PSDB barra investigações sobre cartel na Assembleia

Política  Tucano calado Blog do MesquitaDeputados estaduais só aprovaram convocação de três autoridades até agora

Oposição apresentou pedidos para ouvir outros 23 envolvidos nos casos Alstom e Siemens em comissões

A base de sustentação do governador Geraldo Alckmin (PSDB) na Assembleia Legislativa de São Paulo conseguiu blindar o Palácio dos Bandeirantes contra investigações sobre o cartel que atuou em licitações do Metrô e da CPTM durante sua administração e em outros governos tucanos.

Sem número suficiente de deputados para instalar uma CPI, a oposição tentou convocar autoridades, empresários e consultores envolvidos com o cartel a prestar depoimentos em duas comissões.

Desde agosto, foram apresentados 38 requerimentos para que fossem chamadas 26 pessoas. Dessas, só três foram ouvidas pelos deputados.

As comissões em que os pedidos foram feitos –de Transportes e Infraestrutura, ambas com maioria governista– adiaram a análise de vários pedidos indefinidamente, rejeitaram outros e ainda transformaram convocações em convites, o que desobriga o convidado de comparecer.

“Eles estão obstruindo justamente para dificultar o processo investigativo”, disse o líder dos petistas na Assembleia, Luiz Cláudio Marcolino.

Os deputados governistas dizem que não houve blindagem e que as três pessoas ouvidas eram as mais relevantes: o secretário dos Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes, e os atuais presidentes do Metrô, Luiz Antonio Pacheco, e da CPTM, Mário Manuel Bandeira.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]”As pessoas mais importantes foram chamadas, e todos os deputados puderam tirar suas dúvidas. Foi tão transparente que nenhum questionou qualquer resposta dada por eles”, disse João Caramez (PSDB), presidente da Comissão de Transportes.

O requerimento que levou Fernandes à Assembleia foi uma concessão da base de Alckmin para enfraquecer o discurso do PT, que usava o argumento de que as comissões não investigavam o caso para tentar criar uma CPI.

Para adiar a análise dos requerimentos, os aliados do governador se valem de uma norma do regimento da Assembleia que permite que cada deputado peça vistas do pedido uma vez, adiando a votação por uma semana.

A oposição usa a mesma tática para adiar votações e evitar que pedidos sejam derrubados nos dias em que há maioria governista presente na reunião da comissão.

Entre as pessoas que deixaram de depor está Pedro Benvenuto, ex-assessor da Secretaria de Transportes Metropolitanos acusado de repassar informações do Metrô e da CPTM a um consultor.

Sua convocação foi transformada em convite a pedido de um deputado do PPS e aprovada, mas ele não compareceu no dia marcado.

Os presidentes do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), Vinicius Carvalho, e da Siemens, Paulo Stark, e o vereador Andrea Matarazzo (PSDB) também ignoraram convites das comissões e não compareceram.

Estão pendentes na pauta da Comissão de Transportes pedidos para ouvir os executivos da Siemens que denunciaram o cartel ao Cade, entre eles Everton Rheinheimer, que disse à Polícia Federal que políticos do PSDB receberam propina do esquema.

A comissão derrubou ainda requerimentos para ouvir João Roberto Zaniboni, ex-diretor da CPTM que recebeu US$ 836 mil numa conta na Suíça, e José Fagali Neto, consultor que recebeu informações de Pedro Benvenuto.

Para os governistas, os pedidos feitos pela oposição são “eleitoreiros” e “não passam de politicagem”. “Se deixar por conta deles, todo dia tem dois ou três servidores pra ser ouvidos”, disse Dilador Borges (PSDB), da Comissão de Infraestrutura. “Não nos podemos dar o luxo de ficar ouvindo as pessoas por ouvir.”

A oposição também tentou evitar constrangimentos. Quando o tucano Caramez pediu que o presidente do Cade fosse chamado para explicar suas ligações com o PT, foi a vez de o deputado petista Gerson Bittencourt pedir o adiamento do requerimento.
Paulo Gama/Folha de São Paulo

Polícia Federal pede que o caso do cartel suba para o STF

Divulgação

A Polícia Federal requereu o envio para Brasília do inquérito que apura as suspeitas de fraude em licitações de trens e do metrô de São Paulo entre 1998 e 2008.

Deve-se o pedido às menções feitas no processo a políticos que dispõem da chamada prerrogativa de foro –entre eles congressistas, que só podem ser investigados no STF, tribunal que tem a atribuição constitucional de julgá-los.

O pedido da PF foi enviado à Procuradoria da República pelo delegado que comanda o inquérito, Milton Fornazari Junior. Após analisar a fundamentação do requerimento, a Procuradoria emitirá parecer e enviará à Justiça, que decidirá se acata ou não pedido da polícia. Hoje, o caso corre na 6ª Vara Criminal Federal de São Paulo.

Na véspera da formalização do pedido do delegado Milton Fornazari, o ministro José Eduardo Cardoso (Justiça) prestara esclarecimentos sobre o caso a uma comissão da Câmara. O deputado Arnaldo Jardim (PPS-SP) indagara: “Estou sendo investigado, ministro?”

E Cardozo: “O fato de a pessoa ser citada num inquérito não significa que estão sendo investigadas. Posso afiançar que até o momento não houve solicitação de investigação ao Supremo Tribunal Federal”. Menos de 24 horas depois, já havia.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Em anotações feitas no processo, o delegado Milton Fornazari sustenta que “há provas” de que políticos ligados ao governo tucano de São Paulo receberam propinas de empresas que se reuniram num consórcio batizado de Sistrem. Integram esse consórcio: Alstom, Siemens, CAF, Mitsui e Bombardier.

Os nomes dos parlamentares foram empurrados para dentro do inquérito da PF pelo próprio ministro da Justiça. Cardozo disse ter repassado à direção nacional do órgão, em junho, papelório que recebera do correligionário Simão Pedro (PT-SP), um deputado estadual licenciado que trabalha como secretário de Serviços da prefeitura petista de São Paulo.

Simão Pedro não diz quem lhe repassou os papéis. Das mãos de Cardozo, foram à PF de Brasília em junho. Como já havia inquérito sobre o tema em São Paulo, o delegado Bráulio Valloni remeteu o material patra o colega Milton Fornazari.

A peça de resistência do dossiê é um documento apócrigo de 17 de abril. Produziu-o um ex-diretor da divisão de Transportes da Siemens, Everton Rheinheimer. No texto, ele fala de “um esquema de corrupção de grandes proporções” e cita os políticos. Em público, ele desconversou. Em privado, firmou com os investigadores um acordo de “delegação premiada”.

O vazamento dos papéis, eletrificou as relações entre PT e PSDB. O tucanato pediu a saída de Cardozo do ministério. E acusou Simão Pedro de forjar a tradução para o português de um documento produzido originalmente em inglês. O petista nega que tenha feito a tradução. Cardozo sustenta que são documentos diferentes. Faz isso mesmo sabendo que 70% do conteúdo é idêntico.

O documento cuja autoria é atribuída ao ex-executivo da Simens Everton Rheinheimer acusa de envolvimento com o cartel metroviário de São Paulo ninguém menos que o chefe da Casa Civil do governo Geraldo Alckmin, o deputado federal Edson Aparecido (PSDB). Ele aparece junto com o deputado Arnaldo Jardim (PPS).

O texto menciona supostas relações monetárias de Aparecido e Jardim com o lobista Arthur Teixeira, apontado como pagador de propinas do cartel. “Seus nomes foram mencionados por Teixeira como sendo destinatários de parte da comissão paga pelas empresas”, anota o documento.

O senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB) e outros dois secretários de Alckmin —o de Transportes Metropolitanos, Jurandir Fernandes (PSDB), e o de Desenvolvimento Econômico, Rodrigo Garcia (DEM)— são citados como personagens que teriam “estreito relacionamento” com o lobista Teixeira.

De resto, o documento cita o secretário de Energia do governo paulista, José Anibal (PSDB): o cartel “tratava diretamente com seu assessor, vice-prefeito de Mairiporã, Silvio Ranciaro”. Todos os citados negaram, obviamente, o recebimento de propinas. Mesmo aqueles que admitiram conhecer o lobista Teixeira.
Blog Josias de Sooza

A praga do jornalismo declaratório

Mídia Entrelinhas Blog do MesquitaOs desdobramentos da matéria publicada pelo jornal Estado de S.Paulo na sexta feira (22/11) sobre o escândalo dos trens em São Paulo ofereceram uma prova a mais do batido recurso do “ele disse, ela disse” que engana o leitor ao divulgar uma declaração como se ela fosse um dado, quando na realidade é apenas a desculpa canhestra de suspeitos de corrupção.

A maioria dos jornais que repercutiu a matéria do Estadão se limitou a publicar negativas e explicações sem aprofundar um milímetro nas investigações sobre as denúncias feitas pelo ex-funcionário da Siemens, Everton Rheinheimer, contra dirigentes de partidos oposicionistas como PSDB, DEM e PPS.

O uso extensivo da técnica declaratória dá uma falsa impressão de imparcialidade ao leitor ou telespectador, que acaba ainda mais confuso depois de ler ou assistir ao noticiário sobre o caso.

Os envolvidos obviamente negam tudo porque a consulta do repórter foi burocrática, do tipo “o que o senhor tem a dizer sobre a denúncia?” O leitor que se vire para entender a notícia.

Mas os excessos no uso do “ele disse, ela disse” têm um aspecto ainda pior, pois tratam, como fato ou dado, declarações às vezes flagrantemente falsas ou distorcidas, sem que o leitor ou telespectador seja alertado pelo texto, áudio ou imagens do repórter ou editor.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Tudo isso configura uma clara omissão de grande parte das redações, que preferem seguir procedimentos burocráticos em vez de meter a cara na investigação cumprindo a missão que todos os leitores, ouvintes, telespectadores e internautas esperam dos jornalistas: dados, fatos e notícias capazes e facilitar a tarefa de entender o que está acontecendo.

A investigação de tantos escândalos e denúncias simultâneas complica extraordinariamente o trabalho dos jornalistas, ainda mais se levarmos em conta que os suspeitos ou acusados usam, rotineiramente, técnicas de omissão ou distorção de fatos. Mas a complexidade das situações não é desculpa, pois quando o noticiário não vai mais a fundo nos problemas quem sai beneficiado é quase sempre quem está sob suspeita.

Muitos profissionais alegam, com razão, que o jornalista não dispõem dos mesmos recursos materiais e legais atribuídos à policia e ao ministério público para fazer investigações ou esclarecer denúncias. Mas o fato de não poder indiciar suspeitos não elimina a responsabilidade dos jornalistas em ajudar os leitores, ouvintes, telespectadores e internautas a compreender o que acontece à sua volta.

O compromisso dos jornalistas é com o público, e não com as autoridades ou com quem estiver envolvido nas denúncias. Se as versões dos implicados, da polícia, juízes ou advogados são incompletas, incoerentes, contraditórias ou distorcidas, a função do jornalista é dar conhecimento ao público dessas questões.

Os problemas com coberturas de escândalos, cada vez mais frequentes, impõem aos jornalistas uma obrigação adicional de estar sempre bem informado para poder fazer avaliações das declarações. A maioria dos entrevistados sempre sabe mais do que o jornalista.

É uma situação normal porque é justamente por esse maior conhecimento que está sendo consultado. Isto cria um desequilíbrio informativo em que o entrevistado sempre tem maior capacidade para manipular ou criar contextos verossímeis para fatos, eventos e dados.

Para neutralizar esse desequilíbrio, o profissional depende de seu conhecimento e experiência. É um risco enorme usar intensivamente repórteres muito jovens ou inexperientes para entrevistar “raposas” da política, porque normalmente o resultado será o recurso ao “ele disse, ela disse” como padrão para a reportagem. É a forma de o repórter inexperiente salvar a sua pele, mas a responsabilidade é de quem o destacou para o trabalho.

O jornalismo declaratório começa a se tornar endêmico nos jornais, revistas, telejornais e páginas Web causando uma grande irritação entre leitores, ouvintes, telespectadores e internautas que, ao não conseguirem entender o que realmente está acontecendo, acabam diante de um dilema: ignorar tudo ou passar a não acreditar na imprensa.
Carlos Castilho/Observatório da Imprensa

Tremsalão do PSDB: Secretário de Alckmin e senador Aloysio Nunes Ferreira citados por ex-diretor da Siemens

Ex-diretor da Siemens aponta caixa 2 de PSDB e DEM e cita propina a deputadosGeraldo Alckmin Humor Coriza Aroeira Metrô Blog do Mesquita

Segundo executivo que participou de acordo de leniência com o Cade, lobista de esquema de setor metroferroviário disse a ele que Edson Aparecido, hoje homem forte do governo Alckmin, e Arnaldo Jardim eram beneficiários de comissões; eles negam

Em relatório entregue no dia 17 de abril ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), o ex-diretor da Siemens Everton Rheinheimer afirma dispor de “documentos que provam a existência de um forte esquema de corrupção no Estado de São Paulo durante os governos (Mário) Covas, (Geraldo) Alckmin e (José) Serra, e que tinha como objetivo principal o abastecimento do caixa 2 do PSDB e do DEM“.

Veja também:
link Denunciante foi orientado por petista e até pediu emprego
link Tucano afirma conhecer lobista, mas nega ilegalidade
link Ex-diretores da CPTM e lobista são indiciados

O ex-diretor da empresa alemã diz também que o hoje secretário da Casa Civil do governo Geraldo Alckmin (PSDB), deputado licenciado Edson Aparecido (PSDB), foi apontado pelo lobista Arthur Teixeira como recebedor de propina das multinacionais suspeitas de participar do cartel dos trens em São Paulo entre os anos de 1998 e 2008.

O ex-executivo, que é um dos seis lenientes que assinaram no mês seguinte um acordo com o Cade em que a empresa alemã revela as ações do cartel de trens, também cita o deputado Arnaldo Jardim (PPS-SP), aliado dos tucanos, como outro beneficiário.

Trata-se do primeiro documento oficial que vem a público que faz referência a supostas propinas pagas a políticos ligados a governos tucanos. Até agora, o Ministério Público e a Polícia Federal apontavam suspeitas de corrupção que envolviam apenas ex-diretores de estatais como a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM).

As acusações do ex-diretor foram enviadas pelo Cade à Polícia Federal e anexadas ao inquérito que investiga o cartel em São Paulo e no Distrito Federal.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

No texto, Rheinheimer escreve que o cartel “é um esquema de corrupção de grandes proporções, porque envolve as maiores empresas multinacionais do ramo ferroviário como Alstom, Bombardier, Siemens e Caterpillar e os governos do Estado de São Paulo e do Distrito Federal”.

Proximidade. Outros quatro políticos são citados pelo ex-diretor da Siemens como “envolvidos com a Procint”. A Procint Projetos e Consultoria Internacional, do lobista Arthur Teixeira, segundo o Ministério Público e a Polícia Federal, é suspeita de intermediar propina a agentes públicos.

O documento faz menção ao senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), e aos secretários estaduais José Aníbal (Energia), Jurandir Fernandes (Transportes Metropolitanos) e Rodrigo Garcia (Desenvolvimento Econômico).

Rheinheimer foi diretor da divisão de Transportes da Siemens, onde trabalhou por 22 anos, até março de 2007.

Ele e outro leniente prestaram depoimento à Polícia Federal em regime de colaboração premiada – em troca de eventual redução de pena ou até mesmo perdão judicial, decidiram contar o que sabem do cartel. Esses depoimentos estão sob sigilo.

Menções.

Sobre Aparecido e Jardim, Rheinheimer sustenta em seu texto que “seus nomes foram mencionados pelo diretor-presidente da Procint, Arthur Teixeira, como sendo os destinatários de parte da comissão paga pelas empresas de sistemas (Alstom, Bombardier, Siemens, CAF, MGE, T’Trans, Temoinsa e Tejofran) à Procint”.

De Aloysio, Jurandir e Garcia, diz ter tido “a oportunidade de presenciar o estreito relacionamento do diretor-presidente da Procint, Arthur Teixeira, com estes políticos”.

Sobre Aníbal, anotou: “Tratava diretamente com seu assessor, vice-prefeito de Mairiporã, Silvio Ranciaro”.

Ele ainda apontou o vice-governador do Distrito Federal, Tadeu Filippelli (PMDB), e o ex-governador do DF José Roberto Arruda como “políticos envolvidos com a MGE Transportes (Caterpillar)”. A MGE é apontada pelo Ministério Público e pela Polícia Federal como a outra rota da propina, via subcontratações – a empresa era fornecedora da Siemens e de outras companhias do cartel.

Rheinheimer diz ser o autor da carta anônima que deflagrou a investigação do cartel dos trens, enviada em 2008 ao ombudsman da Siemens. Ele relata ter feito as denúncias para se “defender de rumores sobre seu envolvimento neste escândalo”. O executivo assevera que, apesar de suas denúncias, a Siemens optou por “abafar o caso”.

Ameaça.

No texto, ele se diz disposto a contar o que sabe, mas sugere receber em contrapartida sua nomeação para um alto cargo na mineradora Vale. (mais informações ao lado)

Rheinheimer afirma que queria induzir a Siemens a fazer uma autodenúncia ao Cade para facilitar a obtenção de autorização judicial para execução dos mandados de busca e apreensão nas outras empresas.

Segundo ele, isso resolveria “o maior problema do Ministério Público de São Paulo, que é o acesso às provas para poder levar adiante suas investigações sobre corrupção ativa”. “Além de envolver muitos projetos e dezenas de pessoas, o esquema de corrupção se estende por um longo período”, escreveu.
Fernando Gallo, Ricardo Chapola e Fausto Macedo/O Estado de S.Paulo