“A revolução dos bichos” de Orwell: quem são os porcos?

Obra do jornalista e escritor britânico aborda a revolução soviética de forma satírica. Apesar de ter sido escrito nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial, romance segue mais atual do que nunca, 75 anos depois.

Cartaz promovendo a versão animada de “Animal Farm”

A fábula de George Orwell se passa numa fazenda: “O Sr. Jones, proprietário da Granja do Solar, fechou o galinheiro à noite, mas estava bêbado demais para lembrar-se de fechar também as vigias”.

É com palavras simples que o britânico George Orwell (1903-1950), cujo nome verdadeiro era Eric Arthur Blair, começa sua narrativa sobre os animais de uma fazenda que planejam uma revolução contra o proprietário explorador. O mestre da crítica social jamais poderia imaginar que A revolução dos bichos se tornaria um clássico da literatura política.

Orwell escreveu o livro entre fins de 1943 e 1944. Em seu país natal, porém, ele não encontrou nenhuma editora que o publicasse, pois o que a princípio parecia uma história infantil inofensiva era, na verdade, uma sátira sombria e uma dura acusação contra a ditadura de Stalin na União Soviética.

E como a URSS era aliada do Reino Unido contra a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial ainda em curso, a publicação de tal história não parecia nada oportuna. Em 1945, Animal Farm foi finalmente lançada pela Secker & Warburg.

Alguns são mais iguais que os outros

E de que trata a fábula? Com um discurso impressionante, o idoso e respeitado javali Velho Major abre os olhos dos animais da fazenda para a incompetência do proprietário Sr. Jones, um fazendeiro constantemente bêbado, e classifica os humanos como exploradores que precisavam ser expulsos por uma revolução. Mas ele também adverte sobre o risco de se tornar igual aos humanos: “Todos os animais são iguais, independentemente de sua força ou inteligência.”

Quando o Velho Major morre logo após o discurso, os animais aproveitam a oportunidade para expulsar o fazendeiro Jones da fazenda, sob a liderança dos porcos Napoleão e Bola de Neve. No começo, todos os animais governam juntos e tudo fica melhor: eles trabalham duro porque trabalham para si próprios e são solidários uns com os outros.

A Granja do Solar é então rebatizada Granja dos Bichos. Os espertos porcos, porém, logo assumem o comando e gradualmente transformam sua supremacia em ditadura, ofuscando tudo aquilo de que os animais queriam se livrar. Os porcos justificam seu poder com o slogan: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros”.

As diferenças entre humanos e porcos como governantes se diluem no final do romance – também de forma visual. Os outros animais da fazenda não conseguem mais reconhecer quem é gente e quem é porco, ou quem é capitalista e quem é socialista.

A revolução dos bichos descreve o curso de uma revolução condenada ao fracasso. Orwell acreditava que as revoluções são capazes de mudar o poder de mãos. As estruturas sociais básicas, entretanto, permanecem intocadas: os poucos poderosos continuam a explorar uma maioria sem direitos.

O Grande Irmão está de olho em você! Ator John Hurt em cena de uma adaptação cinematográfica de “1984”

CIA compra direitos do filme

A revolução dos bichos foi estritamente proibida na União Soviética e seus Estados-satélites. E no entanto George Orwell era um esquerdista convicto: membro do Partido Trabalhista Independente inglês, que na Guerra Civil Espanhola chegou a lutar nas fileiras do Partido Operário de Unificação Marxista (POUM), um grupo comunista visto como concorrência pelo stalinismo soviético.

A primeira tradução alemã do livro apareceu em 1946. Na República Democrática da Alemanha (RDA), no entanto, o livro extremamente desconfortável permaneceu censurado até a queda do Muro de Berlim e a dissolução da Alemanha Oriental, em 1989, assim como outra obra de Orwell, 1984.

Após a morte de Orwell, em 1950, o serviço americano de inteligência CIA comprou os direitos do filme para ganhar vantagem contra a União Soviética na Guerra Fria. O desenho animado A revolução dos bichos foi produzido no Reino Unido entre 1951 e 1954 por John Halas e Joy Batchelor.

Embora guiando-se basicamente pelo original, o enredo desemboca numa segunda revolução contra o domínio dos porcos. Afinal, em plena Guerra Fria, a CIA dificilmente deixaria capitalistas e socialistas em condição de pé de igualdade, como Orwell fez no final do romance.

Cena do desenho animado “A Revolução dos Bichos”, de 1954

Na adaptação cinematográfica de 1999, John Stephenson mudou o enredo consideravelmente ao incorporar o colapso da União Soviética em 1989 e terminar com um final feliz próprio para crianças: após anos sob o domínio dos porcos, novos humanos reassumem o controle da fazenda. Os animais gritam: “… e finalmente ficamos livres!”

Com seus livros, o jornalista e escritor britânico George Orwell queria chamar a atenção para as mazelas políticas, muitas vezes empregando para tal a forma de sátira. A revolução dos bichos e 1984, publicado em 1949, estão entre suas obras mais famosas. Neste último, ele também demonstrou o que significa viver num Estado autoritário em que há vigilância total e onde os cidadãos são manipulados pela propaganda.

A revolução dos bichos é uma fábula que se encaixa em qualquer sistema totalitário. E que, apesar de seus 75 anos de existência, permanece tristemente atual.

As resistências ao fascismo e ao racismo nos EUA e no Brasil

Quem já leu algo dos chamados “pais da política moderna” passou, inevitavelmente, por Thomas Hobbes e aprendeu que, para os chamados “contratualistas”, não há vida possível sem a existência do Estado.

Seria essa grande e poderosa instituição o ente que protegeria a integridade física de cada súdito e preservaria sua propriedade. Independentemente do regime político defendido pelos autores contratualistas – absolutismo, república popular ou monarquia constitucional – de Hobbes a Immanuel Kant, passando por John Locke e Jean-Jacques Rousseau, o Estado é tido como incontornável. Ele significa “segurança” que se traduz em “previsibilidade”: a confiança de que essa máquina feita de juízes, policiais, militares, carcereiros, procuradores, defensores, coletores de impostos, burocratas e diplomatas se responsabilizaria por manter a “ordem” entendida como “paz”.

Nos Estados Unidos, uma pessoa negra é morta brutalmente, e a população sai às ruas fazendo-as arder, apesar da polícia, apesar da Ku Klux Klan. No Brasil, o assassinato insuportável de pobres, negros ou brancos quase negros de tão pobres, se rotiniza. Quando gera protestos nas favelas, logo a polícia dissipa, o tráfico controla, a milícia gerencia e a esquerda faz posts indignados.

Sem o Estado, os seres humanos resvalariam para a “guerra de todos contra todos”, o “estado de natureza”, situação cruel para Hobbes e Kant, aceitável para Locke, idealizada por Rousseau. O Estado, de todo modo, “pacificaria” os conflitos pela incrível desigualdade na capacidade de exercer a violência: suas forças de segurança, dotadas dos mais poderosos arsenais, seriam capazes de conter, reprimir, intimidar ou eliminar quem ousasse romper as regras de obediência ao Estado, cometendo atos sociais definidos pelo próprio Estado como “crimes”.

Sabemos que o “contrato social” é uma alegoria, uma “história sem História”, uma reflexão retórica sobre um tempo passado supostamente “selvagem” e sem Estado, sucedido pela inauguração da civilização por um “pacto” livre entre os seres humanos. A arqueologia, a história e a antropologia mostraram à exaustão como esse modelo de organização política chamado “Estado moderno” é uma invenção que teve lugar na Europa Ocidental, entre os séculos XIV e XVI. Forjado a ferro e fogo, sobre o cadáver de povos inteiros, os Estados modernos produziram seus próprios discursos de legitimação com o objetivo de ocultar o que Nietzsche chamaria de seus “baixos começos”. Daí as narrativas sobre o direito divino e dinástico dos reis e as teorias do contrato social, baseadas na ideia de que o Estado existiria pela vontade de Deus, por um direito adquirido em tempos remotos ou por esse suposto “contrato” que ninguém fez.

Autores e autoras de diversas perspectivas teórico-metodológicas, como Michel Foucault, Pierre Bourdieu, Eduardo Viveiros de Castro, Manuela Carneiro da Cunha, Judith Butler, Friedrich Engels, Rosa Luxemburgo, Perry & Benedict Anderson, Florestan Fernandes, Franz Fanon, Clovis Moura, nos mostraram a produção histórica, violenta, inconclusa disso que chamamos “Estado”.Trabalho Escravo,Ministério do Trabalho,Brasil,Blog do Mesquita

Mostraram, também, como esse modelo de organização política que centraliza o poder físico da violência e que se mantém pela extorsão sistemática da riqueza social – exatamente como atua uma máfia, segundo o historiador Charles Tilly – expandiu-se junto com as caravelas, canhões, tráficos e pestes levadas pelos europeus aos demais continentes. A “ordem” imposta na Europa por incontáveis massacres, genocídios, caça a hereges, queima de bruxas e guerras entre príncipes foi transposta aos “novos mundos”. Nesses continentes, sociedades diversas, guerreiras ou não, hierarquizadas e escravizadoras de outros povos, ou reunidas em grupos nômades que impediam a formação de Estados foram, uma a uma, derrotadas, exterminadas, sujeitadas. Nada de “contrato livre” entre os povos. Nada de “direito dos povos”.

Na imensa extensão da América do Sul que coube aos portugueses, centenas de diferentes povos foram cooptados, assimilados, mortos, violentados, escravizados, cristianizados, sedentarizados ou obrigados a fugir, embrenhando-se em selvas hostis.

Converter e “civilizar” foi, à época, denominado como “pacificar” os “índios bravios”. Os que não deixaram sua “braveza” foram assassinados. Por vezes, povos inteiros, como os tupinambá. Sarampo, catapora, gripe e sífilis foram as armas de destruição em massa da época. Como em outras partes do “Novo Mundo”, as populações indígenas dizimadas foram logo substituídas pelo mais duradouro e rentável dos negócios que a cobiça humana produziu até hoje: a escravidão africana.

Trazidos(as) aos milhões, entre os séculos XVI e XIX, os(as) escravizados(as) foram corpos objetificados que moveram a economia da colônia portuguesa e, depois, do Império do Brasil. Vemos, então, a commoditização humana como ponto central de organização econômica e política do país já em seus primórdios. Incontáveis foram os que não se submeteram, lutando, fugindo, queimando engenhos, sincretizando suas práticas religiosas, “dançando” a luta da capoeira, formando quilombos.

Milícias de bandeirantes, guardas nacionais, exército e polícias não deixaram de perseguir, conter e assassinar negros e negras, mesmo com as mudanças formais que, negociadas sempre entre as elites, marcaram as “transições” de regime no Brasil. Por isso, falar em “inimigo interno”, em “necropolítica” ou em “securitização” no caso brasileiro exige muitos cuidados históricos e analíticos. No Brasil, o “outro”, o “avesso” de uma pretensa civilização, o “perigo”, sempre teve pele escura e procedência social nos extratos mais pobres e explorados.

O verbo “pacificar”, comum aos jesuítas e militares, atravessou a história do país, incluindo a cristianização de povos indígenas, a ofensiva sobre quilombos, a contenção das sublevações regionais durante o Segundo Reinado, o enfrentamento dos subversivos imigrantes anarquistas e comunistas, já na chamada Primeira República.

A expressão reemergiu em 2008, no Rio de Janeiro, com o projeto das Unidades de Polícia Pacificadora, saudado à época por especialistas em segurança pública da esquerda à direita como o plano que finalmente uniria o “morro” ao “asfalto”, ou seja, a cidade dita “informal”, a favela – lugar do perigo, do narcotraficante, do ladrão, do assaltante e do sequestrador – à cidade “formal”. Novamente, ficou explícita a luta entre o “civilizado” e o “selvagem” a ser equacionada pela “pacificação” ou, em outras palavras, pela imposição física e simbólica de uma parcela minoritária da sociedade sobre a majoritária.

Entre 2010 e 2015, com a presença das Forças Armadas apoiando o processo das UPPs, o Exército criou sua Força de Pacificação para os Complexos do Alemão, da Penha e da Maré. Os ecos de Duque de Caxias, patrono dessa força e cujo nome batiza sua principal medalha (a “Ordem do Pacificador”), foram ouvidos em missões de invasão e ocupação de favelas utilizando blindados de transporte da Marinha, soldados do Batalhão de Operações Especiais da PM fluminense, tropas de infantaria do Exército, PMs treinados para serem “policiais pacificadores”, o que significava pouco mais que uma carga mínima de “direitos humanos” no currículo da Academia.

Tudo “deu certo” enquanto precisava: vieram a Copa das Confederações (2013), a Copa do Mundo (2014) e as Olimpíadas (2016). O turismo fluiu, os ganhos legais e ilegais prosperaram e os megaeventos foram um sucesso. Depois, tudo começou a “dar errado”. O estado do Rio de Janeiro faliu, os empresários do novo (agora antigo) “Brasil Potência” faliram e, assim, mais uma “ideia infalível” para resolver o “problema” de segurança pública no Rio falhou. Em julho de 2017, houve novo envio de tropas militares ao estado. Em 2018, veio a intervenção federal na secretaria de segurança pública. Mesmo que oficialmente “desmobilizada” desde 2019, ainda se via militares circulando em caminhões de transporte de tropas no começo da pandemia de Covid-19, em março de 2020.

Com a pandemia, vieram as recomendações da OMS e de especialistas avalizados para o isolamento social e o “lockdown”. Tais indicações colocaram em lados opostos governadores e prefeitos e o governo federal, que se fia nas reflexões de um autoproclamado “filósofo” reacionário, no apoio dos políticos e empresários oportunistas de sempre, na devoção de sinceros crentes na missão redentora do Messias e na intimidação de milicianos. A classe média, então, passou a bater panela, muitos assumindo o arrependimento do voto nas eleições presidenciais de 2018, outros desconversando sobre o tema. Nesse estranho país chamado Brasil, políticos de direita se converteram em “defensores da democracia” diante de um presidente autoritário, com arroubos megalômanos e flagrante inépcia para a função que ocupa.

A Covid-19 se espalha rapidamente pelo país, matando de milhares de brasileiros. Nas favelas, o tal do “isolamento social” é uma quimera. Quem pode se isola, mas a maioria não pode (pois sai para trabalhar), ou simplesmente não consegue, nos espaços limitados e com alta concentração populacional. Nesse contexto, a polícia carioca seguiu entrando nas favelas e matando. Assim, o jovem João Pedro foi morto com tiros nas costas quando PMs invadiram sua casa numa favela de São Gonçalo. Seu assassinato gerou nova onda de indignação, muitos posts de Instagram e threads de Twitter (ao lado dos que lembravam que com mais de dois anos passados, ainda não sabemos quem mandou matar Marielle Franco).

Dias depois do assassinato de João Pedro, um policial branco de Minneapolis deu voz de prisão, algemou, jogou ao chão e sufocou até a morte o cidadão norte-americano George Floyd. O vídeo, no qual Floyd repete “I can’t breathe”, viralizou. A esquina em que foi morto se tornou centro de protestos. Casas, veículos e carros da polícia foram incendiados e saqueados. A violência da polícia provocou uma reação de negros e negras, mas também de latinos e brancos (a maioria mulheres). Uma comoção se espalhou pelos Estados Unidos, com protestos em massa, saques, depredações e repressão policial por todo o país. As cenas lembraram a sublevação de Baltimore, em 2015, quando o jovem Freddy Gray não resistiu ao espancamento que sofreu de policiais brancos.

Lembraram, também, das manifestações e depredações em Los Angeles, em 1992, quando o tribunal do júri absolveu três policiais (dois brancos e um latino) que haviam agredido brutalmente Rodney King. O presidente republicano da época, George H. W. Bush, enviou a Guarda Nacional para “pacificar” Los Angeles. O atual presidente republicano, Donald Trump, acuado no bunker da Casa Branca, ameaçou enviar a mesma Guarda Nacional e o Exército a Minneapolis ou para onde a “law & order”, segundo um dos seus tuítes, estivesse sob ameaça. O mesmo presidente prometeu classificar os “antifas” como grupo terrorista (ideia imediatamente copiada pelo mímico Bolsonaro diante das manifestações em massa de domingo 31 de maio de 2020), ignorando, ridiculamente, que ser “anti-fascista” é uma atitude ética e política e não um grupo, com sede social e caixa postal

Floyd, Gray, King e João Pedro eram negros.

Muitos se questionam e são provocativos sobre não haver reação similar no Brasil, principalmente após a morte de Marielle Franco ou de João Pedro, ou das centenas de mulheres e homens negros que são mortos diariamente. Tão complexo quanto o racismo, assim o é a reflexão a respeito dele. O racismo, a despeito de ser uma estrutura que organiza tanto a sociedade brasileira quanto a norte-americana, se manifesta em adaptação às realidades e fenômenos de cada sociedade, tendo características e especificidades que também produzirão respostas e resistências próprias a cada contexto. O que não significa que não existam reações, mas que cada uma se adequará aos processos históricos e políticos de cada localidade em que o racismo se estrutura e se expressa. E isso nos faz pensar que fenômeno sócio-político e cultural é poderoso o suficiente para sufocar aquilo que Gilberto Gil, cantando sobre Zumbi dos Palmares e Ganga Zumba, chamou de “felicidade guerreira” do negro. A pergunta é difícil de formular, e a resposta – se é que há alguma – deve ser ainda mais complicada.

Um esforço nesse sentido, nos faz lançar algumas pistas para provocar uma reflexão. A palavra-chave parece ser “pacificação”. A rebeldia no brasileiro, especialmente na maioria negra, foi “pacificada” por uma intrincada combinação entre violência física e simbólica. E esse ponto é muito importante. Ao falarmos de “pacificação”, não usamos o conceito entre aspas por acaso. Primeiro, porque não se trata de modo algum em algo que possa ser confundido com “passividade”. Esse processo de “pacificação” é um projeto ativo e consistente que envolve dimensões da violência fundamentais para o seu pleno exercício. E essa violência não é recebida passivamente, mas em luta constante, em confrontos intensos, em reinvenções de ação e reação, contendo práticas de imposição e de revolta, de ofensivas e defensivas. Como dizia Foucault, não se disciplina e governa apenas “sujeitando” pela força, mas também “subjetificando”, ou seja, produzindo sujeitos dotados de determinados valores e condutas. E, assim como Foucault, a antropóloga Avtar Brah e a historiadora Beatriz Nascimento pensaram a ambivalência dos corpos como territórios de frequentes lutas, de inscrições e reinvenções.

A “pacificação” brasileira foi e é um processo que atravessa nossa história. Durante os séculos de escravidão negra surgiram resistências com diversas práticas, fossem levantes, suicídios, abortos ou a organização de fugas e quilombos. No caso destes últimos, temos o de Palmares, um aglomerado de quilombos que resistiu por quase cem anos e que foi destruído sob a coordenação de uma grande incursão miliciana bandeirante. Outros quilombos passaram por processo de assimilação às dinâmicas econômicas locais. Esse processo ambivalente caracterizou todo o período de escravização.

Se por um lado, o teor autoritário da contenção às resistências e às alteridades não é uma novidade no país, as revoltas e rebeliões também não. Alguns exemplos são a Conjuração Baiana (1798), de caráter emancipatório, a Balaiada (1834), considerada uma das maiores insurreições do Brasil império, por cidadania e acesso à terra; a Revolta dos Malês (1835), clamando por liberdade para os negros escravos; e, já no século XX, a Revolta da Chibata (1910), contra as violências raciais no interior das Forças Armadas. Todas essas, e outras revoltas, sempre foram violentamente reprimidas, com o elemento “pacificador” da punição exemplar.

Nas cidades do Brasil imperial, a maioria negra era vigiada sem trégua. No Rio de Janeiro, em 1830, aprovou-se a primeira lei anti-maconha do mundo moderno precisamente porque seu uso era prática associada a negros forros ou a “negros de ganho” (escravizados que passavam o dia na rua vendendo coisas para seus senhores e, no espaço público, interagiam com outros escravizados ou libertos). Com o fim da escravidão e a intensificação do êxodo rural para os novos polos industriais, como Rio e São Paulo, as populações negras foram sendo aglomeradas em cortiços e favelas. O perigo dos negros vivendo em áreas próximas às classes altas e à incipiente classe média levou a expulsões, destruição de cortiços, processos de reurbanização justificados em nome da modernização, da higienização e da civilização. Novamente, “civilização” e presença do Estado significavam “ordem” e “paz”, mas “contrato social”, ninguém sabe, ninguém viu.

As políticas de controle e marginalização se remodelaram com frequência, combinando legislações criminalizadoras de um lado e incentivos à imigração de europeus brancos de outro com o intuito de “embranquecer” o país. Diante da impossibilidade prática desse segundo objetivo, as elites brasileiras da primeira metade do século XX combinaram duas táticas: primeiro, continuar governando os pobres e negros sob as patas dos cavalos; segundo, produzir um “mito de fundação” da “brasilidade” que teve sua expressão maior na obra do antropólogo Gilberto Freyre, filho da oligarquia pernambucana e educado nos Estados Unidos junto aos expoentes da antropologia racista da época.

Freyre deu corpo e conceito a uma “ideia de Brasil” malemolente, amável, cálido, tolerante e pacífico. Seus textos defenderam o princípio de uma miscigenação que, mesmo com elementos de violência, teria consumado um amálgama único e harmônico entre indígenas, negros e brancos. Assim, num Brasil de tantos contrastes inegáveis, haveria uma “democracia racial”. O que vemos, portanto, é uma mudança de tática, agregando elementos sutis de subjetivação, sem que a estratégia fosse alterada. A ditadura de Getúlio Vargas e, logo depois a ditadura de António de Oliveira Salazar, em Portugal, não deixariam de ver o potencial da tese da “democracia” de Freyre, já que a violência da colonização poderia ser reescrita como se fosse uma congregação das raças e, as desigualdades sociais, econômicas e políticas, naturalizadas num ambiente pacificado.

Sendo assim, construiu-se a “identidade nacional” pela via de controle e extermínio e pela de assimilação, aculturação e dissolução das raízes etnicamente múltiplas, notadamente as africanas e indígenas. A mestiçagem passou a ser um processo visto como positivo para o “aprimoramento” de uma “raça brasileira”, pois, aproveitando uma ideia vinda de tempos coloniais, miscigenar “embranquecia” o negro, e não o contrário. É sobre esse processo que, no final dos anos 1970, o intelectual Abdias Nascimento se insurge e se posiciona denominando como “genocídio do negro brasileiro”.

Vargas investiu pesado na formação do “Brasil”: a Rádio Nacional levou aos rincões do país os primeiros ídolos nacionais (os cantores e as cantoras), o samba carioca (recondicionado a partir do samba de roda do Recôncavo baiano) foi eleito a “música nacional”, o futebol consagrou-se como o “esporte nacional”, o cinema da época exaltou a colonização portuguesa e a brandura do povo brasileiro, e a “Voz do Brasil” tornou-se o noticiário diário oficial, tendo como vinheta de abertura os compassos iniciais da ópera “O Guarani”, de Carlos Gomes.

De modo análogo, certa literatura regionalista, a partir dos anos 1940, e as telenovelas, a partir dos anos 1960, fariam o mesmo: mostrar um país irmanado na sua diversidade. A consagração da seleção de 1970, na Copa do México, selou o laço da “democracia racial”, com um super-herói negro (Pelé), circundado de semideuses da bola brancos e mulatos. Enquanto isso, nos porões da ditadura e nas favelas e periferias, a violência e a tortura faziam a sua parte. Todo esse processo também desencadeou diversificadas práticas de combate às resistências. Para a assimilação das escolas de samba, por exemplo, foi decretado ainda na Era Vargas que elas só poderiam realizar seus desfiles se autorizadas com alvarás expedidos em delegacias; muitas sofrendo processos de interferência direta para mudança de nomes etc. Além disso, é na ditadura Vargas que, com o decreto que pôs fim aos partidos políticos, a Frente Negra Brasileira caiu na ilegalidade (1937).Trabalho Escravo,Brasil,Justiça,Bolsonaro

Também na Era Vargas, as religiões africano-brasileiras deixaram de ser criminalizadas, a partir da celebração de um acordo de isenção política. Apesar dos acordos e ajustes, a violência e repressão nunca cessaram, alimentando um forte processo de criminalização das populações negras e empobrecidas, que apenas aumentou com a regime civil-militar (1964-1985). Nas ambiguidades do binômino repressão-assimilação, a capoeira tornou-se esporte for export. O “baiano” e o “paraíba” viraram personagens simpáticos, cômicos e exóticos em programas humorísticos e telenovelas e, ao mesmo tempo, xingamento racista e xenófobo no “Sul Maravilha”.

Além disso, a pacificação das espiritualidades que a Igreja Católica não conseguiu arrematar, com sua permissividade sincrética, tornou-se batalha assumida, a partir dos anos 1960, pelas igrejas evangélicas, com a chegada de seus primeiros missionários estadunidenses, canadenses e nórdicos. Diferentemente das igrejas protestantes mais antigas e já estabelecidas no Brasil, como a batista e a anglicana, as novas denominações contaram com o beneplácito do regime autoritário e a tolerância dos católicos mais reacionários para conquistar territórios, corações e mentes e, com isso, minar a teologia da libertação, o catolicismo de esquerda e as comunidades eclesiásticas de base. Os neopentencostais ofereceram mais do que conforto espiritual: formaram redes de apoio material, constituíram-se em pontos de apoio para uma nova sociabilidade voltada aos migrantes do interior e do Nordeste que chegavam às metrópoles do Sudeste, e introduziram dois novos processos de subjetivação: a teologia da prosperidade e a teologia da dominação.

A primeira é uma versão popularizada da permissão calvinista para enriquecer sem temer o pecado; e a segunda é voltada à ocupação de lugares no espaço público – meios de comunicação, sindicatos, partidos políticos, postos eletivos, burocracia – a fim de combater o “demônio” na política, ou seja, todos os costumes que emergiram de práticas progressistas disseminadas por movimentos de esquerda desde o século XIX e amplificadas pela contracultura dos anos 1960: liberdade sexual, controle de natalidade, negação da lógica capitalista etc.

Não demorou para que os primeiros pastores e bispos (e pastoras e bispas) brasileiros fossem formados pelos estrangeiros. Um intenso intercâmbio começou a acontecer, entre os anos 1970 e 1980, ligando universidades e cursos teológicos neopentecostais nos Estados Unidos e Canadá a análogos no Brasil, incluindo associações de “empresários cristãos”, “políticos cristãos”, “atletas de Cristo”. Aquilo que nos Estados Unidos era chamado de “evangelismo televisivo” logo ganhou versões brasileiras. Grandes e pequenas denominações foram proliferando, ocupando espaços antes esquadrinhados pela Igreja Católica. As religiões de tradição africana começaram a ser combatidas com violência. Os antigos “crentes” se empoderaram, formaram conglomerados empresariais, compraram redes de TV, tornaram-se “multinacionais da fé” e formaram bancadas nas assembleias estaduais e federais. Com a eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, chegaram ao Poder Executivo.

Enquanto cresciam as igrejas neopentencostais, nos anos 1980, os morros cariocas e as periferias paulistanas passaram a ser palco de uma nova tensão provocada pela chegada do tráfico de drogas como grande negócio transterritorial. Naquela década, o Brasil era uma rota fundamental para o trânsito de cocaína dos Andes para a Europa e, além disso, um mercado promissor para o consumo de cocaína, solventes e maconha. Das prisões abarrotadas surgiram os grupos de autodefesa de presos que logo controlariam o governo das próprias prisões e de territórios em favelas e periferias. Do seminal Comando Vermelho, formado no presídio da Ilha Grande em 1979, ao Primeiro Comando da Capital, nascido em 1992 no presídio de Venceslau Brás, no interior de São Paulo, a combinação entre proibição das drogas, repressão policial e a continuação constante da criminalização das populações pobres e negras fez o narcotráfico florescer e se desdobrar em outros rentáveis ilegalismos aproximando agentes do Estado de soldados do tráfico.

A produção desse novo crime, o narcotráfico, tem uma história que remonta às primeiras ondas de proibição das drogas no início do século XX, mas tomou forma de “ameaça” à “ordem” nos discursos governamentais e na grande imprensa a partir dos anos 1980. Após trinta anos da versão brasileira da “guerra às drogas”, seguindo dados conservadores fornecidos pelo Ministério da Justiça, cerca de 20% dos homens presos e 51% das mulheres, se encontram confinados(as) por condenações ou processos em curso relacionados ao tráfico de drogas. Deles, cerca de 60% são “pretos” ou “pardos”, constituindo a categoria “negro”, segundo o IBGE. Conforme dados do Departamento Penitenciário Nacional (Depen)/Infopen de 2017, 63,6% da população carcerária brasileira é composta por pretos/pardos, enquanto representam apenas 55,4% do total. Com a terceira maior população prisional do mundo (com 748.009 pessoas presas segundo dados do Depen de abril de 2020), o Brasil prende majoritariamente pobres, jovens, negros e negras e de baixa escolaridade.

Então, como pacificam a rebeldia e as resistências no Brasil? A resposta passa, pelo menos, pela mescla entre uma produção de subjetividades baseada na ideia da concórdia e da “alegria”, da conformidade com a miséria calcada na crença da ajuda de Deus, da difusão/educação cotidiana pela grande imprensa e pelas obras de ficção na TV que ainda sustentam a ideia da “democracia racial”, da ocultação diária das violências do patriarcalismo (crimes de ódio homofóbico e de gênero), na missão “evangelizadora” das igrejas neopentecostais, na violência brutal da polícia e na convocação de jovens pobres para o narcotráfico. Trata-se da combinação entre produção de mentalidades docilizadas e de violência para conter os indóceis.

Diante disso, a esquerda de corte mais tradicional e procedência sindical se ajustou ao jogo político-institucional, sendo muito cuidadosa de modo a não romper com suas posições conquistadas no sistema político nacional. A esquerda partidária, quase sempre desunida, branca e de classe média, promove, hoje, manifestos escritos, notas de repúdio, “rodas de conversa”, threads de tweets e denúncias para a comunidade acadêmica e de direitos humanos estrangeiros. Enquanto isso, o bolsonarismo mais radical se arma, defende o armamento da população, ocupa as mídias sociais com chamamentos à agressão, ao assassinato de “comunistas” e à destruição das instituições da democracia formal. A ultradireita tem sido muito mais eficiente na luta pelas mídias sociais e, quando vão às ruas, mesmo sendo poucos, magnificam suas marchas reacionárias parecendo ser muitos mais.

Uma questão relevante para ser ressaltada. Durante esse processo de organização político-institucional e partidário, ativistas e movimentos negros não deixaram de se insurgir no país nem de buscar diálogos com essas organizações. Seja na busca da construção de um partido próprio, como a Frente Negra Brasileira, seja na atuação conjunta aos sindicatos e comunistas, como no Partido Comunista Brasileiro (PCB), com atuação do importante líder revolucionário Carlos Marighella; e, também, no Partido Comunista do Brasil (PCdoB), com a atuação revolucionária e guerrilheira de Helenira Resende; ambos assassinados pela regime civil-militar. Na reorganização das esquerdas e movimentos populares por democratização, os ativismos negros também se organizaram e atuaram no país, seja com o fortalecimento de uma intelectualidade negra que passou a questionar o negro fosse como “problema”, fosse como “objeto” de estudo, seja com o surgimento do Movimento Negro Unificado (1978) e a participação ativa desses militantes na refundação e fundação de partidos progressistas e de esquerda.

A principal questão a se pontuar é a de que, por essa trajetória classista, desde aquele período há forte embate com esses ativismos e militâncias sobre como a construção política de raça e o racismo são estruturadores da sociedade brasileira. E esse é um debate que se realiza, e se acirra, ainda hoje. Apesar dessa falta de construção de um programa e ação política unificada das esquerdas, diversos ativismos negros heterogêneos se insurgem pelo país. Mais uma vez, a falta de perspectiva da violência racial como eixo de construção da sociedade brasileira e como elemento de “pacificação” tem sido elemento de cisão e não de uma construção orgânica, aliando a potencialidade dessas organizações e desses ativismos em um embate importante nos territórios em que a direita tem nadado de braçada.

A extrema direita pode ser minoritária (cerca de 20%, como indica a média das análises de politólogos), mas usam da intimidação e da força para agredir jornalistas, coagir professores, perseguir intelectuais. E o que recebem de volta? Reclamações, denúncias indignadas, pessoas demolidas em sua saúde mental. Dentre essas pessoas alinhadas ao campo progressista, há muitos intelectuais (principalmente cientistas políticos) que continuam defendendo visões de cunho weberiano ou habermasiano que veem a esfera política como espaço de debate, enfrentamentos regrados e formulação de consensos. Negam-se a ver que a política, como afirmou Michel Foucault, é a “guerra continuada por outros meios”, um conflito permanente entre posições políticas, projetos ideológicos, visões de mundo. Não se furtam a acusar Carl Schmitt de jurista do nazismo (o que de fato foi), para descartar sua análise da política como o espaço da relação conflituosa amigo-inimigo.

Evitam, assim, um olhar agonístico para o político, ou seja, a compreensão do conjunto das relações de poder com um campo multifacetado de enfrentamentos, nem todos violentos, entre opiniões, projetos sociais, profissões de fé, produções de verdades. Foucault nos lembrou que na Grécia Clássica, o conceito de “ágon” significava, precisamente, esse embate que é próprio da existência humana: o choque com a alteridade e consigo próprio. Esse confronto era visto pelos filósofos pré-socráticos, como Heráclito de Éfeso, como a força motriz da existência de cada um e como amálgama da vida social. Milênios depois, foi o anarquista Pierre-Joseph Proudhon que retomou, num livro repudiado por anarquistas, comunistas, liberais e conservadores (“A guerra e a paz”, de 1861), o conceito do “combate” como pai/mãe de toda inventividade e instituições humanas. Esse “combate” não se confundia, entretanto, com o também grego conceito de “pòlemos”, a guerra entre Estados, a violência exercida em nome do príncipe, das elites, do território e da propriedade estatal e privada.

O medo da “guerra civil” que assombrava Hobbes continua rondando especialistas e não especialistas no século XXI. Para eles/elas, sublevar-se é a senha para o caos, para a desordem, para a “anarquia”, para a volta a algo que nunca houve: o “estado de natureza”. As energias rebeldes são, portanto, educadas formalmente para acreditar que “ausência de Estado” equivale a “desordem” e “morte violenta”; ou, simplesmente, as subjetividades mais inconformistas são aplastadas desde a mais tenra idade pelo “pátrio poder” em casa, pelos professores na escola, pela educação nas mídias eletrônicas ou pela repressão policial ou militar.

E, agora, pelo bolsonarismo fascista que se arma (física e eletronicamente). Eles e elas estão sem medo, porque quando rosnam a maioria se encolhe, no máximo batendo panelas e tuitando. Se bolsonaristas têm redes bem articuladas nas mídias sociais para fazer ataques a sites ou a contas progressistas, é preciso contra-atacar e derrubar os sites deles, contaminar as threads deles, expô-los ao ridículo e ao juízo público. A política é confronto. Os fascistas sabem disso. Mas Marx e Engels também sabiam, Proudhon, Bakunin, Emma Goldman, Rosa Luxemburgo e Gramsci sabiam. Encolher-se significa deixar que o pequeno pitbull cresça e se transforme num grotesco Cérbero.Ilustração dePawel Kuczynski

Nos Estados Unidos, uma pessoa negra é morta brutalmente, e a população sai às ruas fazendo-as arder, apesar da polícia, apesar da Ku Klux Klan. No Brasil, o assassinato insuportável de pobres, negros ou brancos quase negros de tão pobres, se rotiniza. Quando gera protestos nas favelas, logo a polícia dissipa, o tráfico controla, a milícia gerencia e a esquerda faz posts indignados. O Brasil de hoje tem que enfrentar a abertura desbragada de todo o chorume de séculos de patriarcalismo, misoginia e racismo. O lado positivo desse pesadelo é o fim do “sonho” da “democracia racial”. Então, não é hora de se esconder atrás de discursos progressistas, memes engajados, ou surtos indignados no recôndito do lar, pensando no absurdo em que se tornou o país. Os processos históricos de expressão e execução do racismo nos Estados Unidos e no Brasil podem ter suas características próprias e específicas, mas também têm seus encontros. Mas o mais importante é que a potencialidade da indignação pode, e deve, se realizar, e torna-se algo concreto.

É preciso sair e mostrar para os bolsominions que eles não são maioria e que eles não passarão. Há poucas semanas, parte da torcida Gaviões da Fiel impediu uma manifestação fascista na Avenida Paulista. Dias depois, um grupo de não mais de trinta antifas em Porto Alegre bloqueou uma carreata pró-Bolsonaro e a fez, literalmente, dar marcha-a-ré. No domingo 31 de maio, torcidas organizadas, punks e outras forças geralmente antagonistas, uniram-se numa frente antifa. Bastou com que aparecessem para que os “bombados” bolsonaristas reagissem de forma histriônica e se borrassem de medo. Fascistas são bullies que andam em grupo. Como todo bully, o fascista vive da conivência de vários, da conveniência de alguns e do medo de muitos.

A ideia de “conversar com fascistas” é, na melhor das hipóteses ingênua, para não dizer tola. Trata-se de um equívoco ontológico, já que o que caracteriza o fascista é o ódio, e o desejo de exterminar quem pensa, vive, ama, reza de forma diferente da dele. O fascismo surgiu como fenômeno histórico na Itália, entre os anos 1920 e 1940. O partido organizado por Benito Mussolini tomou a simbologia romana dos muitos feixes (fasci) unidos como metáfora para a ideia de que a “união faz a força”. Essa união diluiria as individualidades em nome da pátria, de Deus, da família e dos valores patriarcalistas, militaristas e conservadores. Naquela época, versões nacionais do fascismo apareceram em diversos países, como o chauvinismo (França), o jingoísmo (Reino Unido), o falangismo (Espanha), o salazarismo (Portugal), o integralismo (Brasil) e o nazismo (Alemanha).

Após a derrota militar de 1945, as expressões “fascista” e “fascismo” continuaram a denominar a crença radical, virulenta, fanática numa verdade absoluta conservadora associada à pulsão de morte a tudo, todos e todas que não se perfilem às suas falanges. Por isso que entendemos que o fascismo, no Brasil, é um fenômeno que caminha pari passu, confluente ao racismo, machismo, homofobia e à naturalização da exploração e da eliminação dos mais pobres. Hoje, combinada com uma versão olavista de “patriotismo”, que prega a subserviência total aos Estados Unidos, e de radicalidade moralista de importantes denominações neopentencostais, o bolsonarismo se produz como versão atualizada do fascismo entre nós.Chaplin,Ditador,Estado,Fascismo,Nazismo,Blog do Mesquita

O fascismo não conversa. Ele ataca. Quando compõe com outras forças conservadoras, é sempre de modo oportunista, traiçoeiro e temporário, apenas esperando para ocupar todos os espaços possíveis. A direita brasileira e alguns setores das classes médias, que votaram em Bolsonaro, já perceberam isso. É possível e desejável que as forças democráticas no Brasil sigam no esforço de produzir uma frente ampla, constituída sob princípios que não titubeiem na luta contra atitudes, práticas e ideologias fasci-racistas, para barrar e desmobilizar o bolsonarismo. Isso, no entanto, não implica em conversar ou contemporizar com os fascistas. É hora de fazer aqueles que odeiam voltarem a ter medo e vergonha de pensar o que pensam, de fazer o que fazem. A linguagem deles é a força. A nossa também deve ser. É preciso abandonar as lentes contratualistas e experimentar olhar para o mundo de forma agonista.

Nas ruas de Minneapollis, manifestantes gritam “No Justice! No Peace!”. Pessoas iluminadas pelos edifícios em chamas. Uma das principais táticas construídas pelos manifestantes tem sido a de formar cordões humanos de pessoas brancas entre os policiais e pessoas negras, advogados de prontidão para a defesa e uma série de instruções de ação para proteção, com foco nas pessoas negras, sejam as lideranças das manifestações, sejam partícipes que podem ficar em perigo. Em vez de insistirmos em disputas nas redes sociais sobre o que seria de interesse nacional, em vez de uma competição por um protagonismo progressista, por que não aprender com essas práticas? Por que não exercitar o antirracismo apregoado e compartilhado em hashtags.

Por que a prática antirracista não está sendo construída como o novo normal? É importante se inspirar, mas o mais importante é compreendermos nossa realidade, como a desigualdade que se presentifica em nosso país, para construirmos uma estratégia que compreenda que só venceremos a guerra com um acúmulo de vitoriosas batalhas. Não será fácil, não se resolverá apenas por meio da política institucional e de eleições. Mais do que uma pessoa, estamos diante de um movimento autoritário que se organiza a passos largos no país. Se compreendemos que somos uma maioria, precisamos ser os que realizam o trabalho de não permitir o silêncio no galpão e incentivar que se rompam os portões. Trata-se de encarar o fogo da existência que nunca se extingue, como dizia Heráclito, e gritar na cara deles: Não Passarão!

Thiago Rodrigues é professor do Instituto de Estudos Estratégicos/UFF e coordenador do grupo de pesquisa “Segurança e Defesa nas Américas (SeDe/UFF/CNPq). Autor, entre outros, de Política e drogas nas Américas, uma genealogia do narcotráfico, Editora Desatino, 2017.

Juliana Borges é escritora e pesquisadora de Política Criminal, membra da Articulação Interamericana de Mulheres Negras na Justiça Criminal e consultora do Núcleo de Enfrentamento, Monitoramento e Memória de Combate à Violência da OAB. É autora de Encarceramento em Massa, Pólen Livros, 2019.

Política – o Baixo Clero e a irresistível ascensão do fascismo de coalizão

Após constituir o apoio popular de conexão direta com a baixa classe média e boa parte da classe trabalhadora, Bolsonaro rompe com o modus operandi da política nacional em que o “baixo-clero” do congresso Nacional era o garantidor inescapável e necessário a qualquer gestão.

Por: Luiz C. Checchia é mestre em Ciências Humanas pela USP

Francis Bacon, Figure with Meat, 1954

A obra principal do fascismo é o aperfeiçoamento e organização do sistema ferroviário. Os comboios agora andam bem e chegam sempre à tabela. Por exemplo, você vive em Milão; seu pai vive em Roma. Os fascistas matam seu pai, mas você tem a certeza que, metendo-se no comboio, chega a tempo para o enterro.
Fernando Pessoa

A ascensão de Jair Bolsonaro inaugura um novo tempo no Brasil, a ascensão do fascismo. Nossa história é a de país que se desenvolve sob diversas formas de autoritarismo, como ditaduras militares, bonapartismos e Estados de exceção. Nada fora do lugar em uma sociedade moderna por fora e profundamente arcaica abaixo da sua superfície, cuja mentalidade colonial é a alma das relações escravocratas e patriarcais que formam nosso cotidiano.

Para manter a estabilidade dessa sociedade tão desigual e violenta, as classes dominantes têm na desmobilização popular o seu instrumento principal. Isso ocorre graças a um forte aparato ideológico que congrega a grande mídia, um sistema educacional historicamente deficitário, baixos investimentos em ensino e pesquisas acadêmicas e a valorização do entretenimento de massa em detrimento do desenvolvimento cultural popular e crítico. Quando esse aparato ideológico é insuficiente contam com o uso de forças repressivas desproporcionais capazes de lançar sem nenhum tipo de constrangimento spray de pimenta nos olhos de professores e professoras que reivindicam pacificamente aumento de salários ou indefesos estudantes secundaristas cujo crime é pedir educação de qualidade. Sejam quais forem os expedientes de controle de ocasião, a experiência autoritária brasileira fez sua história por meio da constante e quase sempre eficiente desmobilização das massas trabalhadoras.

Todavia, Bolsonaro pavimenta um percurso distinto de nossa experiência, buscando na mobilização popular a força de seu autoritarismo. E essa é uma das especificidades do fascismo: enquanto reprime preventivamente seus opositores, seja por ação de suas milícias ou dos aparatos de Estado, ele atua no sentido de mobilizar o máximo possível o apoio popular, inclusive entre amplos setores das classes trabalhadoras. Isso faz com que diferentemente de uma ditadura militar que se organiza por meio de uma burocracia estatal hierarquizada, o fascismo atue por fora das estruturas de Estado, pressionando-as com passeatas e carreatas, marchas, redes sociais e quaisquer outras formas que expressem sua força política. Por isso a agressividade é uma característica sempre presente nas manifestações de massa do fascismo, pois confere intensidade à essa força, amplifica-a deixando claro que é capaz de ir até os limites mais drásticos no embate de vida e morte contra seus inimigos, sem possibilidades de conciliação nem de capitulação. Temos visto isso desde quando Bolsonaro ainda era um possível pré-candidato, um deputado do “baixo-clero” da Câmara Federal que se tornava afamado pelo Brasil por conta de suas aparições polêmicas em programas televisivos.

Àquele tempo, quando percebeu seu potencial eleitoral e iniciou seu périplo de ponta-a-ponta do país fazendo-se cada vez mais notório, o atual presidente brasileiro começou a aglutinar ao seu redor os setores mais conservadores do país, formando um grupo heterogêneo que reúne desde líderes neopentecostais a frequentadores de clube de tiro passando por militares golpistas, monarquistas, teóricos da conspiração, “coronéis” do Brasil profundo e outros mais. Por onde passava, esse grupo se espalhava e se capilarizava, promovendo mobilizações cada vez mais amplas e mais agressivas contra seus alvos principais: a comunidade LGBT, militantes de esquerda, comunistas e socialistas, mulheres, negros, índios, beneficiários de programas sociais e globalistas (seja lá o que isso signifique). Agrediam e bradavam seus discursos que combinam esquizofrenicamente liberalismo, conservadorismo, cristianismo, anticomunismo e patriotismo.

Mobilização popular

Outra especificidade do fascismo é o fato da ampla mobilização popular que promove ter como motor o medo. Não o medo concreto e real de um perigo iminente, mas outro, fictício, voltado aos inimigos imaginários: no caso brasileiro, coisas como “kit gay” e mamadeira em forma de pênis são os mais bizarros, mas certamente não são os únicos fantasmas criados para assombrar e mobilizar as massas populares. É por isso que o meio propício para que o fascismo germine são as crises políticas e econômicas em contextos de fraqueza tanto da esquerda quanto da direita moderada, que não conseguem dar respostas críveis e suficientes ao momento.

Também não é à toa que a classe média, sobretudo seus extratos mais baixos, são o ponto de irradiação desse sentimento: sem a tradição da solidariedade da classe trabalhadora e sem as reservas econômicas da alta burguesia, a pequena classe média isolada em seu individualismo e valores personalistas sente-se como o segmento mais injustiçado em meio às crises, vendo nos grandes capitalistas e nas organizações de esquerda seus principais inimigos. Isso porque crê que as empresas de grande capital aproveitam-se de sua enorme força econômica para competir de forma agressiva e desigual no mercado sufocando o crescimento dos médios e pequenos empreendimentos; já os partidos e sindicatos aproveitam-se de sua força política para opor-lhes a classe trabalhadora exigindo direitos trabalhistas e melhores salários, diminuindo assim seus lucros.

No entanto, destaca-se ainda que os fascistas mantêm suas armas voltadas a outro alvo preferencial: os políticos. Sejam de esquerda ou de direita, os políticos tradicionais e profissionais seriam os aproveitadores da máquina estatal, inchando os impostos para depois estufar os próprios bolsos de dinheiro público seja legislando em causa própria, desviando verbas ou elaborando arranjos corruptos. Fazem toda sorte de acordo entre si, e todas as críticas que possam tecer uns aos outros são falsas, porque, ao final, sentam-se à mesma mesa para combinarem tramoias e engodos contra o povo. Por isso, embora constituam um dos movimentos políticos dos mais fortes e duradouros do século XX e agora entrando pelo XXI, os fascistas se afirmam “não-políticos”, alguns se dizem mesmo “anti-políticos”, concorrendo aos governos quase como um auto-sacrifício necessário e heroico para acabar com a bandidagem ceifando nas raízes a “velha-política”.

Os políticos não-políticos

A aproximação entre Bolsonaro e “baixo-clero” é o enlace de políticos da mesma natureza e substância, mas isso não atenua a concorrência entre ambos. (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

Em tempos como o nosso, em que a desconfiança na política se torna a tônica, muitos políticos tentam vestir a máscara de “novo”, apresentando-se distantes da “velha-política” e dizendo-se representar a renovação. Partidos de esquerda ou de direita apresentam candidatos de rostos joviais enquanto destacam a força a juventude. Outros, por falta de candidatos jovens optam por novas denominações, e assim velhas agremiações passaram a ostentar novos nomes, de preferência, sem a palavra “partido”. Mas nenhum deles obteve mais sucesso em apresentar-se como “novo” do que Jair Bolsonaro.

A despeito de seus ininterruptos vinte e oitos anos como deputado federal, um dos mais inexpressivos do “baixo-claro”, conseguiu apresentar-se como um inimigo visceral da “velha política”, alguém que estava lá mas sem ser de lá, e justamente por isso conhecia toda a podridão da política nacional sendo o único capaz de vencê-la. O sucesso de Bolsonaro nessa empreitada está no fato de que, embora outros candidatos tentassem se distanciar da “velha política”, eles ainda estavam submersos até o cocuruto nela. Já Bolsonaro verdadeiramente se distanciou dela, afastou-se de seu partido, buscou uma agremiação menor – o Partido Social Liberal –, para ajustar-se à legislação eleitoral, mas manteve-se atuando em conexão crescente, intensa e direta com a população. O desprezo do presidente com arquitetura institucional do Estado brasileiro é de tal monta que se desligou do partido pelo qual se elegeu com o mesmo desapego que nele entrou.

Acontece que a “velha política” é a mais antiga das instituições brasileiras e a principal forma de agir do chamado “baixo-clero” – também chamado de “centrão” –, nome genérico do grupo de parlamentares que integram partidos sem um verdadeiro programa para o país e que se aproveitam de sua presença no parlamento para garantir que o Estado mantenha a manutenção de seus interesses e privilégios. São políticos sem expressividade nacional, verdadeiros coronéis que ainda mantém currais eleitorais em suas regiões, são como os Magalhães na Bahia, Sarneys no Maranhão, ou Calheiros em Alagoas.

O filósofo político Marcos Nobre decifra em seu livro O Imobilismo em Movimento como o “baixo-clero”, a partir do processo de redemocratização do país, passa a utilizar do conjunto de seus votos no parlamento para formar uma “super maioria” com quem qualquer governo precisa negociar para poder governar. A essa prática Nobre dá o nome de pemedemismo, uma cultura política que se perpetua no parlamento nacional – que se reproduz nas assembleias legislativas e nas câmaras municipais –, a cada nova legislatura. Os atuais parlamentares, eleitos em 2018, constituem a segunda leva de políticos que se elegem com sólido discurso conservador, prometendo a renovação tanto na Câmara Federal quanto no Senado e combater caninamente a corrupção. Segundo publicação da EBC, em 2014 houve renovação superior a 40% na Câmara Federal, já em 2018, esse índice bate recorde que perdurava mais de duas décadas, com renovação de 52% entre os deputados federais. Muita gente acreditou que o país afastaria de vez a prática do pemedebismo e toda a “velha política” graças à combinação entre expurgos de “velhos políticos”, diminuição do número de parlamentares de esquerda e a defesa intransigente de pautas conservadoras nos costumes e liberais na economia. No entanto, a experiência mostrou que a cultura política viciada nos parlamentos brasileiros é bem mais arraigada do que se acreditou e não bastam discursos histriônicos e fantasias conservadoras para pôr fim aos acordos firmados nos cantos escuros dos corredores e nas mensagens trocadas de WhatsApp.Whatsapp,Tecnologia,Redes Sociais,Internet,Privacidade,BlogdoMesquita

Após constituir o apoio popular de conexão direta com a baixa classe média e boa parte da classe trabalhadora, Bolsonaro rompe com o modus operandi da política nacional em que o “baixo-clero” do congresso Nacional era o garantidor inescapável e necessário a qualquer gestão. Quando o PSDB surgiu no horizonte político brasileiro, se apresentava como um avanço das forças progressistas brasileiras, seria o partido que nos conduziria para uma experiência social-democrática ilustrada, com políticos experientes e cultos, sendo boa parte deles intelectuais renomados. No entanto, para chegar e se manter no governo tiveram que fechar acordos com o antigo Partido Liberal, hoje DEM, desfigurando de cima a baixo o seu ideário partidário. destino semelhante teve o programa-democrático popular do petismo: embora mirasse a formação de uma democracia com amplos espaços de participação popular via com conselhos, orçamentos participativos, fóruns e conferências nacionais, para alçar o governo e lá se manter o Partido dos Trabalhadores também se aliou ao “baixo-clero” até com mais volúpia e sofreguidão que o antecessor governo tucano, já que, enquanto para o “centrão” o PSDB seria um parente rico e esnobe, o PT se afigura como um penetra na festa que lhe traz presentes caros; mas concluída a entrega dos mimos, o centrão o expulsou do salão como a violência que se faz com qualquer intruso.

Bolsonaro e o baixo-clero

Perdida a força popular por conta da necessária prática do isolamento social, e em franca luta com setores da grande mídia, com o STF e o Congresso Nacional, Bolsonaro passou justamente a buscar o apoio mais improvável: o do “baixo-clero”. A primeira ação pública e de impacto dessa aproximação foi a transmissão ao vivo promovida pelo ex-deputado Roberto Jefferson, no dia 19 de abril passado, e retransmitida em tempo real pelo presidente. Raposa velha da política nacional, responsável pela divulgação e integrante do esquema de corrupção que tornou-se conhecido pelo nome de Mensalão, Jefferson mantém a presidência do Partido Trabalhista Brasileiro, o PTB, que conta atualmente 10 Deputados, e 02 senadores e 31 deputados estaduais em 19 estados da União. Em sua transmissão, o ex-deputado fez veemente defesa do presidente, colocou-se à sua disposição, e garante que é momento de “azeitar os revólveres” na defesa do Brasil que emerge graças ao governo bolsonarista.

A situação é mais complexa do que se aparenta e marca um acirramento do bolsonarismo em sua luta pela hegemonia política nacional. Primeiramente, é preciso considerar que ainda que tenha se afastado do congresso quando iniciou sua campanha eleitoral, Bolsonaro é fruto dele, tem seu DNA. Lembremos que as amarras entre Congresso Nacional e presidência é algo que faz parte da engenharia do Estado brasileiro: qualquer presidente que queira governar precisará, em algum momento, ajustar e ajustar-se a essas amarras que só poderiam ser superadas em definitivo por força de um golpe autoritário ou uma revolução popular.

Bolsonaro elegeu-se afirmando que seu governo é de “transição”, seu objetivo primeiro é reconstruir o Estado nacional, e para isso atua em diversas direções de forma mais rápida e intensa que a própria ditadura empresário-militar de 1964-85: Educação, Cultura, Economia, Relações Internacionais e Direitos Humanos, não há um campo da gestão pública que não esteja sendo redefinido na raiz. É claro que ainda há alguma forma de resistência, muito mais de setores da direita que não se sente contemplado em seu governo ou que ainda guardam respeito a alguma forma de institucionalidade democrática. Por isso, talvez as mudanças em curso pelo atual governo não sejam da forma como queira nem no ritmo que deseje, mas esse projeto mantém firme seu curso. Assim sendo, o fascismo de coalizão inaugurado por Bolsonaro pode ser apenas mais uma etapa em seu processo de formação de um novo Estado brasileiro, conservador, militarizado, ultraliberal e com uma casta de altíssimos funcionários públicos privilegiados destacando-se oficiais militares e magistrados. Pode não ser, como apregoam alguns, o seu enfraquecimento e sim, uma maneira de se fortalecer mais. Lembremos que a construção de uma supermaioria no Congresso seja o instrumento necessário para mais profundas mudanças constitucionais, acentuando a desfiguração pela qual padece nossa Constituição, retirando dela alguns mecanismos de proteção e garantias sociais enquanto centraliza o poder na mão da presidência.

Todavia, se essa aproximação entre Bolsonaro e “baixo-clero” é, por um lado, o enlace de políticos da mesma natureza e substância, ela não necessariamente atenua a concorrência entre ambos. Sendo concorrentes, é evidente que haverá pressões mútuas e o risco de um ser engolido pelo outro: o congresso pode virar o apêndice do bolsonarismo, ou este tornar-se a rainha da Inglaterra de um parlamentarismo branco. Quem devorará e quem será devorado ainda é cedo para se saber. O fato é que o prato principal de ambos continua sendo o povo brasileiro.

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ONU denuncia “violações graves dos direitos humanos” durante protestos no Chile

Alto Comissariado para os Direitos Humanos, chefiado pela ex-presidenta Michelle Bachelet, recebeu relatos de execuções simuladas

Policiais prendem manifestante durante um protesto contra o Governo do Chile em Santiago, dia 14 de novembro.
Policiais prendem manifestante durante um protesto contra o Governo do Chile em Santiago, dia 14 de novembro. GORAN 
  • Manifestantes suben al monumento al general Baquedano durante el octavo día de protestas contra el gobierno del presidente Sebastián Piñera el 25 de octubre de 2019 en Santiago, Chile.
  • Protestas en Santiago de Chile contra la política de Sebastián Piñera, el martes, 29 de octubre.
  • Una protesta en Santiago de Chile.

Por outro lado, o relatório reconhece que o Governo chileno cooperou, sustentou um “diálogo franco” e entregou “amplas informações”, facilitando o “acesso rápido e sem entraves” aos locais de detenção. No entanto, o ACNUDH denunciou que tanto os Carabineiros (polícia), como o Exército não aderiram às normas e padrões internacionais sobre o uso da força. O relatório afirma que das 26 investigações do Ministério Público por mortes ocorridas no contexto das manifestações no Chile, quatro casos se devem a ações que envolvem agentes estatais. Romario Veloz Cortés pertence a esse grupo: cidadão equatoriano de 26 anos, faleceu em La Serena, cerca de 500 quilômetros ao norte do Santiago, devido a disparos com munição letal feitos por pessoal militar, um fato que está sendo investigado. “Busco justiça… justiça para todos os que morreram”, afirmou sua mãe, segundo o relatório do ACNUDH.

As Nações Unidas apontam a grande quantidade de pessoas lesionadas durante os protestos, incluindo os feridos nos olhos pelo uso de balas de borracha. “O ACNUDH considera que o número alarmantemente alto de pessoas com lesões nos olhos ou no rosto (aproximadamente 350) mostra que há razões fundadas para acreditar que as armas menos letais foram usadas de maneira indiscriminada”, afirma o Alto Comissariado, acrescentando que, embora o uso das balas de borracha estivesse suspenso enquanto sua composição exata é determinada – elas continham apenas 20% de borracha, segundo dois estudos acadêmicos –, “esta ordem não foi completamente implementada”.

O organismo internacional menciona o caso de Gustavo Gatica, o estudante de 21 anos que em 8 de novembro foi ferido em ambos os olhos por disparos dos Carabineiros e perdeu totalmente a visão. “As autoridades tinham informação sobre o alcance das lesões causadas neste contexto desde em 22 de outubro. Entretanto, as medidas tomadas não foram imediatas e efetivas”, afirma o departamento liderado por Bachelet – que foi também a primeira mulher a ocupar o ministério da Defesa no Chile, durante o mandato de Ricardo Lagos (2000-2006).

Torturas e maus tratos

O ACNUDH dedica um espaço do seu relatório de 35 páginas à “tortura e maus tratos”, dos quais afirma ter reunido 133 casos. Em 28 de novembro, o Ministério Público tinha iniciado 44 investigações nesta linha. Na maioria, diz o escritório da ONU, “os supostos autores são membros de Carabineiros”. O relatório enumera as formas mais comuns que teriam sido empregadas: socos fortes, chutes, coronhadas e golpes de cassetete, frequentemente realizados por vários agentes ao mesmo tempo. “O ACNUDH também recebeu informação sobre vários casos de pessoas atropeladas por veículos e motocicletas das forças de segurança” e detalha relatos que denunciam “tortura psicológica como ameaças de morte, ameaças de fazer a pessoa ‘desaparecer’, ameaças de estupro, surras em familiares e amigos na frente da pessoa e ameaças de agressão contra os familiares”.

O organismo liderado por Bachelet recebeu “relatos isolados” de execuções simuladas por parte dos Carabineros e das forças militares, como a descrita por um chileno de 28 anos. “O Exército me jogou no chão, senti golpes com a coronha de uma arma na minha cabeça e na coluna vertebral. Quando entramos no veículo militar, eles continuavam nos batendo e disseram: ‘Levemos [os detidos] ao quartel e vejamos o quanto eles aguentam com a eletricidade’. Suplicamos que nos deixassem ir embora. Nos tiraram [do veículo] na escuridão, e pude reconhecer que estávamos na parte de trás do cemitério. Havia uns 12 soldados atrás de nós, que carregaram suas armas. Nos fizeram gritar ‘perdoe-me, Chile’. Nesse momento, pensei que atirariam em nós. Choramos, demos as mãos e nos despedimos.”

Sobre violência sexual – reportada antes pelo HRW –, o ACNUDH reuniu 24 casos, que incluem “estupro, ameaças de estupro, tratamento degradante (como ser obrigado a se despir), comentários homofóbicos ou misóginos, golpes e atos que causam dor nos genitais e manuseios”.

As Nações Unidas incluem o relato de Carla, de 16 anos: “Foi detida pelos Carabineros em Viña del Mar com seu pai em 5 de novembro. No momento da detenção, seu pai avisou os Carabineros que ela tinha uma deficiência psicossocial. Ela disse ter sido forçada a mostrar os seios, ter sido assediada fisicamente com um bastão/cassetete e ter sido ameaçada de que seria desaparecida.”

Com base nos dados do Ministério da Justiça, o ACNUDH estima que, entre 19 de outubro e 6 de dezembro, houve 28.210 pessoas detidas, das quais 1.615 permanecem em prisão preventiva. Ao se referir a casos de detenções ilegais ou arbitrárias, o organismo detalha o relato de Jacinto, de 20 anos: “Informou ter sido detido por uma camionete vermelha às 5:00 da manhã; colocaram um capuz em sua cabeça e o levaram a um edifício onde teria sido interrogado, ameaçado e torturado. Segundo os relatos, inseriram agulhas debaixo de suas unhas e lhe pediram que dissesse ‘tudo o que sabia sobre os protestos’.”

O ACNUDH mencionou a destruição da infraestrutura pública e privada no contexto da explosão social e entrevistou policiais feridos durante os protestos, que, de acordo com o Ministério do Interior, chegam a 2.705 efetivos. Também fez 21 recomendações ao Estado chileno, incluindo uma série de medidas relativas aos Carabineros, como “estabelecer um mecanismo para coletar, sistematizar e difundir as informações sobre violações dos direitos humanos” e assegurar que o processo de elaboração de uma nova Constituição seja inclusivo, participativo e transparente, “inclusive garantindo a paridade de gênero – 50% homens e 50% mulheres – durante o processo e a participação de povos indígenas”. “Os direitos humanos devem estar no centro deste debate nacional”, concluiu o organismo liderado por Bachelet em Genebra.

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Brasil vive um clima de pré-nazismo enquanto a oposição emudece

O silêncio dos que deveriam defender a democracia pode acabar deixando o caminho aberto aos autoritários, que se sentem ainda mais fortes diante de tais silêncios

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Manifestante em protesto contra o presidente em São Paulo no dia 13 de agosto. AMANDA PEROBELLI (REUTERS)

O Brasil está vivendo, segundo analistas nacionais e internacionais, um clima político de pré-nazismo, enquanto a oposição progressista e democrática brasileira parece muda. Somente nos últimos 30 dias, de acordo com reportagem do jornal O Globo, o presidente Jair Bolsonaro proferiu 58 insultos dirigidos a 55 alvos diferentes da sociedade, dos políticos e partidos, das instituições, da imprensa e da cultura.

E à oposição ensimesmada, que pensa que o melhor é deixar que o presidente extremista se desgaste por si mesmo, ele acaba de lhes responder que “quem manda no Brasil” é ele e, mais do que se desfazer, cresce cada dia mais e nem os militares parecem capazes de parar seus desacatos às instituições.

Há quem acredite que o Brasil vive um clima de pré-fascismo, mas os historiadores dos movimentos autoritários preferem analisá-lo à luz do nazismo de Hitler. Lembram que o fascismo se apresentou no começo como um movimento para modernizar uma Itália empobrecida e fechada ao mundo. De modo que uma figura como Marinetti, autor do movimento futurista, acabou se transformando em um fervoroso seguidor de Mussolini que terminou por arrastar seu país à guerra.

O nazismo foi outra coisa. Foi um movimento de purga para tornar a Alemanha uma raça pura. Assim sobraram todos os diferentes, estrangeiros e indesejados, começando pelos judeus e os portadores de defeitos físicos que prejudicavam a raça. De modo que o nazismo se associa ao lúgubre vocábulo “deportação”, que evoca os trens do horror de homens, mulheres e crianças amontoados como animais a caminho dos campos de extermínio.

Talvez a lúgubre recordação de minha visita em junho de 1979 ao campo de concentração de Auschwitz com o papa João Paulo II tenha me feito ler com terror a palavra “deportação” usada em um decreto do ministro da Justiça de Bolsonaro, o ex-juiz Sérgio Moro, em que ele defenda que sejam “deportados” do Brasil os estrangeiros considerados perigosos.

Bolsonaro, em seus poucos meses de Governo, já deixou claro que em sua política de extrema direita, autoritária e com contornos nazistas, cabem somente os que se submetem às suas ordens. Todos os outros atrapalham. Para ele, por exemplo, todos os tachados de esquerda seriam os novos judeus que deveriam ser exterminados, começando por retirá-los dos postos que ocupam na administração pública. Seu guru intelectual, Olavo de Carvalho, chegou a dizer que durante a ditadura 30.000 comunistas deveriam ter sido mortos e o presidente não teve uma palavra de repulsa. Ele mesmo já disse durante a campanha eleitoral que com ele as pessoas de esquerda deveriam se exilar ou acabariam na cadeia.

Inimigo dos defensores dos direitos humanos, dos quais o governador do Rio, Witzel, no mais puro espírito bolsonarista, chegou a afirmar que são os culpados pelas mortes violentas nas favelas, Bolsonaro mal suporta os diferentes como os indígenas, os homossexuais, os pacíficos que ousam lhe criticar. Odeia todos aqueles que não pensam como ele e, ao estilo dos melhores ditadores, é inimigo declarado da imprensa e da informação livre.

Sem dúvida, o Presidente tem o direito de dizer que foi escolhido nas urnas com 53% dos votos, que significaram 57 milhões de eleitores. Nesse sentido o problema não é seu. Os que votaram nele sabiam o que pensava, ainda que talvez considerassem seus desatinos de campanha como inócuos e puramente eleitoreiros. O problema, agora que se sabe a que ele veio, e que se permite insultar impunemente gregos e troianos começando pelas instituições bases da democracia, mais do que seu, é da oposição.

Essa oposição, que está muda e parece impotente e distraída, demonstra esquecer a lição da história. Em todos os movimentos autoritários do passado moderno, os grandes sacerdotes da violência começaram sendo vistos como algo inócuo. Como simples fanfarrões que ficariam somente nas palavras. Não foi assim e diante da indiferença, quando não da cumplicidade da oposição, acabaram criando holocaustos e milhões de mortos, de uma e outra vertente ideológica.

Somente os valores democráticos, a liberdade de expressão, o respeito às minorias e aos diferentes, principalmente dos mais frágeis, sempre salvaram o mundo das novas barbáries. De modo que o silêncio dos que deveriam defender a democracia pode acabar deixando o caminho aberto aos autoritários, que se sentem ainda mais fortes diante de tais silêncios.

Nunca existiram democracias sólidas, capazes de fazer frente aos arroubos autoritários, sem uma oposição igualmente séria e forte, que detenha na raiz as tentações autoritárias. Há países nos quais assim que se cria um governo oficial, imediatamente a oposição cria um governo fictício paralelo, com os mesmos ministros, encarregados de vigiar e controlar que os novos governantes sejam fieis ao que prometeram em suas campanhas e, principalmente, que não se desviem dos valores democráticos. Sem oposição, até os melhores governos acabarão prevaricando. E o grande erro das oposições, como vimos outras vezes também no Brasil, foi esperar que um presidente que começa a prevaricar e se corromper se enfraqueça sozinho. Ocorrerá o contrário. Crescerá em seu autoritarismo e quando a oposição adormecida perceber, estará derrotada e encurralada.

Nunca em muitos anos a imagem do Brasil no mundo esteve tão deteriorada e causando tantas preocupações como com essa presidência de extrema direita que parece um vendaval que está levando pelos ares as melhores essências de um povo que sempre foi amado e respeitado fora de suas fronteiras. Hoje no exterior não existe somente apreensão sobre o destino desse continente brasileiro, há também um medo real de que possa entrar em um túnel antidemocrático e de caça às bruxas que pode condicionar gravemente seu futuro. E já se fala de possíveis sanções ao Brasil por parte da Europa, em relação ao anunciado ataque ao santuário da Amazônia.

O Brasil foi forjado e misturado com o sangue de meio mundo que o fizeram mais rico e livre. Querer ressuscitar das tumbas as essências de morte do nazismo e fascismo, com a vã tentativa da busca da essência e pureza da brasilidade é uma tarefa inútil. Seria a busca de uma pureza que jamais poderá existir em um país tão rico em sua multiplicidade étnica, cultural e religiosa. Seria, além de uma quimera, um crime.

Urge que a oposição democrática e progressista brasileira desperte para colocar um freio nessa loucura que estamos vivendo e que os psicanalistas confirmam que está criando tantas vítimas de depressão ao sentirem-se esmagadas por um clima de medo e de quebra de valores que a nova força política realiza impunemente. Que a oposição se enrole em suas pequenezas partidárias e lute para ver quem vai liderar a oposição em um momento tão grave, além de mesquinho e perigoso é pueril e provinciano.

Há momentos na história de um país em que se os que deveriam defender os princípios da liberdade e da igualdade cruzam os braços diante da chegada da tirania, incapazes até de denunciá-la, amanhã pode ser tarde demais. E então de nada servirá chorar diante dos túmulos dos inocentes.

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A Política do Absurdo

Blog do Mesquita,Política,Direita,FascismoEntão aqui estamos de novo. O candidato da “intelectualidade conservadora” não está satisfeito em atacar “o comunismo” ou mesmo a esquerda. Ele quer dizer coisas absurdas, factualmente erradas, mas não aquelas nas quais o campo da controvérsia tem um pequeno espaço para respirar.

Ele quer mentir. E não contar qualquer tipo de mentira mas aquela que é facilmente desmentida por dezenas de milhares de especialistas e centenas de milhares de documentos. Aquela que é desmentida por testemunhas oculares, pelos sobreviventes e pelos cadáveres. E quando ele for desmentido por quem dedicou uma vida ao assunto, pela imprensa ou por qualquer pessoa com um mínimo de bom senso ele vai se fazer de vítima. E não apenas vai usar essa posição de vítima mas se apegar a ela para dizer que ele e os seus estão sozinhos contra alguma “conspiração esquerdista”.

“Todos aqueles que discordam de mim defendem ditaduras” dizem seus seguidores, 10 segundos depois de defenderem uma ditadura do passado ou, sem qualquer cerimônia, dizer que desejam implantar uma ditadura no futuro.

A posição de vítima é um componente essencial das Novas Direitas – justo aquelas que tanto denunciam um suposto “vitimismo”. Serve para desenhar um establishment inimigo imaginário (composto por qualquer um que se pronuncie contra seus absurdos), e também para garantir o apoio, tácito ou declarado, de pessoas que foram convencidas de que todo mal vem da esquerda.

A esquerda, nesse caso, é um conceito elástico o suficiente para caber todos os inimigos do líder e seus seguidores. Ela começa com os socialistas mas logo passa a incluir progressistas, liberais, cidadãos preocupados, ou mesmo qualquer um que não declare seu apoio. E os inimigos, como mostrou Umberto Eco, precisam ser retratados como simultaneamente fortes e fracos, onipotentes e débeis, de preferência engajados em alguma conspiração sinistra contra tudo o que os seguidores mais amam: sua família, seu modo de vida.

E o absurdo é o que os une. Ele torna possível aos “intelectuais conservadores” dizer qualquer coisa sem que haja cobrança em suas próprias hostes. Aquela frase de efeito que Churchill nunca disse, o ensaio onde se defende a segregação racial, a tentativa de reescrever a história através de um revisionismo troll. Entre os imbecis e os cínicos todos concordam.

Não adianta falar que essas pessoas “precisam aprender história” ou “precisar ler livros de história”. Elas leem, assistem documentários ou pagam cursos para qualquer que diga o que elas querem ouvir. Elas precisam das pequenas verdades, algo que espante as dúvidas que se empilham no fundo da cabeça, que confirme que todos os problemas que assistimos no presente seriam fruto da “degeneração promovida por um grande plano levado a cabo por bilionários comunistas.”

A política do absurdo é um projeto. E se estamos na era da política como entretenimento, uma espécie de reality-show distorcido e sádico, eu diria que é um projeto muito bem-sucedido. Não é possível combater isso apenas com informação, contra argumentos e indignação – nesse ponto talvez a sátira e o humor funcionem de forma mais eficaz.

O fascismo por ele mesmo: Benito Mussolini

Em entrevista concedida em 1932, questionado sobre se um ditador poderia ser amado, Mussolini disse: ‘Pode. Desde que as massas também o temam. O povo adora homens fortes. O povo é como uma mulher.’

Benito Mussolini (1883-1945), o ditador italiano, nasceu na província de Romagna. Cedo, tornou-se jornalista e responsável por uma publicação socialista, o Avanti. Depois de servir na Primeira Guerra Mundial, fundou um semanário de direita, o Popolo d’Italia, e passou a dirigir o agrupamento dos Fascisti. Em 1921, foi eleito para o Parlamento e fundou o Partido Nacional Fascista. No ano seguinte, liderou os chamados camisas-negras na grande Marcha sobre Roma, que levou o rei Vittorio Emmanuel III a convidá-lo para formar o governo italiano. Em 1928, “II Duce”, como era conhecido, aboliu o Parlamento e, em 1929, decretou o Vaticano um Estado independente da Itália.

Em 1940, a Itália do Duce alinhou-se à Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial. Teria início aí sua decadência política. As tropas italianas foram derrotadas na Grécia e no norte da África. Sua popularidade despencava à medida que perdia as batalhas. O rei o depôs e mandou aprisioná-lo. Liberado pelos alemães, Mussolini foi capturado pelos partisans, morto a tiros e exposto em praça pública nas cidades de Como e Milão.

Emil Ludwig (1881-1948), biógrafo e jornalista alemão, era filho de Hermann Cohn, professor de oftalmologia. Formado em direito pela Universidade de Heildelberg, depois da Primeira Guerra tornou-se representante de diversos periódicos dos países aliados à República de Weimar.

A entrevista “teve lugar no Palazzo di Venezia, em Roma, entre 23 de março e 4 de abril de 1932, com encontros diários de quase uma hora”. Os dois homens falaram em italiano. Ludwig traduziu a conversa para o alemão e Mussolini checou os originais nessa língua. “Não havia secretário dele na sala tomando notas, ele não pediu revisão dos originais. Tratava-se apenas de uma questão de confiança mútua”, disse o jornalista.

Alguém havia me presenteado com a édition de luxe de Maquiavel, que a organização editorial do Estado fascista dedicou, com excesso de lisonjas, ao Duce. Mesmo assim, é sem dúvida melhor que um governo ditatorial reconheça as próprias dívidas para com o instrutor dos ditadores do que agir secretamente de acordo com suas teorias, utilizando, entretanto, o termo maquiavélico como abusivo. Quando Frederico, o Grande, ainda era príncipe, escreveu o moralizante O anti-Maquiavel. Mais tarde, ele se tornou mais direto, governando abertamente de acordo com os princípios de Maquiavel.

“O senhor se familiarizou desde cedo com O Príncipe de Maquiavel?”, perguntei a Mussolini. “Meu pai costumava ler o livro em voz alta à noite, enquanto nos aquecíamos perto do fogo da ferraria e bebíamos o vin ordinaire produzido no nosso próprio vinhedo. O livro me impressionou muito. Quando, aos 40 anos, li Maquiavel outra vez, o efeito foi reforçado.”

“É estranho”, eu disse, “como um homem como Maquiavel teve seu trabalho reconhecido em uma certa época, depois foi esquecido e agora é ressuscitado. Parece existir uma variação periódica.”

“O que o senhor disse é, com toda certeza, verdadeiro em se tratando de nações. Elas têm primaveras e invernos. Com o tempo, elas passam.”

“Como as estações na vida nacional se repetem, nunca fiquei muito alarmado com o inverno que domina a Alemanha no momento”, eu disse. “Há mais de cem anos, quando a Alemanha passou por maus momentos, Goethe ridicularizou aqueles que falaram da nossa decadência. O senhor já estudou qualquer um dos personagens importantes da nossa vida política?”

“Bismarck”, respondeu de imediato. “Do ponto de vista dos acontecimentos políticos, ele foi o homem mais importante do seu século. Nunca pensei nele meramente como a figura cômica com três fios de cabelos na cabeça e passos pesados. O livro escrito pelo senhor confirmou a minha impressão do quanto ele era versátil e complexo. Na Alemanha, as pessoas estão bem informadas sobre Cavour?”

“Não muito”, respondi. “Elas sabem muito mais sobre Mazzini. Há pouco tempo, li uma carta de Mazzini para Carlo Alberto, escrita, acho eu, em 1831 ou 1832; a súplica de um poeta a um príncipe. O senhor concorda com o fato de Carlo Alberto ter dado ordens para a prisão de Mazzini caso este cruzasse a fronteira?”

“A carta”, disse Mussolini, “é um dos documentos mais esplêndidos já escritos. A personalidade de Carlo Alberto ainda não se tornou muito clara para nós italianos. Seu diário foi publicado há pouco tempo e é bastante esclarecedor sobre a sua psicologia. É claro que, no início, ele inclinou-se para o lado dos liberais. Quando em 1832 – não, em 1833 –, o governo sardo sentenciou Mazzini à morte in contumaciam, tal fato ocorreu em uma situação política peculiar.”

A resposta pareceu-me tão cautelosa que, na minha determinação persistente, mas inconfessa, de comparar o presente ao passado, achei necessário falar com maior clareza.

“Naqueles dias, A Jovem Itália era publicado ilegalmente. O senhor não acha que esses periódicos surgem sob qualquer censura? O senhor teria prendido Mazzini?”

“Claro que não”, respondeu. “Se um homem tem ideias, que venha a mim e nós vamos discuti-las. Mas, quando Mazzini escreveu aquela carta, ele estava mais tomado pelos sentimentos do que pela razão. Naquela época, o Piemonte tinha apenas quatro milhões de habitantes e era impossível que formasse uma frente contra a poderosa Áustria com seus trinta milhões.”

“Bem, Mazzini foi preso”, recomecei. “Logo depois, Garibaldi foi sentenciado à morte. Duas gerações depois, o senhor foi preso. Não deveríamos concluir que um governante deve pensar duas vezes antes de punir seus adversários políticos?”

“O senhor quer dizer que nós não pensamos duas vezes aqui na Itália?”, perguntou com certa veemência.

“O senhor reintroduziu a pena de morte.”

“Há pena de morte em todos os países civilizados; na Alemanha, assim como na França e na Inglaterra.”

“Ainda assim, foi na Itália”, insisti, “na mente de Beccaria, que a ideia da abolição da pena de morte surgiu. Por que o senhor a reviveu?”

“Porque li Beccaria”, respondeu Mussolini sem ironia. Continuou com a maior seriedade: “O que Beccaria escreveu é o oposto do que a maioria das pessoas acredita. Além disso, depois que a pena de morte foi abolida na Itália, houve um terrível aumento no número de crimes graves. Se comparado à Inglaterra, o total na Itália era de cinco para um. Nesse assunto, leve em consideração apenas a questão social. Não foi Santo Tomás que disse que seria melhor decepar um braço gangrenado para que o resto do corpo pudesse ser salvo?

De qualquer forma, procedo com a maior cautela. Apenas os casos de assassinato excepcionalmente brutal e confesso são punidos com a pena de morte. Há pouco tempo, dois malandros violentaram e assassinaram um jovem. Os dois foram condenados à morte. Acompanhei o julgamento com muita atenção. No último momento, a dúvida tornou-se persistente. Um dos acusados era um criminoso comum que havia confessado seu crime; o outro, um homem bem mais jovem, havia se declarado inocente, e não havia nenhuma acusação anterior contra ele. Seis horas antes da execução, suspendi a sentença do mais novo.”

“O senhor poderia colocar esse fato no capítulo Vantagens de uma ditadura”, disse. A resposta dele foi rápida e feita em tom de zombaria:

“A alternativa é uma máquina estatal que funcione sem que ninguém tenha o poder de pará-la.”

“O senhor gostaria de abandonar esse assunto controvertido e falar sobre Napoleão?”

“Continue.”

“Apesar da nossa conversa anterior, não sei se o senhor o considera um modelo ou um aviso.”

Ele reclinou-se na cadeira sombrio e disse em tom comedido:

“Um aviso. Nunca tive em Napoleão um exemplo, já que não posso ser comparado a ele em nenhum aspecto. As atividades dele diferiam muito das minhas. Ele acabou com uma revolução enquanto eu comecei uma. A história da vida de Napoleão me fez perceber erros que não são fáceis de evitar.” Mussolini enumerou-os com os dedos: “O nepotismo. Uma disputa com o papado. A falta de compreensão da vida financeira e econômica. Ele não via nada além do aumento dos títulos públicos após as suas vitórias.”

“O que determinou o seu fracasso? Os especialistas dizem que ele naufragou ao chocar-se contra os ingleses.”

“Isso é bobagem”, respondeu Mussolini. “Napoleão fracassou, como o senhor mesmo disse, por causa das contradições da sua personalidade. No final, isso é o que leva um homem à ruína. Ele queria usar a coroa imperial! Queria fundar uma dinastia! Como primeiro-cônsul, estava no auge da própria grandeza. O declínio teve início com o estabelecimento do império. Beethoven estava certo quando retirou a dedicatória da Eroica. Foi o uso da coroa que envolveu o corso em contínuas guerras. Compare-o a Cromwell. Este teve uma ideia esplêndida: poder supremo sobre o Estado sem guerra!”

Tinha levado Mussolini a um tema de importância extraordinária. “Pode então haver imperialismo sem império?”

“Há meia dúzia de tipos diferentes de império. Não há necessidade dos brasões do império. Na verdade, eles são perigosos. Quanto mais vasto for o império, mais ele perderá sua energia orgânica. Apesar de tudo, a tendência ao imperialismo é uma das inclinações básicas da natureza humana, uma expressão do desejo de poder. Hoje, vemos o imperialismo do dólar. Há também o imperialismo religioso e o artístico. De qualquer forma, eles são indícios da energia vital humana. Enquanto um homem viver, ele será um imperialista. Quando morrer, o imperialismo estará terminado para ele.”

Nesse momento, Mussolini pareceu extraordinariamente napoleônico, lembrando-me a gravura de Lefèvre de 1815. Então a tensão de seus traços foi relaxada e, em tom mais tranquilo, ele continuou: “É claro que todo império tem seu apogeu. Como ele é sempre a criação de um homem excepcional, carrega dentro de si a semente da própria decadência. Como tudo que é excepcional, ele tem elementos efêmeros. Pode durar um ou dois séculos, ou menos de dez anos. O desejo de poder.”

“Ele só pode ser levado adiante por meio da guerra?”, perguntei.

“Não”, respondeu. “Não há dúvidas sobre isso.” Ele se tornou um tanto didático. “Os tronos precisam de guerras para se manter, mas as ditaduras às vezes podem sobreviver sem elas. O poder sobre uma nação é o resultado de inúmeros elementos, e eles não são apenas militares. Ainda assim, devo admitir que, até agora, na opinião geral, a posição de uma nação dependeu da sua força militar. As pessoas consideram a capacidade para a guerra como a síntese de todas as energias nacionais.”

“Até o momento”, interrompi. “Mas e de agora em diante?”

“De agora em diante?”, reiterou com ceticismo. “É verdade que a capacidade para a guerra não é mais um critério seguro de poder. Em relação ao futuro, portanto, existe a necessidade de algum tipo de autoridade internacional. Pelo menos, da unificação de um continente. Agora que a unidade dos Estados foi atingida, será feita uma tentativa de unificação do continente. Mas no que se refere à Europa, isso será muito difícil, já que cada nação tem suas próprias características, costumes, símbolos e língua. Para cada nação, uma certa porcentagem dessas características (digamos, x por cento) permanece imutável, e isso induz à resistência a qualquer tipo de fusão. Nos Estados Unidos, sem dúvida, as coisas são mais fáceis. Há 48 Estados, de mesma língua e história muito breve, que podem manter a união.”

“Mas, com certeza”, interrompi, “cada nação possui y por cento de características que são puramente europeias.”

“Essas características ficam de fora do poder de cada nação. Napoleão queria estabelecer a unidade na Europa. A unificação da Europa era sua principal ambição. Hoje em dia, essa unificação talvez tenha se tornado possível, mas mesmo naquela época, ela só era possível no plano ideal, como Carlos Magno ou Charles V tentaram fazer do oceano Atlântico aos Urais.”

“Ou, talvez, só até o Vístula?” “É, talvez, só até o Vístula.”

“A sua ideia é que essa Europa poderia ficar sob a liderança fascista?”

“O que é liderança?”, objetou. “Aqui na Itália, o nosso fascismo é o que é. Talvez ele tenha alguns elementos que outros países possam adotar.”

“Sempre acho o senhor mais moderado do que a maioria dos fascistas”, eu disse. “O senhor ficaria surpreso se soubesse o que um estrangeiro é obrigado a ouvir em Roma. Talvez tenha ocorrido a mesma coisa no auge da carreira de Napoleão. A propósito, o senhor poderia me explicar por que o imperador nunca se uniu à sua própria capital, Paris, por que se limitou ao noivado, sem com ela contrair casamento?”

Mussolini sorriu e começou a responder em francês:

“Ses manières n’étaient pas très parisiennes. Talvez houvesse uma violenta tensão sobre ele. Além disso, ele tinha muitos adversários. Os jacobinos se colocaram contra ele porque ele esmagou a revolução, aqueles que eram voltados para a religião, por causa de sua disputa com o papado. Só as pessoas comuns gostavam dele. Eles tinham muita comida durante o governo de Napoleão e se impressionam mais com a fama do que aqueles que pertencem às classes educadas. O senhor não deve esquecer que a fama não é uma questão de lógica, mas de sentimento.”

“O senhor fala de Napoleão com simpatia! Parece que o seu respeito por ele não diminuiu durante o seu próprio controle do poder, o que o tornou capaz de compreender a situação dele a partir da experiência pessoal.”

“Pelo contrário, meu respeito por ele aumentou.”

“Quando ainda era um jovem general, ele disse que sempre se sentia tentado a ocupar um trono vazio. O que o senhor acha disso?”

Mussolini arregalou os olhos, como sempre faz quando se torna irônico, mas, ao mesmo tempo, sorriu.

“Desde o tempo em que Napoleão era imperador”, disse, “os tronos se tornaram bem menos tentadores.”

“É verdade”, respondi. “Ninguém quer ser rei hoje em dia. Quando, há algum tempo, disse ao rei Fuad do Egito: ‘Os reis devem ser amados, mas os ditadores, temidos’, ele exclamou: ‘Como eu queria ser um ditador!’ A história tem registros de algum usurpador que tenha sido amado?”

Mussolini, cujas mudanças de expressão sempre são um prenúncio das respostas (a não ser que ele queira esconder seus pensamentos), ficou sério mais uma vez. A expressão de energia constante foi relaxada, o que fez com que ele parecesse mais jovem do que costuma aparentar. Após uma pausa, e mesmo assim com hesitação, ele continuou:

“Talvez Júlio César. O assassinato de César foi uma desgraça para a humanidade”, e acrescentou em voz baixa: “Adoro César. Ele era único na maneira de combinar a força de vontade de um guerreiro com a genialidade de um filósofo. No fundo, ele era um filósofo que via tudo sub specie eternitatis. É verdade que ele tinha paixão pela fama, mas a ambição não o isolou da humanidade.”

“Então, apesar de tudo, um ditador pode ser amado?”

“Pode”, respondeu Mussolini com determinação renovada. “Desde que as massas também o temam. O povo adora homens fortes. O povo é como uma mulher.”

“Nos meus estudos sobre as grandes carreiras”, comecei, “sempre me preocupei em anotar um aspecto em particular do comportamento dos homens que deixaram o círculo em que cresceram: como se comportaram, por um lado, nas relações com os velhos amigos e, por outro, na solidão que a nova posição impôs aos mesmos. É aí que se revela a personalidade, ou parte dela. O que o homem faz em um conflito como esse entre a bondade humana e a autoridade? Não é natural que ele vá de um extremo a outro? Diga o que acontece quando um dos seus camaradas entra nessa sala! Como o senhor muda sem retomar uma das velhas discussões? Uma vez, o senhor escreveu (e essa é uma boa frase): ‘Somos fortes porque não temos amigos’.”

Quando se sentou à minha frente, Mussolini não fez nenhum gesto ou movimento, mas havia algo incomum, quase infantil, na expressão dele que me revelou que o assunto que eu havia abordado causara-lhe profunda agitação. Quando, por fim, ele respondeu, ficou claro que as suas palavras eram mais frias do que os seus sentimentos, e que ele não estava revelando todas as suas emoções e pensamentos.

“Não posso ter amigos. Não tenho amigos. Primeiro, por causa do meu temperamento, segundo, por causa da minha visão dos seres humanos. É por isso que evito tanto a intimidade quanto as discussões. Se um velho amigo me procura, o encontro é constrangedor para ambos e não dura muito. Só à distância acompanho as carreiras dos meus antigos camaradas.”

“O que acontece quando aqueles que foram amigos tornam-se adversários e o caluniam?”, perguntei, relembrando minhas experiências pessoais. “Qual dos seus velhos amigos permaneceu mais fiel ao senhor? Há algum antigo amigo cujo ataque violento ainda constrange o senhor?”

Ele permaneceu imóvel.

“Se aqueles que um dia foram meus amigos tornaram-se inimigos, o que me interessa saber é se são inimigos na vida pública. Se forem, eu os combato. Se não forem, eles não me interessam. Quando alguns antigos colaboradores me atacaram na imprensa, declarando que eu havia me apropriado de dinheiro pertencente a Fiume, isso, é claro, aumentou minha misantropia. Os meus amigos mais fiéis, eu guardo no fundo do coração, mas, em geral, eles mantêm distância. Justamente porque são leais! São pessoas que não buscam lucro ou ascensão e que, apenas em raras ocasiões, me fazem rápidas visitas.”

“O senhor confiaria a sua vida a eles ou a qualquer outro?”, perguntei. “O senhor tornou alguns deles membros do Gran Consiglio?”

“Três, e apenas por três anos”, disse ele secamente.

“Sendo essa a sua posição, sou levado a perguntar quando o senhor sentiu-se mais solitário. Foi na juventude, como no caso de D’Annunzio, quando estava fora em contato direto com os camaradas de partido, ou hoje em dia?”

“Hoje em dia”, respondeu sem um momento de hesitação. “Mas”, continuou após uma pausa, “mesmo no início, ninguém exercia qualquer influência sobre mim. Basicamente, eu sempre fui sozinho. Além disso, agora, embora não esteja preso, sou um prisioneiro de qualquer forma.”

“Como o senhor pode dizer isso?”, perguntei com considerável agitação. “Ninguém no mundo tem menos razões para fazer uma declaração dessas!”

“Por quê?”, perguntou, tendo a atenção concentrada na minha agitação.

“Porque ninguém no mundo pode agir com tanta liberdade quanto o senhor!”, continuei. Ele fez um gesto conciliatório e respondeu:

“Por favor, não pense que eu estou inclinando a lutar contra o meu destino. Ainda assim, até certo ponto, defendo o que acabo de dizer. O contato com assuntos comuns, uma vida espontânea no meio da multidão – para mim, na minha posição, essas coisas são proibidas.”

“O senhor só precisa sair para um passeio!”

“Eu teria que usar uma máscara”, respondeu. “Uma vez, quando, sem máscara seguia pela via Tritone, fui rapidamente cercado por uma multidão de trezentas pessoas, por isso não consegui dar um passo. Mas não acho minha solidão maçante.”

“Se a solidão lhe agrada”, eu disse, “como o senhor pode suportar os vários rostos que tem que ver aqui todo dia?”

“Percebendo apenas o que eles me dizem. Não deixo que entrem em contato com o meu interior. Não me emociono mais com eles do que com esta mesa e os papéis que estão sobre ela. No meio deles, conservo minha solidão intocada.”

“Nesse caso”, eu disse, “o senhor não tem medo de perder o equilíbrio mental? O senhor lembra como César, quando retornava de uma vitória no Fórum, trazia com ele na biga um escravo, cuja função era lembrá-lo continuamente da nulidade de todas as coisas?”

“Claro que lembro. O rapaz tinha de lembrar o imperador do fato de que ele era um homem e não um deus. Mas, hoje em dia, esse tipo de coisa é desnecessário. Da minha parte, de qual- quer maneira, nunca tive nenhuma inclinação para imaginar-me um deus, sempre tive profunda consciência de que sou apenas um mortal, com todas as fraquezas e paixões da mortalidade.”

Ele falou com óbvia emoção e depois continuou em tom mais calmo:

“O senhor está sempre preocupado com o perigo que pode resultar da falta de oposição. Esse perigo seria real se vivêssemos tempos tranquilos. Mas, hoje em dia, a oposição é representada pelos problemas que têm de ser resolvidos, pelos problemas econômicos e morais que sempre pedem uma solução. Isso é o suficiente para não permitir que um governante durma! Além disso, criei uma oposição dentro de mim mesmo!”

“Parece que estou ouvindo Lord Byron”, eu disse.

“Com frequência eu leio tanto Byron quanto Leopardi. E quando me canso dos seres humanos, eu viajo. Se pudesse fazer tudo o que quisesse, eu estaria sempre no mar. Quando isso é impossível, contento-me com os animais. A atividade mental deles se aproxima da humana, e, mesmo assim, eles não querem nada de nós: os cavalos, os cães e o meu favorito, o gato. Ou, então, eu observo os animais selvagens. Eles personificam as forças básicas da natureza!”

Essa confissão me pareceu tão misantrópica que perguntei a Mussolini se ele achava que um governante precisava se inspirar no desprezo pela humanidade e não nos sentimentos generosos.

“Pelo contrário”, disse enfático. “Uma pessoa precisa de 99% de generosidade e apenas 1% de desprezo.”

Partindo dele, a declaração me surpreendeu e, para certificar-me de ter entendido bem, perguntei-lhe mais uma vez: “O senhor realmente acha, então, que os seres humanos merecem mais compreensão do que desprezo?”

Ele olhou-me com sua habitual expressão inescrutável e disse em voz baixa: “Mais compreensão e compaixão, muito mais compaixão.”

Essa declaração lembrou-me que, quando lia os discursos de Mussolini, fui surpreendido várias vezes pelo que parecia ser uma exibição de altruísmo. Por que ele, o condottiere, se referia com tanta insistência aos interesses da comunidade? Fui levado a perguntar-lhe:

“Repetidas vezes, em frases excessivamente graciosas, o senhor declarou que um aperfeiçoamento da sua própria personalidade era a meta da sua vida, dizendo: ‘Quero fazer da minha vida uma obra-prima’, ou ‘Quero tornar minha vida muito eficiente’. Algumas vezes, o senhor citou a máxima de Nietzsche: ‘Viva perigosamente!’ Como pode então um homem de natureza tão orgulhosa escrever: ‘Minha principal meta é a promoção do interesse público’? Não existe, aí, uma contradição?”

Ele ficou impassível.

“Não vejo nenhuma contradição”, respondeu. “É perfeitamente lógico. O interesse da comunidade é um assunto comovente. Estando a serviço dele, enriqueço minha própria vida.”

Fui pego de surpresa e não pude encontrar uma resposta efetiva, mas citei as próprias palavras do ditador: “Sempre tive uma perspectiva altruísta da vida.”

“Sem dúvida”, disse ele. “Ninguém pode isolar-se da humanidade. Aí temos algo de concreto – a humanidade da raça a qual pertenço.”

“A raça latina”, interrompi, “nela incluem-se os franceses.”

“Já declarei, ao longo de uma destas conversas, que não existe uma raça pura! A crença de que ela existe é uma ilusão da mente, um sentimento. Mas essa crença deixa de existir só por ser uma ilusão?”

“Sendo assim”, eu disse, “um homem pode escolher a raça a que deseja pertencer.” “Claro.”

“Bem, escolhi ser mediterrâneo e, nesse ponto, tenho um aliado formidável em Nietzsche.” O nome despertou na mente de Mussolini uma associação e, em alemão ele citou uma das declarações mais orgulhosas de Nietzsche: “Pareço esforçar-me para ser feliz? Eu me esforço no interesse do meu trabalho!”

Chamei a atenção para o fato de que aquela ideia, na verdade, se originara de Goethe e perguntei se ele concordava com a opinião de Goethe de que o caráter é moldado pelos revezes do destino.

Ele concordou com a cabeça: “Devo o que sou às crises que tive que superar e às dificuldades que tive que vencer. Portanto, todos devem correr riscos.”

“Por isso o senhor põe em jogo o seu trabalho e a si, correndo riscos desnecessários.”

“A vida tem seu preço”, respondeu. “Não se pode viver sem correr riscos. Hoje mesmo participei de uma luta mais uma vez.”

“Se a sua visão fosse coerente, o senhor não tentaria se proteger”, eu disse. “Eu não tento”, respondeu.

“O quê!”, exclamei. “O senhor não reconhece que várias vezes algum dos seus inimigos arrisca a própria vida na esperança de privá-lo da sua?”

“Eu entendo aonde o senhor está querendo chegar. Também sei dos rumores que correm. Dizem que sou vigiado por mil policiais e que toda noite durmo em um lugar diferente. Na realidade, durmo toda noite na Villa Torlonia e dirijo ou ando a cavalo quando e para onde quiser. Se tivesse de pensar constantemente na minha própria segurança, me sentiria humilhado.”

“Diga-me”, falei para concluir, “qual a importância da fama na sua vida? Não é essa a motivação mais forte para um governante? A fama não é a única maneira de escapar da morte? Ela não é a sua principal meta desde que o senhor era um menino? Todo o seu trabalho não é movido pelo desejo de se tornar famoso?”

Mussolini permaneceu imperturbável.

“A fama não me atraía quando eu era menino”, disse, “e não concordo que o desejo de se tornar famoso seja a mais forte das motivações. No que se refere à morte, o senhor tem razão; existe um certo consolo em saber que não se está completamente morto quando se é famoso. Mas meu trabalho nunca foi exclusivamente direcionado pelo desejo da fama. A imortalidade é garantida pela fama.” Ele fez um gesto largo em direção a um futuro remoto e incontrolável e acrescentou:

“Mas ela vem – mais tarde.”

(*) Esta entrevista foi publicada no livro ‘A Arte da entrevista’ (Editora Boitempo, 2004), organizado por Fábio Altman e com ilustrações de Cássio Loredano. As traduções são de Inês Antonia Lohbauer, Maria dos Anjos Santos Rouch e Rosanne Pousada. O texto se encontra entre as páginas 135 e 143.
OperaMundi

Viktor Orbán,Fascismo,Política internacional,Europa,Hungria

O princípio do fim de Viktor Orbán?

Chamada “lei dos escravos” leva milhares de húngaros às ruas do país. A reação do governo é cada vez mais absurda, e a Hungria pode estar diante de um futuro sombrio, opina Keno Verseck.

Viktor Orbán,Fascismo,Política internacional,Europa,HungriaFoto de protestos em Budapeste em 17 de dezembro de 2018
Húngaros protestam diariamente contra governo Orbán

Consta que o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, possui um talento brilhante para farejar assuntos importantes para a população, aliado a um extraordinário instinto de poder. De fato, muitas evidências disso podem ser encontradas nos últimos anos.

A mais conhecida é a instrumentalização da crise de refugiados pelo chefe de governo húngaro. O tratamento que Orbán deu ao assunto lhe garantiu uma votação recorde na Hungria, transformando-o num fator de influência a não ser subestimado na Europa.

Mas dadas as reações do governo húngaro à atual onda de protestos no país, deve-se agora desconfiar do instinto de Orbán. Atualmente, milhares de pessoas protestam diariamente contra a chamada “lei dos escravos”, segundo a qual o número de horas extras permitidas pode aumentar muito, como também contra outras leis e práticas antidemocráticas no país.

Embora o primeiro-ministro húngaro ainda não tenha comentado diretamente as manifestações, seus funcionários e amigos mais próximos, como também a mídia que lhe é favorável, se voltam de forma virulenta contra todos aqueles que atualmente tomam as ruas ou que apoiam de alguma forma os protestos.

Eles afirmam que os protestos são obra de “provocadores”, de “agentes da rede Soros”, de “criminosos estrangeiros”, de uma “minoria agressiva” ou “inimigos do cristianismo e do Natal”. Trata-se de atributos que devem ter sido aprovados por Orbán, pois na Hungria nada acontece sem o seu consentimento. E certamente as pessoas de seu entorno imediato não se expressam sem a certeza de que estão alinhados com o primeiro-ministro.

Até agora, o modo pelo qual o regime Orbán rotulou os críticos só tem ajudado a inflamar ainda mais os protestos. É estapafúrdia a forma como o governo húngaro se supera no absurdo de suas alegações. Mas isso faz simplesmente parte da lógica do sistema de Orbán. E é aí que a situação fica realmente perturbadora.

A retórica de Orbán – isso pode ser acompanhado por um bom observador – está cada vez menos preocupada com uma concorrência democrática voltada para o bem comum e a governança responsável e sustentável. Em vez disso, a suposta luta entre vida e morte, guerra e paz, bem e mal está cada vez mais em primeiro plano.

Assim, a forma tornou-se conteúdo. O primeiro-ministro da Hungria aboliu gradualmente os mecanismos de controle do poder ou, pelo menos, restringiu severamente seu funcionamento.

O filósofo Gáspár Miklós Tamás foi um dos primeiros a prever, muito tempo atrás, que Orbán não iria entregar voluntariamente o poder. Enquanto isso, muitos húngaros acreditam que o primeiro-ministro não é mais tão fácil de derrubar pelo voto, mas que seu regime só pode ser encerrado pela força.

Sinais disso podem ser observados atualmente. Na semana passada, no Parlamento húngaro, foram vistas cenas caóticas que não aconteceram em outro Parlamento na União Europeia em 2018 – assobios, ocupação do palanque do presidente da Casa pelos deputados, deslocamento de forças de manutenção da ordem para o plenário e a oposição retirando-se em protesto. As manifestações também estão se tornando cada vez mais radicais.

Não há praticamente nenhuma esperança de que Orbán detenha seu estilo de governo extremamente agressivo. O que é triste para a Hungria e seu povo: o país que há 30 anos era pioneiro do desenvolvimento democrático no Leste Europeu está diante de um futuro sombrio.

Hitler,Fascismo,Nazismo,Ideologias,Guerra,Blog do Mesquita

Hitler: o fascismo por ele mesmo

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Nesta entrevista ao jornal Liberty, em 1932, Hitler diz: ‘Nos meus planos para o Estado alemão, não haverá lugar para os estrangeiros, os perdulários, os usurários, os especuladores ou qualquer um que não seja capaz de fazer um trabalho produtivo’

Adolf Hitler (1889-1945), o ditador alemão, nasceu na Áustria, filho de um oficial de alfândega. Ainda estudante, sonhava em se tornar arquiteto ou pintor – mas seu insucesso acadêmico o levou à política. Com a Primeira Guerra Mundial deflagrada, ele se alistou no Exército da Baviera. Condecorado por heroísmo, Hitler terminou os combates na condição de inválido: atingido por um ataque de gás, perdeu parte de sua visão. Frustrado com a derrota bélica, atribuída por ele aos judeus e aos socialistas, fundou o Partido Alemão Nacional-Socialista dos Trabalhadores. Em 1923, participou do putsch da cervejaria de Munique, numa tentativa de golpe de Estado contra o governo republicano da Baviera. Encarcerado durante nove meses, Hitler aproveitou esse período para ditar seu credo político, o Mein Kampf (Minha Luta), para Rudolf Hess. Depois de sua libertação, ele começou a atrair o interesse popular para as ideias nazistas, manipulando a paranoia antissemita, utilizando recursos de propaganda e construindo uma coalizão de trabalhadores, empresários e senhores do campo. Em 1933, um ano depois de ter sido derrotado nas eleições presidenciais, foi nomeado chanceler da Alemanha. Novas eleições gerais foram convocadas e o partido de Hitler chegou ao poder. Hitler se suicidou com sua amante, Eva Braun, em 1945, quando as tropas russas se preparavam para invadir seu bunker em Berlim, nos derradeiros dias da Segunda Guerra.

George Sylvester Viereck já havia entrevistado Adolf Hitler em 1923, quando ele ainda era um obscuro personagem da vida política europeia. Naquela oportunidade, Viereck anotou: “Este homem, se sobreviver, fará história, para o bem ou para o mal”.

Quando eu dominar a Alemanha, vou pôr fim ao bolchevismo em nosso país e às homenagens a ele no exterior.” Adolf Hitler bebeu todo o conteúdo da xícara como se não fosse chá, mas o sangue dos bolcheviques.

“O bolchevismo”, continuou o chefe dos camisas-marrons, dos fascistas alemães, olhando-me ameaçador, “é a nossa grande ameaça. Quando o bolchevismo na Alemanha estiver morto, setenta milhões de pessoas voltarão ao poder. A França deve toda a força que tem não aos seus exércitos, mas às forças do bolchevismo e à dissensão entre nós. O Tratado de Versalhes e o Tratado de Saint-Germain sobrevivem graças ao bolchevismo na Alemanha. O Tratado de Paz e o bolchevismo são cabeças do mesmo monstro. Temos que decapitá-las.”

Quando Adolf Hitler anunciou esse programa, o advento do Terceiro Reich ainda parecia distante. Com o tempo, o poder de Hitler foi crescendo a cada eleição. Embora incapaz de tirar Hindenburg da presidência, Hitler, no momento, lidera o maior partido da Alemanha. A não ser que Hindenburg instaure medidas ditatoriais ou que os acontecimentos tomem um rumo inesperado e frustrem todas as atuais previsões, o partido de Hitler conquistará o Reichstag e dominará o governo. Hitler não lutou contra Hindenburg, mas contra o chanceler Brüning. Será difícil para o sucessor de Brüning manter-se no poder sem o apoio dos nacional-socialistas.

Muitos dos que votaram em Hindenburg estavam, no íntimo, do lado de Hitler, mas um senso de lealdade arraigado impeliu-os, entretanto, a votar no velho marechal-de-campo. A não ser que um novo líder apareça do dia para a noite, não há ninguém na Alemanha, com exceção de Hindenburg, capaz de derrotar Hitler – e Hindenburg tem 85 anos! Só o tempo, a obstinação da luta francesa contra Hitler, algum erro cometido por ele próprio ou uma dissensão nas fileiras do partido pode privá-lo da oportunidade de desempenhar o papel de Mussolini da Alemanha.

O Primeiro Império alemão chegou ao fim quando Napoleão forçou o imperador austríaco a renunciar à coroa imperial. O Segundo Império terminou quando Guilherme II, a conselho de Hindenburg, procurou refúgio na Holanda. O Terceiro Império está emergindo aos poucos, mas com firmeza, embora talvez dispense cetros e coroas.

Encontrei Hitler não em seu quartel-general, a Casa Marrom em Munique, mas no seu próprio lar – a residência de um almirante reformado da Marinha alemã. Discutimos o destino da Alemanha bebendo chá.

“Por que”, perguntei a Hitler, “o senhor se diz um nacional-socialista, já que o programa do seu partido é a própria antítese do que geralmente se acredita ser o socialismo?”

“O socialismo”, replicou agressivo, deixando de lado a xícara de chá, “é a ciência de lidar com o bem-estar geral. O comunismo não é o socialismo. O marxismo não é o socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Vou tirar o socialismo dos socialistas. “O socialismo é uma antiga instituição ariana e alemã. Nossos ancestrais alemães tinham algumas terras em comum. Cultivavam a ideia do bem-estar geral. O marxismo não tem direito de se disfarçar de socialismo. O socialismo, diferentemente do marxismo, não repudia a propriedade privada. Diferentemente do marxismo, ele não envolve a negação da personalidade e é patriótico. Poderíamos ter chamado nosso partido de Partido Liberal. Preferimos chamá-lo de Nacional-Socialista. Não somos internacionalistas. Nosso socialismo é nacional. Exigimos o atendimento das justas reivindicações das classes produtivas pelo Estado com base na solidariedade racial. Para nós, o Estado e a raça são um só.”

O próprio Hitler não é um alemão puro. Os cabelos escuros denunciam a presença de algum ancestral alpino. Durante anos, ele se recusou a ser fotografado. Era parte de sua estratégia – ser conhecido apenas pelos amigos para que, em um momento de crise, pudesse aparecer em qualquer lugar sem ser descoberto. Hoje em dia, ele não poderia mais passar despercebido pela mais obscura das aldeias da Alemanha. Sua aparência cria um contraste estranho com a agressividade de suas opiniões. Nenhum outro reformista de maneiras tão suaves afundou um navio do Estado ou cortou gargantas na política.

“Quais são os princípios fundamentais da sua plataforma?”, continuei meu interrogatório. “Acreditamos em uma mente sã em um corpo são. A nação tem que ser sadia para que a alma também o seja. Saúde moral e física são sinônimos.” “Mussolini”, interrompi, “disse-me a mesma coisa.”

Hitler sorriu. “Os bairros miseráveis”, acrescentou, “são responsáveis por nove décimos, e o álcool, por um décimo de toda a depravação humana. Nenhum homem saudável é marxista. Os homens saudáveis reconhecem o valor da personalidade. Lutamos contra as forças da desgraça e da degeneração. Se fizermos uma comparação, a Baviera é saudável porque não está completamente industrializada. No entanto, toda a Alemanha, incluindo a Baviera, está condenada à industrialização intensiva pelo tamanho reduzido do nosso território. Se quisermos salvar a Alemanha, temos que nos assegurar de que os fazendeiros continuem fiéis à terra. Para tanto, eles precisam ter espaço para respirar e para trabalhar.”

“Onde o senhor encontrará espaço para trabalhar?”

“Precisamos manter nossas colônias e expandir em direção ao leste. Houve um tempo em que podíamos dividir o domínio do mundo com a Inglaterra. Agora, só podemos expandir-nos em direção ao leste. O Báltico é necessariamente um lago alemão.”

“A Alemanha”, perguntei, “não poderia reconquistar o mundo do ponto de vista econômico sem expandir seu território?”

Hitler moveu a cabeça, negando com veemência.

“O imperialismo econômico, assim como o imperialismo militar, depende de poder. Não pode haver comércio mundial em larga escala sem poder mundial. Nosso povo não aprendeu a pensar em termos de poder e comércio mundiais. Entretanto, a Alemanha não pode expandir o seu comércio e o seu território até reconquistar o que perdeu e encontrar-se.

“Estamos na mesma situação de um homem que perde a casa em um incêndio. Ele precisa ter um teto antes de entregar-se a planos mais ambiciosos. Conseguimos criar um abrigo de emergência que nos mantinha protegidos da chuva. Não estávamos preparados para o granizo. Entretanto, infortúnios caíram sobre nós. A Alemanha vive sob uma verdadeira tempestade de catástrofes nacionais, morais e econômicas.

“Nosso sistema partidário desmoralizado é um sintoma de nossa desgraça. As maiorias parlamentares flutuam ao sabor do vento. O governo parlamentarista abre as portas para o bolchevismo.”

“O senhor não é a favor de uma aliança com a União Soviética como alguns militares são, não é verdade?”

Hitler esquivou-se de uma resposta direta a essa pergunta. Há pouco tempo, ele esquivou-se outra vez quando o Liberty pediu que respondesse à declaração de Trótski de que a tomada do poder por Hitler na Alemanha envolveria uma batalha de vida ou morte entre a Europa, liderada pela Alemanha, e a Rússia Soviética. Hitler talvez não tenha interesse em atacar o bolchevismo na Rússia. Talvez ele até mesmo considere uma aliança com o bolchevismo como a última cartada se estiver perdendo o jogo. Se, como ele insinuou certa vez, o capitalismo recusar-se a reconhecer que os nacional-socialistas são a última trincheira da propriedade privada, se o capital impedir a luta deles, a Alemanha pode ser obrigada a jogar-se nos braços tentadores da Rússia Soviética. Mas ele está determinado a não permitir que o bolchevismo se estabeleça na Alemanha.

No passado, ele respondeu com cuidado as tentativas de negociação do chanceler Brüning e de outros que desejavam formar uma frente política unida. Não é provável que o mesmo ocorra no momento, em vista do crescimento constante dos votos dos nacional-socialistas. Hitler estará propenso a fazer acordos sobre quaisquer princípios básicos com outros partidos.

“As alianças políticas das quais depende uma frente unida”, observou Hitler, “são muito instáveis. Elas tornam quase impossível uma política claramente definida. Vejo, por toda parte, o caminho tortuoso dos acordos e concessões. Nossas forças construtivas são detidas pela tirania dos números. Cometemos o erro de aplicar a aritmética e a mecânica do mundo econômico ao modo de vida. Somos ameaçados pelo constante crescimento dos números e abandonos dos ideais. Meros números não têm importância.”

“Mas vamos supor que a França faça retaliações contra o senhor, invadindo suas terras mais uma vez. Ela já invadiu o Ruhr. Poderia invadi-lo de novo.”

“Não importa”, respondeu Hitler exaltado. “Quantos quilômetros quadrados os inimigos podem ocupar se o espírito nacional estiver vigilante? Dez milhões de alemães livres, prontos para morrer para que o país sobreviva, são mais fortes do que cinquenta milhões cuja força de vontade está paralisada e cuja consciência de raça está infectada por estrangeiros.

“Queremos uma Alemanha maior, que una todas as tribos germânicas. Mas a nossa salvação pode começar em uma pequena região. Mesmo se tivéssemos apenas dez acres de terra, mas estivéssemos determinados a defendê-los com nossas próprias vidas, os dez acres iriam se tornar o foco da regeneração. Nossos trabalhadores têm duas almas: uma é alemã e a outra é marxista. Temos que acordar a alma alemã. Temos que extirpar o tumor do marxismo. O marxismo e o germanismo são antíteses.

“Nos meus planos para o Estado alemão, não haverá lugar para os estrangeiros, os perdulários, os usurários, os especuladores ou qualquer um que não seja capaz de fazer um trabalho produtivo.”

Hitler franziu o cenho ameaçador. Sua voz dominou a sala. Ouvimos um barulho na porta. Seus seguidores, que estão sempre por perto como guarda-costas, lembraram ao líder o seu compromisso de falar em uma reunião.

Hitler bebeu o chá às pressas e levantou-se.

(*) Esta entrevista foi publicada no livro ‘A Arte da entrevista’ (Editora Boitempo, 2004), organizado por Fábio Altman e com ilustrações de Cássio Loredano. As traduções são de Inês Antonia Lohbauer, Maria dos Anjos Santos Rouch e Rosanne Pousada. O texto se encontra entre as páginas 129 e 133.