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Brasil vive um clima de pré-nazismo enquanto a oposição emudece

O silêncio dos que deveriam defender a democracia pode acabar deixando o caminho aberto aos autoritários, que se sentem ainda mais fortes diante de tais silêncios

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Manifestante em protesto contra o presidente em São Paulo no dia 13 de agosto. AMANDA PEROBELLI (REUTERS)

O Brasil está vivendo, segundo analistas nacionais e internacionais, um clima político de pré-nazismo, enquanto a oposição progressista e democrática brasileira parece muda. Somente nos últimos 30 dias, de acordo com reportagem do jornal O Globo, o presidente Jair Bolsonaro proferiu 58 insultos dirigidos a 55 alvos diferentes da sociedade, dos políticos e partidos, das instituições, da imprensa e da cultura.

E à oposição ensimesmada, que pensa que o melhor é deixar que o presidente extremista se desgaste por si mesmo, ele acaba de lhes responder que “quem manda no Brasil” é ele e, mais do que se desfazer, cresce cada dia mais e nem os militares parecem capazes de parar seus desacatos às instituições.

Há quem acredite que o Brasil vive um clima de pré-fascismo, mas os historiadores dos movimentos autoritários preferem analisá-lo à luz do nazismo de Hitler. Lembram que o fascismo se apresentou no começo como um movimento para modernizar uma Itália empobrecida e fechada ao mundo. De modo que uma figura como Marinetti, autor do movimento futurista, acabou se transformando em um fervoroso seguidor de Mussolini que terminou por arrastar seu país à guerra.

O nazismo foi outra coisa. Foi um movimento de purga para tornar a Alemanha uma raça pura. Assim sobraram todos os diferentes, estrangeiros e indesejados, começando pelos judeus e os portadores de defeitos físicos que prejudicavam a raça. De modo que o nazismo se associa ao lúgubre vocábulo “deportação”, que evoca os trens do horror de homens, mulheres e crianças amontoados como animais a caminho dos campos de extermínio.

Talvez a lúgubre recordação de minha visita em junho de 1979 ao campo de concentração de Auschwitz com o papa João Paulo II tenha me feito ler com terror a palavra “deportação” usada em um decreto do ministro da Justiça de Bolsonaro, o ex-juiz Sérgio Moro, em que ele defenda que sejam “deportados” do Brasil os estrangeiros considerados perigosos.

Bolsonaro, em seus poucos meses de Governo, já deixou claro que em sua política de extrema direita, autoritária e com contornos nazistas, cabem somente os que se submetem às suas ordens. Todos os outros atrapalham. Para ele, por exemplo, todos os tachados de esquerda seriam os novos judeus que deveriam ser exterminados, começando por retirá-los dos postos que ocupam na administração pública. Seu guru intelectual, Olavo de Carvalho, chegou a dizer que durante a ditadura 30.000 comunistas deveriam ter sido mortos e o presidente não teve uma palavra de repulsa. Ele mesmo já disse durante a campanha eleitoral que com ele as pessoas de esquerda deveriam se exilar ou acabariam na cadeia.

Inimigo dos defensores dos direitos humanos, dos quais o governador do Rio, Witzel, no mais puro espírito bolsonarista, chegou a afirmar que são os culpados pelas mortes violentas nas favelas, Bolsonaro mal suporta os diferentes como os indígenas, os homossexuais, os pacíficos que ousam lhe criticar. Odeia todos aqueles que não pensam como ele e, ao estilo dos melhores ditadores, é inimigo declarado da imprensa e da informação livre.

Sem dúvida, o Presidente tem o direito de dizer que foi escolhido nas urnas com 53% dos votos, que significaram 57 milhões de eleitores. Nesse sentido o problema não é seu. Os que votaram nele sabiam o que pensava, ainda que talvez considerassem seus desatinos de campanha como inócuos e puramente eleitoreiros. O problema, agora que se sabe a que ele veio, e que se permite insultar impunemente gregos e troianos começando pelas instituições bases da democracia, mais do que seu, é da oposição.

Essa oposição, que está muda e parece impotente e distraída, demonstra esquecer a lição da história. Em todos os movimentos autoritários do passado moderno, os grandes sacerdotes da violência começaram sendo vistos como algo inócuo. Como simples fanfarrões que ficariam somente nas palavras. Não foi assim e diante da indiferença, quando não da cumplicidade da oposição, acabaram criando holocaustos e milhões de mortos, de uma e outra vertente ideológica.

Somente os valores democráticos, a liberdade de expressão, o respeito às minorias e aos diferentes, principalmente dos mais frágeis, sempre salvaram o mundo das novas barbáries. De modo que o silêncio dos que deveriam defender a democracia pode acabar deixando o caminho aberto aos autoritários, que se sentem ainda mais fortes diante de tais silêncios.

Nunca existiram democracias sólidas, capazes de fazer frente aos arroubos autoritários, sem uma oposição igualmente séria e forte, que detenha na raiz as tentações autoritárias. Há países nos quais assim que se cria um governo oficial, imediatamente a oposição cria um governo fictício paralelo, com os mesmos ministros, encarregados de vigiar e controlar que os novos governantes sejam fieis ao que prometeram em suas campanhas e, principalmente, que não se desviem dos valores democráticos. Sem oposição, até os melhores governos acabarão prevaricando. E o grande erro das oposições, como vimos outras vezes também no Brasil, foi esperar que um presidente que começa a prevaricar e se corromper se enfraqueça sozinho. Ocorrerá o contrário. Crescerá em seu autoritarismo e quando a oposição adormecida perceber, estará derrotada e encurralada.

Nunca em muitos anos a imagem do Brasil no mundo esteve tão deteriorada e causando tantas preocupações como com essa presidência de extrema direita que parece um vendaval que está levando pelos ares as melhores essências de um povo que sempre foi amado e respeitado fora de suas fronteiras. Hoje no exterior não existe somente apreensão sobre o destino desse continente brasileiro, há também um medo real de que possa entrar em um túnel antidemocrático e de caça às bruxas que pode condicionar gravemente seu futuro. E já se fala de possíveis sanções ao Brasil por parte da Europa, em relação ao anunciado ataque ao santuário da Amazônia.

O Brasil foi forjado e misturado com o sangue de meio mundo que o fizeram mais rico e livre. Querer ressuscitar das tumbas as essências de morte do nazismo e fascismo, com a vã tentativa da busca da essência e pureza da brasilidade é uma tarefa inútil. Seria a busca de uma pureza que jamais poderá existir em um país tão rico em sua multiplicidade étnica, cultural e religiosa. Seria, além de uma quimera, um crime.

Urge que a oposição democrática e progressista brasileira desperte para colocar um freio nessa loucura que estamos vivendo e que os psicanalistas confirmam que está criando tantas vítimas de depressão ao sentirem-se esmagadas por um clima de medo e de quebra de valores que a nova força política realiza impunemente. Que a oposição se enrole em suas pequenezas partidárias e lute para ver quem vai liderar a oposição em um momento tão grave, além de mesquinho e perigoso é pueril e provinciano.

Há momentos na história de um país em que se os que deveriam defender os princípios da liberdade e da igualdade cruzam os braços diante da chegada da tirania, incapazes até de denunciá-la, amanhã pode ser tarde demais. E então de nada servirá chorar diante dos túmulos dos inocentes.

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A Reversal Destra

Brasil,Ideologias,Comunismo,Extrema Direita

Marxismo-Temerismo 

Michel Temer comunista? Bilionários socialistas? Facebook stalinista? A Nova Direita repete diariamente que políticas socialistas não funcionam, que o comunismo não deu certo, mas aparentemente vivemos num mundo alternativo onde a URSS venceu a Guerra Fria: da ONU à Wall Street, todas as instituições do mundo contemporâneo estariam infiltradas por alguma versão da KGB.

Como tentei demonstrar no artigo das “pequenas verdades” a Nova Direita constrói seu pensamento com tomando como base uma série de falácias, de meias verdades.  A mais poderosa e recorrente delas é a de que “todo mal vem da esquerda“. Um dos elementos da filosofia política Nova Direita é o da negação do princípio de igualdade dos seres humanos, por isso o insistente ataque aos Direitos Humanos universais. Uma vez que Declarações de Direitos são construções do liberalismo, das revoluções burguesas que romperam com o absolutismo, faz-se necessário ampliar o conceito de esquerda. Essa “esquerda”, apresentada da forma mais vaga e abrangente possível, passa a incluir liberais progressistas ou qualquer um que não simpatize ou não queira colaborar com a Nova Direita.

Isso permite à Nova Direita produzir conceitos alternativos para certos fenômenos do capitalismo, ou mesmo internos às dinâmicas políticas da própria direita, num processo contínuo de “transformar em esquerda” qualquer coisa que incomode seus interesses, seus fiéis, seu público, seus membros. Esse mecanismo de dissimulação permite afirmar a já clássica falácia de que “o Nazismo é de esquerda“, inventar que a queda do Império Romano teve relação com o socialismo,  transformar a senadora Ana Amélia Lemos (PP) ou o apresentador Datena em cripto-socialistas – ou dizer que José Sarney tentou implantar o comunismo no Brasil.

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E você, pobre mortal, não sabia que Wall Street adora o esquerdismo.

A tendência de muita gente na esquerda é de tentar responder a essas maluquices com fatos, argumentar longos contrapontos, mostrar dados e notícias, chamar a outra pessoa de ignorante, dizer que ela precisa “estudar história”, ou fazer chacota. Isso tudo só faz sentido se assumirmos que a política do absurdo propaga tanta loucura de forma não-intencional.

E não é o caso. A aparente ignorância e desconexão da realidade está contida num método, numa forma de comunicação extremamente eficaz: a repetição. O método consiste em criar a mentira, em sua forma mais absurda ou abjeta, e fazê-la ser igualmente repetida por fiéis e céticos. Depois que a mentira estiver bem estabelecida por meio da repetição qualquer um que desconfie dela será tratado como um inimigo. Entre cínicos, trolls e imbecis uma pequena verdade é fabricada. Ela precisa ser confortável e triunfalista, taxativa, desprovida de nuance e, de preferência, completamente absurda.

Esse é o método que permite que Michel Temer seja chamado de “apenas mais um comunista” pelos grandes intelectuais do Instituto Liberal. Temer se aliou a toda a direita brasileira, seu partido lançou um programa de reformas extremamente liberal chamado Ponte para o Futuro, sua curta presidência foi extremamente impopular, exceto no mercado financeiro. Diante desses fatos, como Temer poderia ser um comunista? Tanto faz. Basta que digam que o mercado financeiro também é comunista, como os gênios do MBL já nos explicaram.

Esse tipo de excrescência, de maneira proposital ou não, é o que abriu caminho para o crescimento de apelos por golpe militar e também explica, em parte, o êxito da candidatura de Jair Messias Bolsonaro. Em ritmo permanente de campanha desde 2015, Bolsonaro conseguiu se firmar como o único candidato que é “direita de verdade” usando de uma lógica simples e eficaz: pega carona na quantidade imensa de material que afirma que a corrupção seria um problema da esquerda, repete incessantemente que não é corrupto (apesar de quaisquer evidências contrárias) e assim torna-se, por extensão, o único candidato de direita. Ele pode dizer que é contra mídia, contra “o sistema” mas é um fruto gerado no âmago do establishment antipetista. 

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Desaprovou o General Mourão? Comunista!

Esse esforço contínuo de transformação e reafirmação não tem qualquer compromisso com nenhum nível de argumentação factual. As reformas de Maurício Macri falharam? Evite discutir a natureza delas, ou fazer uma análise mais demorada sobre os desafios da economia argentina e a relação do panorama atual com aquele do início dos anos 2000. Chamemos outro “intelectual”, o fundador do Instituto Liberdad Querida, que ele define como o “Tea Party argentino” para que ele assegure aos leitores do Antagonista que Macri nunca foi nada mais que um social-democrata…

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Jornalismo de qualidade.

E nada disso é uma questão de ajuste ou coerência. É possível que governos não executem o que prometeram em campanha ou hajam em desacordo com a coalizão ou plataforma que os elegeu. Não é o caso argentino. Mas agora que Macri parece ter falhado, não por suas intenções mas por suas ações, é preciso que ele seja jogado para fora do espectro político dos bons. Agora Macri deve ser “apenas mais um social democrata”.

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Stálin dançou foi pouco.

Para além da política institucional, esse tipo de estratégia é usado para falar sobre qualquer coisa: da crise dos refugiados à indústria cultural. O último sucesso do pop não se deve à combinação de consumo massificado e hiper mídia, trata-se um complô da Escola de Frankfurt – e não, não interessa que você mostre que Adorno criticava JUSTAMENTE a cultura de massas. Nunca ouviu falar que o Esquenta era um programa de extrema-esquerda? Se o público não gosta do Esquenta e não gosta da esquerda logo o Esquenta é de esquerda. Extrema-esquerda. Regina Casé era uma extremista do funk.  É o temido Marxismo cultural!

Há algo terrivelmente eficaz nessa estratégia. Ela permitiu que Donald Trump criticasse Hillary Clinton como a “candidata de Wall Street” na campanha presidencial de 2016, muito embora boa parte de seu staff, incluindo o coordenador Steve Bannon, viessem do mundo das finanças. Desde a Crise de 2008, que aconteceu sob a batuta de um governo Republicano, a relação entre Wall Street e Washington se tornou ainda mais impopular.  Movimentos como o Tea Party, que tentaram “renovar” o partido Republicano com um populismo de direita, diziam odiar Wall Street – embora sua agenda apontasse no sentido contrário. Vencida a eleição nada impediu que Donald Trump, numa ação típica de um membro do partido Republicano, aprovasse cortes em impostos que beneficiaram Wall Street, ou representasse o mercado financeiro como “vítima” de regulações governamentais que mais tarde seriam suavizadas por seu governo.

A fantasia de que o mundo é dominado por uma suposta hegemonia da esquerda também é muito útil para a extrema-direta. É uma maneira mover a Janela de Overton, o conjunto das ideias toleradas no discurso público, para a direita. Se Angela Merkel, líder do partido de direita União Democrata-Cristã, for repetidamente chamada de socialista fica bem mais fácil que para os políticos da AfD, partido de extrema-direita, se passarem por conservadores ou direitistas convencionais – mesmo que desde de sua fundação o partido tenha caminhado rumo a posturas cada vez mais extremas.

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A extrema direita venceu

Ditadura,Extrema Direita,Feminismo,Racismo,XenofobiaEM 2016, em uma escola secundarista de uma favela de Porto Alegre, Lucia Scalco e eu nos deparamos com dezenas de meninos fãs do “mito”. Por muito tempo, só conseguíamos enxergar esse fato, que dominava nossa análise.

Isso, em grande medida, prejudicava dar a devida atenção a meninas como Maria Rita, de 17 anos, única filha mulher de um soldado bolsonarista. Ela discutia cotidianamente com seu pai e irmão e, em 2018, já havia conseguido convencer a mãe que “eles não tinham argumentos, apenas raiva de tudo”.

A antropóloga Claudia Fonseca, nos anos 1980, chamava as mulheres de periferia de “mulheres valentes”: líderes comunitárias, mães e trabalhadoras – mas não necessariamente feministas. O que nós encontramos em 2016, quando nos permitimos olhar as coisas sob lentes diferentes, foi que as filhas das valentes agora se denominavam feministas, enfrentavam o poder patriarcal com argumentos sólidos, dados e conhecimento aprofundado de política. E melhor: elas eram em maior número do que os “minions”.

Talvez o que nos esteja faltando para começar 2019 é conseguir deslocar o foco exclusivo no círculo vicioso das manchetes trágicas e no aumento do autoritarismo para valorizar as grandes conquistas que mudaram uma geração inteira, e que produzirá impactos sociais e institucionais profundos daqui a alguns anos.

O reacionarismo é também uma reação à explosão do feminismo, do antirracismo e da luta LGBTs.
A crise de 2007/2008 propiciou a explosão de uma primavera de ocupações e protestos em massa no mundo todo. Muito é dito sobre o quanto essas manifestações causaram a ascensão da extrema direita. Menos atenção tem sido dada, entretanto, ao fato de que existiram outros desdobramentos possíveis dessas manifestações. Tanto o Occupy nos Estados Unidos quanto as Jornadas de Junho de 2013, por exemplo, também foram marcos do fortalecimento de uma nova subjetividade política que busca, na ação microscópica da ação direta, o afeto radical, a imaginação e a horizontalidade.

Quem sabe invertemos as lentes de análise? O reacionarismo emergente também pode ser entendido, entre muitos outros fatores, como uma reação à explosão do feminismo, do antirracismo e da luta dos grupos LGBTs, que sempre se organizaram no Brasil, mas que, nos últimos anos, atingiram uma capilaridade inédita — e perturbadora, para muitos.

Há uma nova geração de mulheres que não tem nada a perder e a temer.
Impulsionada pelo contágio das novas mídias digitais, emergiu a quarta onda feminista no mundo todo –especialmente no Sul global (veja abaixo alguns exemplos) –, que é orgânica, emergiu de baixo para cima e cada vez mais reinventa localmente os sentidos do movimento global #metoo. A onda internacional perpassa todas as gerações, mas é entre as adolescentes que desponta seu caráter mais profundo no sentido de ruptura da estrutura social: há uma nova geração de mulheres que não tem nada a perder e a temer.

Diz o cântico das marchas feministas que a “América Latina vai ser toda feminista”. Neste ano, as universidades chilenas, por exemplo, foram ocupadas contra o assédio sexual. Na Argentina, filhas do movimento #niunamenos, as pibas (ativistas jovens) comandaram as vigílias durante a votação do aborto no Senado. Atualmente, meninas de 12, 13 anos já vão para a escola com o lenço verde, que simboliza a luta pelo aborto legal.

A cena feminista asiática está em plena ebulição. Na Coreia do Sul, as “irmãs de Seul” marcharam contra o abuso sexual e a misoginia. Na China, depois da prisão de cinco ativistas, o feminismo tem explodido em todo o país, e as jovens fazem performances criativas, como ocupar os banheiros masculinos, contra o machismo e o autoritarismo.

O mesmo ocorre em diversos países africanos. A juventude secundarista e universitária de Moçambique fundou o Movfemme, o Movimento das Jovens Feministas. Sob forte repressão, elas organizam eventos menores, como rodas de conversa em torno de uma fogueira para falar de sexualidade e direitos das mulheres.

Furando a bolha institucional
Lúcia Scalco e eu percebemos o rastro da primavera feminista de 2015 e das ocupações secundaristas de 2016 na periferia de Porto Alegre. Nós fazemos pesquisa lá há dez anos e percebemos que a intensidade e a capilaridade do feminismo entre as adolescentes era inédita. Existe toda uma nova geração de feministas, e elas foram fundamentais na contenção do crescimento de Bolsonaro no bairro em que moram. Muito antes de existir o movimento #elenão, elas já enfrentavam seus pais, irmãos e companheiros e, assim, mudavam o voto de suas mães e avós, que tradicionalmente seguiam o voto dos maridos.

O grupo Mulheres Unidas contra Bolsonaro reuniu em poucos dias 4 milhões de mulheres no Facebook e o movimento #elenão foi a explosão disso tudo, constituindo-se também um grande momento de politização de mulheres. O backlash (contra-ataque) não veio apenas dos bolsonaristas, mas também de alguns intelectuais de esquerda que, direta ou indiretamente, responsabilizaram as mulheres pelo crescimento de Bolsonaro na última semana no primeiro turno, desprezando as muitas variáveis políticas que levaram àquele cenário – argumento já refutado em artigo acadêmico de Daniela Mussi e Alvaro Bianchi.

Essa onda feminista relativamente espontânea já começa a furar e renovar a bolha institucional, elegendo mulheres no Brasil e nos Estados Unidos.

Enquanto a direita tradicional derreteu nessas eleições, e o PSL cresceu de forma fenomenal na extrema direita, o PSOL também elegeu Aurea Carolina, Sâmia Bomfim, Fernanda Melchionna, Talíria Petrone como deputadas federais; e a Rede elegeu Joênia Wapichana, a primeira indígena eleita no país. Além, é claro, das vitórias da Bancada Ativista, de Monica Francisco, Erica Malunguinho, Luciana Genro, entre outras, em nível estadual.

Primeiros frutos das sementes de Marielle Franco, essas mulheres jovens possuem com forte vínculo com o ativismo e com a realidade popular. Essa nova bancada feminista não procurou surfar na onda de Junho de 2013 ou da Primavera Feminista de 2015 simplesmente – elas vêm organicamente das ruas e das lutas.

Nos Estados Unidos, as eleições do chamado “midterm” surpreendeu e derrotou Trump no Congresso, tendo significativo número de recorde de mulheres eleitas, como as democratas Rashida Tlaib e Iham Omar (as primeiras islâmicas da eleitas), Deb Haaland e Sharice Davids (as primeiras indígenas eleitas), Ayanna Pressley (a primeira negra eleita por Massachussets) e Alexandria Ocasio-Cortez, a mais jovem deputada já eleita.

Não basta apenas ocupar a política como também mudar o jeito de fazê-la.
Ocasio-Cortez tem sido um caso exemplar da renovação política. Mulher, mãe e latina do Bronx, ela encarna as lutas das minorias ao mesmo tempo em que resgata uma linguagem dos laços de amor da família e comunidade. Ela também produz um discurso mais universalista que dialoga diretamente com os anseios da classe trabalhadora constantemente usurpada: emprego, segurança, sistema de saúde e educação. Em suma, ao falar do amor e das dificuldades da vida cotidiana, ela atinge temas básicos que tocam no âmago dos anseios populares – temas que, apesar de básicos, têm sido deixados de lado pela grande narrativa da esquerda brasileira.

As diferenças de contexto norte-americano e brasileiro são enormes, evidentemente. Mas, em comum, essas mulheres encarnam um radicalismo necessário, conectado a uma ética e estética do século 21. Fazendo forte uso das redes sociais, por meio de stories do Instagram, essas mulheres transformam a política outrora hostil, inacessível e corrupta em algo atraente, palpável e transparente. São mulheres de carne e osso que fazem política olho no olho não apenas em época de eleição. Afinal, não basta apenas ocupar a política como também mudar o jeito de fazê-la.

Podemos, então, dizer que a configuração política de hoje extrapola as análises convencionais da polarização entre esquerda e direita, mas aponta para a existência de dupla divisão de ideologia e posicionalidade, ou seja, de um lado situa-se o tipo ideal do homem branco de direita e, de outro lado, a mulher negra/lésbica/trans/pobre.

Quando o desespero bater sob o governo autoritário e misógino de Jair Bolsonaro, é importante olhar adiante e lembrar que muita energia está vindo de baixo, a qual, aos poucos, vai atingir os andares de cima. É uma questão de tempo: as adolescentes feministas irão crescer, e o mundo institucional terá que mudar para recebê-las.

Nossas conquistas em nível global são extraordinárias, mas muitos não irão te contar isso. A onda feminista dará força para resistir. Tenho confiança que muitas e renovadas versões do #elenão serão reeditadas, e miram não apenas derrubar os projetos de Bolsonaro, mas principalmente servir de espaço para a politização de mulheres. Mesmo derrotadas, somos vencedoras.
Rosana Pinheiro-Machado/TheIntercept

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A extrema direita renasce na Espanha

Partido Vox conquista cadeiras no Parlamento regional de Andaluzia, marcando o maior êxito eleitoral ultradireitista desde o fim da ditadura do general Francisco Franco, em 1975.Ditadura,Democracia,Espanha,Fascismo,Ideologia,Extrema direita,

Líder do partido ultradireitista Vox Santiago de Abascal (c) e o candidato regional Francisco Serrano (dir.) comemoram êxito eleitoral em Andaluzia

A Espanha vive um momento de perplexidade política após o partido ultradireitista Vox surpreender nas eleições regionais na Andaluzia neste domingo (02/12) e conseguir pela primeira vez representação em um Parlamento regional espanhol, na maior e mais populosa comunidade autônoma do país.

O partido nacionalista conquistou 12 das 109 cadeiras do Parlamento da região autônoma do sul da Espanha, obtendo o maior êxito eleitoral de um grupo de extrema direita desde a volta da democracia ao país em 1975, com o fim da ditadura do general Francisco Franco.

O resultado faz com que a Espanha deixe de ser um dos últimos países da Europa sem uma agremiação de extrema direita de peso.

O Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), que governa a região há 36 anos, foi o mais votado nas eleições regionais, ainda que tenha registrado uma perda de 47 para 33 cadeiras – o pior resultado da história da sigla esquerdista.

Os socialistas deverão ter dificuldades para formar uma coalizão de governo, após todas as demais forças políticas rejeitarem apoiar um executivo liderado pela atual presidente, Suzana Díaz.

Em setembro, Díaz justificou a decisão de convocar eleições antecipadas em razão da falta de estabilidade de seu governo, após perder o apoio do partido Cidadãos, sigla de centro-direita que foi a que mais cresceu nas eleições, passando de 9 parlamentares regionais para 21.

O resultado surpreendente do Vox foi destaque na imprensa espanhola. O jornal El País afirmou se tratar de “um terremoto político de alcance histórico, que ninguém – nem as pesquisas, nem os especialistas – foram capazes de prever”. O jornal afirma que a vitória dos direitistas serve como alerta para outras eleições importantes que ocorrerão na Espanha em 2019.

O Vox foi criado em 2013 com o objetivo de atrair eleitores frustrados com o Partido Popular (PP) do então primeiro-ministro Mariano Rajoy, com um discurso conservador centrado na defesa da família tradicional, da monarquia e da unidade do país frente aos movimentos de independência de regiões como País Basco e a Catalunha. O PP amargou um revés nas eleições andaluzes, diminuindo de 33 para 26 membros de sua bancada no parlamento.

A crise gerada pela declaração unilateral de independência da Catalunha no ano passado aumentou a visibilidade dos ultradireitistas, reforçada pelo aumento da chegada de migrantes do norte da África, que este ano transformou a Espanha no principal destino de refugiados rumo à Europa, superando a Itália. A maioria desses migrantes chega ao país através da Andaluzia.

Um vídeo do Vox divulgado antes das eleições, intitulado “Andaluzia pela Espanha”, viralizou na internet ao mostrar o líder do partido, Santiago de Abascal, em uma cavalgada com um grupo de apoiadores, numa referência à “Reconquista” espanhola dos territórios ocupados pelos muçulmanos nos séculos 13 e 15.

As eleições andaluzes eram consideradas um teste para o governo minoritário socialista, que chegou ao poder há seis meses, e também para a direita, a poucos meses das eleições nacionais e europeias em maio. O primeiro-ministro Pedro Sánchez, que vem tendo dificuldade em aprovar suas políticas em Madri, contava com um reforço do apoio popular.

A Comunidade Autônoma de Andaluzia possui mais de 8 milhões de habitantes, distribuídos em mais de 87 mil quilômetros quadrados, sendo a segunda maior região da Espanha, atrás de Castela e Leão.

RC/lusa/dpa

A nova direita brasileira odeia a América Latina

Como o Brasil é o fiel da balança no continente, afastá-lo da América Latina é objetivo estratégico e finalista de qualquer política reacionária.

Vale observar um detalhe nas trajetórias. Por mais que Getúlio tenha influenciado líderes semelhantes no Continente, é preciso constatar que o apelo populista implica mobilização das massas organizáveis e em disponibilidade, e Vargas só usara este recurso no período de 1930 a 1945 quando do final da ditadura do Estado Novo (período de 1937 a 1945), quando estabelecera uma aliança com o Partido Comunista do Brasil (então PCB) e conclamara o trabalhismo para exigir o Queremos Vargas.

Assim, não seria equivocado considerar o auge do populismo varguista justamente com o período mais tenso de sua trajetória, antes de seu suicídio. As coincidências não param por aí. Juan Domingo Perón também foi derrubado por um golpe militar, conhecido como Revolução Libertadora, em 16 de novembro de 1955. Este paradoxo se reproduzia em maior ou menor medida, fazendo da emancipação nacional o fator a agregar as massas, infelizmente superando a luta de classes e popular, ao menos em sua forma direta.

Assim, o nacionalismo latino-americano, de raízes anti-coloniais e antiimperialistas, fora revivido em período de Guerra Fria, trazendo à tona o conflito entre “gorilas” x “populistas”. No Brasil, esta versão ganhara o contorno do conflito entre “nacionalistas” x “entreguistas”, cujo termo equivalente em castelhano é o de “vende pátria”. Dentro das Forças Armadas (FFAA) o conflito se dera entre as alas Nacionalistas (mais vinculadas ao varguismo ou ao PCB) e tendo em contra primeiro a chamada Cruzada Democrática, mas cujo embrião pariu o ovo da serpente, com o partido militar e os conspiradores que resultaram no golpe militar de 1964 e o regime ditatorial instalado pelos altos mandos castrenses (1964-1985).

Como caracterização poderíamos afirmar a prática do gorilismo como sendo essencialmente uma ação política com identidade anti latino-americana, como uma espécie de ódio auto-proclamado a si mesmo (nós mesmos) e com evidentes contornos racistas.

O contraponto ao gorilismo seria o ideal de progresso e desenvolvimento inclusivo, refletido desde o pensamento cepalino (inspirado nas teses da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe,CEPAL, órgão permanente das Nações Unidas), passando pelas diversas correntes do estruturalismo e também manifestado na Teoria da Dependência, ou nas teorias da dependência e do subdesenvolvimento.

Os latino-americanos integral ou parcialmente alinhados com o “Ocidente” querem uma integração de nossos países de forma subordinada e submissa, e este marco tem uma história pregressa que vem de muito antes das relações carnais com os EUA (manifesta pelo ex-presidente argentino, o mafioso Carlos Saúl Menem) ou asneiras semelhantes.

Infelizmente, este alinhamento submisso se mantém como expectativa da boa política através da restauração imperialista. As práticas gorilas, como as manifestadas nas ruas do Brasil quando a direita ideológica e neoliberal sai às ruas aos domingos, após a missa e antes do futebol com direito a transmissão dos “protestos” em rede nacional de TV, estão justamente expressas no afastamento do Brasil para com a América Latina.

Quando muito, esta “nova” direita, uma espécie de versão pós-moderna dos mesmos Chicago Boys de sempre, faz o elogio da linha chilena, cujo país fora laboratório de sociopatas, alunos de Milton Friedman na Universidade de Chicago, e onde a ditadura militar de Augusto Pinochet foi acompanhada do pior do neoliberalismo.

A demência da nova direita brasileira está realmente abusando. Alguns cartazes e gritos de guerra trazidos a público no Brasil em 16 de agosto de 2015 lembram a operação anterior ao golpe contra o governo Salvador Allende, derrubado em 11 de setembro de 1973. No Brasil do terceiro turno, temos o desprazer de ler frases como “Foda-se a Venezuela”, o clássico “Vai para Cuba”, ou então coro político cantando: “Pé na bunda dela, isso aqui não é a Venezuela!”. E, obviamente, lado a lado com os neoliberais marcham saudosos da ditadura brasileira, incluindo faixas em inglês pedindo intervenção do Comando Sul dos EUA no Brasil.

Assim, embora o ministro da Fazenda de Dilma Rousseff em seu segundo mandato, o executivo do sistema financeiro Joaquim Levy, seja ele próprio um autêntico Chicago Boy, isso não basta para aliviar a pressão sobre um governo de centro-direita.

Mesmo com Levy tendo obtido seu Ph.D. em economia pela Universidade de Chicago, título obtido em 1993 com a tese “Two empirical tests of exchange rate target zones”, cuja área de concentração é economia internacional , e logo após trabalhado para o FMI de 1992 a 1999, a sanha continua.

‘Extermínio de opositores foi essencial para instalar modelo neoliberal em ditadura chilena’, diz jornalista

‘Ainda estou aqui’, de Marcelo Rubens Paiva: estamos condenados a esquecer?

Manifestantes lotam as ruas de Barcelona para reivindicar independência da Catalunha

A oposição ideológica é tão anti-latinoamericana que identifica as agendas sociais do pacto de classes do lulismo (tímidos investimentos, cujo montante não se compara com os mais de 40% do orçamento brasileiro alocado para rolagem da dívida pública, garantindo a farra dos bancos e agiotas) com as práticas de assistência e paternalismo promovidas por lideranças de estilo populista e de corte latino-americano.

Nada poderia ser mais falso e, ao mesmo tempo, trata-se da desinformação perfeita. Como o anti-latinoamericanismo brasileiro é parte da formação do país e o absurdo pacto de independência, onde os patriarcas do novo Império aceitaram manter a escravidão em troca da integridade territorial do país, é fácil atingir qualquer governo de centro-esquerda (por mais que este seja tímido, policlassista e subordinado aos interesses dos agentes econômicos nacionais) taxando-o de pró América Latina. Logo, em sendo a favor do Sul, por oposição evidente, estaríamos em contra o “grande irmão do norte”, a matriz do Ocidente contemporâneo localizado no Império dos Estados Unidos.

Não surpreende observar que todas as posições oligárquicas a combater os governos de centro-esquerda na América Latina da virada democrática pós-1998 (primeira eleição de Hugo Chávez) reproduzam a mesma linha dos atuais opositores neoliberais. Particularmente nunca acreditei em etapismo, como se o desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo nos levasse rumo a uma sociedade justa e soberana. Longe disso.

Mas, ao mesmo tempo, seria absurdo não reconhecer a urgente necessidade de, ainda dentro das condições concretas do capitalismo periférico e semi-periférico que se pratica na América Latina, é urgente deixarmos de ancorar as balanças comerciais em venda de produtos primários e na exploração de recursos minerais e hidrocarbonetos.

Apenas esta constatação já nos coloca em oposição aos desígnios da superpotência – o império dos EUA – para nossos destinos. No caso brasileiro não é diferente. Como o Brasil – em função de sua envergadura e peso relativo – termina sendo o fiel da balança no continente, afastar o país da América Latina colocando-o de costas para os países hermanos é objetivo estratégico e finalista de qualquer política reacionária promovida por oligarcas latino-americanos e que odeiam suas/nossas próprias raízes.

*  Bruno Lima Rocha é professor de ciência política e relações internacionais
** Artigo publicado originalmente pelo IHU