Afeganistão: Estados Unidos perto de outro Vietnã?

Mais uma vez, parece que o “grande irmão do norte” parece desconhecer a realidade dos outros países do mundo. Principalmente quando são países islâmicos. O “imbroglio” agora, para as forças de combate americanas, é o Afeganistão.

Nação composta por inúmeras etnias, e por isso mesmo, ou por causa disso, um eterno caldeirão de rivalidades, o Afeganistão tem 50% da população constituída pelos patãs, 30% são tradjiques, além de outra parte em que se incluem usbeques, turcomanos e beluques. No quesito religião 90% são muçulmanos sunitas e 9%, xiitas.

Cerca de 140 mil soldados americanos e da Otan participam da ocupação do país, ocupação essa que ao longo de 9 anos e meio mais aparenta ter entrado em um beco sem saída.
O Editor


Imprensa, TV e Internet fazem EUA desabar no Afeganistão[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

A exemplo do que ocorreu com a guerra do Vietnã, em 75, os jornais, as emissoras de televisão e, agora, a internet, juntos, poderão contribuir para um recuo das forças americanas e da OTAN no Afeganistão, tantos e tão realistas são os documentos secretos que no final da semana o australiano Jules Assange tornou públicos ao mundo.

A dimensão da iniciativa e o risco jornalístico de enveredar por um caminho militar ligado à segurança de estados e de pessoas foram tão grandes que, antes de fazer explodir a comunicação eletrônica, o diretor da ONG Wikileaks antecipou o conteúdo do site ao New York Times, ao inglês The Guardian e à revista alemã Der Spiegel.

A CNN, no inicio da década de 70, precipitou a retirada dos Estados Unidos do Sudeste Asiático a partir do momento em que colocou no ar militares americanos detonando a cabeça de prisioneiros ou então lançando-os, sem paraquedas, de aviões e helicópteros.

Lembro bem que a atriz Jane Fonda valeu-se da reportagem controlada pelo então seu marido, Ted Turner, para liderar uma imensa passeata em Washington, em torno da Casa Branca, pelo fim imediato da guerra que fora iniciada em 62 pelo presidente Kennedy, atravessou o mandato de Lyndon Johnson, o primeiro de Richard Nixon, também o segundo, e só acabou em 75 na administração Gerald Ford que assumiu depois do escândalo de Watergate.

A sociedade norteamericana ficou perplexa com o que a imprensa e televisão destacavam. A frase a liberdade não é de graça, usada por Truman na guerra da Coréia, perdeu o sentido com o segundo fracasso na Ásia. Mas eis que, na sequência do tempo, vieram a absurda invasão do Iraque, desencadeada por George Walker Bush, e até o momento mantida pelo presidente Barack Obama, apesar de compromisso de terminá-la a curto prazo assumido na campanha eleitoral.

Provavelmente o complexo industrial militar – denunciado em livro pelo general Eisenhower, que presidiu os EUA do início de 53 ao começo de 61, pois foi eleito em 52 e reeleito em 56 – entrou em ação e somou o Afeganistão ao Iraque, adicionando Bagdad a Cabul. No Iraque, uma série de torturas praticadas, morte de milhares de iraquianos, luta de guerrilha e sobotagens, mais de 3 mil americanos mortos. No Afeganistão, a lista de mortos aumenta a cada dia e, de acordo dom o site de Julien Assage, fatos nebulosos vinculando setores das forças invasoras com o Taleban de Bin Laden.

Os diamantes são eternos, escreveu Ian Fleming, criador de James Bond. A cada dia mais se comprova a teoria na prática. A indústria de armas está por atrás, pela frente, pelos lados dos conflitos. Um mercado que proporciona lucros à base da vida e da integridade de centenas de milhares de pessoas. Ritual macabro esse que parte do princípio da defesa da liberdade e termina com o aprisionamento e a ocultação dele próprio.

As excelentes matérias de Gustavo Chacra, Andréa Murta e Fernando Ainchenberg, publicadas respectivamente nas edições de 27 de julho de O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e de O Globo, focalizaram nitidamente o panorama extremamente crítico que a divulgação dos quase 100 mil documentos secretos causou.

Por intervenção do New York Times, dezenas de nomes de pessoas não vieram à tona, pelo menos por enquanto, para não colocar em risco suas vidas. O impacto mundial está sendo de tal ordem – acentuam os jornalistas – que em seu conjunto essa página singular da história de hoje pode vir a terminar a guerra do Afeganistão amanhã.

Pedro de Coutto/Tribuna da Imprensa

Vazamentos de dados, hackers e o exército dos Estados Unidos

Polêmica sobre vazamento de dados envolve hackers, jornalistas e exército

Soldado americano entregou dados a site que ‘vaza’ dados sigilosos.

Depois de contar história para hacker, diálogos foram parar em revista.

Uma história complicada tem se desenrolado lentamente nas últimas três semanas.

Um soldado norte-americano, Bradley Manning, de 22 anos, vazou dados militares para o site Wikileaks, que já publicou parte das informações nada favoráveis à imagem do governo dos Estados Unidos. Manning decidiu falar de suas ações para um hacker, Adrian Lamo.

Sem muita demora, Lamo entregou Manning às autoridades. Depois, a o site da revista Wired publicou a história, com exclusividade e com acesso a todas as conversas entre Manning e Lamo.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

O Wikileaks acusa o hacker e o repórter da Wired, o também ex-hacker Kevin Poulsen, por “quebra de ética jornalística”; Lamo também se diz jornalista e deveria ter defendido Manning como uma fonte, segundo críticos e apoiadores que consideram o soldado um herói.

Confira a história completa na coluna Segurança para o PC de hoje.

O soldado Bradley Manning recentemente perdeu o ranking de Especialista no exército.

O soldado Bradley Manning recentemente perdeu o ranking de Especialista no exército.

Manning e o vídeo que catapultou o Wikileaks
Foto:ARquivo Pessoal,/Facebook

Controvérsia não é novidade para o Wikileaks, que tem se envolvido em uma após outra desde a sua criação em 2006. Até recentemente, o fundador do site, o hacker e jornalista australiano Julian Assange, nem sequer aparecia na mídia ou assumia ser o responsável pela página.

Isso mudou radicalmente desde abril, quando o site disponibilizou um vídeo chamado Collateral Murder (Assassinato Colateral), que mostra como o exército dos Estados Unidos matou dois jornalistas e feriu crianças sem nenhum motivo aparente no Iraque. O caso repercutiu na imprensa porque o vídeo estava retido pelo exército; Assange foi biografado e entrevistado por diversos veículos.

O Wikileaks oferece meios para que arquivos secretos sejam vazados com segurança e anonimamente. O vídeo saiu de uma de suas fontes anônimas e isso era tudo o que se sabia.

Antes disso, o Wikileaks havia realizado muitos outros vazamentos, com variadas consequências. Agências de notícia como a Associated Press, formada por um grande número de veículos, doaram dinheiro para custear as operações da Sunshine Press, empresa que gerencia o espaço. O Pentágono já considerava o site um “inimigo da segurança nacional” muito antes de o vídeo ser publicado. No entanto, o caso levou o site a um novo patamar, dando ao Wikileaks cobertura televisiva.

Há um lugar especial no inferno para jornalistas como Lamo e Poulsen”

WikiLeaks

O soldado Bradley Manning disse que foi o responsável por vazar esse vídeo e também outro de um episódio semelhante no Afeganistão. Além disso, 260 mil relatórios diplomáticos teriam sido enviados ao Wikileaks. O site confirmou ter o vídeo do Afeganistão, mas disse jamais ter recebido os 260 mil documentos que Manning afirmou ter vazado. O site não confirmou que Manning é a fonte das informações, porque “não coleta dados pessoais de suas fontes”.

As confissões de Manning foram feitas a Adrian Lamo, um ex-hacker que hoje diz ser jornalista. O blog Threat Level, da Wired, que publicou a história com exclusividade, publicou vários trechos da conversa entre Lamo e Manning. Lamo tem uma relação de anos com o editor do Threat Level, o ex-hacker Kevin Poulsen, que sempre dava cobertura para seus atos de hacking, considerados simples, mas contra grandes empresas.

Além da Wired, apenas o jornal The Washington Post teve acesso às conversas entre Manning e Lamo. Manning teria dito que perdeu um cargo no ranking militar e que seria dispensado por mau comportamento. Nas conversas publicadas pela Wired, Manning diz ter perdido fé no seu trabalho quando viu que protestos políticos contra a corrupção no Iraque estariam sendo tratados como atos de terrorismo pelo exército.

Herói ou vilão e a guerra entre hackers e jornalistas

Se discussões de nível mundial não acontecerem, acho que, como espécie, estamos condenados”

Bradley Manning

O soldado disse a Lamo que queria “fazer uma diferença”, que a publicação do vídeo lhe deu esperança e que estava ansioso pela publicação dos relatórios diplomáticos. “Com sorte teremos debates, discussões a nível mundial e reformas. Se isso não acontecer, acho que, como espécie, estamos condenados”, disse. Manning tem a simpatia de muitos; ele está em uma prisão militar desde o dia 26 de maio. Ainda não foi acusado de nenhum crime, mas deve ser julgado por uma corte marcial.

Kevin Poulsen, o editor da Wired que publicou a história em primeira mão no dia 6 de junho com a exclusividade de acesso total aos logs de conversa entre Lamo e Manning, tem se visto vítima de uma campanha contra sua imagem. Desde o início, o Wikileaks o acusou de quebrar a ética jornalística. No Twitter, o site chegou a postar que “há um lugar especial no inferno para jornalistas como Lamo e Poulsen”.

Da esquerda para a direita: Adrian Lamo, Kevin Mitnick e Kevin Poulsen em 2001.  Foto: Matthew Griffiths/Domínio Público

Um comentário no site BoingBoing referido pelo Wikileaks afirma que Poulsen e Lamo conspiraram contra Manning, trabalhando juntos para fazê-lo confessar seus atos e agindo como “ponte” entre a investigação do governo e o soldado. Ataques para minar a reputação de Poulsen, que já foi preso por hacking – como Lamo – não faltam.

Junto a isso tudo, circula uma foto em que Adrian Lamo, Kevin Mitnick e Kevin Poulsen aparecem juntos e sorrindo em 2001. Poulsen, ao ser confrontado, afirmou que Lamo não é seu amigo, mas apenas uma fonte.

Vale mencionar que o editor do Wikileaks, Julian Assange, também já foi preso por hacking. Saiu por bom comportamento depois de pagar uma fiança.

O último a entrar na roda da polêmica foi o colunista e advogado Glenn Greenwald, da Salon. Após uma conversa com Lamo, Greenwald descobriu que o ex-hacker e “jornalista” convenceu Manning a confiar nele. Lamo disse que poderia tratar o soldado como uma fonte e protegê-lo com a lei de imprensa da Califórnia. Disse até que era um ministro cristão e que poderia tratar a conversa como uma confissão de pecados, sendo obrigado, assim, a jamais revelar nada.

Na verdade, Lamo já tinha contato com o FBI pelo menos desde o dia 24 de maio – as conversas entre Manning e Lamo começaram apenas três dias antes. No dia 25, Lamo se encontrou pessoalmente com agentes do FBI. Lamo justifica suas ações dizendo que agiu “em nome da segurança nacional”. Esta coluna prefere destacar outra afirmação do ex-hacker, que já esteve na prisão: “não quero mais agentes do FBI batendo na minha porta”.

O enigmático fundador da Wikileaks, Julian Assange, cancelou viagens aos Estados Unidos por “questões de segurança”. O enigmático fundador da Wikileaks, Julian Assande
Foto: Peter Erichsen/NMD/CC

Lamo provavelmente ficou com medo de ser envolvido em uma investigação para capturar o soldado que vazou o vídeo e enfrentar problemas por ter ficado quieto. Bradley Manning disse a Lamo que não tinha mais acesso às informações sigilosas e que seria dispensado. Naquele ponto, ele já estava inofensivo, se é que alguma vez representou perigo.

É claro que uma falsa cruzada em nome da segurança é mais interessante do que o medo. No Facebook, há comunidades a favor das ações de Manning. O site BradleyManning.org pede que o jovem seja considerado um herói. Uma petição para libertá-lo já conseguiu 140 assinaturas. O Wikileaks abriu um fundo de defesa para pagar o advogado do soldado “estão dizendo que ele é nossa fonte e por isso vamos defendê-lo”, diz o site, que não confirma se Manning foi mesmo quem vazou as informações.

Problema de confiança

Greenwald observou que a principal fonte de informação da história não pode ser confiada. Adrian Lamo adora aparecer na mídia – necessidade sempre suprida pelas reportagens de Kevin Poulsen. Todo esse caso pode ser apenas mais uma maneira de Lamo se promover, pondera o colunista da Salon. Desde o início da confusão, Lamo já entrou em contradições: para Greenwald, Lamo afirmou que Manning enviou e-mails para iniciar o contato; para o Yahoo! News, a versão foi a de que o soldado apareceu “do nada” no AOL Instant Messenger (AIM); Lamo já disse que considera pessoas que vazam informações “espiões” e “traidores”, mas também revelou já ter doado dinheiro para o Wikileaks.

Enquanto a história não se define, um jovem de 22 anos que tentou mostrar ao mundo segredos que, até o momento, parecem comprometer apenas a imagem do governo dos Estados Unidos e não a vida dos seus cidadãos, está preso e aguardando ser pelo menos acusado de um crime para que possa se defender.

Se os logs de conversa gravados por Lamo tiverem sua veracidade comprovada, Manning provavelmente não tem chance de escapar de uma punição severa. Mesmo assim, o soldado tem ao seu lado vários apoiadores e, a não ser que a história mude seu rumo, deverá ser lembrado como um herói.

Altieres Rohr/G1

*Altieres Rohr é especialista em segurança de computadores e, nesta coluna, vai responder dúvidas, explicar conceitos e dar dicas e esclarecimentos sobre antivírus, firewalls, crimes virtuais, proteção de dados e outros. Ele criou e edita o Linha Defensiva, site e fórum de segurança que oferece um serviço gratuito de remoção de pragas digitais, entre outras atividades. Na coluna “Segurança para o PC”, o especialista também vai tirar dúvidas deixadas pelos leitores na seção de comentários.