Fatos & Fotos – 17/02/2021

Boa noite.
Identidade
Mia Couto

Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem inseto

Sou areia sustentando
o sexo das árvores

Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

no mundo que combato
morro
no mundo que luto
nasço

Fotografia de Beatriz Imizcoz


Que safado. Conje virou homem de negocio… Empresa que contratou Conje é controlada por holding em paraíso fiscal americano. Está claro agora, Brasil?

– Priorizamos bares e não escolas
– Priorizamos aparelhamento e não especialistas
– Priorizamos cura mágica e não vacinas
– Priorizamos aglomeração e não pesquisa
Educação, ciência, saúde e vidas não são prioridades no Brasil.


Rodrigo Maia cometeu um grande erro político ao se negar a liberar pedidos de impeachment e apostar em sua reeleição, ainda que negue. Quis contemporizar com o fascista e agradar os neoliberais e agora corre o risco de voltar à irrelevância.


Gravura – Xilogravura de Xiang-Silou


Vamos esclarecer. Bolsonaro não é louco. O “louco” é aquele que sofre de uma psicose, delira e alucina porque rompe com a realidade. Essa trupe que nos “governa” é perversa. O perverso não perde o senso de realidade, mas a distorce a seu bel prazer, conscientemente. Um sociopata.


Pazuello falando sobre o plano de vacinação extrapola a incompetência. De tão simplórios os argumentos do ministro, a impressão é de extrema má-fé e descaso com a gravidade da pandemia.


Sobre o arrependimento do Gabeira? Quero mais que ele e o arrependimento vá pra PQP! Não tenho empatia pelos arrependidos! A gente tá na vala da humanidade por causa desse povo que se dizia intelectual mas não escolheu um professor e sim um asno pra Presidente!


Da série:”o Brasil para principiantes”.
Antes de ser preso a PF deixou o deputado gravar um vídeo. Seria o mesmo que deixar um bandido terminar o assalto para depois prender. Não tem lógica isso.


Senador Pacheco (quem?), sobre deputado: “Não elevaremos episódio à crise institucional”.
Um bundão. Mole!


Daniel Silveira: resumo de um Brasil doente. Pretensioso, afetado, desrespeita gente viva, gente morta, acha que entende de liberdade, bajulador de Jair Bolsonaro, desconhece valores republicanos, democracia. Gente ruim por inteiro. Quem ele representa? Os que compartilham do mesmo perfil.


Desenho de Ivan Shishki


Por que não prendem o Ratinho? Liberdade de expressão não dá direito a pregar a ditadura, fuzilamento evasão do país, por se pensar diferente.


Arquitetura – Das Park Hotel Linz, Austria


Daniel Silveira cometeu crimes? A menos que se ache que a liberdade de expressão e a imunidade abrigam ameaçar um Poder da República, a resposta é “sim”. Mais: ameaça a próprio Poder e os ministros tomados individualmente.


Essa gentalha e quadrilhas não querem cultura, não querem arte. Não entendem, são toscos. Está além de sua compreensão. Consideram desperdício de tempo e de dinheiro. Só entendem o consumo e o prazer hedonista, mas sem qualquer sensibilidade ou poesia. Um doce pra quem souber de quem estou falando.


Design – Aldravas e Puxadores#Design #Aldrabas #Puxadores #Portas #Blogdomesquita


Escultura de Marc Perez


Escrúpulos? Não bastasse o engulho da cloroquina, Bolsonaro vai enviar comitiva a Israel para comprar spray nasal anticovid. Mas a mãe dele ele já vacinou.


O Brasil não é para iniciantes.
Deputado Daniel Silveira preso por elogiar o AI-5 e pedir o fechamento do STF.
A prisão é baseada na Lei de Segurança Nacional, entulho autoritário da ditadura.
E se defende com base na #imunidade parlamentar prevista na Constituição, que chamou de merda.


Georges Croegaert –  Al Cafe de la Paix 1883


O Direito à Liberdade de Expressão não é absoluto. O Código Penal Brasileiro baliza esses limites no Capítulo que trata dos Crimes Contra a Honra. No âmbito constitucional, doutrina Norberto Bobbio que a consequência lógica da liberdade de expressão ser um princípio é a sua inerente possibilidade de colisão com outros direitos fundamentais. Isso quer dizer que ela não é absoluta, e que ao mesmo tempo em que é importante resguardar a liberdade de expressão, também é necessário que se tenha uma proteção a outros direitos fundamentais igualmente resguardados constitucionalmente.


Jacques Taillefer, 1969


Por uma questão de coerência, os defensores do AI-5 e do fechamento do STF não deveriam evocar os direitos fundamentais ou o princípio da legalidade quando fossem presos..


Folha corrida de do Deputad Daniel Silveira:
-investigado por venda de anabolizantes em academias de Petrópolis.
– 4 anos como soldado da PM RJ, 80 dias preso, + de 70 punições por #indisciplina.
– obteve seguidas licenças médicas pra não ser expulso – eleito Dep. federal com 32 mil votos.
Foi Eleito pelo Rio de Janeiro, assim como Hélio Negão, Carlos Jordy, Flordelis, Márcio Labre e também responsável por eleger diversas vezes Jair Bolsonaro, mesmo ele nunca ter feito nada pelo estado, sempre foi reeleito! O problema não são os políticos safados, mas a sociedade. Fico me perguntando como nós, brasileiros, elegemos tantos bandidos, das mais diversas estirpes! Será que nós deixamos enganar coletivamente ou nosso sistema eleitoral e muito ruim?


Por que só agora a prisão deste deputado, se muito antes o filho n° 3 desfeiteou o STF e ameaçou reeditar o AI-5 e nada aconteceu? Cortina de fumaça para desviar a atenção do caos sanitário provocado pelo governo federal? Ou está em curso a ursupação do poder pela milícia?


A demora na vacinação em massa no país não é por acaso. Estamos sob o tacão uma necropolítica pentecostalibã que vem se instalando no Brasil, liderada pelo pior presidente da história.


Hugo Chaves – dezenas de vezes saudado e elogiado da tribuna da câmara pelo cramulhão – começou assim; afagou os militares, com poder e mordomias, com a maioria no congresso mudou a constituição aumentando número de juízes no Supremo da Venezuela. Com isso implantou a ditadura por lá. Aqui no Brasil, o cramulhão já conseguiu 50% dessas metas.


Ou a Câmara, Centrão incluído, cassa o mandato desse cafajeste Daniel cro magon Silveira, que fala com a linguagem de um miliciano, de um gangster, ou já não se terá controle de mais nada. Ou isso ou as milícias tomarão definitivamente o Poder



A “nova política” do eu faço e arrebento é fascista. Marombado acha que pode tudo. Querem uma terra sem lei. Ou melhor, que eles sejam a lei.


Foto do dia – Fotografia de Swede Johnson


Victor Órban, presidente da Hungria, extremista da direita, minou a imprensa e só ficou as que falam bem dele. Essas compraram a parte falida. Elegeu para o Congresso a maioria apoiadora dele, mudou leis, sufocou as esquerdas.Tudo dentro da democracia. Isso lembra o que está em curso em um certo país tropical?


Pintura de Gustave Leonard de Jonghe


A extrema direita no Brasil é de uma estupidez imensurável. É um estranho pais onde uma pessoa vai presa por pedir um novo AI-5 e o pessoal pede sua soltura alegando que é preciso respeitar a Constituição. É consequência de uma dieta de alfafa estragada ao molho de cocô de ameba.


Barroso, Fux e Fachin, são exatamente os três ministros que estão nos diálogos da Lava Jato. Fica claro porque eles continuam defendendo o indefensável. Resta saber se terão a dignidade de se considerar suspeitos para julgar qualquer coisa do processo.



Tudo que sei de Luciano Huck  sei dele na política é que torceu por Aécio e Bolsonaro. Mas a imprensa diz que ele estaria contratando um especialista em fake news – o cara que trabalhou pro Maurício Macri. A se confirmar, creio ele tem o dever de desmentir ou explicar. E aí, Huck, vai criar o Caldeirão do Ódio?


Alguém aí lembra do Queiroz, da sua mulher, do tal anjo? Quem tá preso? Como tiram um assunto de cena, né?

Clickbaits: Você não vai acreditar como Folha e Globo faturam com propaganda enganosa disfarçada de notícia

O modelo de veiculação automática de conteúdo publicitário inunda grandes sites de anúncios picaretas que confundem o leitor.

Ilustração: Rodrigo Bento/The Intercept Brasil

Ao final de textos publicados em sites de jornalismo, é comum os leitores se depararem com uma fileira de pequenos anúncios sensacionalistas disfarçados de conteúdo jornalístico. Os títulos são sempre apelativos — conhecidos como clickbaits —, feitos com o único objetivo de fazer o visitante clicar. Esses anúncios geralmente giram em torno de dicas de saúde, novidades sobre celebridades e maneiras fáceis de enriquecer. Quando o leitor clica, é levado para sites desconhecidos de baixíssima qualidade, que oferecem algum produto duvidoso. O problema não são apenas as chamadas sensacionalistas, mas o conteúdo dos textos. Vários deles são falsos. Leitores de sites jornalísticos sérios estão a um clique de distância de fake news.

Esse modelo de veiculação automática de anúncios em grandes sites vem sendo criticado nos Estados Unidos pelo menos desde 2016. Editores de alguns dos principais veículos americanos passaram a questionar os efeitos desse modelo de anúncios sobre a credibilidade das suas marcas. As revistas Slate e a The New Yorker decidiram interromper a exibição desses anúncios em seus sites. Um artigo sobre misoginia de Trump na Slate, por exemplo, era acompanhado de uma chamada para a seguinte notícia “10 celebridades que perderam seus corpos sarados”. Abaixo da manchete, fotos mostrando o antes e depois do corpo de uma mulher famosa completam a baixaria. Na campanha de 2016, esses espaços patrocinados também foram usados para espalhar mentiras sobre a candidata democrata Hillary Clinton.

No Brasil, essas empresas chegaram com força. Um jornalista de dados com quem conversei, que preferiu não se identificar, vem acompanhando os links patrocinados do Taboola e Outbrain no rodapé dos grandes sites há algum tempo. Foi ele quem me passou boa parte das informações que guiaram esse texto. Em um levantamento sobre páginas de fake news, o jornalista identificou que as mentiras relacionadas à saúde eram bem mais volumosas que as relacionadas à política. Percebeu também que os links patrocinados no pé das notícias tinham se transformado em uma espécie de “fakeoduto”.

Boa parte dos veículos de grande imprensa brasileira aderiu a esse modelo de anúncios. Os sites da Folha de S. Paulo e do jornal O Globo, os principais jornais do país, estão associados respectivamente ao Outbrain e ao Taboola. Quando o visitante continua a descer a barra de rolagem após a leitura de uma notícia, se depara com um quadro com esses anúncios sensacionalistas misturados com links para notícias do próprio jornal. Apesar de haver uma tarja minúscula indicando ser conteúdo patrocinado, a diagramação dá a entender que as manchetes sensacionalistas dos anúncios são conteúdos produzidos pelo jornal. Esses anúncios estão presentes em todas as páginas da Folha e do Globo que visitei.

Foto: Reprodução

Perceba nas imagens acima como os anúncios sensacionalistas e as notícias da Folha aparecem misturados no mesmo quadro. Uma notícia do caderno Saúde do jornal figura no mesmo enquadramento de propagandas sensacionalistas para remédios naturais sem eficácia comprovada. Em uma notícia sobre o Brasil ter ultrapassado 4 milhões de infectados pelo coronavírus, o leitor dá de cara com esse tipo de propaganda sensacionalista ao final do texto. Alguns desses clickbaits têm um claro cunho machista, como o “estimulante natural que virou febre no Brasil” ilustrado com uma foto de mulher.

Uma outra “notícia” patrocinada intitulada “Médico Alerta: Pressão alta é um fator de risco. Se você toma Losartana, tente isso” também aparece em meio a outras chamadas do caderno de Saúde da Folha. A losartana é uma droga utilizada no tratamento de hipertensão. Se o leitor clicar nessa notícia, o sistema do Outbrain o levará para o domínio doutornature.com. O texto promete apresentar uma receita natural para a hipertensão, mas começa a enrolar o leitor nos mesmos moldes dos programas de João Kleber. Para acessar a receita milagrosa, é necessário assistir a um vídeo que, entre outras bobagens, afirma que existe uma solução natural para a hipertensão “melhor que dieta e exercícios” e que “já foi citada até na Bíblia”.

É um vídeo hospedado no YouTube, mas a configuração da página do anunciante não permite que você pule para o final, obrigando o visitante a vê-lo inteiro se quiser conhecer o milagre prometido. Toda a narração leva a acreditar que receberá dicas grátis para a cura da hipertensão. Depois de muita enrolação, o vídeo conta que a folha de oliveira é a substância mágica, chamada pelo narrador de “um plano de Deus”. Além da pressão alta, o narrador afirma de maneira categórica que a folha ajuda a combater o diabetes, a emagrecer, te mantém jovem, energizado e mais um sem número de benefícios para a saúde.

De fato, há pesquisas indicando que a folha de oliveira ajuda no controle da hipertensão, mas está longe de ter o efeito milagroso repetido. Depois de 20 minutos, o narrador sugere que você compre esse milagre em cápsulas: o remédio Nature Olive, que você poderá comprar em uma promoção exclusiva no link a seguir. No Reclame Aqui, há mais de 500 reclamações contra a Doutor Nature. Há relatos de todo tipo: remédios que estão fazendo mal, cobranças indevidas no cartão de crédito e atrasos na entrega.

Nesta semana, no final de uma coluna da Mônica Bergamo, encontrei a chamada “Insônia: novo fitoterápico faz dormir sem causar dependência”. O link aparece como se fosse uma notícia qualquer, exceto pelo fato de haver um aviso com letras miúdas avisando que se trata de uma notícia patrocinada. Você clica nele, e o Outbrain te leva para o site topsaudavel.com.

O nome do domínio já exala a picaretagem que vem a seguir. Trata-se de uma propaganda de um remédio milagroso para a insônia disfarçado de artigo escrito por um médico especialista em distúrbios de sono. Depois de muita enrolação, o nome do remédio aparece no quinto parágrafo, e o tal médico afirma: “funciona melhor que a maioria dos tarjas-pretas que eu conheço”. Sim, o doutor garoto-propaganda diz de forma categórica que o tal fitoterápico é mais eficaz que remédios tarja-preta. “Tenho receitado Relaxxia a todos os pacientes que me procuram com problemas de insônia e ansiedade, e os resultados são surpreendentes: 97% deles tem o problema resolvido com Relaxxia, e praticamente não preciso mais receitar tarjas-pretas para ninguém!”

Ao final do artigo, sem o doutor ter contado qual a composição e o princípio ativo do medicamento, uma mensagem piscando lhe oferece um “DESCONTO EXCLUSIVO” de 40% na compra do medicamento. Só depois descobre-se do que é feito o milagre: a cápsula do Relaxxia é um combinado de extratos de ervas naturais como camomila, maracujá, passiflora e melissa. Ou seja, tudo isso para chegarmos no chazinho da vovó, que realmente ajuda, mas não resolve o problema de quem sofre com insônias crônicas. Apesar da convicção do médico vendedor, ainda faltam estudos científicos de peso atestando a eficácia da maioria desses fitoterápicos. O milagre vendido não existe.

Propaganda de remédio contra a insônia aparece em formato de notícia na capa da Folha de S. Paulo.  Foto: Reprodução

É para esse lugar que um leitor da Folha menos cuidadoso pode ser levado. Essa fake news lucrativa está a um clique de uma notícia do maior jornal do país. É a desinformação sendo vendida em um espaço no qual se espera encontrar informação de qualidade. Os sites de jornalismo estão, na prática, faturando com as propagandas de empresas que vendem seus produtos através de sensacionalismo barato e mentiroso. Entenderam o tamanho do drama?

No site do jornal O Globo, a empresa Taboola é quem indica os sites aos leitores. Dentro do quadro criado pela Taboola, há uma promiscuidade entre os anúncios sensacionalistas disfarçados de conteúdo jornalísticos e os conteúdos do próprio jornal. A confusão é proposital para gerar cliques para os anunciantes. Será que todos os brasileiros conseguem facilmente identificar o que é notícia do O Globo e o que é propaganda nessa imagem abaixo? Eu tenho certeza que não.

O creme para varizes recomendado acima também não funciona. É mentira que a tal fórmula “some com as varizes”. Segundo médicos, todo o creme contra varizes no mercado tem apenas um efeito cosmético tímido, não serve como tratamento. Não há nenhum estudo científico comprovando a sua eficácia. O leitor do O Globo está exposto a esse tipo de armadilha.

Em outra página do jornal, mais um milagre: uma medicação que promete secar a gordura que é chamada de “bariátrica em cápsula”.

Nas diretrizes do site da Outbrain, há uma lista de tipos de anúncios que são proibidos pela empresa:

“Sites que intencionalmente buscam levar o leitor a acreditar em algo que não é verdade”.

“Conteúdo desenvolvido para levar o leitor a acreditar que ele está lendo um conteúdo editorial legítimo ou notícias baseadas em fatos”.

“Conteúdo que possa ser um anúncio habilmente disfarçado (com pouco ou nenhum valor oferecido ao leitor), uma propaganda ou uma farsa”.

Bom, basta você passear por esses sites (desative o bloqueador de anúncios do seu navegador) para verificar que praticamente todos os anúncios exibidos pela plataforma violam essas diretrizes.

Procurada para se explicar, a empresa afirma que há três filtros de checagem: primeiro há um filtro automático que bloqueia palavras e imagens impróprias. Depois, os anúncios aprovados seguem para um time de revisores para garantir o cumprimento das diretrizes. E, por fim, a empresa afirma que as empresas associadas à plataforma, como Globo e Folha, têm total autonomia para criar seus próprios filtros e bloqueios de acordo com as suas diretrizes editoriais e comerciais.

Essa rigorosa filtragem deixou passar os anúncios enganosos que você leu neste texto. Globo e Folha têm total autonomia para criar seus próprios filtros, segundo a Outbrain. Ou seja, todos os envolvidos parecem ter consciência de que estão divulgando conteúdo duvidoso na internet.

A Outbrain ressalta “que todos os produtos anunciados estão regulamentados pelos órgãos competentes, e toda a documentação é exigida do anunciante para que a veiculação seja feita”. Sim, o creme para varizes citado aqui, por exemplo, é aprovado pela Anvisa e vendido legalmente. A enganação está em vendê-lo como remédio milagroso para o tratamento de varizes.

A Folha reconhece que “normalmente os anúncios são chamativos e destacam propriedades milagrosas”, mas completa: “no fim das contas são suplementos e similares que estão à venda nas lojas do ramo”.
O jornal afirma que “os anunciantes da rede sempre têm registro na Anvisa e as regras quanto às páginas de destino obedecem ao manual da empresa”.

A empresa defendeu os anunciantes, dizendo que eles “estão sempre comprometidos a ouvir e trabalham para acatar. Quando temos uma solicitação de remoção e restrição total, também sempre realizam rapidamente”. Ou seja, já que os produtos foram regulamentados pela Anvisa, a Folha não vê problema em faturar com o sensacionalismo desses anúncios. Então ficamos assim: a cápsula feita com um combinado de chazinhos da vovó pode aparecer no site do jornal prometendo ser o remédio definitivo para insônia. Basta que ele tenha sido aprovado pela Anvisa. Então tá.

Taboola e Globo não responderam às perguntas enviadas por e-mail até o fechamento da coluna – o texto será atualizado caso as respostas cheguem após a publicação.

Numa época em que as fake news atrapalham o trabalho dos jornalistas e ameaçam a democracia, empresas de jornalismo oferecem aos seus leitores espaços publicitários repletos de …. fake news. Com que moral essas grandes empresas de jornalismo fazem campanhas para combater as mentiras? Do que adianta lutar contra as fake news se parte da receita dessas empresas de jornalismo é proveniente de anúncios sensacionalistas de produtos que não funcionam?

Praticamente todos os grandes sites de jornalismo no Brasil estão navegando nessas águas turvas. Revista Veja, El País e Estadão também se beneficiam desse modelo de anúncios. Nós sabemos que bom jornalismo requer recursos, mas flertar com a desinformação não me parece um preço justo a se pagar. A grande imprensa brasileira precisa se desvencilhar desses esqueletos no armário se quiser manter o mínimo de credibilidade junto aos leitores.

O “pensamento sem corrimão” de Hannah Arendt

Em tempos de fake news e histerias de massa nas redes sociais, exposição em Berlim propõe a desobediência da filósofa teuto-americana, uma das maiores pensadoras do século 20, como antídoto.

É longa a lista das controvérsias que Hannah Arendt desencadeou ou incentivou

Lá está ela, pensativa, de queixo apoiado na mão, cigarro aceso entre os dedos: Hannah Arendt (1906-1975), já não tão jovem, numa fotografia em preto-e-branco tirada de ângulo ligeiramente baixo. E, impressa por cima, a enigmática frase: “Nenhum ser humano tem o direito de obedecer.”

Com esse cartaz, com atraso forçado pelo coronavírus, o Museu Histórico Alemão (DHM) de Berlim convida a uma exposição sobre a grande pensadora teuto-americana do século 20. A mostra acompanha o olhar subjetivo de Arendt em 16 capítulos acessíveis, com fotos, documentos em áudio e filme, objetos de seu espólio pessoal e empréstimos internacionais.

A intenção é apresentar, de uma forma nova, pontos de cristalização da história do século 20. E a obra da filósofa de fato se presta muito bem a isso, pois ela escreveu sobre temas centrais da época, como antissemitismo, colonialismo, racismo, nacional-socialismo e stalinismo, com um gosto de julgar notavelmente rigoroso, refletindo tanto prazer quanto ousadia.

Sobre a banalidade do mal

É longa a lista das controvérsias que a intelectual de origem judaica desencadeou ou incentivou. A mais intensa foi, certamente, a sobre seu livro Eichmann em Jerusalém, a qual se espalhou por todo o mundo e também toma bastante espaço na mostra em Berlim.

Em 1961, ela participou como repórter do julgamento do ex-tenente-coronel da SS Adolf Eichmann, que fora responsável pela deportação de milhões de judeus para campos de concentração e extermínio. A reportagem sobre o processo foi publicada dois anos mais tarde pela revista The New Yorker e, como livro, com o subtítulo Um relato sobre a banalidade do mal.

Mostra acompanha o olhar subjetivo de Arendt com fotos, documentos em áudio e filme e objetos de seu espólio pessoal

Lá, Arendt descreve o criminoso nazista como um tecnocrata sem convicções, que se apresentava como mero instrumento de seus superiores. A brutalidade do mal banal consiste em sua falta de reflexão e responsabilidade, observava ela, e a obediência “incondicional” repetidamente evocada por Eichmann é, em princípio, a expressão dessa atitude mental.

O estopim da controvérsia em torno do livro de Arendt não foi apenas a questão da “banalidade”, já lançada no título, mas também a postura dos “conselhos judaicos”. Será que os participantes dessas instituições foram culpados de colaboração?

“Deixamos à disposição do espectador os veredictos de Hannah Arendt sobre temas do século 20”, explica a curadora da exposição, Monika Boll. “Não porque acreditemos que ela sempre estivesse certa, de forma alguma. Mas, ao também transferir e delegar aos espectadores esse gosto de julgar, queremos que também eles formem seu julgamento.”

Uma decisão bem no espírito de Arendt, para quem julgar era uma atividade eminentemente política. Segundo Boll, para a filósofa, o nazismo não significou apenas o colapso de todos os valores morais, mas também o colapso da capacidade de julgar. Porque o julgamento fora cooptado pelo sistema, porque se dizia “nós”, e não “eu”. Dessa maneira, porém, também a questão da responsabilidade pessoal ficava delegada a instâncias impessoais.

“Pensamento sem corrimão”

Arendt nasceu próximo a Hannover em 1906, filha de judeus laicos, e cresceu nos meios cultos de Königsberg (hoje Kaliningrado, Rússia). Em 1924, começou a estudar Filosofia, tendo Teologia como cadeira secundária, primeiro em Marburg, mais tarde em Freiburg e Heidelberg. Por intermediação do filósofo Martin Heidegger, doutorou-se em 1928 sob a orientação de Karl Jaspers.

Escrevia para o jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung e se ocupou de Rahel Varnhagen von Ense, uma intelectual judia do Romantismo, cuja história era considerada um exemplo de assimilação cultural bem-sucedida. Arendt, em contrapartida, via com ceticismo a ideia da assimilação em nome da igualdade de todos os seres humanos, a qual considerava politicamente ingênua. E ela causou escândalo com essa posição.

Antes de muitos outros observadores, já em 1931 Arendt partia do princípio de que os nazistas assumiriam o poder. E, ao contrário da maioria dos alemães, já em 1933 defendia a opinião de que o regime devia ser combatido ativamente.

Naquele mesmo ano, emigrou para a França, trabalhou em organizações sionistas e como pesquisadora em Paris até fugir em 1941, com o marido e a mãe, para Nova York, após passar por Lisboa. E ela se transformou numa apaixonada cidadão americana.

Coronavírus atrasou abertura da exposição no Museu Histórico de Berlim

Por toda a vida, permaneceu fiel a si mesma, sem nunca seguir uma determinada escola, tradição ou ideologia. Seu pensamento é difícil de classificar, e por isso tão interessante, comenta a curadora Boll: “Pode-se encontrar repetidamente nesse pensamento tanto componentes liberais como conservadores e de esquerda, de forma que ela é bem difícil de situar numa ala política.”

A própria Hannah Arendt definia essa atitude como “pensamento sem corrimão”. Além disso, era uma excelente escritora, e tudo isso a torna tão viva, “por isso mesmo dá tanto prazer se ocupar dela”, elogia Boll. De fato: quer se trate de suas reportagens sobre a Alemanha do pós-guerra, ou suas declarações sobre a questão dos refugiados, o racismo nos Estados Unidos, o movimento estudantil internacional, ela sempre consegue surpreender.

Na mostra no DHM de Berlim, a venerável filósofa continua estimulando os visitantes a questionarem seus próprios pontos de vista, e provando a importância de ter uma opinião própria fundamentada. A curadora Boll dá uma dimensão atual à questão: justamente em tempos de fake news e histeria de massa produzida pelas redes sociais, Hannah Arendt é um maravilhoso antídoto.

Dachau

A luta anônima de três brasileiros contra sites de fake news

Atuando no anonimato desde maio, idealizadores do movimento Sleeping Giants Brasil estimam ter feito com que páginas propagadoras de notícias falsas tenham deixado de embolsar R$ 448 mil por mês.Fake News,Redes Sociais,Internet,Blog do Mesquita

Twitter e fake news

Em pouco menos de dois meses, Sleeping Giants Brasil acumulou 377,4 mil seguidores no Twitter

Principal plataforma de anúncios da internet, o Google Adsense é o que garante a saúde financeira de boa parte dos sites campeões de audiência mundo afora. E é justamente por meio desse sistema que ativistas do movimento Sleeping Giants Brasil pretendem sufocar propagadores de notícias falsas e fomentadores de discurso de ódio.

Inspirados pelo Sleeping Giants original – criado por um publicitário americano e em operação desde 2016 –, três brasileiros decidiram criar uma versão tupiniquim do movimento em 18 de maio deste ano. Passaram, então, a mirar os esforços em conhecidos sites de fake news, expondo publicamente, via redes sociais, empresas que apareciam como anunciantes nessas páginas, via AdSense.

Pelo sistema do Google, as empresas podem criar uma lista com todos os sites nos quais não querem aparecer de forma alguma. Essa é a ideia do Sleeping Giants: pressionar os anunciantes para que incluam sites de notícias falsas em suas listas e, assim, estes sejam desmonetizados.

A ideia parece estar funcionando. De acordo com balanço fornecido por um dos criadores do movimento, no primeiro mês de atividade o Sleeping Giants Brasil conseguiu que páginas propagadoras de fake news deixassem de embolsar 448 mil reais. O grupo contava com 377,4 mil seguidores no Twitter na manhã desta segunda-feira (13/07) e, no Instagram, com 126 mil seguidores, além de estar presente no Facebook e no Linkedin.

Por temerem ameaças como as sofridas pelo criador da versão original e sua família nos Estados Unidos, os idealizadores do projeto brasileiro não dão nenhuma pista de suas identidades. Eles só toparam conversar via mensagens diretas no Twitter, não aceitando passar nenhuma outra forma de contato.

Segundo eles, na maior parte das vezes, depois da exposição pública, as empresas respondem ao perfil e se comprometem a incluir os sites reconhecidos como propagadores de notícias falsas na lista de exclusão da plataforma AdSense.

“Recebemos mais de 400 respostas [de empresas anunciantes] em apenas um mês e meio de atuação”, afirmam. “Muitas empresas estão aderindo ao movimento, se conscientizando e passando a analisar melhor a forma como promovem sua publicidade e cedem espaços a perfis que promovem a desinformação e o ódio.”

Em um conturbado cenário político como o brasileiro atual, marcado por uma acirrada polarização, o grupo tem sido criticado por apoiadores do governo do presidente Jair Bolsonaro. O deputado federal Eduardo Bolsonaro, um dos filhos do presidente, classificou o Sleeping Giants como “a nova forma de censurar a direita”.Whatsapp,Facebook,Fakenews,Educação,Analfabetismo,Redes Sociais,Internet

“Somos contra todos os disseminadores de fake news e discursos odiosos, e sabemos que isso independe de espectro político”, defendem-se os idealizadores. “Mas no atual momento, a extrema direita concentra poder se utilizando de conteúdos falsos e odiosos. Além de que, em meio a uma pandemia, propagar desinformação é extremamente perigoso, visto que estamos falando de vidas sendo perdidas.”

Gigantes na mira

Os criadores do Sleeping Giants Brasil afirmam que os alvos são escolhidos com base na “proporção, relevância e alcance” de seus sites.

A partir de uma lista de empresas fornecida pelos criadores, a reportagem da DW Brasil buscou contato com Americanas, Nike, Spotify e MRV, as quatro mencionadas em primeiro lugar e que não responderam ao grupo, mesmo diante de constantes exposições públicas no Twitter. Nenhuma delas retornou o pedido de posicionamento da reportagem.

A DW Brasil apurou, contudo, que algumas das empresas expostas estão bloqueando sites de fake news de sua lista do AdSense, ainda que prefiram não assumir isso publicamente. Mais que isso, há empresas que, cientes da atuação do Sleeping Giants Brasil, estão se antecipando a uma provável exposição pública e adicionando sites propagadores de fake news a sua lista de exclusão da plataforma do Google.

“A liberdade de expressão é um direito de todos, não estamos aqui para contrariar isso”, afirmam os ativistas. “O movimento busca alertar as empresas de que estão contribuindo com o discurso de ódio e a desinformação, mas cabe a elas a escolha de retirar ou não seu anúncio do site. Só queremos seu posicionamento.”

Trabalho de formiguinha

E por que então não mirar os esforços diretamente na Google, em vez de fazer o trabalho de formiguinha? Segundo os idealizadores do Sleeping Giants, cobrar a responsabilidade da empresa de tecnologia não traria resultados.

“As grandes plataformas são, sim, responsáveis pelo espaço dado a disseminadores de conteúdos falsos e odiosos, mas é muito difícil ganharmos a atenção delas”, argumentam. “Em quatro anos de existência do perfil americano, nenhuma das grandes plataformas tomou medidas ou contatou o Sleeping Giants. Mas esperamos que isso mude e que elas entendam a responsabilidade que têm quando não há um selecionamento criterioso do que admitem ou não no ambiente virtual.”

Procurado pela Dw Brasil, o escritório da Google no Brasil se posicionou via assessoria de imprensa. “Temos políticas rígidas que limitam os tipos de conteúdo nos quais exibimos anúncios, como a que não permite que publishers busquem enganar o usuário sobre sua identidade ou produtos. Quando uma página ou site viola nossas políticas, tomamos medidas imediatas e removemos sua capacidade de gerar receita”, disse a empresa, em nota.

“Entendemos que os anunciantes podem não desejar seus anúncios atrelados a determinados conteúdos, mesmo quando eles não violam nossas políticas, e nossas plataformas oferecem controles robustos que permitem o bloqueio de categorias de assuntos e sites específicos, além de gerarem relatórios em tempo real sobre onde os anúncios foram exibidos”, acrescentou.

A Google afirmou que, apenas em 2019, encerrou mais de 1,2 milhão de contas e retirou anúncios de mais de 21 milhões de páginas “por violação de políticas”.

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Entenda como o Facebook relacionou fake news à família Bolsonaro

O Facebook anunciou a remoção de uma rede de contas, páginas e grupos coordenados por funcionários de gabinetes ligados à família do presidente da república, Jair Bolsonaro.

A investigação, que partiu da Atlantic Council’s Digital Forensic Research Lab (DFRLab), descobriu que administradores dessas redes estavam diretamente ligados aos gabinetes dos filhos do presidente, Eduardo e Flávio Bolsonaro e a outros deputados do Partido Social Liberal (PSL).

Em uma publicação no Medium, o DRFLab descreveu como seguiu com as investigações para encontrar e dar baixa à rede de fake news que favorece o presidente, seus filhos e parceiros do seu antigo partido, o PSL. O laboratório precisou identificar padrões de comportamento entre essas milhares de contas inautênticas — observando identidades, seguidores e quem seguiam — para rastrear os administradores das redes de falsas informações.

Das acusações e remoções do Facebook foram 14 páginas e 35 contas pessoais; do Instagram, 38 páginas e um grupo que compunha a rede de fake news ligada ao presidente. Essas entidades apresentavam comportamento sistemático e já atuava nessas redes desde as eleições de 2018.

O perfil

O perfil “Fábio Muniz” (à esquerda) usou a foto de perfil de outro usuário e defendia tanto Alana Passos (PSL-RJ) quanto Jair Bolsonaro em grupos locais.Fonte: DRFLab/Reprodução

Rede complexa de desinformação

Segundo o DFRLab, nenhuma das páginas ou contas informava ligação com o presidente, gabinete ou outros deputados do PSL. Parte da rede, inclusive, foi gerada antes do período eleitoral de 2018 e atacava constantemente os adversários do presidente. Depois da vitória nas urnas, a rede se voltou contra as instituições — incluindo o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal — e até atuou contra ex-membros do governo, como Sérgio Moro e Luiz Henrique Mandetta.

O DRFLab descreveu que a rede era centralizada em três diferentes locais: Brasília, Rio de Janeiro e São Bernardo do Campo. Cada uma apresentava um comportamento distinto: a do Rio de Janeiro (a maior entre os centros) e de São Bernardo do Campo concentravam suas atividades na desinformação por meio de contas duplicadas ou fakes; enquanto a de Brasília era voltada à atividade de páginas na rede social e contava com duas contas inautênticas.

A investigação concluiu que dois deputados da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) estavam envolvidos na rede de desinformação carioca, Alana Passos e Anderson Moraes — ambos do PSL-RJ. Posteriormente, a análise do laboratório apontou a conexão entre a rede e dois filhos do presidente, Eduardo e Carlos Bolsonaro. Além deles, o Coronel Nishikawa (PSL-SP), deputado estadual do estado de São Paulo, também foi apontado durante a análise.

Perfis com variações do nome Leonardo apresentavam comportamento coordenado e foram ligados ao deputado Anderson Moraes (PSL-RJ).
Perfis com variações do nome Leonardo apresentavam comportamento coordenado e foram ligados ao deputado Anderson Moraes (PSL-RJ).Fonte: DRFLab/Reprodução

Envolvimento direto de funcionário do presidente

Tercio Arnaud Tomaz, funcionário do gabinete de Jair Bolsonaro e conhecido administrador da página do Facebook “Bolsonaro Opressor 2.0”, foi identificado como um dos operadores da rede de fake news. Tercio, por sua vez, estava envolvido na comunicação digital de Jair Bolsonaro durante sua campanha eleitoral.

Já sobre Eduardo Bolsonaro, Paulo Eduardo Lopes, um de seus funcionários, foi identificado como um dos mais importantes administradores da rede. Paulo Chuchu, como também é conhecido, é líder do partido Aliança pelo Brasil em São Bernardo do Campo. Em sua conta pessoal, Chuchu afirma que trabalha com a família Bolsonaro há 5 anos.

Essa ação do Facebook e DRFLab é inédita no Brasil e exigiu a colaboração de pesquisadores associados na América Latina. O relatório completo da investigação é público e pode ser conferido na página da Medium da DRFLab  página da Medium da DRFLab (somente em inglês).

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Coronavírus: ‘Fui preso por fingir ter covid-19 no Facebook’

Brandin postou notícia falsa no Facebook como ‘experimento social’ – Direito de imagem GABINETE DO XERIFE DO CONDADO DE TYLER/ GETTY

O americano Michael Lane Brandin sabia que seu post no Facebook causaria rebuliço. O que ele não imaginava era que seria preso, perderia o emprego e enfrentaria um julgamento caro que pode mantê-lo atrás das grades.

Era uma tarde monótona em março e o debate sobre como lidar com o possível surto de covid-19 estava por todos os lados na sua timeline.

Então ele decidiu, em suas palavras, “fazer um experimento social”.

Michael postou que havia sido diagnosticado com o coronavírus e que os médicos haviam dito que o vírus era transmitido pelo ar.

No Facebook, seu relato foi recebido com um misto de empatia e choque.

“O post gerou muitas reações e muitos amigos me mandaram uma mensagem para perguntar se eu estava bem, então eu disse a eles que era tudo mentira”, diz ele.

Mas o que estava acontecendo offline era muito mais sério.

O boato começou a se espalhar velozmente pelo condado de Tyler, no Estado americano do Texas, onde Michael morava.

Isso ocorreu dias antes de qualquer medida de isolamento social ter sido decretada. Pessoas ligando incessantemente ao hospital perguntando se as notícias eram verdadeiras e o que elas poderiam fazer para se proteger do “assassino invisível”.

Mandado de prisão

A polícia entrou em contato com Michael e disse-lhe para alterar seu post para deixar claro que ele estava fazendo um experimento social, o que ele prontamente fez.

No entanto, o boato já havia se tornando uma bola de neve. E o próximo post no Facebook acabou vindo da delegacia de polícia. “Dando prosseguimento a uma queixa oficial do promotor criminal do distrito, o juiz do Condado Jacques Blanchett emitiu um mandado de prisão para Brandin pelo crime de alarme falso, uma contravenção classe A.”

Brandin se entregou. Sua fiança foi estabelecida em US$ 1 mil (cerca de R$ 5,4 mil).

“Eles disseram que eu tinha que passar a noite na prisão, porque tinha que esperar a chegada do juiz no dia seguinte. Estava morrendo de ansiedade”, diz Brandin.

No comunicado enviado ao público, a delegacia de polícia disse que sua ação foi motivada pela “crescente preocupação do coronavírus nos Estados Unidos e pela emissão de declarações de emergência / desastre pelo presidente (Donald) Trump e pelo governador Abbott (Greg Abbott, governador do Texas)”.Direito de imagem MICHAEL LANE BRANDIN

Fiança de Brandin foi estabelecida em US$ 1 mil

Brandin agora está de volta à sua casa esperando uma data para seu julgamento. Apesar da seriedade de sua situação, ele diz que ainda tem sentimentos contraditórios sobre se lamenta ou não ter escrito o post.

“Sou bacharel em comunicação em massa e fiz isso para provar como é fácil alguém postar algo online e causar pânico. Eu queria provar que é importante que as pessoas estejam bem informadas e façam suas próprias pesquisas antes de acreditar em tudo o que leem ou escutam.”

“Mas, por causa de uma postagem no Facebook, perdi meu emprego, meu plano de saúde, e não pude iniciar meu programa de mestrado a tempo devido à falta de dinheiro. Isso criou um fardo financeiro para toda a minha família, porque todos estão tentando me ajudar a pagar minhas contas.”

“Apesar de tudo de ruim que aconteceu, sinto que meu argumento foi provado e isso me faz sentir bem.”

Fake news

Os EUA não são o único lugar onde espalhar informações falsas nas redes sociais sobre o vírus pode levar à prisão.

Prisões por espalhar as chamadas fake news estão sendo noticiadas na Índia, Marrocos, Tailândia, Quênia, Camboja, Somália, Etiópia, Cingapura, Botsuana, Rússia e África do Sul.

Em alguns casos, são rumores espalhados com malícia. Em outros, observadores de direitos humanos disseram à BBC que estão preocupados com o fato de as circunstâncias extraordinárias da pandemia estarem atribuindo às autoridades poderes sem precedentes para reprimir discordâncias ou críticas.

No Quênia, Robert Alai está sob fiança e pode enfrentar uma possível pena de prisão de 10 anos por um tuíte sobre o vírus.Direito de imagem ROBERT ALAI

Alai foi mantido em cela com outros presos, sem distanciamento social

O homem de 41 anos já passou três dias em uma cela apertada, por um post em que alegou ter ouvido falar de um surto no porto local de Mombaça.

De acordo com as autoridades, a medida violou a Lei de Uso Indevido de Computadores e Crimes Cibernéticos de 2018.

Alai foi preso em uma sexta-feira e mantido em uma cela no fim de semana até que um juiz pudesse vê-lo. Ele alega que, durante sua detenção, não foram implementadas medidas de distanciamento social, até que ele próprio chamasse atenção para o assunto.

“Dormi no chão de concreto com muitos outros presos. Não recebi uma máscara ou algo assim. Não posso ser preso por colocar vidas em perigo e depois ser mantido assim durante a pandemia. Reclamei e acabaram me separando do restante dos presos.”Direito de imagem ROBERT ALAI

Alai está sob liberdade condicional

Alai é um conhecido blogueiro de oposição ao governo, com mais de 1 milhão de seguidores no Twitter.

A polícia não respondeu aos questionamentos da BBC, mas publicou detalhes no Twitter de um caso semelhante cinco dias antes de sua prisão.

A Diretoria de Investigações Criminais do Quênia disse que um homem havia sido preso em Mwingi “por publicar informações enganosas e alarmantes sobre o coronavírus… ele será indiciado por publicar informações falsas que resultem em pânico em violação à seção 23 da lei de Uso Indevido do Computador”.

As autoridades quenianas apelaram repetidamente ao público para parar de compartilhar informações falsas e rumores.

No dia anterior à detenção de Alai, o ministro da Saúde do país, Mutahi Kagwe, disse: “Esses rumores devem parar… mas, como sei que apelos vazios não funcionarão, prosseguiremos e prenderemos vários deles para provar nosso argumento”.

Alai está convencido de que as informações recebidas eram verdadeiras e que ele não infringiu a lei, embora a BBC não tenha conseguido verificar independentemente sua alegação.

Alai foi preso várias vezes antes por fazer comentários controversos. Ele alega que a polícia está usando a pandemia para perseguir os críticos do governo.

“Eles prenderam outros blogueiros por coisas semelhantes e parece-me que qualquer tuíte de coronavírus ou qualquer outra informação nas redes sociais agora é considerado um crime grave. Não estou dizendo que eles não devem prender pessoas e acho muito importante a polícia pode fazer seu trabalho, mas acho que eles precisam se concentrar nas pessoas certas”.

Se condenado, Alai pode ter que pagar uma multa de 5 milhões de xelins quenianos (cerca de R$ 250 mil) ou 10 anos de prisão.

Mais prisões

Na Índia, Sikandar Cuttrack também está aguardando julgamento por questionar as autoridades locais no Twitter.

“Apenas tentei informar a polícia e o governo sobre um paciente suspeito de covid-19”, diz ele.

“Fiz vários tuítes sobre isso, mas a polícia me prendeu dizendo que criei pânico. Não acho que cometi um erro. Acredito que a polícia tenha tomado uma ação desnecessária. A situação da pandemia tornou a polícia mais poderosa. “Direito de imagem SIKANDAR CUTTRACK

Sikandar Cuttrack também foi detido por post no Twitter

Cuttrack pode ser sentenciado a até três anos de prisão. Ele é um ativista político e acredita que sua prisão pode estar parcialmente ligada à sua oposição ao governo local.

É uma alegação que a polícia nega. O comissário de polícia de Odisha diz que está trabalhando para impedir a propagação do pânico causado pela desinformação nas redes sociais.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) disse que há uma “infodemia” ocorrendo online e que há riscos altos para autoridades de todo o mundo que tentam lidar com notícias falsas de pandemia.

Direito de imagem DR LI WENLIANG
Médico chinês alertou autoridades sobre vírus; ele acabou morrendo da doença

Ameaça às liberdades

Em um relatório no mês passado, a ONG Human Rights Watch reconheceu que a pandemia ultrapassou o limiar de ser “uma grave ameaça à saúde pública e emergência pública”, que pedia uma “restrição a alguns direitos” justificada.

No entanto, a organização disse estar preocupada que polícia e governos usem os poderes emergenciais decorrentes da pandemia para calar a liberdade de expressão.

Segundo a Human Rights Watch, “em vários países, os governos fracassaram em defender o direito à liberdade de expressão, perseguindo jornalistas e profissionais de saúde”.

O relatório inclui exemplos de quando a supressão de informações nas redes sociais prejudicou a luta contra o coronavírus, como no início de janeiro, quando o médico chinês Li Wenliang foi convocado pela polícia por “espalhar boatos” depois que ele alertou sobre o novo vírus em uma sala de bate-papo online.

Ele acabou sendo liberado e morreu de covid-19 semanas depois.

O equilíbrio entre permitir a liberdade de expressão nas mídias sociais e proteger as pessoas do pânico é algo que todo país está enfrentando.

Há poucas dúvidas de que esse período da história será estudado por gerações, à medida que a pandemia se desenrola, tanto online quanto offline.

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Como o analfabetismo funcional influencia a relação com as redes sociais no Brasil

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Redes sociais no Brasil são populares tanto entre não-alfabetizados quanto entre os chamados ‘proficientes’
Três entre cada dez brasileiros têm limitação para ler, interpretar textos, identificar ironia e fazer operações matemáticas em situações da vida cotidiana – e, por isso, são considerados analfabetos funcionais.

Eles hoje representam praticamente 30% da população entre 15 e 64 anos, mas o grupo já foi bem maior: em 2001, chegou a 39%, de acordo o Indicador de Analfabetismo Funcional (Inaf).

O Inaf acompanha os níveis de analfabetismo no Brasil em uma série histórica desde 2001, mas, pela primeira vez neste ano, trouxe informações relacionadas ao contexto digital. Os dados relacionados ao uso de redes sociais foram divulgados nesta segunda-feira com exclusividade para a BBC News Brasil.

As lições da Estônia, país que revolucionou escola pública e virou líder europeu em ranking de Educação.
O modelo ‘linha dura’ de educação que pôs um pequeno país asiático no topo de ranking mundial
O instituto classifica os níveis de alfabetismo em cinco faixas: analfabeto (8%) e rudimentar (22%) (que formam o grupo dos analfabetos funcionais); e elementar (34%), intermediário (25%) e proficiente (12%) (que ficam na classificação de alfabetizados).

Para a pesquisa foram entrevistadas 2.002 pessoas entre 15 e 64 anos de idade, residentes em zonas urbanas e rurais de todas as regiões do país.

O grupo de analfabetos funcionais reúne os analfabetos absolutos, que assinam o nome com dificuldade, mas conseguem eventualmente ver preços de produtos, conferir troco, ligar para um número de telefone e identificar um ônibus pelo nome; e os rudimentares, que só leem o suficiente para localizar informações explícitas em um texto curto, sabem somar dezenas, mas não conseguem identificar qual operação matemática é necessária para resolver um problema, por exemplo.

De acordo com a pesquisa, entretanto, mesmo com suas dificuldades, os analfabetos funcionais são usuários frequentes das redes sociais. Entre eles, 86% usam WhatsApp, 72% são adeptos do Facebook e 31% têm conta no Instagram.

Assim, quando se comparar o índice de uso entre os dois grupos – alfabetizados e não-alfabetizados – a diferença não é tão grande. Entre os considerados proficientes, por exemplo, 89% usam o Facebook.

A falta de repertório dos analfabetos funcionais, contudo, faz com que o acesso a essas plataformas seja mais limitado. “Essas pessoas não vão tirar proveito das redes sociais para conseguir informações, garantir direitos, porque não conseguem discernir conteúdos. Teriam a mesma limitação com um jornal escrito, por exemplo; a diferença é que este elas não vão acessar”, afirma a pesquisadora Ana Lima, responsável pela elaboração do indicador.

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WhatsApp é a rede mais usada entre os analfabetos funcionais – 86% deles, segundo Inaf, acessam o aplicativo
Os dados da pesquisa corroboram o que a especialista diz: entre os analfabetos funcionais, 12% enviam mensagens escritas e escrevem comentários em publicações do Facebook, 14% leem mensagens escritas e 13% curtem publicações. Para efeito de comparação, entre os que têm nível de alfabetização proficiente, 44% enviam mensagens escritas, 43% escrevem comentários em publicações, 47% leem mensagens escritas e curtem publicações.

“Quem tem mais domínio do alfabetismo usa mais o Facebook, mas o que chama a atenção é a diferença pequena (de utilização entre analfabetos e não), principalmente se você pensar na limitação de um analfabeto funcional. O Facebook está cheio de textos, imagens, exige escrita, por isso revela uma potência desses suportes digitais como estimulador do avanço do alfabetismo”, ela afirma.

Já no WhatsApp quase não há diferença de uso entre os grupos divididos por nível de alfabetização. Enquanto 92% dos analfabetos funcionais enviam mensagens escritas, o índice é de 99% entre os alfabetizados; 84% dos analfabetos funcionais compartilham textos que outros usuários enviaram, já 82% dos alfabetizados fazem isso.

Pollyana Ferrari, jornalista, pesquisadora de mídias digitais e professora da PUC-SP, diz que o brasileiro aderiu integralmente ao WhatsApp, até porque é uma plataforma gratuita que substituiu o SMS, que é cobrado pelas operadoras de telefonia celular.

“Todo mundo usa o WhatsApp, do médico ao entregador de pizza, do executivo à faxineira, mas ninguém foi treinado, e cada um usa e propaga da forma que consegue compreender.”

Manipulação e mensagens falsas
Um dos reflexos do baixo nível de alfabetismo no contexto digital é que estas pessoas ficam mais vulneráveis à desinformação, especialmente memes, imagens manipuladas e usadas em contexto falso, segundo Christine Nyirjesy Bragale, vice-presidente de comunicação do The News Literacy Project.

“Obviamente elas têm uma capacidade limitada para checar através de pesquisa e leituras paralelas, e seu acesso a jornalismo impresso de qualidade é limitado”, explica Christine, que está no Brasil a convite da Embaixada Americana para debater o tema nesta segunda em evento na sede do movimento Todos pela Educação, em São Paulo.

Para a especialista norte-americana, o primeiro passo é garantir que as pessoas, independentemente de seus níveis de leitura, compreendam que a desinformação pode vir por diferentes canais, incluindo imagens manipuladas e vídeo e se espalhar rapidamente.

“Só essa consciência já é um começo para combater a desinformação e diminuir a sua propagação.”

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Analfabetos funcionais estariam mais suscetíveis à desinformação e a golpes aplicados pela internet
Pollyana Ferrari acredita que o trabalho de conscientização só virá com o amadurecimento do uso das redes sociais, que ainda é recente no Brasil – tem 14 anos -, além de educação. Ela cita o caso de Portugal, que oferece aulas de letramento em mídias digitais nas escolas de educação básica desde os anos 90.

“A pessoa não vai deixar de ver um vídeo e compartilhar, o brasileiro acredita muito no grupo do WhatsApp da família, seja para o bem ou para o mal. As pessoas têm direito de ter um celular, pode ter mais risco de cair em golpes e receber vírus, mas vai aprender usando. Mas não há o que fazer, a responsabilidade é dos governos, das empresas, de treinar, formar, o trabalho é coletivo e de ‘formiguinha’.”

A professora lembra que, até pela dificuldade de interpretação de texto, as mensagens falsas se propagam mais por mensagens em áudio. “Muita gente acredita nas ‘fakes news’ porque não tem bagagem, não tem senso crítico, quando há uma escolaridade precária, a pessoa fica muito mais manipulável.”

“Somos um país pobre, de baixa escolaridade, a gente saiu da TV aberta, mas houve um deslocamento para as redes sociais sem nenhuma capacidade de discernimento. Numa sociedade democrática com baixa escolaridade, a manipulação de informação é mais fácil de acontecer”, explica Pollyana.

Analfabetismo no ensino superior
Os dados desta edição do Inaf mostram que, entre o grupo de 29% dos analfabetos funcionais, 4% estão no ensino superior, nível de ensino em que se pressupõe um aluno plenamente alfabetizado.

A pesquisadora Ana Lima reforça que a escolaridade é o fator determinante do nível do analfabetismo, mas, ao mesmo tempo, ela não garante o que é esperado.

Whatsapp,Facebook,Fakenews,Educação,Analfabetismo,Redes Sociais,InternetDireito de imagemAMAURI DE SOUZA

João Batista Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto, afirma que prejuízo é ‘gigantesco’ para os que não são plenamente alfabetizados
“Para mexer no nível de proficiência precisamos de educação de qualidade. Uma educação que desloque o aluno de um nível mais coloquial para entender ironia, interpretação de texto, capacidade de distinguir fato de opinião. Isso é ir além de leitura mecânica, é saber ler nas entrelinhas”, afirma.

A pesquisadora reforça que, para cursar o ensino superior, é óbvio imaginar que as pessoas deveriam estar plenamente alfabetizadas para conseguir discutir, fazer análise, participar e debater. “Sem isso não é possível se formar.”

João Batista Oliveira, presidente do Instituto Alfa e Beto, diz que o cenário é desolador principalmente porque “melhorias não estão no radar.” “O prejuízo é gigantesco, porque compromete a produtividade da economia e as chances de a educação contribuir para a melhoria de vida das pessoas. Para as pessoas situadas entre os analfabetos funcionais, a perspectiva de vida é muito limitada. O Brasil optou pela quantidade, em detrimento da qualidade.”
Vanessa Fajardo/BBC

Fake News – A mentira como matéria prima

Tal fato ocorre de forma vertiginosa e devastadora em toda parte onde chega sinal de internet. A resultante desse coquetel é uma mistura de desinformação, preconceito, intolerância, incompetência para a escolha consciente e incapacidade de autodeterminação. Ou seja, o contrário das bases para o bom funcionamento do sistema democrático.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Pesquisa da Universidade de Stanford, realizada com 7.804 estudantes americanos dos ensinos fundamental, médio e superior, concluiu que é “lamentável” a capacidade dos jovens de processar corretamente informações divulgadas nas redes sociais. Sam Wineburg, que conduziu o estudo, afirmou: “Muita gente acredita que os jovens, bem ambientados nas mídias sociais, têm perspicácia para compreender o que leem. Nosso trabalho mostra que o oposto disso é verdadeiro.” Num dos testes, os estudantes deveriam analisar uma publicação com a foto de uma flor supostamente modificada pela radiação da usina de Fukushima, atingida pelo tsunami de 2011. A publicação não trazia fonte ou indício de que a foto havia sido tirada perto da usina nem evidência de que a flor havia sido modificada pela radiação. Ainda assim, 40% acreditaram na veracidade por achar que havia informação suficiente para lhe dar crédito.

Matéria do Washington Post revela que Paris Swade e Danny Gold, donos de um site direitista radical de notícias falsas, orgulham-se – sim, orgulham-se!, sem qualquer sinal de remorso – de praticar “imprensa marrom”. Até os nomes que os dois usam são falsos. Para ganhar caminhões de dinheiro precisam de um laptop e de um sofá para escrever e acompanhar a viralização dos posts. Na última eleição, todos os candidatos republicanos investiram grana preta no site deles. O ex-garçom Paris Swade não diz quanto ganha. Mas admite que teria de ralar cinco anos pilotando uma bandeja para conseguir ganhar o que embolsou em apenas seis meses afagando o ego da extrema-direita com notícias inventadas.

Onde de descrédito

Em sua primeira “matéria”, inventou que, segundo uma fonte anônima, um cientista da Coreia do Norte fugira do país com dados sobre experiências com humanos. Na falta de uma imagem mais “real”, achou a foto de uma massa de carne e postou: “Coreia do Norte: experimentos em humanos”. Em dez minutos ganhou U$120,00. Nunca mais parou de mentir. Nem de ganhar carradas de dinheiro. Os dois não são religiosos, mas como isso funciona, pedem que Deus abençoe Trump. E tome notícia falsa como: “Segredos que envolvem o nascimento de Obama revelados. Cartas do pai dele revelam algo de sinistro!”

O fenômeno é avassalador e se espalha sem qualquer controle ou contraponto. Afinal, a internet é terra de ninguém. Não se sujeita a qualquer regulação. Antes que os arautos da censura se apresentem, é bom deixar claro que é assim que deve continuar!

Com a onda de descrédito que assola a imprensa de mercado (por culpa dela própria e pela falsa noção de que é possível substituir informação confiável por memes irresponsáveis da internet), fica fácil concluir que a situação beira perigosamente o abismo. Tanto o estudo de Stanford quanto a matéria do Washington Post se referem ao público norte-americano. Mas o Brasil poderia ter sido o cenário e o resultado seria o mesmo. Ou pior.

Se o leitor chegou até aqui, com certeza vai querer deste articulista alguma sugestão de como se pode sair deste imbróglio. A resposta está na ponta da língua, nem precisa esperar: não sei.

Por Paulo José Cunha, jornalista e professor