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Incêndio atinge área de proteção ambiental no Pará

Chamas se alastraram nas proximidades do balneário de Alter do Chão, no oeste do estado, e chegaram a área de mata nativa. Bombeiros levam quase 24 horas para controlar o fogo. Governo não descarta ação criminosa.    

Vila de Alter do Chão, na região de Santarém, é um dos locais que mais atrai turistas no ParáVila de Alter do Chão, na região de Santarém, é um dos locais que mais atrai turistas no Pará

Um incêndio de grandes proporções se alastrou neste domingo (15/09) para uma área de proteção ambiental em Alter do Chão, na região de Santarém, um dos locais mais visitados por turistas no estado do Pará. Segundo informações das brigadas de incêndio, o fogo começou no sábado e atingiu uma grande área de mata nativa.

O governo do estado pediu apoio ao Comando Militar do Norte, solicitando o envio de aeronaves e reforços à Força Nacional. O Corpo de Bombeiros convocou integrantes que estavam de folga para ajudar nos esforços.

Segundo os bombeiros, a situação era mais preocupante na localidade de Ponta de Pedras, no oeste do estado, onde as chamas se aproximavam de uma área residencial.

Airton Faleiro
@FaleiroAirton
Minha Alter do Chão está sob chamas. Uma imagem aterradora. Estou arrasado! Os responsáveis têm que ser punidos! O médico Eugênio Scannavino, do projeto Saúde & Alegria, fez imagens da floresta em chamas à beira do rio Tapajós, paisagem que atrai 60 mil turistas por ano.

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 No domingo à noite, o governo do estado informou que o fogo estava sob controle.

O portal oficial do governo afirmou que o governador Helder Barbalho pediu a abertura de um inquérito para apurar as causas do incêndio, uma vez que não estava afastada a hipótese de ter sido uma ação criminosa.

Os bombeiros levaram quase 24 horas para controlar as chamas, que se espalharam pelo balneário de Alter do Chão e atingiram a comunidade de Ponta de Pedras. Pessoas relataram cenas de terror em postagens nas redes sociais, com centenas de fotos que mostravam uma cortina de fumaça e fuligem no local.

RC/ots

Só dói quando eu rio,Blog do Mesquita

Brasil da série “Só dói quando eu rio”

Só dói quando eu rio,Blog do Mesquita

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Água: Insumo econômico e direito humano

Quando a colônia brasileira começou a ser ocupada, no século 16, e europeus passaram a fundar vilas, pequenas fontes de água bastavam para abastecer uns poucos cidadãos e animais. Permanecer junto aos grandes rios não era parte dos planos dos fundadores das primeiras cidades. O Colégio dos Jesuítas, pedra fundamental de São Paulo, por exemplo, foi edificado em um outeiro, lugar apropriado para a defesa contra possíveis ataques de índios, mas com pouca água. Mas, dessa vila nasceu a metrópole de quase 20 milhões de habitantes que demandam cerca de 80 litros por pessoa/dia de água tratada para suas necessidades domésticas. Volume impossível de ser obtido nos mananciais próximos, que, pelos critérios estabelecidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) têm capacidade sete vezes menor que a necessária para a população que atendem. É preciso ir buscar á água cada vez mais longe e tratar cada vez mais os recursos poluídos, para torná-los próprios ao consumo.

Os anos de 2014 e 2015 demonstraram, de maneira empírica, que as fontes disponíveis nas imediações das maiores metrópoles brasileiras não são suficientes para o abastecimento da forma como é feito atualmente: de maneira displicente, com perdas acima de 30% dos volumes tratados antes de chegar aos consumidores e com pouca ou nenhuma informação sobre as condições dos mananciais e a necessidade de uso mais racional do consumo.

Um levantamento da Agência Nacional de Água (ANA) aponta que o problema do abastecimento é generalizado pelo País. Dos 5.565 municípios brasileiros, mais da metade terá problemas de abastecimento nesta década. E, para tentar adiar a crise ao menos até 2030, será preciso desembolsar R$ 22 bilhões em obras de infraestrutura, construção de sistemas de distribuição, novas estações de tratamento e manutenção de redes superadas, com vazamentos generalizados. E nesse total não estão incluídos os recursos necessários para resolver o problema do saneamento básico, como a construção de sistemas de coleta de esgoto e estações de tratamento, de forma a proteger os mananciais onde se faz a captação para consumo humano. Para isso, segundo a ANA, serão necessários outros R$ 47,8 bilhões.

Os investimentos são urgentes também porque 13% dos brasileiros não têm um banheiro em casa, ou porque mais de 700 mil pessoas procuram os serviços de saúde a cada ano em virtude de doenças provocadas pelo contato com água contaminada por esgotos, ou ainda porque sete crianças morrem a cada dia vítimas de diarreia, entram nas estatísticas de mortes por problemas gastrointestinais ?? em 2009, elas somaram 2.101 casos. Acredita-se que mais da metade poderia ter retornado com saúde para suas famílias, ou mesmo nem adoecido, caso o Brasil estivesse entre as nações que oferecem saneamento básico universal à população.

Para tornar a situação ainda mais dramática, um pesquisador da Universidade do México, Christopher Eppig, descobriu que crianças que enfrentam doenças, principalmente ligadas à diarreia e desidratação, podem ser afetadas em seu desenvolvimento intelectual. Segundo ele, a explicação para essa situação é simples. Alguns parasitas alimentam-se de partes do corpo humano e a reposição desse dano tem alto custo energético. “Em um recém-nascido, 87% das calorias absorvidas na alimentação vão para o cérebro, porcentagem que cai para 23% na fase adulta. Daí a preocupação em se saber se doenças que “roubam” energia das crianças podem afetar seu desenvolvimento intelectual.”

Dificuldades de gestão

Especialistas apontam que a questão da água, ao menos no caso brasileiro, está mais ligada a problemas relacionados à gestão que à escassez propriamente dita. Com 12% da água doce superficial do planeta, grande parte dela na Bacia Amazônica, o País deveria estar tranquilo em relação ao futuro do abastecimento. Mas a distribuição da água pelo território nacional é desigual, principalmente quando comparada à concentração da população. A região Norte tem 68% da água e apenas 7% da população. Nordeste e Sudeste, em oposição, concentram 72% dos habitantes e dispõem de menos de 10% da água. José Galizia Tundisi, autor do livro Água no Século XXI e especialista nas dinâmicas de rios, lagos e outros mananciais (ver artigo na pág. 12), acredita que uma das primeiras providências a serem tomadas para melhorar a gestão dos recursos hídricos é “realizar a avaliação econômica dos serviços prestados pelos recursos dos ecossistemas aquáticos”. Para ele, instituir um valor para esses serviços é a base de uma governança adequada, essencial para o controle do clima, do abastecimento e da produção de energia e de alimentos, entre outras atividades humanas.

Outro tema que emergiu como um ferimento exposto no cenário de escassez foi a necessidade de maior proteção aos mananciais, rios e nascentes que garantem a água para os grandes sistemas de abastecimento das metrópoles, como é o caso do sistema Cantareira em São Paulo e do Paraíba do Sul que atende o Rio de Janeiro. Os rios e nascentes que abastecem esses mananciais sofrem com o desmatamento de suas margens e a ocupação desordenada, tanto por habitações, principalmente ocupações ilegais e favelas, como por uma perigosa proximidade de lavouras e pecuária. Essas condições levam à contaminação por esgotos, no caso das favelas, ou a poluição por agentes químicos utilizados nas lavouras e, ainda, o assoreamento provocado pela atividade pecuária.

A água não é, evidentemente, apenas uma necessidade social, conforto de apenas abrir a torneira e dispor de água de boa qualidade em suas casas. É, também, um insumo econômico de necessidade básica. Muitas empresas compreenderam o risco que correm com a escassez e se adiantaram na gestão dos usos de água em seus processos produtivos. A indústria de celulose, por exemplo, reduziu em quase 50% suas demandas de água por tonelada de produto desde a década de 70. Segundo a associação do setor, a média era de 100 m³ de água por tonelada de celulose e caiu para 47 m³ atualmente. Outros setores seguiram a mesma linha: não apenas ao reduzir o volume de água por unidade de produto, mas, ao implantar sistemas de tratamento de águas industriais que permitem fechar o ciclo entre o uso e o reuso ?? como da alemã Basf em suas unidades do ABC Paulista e Guaratinguetá. Nos últimos dez anos, a empresa reduziu em 78% o consumo de água por tonelada produzida e em 62% a geração de efluentes de processos industriais. São exemplos que poderiam ser difundidos por diferentes setores, pois a água é um insumo fundamental à agricultura e à indústria. Sua gestão não tem relação apenas com o bem-estar da população, mas, também, com a saúde da economia.

Recurso natural indispensável

Tudo o que é produzido no País tem uma cota de água embutida. Os especialistas denominam essa situação de “água virtual”. Para produzir 1 kg de arroz, por exemplo, são necessários três mil litros de água, e 1 kg de carne bovina exige 15,5 mil litros. Uma simples xícara de café não gasta menos de 140 litros de água. Não é que essa água desapareça depois de servido o cafezinho. Mas, para que os produtos cheguem às mesas de consumo, é preciso que a água esteja não apenas disponível, mas limpa, isenta de contaminações por esgotos ou produtos químicos. E mais. Para um automóvel chegar à garagem, o consumo de recursos hídricos chega a 150 mil litros. Ou seja, a economia precisa, e muito, de água de boa qualidade. Isso sem mencionar o fato de que 18% das faltas de trabalhadores ao serviço poderiam ser evitadas com uma gestão mais eficaz dos recursos hídricos no fornecimento à população e tratamento de esgotos.

O estudo produzido pela ANA é um passo importante para o debate sobre como o estresse hídrico dos mananciais afeta o abastecimento das principais regiões metropolitanas e deteriora a situação em outros municípios brasileiros. É necessário encarar o fato de que a segurança no abastecimento de água é estratégica e que o recurso é escasso. A sociedade, apesar dos problemas já evidentes no fornecimento de água às principais regiões consumidoras, ainda não trata o recurso como um bem finito. Mesmo com o país tendo atravessado 2014 com uma das mais importantes secas de sua história, administradores públicos relutam em apresentar a escassez de água como um problema estrutural. No discurso oficial, independente da instância de governo, o tema é colocado como conjuntural e que tende a ser superado “assim que as chuvas voltarem”.

Quando as razões da escassez de água são abordadas em boa parte da imprensa e das conversas , as mudanças climáticas, que recebem das Nações Unidas uma atenção especial desde a última década do século 20, não estão no centro da pauta e são lembradas apenas por especialistas em questões ambientais ligados à academia e a organizações da sociedade civil. Uma das principais teses do cientista Antonio Nobre, ligado ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia  (Inpa) e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) fala da relação entre a umidade que circula na Amazônia com a fertilidade dos estados do Sudeste, irrigados através do que ele chama de “Rios Voadores”. Esses “rios” são fluxos de umidade deslocados da Amazônia contra as encostas dos Andes, onde fazem uma curva em direção ao sudeste e em seu caminho, provocam chuvas sobre o Pantanal e lançam suas águas sobre os estados de São Paulo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Uma observação simples do comportamento das chuvas no verão de 2013/2014, mostra que as águas da Amazônia caíram com violência sobre os estados brasileiros do Acre e Rondônia. As cheias na região duraram cerca de quatro meses, justamente o período que normalmente é de chuvas no Sudeste. Essas águas que provocaram o transbordamento dos rios Madeira e Acre são as mesmas que não avançaram como umidade em direção ao Centro-Oeste e Sudeste do Brasil.

Privatizações frustradas

O planejamento do uso da água tem passado por transformações profundas nas últimas décadas e sofrido impacto de políticas públicas que ficaram ao largo de sua importância na produção e distribuição de água pelo país. É o caso do Código Florestal, aprovado em maio de 2012, que levou meses em uma discussão estéril sobre quantos metros deveriam ser preservados de matas ciliares no entorno de rios, lagos e represas. Em nenhum momento a preocupação com a segurança hídrica destacou-se no debate.

Estudos acadêmicos vêm alertando, há alguns anos, que a abordagem da água no Brasil é casual, não integrada e sem relação direta com a o processo da produção desse recurso, tema que, na realidade, é tratado por muitos engenheiros com certo desdém, sob o argumento de que “não é possível produzir água”, afinal, ela cai do céu. Mas, o fato é que o cuidado com rios e mananciais é fundamental para que as empresas de captação e tratamento possam oferecer água de boa qualidade para o consumo humano direto e outras atividades. Assim, é preciso questionar a estrutura jurídica da gestão de recursos hídricos, que torna o município o poder concedente para a exploração, tratamento e distribuição de águas, sem o cuidado de considerar que a dinâmica da Natureza não segue, evidentemente, as regras da geografia política.

O lógico, neste caso, seria uma gestão por bacias hidrográficas, o que vem sendo tentado desde os anos 90, e está presente na lei 9.433 de 1997, que criou a Política Nacional de Recursos Hídricos, mas que não avança por conta dos interesses econômicos envolvidos na distribuição de água. O modelo atual reflete o intenso período de privatizações, no final do século 20, quando as empresas estaduais de água e saneamento foram desmembradas e surgiram, em lugar delas, empresas locais, sob controle da iniciativa privada, em modelo de concessão, ou por empresas públicas municipais ou as estaduais remanescentes do antigo sistema. Algumas dessas empresas estaduais se fortaleceram dentro de um modelo de gestão de capital aberto, inclusive com presença em bolsas de valores internacionais, como é o caso da paulista Sabesp.

A gestão da água a partir de uma ótica estritamente economicista pelas empresas de abastecimento e pelas propriedades rurais, responsáveis por 70% do consumo total, cria distorções capazes de comprometer seriamente não apenas o abastecimento das necessidades humanas diretas, mas, também, o desempenho da economia, com prejuízos para as empresas. Dados apresentados pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas de Campinas e Região apontam prejuízos em diversos setores industriais paulistas por conta da seca. A paralisação da Hidrovia Tietê/Paraná, por exemplo, tem o potencial de aumentar a conta da logística para os produtores rurais em mais de R$ 30 milhões e três mil trabalhadores podem ter perdido o emprego apenas em operações relacionadas à hidrovia e aos serviços em suas margens. No entanto os reflexos podem ser ainda maiores. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) está calculando o impacto da escassez de água sobre o PIB paulista, o conjunto de bens e serviços produzidos em determinado período, geralmente de um ano, que atualmente representa um terço do PIB brasileiro.

Uma fração da solução de longo prazo para os problemas de escassez hídrica deveria vir da compreensão de que é parte da “função social” da terra preservar os serviços ambientais por ela prestados. Assim, proprietários rurais deveriam formar uma grande rede de produtores de água, capacitados, com tecnologia, assistência técnica e os recursos necessários para a identificação de nascentes e cursos d’água eventualmente secos pela derrubada da mata e implantação de plantios ou pastagens, e realizar as ações necessárias para a recuperação e perenização dessas fontes hídricas.

Produtores rurais também devem ser apoiados em ações que ajudem a proteger os mananciais em sua propriedade ou adjacentes da contaminação por qualquer tipo de produto químico utilizado nas lavouras ou por dejetos e contaminantes de origem animal. Esses produtos, quando levados aos rios, são contaminantes de alto impacto para a biodiversidade e torna o tratamento da água mais caro.

A revista científica Nature (Scientific American integra o mesmo grupo editorial da Nature) publicou, em 2012, um estudo da University of Leeds, da Inglaterra, em que aponta a perda de mais de 600 mil km² da floresta amazônica desde a década de 70. O estudo também aponta que no atual ritmo de destruição, cerca de 40% de todo complexo natural da região estará extinto até 2050. Isso comprometeria seriamente o regime de chuvas, reduzidas em mais de 20% nos períodos de seca.

Faixa de desertos

O Sudeste brasileiro está na faixa dos desertos  do hemisfério sul do planeta, na latitude do Trópico de Capricórnio. Ela atravessa enormes áreas continentais, como os desertos australianos de Great Sendy, Gibson e Great Victoria. Na África, estão as áreas desertificadas da Namíbia e do Kalahari e na América do Sul, o do Atacama. Sem qualquer coincidência, ambos desertos africanos, atualmente em expansão, estão alinhados frontalmente, dentro das margens latitudinais, com as regiões Sudeste e Sul do Brasil.

Essa porção territorial só se viu livre da desertificação com a exuberância da Amazônia e a formação da Mata Atlântica. Ambas foram determinantes para se criar um regime de chuvas que mantiveram essas partes do Brasil e da América do Sul com solos férteis e índices pluviométricos mais que satisfatórios à manutenção da vida.

O geólogo do Inpe e assessor da Agência Espacial Brasileira (AEB), Paulo Roberto Martini, tem sua teoria para esse fenômeno, em que a desertificação dessas regiões ocorrerá se o transporte de ar úmido for bloqueado ou escasseado, por ação natural ou antrópica. Exatamente o, aparentemente, vem ocorrendo. Investigações geomorfológicas mostraram que entre os anos 1000 e 1300 houve secas generalizadas e populações inteiras desaparecerem nas Américas. E isso pode ocorrer novamente, agora potencializado pela devastação de origem antrópica, ou seja, por iniciativa humana. “O solo da região Sul e Sudeste tem potencial enorme para se tornar desértico, basta não chover regularmente. A distribuição da umidade evitou que essa região da América do Sul fosse transformada num imenso deserto”, argumenta Martini. Mas ações humanas podem alterar radicalmente as opções adotadas pela Natureza.

Botões de controle para tubulações de água. Foto: Reprodução/ Shutterstock
Botões de controle para tubulações de água. Foto: Reprodução/ Shutterstock

A gestão dos recursos hídricos passou por uma grande transformação no Brasil no fim do século passado, quando as empresas estaduais de água e saneamento perderam o monopólio do mercado. Muitas foram municipalizadas e outras privatizadas, além de terem continuado a existir companhias estaduais, como o caso da Sabesp, em São Paulo, referência para o setor. A Sabesp é a única empresa de saneamento a fazer parte do Índice Dow Jones Sustainability, e do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da BM&F-Bovespa, a Bolsa de Valores de São Paulo. O período de mudanças, no entanto, não foi tranquilo nem a gestão privada se mostrou um bom negócio em todos os casos. A cidade de Manaus, por exemplo, foi a primeira capital a privatizar os serviços. O abastecimento não deveria, aliás, ser problema para um município que tem quase 10% da água doce do planeta fluindo à sua porta, pelos rios Negro, Solimões que formam o Amazonas. Em 2000, a gestão em Manaus foi transferida para a francesa Suez, a mesma que, por sua administração desastrada, quase provocou um golpe de Estado na Bolívia.

Para os franceses, parecia fácil enfrentar esse desafio. Em Manaus havia muita água disponível e uma população de quase 2 milhões de habitantes que deveria pagar por ela. Tradicionalmente, o serviço de água da cidade era ruim, portanto, “bastaria oferecer um bom abastecimento” para a conta fechar. Mas esse raciocínio não era tão elementar quanto parece. Como o serviço público nunca funcionou, a elite urbana de Manaus nunca dependeu dele. A maior parte das casas e condomínios abastados tem seu abastecimento garantido por poços artesianos, serviço que, depois de funcional, é gratuito, sem a tradicional cobrança mensal de outras regiões.

A empresa francesa ficou apenas com a gestão do consumo da população pobre e com a obrigação de recolher o esgoto da cidade, pelo qual também não se pagava, uma vez que a taxa de esgoto está embutida na conta de água. Em 2007, a Suez saiu da Amazônia e a Águas do Amazonas continuam privatizadas, mas agora sob a gestão de um grupo nacional que teve de renegociar as condições do contrato de concessão com a prefeitura.

O esgoto não tratado tem impacto sobre outro setor estratégico da economia, o turismo. Principalmente no Nordeste, a presença de “línguas negras” a cruzar praias que deveriam ser refúgios ambientais assusta os operadores turísticos e preocupa o setor hoteleiro.

Um dos indicadores fundamentais de desenvolvimento social é o acesso à água de boa qualidade e a coleta e tratamento universal de esgotos, setores em que o Brasil ainda tem muito a fazer. Pesquisa realizada pela organização Trata Brasil, que estuda gestão de água e esgotos no Brasil mostra que menos de 40% do todo o esgoto gerado nas 100 maiores cidades brasileiras é recolhido e tratado antes de ser lançado de volta nos mananciais, o que significa em números absolutos que cerca de 8 bilhões de litros de esgoto sanitário são lançados em rios, lagos e no Oceano Atlântico diariamente. Apenas para se ter uma ideia: é o bastante para encher 3.200 piscinas olímpicas a cada dia.

EM SÍNTESE: A água é um direito social e um insumo econômico de primeira necessidade. O Brasil precisa de uma gestão eficiente do recurso não apenas para garantir o acesso à água de qualidade pela população, mas também para garantir o bom desempenho da economia.
por Dal Marcondes, da Envolverde

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Amazônia; A floresta em chamas

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A bacia do rio Amazonas é mais ou menos do tamanho da Austrália. Formada ainda na infância do planeta pelo choque entre placas tectônicas, ela foi o berço de mares interiores e lagos continentais.

Há milhões de anos, ela possui um rico ecossistema tropical, com 400 bilhões de árvores e uma vegetação tão densa e úmida que chega a ser responsável por 20% do oxigênio da Terra, pela armazenagem de séculos de emissões de carbono e pela absorção de uma quantidade considerável do calor solar. Um quinto da água doce do mundo passa por seus rios, plantas, solo e ar.

Toda esta umidade alimenta e regula diversos sistemas planetários, como a formação de “rios voadores” por evapotranspiração – nome dado ao incessante fluxo de água expelida pela floresta, formando grandes corredores aéreos que levam chuva às regiões agrícolas da Argentina e do Meio-Oeste dos EUA.

Nos últimos 50 anos, porém, cerca de um quinto desta mata – algo em torno de 780.000km² – foi derrubada e queimada no Brasil, em cujo território estão quase dois terços da Bacia Amazônica.

A área devastada é maior do que a do Texas – estado americano com o qual ela guarda agora uma triste semelhança, com seus pastos silenciosos castigados pelo sol, seus campos de soja e suas igrejas evangélicas. Esse desmatamento histórico – aliado a níveis comparáveis de degradação e fragmentação florestal – tem alterado os regimes de chuvas e climas regionais.

A liberação de carbono armazenado na atmosfera é tão grande que vem neutralizando a atuação da floresta como sumidouro de carbono – o maior do mundo depois dos oceanos. Cientistas alertam que a perda de mais um quinto da mata tropical brasileira causaria um círculo vicioso conhecido como dieback, que ocorre quando o declínio da floresta é tão grande que acarreta uma perda cada vez maior – e irreversível – de biomassa. O colapso da Amazônia lançaria na atmosfera uma bomba de carbono de efeitos apocalípticos; o vapor que reflete a radiação solar antes que ela se converta em calor desapareceria; e os rios aéreos e terrestres encolheriam.

A perda catastrófica de mais um quinto da floresta tropical brasileira pode virar realidade em uma geração. Já aconteceu uma vez e está acontecendo de novo.

1 – A ZONA VERMELHA

CERTA MANHÃ DE ABRIL, uma piroga equipada com um pequeno motor apareceu na aldeia apurinã de Kamarapa, no sudoeste da Amazônia. A dúzia de índios apertados na estreita embarcação era a última de uma série de delegações aguardadas no povoado. Os barcos haviam começado a chegar na manhã anterior, atracando no pequeno ancoradouro de lama depois de quatro, seis ou até dez horas de viagem através do labirinto de águas profundas que é o sul da planície aluvial da Amazônia na estação das chuvas.

Os apurinãs estavam reunidos para discutir uma emergência. Nos últimos anos, criminosos armados de motosserras – os chamados grileiros – vinham penetrando cada vez mais nas reservas indígenas e outros territórios protegidos da Amazônia. Encorajados pela eleição de Jair Bolsonaro, eles passaram a agir com ainda mais ousadia nas áreas mais isoladas do Amazonas, o maior estado do Brasil e dono da maior extensão contínua de floresta tropical do planeta. “Com Bolsonaro, as invasões pioraram e vão piorar ainda mais”, diz Francisco Umanari, 42, um cacique apurinã. “O projeto dele para a Amazônia é o agronegócio. Se ninguém fizer nada, ele vai atropelar os nossos direitos e permitir uma invasão enorme da floresta. A grilagem não é nenhuma novidade, mas agora virou uma questão de vida ou morte”, alerta.

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Imagens de desmatamento em áreas da Amazônia em 24 de setembro de 2016. A escalada do desmatamento teve um pico em 2004, declinou na década seguinte, mas começou a crescer de novo em 2012, movida pelo boom das commodities e expansão do agronegócio.
Fotos: Gabriel Uchida

Durante dois dias, uma centena de apurinãs – homens, mulheres e crianças – se reúnem em uma maloca de teto de palha na beira do rio para discutir seus temores e planos. É uma corrida contra o relógio climático da Amazônia: em julho e agosto as chuvas cessam, diminuindo o volume dos rios e tornando ainda mais longas as viagens de barco entre as aldeias e as cidades mais próximas. A estação da seca também traz novas queimadas.

Em 2018, depois que os satélites do governo detectaram colunas de fumaça, um grupo de apurinãs foi ao local e descobriu que mil hectares de sua mata ancestral haviam desaparecido. “Ficamos chocados com o tamanho da devastação”, conta Marcelino da Silva, um dos membros do grupo. Para criar pastos, os grileiros abriram, a golpes de facão, quilômetros de caminhos pela mata, para que motocicletas pudessem transportar motosserras e barris de querosene floresta adentro. Como a área era remota demais para a extração de madeira, até as árvores mais valiosas foram usadas como combustível, e sementes de capim foram jogadas de helicóptero sobre as cinzas ainda fumegantes.

“Sabíamos que a zona vermelha estava vindo em nossa direção, mas não esperávamos um avanço tão rápido e de todas as direções”, diz Marcelino, referindo-se ao termo local para a fronteira agrícola que avança há cinco décadas sobre o sul do Amazonas. “Já sabemos o que acontece quando o Estado não faz nada. Já sabemos o quão rápido a floresta pode desaparecer”, afirma.

“A grilagem não é nenhuma novidade, mas agora virou uma questão de vida ou morte”.

Segundo o Imazon, um centro de pesquisa brasileiro, nos primeiros meses de 2019 o desmatamento aumentou em mais de 50% com relação ao mesmo período do ano anterior. Metade disso ocorreu ilegalmente em áreas protegidas, inclusive nas centenas de reservas indígenas que cobrem um quarto da Amazônia brasileira e funcionam como uma barreira de proteção para o resto da floresta (no Amazonas, as terras indígenas respondem por quase um terço da área verde do estado).

Os povos indígenas da região já viram esse filme. Durante o desmatamento desenfreado dos anos 1970, 1980 e 1990, eles sofreram com o avanço de um “arco de fogo” ao longo das primeiras estradas de penetração do oeste da Amazônia. No fim da década de 1980, um verdadeiro crescente de fogo varria a floresta a partir de Belém, passando pelo interior do Pará, Mato Grosso, Rondônia e Acre. As chamas eram mais intensas em Rondônia, onde as centenas de queimadas eram visíveis até do espaço. deforestation-02-1562182241-1562358740deforestation-01-1562182244-1562358734 Imagens de desmatamento em áreas da Amazônia em 24 de setembro de 2016. A escalada do desmatamento teve um pico em 2004, declinou na década seguinte, mas começou a crescer de novo em 2012, movida pelo boom das commodities e expansão do agronegócio.Fotos: Gabriel Uchida Durante dois dias, uma centena de apurinãs – homens, mulheres e crianças – se reúnem em uma maloca de teto de palha na beira do rio para discutir seus temores e planos. É uma corrida contra o relógio climático da Amazônia: em julho e agosto as chuvas cessam, diminuindo o volume dos rios e tornando ainda mais longas as viagens de barco entre as aldeias e as cidades mais próximas. A estação da seca também traz novas queimadas. Em 2018, depois que os satélites do governo detectaram colunas de fumaça, um grupo de apurinãs foi ao local e descobriu que mil hectares de sua mata ancestral haviam desaparecido. “Ficamos chocados com o tamanho da devastação”, conta Marcelino da Silva, um dos membros do grupo. Para criar pastos, os grileiros abriram, a golpes de facão, quilômetros de caminhos pela mata, para que motocicletas pudessem transportar motosserras e barris de querosene floresta adentro. Como a área era remota demais para a extração de madeira, até as árvores mais valiosas foram usadas como combustível, e sementes de capim foram jogadas de helicóptero sobre as cinzas ainda fumegantes. “Sabíamos que a zona vermelha estava vindo em nossa direção, mas não esperávamos um avanço tão rápido e de todas as direções”, diz Marcelino, referindo-se ao termo local para a fronteira agrícola que avança há cinco décadas sobre o sul do Amazonas. “Já sabemos o que acontece quando o Estado não faz nada. Já sabemos o quão rápido a floresta pode desaparecer”, afirma. “A grilagem não é nenhuma novidade, mas agora virou uma questão de vida ou morte”. Segundo o Imazon, um centro de pesquisa brasileiro, nos primeiros meses de 2019 o desmatamento aumentou em mais de 50% com relação ao mesmo período do ano anterior. Metade disso ocorreu ilegalmente em áreas protegidas, inclusive nas centenas de reservas indígenas que cobrem um quarto da Amazônia brasileira e funcionam como uma barreira de proteção para o resto da floresta (no Amazonas, as terras indígenas respondem por quase um terço da área verde do estado). Os povos indígenas da região já viram esse filme. Durante o desmatamento desenfreado dos anos 1970, 1980 e 1990, eles sofreram com o avanço de um “arco de fogo” ao longo das primeiras estradas de penetração do oeste da Amazônia. No fim da década de 1980, um verdadeiro crescente de fogo varria a floresta a partir de Belém, passando pelo interior do Pará, Mato Grosso, Rondônia e Acre. As chamas eram mais intensas em Rondônia, onde as centenas de queimadas eram visíveis até do espaço.

Imagem da devastação após incêndio na Amazônia em agosto de 1989. Desde a década de 1930, governos de direita no Brasil promoveram a colonização da floresta em termos nacionalistas.
Foto: Gamma-Rapho via Getty Images

Agora aquele arco de fogo foi reavivado pelo mesmo motivo: o avanço da fronteira do agronegócio, dominada pelo gado e pela soja. Bolsonaro e seus aliados no Congresso e no governo do Amazonas estão determinados a acelerar este processo em nome do progresso. Para isso, seria necessário extinguir leis e organismos criados para proteger a Amazônia – que abriga a maioria das espécies da Terra – e seus habitantes autóctones, cuja própria existência é execrada e negada por Bolsonaro e sua equipe, incapazes de compreender seu modo de vida.

AS ASSEMBLEIAS DOS APURINÃS são longas até para os padrões das democracias participativas de aldeia. No idioma deste povo, apurinã significa “o povo que fala”, um hábito incentivado pelo gosto deles pelo awyry, um estimulante verde feito de sementes trituradas. Pontuadas aqui e ali pelo som de awyry sendo aspirado através de tubos de osso polido, a assembleia do início de abril vai durar até o cair da noite em Kamarapa. Há muito o que discutir: o aumento das patrulhas armadas; uma rede de postos de monitoramento equipados com rádios; uma maior cooperação com etnias vizinhas, inclusive com inimigos tradicionais; buscar aliados em potencial no Brasil e junto à opinião pública e governos europeus e asiáticos, os principais mercados da carne e soja brasileiras. “Estamos fazendo o que podemos, nos organizando, monitorando e pedindo ajuda”, conta Fabiana Apurinã, uma jovem de 23 anos que veio de uma aldeia situada a horas dali, rio abaixo. “Somos guerreiros e vamos nos mobilizar para defender o nosso povo e a floresta. Mas precisamos de ajuda”, acrescenta.

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Uma criança corre dentro de uma maloca Uru-Eu-Wau-Wau na vila da tribo em 10 de junho de 2019. O contato com homens brancos nos anos 1970 causou uma guerra e trouxe ao povo indígena doenças devastadoras. Hoje, apenas 200 membros da tribo ainda estão vivos.  Foto: Gabriel Uchida

“Já sabemos o que acontece quando o Estado não faz nada. Já sabemos o quão rápido a floresta pode desaparecer”

A assembleia terminou com a redação de uma carta para a Fundação Nacional do Índio (Funai), órgão sob ataque do governo, e para o Ministério Público Federal. O documento alerta contra a expansão da zona vermelha e o esvaziamento dos organismos estatais de monitoramento e proteção ambiental. “Nosso território está sendo invadido, e estamos nos sentindo abandonados”, diz a carta. “Pedimos que o governo dê valor ao nosso passado e à nossa profunda ligação com esta terra. O desmatamento está avançando em nossa direção. Nossos territórios devem ser garantidos para nossos filhos, respeitando nossos direitos previstos na Constituição. Se o governo não o fizer, nós o faremos.”

2 – A MARCHA PARA O OESTE

NÃO HÁ SINAL de rádio ou celular nas aldeias da planície aluvial do rio Purus, no sul do Amazonas. Aqui as novidades chegam devagar, de barco. Na manhã do dia 2 de abril, uma embarcação traz a Kamarapa a notícia de que, nas ruas distantes do Rio e de Brasília, apoiadores de Bolsonaro haviam ido às vias de fato com manifestantes contrários ao decreto que ordenava que as Forças Armadas comemorassem o aniversário do golpe militar de 1964. Bolsonaro, ex-capitão do exército, havia feito uma campanha com elogios às políticas de terra arrasada e tortura da ditadura. Em aldeias como Kamarapa, onde o governo militar é lembrado por um programa que, na prática, era uma campanha de extermínio, a notícia foi recebida como uma declaração de guerra.

“Bolsonaro está aperfeiçoando o modelo da ditadura. É o mesmo racismo, os mesmos planos para a Amazônia”, diz um morador de 34 anos chamado Wallace. O pingente com a imagem de Che Guevara em seu colar de dentes de onça e seus discursos inflamados, permeados de ameaças separatistas, ilustram bem a ala militante da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), da qual ele é membro consultivo. “Esse governo usa a mesma linguagem que os generais usaram quando tentaram destruir o nosso povo e a nossa cultura. Mas nós resistimos e sobrevivemos. E vamos resistir de novo. Precisamos agora é de coragem”, declara.

A posição de Bolsonaro com relação à Amazônia pertence a uma tradição política que precede a ditadura militar. Ela mistura autoritarismo e o medo de uma suposta vulnerabilidade da Amazônia à conquista estrangeira – ou, em sua versão moderna, à “internacionalização”. Nos anos 1930, o presidente Getúlio Vargas, um simpatizante do fascismo, convocou uma “Marcha para o Oeste” com o objetivo de povoar, desenvolver e defender a posse da floresta contra a cobiça de outros países. Trinta anos depois, o governo militar retomou o sonho não realizado de Vargas com planos de desenvolvimento para “inundar de civilização” a Amazônia.

Engenheiros militares comandavam equipes de operários que trabalhavam o dia inteiro para abrir as primeiras estradas a oeste do Mato Grosso – muitas delas copiavam o traçado das antigas trilhas de caça dos índios. Anúncios do governo na TV ofereciam terras e crédito para incentivar a emigração do superpopuloso litoral e das terras já cultivadas do cerrado. Imaginava-se uma Amazônia transformada: os colonos fariam daquele ermo impenetrável um centro de pecuária e pequenas propriedades agrícolas, todas conectadas a portos marítimos e ao mercado global por uma vasta rede de estradas. Índios ou não, os habitantes da floresta que levavam um modo de vida tradicional teriam que se adaptar e abrir passagem. “A ocupação da Amazônia será conduzida estrategicamente como uma guerra”, disse Castelo Branco, um dos líderes do golpe de 1964.

Contudo, como tantos outros sonhos amazônicos, os planos de ocupação da selva malograram. O desafio logístico de colonizar o “inferno verde” era maior do que se imaginava na caserna – e a qualidade do solo, muito pior. Os generais não conseguiram construir seu paraíso de pequenos proprietários sobre as cinzas da Amazônia. Mas as cinzas, essas ficaram. Em 1988, quando uma nova Constituição foi promulgada, três anos depois do fim da ditadura, mais de um décimo da Amazônia brasileira havia sido queimada ou degradada por colonos e empresários, com o apoio do governo. Os índios sofreram ainda mais: se, no início do século XX, seu número era estimado em alguns milhões, no fim da década de 1980 só restavam cerca de 200 mil.

Desde então a população indígena quadruplicou, um renascimento que se deve aos esforços do Brasil em conter e reverter a onda de desmatamento que começou a se intensificar no fim dos anos 1960. A Constituição de 1988 demarcou 43% da Amazônia como zona proibida para a atividade industrial e o desmatamento – uma área que inclui centenas de novos parques, reservas e mais de 400 terras indígenas, equivalente a duas vezes o tamanho da Espanha –, e estabeleceu normas e limites para os 57% restantes. Foi criado um órgão de fiscalização, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), e a Funai foi reformulada para ajudar comunidades indígenas a protegerem suas terras e desenvolverem atividades silvícolas sustentáveis.

Além disso, os bancos de desenvolvimento internacionais endureceram os requisitos ambientais e sociais de ajudas e empréstimos, e ONGs e ativistas organizaram boicotes internacionais de sucesso, culminando na histórica Moratória da Soja, em 2006. Embora as queimadas e derrubadas não tenham cessado, a taxa de desmatamento, que havia atingido seu auge em 2004, entrou em um período de declínio.

Os índios sofreram ainda mais: se, no início do século XX, seu número era estimado em alguns milhões, no fim da década de 1980 só restavam cerca de 200 mil.

O boom das commodities da última década interrompeu essa tendência. O desmatamento – legal e ilegal – voltou a aumentar em 2012, impelido por um agronegócio em expansão e pelo crescimento do poder político dos ruralistas, que desejam levantar as restrições trazidas pela redemocratização à exploração da Amazônia.

Essa bancada apoiou um golpe parlamentar contra a presidenta de centro-esquerda Dilma Rousseff, em 2016, e ajudou a blindar seu sucessor, Michel Temer, cujo governo concedeu anistia a grileiros e tentou afrouxar as leis antiescravidão do país. Em 2016, o Mato Grosso se tornou o primeiro estado a revogar a proibição do “correntão”, um método de retirada de vegetação que consiste em uma grande corrente puxada por dois tratores, destruindo tudo em seu caminho.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (3)

Placa que indica área administrada pela Funai furada por tiros. O órgão de proteção aos indígenas não consegue conter o ataque de grileiros.
Foto: Gabriel Uchida

QUEM ME ACOMPANHOU EM KAMARAPA e em outras aldeias do sul da planície aluvial do Amazonas é um homem grande e simpático, que esconde um semblante taciturno. Grande conhecedor da história, biologia e culturas do oeste da Amazônia, ele se encaixa no estereótipo romântico do funcionário da Funai: respeitoso e defensor de seus parceiros indígenas, mas consciente do paternalismo e de outros males entranhados na cultura institucional do órgão. Ao vê-lo entregando barris de combustível e conversando com caciques no caminho para Kamarapa, é evidente que se trata de uma relação de afeto e confiança mútua.

Enquanto nossa lancha desce o rio, contornando grandes troncos submersos, ele descreve uma dupla emergência nas comunidades do interior da floresta, onde ele passa a maior parte do tempo. “Por volta de 2012, as coisas começaram a piorar todo ano”, conta. “Mais invasões, queimadas maiores, cortes no orçamento da Funai e do Ibama. Desde a eleição, a situação piora a cada dia. Todo santo dia tem alguma coisa”, lamenta.

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Uma patrulha da Funai e membros da tribo Uru-Eu-Wau-Wau flagram a derrubada de árvores de grileiros na reserva em abril de 2018. Segundo os indígenas, um grupo de 15 homens invadiu o local de derrubou 20 km de florestas em uma semana.Fotos: Gabriel Uchida

Horas depois de assumir a presidência, no dia 2 de janeiro, Bolsonaro entregou a política florestal do país ao Ministério da Agricultura, administrada pela sisuda ruralista Tereza Cristina Costa. Também foi incluída no pacote a demarcação de terras indígenas, tradicional prerrogativa da Funai, entregue à secretária adjunta de Assuntos Fundiários, Luana Ruiz, herdeira de uma conhecida família do agronegócio. A Funai em si foi transferida do Ministério da Justiça para a pasta de Direitos Humanos, também rebaixada (o Congresso acabou revertendo a decisão). Em seguida, o governo mutilou o orçamento da Fundação. Desde janeiro, a Funai vem operando com 70% do orçamento previsto. Vários postos de monitoramento em áreas de alto risco na Amazônia foram abandonados, e operações já planejadas tiveram que ser reduzidas, muitas vezes deixando apenas um funcionário para mediar conflitos violentos em áreas remotas da floresta.

“Os índios entenderam o vínculo entre esses sistemas frágeis muito antes de nós: a conexão entre as florestas e os rios, como o desmatamento afeta a chuva e o clima… Quando ainda não se falava de mudança climática, eles já tentavam nos alertar”

O ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro, Ricardo Salles, 44, cortou funcionários e verbas do parceiro mais importante da Funai no governo, o Ibama. Ele substituiu o conselho do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) por oficiais da PM de São Paulo, parte do que o semanário Brasil de Fato chama de “militarização do setor ambiental”. Uma das exceções dignas de nota é a Coordenação de Políticas de Desenvolvimento Sustentável: depois de demitir todo mundo, Salles deixou-a vazia.

Nosso acompanhante é pessimista na hora de explicar o que está em jogo: “Daqui a 30 anos, quem sabe 15 com este governo, talvez todas as terras daqui até Lábrea já estejam desmatadas”, prognostica. Lábrea, a cidade mais próxima, está a centenas de quilômetros de distância dali.

“Isso seria o fim do Purus e da infinidade de plantas que os apurinãs estudam há tanto tempo. O Purus e seus afluentes deságuam no Solimões [trecho superior do rio Amazonas], então isso teria sérias consequências mais ao norte, aonde o desmatamento ainda não chegou. Os índios entenderam o vínculo entre esses sistemas frágeis muito antes de nós: a conexão entre as florestas e os rios, como o desmatamento afeta a chuva e o clima… Quando ainda não se falava de mudança climática, eles já tentavam nos alertar”, diz. Ele pediu para não ser identificado por medo de ameaças e represálias.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita 0

Gado ao longo da rodovia BR-364, perto do município de Ariquemes, em Rondônia, em 2018. O Brasil tem uma pecuária de US$ 4 bi, mas segundo uma estimativa, um hectare de soja ou gado pode render entre US$ 25 a US$250, enquanto o de uma floresta com manejo sustentável rende US$ 850. Foto: Gabriel Uchida

3 – A ESTRADA

PERCORRENDO O INTERIOR de Rondônia ao longo das duas faixas da BR-364, é preciso muita imaginação para visualizar a paisagem que Arima Jupaú conheceu na infância. No fim dos anos 1960, os pastos que hoje vão até onde a vista alcança estavam cobertos de mata virgem, exuberante e cheia de vida. Ele não sabia o que era a fronteira da floresta, porque nenhum dos 10 mil jupaús que ali viviam jamais havia visto tal coisa. Foi só em 1970, quando os engenheiros militares abriram uma estrada de terra ligando o Mato Grosso a Porto Velho, que ele conheceu na prática o conceito de fronteira.

À medida em que os colonos iam chegando – meio milhão ao longo da década –, os jupaús aprenderam a temer a beira da mata como um lugar de doenças e violência, uma gigantesca lâmina que os deixaria à beira da extinção. “Nós fugíamos, e toda vez que olhávamos lá do alto, a sensação era de segurança”, recorda Arima, um dos 200 jupaús que restaram. “Achávamos que eles nunca nos alcançariam. Que a floresta era grande demais”, acrescenta.

O homem branco não parava de chegar. Ele vinha semear a terra, criar gado, extrair madeira e garimpar ouro e cassiterita, o principal minério do estanho. Os colonos mais agressivos formavam esquadrões da morte e massacravam todos os índios que encontrassem. Uma das primeiras lembranças de Arima foi a pele do seu tio esticada por pedaços de pau, como um espantalho – um recado de um grupo de garimpeiros do local. Os jupaús reagiram. “Falamos para os brancos irem embora, mas eles não ouviram”, conta Arima, que, ainda adolescente, comandava os ataques e era famoso pela pontaria no arco. “Nós os matamos e queimamos as casas deles. Perdemos a conta de quantos”, relata.

O desmatamento está desestabilizando microclimas e climas regionais no oeste da Amazônia, causando um atraso perceptível no início da estação das chuvas, que está ficando mais curta e mais quente.

Em 1981, dizimados pela tuberculose, gripe e sarampo, os líderes dos últimos jupaús se reuniram com a Funai para negociar uma trégua. “Aceitamos a paz porque eles disseram que protegeriam a nossa terra”, recorda. (Durante a reunião, por causa de um mal-entendido, um funcionário pensou que a tribo se chamava uru-eu-wau-wau, nome pelo qual os jupaús ficaram conhecidos mundialmente.)

Por volta da mesma época, funcionários do Banco Mundial em Washington aceitaram as garantias dos generais brasileiros, que pediam 1,6 bilhão de dólares para tirar sua desastrosa ocupação da Amazônia da lama – literalmente. A BR-364, um artéria crucial para o plano de desenvolvimento da região, virava um verdadeiro atoleiro no inverno, a estação das chuvas – e a situação não era muito melhor nos meses de estio. Para desbravar o oeste, a estrada precisava ser pavimentada.

O Banco Mundial apoiou o projeto, apesar de um parecer interno que alertava: a pavimentação de 1.400km de estrada intensificaria as catástrofes ambientais e humanas que já ocorriam na região. E foi exatamente o que aconteceu. Quando o clamor da comunidade internacional obrigou o banco a suspender os pagamentos, cinco anos depois, Rondônia tinha a maior taxa de desmatamento do Brasil, acompanhada de um aumento de 3.000% no número de cabeças de gado. O estado estava a caminho de se tornar o primeiro “deserto verde” da Amazônia até 1990.

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Tari, um membro da tribo Jupaú, como os Uru-Eu-Wau-Wau se autodeclaram, segura uma foto do primeiro contato da tribo com servidores da Funai. Embora ainda haja povos isolados, muitos indígenas querem contato com o mundo além da aldeia e pensam juntos em modelos alternativos de desenvolvimento que preserve a floresta
Foto: Gabriel Uchida

Saio de Porto Velho pela BR-364, acompanhado do filho de Arima, Awapu, um jovem de 27 anos e fala mansa. Ele mora em uma aldeia de quatro famílias em uma reserva indígena no sul de Rondônia com os pais, a esposa e dois filhos. Nos dias seguintes, vou acompanhá-lo em patrulhas na fronteira do território Uru-Eu-Wau-Wau, onde o número de grileiros já voltou ao patamar da geração anterior.

Ao longo da espinha dorsal da pecuária de Rondônia – uma indústria de 15 bilhões de reais – a paisagem é só pasto e campos de soja. Enquanto percorremos a estrada, Awapu descreve as várias zonas de conflito das terras indígenas do estado. No oeste, os karipunas enfrentam uma invasão em três frentes; no nordeste, a mata dos suruís foi tão devastada pelo garimpo ilegal de diamante que as opiniões na comunidade se dividem entre resistir ou participar. (Em março, o ministro de Minas e Energia anunciou que acabaria com as restrições à mineração em reservas indígenas.)

Segundo Awapu, o problema não são só as terras indígenas. A extração ilegal de madeira está crescendo nos parques e reservas naturais do estado, uma consequência direta dos acenos e políticas do governo. Em abril, Bolsonaro interveio pessoalmente para impedir que agentes do Ibama destruíssem máquinas confiscadas em uma operação contra madeireiros ilegais na Floresta Nacional do Jamari, em Rondônia. A prerrogativa de destruir o caro maquinário de madeireiros e garimpeiros ilegais é a ferramenta de dissuasão mais eficaz do Ibama. Mas o órgão foi desautorizado pelo presidente em um vídeo postado nas redes sociais: “Não é pra queimar nada, maquinário, trator, seja o que for, não é esse procedimento, não é essa a nossa orientação”, sentenciou.

Contudo, a orientação de queimar árvores em vez de máquinas ilegais pode prejudicar o próprio agronegócio. Já existem estudos que confirmam o que os índios começaram a notar há décadas: o desmatamento está desestabilizando microclimas e climas regionais no oeste da Amazônia, causando um atraso perceptível no início da estação das chuvas, que está ficando mais curta e mais quente.

Se as terras indígenas de Rondônia forem devastadas, o estado virará sinônimo de desastre pela segunda vez na história recente, levando consigo a atividade econômica construída sobre as cinzas da floresta. “É nas matas protegidas de Uru-Eu-Wau-Wau que se encontram as principais bacias hidrográficas do estado”, diz Daniel Peixoto, um delegado da Policial Federal que comandou operações contra a máfia dos grileiros no território indígena de Uru-Eu-Wau-Wau. “Toda a nossa água vem de lá. É por isso que não temos seca. Sua conservação é estratégica até para o agronegócio e a pecuária”, explica.

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Membros da tribo Jupaú, incluindo Arima e seu filho, Awapu, fazendo uma ronda para detectar invasões ou grilagem. A reserva abriga importantes bacias hidrográficas que servem toda a floresta. Fotos: Gabriel Uchida

AO RAIAR DO DIA, vou com Awapu tomar café e suco de açaí sem açúcar antes de embarcar em uma piroga em direção à ponta noroeste de Uru-Eu-Wau-Wau, um território de quase 18.000km² no sul de Rondônia. A área está no coração da zona vermelha local, onde o número de invasores pagos por pecuaristas está em alta. Dois outros moradores nos acompanham: Djurip, com seu arco e flechas de bambu, e Potei, armado de uma carabina enferrujada. “Depois da eleição, os grileiros ficaram mais atrevidos”, diz Awapu enquanto amarramos a canoa para entrar na mata. “Eles sabem que Bolsonaro pensa como eles – que a gente não trabalha e não merece tanta terra. Dizem que o presidente vai dar nosso território para eles. Eles acham que ninguém pode detê-los”, afirma.

A Comissão Pastoral da Terra registrou mais de 600 assassinatos ligados à luta pela terra desde 2003, a maioria deles na Amazônia, e um aumento de 20% de casos em 2018.

Passamos a manhã quase toda percorrendo em silêncio uma trilha de monitoramento. A mata é densa e adornada de cipós. Potei vai na frente. Ele para ao topar com outra trilha – mais rudimentar do que a nossa, porém perfeitamente visível. Os homens se espalham para investigar. Eles voltam de cara fechada. Awapu se ajoelha, esfrega a terra e desenha um ângulo reto com um graveto.

“Eles começam com essa forma de ‘L’”, diz ele, apontando para o caminho. “Quinze homens de facão podem abrir uma trilha de 20km em uma semana. Para marcar o terreno, fazer entradas. Quando as chuvas passam, eles voltam com motosserras para cortar as árvores menores e abrir caminho para os tratores, se houver alguma estrada por perto. O resto eles queimam. Em novembro, antes de as chuvas voltarem, eles plantam capim, que cresce rapidinho. E logo aquilo vira pasto. Então eles vendem para algum fazendeiro, que diz não ter conhecimento de nenhuma grilagem. É uma espécie de lavagem”, explica.

Para interromper o processo antes da queimada e do plantio, é preciso enfrentar grileiros armados em áreas isoladas, em meio às ossadas de meio século de conflito. Agora que o Estado está saindo da floresta, serão necessários outros métodos de dissuasão, como as patrulhas de índios capazes de se deslocar e se comunicar imperceptivelmente, e cujas flechas surgem da mata como um suspiro. Mas sempre existiu um desequilíbrio de forças. A Comissão Pastoral da Terra, órgão da Igreja Católica brasileira, registrou mais de 600 assassinatos ligados à luta pela terra desde 2003, a maioria deles na Amazônia, e um aumento de 20% de casos em 2018. A maioria das vítimas são índios e outros habitantes tradicionais da floresta que tentam organizar uma defesa conjunta contra o extrativismo ilegal.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (2)Na fronteira da reserva indígena dos Jupaús, a floresta encontra porções de terra ocupadas por gado. Sem a vegetação nativa, a solo superficial da região seca e se esgota rapidamente. A maioria das pastagens é degradada e abandonada dentro de 10 ou 15 anos. Foto: Gabriel Uchida

Uma hora de caminhada depois, a trilha chega ao fim. É ali que a floresta acaba e a fronteira do agronegócio começa. “Fronteira” não é uma metáfora ou um conceito em um relatório da ONU, e sim uma coisa concreta, que pode ser vista, tocada e atravessada. De um instante para outro, o frescor e a sombra da mata fechada dão lugar a uma ofuscante fornalha de capim, tostando sob o sol equatorial. De um lado, o que Euclides da Cunha chamou de “a última página a escrever-se do Gênesis”. Do outro, uma manada de zebus ruminando estupidamente. Awapu aponta para a única vegetação presente do lado das vacas: o capim que serve de forragem animal. “É isso que elas comem”, ele diz. E acrescenta, levantando o dedo para o horizonte: “Tudo isso era floresta quando eu era jovem.”

Paramos para comer biscoitos e peixe seco bem ali, na fronteira entre o Gênesis e o Apocalipse. Depois, enquanto nos preparamos para voltar ao rio, Djurip, o mais calado dos três, fala pela primeira vez: “Os brancos nunca respeitaram a nossa cultura porque não é uma cultura de dinheiro. Não é uma cultura do agronegócio. Eles dizem que somos gananciosos e queremos terra demais. Mas são os brancos que têm um apetite insaciável. São eles que estão devorando tudo”, protesta.

4 – O FANTASMA DE CHICO MENDES

ENQUANTO O SUDOESTE da Amazônia era devorado nos anos 1970, a floresta produzia um anticorpo. Um movimento social e político surgiu para refutar o falso dilema entre preservação e desenvolvimento. Unindo os povos da floresta – indígenas ou não –, ele falava a língua moderna da justiça, uma novidade na Amazônia. Seu líder era um seringueiro e sindicalista do sul do Acre chamado Chico Mendes. Enquanto as queimadas lambiam Rondônia em direção ao oeste, Mendes organizou uma coalizão de pessoas que dependiam da conservação da floresta. Essa aliança criou uma forma de ação não-violenta chamada “empate”. Em alguns empates, homens, mulheres e crianças formavam barreiras humanas em volta de árvores, desafiando os invasores – pobres como eles – a matá-los. Em outros, grupos armados atacavam as bases dos desmatadores, destruindo equipamentos e fazendo reféns. O jornalista Andrew Revkin presenciou aulas de ecologia e teoria marxista ministradas aos prisioneiros pelos homens de Mendes antes da destruição de um desses acampamentos.

Mendes ganhou o apelido de “Gandhi da Amazônia” antes de ser assassinado em 1988. Ele chegou ao auge da fama numa época em que o mundo começava a reconhecer os perigos da mudança climática e o Brasil se redemocratizava. Graças a essa feliz coincidência histórica, o legado do líder seringueiro sobreviveu na nova Constituição e no novo governo, principalmente por meio da criação de um arquipélago de “reservas extrativistas” destinadas à extração de borracha, castanha, frutas e outras atividades silvícolas sustentáveis. Em 2007, o então presidente Lula criou um instituto de conservação no seio do Ministério do Meio Ambiente. O órgão foi batizado com o nome de Chico Mendes, seu colega de sindicalismo no início dos anos 1980.

O nome de Mendes é tabu no governo Bolsonaro, e tem força o suficiente para incomodar. Quando questionado pela imprensa sobre o desmonte do Instituto Chico Mendes, Ricardo Salles sibilou: “Que diferença faz quem é Chico Mendes nesse momento?”. Este sentimento encontra eco no estado de nascença do seringueiro, o Acre, que em outubro elegeu Gladson Cameli – um barão da soja de segunda geração – para governador, cargo que já havia sido ocupado por um ex-conselheiro de Chico Mendes, o ecologista Jorge Viana. Cameli comemorou a vitória convocando uma reunião com executivos do agronegócio em Porto Velho. “A salvação econômica do Acre é o agronegócio. Rondônia, nosso vizinho e irmão, é a prova disso”, declarou.

Na Assembleia Legislativa do Acre, uma bancada minoritária de deputados vem tentando modernizar a visão de Chico Mendes e impedir que um novo arco de fogo devore as florestas do estado, ainda intactas em sua maioria. O grupo é capitaneado por Janilson Leite, médico indígena e vice-presidente da Assembleia. Conheci Leite certa noite em um auditório na sede do governo estadual, em Rio Branco. De óculos, vestindo um elegante terno azul-escuro, o deputado fala pausadamente, mas com uma veemência que surpreende quem se deixa levar por sua aparência de menino.

“Depois da ditadura, o Acre investiu nas comunidades rurais e na conservação, tornando-se mais dependente de recursos federais. E, segundo certos critérios, áreas de floresta como a nossa parecem ‘improdutivas’”, afirma Leite. “Não estou dizendo que a floresta é intocável, mas derrubá-la não é a solução. Se agregarmos valor à gestão sustentável que os povos indígenas e outros fazem dos recursos da floresta, veremos que eles contribuem muito mais para economia do que a pecuária e a soja. O potencial medicinal da floresta é enorme. Temos que construir laboratórios de pesquisa. Promover o ecoturismo e indústrias alimentícias que não demandem um plantio anual. Açaí, castanha, frutas…”

A riqueza da biodiversidade da Amazônia se deve aos nutrientes gerados pela constante decomposição de sua abundante vegetação, e não às finas camadas de solo que estão por baixo. Sem essa flora, a camada fértil do solo seca e se esgota rapidamente. Para que a produção se mantenha, é preciso fazer uso de onerosos sistemas de fertilização ou sair à procura de novas terras. A maioria dos pastos se degradam e são abandonados depois de 10 ou 15 anos.

Ou seja, a própria existência desta atividade (para não falar de sua expansão) depende de um ciclo interminável de destruição: é preciso desmatar mais para superar os problemas causados pela última derrubada, que eliminou a fonte natural de nutrientes do solo. A indústria da soja na Amazônia também tenta lidar com a rápida degradação do solo criando mais terras cultiváveis, saturando-as de doses cada vez maiores de fertilizantes e agrotóxicos. A ministra da Agricultura de Bolsonaro, Tereza Cristina Costa, ganhou o apelido de “Musa do Veneno” por sua cruzada contra a proibição de pesticidas altamente tóxicos.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (7)
Imagem aérea da reserva indígena dos Jupaús em setembro de 2016. Cerca de 400 tribos vivem na bacia amazônica que forma um “corredor sagrado de vida” que vai dos Andes ao Atlântico. Foto: Gabriel Uchida

Além do mais, a maioria dos empregos criados por essas atividades é temporária: derrubar árvores.

Joaquim Francisco de Carvalho, ex-diretor do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal, diz que uma hectare de gado ou soja pode valer de R$ 100 até R$ 1.000, enquanto o mesmo hectare de florestas exploradas de forma sustentável pode render mais de R$ 3.000. Mas a diferença mais importante não pode ser quantificada.

O manejo florestal conserva a biodiversidade e o que o etnobotânico e antropólogo Wade Davis chama de “etnosfera” da Amazônia – as últimas culturas com uma visão de mundo fundamentalmente diferente daquelas que nos conduziram à Era Antropocênica. Os habitantes originários da selva são seus defensores mais eficazes justamente por não vê-la como um depósito de recursos a serem extraídos e vendidos – sejam eles ouro, madeira ou créditos de carbono.

Isso não significa que a linguagem do comércio e desenvolvimento seja estranha aos habitantes da Amazônia. Com exceção de um número cada vez menor de tribos que nunca tiveram ou se recusam a ter contato com o homem branco, os índios querem se desenvolver e se comunicar com o mundo exterior. Marcos Apurinã, por exemplo, está tentando reviver a Aliança dos Povos da Floresta, uma iniciativa de Chico Mendes que uniu índios, quilombolas e outros grupos que praticam o extrativismo em pequena escala no Brasil.

“Temos nossas diferenças, mas temos um inimigo em comum, que é o agronegócio e os ruralistas”, diz Marcos. “Precisamos de uma tríplice aliança na fronteira, um plano comum de defesa e desenvolvimento da região. Também precisamos do Judiciário brasileiro, das cortes internacionais, das ONGs”, afirma.

Marcos é membro fundador do Comitê Nacional de Política Indigenista, um órgão consultivo criado em 2015 para servir de ponte entre grupos indígenas e organismos governamentais de desenvolvimento e sustentabilidade. “Temos ideias de desenvolvimento alternativas para gerar a renda de que precisamos para viver no mundo moderno. Passamos essas ideias ao governo. Mas, como em todo o resto, o processo parou quando Bolsonaro foi eleito. Não sabemos o vai acontecer”, inquieta-se.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (1)Porto em Boca do Acre. Foto: Mauro Toledo Rodrigues

O CAMINHO DO ACRE AO AMAZONAS, ao longo da BR-317, é similar à paisagem de Rondônia vista da BR-364: uma viagem monótona através de pastos sem fim, com pequenos trechos de mata quando a estrada atravessa uma reserva indígena. As criações de gado acabam junto com a estrada, na Boca do Acre, uma próspera e asseada cidade de 35 mil habitantes na beira do maior bloco de floresta tropical do mundo. Capital da pecuária do sul do Amazonas, Boca ostenta um estilo texano comum no interior do Brasil, com bares de caubóis e homens vestidos como o garoto-propaganda da Marlboro: camisa quadriculada desabotoada, cruz de ouro no peito, jeans, fivela desproporcionalmente grande, botas e chapéu de aba larga de palha ou couro – abaixado sobre os olhos, claro.

Em minha primeira manhã em Boca, faço uma visita surpresa a Dilermando Melo de Lima, figurão da pecuária local e presidente do Sindicato Rural de Boca do Acre. Setenta e dois anos, barrigudo e dono de um nariz em forma de couve-flor, eu o encontro sentado na varanda, bebendo café em companhia de um gato. Como todos na cidade, ele fala com prazer sobre gado e está otimista com relação ao futuro. “Olha, em Rondônia, no Acre e no Amazonas a pecuária é o futuro, pelo simples motivo de que a Amazônia tem as melhores condições para se criar gado”, acredita.

Quando questionado sobre as preocupações dos índios e outros grupos que dizem que o avanço da fronteira agrícola pode destruir os sistemas naturais que tornam a pecuária possível, ele faz um gesto de desdém.

“A floresta vai ser derrubada de qualquer maneira. O regime militar foi bom para o desenvolvimento. Bolsonaro tem as mesmas ideias, e os criadores de gado estão apostando no sucesso dele”

“Nós, pecuaristas, enfrentamos muitas dificuldades. Há leis e restrições demais. Áreas protegidas demais. A reserva Camicuã, aqui perto, tem 46 mil hectares de terra virgem. Não podemos nem encostar nela! Deviam nos dar autorização. A floresta vai ser derrubada de qualquer maneira. O regime militar foi bom para o desenvolvimento. Bolsonaro tem as mesmas ideias, e os criadores de gado estão apostando no sucesso dele”, afirma.

O velho pecuarista relaxa quando a conversa se afasta da política. Filho de um fazendeiro que migrou para a região nos anos 1930, Dilermando amolece ao descrever o vilarejo de pescadores e comerciantes da sua infância, quando as estradas de penetração ainda não haviam trazido os rebanhos para o norte e a brisa da manhã ainda não cheirava a matadouro. Ao recordar aqueles tempos que não voltam mais, ele parece mais um índio do que um fazendeiro. “Era tudo mata e rio naquela época. Daqui até Rio Branco. Mata e rio”, relembra.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (6)

5 – NO LIMITE

NO INÍCIO DE MAIO, poucas semanas depois da conversa com Dilermando, a ONU publicou um histórico – e preocupante – relatório sobre biodiversidade. Realizado por especialistas das mais variadas disciplinas, o documento conclui que apenas uma “mudança transformadora” poderia evitar a extinção de um milhão de espécies de plantas e animais. Esses milhões de seres vivos que estão morrendo em florestas tropicais degradadas e fragmentadas – ou em oceanos ácidos e esgotados pela pesca – são apenas as primeiras vítimas de um processo de desintegração dos ecossistemas que ameaça “as próprias bases da economia, subsistência, segurança alimentar, saúde e qualidade de vida do mundo”.

Ao clamar por uma “mudança transformadora”, os cientistas não estão apenas repetindo velhos apelos por uma economia ligeiramente mais verde, mas sem mudar as estruturas de nosso modelo de crescimento, produção e consumo. “Estamos falando de uma reorganização fundamental em todo o sistema, levando em conta fatores tecnológicos, econômicos e sociais, incluindo paradigmas, metas e valores”, diz Robert Watson, químico atmosférico britânico e diretor do painel de especialistas. Quanto à inspiração necessária para uma transformação desta envergadura, o relatório pede uma “participação plena e efetiva dos povos indígenas” no desenvolvimento de sistemas de governança ambiental baseados em “conhecimentos, inovações, práticas, instituições e valores (…) indígenas”.

Indígenas estão explorando formas alternativas de viver na floresta sem cortar árvores, como a pesquisa de novos medicamentos, ecoturismo e produção sustentável de açaí, oleaginosas e frutas. Foto: Gabriel Uchida
Este é o fruto de um diálogo tardio, porém cada vez mais intenso, entre a ciência ocidental e as culturas indígenas. Depois de décadas como espectadores à margem, os índios estão mais próximos do centro do palco nas cúpulas ambientais, apoiados por uma onda de estudos que confirmam sua antiga reivindicação de protetores mais naturais e eficazes da floresta.

Em novembro de 2018, uma delegação amazônica entregou um documento – a Declaração de Bogotá – à 14ª Conferência da Biodiversidade da ONU, na cidade egípcia de Sharm El-Sheikh. Nela, 400 etnias da bacia amazônica traçam um plano para criar um “corredor sagrado de vida”, formado por territórios indígenas contíguos dos Andes ao Atlântico. Dentro desses 200 milhões de hectares de floresta, as nações indígenas reuniriam seus conhecimentos ancestrais, demonstrando modos alternativos de vida e desenvolvimento. A declaração descreve a proposta como “um primeiro passo para garantir a existência de todas as formas de vida do planeta”.

Os signatários do documento buscam apoio e reconhecimento internacional para fazer frente aos governos que estão loteando a floresta para o agronegócio e a exploração de metais, madeira e petróleo. Para o governo Bolsonaro, a ideia de grupos indígenas aliados a países ocidentais e à ONU para enfrentar o desafio climático confirma séculos de paranoia nacionalista. Embora essa preocupação seja infundada, a Declaração de Bogotá enxerga o futuro da Amazônia da maneira certa: não como uma questão econômica ou um embate moral entre índios e caubóis, e sim como uma crise global que requer novas formas de ver o mundo e tudo o que ele contém.

Com a contribuição de Mauro Toledo Rodrigues.

Tradução: Bernardo Tonasse

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A responsabilidade do Brasil no futuro do meio ambiente

Agora que foi eleito presidente, exigimos de Jair Bolsonaro responsabilidade com a agenda socioambientalFloresta,Desmatamento,Amazônia,Brasil,Meio Ambiente,Ecologia

A Floresta Amazônica detém a maior biodiversidade do planeta e precisa ser protegida. A Floresta Amazônica detém a maior biodiversidade do planeta e precisa ser protegida
Foto Daniel Beltrá/ Greenpeace

O novo presidente da República precisa agir à altura da importância global do Brasil para a preservação do meio ambiente. Isso significa evitar o aumento da temperatura do planeta, preservar a Amazônia e combater crimes ambientais. “A natureza não pode ser vista como um mero recurso econômico, mas como uma garantia de vida das futuras gerações”, afirma Nilo D’Ávila, Diretor de Campanhas do Greenpeace Brasil.

“Reduzir o combate ao desmatamento faz com que o Brasil perca competitividade econômica, o que pode inclusive afetar a geração de empregos. Mercados internacionais e consumidores querem garantias de que o nosso produto agrícola não esteja manchado com a destruição florestal”, declara D’Ávila.

Durante sua campanha, Bolsonaro não apresentou propostas para o meio ambiente, mas sim ameaças.

Agora que foi eleito presidente, exigimos responsabilidade com a agenda socioambiental. Precisamos agir agora para evitar que a temperatura do planeta suba para além de 1.5 graus. Bolsonaro pode ser um dos últimos presidentes do Brasil que pode agir a tempo de evitar um dano irreversível ao planeta.

Por isso, trabalharemos para proteger a floresta, combater as mudanças climáticas e denunciar retrocessos, nos opondo à perda de direitos e ao enfraquecimento da democracia brasileira.

Ao longo de 26 anos no Brasil, o Greenpeace nunca se furtou a criticar governos e políticos cujos projetos representassem ameaça ao meio ambiente e à população, independente do partido ou da cor da bandeira que defendem. Foi esta nossa linha de conduta nos governos Fernando Henrique, Lula, Dilma, Temer e com Parlamentares dos mais diversos campos.

Greenpeace continuará defendendo o meio ambiente, a paz e a justiça social. Esses são os valores que guiam a organização desde a sua fundação, assim como a independência e a não violência.

Desmatamento na Amazônia cresce pelo segundo ano seguido

De acordo com o Inpe, 7.989 quilômetros quadrados foram desmatados na Amazônia Legal entre 2015 e 2016, um crescimento de 29% em relação ao período anterior. Área de floresta devastada é a maior dos últimos cinco anos.

Desmatamento na Amazônia cresce pelo segundo ano consecutivo

O desmatamento na Amazônia Legal cresceu 29% entre agosto de 2015 e julho de 2016 em relação ao período anterior, segundo dados divulgados nesta terça-feira (29/11) pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Este foi o segundo ano consecutivo de aumento na taxa de desmate.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

De acordo com o órgão nacional, neste período de um ano foram derrubados 7.989 quilômetros quadrados de floresta – o que equivale a aproximadamente cinco vezes a área da cidade de São Paulo.

A área total de mata devastada foi a maior dos últimos cinco anos. No período anterior, entre agosto de 2014 e julho de 2015, o desmatamento havia sido de 6.207 quilômetros quadrados.

O estado do Pará teve 3.025 quilômetros quadrados de floresta derrubada, 37% do total, sendo a região com a maior taxa de desmatamento. O Amazonas, contudo, é o estado que teve o maior crescimento de desmate, com devastação 54% maior do que a registrada entre 2014 e 2015.

Os únicos estados brasileiros que apresentaram queda nas taxas foram o Amapá e o Mato Grosso. Este último, no entanto, é a segunda unidade federativa com a maior área desmatada.

Especialistas e organizações não governamentais reagiram ao resultado do Inpe. O Greenpeace, por exemplo, destacou que se trata de uma “péssima notícia para o clima e para o Brasil” e que “ilustra a falta de ambição do governo em lidar com o desafio de cessar a perda de florestas”.

“A estimativa é de que essa destruição tenha liberado na atmosfera 586 milhões de toneladas de carbono equivalente – o mesmo que 8 anos de emissões por todos os automóveis no Brasil”, diz a ONG em nota. “Isso faz com que o país se distancie das ações necessárias para limitar o aquecimento do planeta em no máximo 1,5 ºC e evitar as graves consequências das mudanças climáticas.”

Em comunicado, o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, defendeu que, desde junho, o orçamento da pasta obteve um crescimento significativo para as principais unidades envolvidas no combate ao desmatamento, que são o Ibama, o ICMBio e o Serviço Florestal Brasileiro.

O Programa de Prevenção e Combate ao Desmatamento da Amazônia estipulou como meta reduzir o desmatamento a menos de 4 mil km² até 2020 – número distante do observado no último ano. Em 2004, quando o programa foi criado, o Brasil desmatou 27.772 km² de floresta da Amazônia Legal.

Catalogar todas as espécies de árvores da Amazônia levaria 300 anos, mostra levantamento

A Floresta Amazônica tem uma variedade tão grande espécies de árvores que catalogá-las levaria três séculos, segundo estimativas de um novo estudo.

Floresta Amazônica
Cientistas dizem que ainda resta descobrir 4 mil espécies de árvores na Amazônia
Image copyrightGETTY

O trabalho publicado no periódico Scientific Reports fez um levantamento dos mais de 500 mil exemplares reunidos por museus nos últimos 300 anos.

E mostrou que aproximadamente 12 mil espécies foram descobertas até hoje.

Com base nesse número, cientistas preveem que ainda restam a serem descobertos ou descritos em detalhes cerca de 4 mil tipos raros de árvores.

Só foi possível elaborar essa lista graças à digitalização dos acervos de museus ao redor do mundo.

Os pesquisadores dizem que ela ajudará quem busca proteger a florestal tropical com a maior biodiversidade do mundo.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“A lista dará aos cientistas uma melhor noção do que há de fato na bacia amazônica, e isso contribuirá com os esforços de preservação”, diz um dos autores do estudo, Hans ter Steege, do Centro de Biodiversidade Naturalis, da Holanda.

Brasil

Barco em rio da Amazônia
Estudo aponta que Amazônia não é prioridade nas pesquisas brasileiras
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Dentre os países que abrigam a Floresta Amazônica, o Brasil é o país com o maior número de amostras de coletadas: 278.165.

Do total de espécies identificadas, 61% foram coletadas na Amazônia brasileira.

No entanto, o estudo aponta que maior parte da pesquisa realizada por cientistas, especialmente os brasileiros, sobre a flora nacional é feita em outros ecossistemas que não a Amazônia, que representa metade do país territorialmente.

Das 2.875 espécies brasileiras descritas entre 1990 e 2006, somente 20% eram da Amazônia.

E, enquanto 50% de novas espécies de ecossistemas não amazônicos foram descritas por cientistas brasileiros, esse índice cai para 20% entre as espécies da floresta.

O estudo ainda destaca que o esforço de pesquisa brasileiro sobre flora está concentrado no Sul e no Sudeste do país.

“É nestas regiões que estão localizados 59 dos 92 herbários do país e 67% das amostras coletadas. A região amazônica tem só cinco herbários registrados e abriga 11% das coleções botânicas.”
Com dados da BBC