

A corda está arrebentando do lado mais fraco, como sempre!

Antônio José de Carvalho Araújo é Juiz Federal em Alagoas.

Eleições 2017: Platão, Rousseau, Marx e o Bode Ioiô

Assisti o último dia de propaganda política – lembrem-se; não é grátis. Nós que pagamos, pois as emissoras abatem o valor da exibição no IR – , espantado, e, compungido, com as apresentações dos diversos candidatos a Prefeito dessa infelicitada Fortaleza.

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Alvíssaras! Estamos salvos!

Os pretendentes à ex-celências – a exemplo das já ficcionais publicidades oficiais que nos bombardeiam, e esbanjam nossos impostos com delícias existenciais que nem a mítica Shangrilá possuía – , também nos acenam, os candidatos, à pantomima de outubro, com o paraíso na taba dos Alencares.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

De educação em padrões Suíços, a hospitais para humilhar Suecos, tudo será
possível. Penso em convencer meus filhos a abandonarem a “paleolítica” vida na Europa, e voltarem a habitar sob os coqueirais que um dia sombrearam o romance entre Ceci
e Peri.

Também eu, com tantos corredores exclusivos, ciclovias e ônibus fabricados pela RollsRoyce, penso seriamente em vender meu prosaico Ford K 2008, e desfrutar da fantástica mobilidade urbana que brotará da canetada do eleito.

Continuo afirmando que não há diferença entre partidos e candidatos. É uma grande, enorme, descomunal ópera bufa. A elite informada e a mídia, que oscila entre o parcial e o venal – saliento aqui, contudo, que não existe lei em nosso ordenamento jurídico que obrigue a nenhum órgão de imprensa ser imparcial – sabem disso.

Assim mantêm essa alternância entre os mesmos, locupletam-se nas concorrências, e esbravejam indignação nos convescotes sociais.

Agora que o PT foi obrigado a largar o osso, em quem irão colocar a culpa? Ou pensam que acabarão os Arrudas, Demóstenes e os Eduardo Azeredos – esse o criador do mensalão mineiro, apeado da presidência do PSDB por primeiro usuário do Marcos Valério? – ou os velhos, novos e novíssimos coronéis? E há um que fala em “faremos uma nova política”!
Hahaha! O cara é apoiado por dois dos atuais “coroneizões”!

Pelo que eu saiba, o bom Samaritano ficou na poeira bíblica. Não os há mais.
Àquela época não havia clonagem. E Irmã Dulce, Madre Tereza e/ou Frei Damião, jamais se dariam ao emporcalhamento.

Mas estou aí para a política.

É da minha natureza enfrentar moinhos, e não, aproveitá-los somente a brisa. Com podem ler constantemente em meus ‘posts’ nos blogs e em redes sociais, “resistir é preciso”. O PT foi apenas a cambada da hora, foi, e é?, – veremos – o espelho do momento. Eu caminho entre farsas, ancestralmente desde o Baile da Ilha Fiscal patrocinado pela família imperial(sic) brasileira à época.

De Rousseau, com seu farsesco ‘Contrato Social’, aos candidatos à Prefeitura de Fortaleza, são todos mentirosos, prometendo o que sabem que não entregarão, despidos de compromissos com o povo, e imbuídos tão somente em realizarem seus próprios interesses, e retribuírem os financiamentos recebidos para suas eleições.

Lamento pelos que, não faço juízo de valor dos motivos que os impulsionam, pensam, ou melhor acreditam, defendem e propagam, que existe somente a dicotomia entre o claro e o escuro.

Todos, de Platão, com sua monumental, e literalmente, platônica defesa do homem
cordial, a Marx, autor da surrealista ficção da possibilidade da existência de um coletivismo produtivo; de Adam Smith – esse parece não ter lido “O Mercador de Veneza” de Shakespeare, caso contrário sua obra “A História da Riqueza das Nações”seria mais realista e menos pragmática – , à “Mademoiselle Lagarde” são falaciosos, para ficar em um adjetivo mais ameno.

Karl Marx, em 18 de Brumário, 1852, livro escrito para explicar o golpe de Estado dado por Luis Napoleão, sobrinho do velho Napoleão, cita Hegel quando este afirma que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E acrescenta a sua famosa frase: “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. Herbert Marcuse arremata para concluir que a repetição de um evento como farsa pode ser ainda mais terrível do que a tragédia original.

Bode Ioiô é a opção menos cínica.

Economia – Bancos italianos, a próxima dor de cabeça da União Europeia

Ainda sob o impacto do Brexit, a Europa se vê diante de mais um problema: bancos da Itália precisam de bilhões de euros para se reerguer, enquanto FMI reduz previsão de crescimento para o país. Quem vai pagar a conta?

Monte dei Paschi di Siena
Monte dei Paschi di Siena, um dos bancos italianos em maior dificuldade

Quanto mais se olha para alguns problemas na Europa, piores eles parecem ficar. O setor bancário italiano é um deles. A Autoridade Bancária Europeia (EBA) estima em 200 bilhões de euros o volume de “créditos podres”, ou seja, empréstimos sem cobertura concedidos por bancos italianos; outros órgãos calculam que a soma chegue a até 360 bilhões de euros.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

A dimensão desse volume depende de como ele é calculado. Mas a mensagem é clara: se empréstimos dessa ordem não forem honrados, o Estado italiano não poderá arcar sozinho com as dívidas, e também a comunidade de países da zona do euro ficaria sobrecarregada.

Um problema básico é a conjuntura econômica ainda fraca na Itália. “A economia italiana quase não cresceu, estando em parte em recessão”, afirma Martin Faust, professor de Economia na Frankfurt School of Finance. “A situação das empresas e das famílias italianas não é boa, e algumas já não podem pagar juros e amortizações.”

Nesta terça-feira (12/07), o Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu seu prognóstico de crescimento para a Itália. Neste ano, a terceira maior economia da zona do euro deverá crescer “pouco menos de 1%” e, no próximo, 1%, informou o FMI. Anteriormente, a previsão de crescimento era de 1,1% para 2016 e 1,25% para 2017.

De acordo com o FMI, o referendo no Reino Unido em que se decidiu pelo Brexit – a saída do Reino Unido da União Europeia – aumentou a volatilidade dos mercados financeiros e os riscos para a Itália. O país está diante de “desafios monumentais”, declarou o fundo.

Problema de longa data

Os bancos italianos vêm enfrentando dificuldades há anos. No final de 2014, nove instituições financeiras do país não passaram em testes de estresse realizados em toda a Europa. O maior buraco de capital foi verificado no Monte dei Paschi di Siena (MPS), o banco mais antigo ainda operante no mundo.

Desde então, muita coisa aconteceu, mas provavelmente não o suficiente. No início de 2015, uma diretriz da União Europeia (UE) estipulou que esses erros do passado não deveriam se repetir. Desde então, bancos não podem ser facilmente resgatados com o dinheiro do contribuinte, como aconteceu após a crise financeira de 2008. Antes de o Estado entrar em ação, acionistas e credores devem arcar com as responsabilidades.

“Detentores de obrigações bancárias e mesmo aqueles que possuem poupanças que vão além dos limites legais mínimos também têm razões para temer a perda de parte de seu dinheiro”, explicou Faust. “Isso não é realmente um estímulo para a estabilidade bancária, pois agora ficou difícil para muitos investidores emprestar dinheiro aos bancos. Eles estão com medo de, no final, servirem de avalistas.”

Círculo vicioso

Conjuntura fraca, investidores hesitantes – em vez de diminuir, os problemas dos bancos italianos aumentaram cada vez mais ao longo do tempo. E não há fim à vista. “É de se esperar que as perdas bancárias cresçam consideravelmente nos próximos anos”, avaliou o professor da Frankfurt School of Finance.

“O problema é que os empréstimos não honrados também reduzem o capital dos bancos. E sem capital próprio, eles não podem sobreviver”, acrescentou o professor. Trata-se de um círculo vicioso, pois é justamente em tempos de conjuntura fraca que as empresas precisam de bancos fortes.

No início de 2016, o governo italiano entrou em acordo com a UE sobre a possibilidade de repassar “créditos podres” para chamados “bad banks”, ou seja, bancos que possam concentrar ativos tóxicos. Em abril, foi criado o fundo de resgate Atlante, que recebeu quase 4 bilhões de euros dos bancos italianos.

Pouco depois de sua criação, o Atlante teve muito que fazer: dois bancos regionais tiveram de ser ajudados, primeiramente o Banca Popolare di Vicenza, e depois o Veneto Banca. Isso consumiu metade do volume do Atlante, e desde então há uma controvérsia sobre quem vai preenchê-lo novamente. “Muitos bancos não dispõem de capital para aumentar esse fundo de resgate”, disse Faust.

Nova ajuda governamental?

Durante uma cúpula da União Europeia no fim de junho, o primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, apresentou o plano de utilizar novamente o dinheiro dos contribuintes para ajudar os bancos. Renzi pretende abastecer as instituições financeiras com até 40 bilhões de euros de capital novo, para que possam voltar a respirar. A justificativa do primeiro-ministro: a votação do Brexit criou uma situação excepcional em que tais auxílios são permitidos.

Premiê Matteo Renzi
Renzi diz que Brexit criou “situação excepcional”

Uma desculpa, afirma Thomas Hartmann-Wendels, professor de Economia da Universidade de Colônia. “Não existe nenhuma correlação entre o Brexit e os atuais problemas dos bancos italianos.”

Embora o professor defenda que os institutos financeiros italianos precisam ser saneados, ele afirma que isso deve acontecer segundo as novas regras: primeiramente, a conta deve ser paga pelos acionistas e credores, depois pelo Estado. “Após a crise financeira, prometeu-se que os contribuintes nunca mais assumissem a responsabilidade por negócios arriscados”, diz Hartmann-Wendels. “Agora tudo isso é colocado em questão.”

Segundo o professor, Renzi está sofrendo pressão política e as garantias estatais só incorrem em custos quando surge uma emergência. “Esta é a solução mais fácil, mas, no longo prazo, não leva a uma saída do impasse.”

A próxima prova

O drama interminável mostra claramente os pontos de ruptura da união monetária. A economia da Itália não consegue avançar, porque faltam reformas fundamentais e, para as condições do país, o euro é demasiadamente caro. E quanto mais longa for a crise, mais problemas virão.

“As crises que temos na zona do euro ainda estão longe de estarem resolvidas”, aponta Faust. “Nos últimos anos, os problemas estruturais só foram adiados, mas não resolvidos.”

Dado o grande volume de “créditos podres” na Itália, Hartmann-Wemdels espera que, mais cedo ou mais tarde, o contribuinte europeu sirva de avalista dos bancos. “Isso será necessário. O Estado italiano não conseguirá arcar sozinho com o problema, já que está profundamente endividado.”

Para recapitalizar seus bancos, a Espanha recebeu, entre 2012 e 2014, por volta de 40 bilhões de euros do fundo europeu de resgate financeiro. As negociações com vista a um programa semelhante para a Itália poderiam ser uma prova de fogo para as relações já tensas dentro da união monetária.
DW

Economia: FMI prevê que Brexit vai frear economia mundial

Insegurança causada pela decisão dos britânicos de deixar a UE é o principal motivo mencionado pelo Fundo para reduzir suas previsões de crescimento econômico mundial.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) cortou nesta terça-feira (19/07) suas projeções de crescimento para a economia mundial para os próximos dois anos, citando como motivo a insegurança causada pela decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia (UE).[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Este é o quinto corte consecutivo, e o FMI afirma agora que espera um crescimento global de 3,1% em 2016 e de 3,4% em 2017, um recuo de 0,1 ponto percentual, para cada ano, em relação às projeções anteriores, segundo o relatório Panorama Econômico Mundial (WEO, em inglês).

Segundo o Fundo, apesar de melhoras no Japão e na Europa no início de 2016, “o resultado do referendo no Reino Unido, que surpreendeu os mercados financeiros globais, implica a materialização de um risco descendente importante para a economia mundial”.

Para o FMI, o Brexit atingirá sobretudo a economia do próprio Reino Unido. A instituição cortou sua previsão de crescimento do país em 2016 em 0,2 ponto percentual, para 1,7%. Para 2017, o corte é ainda maior, de 0,9 ponto percentual, para 1,3%.

No caso da zona do euro, a projeção para 2016 se manteve praticamente inalterada, com recuo de 0,1 ponto percentual, para 1,6%. Na projeção para 2017 houve um corte de 0,2 ponto percentual, chegando a 1,4%.

Já a economia dos Estados Unidos deverá crescer 2,2% este ano, um recuo de 0,2 ponto percentual, e 2,5% em 2017, mesma previsão de abril.

May é a esperança de um final feliz para o Brexit

Nova primeira-ministra britânica quer unificar o Partido Conservador e disse que vai fazer o que for preciso para uma saída segura do país da União Europeia.

Theresa May,União Europeia,Brexit,Inglaterra,Blog do Mesquita A nova primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, foi ministra do Interior durante seis anos. A ausência de ataques terroristas de grande porte e o combate à corrupção policial são sinais do sucesso dela na pasta.

No entanto, ela não atingiu o objetivo de reduzir a migração para menos de 100 mil pessoas por ano, uma questão-chave da campanha pelo Brexit.

Panama Papers: G-20 vai atuar contra os países que não divulgarem informações fiscais

Grupo de países ricos e emergentes pede à OCDE para identificar os não colaboradores.

O ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble, chega à cúpula do G-20 na sexta-feira em Washington.
O ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schaeuble, chega à cúpula do G-20 na sexta-feira em Washington. Foto: MANDEL NGAN AFP

Os países do G-20 advertiram esta sexta-feira que tomarão “medidas defensivas” contra os países que não aderirem ao programa de troca automática de informações fiscais.

A cúpula de Washington esteve marcada pelo forte vazamento de dados de contas opacas radicadas no Panamá para evitar o pagamento de impostos e pela constatação da fragilidade da recuperação econômica global.

O fato até agora não foi suficiente para consolidar a recuperação ou erradicar as artimanhas fiscais.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

MAIS INFORMAÇÕES

Uma imagem da quinta-feira à tarde serviu para mostrar como a evasão fiscal está espalhada e é sistêmica na economia global.

Dos cinco ministros que apresentaram uma iniciativa para saber quem está por trás das empresas, e evitar artimanhas fiscais, dois, o britânico George Osborne e o espanhol Luís de Guindos, tinham membros de seus Governos atingidos pelos Panama Papers.

O primeiro-ministro David Cameron admitiu que se beneficiou do fundo de investimento dirigido por seu pai em um paraíso fiscal, enquanto que o ministro da Indústria espanhol José Manuel Soria, renunciou na sexta-feira depois ficar conhecido que foi administrador de uma empresa no paraíso fiscal de Jersey.

“Pedimos à OCDE para estabelecer os critérios até nossa reunião de julho para identificar jurisdições não cooperativas”, aponta o comunicado do G-20, o grupo que integra os países ricos e emergentes, e acrescenta que “medidas defensivas” serão estudadas contra esses países.

O objetivo dos países é que já exista uma implementação generalizada dessas normas de troca de informações fiscais em 2017 ou 2018.

O Panamá, centro do escândalo nos dias de hoje, ainda não se comprometeu oficialmente, embora o secretário-geral da OCDE, Ángel Gurría, disse na quinta-feira à imprensa que tinha recebido informações de que fariam isso.

O acordo por uma maior transparência faz parte do pacote de medidas destinadas acombater a erosão fiscal e a transferência de lucros de empresas (Beps, segundo a sigla em inglês deste plano).

A parte complicada desta batalha contra as manobras que quer evitar o pagamento de impostos nos lugares onde os rendimentos são gerados é que muitas dessas operações são legais, como revelou na semana passada o presidente dos EUA, Barack Obama.

“Esse é o problema”, disse ele. Vazios legais, artifícios contábeis e incentivos fiscais significam uma perda de arrecadação de até 230 bilhões de euros anuais só no imposto de empresas, de acordo com estimativas da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Na cúpula de novembro da Turquia, o G-20 aceitou as recomendações da OCDE para combater as ações das multinacionais que procuram enganar o fisco.

As principais economias desenvolvidas e emergentes também constaram o crescimento “modesto e desigual” da economia mundial e deram impulso aos estímulos monetários sem procedentes realizados pelos grandes bancos centrais.
Amanda Mars/El Pais

G20: Saída da Grã-Bretanha da UE geraria ‘choque global’

Os ministros das Finanças do grupo que reúne as maiores economias do mundo – o G20 – fizeram um alerta de que a saída da Grã-Bretanha da União Europeia (UE) poderia representar um “choque” para a economia global.

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Os britânicos devem definir em referendo no dia 23 de junho se saem ou ficam no bloco europeu.

O alerta do G20 foi incluído na declaração conjunta divulgada neste sábado após um encontro de dois dias na China, na qual o ministro da Fazenda brasileiro, Nelson Barbosa, esteve presente.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O ministro das Finanças britânico, George Osborne, ressaltou em entrevista à BBC durante o evento, que a questão do referendo é de “extrema gravidade”.

“Os líderes financeiros das maiores economias do mundo deram seu veredito unânime dizendo que a saída da Grã-Bretanha seria um choque para a economia global. E se seria um choque para a economia global, imagina o que seria para a Grã-Bretanha”, disse. “Seria uma jornada aventureira pelo desconhecido (…). Isso é extremamente grave”.

Osborne negou que o governo britânico tenha pedido para o G20 incluir a questão do referendo em seu comunicado oficial.

“Há países na mesa (de negociações), como os Estados Unidos (…) e a China que francamente não fazem o que qualquer um pede para eles fazerem”, disse.

Segundo uma autoridade ligada a comitiva britânica, a questão teria sido levantada no encontro do G20 justamente pelos americanos e chineses, além de Christine Lagarde, presidente do Fundo Monetário Internacional (FMI).

CAmeron (Getty)O premiê britânico David Cameron é a favor da permanência na UE
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O primeiro-ministro britânico, David Cameron, do Partido Conservador, apoia a permanência do país na UE.

Há, porém, outros líderes do mesmo partido que são a favor de uma saída do bloco, como o prefeito de Londres, Boris Johnson

Para o ex-ministro das Finanças Nigel Lawson, o alerta do G20 não faz sentido porque 15 de seus membros nem sequer fazem parte da UE. “Os britânicos não vão gostar que o G20 diga o que eles devem fazer. E essa ideia de que a saída da Grã-Bretanha da UE pode causar um choque econômico é absurda”, disse.

“Quinze membros do G20 estão fora da UE e isso não causou choque econômico. Na realidade, a maior parte deles está indo melhor economicamente do que muitos membros da UE.”

Para o líder do Partido Independente do Reino Unido (Ukip), Nigel Farage, que também defende a saída do bloco europeu, o anúncio do G20 “não foi uma surpresa”.

“São camaradas se ajudando”, diz ele. “Isso não impressiona os eleitores.”
BBC

Brasil passa outras nações e já é uma das 10 economias mais importantes do FMI

Discretamente, com exceção da blogosfera – o maior jornal econômico do país deu a notícia em uma página interna do terceiro caderno, com uma nota de rodapé de menos de 8 centímetros de altura.

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O Brasil está aumentando suas quotas – logo, o seu poder – no Fundo Monetário Internacional, segundo informou, na semana passada, a instituição, que finalmente concluiu uma reforma destinada a dar a cada país uma posição um pouco mais congruente com o seu peso na economia mundial.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Para tristeza dos saudosistas do tempo em que as missões do FMI eram frequentes, seus técnicos mandavam e desmandavam no governo e eram recebidos aqui como vice-reis – devíamos no final do governo FHC 40 bilhões de dólares ao Fundo – faremos parte, a partir deste ano, do clube que reúne as 10 maiores economias do Fundo Monetário Internacional.

Nós e a China, a Rússia e a Índia, nossos parceiros no Banco dos BRICS, além dos EUA, da Alemanha, do Reino Unido, da França, da Itália e do Japão.

Enquanto isso, nunca é demais lembrar, apesar da conversa fiada no espaço de comentários da internet e na primeira página da maioria dos jornais e revistas, nosso país continua a ser, também, o terceiro maior credor individual externo dos EUA, com 264 bilhões de dólares – mais de um trilhão de reais – emprestados ao Tio Sam, como se pode ver na última edição da página oficial do Tesouro dos Estados Unidos, no “link”http://ticdata.treasury.gov/Publish/mfh.txt
Por:Mauro Santayana/JB

A concentração da riqueza e a iminência da convulsão social

Blog do Mesquita PLFB - Economia - USA Crise financeira Tio Patinhas NaniEstudos da ONG britânica Oxfam apontavam que, há cinco anos, a riqueza de 388 pessoas era equiparada com a quantidade de capital que a metade mais pobre da população mundial possuía.

Hoje, este número caiu para 62 pessoas.

Neste grupo de 62 pessoas que possuem riqueza equivalente ao que possui a metade mais pobre da população mundial, estão dois brasileiros.

Todos os dois ganharam dinheiro nesses últimos cinco anos especulando no mercado financeiro. Um deles tinha uma casa de câmbio medíocre em Santos.

O outro quebrou duas vezes entre os anos 70 e 80, e se recuperou ganhando dinheiro no mercado financeiro.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O que significa que esses dois não ganharam dinheiro dando emprego ao povo, e sim sangrando o povo.

Somente 62 pessoas que possuem riqueza equivalente ao que possui a metade mais pobre da população mundial.

Dos outros 60 que têm riqueza que se equipara ao que possui a metade da população mais pobre do mundo, a grande maioria também deve ter ganhado dinheiro no mercado financeiro, que é o mundo sem trabalho, onde os ricos faturam explorando o valor do dinheiro, o que significa sacrificando o povo.

Com este cenário, não há dúvida de que as previsões mais lógicas são as seguintes: ou o mundo financeiro quebra nos próximos anos, podendo dar sinais já no segundo semestre deste ano, ou a invasão que a Europa vem sofrendo dos desempregados miseráveis, basicamente do Oriente, vai proporcionar claramente uma guerra, um confronto mundial.

Guardadas as devidas proporções, é mais ou menos a mesma coisa que acontece num país de 200 milhões de habitantes onde os ricos ganharam dinheiro corrompendo ou no mercado financeiro.

O que se percebe é que a crise social neste país está chegando.

Basta ver a pérola que o FMI, com seus doutos sociólogos e financistas, diz: o mundo tem três grandes problemas, o não crescimento da China, a crise social dos países do Oriente e o Brasil.

Imaginem os senhores, o Brasil passou a ser ofensor do mundo.
Com dados do JB