Desigualdade: Monitoramento de aplicativo escancara política de morte pelo coronavírus em localidades pobres do Rio de Janeiro

A roleta da morte. Morrer de fome ou de Coronavirus?
Pandemia agrava fome nas favelas e o Brasil tem 51% de domicílios em áreas adensadas. Em 48% dos domicílios vivem entre 4 a 7 pessoas, enquanto a Pandemia agrava fome nas favelas.

O aplicativo Covid por CEP, criado pelo urbanista Thales Mesentier, foi colocado no ar este mês. A ideia é ajudar no combate à pandemia a partir de dados georreferenciados, oferecendo visualização espacial dos casos da doença na cidade do Rio de Janeiro, de acordo com o código de endereçamento postal. É possível realizar a busca por CEP específico ou navegar pela cidade clicando nos círculos do mapa, que tem cores correspondentes ao número de casos, indicando ainda se houve óbito na localidade.

De acordo com o aplicativo, os dados mostram uma maior concentração dos casos de Covid-19 nas regiões mais ricas da cidade. Porém, em contrapartida, nas regiões mais pobres, sobretudo na Zona Oeste, a taxa de letalidade pelo vírus é muito maior que a média do estado, uma das maiores do país.

Ainda segundo o aplicativo, em toda a capital, os endereços com maior número de mortes em decorrência da infecção por coronavírus são a Rua do Amparo, em Rio das Pedras; Rua São Miguel, na Tijuca; a Estrada dos Caboclos, em Campo Grande; e a Rua Nilópolis, em Realengo. Não podemos nos esquecer que toda a população do Morro do Borel utiliza como código postal o endereço situado na Rua São Miguel, número 500 e que, portanto, os dados devem refletir a realidade da comunidade moradora da favela. A ferramenta mostra que o CEP 20530-420, que corresponde à região, já teve 83 casos, sendo 75 recuperados, 8 óbitos e nenhum caso ativo até o momento.

Os dados do CoronaZap, um sistema de monitoramento colocado em prática por moradores do Borel por meio do WhatsApp, revelam que foram registrados 16 casos na comunidade, sendo 2 confirmados e 14 suspeitos, no período de março a abril deste ano.

É evidente que o número tende a ser muito maior, devido à falta de testes. Ainda assim, os números divulgados não foram contabilizados pelo poder público de maneira particular para o território, isto é, havendo um agrupamento dos casos para o bairro da Tijuca. A falta de uma política de notificação específica e transparente de casos em favelas, aliada à ausência do Estado com políticas públicas plenas para minimizar os impactos da doença nesses territórios, interferem diretamente no comportamento dos moradores em relação às medidas de proteção e segurança contra a Covid-19.

É impossível não se estarrecer com esses dados. É evidente que a pandemia realçou as profundas desigualdades do país, mas poucas coisas denunciam a prática da política de morte quanto o cruzamento dos dados do Covid por CEP, com os dados apresentados pela Rede de Observatórios da Segurança.

Muito se tem falado sobre necropolítica e em como Achille Mbembe avança, nos componentes racial e colonial, a análise da biopolítica de Foucault, para quem o biopoder funciona a partir da divisão entre as pessoas que devem viver e as que devem morrer. Para o filósofo camaronês, em nosso mundo contemporâneo, as armas são dispostas com o objetivo de provocar a destruição máxima de pessoas e criar formas únicas e novas de existência social nas quais vastas populações são submetidas a condições de vida que lhes conferem o estatuto de mortos vivos.

Favelas e o coronavírus (Free-Photos/Pixabay)

A política sanitária adotada pelo poder público nos territórios de favelas e periferias – onde saneamento básico, água potável, atendimento de saúde, entre outros serviços, são precários – evidencia o “deixar morrer” necropolítico, resultando em altos índices de letalidade da infecção por coronavírus em favelas e bairros da Zona Norte e Zona Oeste, longe dos hospitais de campanha montados no Centro e na Zona Sul da cidade, bem como da ampla cobertura da rede privada de saúde e do acesso a testes para diagnóstico da Covid-19.

Da mesma maneira, o aumento do uso da força letal por parte das polícias do Rio de Janeiro em relação ao ano anterior, especialmente em abril e maio, em meio à pandemia e algumas vezes, inclusive, durante ações humanitárias, concretiza a face do “fazer morrer” fruto da política de controle dos corpos por meio da morte.

Vale lembrar que a escalada de mortes decorrentes de intervenção de agente do Estado, durante operações policiais, somente decresceram em junho por imposição judicial em virtude da decisão liminar no bojo da ADPF 635 – Favelas pela Vida, que proibiu ações injustificadas enquanto durar a pandemia.

A maior parte das vítimas fatais da Covid-19 é negra, pobre, de origem periférica ou favelada – estudo liderado pela PUC-Rio mostra que pretos e pardos com baixo índice de escolaridade morrem quatro vezes mais.

Já uma análise da Agência Pública aponta que de cada três negros internados por Covid-19 um morre, a proporção entre brancos é 4,4 internados. Isso diz muito a respeito da situação da classe trabalhadora do Rio de Janeiro, e do enorme desafio em transformar cotidianamente luto em luta para mudar essa realidade de extrema desigualdade social.


Mônica Francisco é presidente da Comissão de Trabalho Legislação Social e Seguridade Social e vice-presidente da Comissão de Combate às Discriminações e Preconceitos de Raça, Cor, Etnia, Religião e Procedência Nacional da Alerj.

A vida na primeira favela da Alemanha

Às margens do rio Spree, no bairro berlinense de Kreuzberg, um terreno baldio, mais ou menos do tamanho de um campo de futebol, chama a atenção no meio de empreendimentos imobiliários modernos e luxuosos.

Lá, entre o mato que não para de crescer, na esquina das ruas Cuvry e Schlesische, tendas e barracas se amontoam, formando aquilo que a imprensa local chamou de “a primeira favela da Alemanha”.
Primeira “favela” de Berlim reúne sem-tetos e ativistas contra gentrificação. Moradores rejeitam o termo favela e preferem se referir ao local como acampamento.

Os cerca de 60 moradores da “Cuvry”, como o local foi apelidado, não gostam de se referir ao local como favela. Eles preferem chamá-lo de acampamento.

A localização das barracas não parece seguir uma lógica. No entanto, imigrantes da Romênia e da Bulgária ficam numa área separada do restante dos habitantes. Os primeiros moradores chegaram em meados de 2012, depois de uma série de projetos para ocupar o terreno não ter ido para frente.

Há duas entradas e cartazes espalhados por todos os cantos avisando que fotos são proibidas. A proibição atrapalha passeios guiados especializados em grafite, já que no local estão dois dos principais murais de arte de rua de Berlim, feitos pelo grafiteiro italiano Blu.

“Quando trago meus grupos aqui, já aviso para eles guardarem as câmeras para evitar problemas com os moradores”, conta a guia turística Caro Eickhoff.

Habitação típica da Cuvry, terreno onde moram cerca de 60 pessoas na região central de Berlim.

A comunidade é fechada, e os habitantes são muito reticentes na hora de dar entrevistas. A grande maioria se recusa a falar com jornalistas. Os poucos que cederam aos pedidos de entrevista pediram para não ser identificados.

“Muita gente aqui já teve más experiências com a mídia, então prefere não falar”, diz uma jovem alemã que mora na Cuvry há oito meses. Vinda do interior da Alemanha para estudar em Berlim, ela procurava o endereço de um albergue na região quando ficou sabendo do acampamento.

“Minha primeira noite aqui foi dentro daquele barraco”, diz ela, apontando para uma estrutura rudimentar de madeira que, durante o dia, abriga uma biblioteca comunitária. Agora, ela divide uma tenda com dois amigos e mantém uma horta em seu pequeno quintal, onde planta tomates, pepinos e rabanetes.

Seu principal projeto para o futuro é conseguir montar uma barraca para morar sozinha. “Se depender de mim, não saio mais daqui. Essas pessoas viraram minha família.”

Em tese, qualquer um pode morar na Cuvry. De acordo com alguns moradores, quem quiser montar uma barraca no local só precisa conversar com os futuros vizinhos para verificar se o espaço está realmente livre.

Também não há uma liderança definida, e tudo é decidido em reuniões plenárias entre os moradores – desde os responsáveis por pequenos reparos nas moradias até como separar o lixo na hora de fazer a reciclagem.

As discussões são, em sua maioria, feitas em inglês por conta da mistura de nacionalidades. Não há água encanada e os banheiros são improvisados, com buracos feitos no chão.

Drogas e violência

A DW Brasil visitou o local em duas ocasiões: um domingo e uma terça-feira, sempre no período da tarde. É possível ver garrafas de bebidas alcoólicas em todos os cantos – há até um bar funcionando no local. Todas as noites, uma fogueira é acesa, e, com alguma frequência, festas são realizadas. O uso de drogas é comum.

“Passo minhas tardes sempre aqui, fumando maconha e relaxando”, conta um imigrante africano de Gâmbia que pediu para não ser identificado. Um outro morador do local, que se identificou como Philip, até mostrou o lugar preferido de alguns moradores para o consumo de drogas – uma área escondida, no meio do mato, com sofás e poltronas amontoadas.

“Moro aqui há mais ou menos um ano e é perfeito porque, além de ser de graça, também tenho amigos”, explica Philip. Segundo ele, no verão há mais moradores do que o normal – durante o rigoroso inverno alemão, o número de habitantes da Cuvry cai pela metade.

A jovem alemã que acompanhou a DW Brasil durante uma das visitas ao local disse que, apesar de o clima entre os moradores ser tranquilo na maior parte do tempo, o consumo de drogas ainda é um problema. “O que me incomoda mais são as crianças que moram aqui. Um lugar assim não é o melhor ambiente para alguém crescer.”

Gentrificação

A ocupação do terreno onde a Cuvry está instalada começou em 2012, depois de artistas, ativistas e sem-teto se mudarem para o local seguindo manifestações contra a construção de um shopping center. O projeto foi interrompido após protestos dos moradores de Kreuzberg contra a gentrificação do bairro.

O impasse, porém, continua até os dias de hoje, e os moradores da Cuvry estão constantemente sob ameaça de despejo.

Há até um abaixo-assinado na internet, no site www.change.org, que pede que o local seja transformado num parque. “Queremos discutir com os habitantes, com os vizinhos e com a cidade a criação de um parque semipúblico que também funcionaria como um espaço para moradia de refugiados, sem-teto, artistas e pessoas que querem viver fora do sistema ‘normal’”, afirma o texto do abaixo-assinado.
“Sabemos que há um problema de violência e alcoolismo entre alguns dos habitantes dessa área e nós apreciamos a tolerância e paciência de nossos vizinhos e esperamos poder evitar a ação policial ou o despejo dos moradores”, diz o documento.

Num vídeo da campanha pelo abaixo-assinado, postado no YouTube, um dos porta-vozes da comunidade, identificado apenas como Sascha, diz que muitos dos que moram na Cuvry estão ali para lutar contra a gentrificação de Berlim.

“Nós ocupamos este espaço para mostrar que há um estilo de vida diferente do estilo de vida pregado pelo ‘sistema’”, diz ele. “Esta é uma luta contra os investidores que querem explorar a nossa cidade.”

Levando as galinhas às raposas

O Brasil é um país ao contrário.
Restaurantes em favelas de SP atraem clientela de shoppings de luxo vizinhos.
Resturante em favela

Restaurante do Silvio, na favela Panorama, zona sul de São Paulo, recebe publicitários e gerentes de empresas da região (Foto: Diego Padgurschi)

Na cadeira do restaurante de José Silvane Almeida, o Restaurante do Silvio, quem olha para cima vê os prédios espelhados de multinacionais e de um dos shoppings centers mais luxuosos de São Paulo. À frente enxerga os barracos de madeira e de alvenaria sem pintura, cenário típico de bairros de periferia.

Moradores da favela Panorama, em Cidade Jardim – bairro nobre na zona sul paulistana -, dividem as mesas com publicitários e gerentes de grandes empresas. O encontro entre a classe média e a baixa ocorre diariamente dentro da favela a partir do meio-dia. Por quê?

Ninguém quer gastar muito dinheiro para almoçar, afinal. No self-service de Almeida, a refeição completa sai por R$ 22 – come-se à vontade. A poucos metros dali, no Shopping Cidade Jardim, um prato executivo não custa menos de R$ 35, segundo quem trabalha nas redondezas. Em alguns restaurantes, o preço passa de R$ 80.

O shopping de luxo era a única opção de almoço para funcionários de um prédio comercial vizinho ao shopping. Foi então que, quatro anos atrás, Almeida abriu seu ponto na favela. O foco, diz ele, era nos trabalhadores que não têm condições de pagar todos os dias a alimentação no Cidade Jardim, mas acabou atraindo também quem tem dinheiro mas prefere economizar.

Fila em restaurante na favela
Por causa do preço baixo, filas se formam na frente do restaurante (Foto: Diego Padgurschi)

Almeida credita o sucesso de seu restaurante, que tem até fila para entrar, a seu tempero de “comida caseira” e ao seu empreendedorismo, mas também à oportunidade que a crise econômica lhe deu. “Se meus clientes almoçam no shopping, gastam o VR (vale-refeição) em 15 dias. Aqui, dura o mês inteiro. As pessoas querem economizar”, diz.

O publicitário Guilherme Linares, de 26 anos, comia, como entrada, uma porção de batatas fritas e tomava um refrigerante sentado a uma mesa do lado de fora, na viela – o cardápio do dia tinha como pratos principais filé de merluza, moqueca de cação e costela com molho barbecue.

“Recebo R$ 30 de alimentação por dia. Se eu comer no shopping, o VR dura 10 dias. Lá, a comida é cara e industrial. Aqui é comida caseira”, diz Guilherme Linares, de 26 anos, publicitário de uma agência de propaganda.

Talita Feba, publicitária de 27 anos, afirma que amigos e parentes estranham quando ela conta que almoça diariamente em uma favela. “Dizem: ‘mas não é perigoso?’ Eu respondo que não, é tranquilo, bom e barato”, diz.

Revertendo uma tendência de alta nos últimos anos, os preços de alimentos e bebidas acompanhados pelo IPCA – índice de inflação calculado pelo IBGE – tiveram queda de 2% de janeiro a outubro. O item “alimentação fora do domicílio” também vem cedendo, mas em ritmo mais lento. Nos últimos 12 meses, a inflação agregada no Brasil desacelerou para 2,2%, ante alta de 10,67% em 2016.

interior do restaurante
No Restaurante do Silvio, refeição completa custa R$ 22; no shopping ao lado, preço mais barato é R$ 35 (Foto: Diego Padgurschi)

‘Achava que era perigoso almoçar na favela’

A favela Panorama sobreviveu à transformação de um terreno ao lado em um dos shoppings mais caros da cidade – no mesmo complexo há condomínios de apartamentos milionários. Parte da área da comunidade é usada como estacionamento para carros cujos donos também trabalham em empresas da região.

O cozinheiro Almeida, de 46 anos, nem mora ali: vive em Paraisópolis, segunda maior favela de São Paulo. Ele nasceu em Araioses, no Maranhão, e migrou para São Paulo em 1991.

Trabalhou anos como encanador, até abrir seu primeiro negócio na favela Real Parque, também na zona sul. Vendia 3 mil pães por dia em sua padaria, mas, em 2011, a loja foi consumida pelo fogo em um incêndio que destruiu parte da comunidade.

“Eu tinha investido R$ 300 mil na padaria, todo o dinheiro que guardei. Fiquei lelé da cabeça”, conta. “Abri o restaurante aqui (na Panorama) para os operários do shopping, depois vieram os seguranças. O boca a boca aumentou e os funcionários das empresas começaram a vir também”. Hoje, o estabelecimento, que surgiu em uma garagem, tem três andares e mesas dispostas na frente, em uma viela.

José Silvane Almeida
O ex-encanador José Silvane Almeida hoje tem oito funcionárias para conseguir atender seus clientes no restaurante (Foto: Diego Padgurschi)

O restaurante tem outros oito funcionários e serve em média 150 refeições por dia. O sucesso do local entusiasmou outros restaurantes da favela – já existem outros três restaurantes populares, que ficam cheios a ponto de surgirem filas do lado de fora.

A analista de estratégia Fernanda Andrade, de 29 anos, conta que, inicialmente, ficou com receio de sair do escritório para almoçar na favela. “Eu tinha um pouco de preconceito, achava que era perigoso. Hoje, na minha empresa, a maioria das pessoas vem comer aqui”, conta ela, que trabalha em uma multinacional ao lado.

Quentinhas por R$ 13

O restaurante na comunidade Panorama não é o único com esse perfil em São Paulo. Em Paraisópolis, por exemplo, vizinha ao bairro do Morumbi, existe o Café & Bistrô Mãos de Maria, que funciona em uma laje da favela. Criado por uma associação de mulheres, o restaurante serve almoço por até R$ 25 e tem shows de música para frequentadores da região e também de fora.

Bar na favela Coliseu
Bar e restaurante de Regina Alves dos Santos, na favela Coliseu, recebe funcionários de empresas da Vila Olímpia (Foto: Diego Padgurschi)

Já na favela do Coliseu, na Vila Olímpia – bairro comercial na zona oeste paulistana -, a cozinheira Regina Alves dos Santos, de 55 anos, produz suas marmitas dentro de um barraco de madeira. Ao lado, ela administra um boteco cujo happy hour recebe funcionários de grandes empresas da região.

A comunidade é vizinha do shopping de luxo JK Iguatemi e dos prédios espelhados da construtora Camargo Corrêa, onde Santos entrega suas “quentinhas” diariamente – elas saem por R$ 13. “Pessoal da Camargo Corrêa vem aqui para o happy hour. Até meu cliente do Bradesco aparece”, diz ela. “Pessoal vem amuado, com medo de ser assaltado, mas depois vê que é tranquilo, que a comida é boa e a cerveja é gelada.”

Santos é pernambucana de Araripina e migrou para São Paulo no final dos anos 1970 para casar e melhorar de vida. Por uma década trabalhou como metalúrgica em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, onde viveu o período de greves comandadas pelo então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva.

Cozinheira Regina Alves dos Santos
O bar da cozinheira Regina Alves dos Santos faz sucesso entre engravatados que trabalham na Vila Olímpia (Foto: Diego Padgurschi)

Já nos 1990, abriu seu bar na comunidade do Coliseu, quando a maioria dos prédios da região ainda não existia e a favela era bem maior. Hoje, a Coliseu vive espremida entre os prédios espelhados.

Assim como o colega da Panorama, ela também sofreu com um incêndio. Há quatro anos, alguns barracos da favela pegaram fogo. Ela não se lembra como se salvou: quando as chamas começaram, correu para o andar de cima do bar. “Acordei na rua, com os bombeiros me atendendo. Meu rosto e minhas mãos ficaram queimados. Dias depois, eu voltei a trabalhar”.

Com o dinheiro que ganha no bar e vendendo marmitas, a cozinheira conseguiu comprar quatro carros – uma de suas paixões.

‘O shopping é que incomoda a gente’

A prefeitura promete há décadas que vai construir habitações sociais na área da Coliseu. A líder comunitária Rosana Maria dos Santos, de 47 anos, ainda tem esperança. “Os prédios apareceram e engoliram a comunidade, que existe há 70 anos. Mas parece que agora a construção das moradias vai começar”, diz.

Cozinheira Regina Alves dos Santos
Marmitas da cozinheira Regina Alves dos Santos custam R$ 13 e são vendidas em diversas empresas de São Paulo (Foto: Diego Padgurschi)
amigos bebendo em bar de favela
Happy hour em bar na favela Coliseu atrai funcionários de empresas vizinhas (Foto: Diego Padgurschi)

Nascida na área, a líder comunitária diz que a favela, que fica em uma terreno nobre, sofre com especulação imobiliária. “O shopping fica incomodado com a favela. Mas estamos aqui antes deles, quando ninguém queria morar aqui. Eles é que incomodam a gente”, diz.

Já a cozinheira Regina Alves dos Santos fica feliz quando vê seu bar cheio de moradores da Coliseu e de gente de outras classes sociais mais elevadas. “Quando vejo o pessoal das empresas aqui, nem acredito. Mas fecho os olhos e digo: a vida é assim mesmo, pobre aqui e o rico do lado. Todo mundo junto”, diz.

Misha Gleeny: “Os grandes traficantes brasileiros não moram nas favelas”

Escritor autor de livro sobre o Nem da Rocinha critica política de guerra às drogas.

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Os caminhos da cocaína desde que a folha da coca é colhida por camponeses latino-americanos até chegar às narinas dos exigentes consumidores da Europa ou dos Estados Unidos deixam um rastro de morte no terceiro mundo. E o Brasil, com seus 50.000 homicídios anuais, não é exceção.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Não se trata, no entanto, de óbitos provocados pela overdose da droga. São uma consequência direta das infinitas batalhas por rotas e mercados, embates travados em nome da chamada “guerra às drogas”.

Crítico da política proibicionista liderada por Washington e Europa e imposta aos países produtores e distribuidores, o jornalista inglês Misha Gleeny, que já mergulhou na rede do crime organizado transnacional em McMáfia (Companhia das Letras), agora aborda a o impacto do “fracasso da guerra às drogas” na vida de um indivíduo em particular: o traficante de drogas Nem da Rocinha.

Sua história é contada no livro O Dono do Morro: Um homem e a batalha pelo Rio (Companhia das Letras). O autor, que estará na Feira Literária Internacional de Paraty este ano, conversou com o EL PAÍS no final de junho.

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Pergunta. Qual a diferença entre o traficante que atua na favela, como o Nem, e o grande traficante, como o mexicano El Chapo Guzmán?

Resposta. Existem dois tipos básicos de traficantes no Brasil. O primeiro são os traficantes como o Nem, que atuam na ponta do varejo e distribuem a droga nas áreas urbanas ao longo da costa brasileira. A cocaína vem da Bolívia, Peru ou Colômbia, e parte dela é entregue nas cidades, levada pelos matutos. Eles se encarregam de levar a droga na mochila, de ônibus ou carro, e são parte fundamental do abastecimento das cidades. Cerca de 50% da droga vendida no varejo é entregue para as facções criminosas pelos matutos, que são pessoas de diversas nacionalidades, e não são especialmente ricos.

O Nem, no contexto doméstico do tráfico de drogas do Rio de Janeiro, era uma figura muito importante. Mas o papel do Nem não tem nada a ver com o papel do El Chapo Guzmán no México, por exemplo. O Chapo faz parte do segundo tipo de traficante, que atua no atacado, que abastece os mercados mais ricos. Esse segundo perfil também existe no Brasil, só que os Chapos do Brasil não têm a mesma origem social que o mexicano, que nasceu em um bairro pobre. Quem faz esse serviço no Brasil costuma ser pessoas de classe média e classe alta que têm negócios legítimos operando, geralmente nas áreas de transporte e agricultura. Acontece que os lucros desses negócios são multiplicados quando eles utilizam essa rede de logística para transportar toneladas de cocaína através do país. Já descobriram carregamentos de cocaína dentro de carne bovina brasileira que seria exportada pra Espanha, por exemplo.

As drogas atravessam o Brasil e deixam o país principalmente pelos portos de Santos e do Rio de Janeiro, e são vendidas no atacado para uma variedade de destinos como países do oeste da África, Espanha, os Balcãs, Holanda e Irlanda. Essa é a função primária do Brasil no mercado global da cocaína: entregar a droga das áreas de produção em grandes quantidades para outros países.

P. São perfis completamente distintos de traficantes no atacado e no varejo…

R. Esses dois perfis de traficantes tem muito pouco a ver entre si. Os lucros do negócio doméstico do tráfico de cocaína que abastece o Brasil – o país é o segundo maior consumidor de cocaína do mundo – não chegam nem perto do negócio de exportar a cocaína para a Europa. As margens de lucro crescem exponencialmente com a exportação.

O perfil social dos envolvidos no tráfico do atacado no Brasil não tem nada a ver com a figura do bandido morador de favela que existe no imaginário da população.
O perfil social dos envolvidos no tráfico do atacado no Brasil não tem nada a ver com a figura do bandido morador de favela que existe no imaginário da população. A única pessoa que circulou pelos dois mercados, atacado e varejo, foi o Fernandinho Beira-Mar, do Comando Vermelho [o traficante foi preso em 2002 na Colômbia, e havia construído uma rede de contatos com guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia para comprar e exportar a droga pelo Brasil].

P. Qual a marca da gestão do Nem na Rocinha?

R. A Rocinha é uma favela muito fácil de defender, ela tem praticamente duas entradas, uma na parte alta e outra na baixa. Isso significa que o Nem não precisou investir tantos recursos na defesa da favela, em armas. Ele pode simplesmente investir mais recursos no negócio da cocaína, e ele aliou isso a uma redução da violência e do uso ostensivo de armas na comunidade. Isso fez com que as pessoas se sentissem seguras para comprar a droga lá, ele atraiu muitos consumidores de classe média que se abasteciam lá por saber que a favela era pacífica.

Logo o faturamento bruto do tráfico subiu muito sob sua gestão. E ele investia parte desses recursos em duas outras coisas: primeiro na comunidade. Para que ela se sinta cuidada, feliz, próspera, ele injetava dinheiro na favela e fez com que a economia local florescesse. E, em segundo lugar, usava o dinheiro para corromper a polícia. Investigadores me disseram que ele tinha informantes na Polícia Civil e na Militar, gente de médio escalão, que o alertava sobre batidas e operações na Rocinha. Tudo isso para garantir seu poder político na comunidade.

P. A impressão que se tem ao ler o livro era de que o Nem era um traficante que evitava a violência. Isso não é romantizar um criminoso?

R. Eu não falei somente com o Nem para escrever o livro. Falei muito com os investigadores e delegados da Polícia Civil que monitoravam ele e a Rocinha. E também com o José Mariano Beltrame, secretário de Segurança Pública do Rio. Todos foram claros: Nem evitou violência sempre que pôde. O pilar de sustentação dele era a corrupção. Esse era seu mais importante instrumento para consolidar o poder na Rocinha e seus negócios. Isso quem diz é o Beltrame e os policiais, não os moradores.

O pilar de sustentação dele era a corrupção, esse era seu mais importante instrumento para consolidar o poder na Rocinha e seus negócios
P. No livro você fala sobre a diferença entre a imagem construída pela imprensa sobre o Nem e a visão que os moradores da Rocinha tinham dele. Por que essa diferença?

R. Foi muito interessante. Eu estava no Rio em 2011 quando o Nem foi preso. Foi um evento público, um acontecimento. E foi impressionante como ele foi considerado herói por metade da cidade e um demônio pela outra. Para mim isso refletiu não apenas a divisão da sociedade carioca, mas também da sociedade brasileira como um todo. Dentro da Rocinha o apoio a ele é enorme. Eu morei lá por três meses, falei com muita gente sobre os tempos do Nem. Eles dizem “sim, ele fez algumas coisas erradas, mas a violência era muito menor, a economia prosperava e todos tinham acesso a ele”. Hoje em dia os moradores têm muito mais medo…

P. A Rocinha está pior agora com a Unidade Policial Pacificadora (UPP) do que nos tempos do Nem?

R. A situação lá agora é pior. A UPP está entrando em colapso no Rio. A monumental crise política, econômica e constitucional pela qual o país passa complica muito a situação da segurança pública. O impacto disso no Rio é enorme. Semanas atrás houve tiroteio na Rocinha. O Complexo do Alemão é uma catástrofe. Assim como outras favelas com UPP. No final de junho houve o resgate do Fat Family [apelido do traficante Nicolas Labre Pereira de Jesus] de um hospital do centro do Rio… Tudo pode acontecer a qualquer momento. E no Rio ninguém sabe o que vai acontecer durante os Jogos. Ninguém arrisca fazer uma previsão. Acho que o Governo do Estado vai alocar recursos suficientes para a segurança até o fim dos Jogos Olímpicos, mas depois disso…

P. Por que o Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa baseada em São Paulo mas com presença nacional, não se consolidou no Rio de Janeiro?

R. O PCC olha para o Rio e diz “obrigado, mas não obrigado”. A situação lá é um caos. E é uma consequência da geografia do Rio, as facções são muito ligadas ao território. E a hostilidade entre elas é profunda. Aparentemente o PCC decidiu manter relações comerciais com as três: Comando Vermelho, Terceiro Comando Puro e Amigos dos Amigos. Acho que o PCC gostaria de ter uma posição mais forte no Rio, mas devem ter avaliado que não vale a pena, a violência e a hostilidade são muito grandes.

P. Qual o efeito da política proibicionista com relação às drogas nos países produtores de cocaína e maconha?

R. Você tem três zonas do negócio da cocaína. As áreas produtoras, que são Colômbia, Peru e Bolívia; as zonas de distribuição, que são Brasil e México; e você tem os polos de consumo, que geralmente são países desenvolvidos do mundo ocidental. Como os Estados Unidos, que têm 5% da população mundial e responde por 40% do consumo global de cocaína. E Europa. Sempre que você se torna parte da rota da droga e entra para a zona de distribuição, você desenvolve seu mercado interno. E invariavelmente a situação sai do controle, porque há muita droga entrando no país, lucros astronômicos a serem obtidos e as forças policiais não têm a estrutura e os recursos para reagir. Na prática o Estado não tem condições de vencer a chamada guerra contra as drogas.

No Brasil ocorrem mais de 50.000 homicídios por ano, é o mais violento em números absolutos. E de acordo com pesquisas, mais de 50% dessas mortes são consequência direta da guerra às drogas.
E aí essa guerra se torna uma parte muito importante, mas ilegal da economia. E por ser ilegal, as armas acabam fazendo parte fundamental do negócio. No Brasil ocorrem mais de 50.000 homicídios por ano, é o mais violento em números absolutos. E de acordo com pesquisas, mais de 50% dessas mortes são consequência direta da guerra às drogas. E não é gente que morreu de overdose: é gente que teve a garganta cortada, foi assassinada. E isso é responsabilidade de quem formula essa política ocidental de combate às drogas. Precisamos desesperadamente de reformas nas leis de droga.

P. Você vislumbra uma reforma nessa política de drogas num futuro próximo?

R. Sim. Uma das razões pelas quais estamos vendo apoio a essas reformas vindo do México e da Colômbia, por exemplo, e também em menor escala no Brasil, é porque são mexicanos, colombianos e brasileiros que estão pagando o preço em vidas humanas por uma política falida implementada por Washington. Mas à medida em que os Estados Unidos, Canadá e partes da Europa começam a fazer parte da zona produtora, num processo lento mas constante, com grandes plantações de maconha no Canadá e nos EUA, por exemplo, eles não querem a violência associada à guerra às drogas em suas ruas. Por isso nestes países cresce o apoio às reformas na legislação.

P. As experiências do Uruguai e do Colorado, que legalizaram a maconha para uso recreativo, são positivas?

R. O Colorado, no seu primeiro ano da legalização da maconha, coletou 76 milhões de dólares em impostos, valor duas vezes maior do que o arrecadado com impostos sobre bebidas alcoólicas. Eles perceberam que há muito dinheiro a ser feito aqui.
Gil Alessi/ElPais

Por que mulheres ficaram contra a vítima de estupro coletivo no Rio?

Dupla de advogados tenta responder por que parte da sociedade ainda culpa a jovem pelo crime.
Estupro,Brasil,Crime,Machismo,Violência contra mulher,Blog do Mesquita

Manifestação em São Paulo na quarta-feira contra o machismo e em protesto ao estupro coletivo de uma jovem de 16 anos no Rio. M. SCHINCARIOL AFP

“A cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil e a culpa nunca é da vítima”. A voz, saída de um megafone no entardecer na avenida Paulista na última quarta-feira, deu início a uma marcha – de mulheres em sua maioria – contra o machismo e em protesto ao estupro coletivo de uma jovem de 16 anos ocorrido no Rio de Janeiro na semana passada.

A segunda informação da frase que abriu a marcha – “a culpa nunca é da vítima” – deveria ser óbvia. Mas não é.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

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Alguma vez um desconhecido tocou você sem seu consentimento?

Assim que a notícia sobre o estupro da adolescente começou a ser veiculada na imprensa, a sociedade se dividiu entre os que condenaram o crime e os que culparam a garota pelo ocorrido. Mulheres, inclusive, atribuíram à vítima a responsabilidade pelo crime.

Em busca de tentar entender por que parte da sociedade ainda culpa a vítima por um crime como esse, incluindo mulheres que não se solidarizam com a dor da vítima, a advogada Verônica Magalhães de Paula e o delegado e professor da Unisal, Eduardo Cabette, publicaram o estudo “Crime de estupro: até quando julgaremos as vítimas?”. A publicação é de 2013, mas para o nosso azar, o tema é atemporal.

E com séculos de história. De acordo com o texto, “mesmo em plena aurora do século 21, as mulheres ainda são julgadas como na Idade Média, onde somente a mulher honesta e virgem poderia ser vítima de crime de estupro e desde que também ficasse comprovado que ela havia lutado e gritado por socorro, pois o silêncio da vítima significava o consentimento do ato praticado”.

Para Verônica de Paula, parte da sociedade julga a vítima por ela não se enquadrar nos padrões idealizados da mulher correta, aquela que é casada e cuida do marido e dos filhos. “Somos educadas desta forma”, diz. “A mulher tem que ser submissa, recatada, falar baixo, sair de casa apenas para ir ao trabalho, no máximo”.

O estudo compara dois casos que ocorreram em 2012. Um, aqui no Brasil, de duas adolescentes de 16 anos que foram estupradas por seis integrantes de uma banda de pagode, a extinta New Hit, na Bahia. Na época, houve protestos contra a prisão dos criminosos. As vítimas foram ameaçadas de morte e tiveram que entrar no Programa de Proteção à Criança e ao Adolescente Ameaçados de Morte, assim como a vítima do estupro no Rio de Janeiro de duas semana atrás.

O outro caso foi o de uma mulher de 23 anos que sofreu um estupro coletivo na Índia, quando voltava para a casa, em um ônibus. Ela não resistiu aos ferimentos – foi perfurada internamente – e morreu. Milhares de pessoas em todo o mundo ficaram chocadas com o crime, e na Índia, foram às ruas por leis mais rígidas e maior proteção para as mulheres. Os criminosos quase foram linchados pela população indignada. A história é contada no documentário .

“Mesmo em plena aurora do século 21, as mulheres ainda são julgadas como na Idade Média, onde somente a mulher honesta e virgem poderia ser vítima de crime de estupro”

O que diferencia um episódio do outro? Segundo os autores do estudo, a jovem indiana era vista como uma mulher honesta. Voltava da Universidade quando foi abordada. Estava coberta dos pés à cabeça. Não pediu para ser estuprada.

Já as garotas na Bahia não deveriam estar naquele local, assistindo a um show de uma banda com letras de duplo sentido e com coreografias de conotação sexual. Com essas atitudes, elas estavam sujeitas a passar pelo que passaram. Ou pior: pediram para ser estupradas.

No ano passado, a Justiça condenou os integrantes da banda a 11 anos e oito meses de prisão, mas coube recurso e eles respondem em liberdade.

O pré-julgamento da vítima se repete agora, três anos depois, com o caso da jovem no Rio de Janeiro. Muitas pessoas usaram o argumento de que a garota era usuária de drogas, frequentava o morro e usava roupas curtas para culpá-la pelo crime do qual foi vítima.

Assim como as meninas na Bahia, ela não deveria estar em um baile funk. “Culpamos a vítima porque partimos do pressuposto de que a mulher não pode ter uma vida sexual ativa”, disse Eduardo Cabette, o co-autor do estudo.

Segundo Cabette, se a vítima em questão fosse uma garota de classe média, usando roupas compridas, o tratamento do público seria diferente. Mas, perante à lei, alerta Cabette, isso não faz – ou não deveria fazer – nenhuma diferença.

“A população pode até pensar diferente, mas juridicamente, se a mulher é uma prostituta, por exemplo, e no meio do programa ela decide não continuar a relação e o cliente a força a seguir em frente, ela pode ser vítima de estupro”.

“Culpamos a vítima porque partimos do pressuposto de que a mulher não pode ter uma vida sexual ativa”

O delegado afirma que no caso do crime no Rio de Janeiro, os suspeitos podem ser julgados por estupro de vulnerável, se for comprovado que a garota estava desacordada quando o crime ocorreu. “E esse crime tem pena mais grave que o crime de estupro comum, aliás”, diz. “Não importa se ela se drogou ou se a drogaram”.

“A culpa é da crise”

O secretário de Segurança Pública de São Paulo, Mágino Alves Barbosa Filho, afirmou ao jornal O Estado de São Paulo que a crise econômica é uma das culpadas do crime de estupro coletivo ocorrido no Rio, assim como outros crimes dessa espécie. “Muita gente cai em depressão porque perdeu o emprego e começa a beber. E aí termina perdendo a cabeça e praticando esse tipo de delito. Não estou falando que é a principal causa, mas uma das causas com certeza é essa aí”, afirmou, em entrevista publicada na sexta-feira da semana passada.

A ideia de que o criminoso que pratica o estupro está fora de si, ou mesmo é um doente, é duramente condenada por feministas. No estudo de Cabette e Verônica, há uma menção à visão distorcida da condição desse homem na sociedade: “A vítima sempre será aquela mulher promíscua de moral duvidosa ou o estuprador será um homem “anormal”, com perturbações mentais e a moral distorcida, que não consegue conter seus instintos animalescos”, diz o texto.

“Esse mecanismo de proteção impede que as pessoas aceitem que não há um perfil específico de vítima e que o agressor pode ser o homem honesto, trabalhador, pai de família”, concluem os advogados.

Na mesma semana em que o secretário deu a entrevista ao Estadão, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo divulgou um levantamento apontando que apenas 30% dos casos de estupro registrados pela polícia são cometidos por pessoas desconhecidas. Ou seja, de cada dez casos de estupro que a polícia tem conhecimento, sete são cometidos por uma pessoa que tem algum vínculo com a vítima.

A maioria das vítimas tem entre 12 e 17 anos, de acordo com o Mapa da Violência. Um caso notório que ilustra esse perfil aconteceu no interior de São Paulo. O delegado de Itu Moacir Rodrigues de Mendonça estuprou sua neta em um hotel, durante uma viagem familiar, forçando-a a ato sexual, segundo relato da vítima.

A jovem, de 16 anos, só o denunciou semanas depois do ocorrido, em setembro de 2014. Atônita com a investida do avô, a jovem ficou atordoada com o ocorrido e não contou para ninguém o crime. Ela chegou a tentar o suicídio, mas foi impedida pelo padrasto. Só então revelou a verdade para a mãe, que levou o caso à Justiça.

Mendonça ficou preso por um ano e seis meses aguardando julgamento do caso, mas conseguiu liberdade no mês passado porque um juiz de Olímpia, onde ocorreu o ato sexual, entendeu que houve consenso da vítima. Não há prova segura e indene de que o acusado empregou força física suficientemente capaz de impedir a vítima de reagir. A violência material não foi asseverada, nem esclarecida.

A violência moral, igualmente, não é clarividente, penso”, escreveu o juiz Luiz de Abreu Costa, que em nenhum momento questiona o fato de um avô ter tido relações sexuais com uma neta menor de idade.

O fato ilustra como a cultura do estupro está arraigada até mesmo na leitura de representantes da Justiça. No último dia 26, o Ministério Público de Olímpia recorreu da sentença do juiz.
Marina Rossi/El Pais

Olimpídas: Tiro na favela. Esporte olímpico na Rio 2016?

A cem dias dos Jogos no Brasil, moradores das favelas do Rio de Janeiro sofrem o aumento da violência policial.

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Vitor Santiago Borges, ferido pela polícia, com sua mãe no complexo da Maré. AF Rodrigues

Por Angel Gonzalo da Anistias Internacional *
Conheci Vitor Santiago Borges, de 30 anos, prostrado em sua cama, em um quarto de dois metros por três no qual nos apinhávamos –eu, sua mãe (sentada em uma cadeira) e quatro colegas da Anistia Internacional (espalhados no pouco espaço livre que havia no chão).[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Vive com os pais em uma humilde casa da comunidade de Vila do Pinheiro, pertencente ao Conjunto de Favelas da Maré, no Rio de Janeiro, em um primeiro andar com degraus íngremes.

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Vitor ficou paraplégico depois que um grupo de soldados das Forças Armadas que ocupavam a Maré atirou no carro no qual voltava para casa, com quatro amigos, em 13 de fevereiro de 2015. A cama em que agora tem de passar todo o dia foi doada por sua comunidade. A cadeira de rodas, também. Não recebeu nenhuma indenização do Estado.

Eram duas da madrugada e os rapazes (um deles, militar) regressavam depois de ver uma partida de futebol de seu time, o Flamengo. Os cinco viajavam em um carro que cruzou sem problemas um primeiro posto de controle do Exército.

Seguiu avançando e, de repente, se escutaram os disparos. “Não lembro de nada. Somente o ruído dos tiros. E a dor que senti. E o sangue, claro. Muito sangue.” Não sabe quantos foram os tiros, mas que apenas cessaram quando seu amigo, sargento da Aeronáutica, conseguiu identificar-se.

Vitor foi atingindo por pelo menos duas balas de fuzil. Uma o acertou na coluna vertebral e outra se manteve alojada na parte posterior do ombro, e ali ficou durante vários meses depois de ser operado e receber alta.

Sua mãe a mostra para nós, envolta em uma bolsinha de plástico. Ele nos aponta os orifícios de entrada, ainda visíveis em seu torso nu. Como consequência dos disparos, perdeu a perna esquerda e parte do pulmão esquerdo. Quando chegou ao hospital os médicos lhe deram 7% de chance de sobrevivência. Conseguiu, mas só depois de passar uma semana em coma e mais de três meses no hospital.

Se não tivessem atirado nele, no dia seguinte teria ido à praia com a filha Beatriz, que então tinha dois anos. Havia prometido a ela, mas não pôde cumprir a promessa. Só sorri quando fala dela e nos mostra sua fotografia, em destaque em sua cama. Mal pode levantá-la desde que está nessa situação.

Um dos outros filhos de Irone, sua mãe, lhe telefonou e informou do tiroteio. “Por quê? Meu filho não é um bandido. Por quê? Não é possível. Vitor é um bom garoto. É músico e muito trabalhador. Nunca se meteu em confusão.”

A versão das autoridades difere da de Vítor. Afirmam que o carro no qual viajava quis atropelar um soldado que tentava bloquear sua passagem. De concreto, apresentaram acusações contra o condutor do veículo.

O amigo militar de Vitor nega essa versão. Vitor passou de vítima de um tiroteio a testemunha de uma tentativa de atropelamento. O mundo de cabeça para baixo.

Assim são as coisas na Maré. Ao contrário de outras favelas, não está localizada num morro, mas na parte plana e se assemelha a qualquer bairro marginal de qualquer outra grande cidade latino-americana. No entanto, é um dos maiores conjuntos de favelas do Rio de Janeiro.

Ali vivem cerca de 140.000 pessoas com poucos recursos e escasso acesso a serviços básicos, distribuídas em 16 comunidades. Suas ruas e acessos estão controlados por bandos de traficantes, forças de segurança ou paramilitares organizados em milícias. A maioria da população sobrevive como pode a essa situação. Há um clima assustador de violência e drogas em plena luz do dia.

Essa rede de submoradias se situa no norte, junto à principal via de acesso do aeroporto internacional ao centro. Foi ocupada em abril de 2014 por 2.700 soldados da Força de Pacificação, unidade federal. Chegaram “para garantir a lei e a ordem” pouco antes da celebração da Copa do Mundo de futebol em meados de 2014.

O Mundial durou um mês. Os militares permaneceram ali um ano e dois meses. Além das Forças Armadas e da Polícia Militar, existe uma corporação específica para recuperar o controle do Estado em territórios onde o narcotráfico e as milícias ditam suas normas paralelamente às instituições.

Trata-se das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) e fazem parte da paisagem de dezenas de favelas do Rio desde 2008. No entanto, para os moradores seus resultados não são alentadores. As operações policiais para pacificar zonas de elevada criminalidade só se justificam se podem garantir os direitos de todos os cidadãos, a começar pelos moradores dos bairros marginalizados, algo que não tem ocorrido.

Organizações de defesa dos direitos humanos, como a Anistia Internacional, criticam a permanência do Exército e da Polícia Militar nas favelas. O que conseguiu foi aumentar as violações de direitos humanos e militarizar a vida cotidiana em algumas das comunidades mais pobres. As Forças Armadas não contam com formação adequada para esse tipo de operação e têm pouca experiência em dialogar com a sociedade civil.

Podia ter acontecido com qualquer um. Mas aconteceu comigo. E destruíram a minha vida

O Brasil possui uma das cifras de homicídios mais elevadas do mundo. Talvez por isso a mãe de Vitor considere que seu filho teve sorte. Entre 2005 e 2014 foram registrados 5.132 casos de homicídios cometidos por agentes que estavam em serviço no Rio.

Em 2015, foram pelo menos 307 as pessoas que morreram em mãos dos agentes em operações policiais. Desde o início de 2016 os homicídios resultantes de intervenções policiais na cidade aumentaram 10% e estamos a apenas 100 dias da inauguração dos Jogos Olímpicos.

Embora não seja possível relacionar diretamente este aumento dos homicídios policiais com os preparativos desse megaevento esportivo, os dados estatísticos põem em relevo um padrão inequívoco de uso excessivo da força, violência e impunidade que obscurece o trabalho das instituições de segurança pública.

“Os que vivem aqui são todos suspeitos. Isso não é justo. Poderia ter acontecido com qualquer um. Mas aconteceu comigo. E destruíram a minha vida”, lamenta Vitor.

*Ángel Gonzalo é jornalista de Anistia Internacional na Espanha. Em março de 2016 participou, junto a uma equipe da organização, de uma visita a algumas favelas do Rio de Janeiro. Ali entrevistou associações de direitos humanos e vítimas de violência das forças de segurança.

As favelas se levantam contra a violência policial

Não é notícia que no Rio do Janeiro os principais indicadores de segurança tenham piorado de forma alarmante no último ano.

Quatro ônibus foram incendiados neste sábado em Niterói. / AGÊNCIA O GLOBO

Mas é notícia que os moradores das favelas, cansados de pagarem a conta das intervenções policiais indiscriminadas contra as quadrilhas de traficantes e das tristemente populares balas perdidas, tenham decidido romper o silêncio e encarar um Estado que historicamente os trata como cidadãos de segunda. Uma imagem que vem sendo habitual nos últimos meses é a de grupos de moradores de diferentes favelas cariocas interrompendo o tráfego de ruas e avenidas, incendiando ônibus e veículos públicos, montando barricadas ou recebendo a polícia a pedradas. As fotos são muito claras: nelas se observam mulheres e homens de idade avançada, mães e jovens sem armas de fogo que, estimulados pelas permanentes manifestações que se estendem pelo Brasil, lançam agora um grito de cansaço desesperado, contido durante décadas.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Nas imediações da favela do Caramujo, em Niterói, os moradores interromperam uma rodovia nesta sexta-feira e atearam fogo a quatro ônibus e três carros em resposta a duas mortes registradas nas últimas horas na mesma região. Pouco depois de deixar a igreja de Nossa Senhora de Nazaré, Anderson Santos Silva, de 21 anos, se viu encurralado em um fogo cruzado entre narcotraficantes e policiais que pretendiam reprimir um baile funk que acontecia naquela noite na favela. Ao tentar proteger a seus familiares do tiroteio, Anderson recebeu um disparo e morreu horas depois. Sua irmã também ficou ferida. O jovem Emanoel Gomes circulava de moto pelo mesmo subúrbio quando foi atropelado por um blindado do Batalhão de Choque da Polícia Militar. Ambas as mortes levaram um nutrido grupo de moradores a tomar a justiça nas próprias mãos, incendiando ônibus e carros e interrompendo o trânsito. Protestavam contra uma polícia que parece retornar aos velhos hábitos de perseguição e destruição dos traficantes, geralmente agindo sem muitos melindres com a população local.

ONG Rio de Paz resumiu as estatísticas publicadas durante os últimos oito anos (2007-2014) pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio do Janeiro. E os números são alarmantes: no Estado de Rio, foram registados neste período 35.879 homicídios dolosos, 285 lesões corporais seguidas de morte, 1.169 roubos seguidos de morte, 5.677 mortes derivadas de intervenções policiais, 155 policiais militares e civis mortos em ato de serviço. Total: 43.165 falecidos. Ou seja, mais de 500 mortes por mês provocadas por uma violência desmedida. Esses números não levam em conta os mais de 38.000 desaparecidos nem as mais de 31.000 tentativas de homicídio.

No Complexo da Maré, recém-ocupado pelo Exército brasileiro, também foram registrados nos últimos dias duas mortes de civis suspeitos de trabalharem para o narcotráfico. O fato gerou uma onda de indignação entre os moradores do complexo, que não entendem como uma ocupação militar com fins pacificadores pode começar causando vítimas mortais desde o primeiro momento. Claudia Silva Ferreira, a mulher de 38 anos que no último dia 16 de março morreu vítima de balas perdidas numa favela da zona norte do Rio e que, para maior escárnio, foi arrastada ao longo de 250 metros por um veículo da Polícia Militar que a levava para ser atendida em um hospital, se tornou outro dos ícones dos últimos tempos contra a violência policial. A morte de Claudia também desatou a ira dos moradores e uma enxurrada de críticas à polícia nas redes sociais.

No começo de abril, um grupo de moradores da favela do Cantagalo, no rico bairro de Ipanema, desceu do morro, interrompeu as ruas e incendiou caçambas de lixo depois que dois dos seus moradores ficaram feridos a tiros. Nas imediações da favela de Vila Kennedy, outro grupo de cidadãos interrompeu no fim de fevereiro a movimentada Avenida Brasil. A morte de um morador em um confronto armado entre policiais e narcotraficantes foi igualmente o estopim da fúria coletiva. Dias depois, o Batalhão de Operações Especiais ocupava a mesma comunidade para sua futura pacificação.

Mas o caso que mais rios de tinta e mais protestos gerou foi o do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, torturado até a morte e desaparecido por um grupo de policiais pacificadores na favela da Rocinha. A pressão gerada pelos constantes protestos e mobilizações organizados pelos moradores da maior favela do Rio conseguiu algo inédito até hoje: que os responsáveis tenham sido identificados e estejam respondendo perante a Justiça. Enquanto isso, as operações policiais continuam ocorrendo nas favelas do Rio, a menos de dois meses do início da Copa do Mundo. Nelas, registram-se mortos e feridos, mas raramente a polícia se responsabiliza por eles.
FRANCHO BARÓN/Rio de Janeiro para El País

Tópicos do dia – 26/12/2011

08:34:21
“É só para intimidar!”
Essa é a opinião do Senador Demóstenes Torres sobre a “investigação da conduta” da Ministra Eliana Calmon.

09:16:43
Estatísticas, bolo Luis Filipe e riqueza.
Saiu na mídia.
Os seis países mais ricos do mundo hoje: 1º EUA, 2º China, 3º Japão, 4º Alemanha, 5º França e 6º Brasil.
Pergunto: quem fez “o apurado” dessas riquezas Tupiniquins já esteve na favela Pantanal em Fortaleza?
Estatística é assim. Há um bolo, “Luiz Filipe”, por exemplo. Eu lhe dou uma fatia. Então a estatística comprova que cada um de nós tem 50% do bolo.

11:52:28
Fila de supermercado e delicadeza.
Chego agora de supermercado. Como sempre quem está atrás, na fila, ou quer nos atropelar, ou é mal educado mesmo.
Ou ambos. Lembro Nelson Rodrigues:
“Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza”.

14:30:47
Sony e Tiririca condenados por racismo.
Por 5 a 0, a decisão do TJ RJ, com cinco desembargadores, que remete para 1.200 (hum mihao e duzentosmil) a indenização a ser paga por SONY MUSIC à entidades de mulheres negras lideradas por CRIOLA, e outras, por conta da musica “Essa negra fede”, de autoria do palhaço e deputado federal Tiririca.
A Sony já depositou 600 mil. Faltam os outros 600.
Como advogado das entidades de mulheres negras só posso me congratular com o TJ RJ por estabelecer “a maior indenização por racismo da história do Brasil, pequena ainda se comparada com outros segmentos de dano moral, por exemplo”.
Parabenizo o Dr. Fernando Cabral, jovem e brilhante advogado que me representou no julgamento.

fonte: Geledés Instituto da Mulher Negra/Humberto Adami
Existem petições/ofício a serem juntados ao processo
Data : 07/12/2011   Protocolo : 2011.400349


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Eleições 2010: o incômodo silêncio de Serra e Dilma

Enquanto os partidários de José Serra e Dilma Rousseff se ocupam em distribuir acusações e ataques abaixo da linha da cintura, os Tupiniquins que habitam o patamar acima da sarjeta aguardam que os dois principais candidatos digam que soluções têm para os principais problemas do Brasil.

Tempo suficiente já transcorreu para que ambos já tivessem esboçado algum discurso minimamente consistente.

O Editor


Continuam devendo

José Serra e Dilma Rousseff estão em campanha aberta, percorrendo o país, mas continuam devendo definições concretas sobre montes de problemas nacionais. Por exemplo:

Farão o quê, diante da ocupação desordenada de terrenos nas grandes cidades, da favelização próxima da tragédia tantas vezes repetida? São favoráveis a retirar as populações dos morros e das encostas onde há risco de desabamentos?[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Como promoverão a reforma tributária, capaz de retirar o Brasil da condição de país onde os mais altos impostos são cobrados de ricos e pobres?

Prosseguirão na política de abandono dos aposentados, nivelando por baixo a grande massa dos que trabalharam a vida inteira e acabam postos na pobreza?

O que fazer diante do crescimento da violência e da criminalidade? Agirão para mudar o Código Penal e o Código de Processo Penal, reduzindo benefícios para autores de crimes hediondos ou reincidentes? Admitem a pena de prisão perpétua para os irrecuperáveis?

E a impunidade, será obstáculo intransponível? Como diminuir a corrupção generalizada?

Diante da especulação financeira, continuarão protegendo os bancos e seus lucros estratosféricos?

Destas e de quantas outras questões os candidatos permanecem em silêncio?

Carlos Chagas/Tribuna da Imprensa

O Morro do Bumba, o Conde D’Eu e O Cortiço de Aluísio de Azevedo

O cortiço
David Coimbra

Ao caminhar por entre as artérias do Monumento ao Holocausto, no coração de Berlim, a cada passo aumentava minha admiração pelos alemães. Ali estava um povo que não se esquivava de suas culpas. Ao contrário, as purgava em público e em voz alta.

Os mesmos passos me faziam pensar nos brasileiros. Nós aqui, ao que parece, não nos aflige culpa alguma. Do que o brasileiro se envergonha, afora a derrota na Copa de 50? Pois é. Mas nós temos do que nos envergonhar. Temos também o nosso nazismo. O nosso holocausto.

Chama-se escravidão.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão, mas nem ao aboli-la lavou-se de sua desonra. Agora mesmo, no Rio de Janeiro flagelado, lateja essa dor. Pois quem são esses que morrem sufocados pela terra que se desprende dos morros cariocas? Descendentes de escravos e ex-escravos expulsos do Centro quando o Rio se transformou no que hoje é.

Você leu O Cortiço, de Aluísio Azevedo? Bom livro. Não devia ser obrigatório nas escolas, devia ser tratado como romance para iniciados. O Cortiço conta a história de um imigrante português que, como se dizia então, “amasiou-se” com uma escrava para somar suas economias às dela. Juntos, os dois e seus dinheiros, melhoraram a bodega dele e investiram em quartos de aluguel. Montaram um cortiço aos moldes de tantos que havia no Rio do século 19, o mais célebre deles chamado Cabeça de Porco, de propriedade do Conde D’Eu, ilustre marido da Princesa Isabel. O que não deixa de ser irônico – entre os 4 mil moradores do cortiço do marido, havia inúmeros ex-escravos libertados pela esposa.

Essa gente não teve mais onde morar a partir do começo do século 20, quando a prefeitura do Rio botou abaixo os cortiços. O prefeito Pereira Passos, inspirado nas reformas feitas em Paris décadas antes, rasgou avenidas, abriu largos arejados, mudou a face da cidade. Os moradores dos cortiços, muitos deles, foram para a zona norte. Outros, que precisavam morar perto do Centro, onde trabalhavam para os senhores brancos e bem alimentados, esses ficaram por perto: subiram os morros do entorno, construíram casebres com as sobras das demolições protagonizadas por Pereira Passos, formaram as favelas como as conhecemos.

Essa gente pingente das favelas não foi libertada da escravidão; foi atirada à liberdade. Para eles, nunca houve planejamento, muito menos investimento. Hoje, Lula dá certa atenção a esses desgraçados. Não é o ideal, claro que não. Porque não é uma ajuda estratégica; é uma ajuda tática. Mas, ao menos, é algo. Para quem não tinha nada, talvez seja muito. Por isso, Lula foi amassado pela vaia do Maracanã, na abertura do Pan em 2007. Vaiaram-lhe os brancos e bem alimentados, os moradores da planície, que olham para o alto, para o morro, com medo.

Hoje, os brancos e bem alimentados da planície olham de novo para o morro. Aquela gente parda, aquela gente que passa os dias de bermuda e sem camisa, que mora em barracos construídos com pedaços de qualquer coisa, aquela gente teima em chamar a atenção. Às vezes roubando, às vezes matando e às vezes, como agora, morrendo. Inconvenientes, é o que são. Vivem a nos lembrar que em nós, também, pode haver culpa.

Fonte: http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2866966.xml&template=3916.dwt&edition=14457&section=70