Charles Baudelaire – Poesia

Boa noite
Albatroz
Charles Baudelaire

Há marujos que, por desfastio frequente,
Caçam albatrozes, grandes aves do mar
Seguindo, companheiros da rota indolente,
O navio sobre o abismo a navegar.
Canhestros e embaraçados, esses reis
Do alto azul, mal os põem nos sobrados,
Deixam as asas, qual lasso bote a remos,
Arrastar-se, brancas e imensas nos lados.
O viageiro aéreo, agora mole, tísico,
Ave antes tão bela, que ridícula e feia!
Há quem, com o cachimbo, lhe arranhe o bico,
Há quem lhe imite o voo enfermo que coxeia.
O poeta é igual ao príncipe que afronta
As nuvens e a tormenta, e se ri da caçada;
Exilado no solo entre a arruaça tonta,
As asas de gigante impedem-lhe a passada.

Pintura de Christian Schloe

 

 

 

 

Ari dos Santos – Poesia

Boa noite.
Poeta castrado não!
Ari dos Santos

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
– é tão vulgar que nos cansa –
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
– a morte é branda e letal –
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
– Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
– Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Jorge Luis Borges – Poesia

Boa noite
O remorso
Jorge Luis Borges

Eu cometi o pior dos pecados
que um homem pode cometer. Eu não fui
feliz. Que o frio do esquecimento
arraste-me para baixo e me perca, implacável.

Meus pais me criaram para o jogo
arriscado e bonito de vida,
para terra, água, ar, fogo.
Eu os decepcionei. Eu não estava feliz. Realizado

não era sua jovem vontade. Minha mente
foi aplicado ao teimoso simétrico
da arte, que tece ninharias.

Eles me deram coragem. Eu não fui corajoso.
Não me abandona. Está sempre ao meu lado
A sombra de ter sido infeliz.

Pintura de Jack Vettriano