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Racismo nos USA; Os basileiros passamos longe do que seja protestar contra o racismo

Morte de Morte de George Floyd: confrontos com protestos espalhados pelos EUA: confrontos com protestos espalhados pelos EUA

Manifestantes entraram em conflito com a polícia em cidades dos EUA devido ao assassinato de um afro-americano desarmado pelas mãos de policiais em Minneapolis.

O governador de Minnesota disse que a tragédia da morte de George Floyd sob custódia policial se transformou em “algo muito diferente – destruição arbitrária”.

Nova York, Atlanta, Portland e outras cidades sofreram violência, enquanto a Casa Branca foi brevemente fechada.

Um ex-policial de Minneapolis foi acusado de assassinato pela morte.

Derek Chauvin, que é branco, foi mostrado em filmagens ajoelhadas no pescoço de 46 anos, na segunda-feira. Ele e três outros oficiais foram demitidos desde então.

Chauvin, 44, deve comparecer ao tribunal em Minneapolis pela primeira vez segunda-feira.

O presidente Donald Trump descreveu o incidente como “uma coisa terrível, terrível” e disse que havia conversado com a família de Floyd, a quem ele descreveu como “pessoas maravilhosas”.

O caso Floyd reacendeu a ira dos EUA por assassinatos cometidos por negros americanos pela polícia e reabriu feridas profundas devido à desigualdade racial em todo o país. Ele segue as mortes de Michael Brown, Eric Garner e outros, que ocorreram desde que o movimento Black Lives Matter foi desencadeado pela absolvição do vigia do bairro George Zimmerman na morte de Trayvon Martin em 2012.

O que há de mais recente sobre os protestos?

Minnesota continua sendo a região mais volátil, com toques de recolher encomendados para as cidades gêmeas de Minneapolis-Saint Paul das 20:00 às 06:00 na sexta e sábado à noite.

Os manifestantes desafiaram o toque de recolher na sexta-feira. Incêndios, muitos causados ​​por carros em chamas, eram visíveis em várias áreas, com bombeiros incapazes de alcançar alguns locais.

Imagens de televisão também mostraram saques em Minneapolis, com policiais no chão.

Promotor detalha acusações de assassinato e homicídio culposo.

Somente por volta da meia-noite (05:00 GMT) a polícia e as tropas da Guarda Nacional chegaram em qualquer número, informou o Star Tribune.

O governador do estado, Tim Walz, em uma coletiva de imprensa pela manhã, descreveu a situação como “caótica, perigosa e sem precedentes”.

Ele disse que assumiu a responsabilidade de “subestimar a destruição arbitrária e o tamanho da multidão” quando questionado sobre a falta de policiais nas ruas.

Ele disse que o destacamento da Guarda foi o maior da história do estado, mas admitiu que “há simplesmente mais deles do que nós”. Ele disse que os que estão nas ruas “não se importam” com a ordem de ficar em casa.

O Pentágono colocou os militares em alerta para possível deslocamento em Minneapolis.

Na noite de sexta-feira, multidões se reuniram perto da Casa Branca em Washington, acenando fotografias do Sr. Floyd e cantando “Não consigo respirar” – invocando suas últimas palavras e as de Eric Garner, um negro que morreu após ser mantido em um estrangulamento da polícia em Nova York em 2014.

A Casa Branca foi então temporariamente cercada, com o Serviço Secreto dos EUA fechando entradas e saídas.

Em Atlanta, foi declarado estado de emergência em algumas áreas para proteger pessoas e propriedades. Os prédios foram vandalizados e um veículo da polícia foi incendiado quando manifestantes se reuniram perto dos escritórios da emissora CNN.

O prefeito Keisha Lance Bottoms emitiu um apelo apaixonado, dizendo: “Isso não é um protesto. Isso não está no espírito de Martin Luther King Jr. Você está desonrando nossa cidade. Você está desonrando a vida de George Floyd”.Um carro da polícia queima enquanto manifestantes se reúnem perto dos escritórios da CNN em Atlanta, Geórgia – Reuters.

No distrito de Brooklyn, em Nova York, os manifestantes entraram em conflito com a polícia, jogando projéteis, iniciando incêndios e destruindo veículos policiais. Vários policiais ficaram feridos e muitas prisões foram feitas.

O prefeito Bill de Blasio twittou: “Nós nunca queremos ver outra noite como esta”.

O prefeito de Portland, Oregon, declarou estado de emergência em meio a saques, incêndios e um ataque a uma delegacia de polícia. Um toque de recolher imediato até às 06:00 hora local (13:00 GMT) foi imposto e será reiniciado às 20:00.Manifestantes usam leite para tratar a picada de gás lacrimogêneo na cidade de Nova York – Direito de imagem LAURA FUCHS

Em Detroit, a polícia está investigando depois que um homem de 19 anos foi morto quando um veículo estacionado contra manifestantes e tiros foram disparados contra a multidão.

Em Dallas, os policiais lançaram cartuchos de gás lacrimogêneo depois que foram atingidos por pedras, com gás lacrimogêneo também disparado em Phoenix, Indianápolis e Denver.

Os manifestantes bloquearam estradas em Los Angeles e também em Oakland, onde janelas foram quebradas e pichações “Kill Cops” foram pulverizadas.

Quais são os movimentos legais até agora?

Chauvin foi acusado de assassinato em terceiro grau e homicídio em segundo grau por seu papel na morte de Floyd.

A família de Floyd e seu advogado, Benjamin Crump, disseram que isso era “bem-vindo, mas atrasado”.

A família disse que queria uma acusação de assassinato mais grave e em primeiro grau, bem como a prisão dos outros três policiais envolvidos.Derek Chauvin deve comparecer ao tribunal em Minneapolis na segunda-feira. Reuters

O procurador do condado de Hennepin, Mike Freeman, disse que “antecipa acusações” para os outros policiais, mas não oferece mais detalhes.

Freeman disse que seu escritório “acusou o caso tão rapidamente quanto as evidências nos foram apresentadas”.

“Este é de longe o mais rápido que já acusamos um policial”, observou ele.

Segundo a denúncia criminal, Chauvin agiu com “uma mente depravada, sem considerar a vida humana”.

Enquanto isso, a esposa de Chauvin pediu o divórcio, dizem seus advogados.

Como George Floyd morreu?
O relatório completo do médico legista do condado não foi divulgado, mas a denúncia afirma que o exame post mortem não encontrou evidências de “asfixia traumática ou estrangulamento”.

O médico legista observou que Floyd tinha problemas cardíacos subjacentes e a combinação destes, “potenciais intoxicantes em seu sistema” e ser contido pelos policiais “provavelmente contribuiu para sua morte”.

Manifestações e protestos continuados desde a morte de Floyd sob custódia policial na segunda-feira – Direitos autorais da imagem Getty

O relatório diz que Chauvin estava com joelhos no pescoço de Floyd por oito minutos e 46 segundos – quase três minutos depois que Floyd ficou sem resposta.

Quase dois minutos antes de remover o joelho, os outros policiais verificaram o pulso direito do Sr. Floyd e não conseguiram encontrar-lo. Ele foi levado para o Centro Médico do Condado de Hennepin em uma ambulância e declarado morto cerca de uma hora depois.

O manual da polícia de Minnesota declara que os oficiais treinados sobre como compreender o pescoço de um detido sem aplicar pressão direta nas vias aéreas podem usar um joelho sob sua política de uso da força. Isso é considerado uma opção de força não mortal.

O que o presidente disse?Cínico

Na Casa Branca, na sexta-feira, Trump disse que pediu ao departamento de justiça para acelerar uma investigação anunciada na sexta-feira sobre se alguma lei de direitos civis foi violada pela morte de Floyd.

O presidente também disse que “os saqueadores não devem abafar a voz de tantos manifestantes pacíficos”.Os protestos continuaram do lado de fora da Casa Branca durante a noite. Antes, ele descreveu os manifestantes como “bandidos” que desonravam a memória de Floyd.
Direitos autorais da imagem – AFP

A rede de mídia social Twitter acusou Trump de glorificar a violência em um post que dizia: “Quando o saque começa, o tiroteio começa”.

O que aconteceu na prisão?

Os policiais suspeitavam que Floyd havia usado uma nota falsificada de US $ 20 e estava tentando colocá-lo em um veículo da polícia quando ele caiu no chão, dizendo que era claustrofóbico.

Segundo a polícia, ele resistiu fisicamente aos policiais e foi algemado.

Coronavírus: como a covid-19 acirrou guerra política entre EUA e China

O novo coronavírus virou o último campo de batalha entre os Estados Unidos e a China.

A crise de saúde mundial por causa da covid-19, doença causada pelo vírus, colocou em evidência a tensa rivalidade entre as duas superpotências mundiais e deixou definitivamente para trás a aparente lua de mel depois de sua reaproximação comercial.

Desta vez, o conflito se deu em meio à circulação de teorias de conspiração sem provas e declarações polêmicas, como a recente do presidente americano, Donald Trump, classificando o corona como “vírus chinês”. Um morde e assopra que, segundo advertem os especialistas, é perigoso para todos.

‘Transparente’

Na semana passada, um post em redes sociais chinesas e estrangeiras chamou a atenção.

“Pode ter sido o Exército dos EUA que levou a epidemia a Wuhan“, disse Zhao Lijian, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, em 12 de março.

Ele estava se referindo ao novo coronavírus detectado na cidade chinesa de Wuhan em dezembro passado que se espalhou pelo mundo, causando uma pandemia de consequências ainda desconhecidas.

Os primeiros casos de covid-19 foram registrados na China – Imagem Getty

Ao comentário, o representante do Ministério das Relações Exteriores da China anexou um vídeo do diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), Robert R. Redfield, reconhecendo no Congresso que algumas das mortes por influenza no país podem ter sido causados ​​pelo novo coronavírus, sem especificar datas.

“Quando o paciente zero foi registrado nos Estados Unidos? Quantas pessoas estão infectadas? Quais são os nomes dos hospitais? Pode ter sido o Exército dos EUA que trouxe a epidemia para Wuhan. Seja transparente! Torne a data pública! Os Estados Unidos nos devem uma explicação”, escreveu Zhao no Twitter.

O comentário, conforme noticiado por veículos de imprensa como o jornal de Hong Kong The South China Morning Post (SCMP), parece se referir aos Jogos Militares Mundiais, realizados em Wuhan em outubro, com a participação de mais de 100 países pouco antes da cidade se tornar ponto zero da pandemia.

O vírus é assim, segundo essa ilustração criada pelo Centro para o Controle e a Prevenção de Doenças dos EUA – Getty Images

O Pentágono confirmou casos de coronavírus entre os militares na Coreia do Sul e Itália, e está se preparando para mais casos, mas nenhuma doença foi relatada entre os membros que compareceram ao evento mencionado, de acordo com o jornal The New York Times.

Os comentários do porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da China levaram ao Departamento de Estado dos EUA a chamar o embaixador chinês em Washington para consultas (medida que sinaliza uma reprimenda diplomática).

Apesar das queixas, o ministério apoiou as declarações de Zhao.

“Nos últimos dias, vimos inúmeras discussões sobre a origem do [vírus causador da doença] covid-19. Fazemos forte oposição a comentários infundados e irresponsáveis ​​de autoridades americanas e membros do Congresso sobre esse assunto para difamar e atacar para a China”, disse outro porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Geng Shuang, em entrevista a jornalistas.

Geng criticou a postura americana – Getty Images

Embora a China não tenha questionado inicialmente a origem do surto no país, referências posteriores de sua comunidade científica mostraram outra visão.

Em janeiro, Gao Fu, diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças da China, disse que sabia que “a fonte do vírus eram os animais selvagens vendidos no mercado de animais vivos” em Wuhan.

No entanto, no final de fevereiro, o cientista Zhong Nanshan disse a jornalistas que “a epidemia apareceu pela primeira vez na China, mas não necessariamente se originou” no país, segundo a agência de notícias francesa AFP.

As insinuações geraram reações e críticas nos Estados Unidos.

“É simplesmente vergonhoso que o governo chinês não esteja disposto a assumir a responsabilidade pelo coronavírus”, diz Elizabeth Economy, diretora de estudos asiáticos do Centro dos EUA para o Conselho de Relações Internacionais.

“As pessoas não culpam o governo chinês pelo fato de o coronavírus ter aparecido na China, eles culpam o governo por encobrir a epidemia e agora estar tentando disfarçar a responsabilidade pela forma como lidou com ela desde o início”, diz ela à BBC.

Em fevereiro, os líderes chineses enfrentaram uma onda de críticas sem precedentes por causa da maneira como lidaram com a crise, especialmente quando o caso do médico Li Wenliang, 33 anos, veio a público.

O médico Li publicou uma foto sua em sua cama hospital nas redes sociais no dia 31 de janeiro. No dia seguinte, foi diagnosticado com a covid-19

Li, um dos profissionais da linha de frente da epidemia, tentou alertar seus colegas sobre a existência desse novo vírus, mas foi silenciado pela polícia, que o acusou de espalhar informações falsas.

O jovem médico acabou morrendo em decorrência da doença, o que despertou uma onda gigantesca de indignação nas redes sociais chinesas.

Outra ‘teoria’

Outros especialistas consultados pela BBC também consideram que os comentários do porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China culpando os militares americanas são uma resposta clara a outras teorias da conspiração promovidas nos Estados Unidos.

É o caso do senador americano do Partido Republicano Tom Cotton, que em fevereiro insistiu em vários canais que o vírus poderia ter se originado em um laboratório de biossegurança em Wuhan, hipótese amplamente contestada por cientistas.

É consenso na comunidade científica que o vírus atravessou a barreira das espécies, de animal para humano, em um dos mercados de Wuhan.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) observou que, embora o caminho exato que o vírus tomou para entrar nos seres humanos ainda não esteja claro, o SARS-CoV-2 “não era conhecido antes do surto que começou em Wuhan, na China, em dezembro de 2019”.

‘O vírus chinês’

Além das teorias da conspiração, várias declarações controversas foram dadas recentemente.

A última veio do próprio presidente Donald Trump, que em um tuíte referiu-se ao patógeno como o “vírus chinês”.

No entanto, o SARS-CoV-2 foi citado por vários membros do governo dos EUA como o coronavírus “chinês” ou o “vírus de Wuhan”, conforme declarações do secretário de Estado, Mike Pompeo.

No caso de Trump, o governo chinês foi rápido em reagir aos seus comentários mais recentes, pedindo que ele recuasse e reprimisse suas “acusações infundadas contra a China”

Trump se referiu ao novo coronavírus como “vírus chinês”, pouco depois dos comentários de autoridades do país asiático – Getty Images

A imprensa oficial do país asiático, que atualmente destaca o sucesso da China na luta contra a covid-19 e a ajuda que Pequim oferece e está oferecendo a outras nações afetadas, foi além e classificou as declarações do presidente como “racistas e xenófobas”.

Para os observadores de políticas chinesas, “este jogo geopolítico de atribuição de culpas é uma corrida ao abismo”, segundo Bonnie Glaser, diretora do projeto Poder Chinês do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais .

“Ambos os países estão jogando para seu benefício, em vez de unir forças para derrotar um inimigo comum que não reconhece fronteiras políticas ou geográficas”, disse Yonden Lhatoo, editor-chefe do SCMP, jornal de Hong Kong.

Para Glaser, além disso, é uma disputa perigosa, pois torna ainda mais difícil para os dois países gerenciarem adequadamente os problemas de seus relacionamentos, como as diferenças comerciais, que terão consequências inevitáveis ​​para o resto do mundo.

“[Uma intensa competição estratégica entre os dois] aumentará a pressão sobre outros países para escolher entre os Estados Unidos e a China. A atitude atual tornará um incidente militar mais difícil de manejar”, disse ele.

Longe de se acalmar, o governo chinês lançou outra “bomba” na terça-feira (17/3): a expulsão da China de jornalistas americanos de três principais jornais do país (The New York Times, The Washington Post e The Wall Street Journal), tanto no continente quanto em áreas com maiores liberdades, como Hong Kong, onde organizações que não podem atuar no continente chinês (como ONGs em defesa dos direitos humanos) geralmente têm sua base.

Os jornalistas americanos dos três veículos afetados não poderão trabalhar nem no continente nem em Hong Kong ou em Macau, regiões com mais liberdades – Getty Images

A medida — incomum em termos de escala — responde, segundo Pequim, às limitações impostas por Washington ao número de cidadãos chineses que podem trabalhar para a mídia estatal chinesa nos Estados Unidos.

Uma decisão que a Casa Branca anunciou depois que  expulsou três repórteres do Wall Street Journal.

Outro morde e assopra que já afeta todas as áreas.Crise diplomática entre Brasil e China – Getty Images

O alinhamento ideológico do governo de Jair Bolsonaro com o governo de Donald Trump acabou por arrastar o Brasil para o conflito diplomático.

Um tuíte em que o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), um dos filhos do presidente brasileiro, criticou a China por sua postura diante da eclosão do novo coronavírus renovou as tensões entre o governo Bolsonaro e os chineses.

A atitude de Eduardo também reverberou na política brasileira: de um lado, políticos aliados do presidente e ativistas de direita saíram em defesa do deputado, e alguns copiaram Trump ao empregar a expressão “vírus chinês” para se referir ao novo coronavírus.

Do outro, vários partidos e políticos críticos do governo lamentaram a atitude de Eduardo e exaltaram a importância da China para o Brasil.

Eduardo BolsonaroDireito de imagemERIK S. LESSER/EPA
Polêmica começou quando filho do presidente comparou a postura da China à atitude da antiga União Soviética após o acidente na usina de Chernobyl

O embate se iniciou na quarta-feira (18/03), quando o deputado comparou a postura da China diante do novo coronavírus com a atitude da antiga União Soviética após o acidente na usina de Chernobyl.

“Mais uma vez uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas que salvaria inúmeras vidas. A culpa é da China e liberdade seria a solução”, escreveu Eduardo no Twitter ao compartilhar uma sequências de mensagens publicadas pelo editor de um portal conservador que culpava o Partido Comunista Chinês pela pandemia.

A mensagem do deputado foi rebatida pelo embaixador da China no Brasil, Yang Wanming.

“As suas palavras são um insulto maléfico contra a China e o povo chinês. Tal atitude flagrante anti-China não condiz com o seu estatuto como deputado federal, nem a sua qualidade como uma figura pública especial”, escreveu Yang.

O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB-RJ) também se pronunciou sobre a polêmica.

“O Eduardo Bolsonaro é um deputado. Se o sobrenome dele fosse Eduardo Bananinha, não era problema nenhum. Só por causa do sobrenome. Ele não representa o governo”, disse Mourão, em entrevista à Folha de São Paulo.

De todo modo, ao criticar a China pelo novo coronavírus, Eduardo Bolsonaro agitou as redes pró-governo num momento em que o presidente é alvo de protestos e panelaços contra sua postura diante da pandemia.

Ambiente,Saúde,Medicina,Brasil,Blog do Mesquita 01

Proibição de viagens na Europa por Trump é confundida com raiva

Grã-Bretanha e Irlanda não foram incluídas na proibição.

Lideres da União Européia condenaram a proibição. A Itália está trancada e o NBA suspendeu sua temporada.

A Europa luta para entender a proibição de viagens nos EUA, à medida que mais países adicionam restrições.

Nos dois lados do Atlântico, na quinta-feira, as consequências da decisão do presidente Trump de proibir a maioria das viagens da Europa começaram a ser sentidas econômica, política e socialmente.

A Comissão Européia, órgão governante da União Européia, emitiu uma declaração contundente condenando a ação.

“O coronavírus é uma crise global, não se limita a qualquer continente e requer cooperação e não ação unilateral”, afirmou. “A União Europeia desaprova o fato de que a decisão dos EUA de impor uma proibição de viagem foi tomada unilateralmente e sem consulta.”

As restrições se aplicam apenas aos 26 países da zona de viagens livres de Shengen do bloco e não parecem estar vinculadas à gravidade dos surtos em países individuais. .

Dezenas de milhares de americanos na Europa se esforçaram para descobrir o que precisavam fazer antes que a proibição de viagem de 30 dias entre em vigor na sexta-feira, muitos pouco claros sobre o escopo da proibição e temiam que seus vôos para casa fossem cancelados. E companhias aéreas, hotéis e dezenas de outras indústrias – muitas das quais já sofreram com as restrições impostas para retardar a propagação do vírus – preparadas para quedas ainda mais acentuadas.

Em todo o continente, as notícias foram recebidas com confusão, raiva e ceticismo, mesmo quando muitas nações européias passaram a restringir suas próprias restrições ao movimento de pessoas dentro e fora de suas fronteiras.

Um terminal quase vazio no Aeroporto Internacional de Los Angeles na quarta-feira (…) Lucy Nicholson / Reuters

A Itália, que já estava confinada, fechou as portas ainda mais e na quinta-feira de manhã, já que praticamente os únicos locais públicos ainda abertos a seus 60 milhões de cidadãos eram supermercados e instalações médicas.

Na União Européia – onde a livre circulação de pessoas entre os estados membros é considerada uma das principais conquistas da ordem pós-Segunda Guerra Mundial – a República Tcheca se juntou na quinta-feira a outras nações ao anunciar novos postos de controle fronteiriços.

Fora da Europa, a luta contra o vírus também ganhou intensidade, com a Índia se juntando à crescente lista de países que impõe limites drásticos de viagem.

Se o vírus parecia uma ameaça distante para muitos americanos, as notícias de que o ator Tom Hanks e sua esposa haviam testado positivo pareciam abalar essa noção. E a batida constante de más notícias de Wall Street apenas aumentou a ansiedade.

Um após o outro, os países anunciaram na quarta-feira planos para gastar dezenas de bilhões para combater o vírus e as conseqüências econômicas que está causando. Mas as medidas pouco ajudaram a aliviar as preocupações dos investidores, com os mercados asiático e europeu sendo negociados acentuadamente mais baixos na quinta-feira.

O Congresso deve votar um pacote abrangente de ajuda para pessoas afetadas financeiramente pelo coronavírus.

Atrasos nos testes nos Estados Unidos tornaram difícil obter uma noção completa da escala do surto ali. Porém, os estados estão cada vez mais tomando conta das suas próprias mãos, declarando estados de emergência, cancelando as aulas de escolas e universidades, limitando o tamanho das reuniões e ordenando o isolamento de milhares de pessoas com potencial exposição ao vírus.

Embora a Organização Mundial da Saúde tenha declarado a propagação global do vírus uma pandemia, seus líderes instaram os países a não desistir da contenção. Eles alertaram que a disseminação descontrolada do vírus poderia sobrecarregar os sistemas de saúde, mesmo nas sociedades mais ricas, apresentando escolhas desconfortáveis ​​sobre quem tratar primeiro.

Esses perigos estavam sendo levados para casa pela crise em curso na Itália, que registrou mais de 12.000 casos e 827 mortes.

Giorgio Gori, prefeito de Bergamo, uma cidade da Lombardia, escreveu no Twitter que as unidades de terapia intensiva ficaram tão sobrecarregadas que “os pacientes que não podem ser tratados são deixados para morrer”. Ele acrescentou em uma entrevista que os médicos estavam sendo forçados a amortizar aqueles com “menores chances de sobrevivência”.

O presidente Trump diz que é necessário restringir as viagens da Europa.
O presidente, sentado atrás da mesa resoluta com os braços cruzados, finalmente pareceu reconhecer a gravidade do vírus, chamando-o de “infecção horrível” e dizendo que os americanos deveriam reduzir as viagens desnecessárias.

O presidente Trump disse na noite de quarta-feira que estava suspendendo a maioria das viagens da Europa para os Estados Unidos por 30 dias, começando na sexta-feira, para conter a propagação do coronavírus. As restrições não se aplicam à Grã-Bretanha, disse ele.

Trump impôs uma proibição de 30 dias a estrangeiros que, nas duas semanas anteriores, estiveram nos 26 países que compõem o espaço Schengen da União Europeia. Os limites, que entrarão em vigor na sexta-feira à meia-noite, isentarão cidadãos americanos e residentes legais permanentes e suas famílias, embora possam ser canalizados para determinados aeroportos para uma triagem aprimorada.

Mais tarde na quarta-feira, o Departamento de Estado emitiu um comunicado dizendo aos americanos para “reconsiderarem as viagens” para todos os países por causa dos efeitos globais do coronavírus. É o segundo conselho mais forte do departamento, por trás de “não viaje”.

Falando do Oval Office, Trump também disse que as empresas de seguros de saúde concordaram em estender a cobertura para cobrir os tratamentos contra o coronavírus e renunciar a pagamentos relacionados.

O presidente disse que em breve anunciará uma ação de emergência para fornecer ajuda financeira aos trabalhadores que adoecem ou precisam ficar em quarentena. Ele disse que pedirá ao Congresso que tome medidas legislativas para estender esse alívio, mas não detalhou o que seria. Ele disse que instruiria o Departamento do Tesouro a “adiar pagamentos de impostos sem juros ou multas para certos indivíduos e empresas impactadas negativamente”.

Isso sinalizou uma quebra da atitude de negócios como de costume que ele tentava projetar na terça-feira, quando instou os americanos a “manter a calma” e disse que o vírus logo desapareceria. Mas Trump continuou a antecipar um fim rápido do surto, mesmo quando especialistas médicos alertaram que a pandemia pioraria.

“Isso não é uma crise financeira”, disse ele. “Este é apenas um momento temporário que venceremos como nação e mundo.”

Esta é uma pandemia global, diz a OMS

Líderes da Organização Mundial da Saúde (OMS) declararam pandemia de surto de coronavírus na quarta-feira. … Fabrice Coffrini / Agence France-Presse – Getty Images

A disseminação do coronavírus em mais de 100 países agora se qualifica como uma pandemia global, disseram autoridades da Organização Mundial da Saúde na quarta-feira, confirmando o que muitos epidemiologistas vêm dizendo há semanas.

Até agora, o OMS evitaram usar o termo, por medo de que as pessoas pensassem que o surto era imparável e os países desistissem de tentar contê-lo.

“Pandemia não é uma palavra para ser usada de maneira leve ou descuidada”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, chefe da OMS, em entrevista coletiva em Genebra.

“Não podemos dizer isso em voz alta ou clara o suficiente ou com frequência suficiente”, acrescentou. “Todos os países ainda podem mudar o curso dessa pandemia.”

Há evidências em seis continentes de transmissão sustentada do vírus, que já infectou mais de 120.000 pessoas e matou mais de 4.300. A designação da pandemia é amplamente simbólica, mas as autoridades de saúde pública sabem que o público ouvirá na palavra elementos de perigo e risco.

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USA: parlamentares criticam aproximação com governo Bolsonaro

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Pompeo representou a Casa Branca na cerimônia de posse de Bolsonaro – Marcos Corrêa/PR
Em carta a secretário de Estado, parlamentares dos EUA criticam aproximação do governo com Bolsonaro

“Sugerimos fortemente que você [Pompeo] não lustre o comportamento de Bolsonaro, mas sim levante objeções em público e de forma privada contra suas ações recentes”, dizem os democratas, cobrando que o secretário “fique ao lado do povo do Brasil”

Um grupo de congressistas democratas do Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes dos EUA enviou uma carta ao secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, questionando a aproximação do governo com o presidente Jair Bolsonaro.

Em documento publicado nesta quarta-feira (09/01), o grupo liderado pelo deputado Eliot Engel afirmou que Pompeo deveria ter condenado publicamente as “recentes ações que tiveram como alvo as comunidades LGBT, indígena e afro-brasileira“.

“Observamos com grande interesse sua recente visita ao Brasil para a posse do presidente Jair Bolsonaro, que, em seus primeiros dias no cargo, adotou diversas ações que miram grupos marginalizados, particularmente LGBTs, indígenas e afro-brasileiros”, diz a carta.

Se dirigindo ao secretário de Estado, o grupo de parlamentares norte-americanos afirma que ficou perplexo “que, após o seu encontro com o presidente Bolsonaro, um comunicado do Departamento de Estado explicou que o senhor ‘reafirmava a forte parceria entre EUA e Brasil, enraizada no nosso compromisso comum com a democracia, educação, prosperidade, segurança e direitos humanos’. Não está claro que o presidente Bolsonaro compartilhe desses valores”.

O texto ainda faz menção à decisão do governo de retirar a comunidade LGBT das diretrizes do Ministério dos Direitos Humanos e de confiar a demarcação de terras indígenas e quilombolas ao Ministério da Agricultura.

“Ficou imediatamente claro que declarações preocupantes do presidente Bolsonaro sobre direitos humanos não estão mais restritas à retórica”, acrescenta a carta. “É essencial que os Estados Unidos continuem a defender a natureza universal dos direitos humanos, manifestando-se quando os direitos de qualquer grupo marginalizado sejam postos em risco”.

“Sugerimos fortemente que você [Pompeo] não lustre o comportamento de Bolsonaro, mas sim levante objeções em público e de forma privada contra suas ações recentes”, dizem os democratas, cobrando que o secretário “fique ao lado do povo do Brasil” e mantenha seu “compromisso com os direitos humanos”

Todos os membros do grupo são do Partido Democrata, que faz oposição ao presidente Donald Trump. Pompeo representou a Casa Branca na cerimônia de posse de Bolsonaro, em 1º de janeiro, e disse que os EUA querem “estreitar relações com o Brasil”.
OperaMundi

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O legado sinistro de George H. W. Bush: crimes de guerra, racismo e obstrução da Justiça

USA,Bush

O presidente George H.W. Bush discursa em rede nacional no Salão Oval, no dia 16 de janeiro de 1991, depois da deflagração da Operação Tempestade no Deserto contra o Iraque.
Foto: Charles Tasnadi/AP

AS HOMENAGENS AO ex-presidente americano George H. W. Bush, que faleceu na última sexta-feira aos 94 anos, têm vindo de todos os lados do espectro político. Ele era um homem “de elevadíssimo caráter”, disse seu filho mais velho e também ex-presidente, George W. Bush. “Ele amava a sua pátria, tendo servido com caráter, elegância e integridade”, tuitou Preet Bharara, ex-promotor público e símbolo do #Resistance, um movimento de oposição a Donald Trump. Segundo outro ex-presidente, Barack Obama, a vida de Bush foi “uma prova de que o serviço público é uma vocação nobre e gratificante. E ele fez um bem tremendo ao longo do caminho”. Tim Cook, presidente-executivo da Apple, sentenciou: “Perdemos um grande americano.”

Em plena era Trump, não é difícil para seus biógrafos pintar Bush pai como um grande patriota e pragmático – um presidente que teria governado com “elegância” e “integridade”. É verdade que o ex-presidente se recusou a votar em Trump em 2016, chamando-o de “fanfarrão”, e manteve distância da chamada alt-right (nova direita branca e nacionalista dos EUA) e da política de complôs que se tornou a marca do Partido Republicano atual. Bush ajudou a pôr fim à Guerra Fria “sem disparar um tiro”, nas palavras de Obama. Ele passou a vida servindo seu país – no exército, no Congresso, na ONU, na CIA e na Casa Branca – e, segundo consta, também foi um avô e bisavô amado por 17 netos e 8 bisnetos.

Entretanto, Bush era uma figura pública – um entre apenas 44 homens que já foram presidentes dos Estados Unidos. Não podemos, portanto, aceitar o embelezamento descarado de sua passagem pela Casa Branca. “Quando um líder político morre, permitir que ele seja apenas elogiado, e nunca criticado, é uma grande irresponsabilidade”, argumenta meu colega Glenn Greenwald, porque isso leva à construção de “uma história falsa” e ao “acobertamento propagandista dos erros cometidos”. A verdade inconveniente é que a presidência de George Herbert Walker Bush tinha muito mais em comum com a direita republicana belicosa e corrupta que o sucedeu – seu filho George W. Bush e o atual mandatário de cara laranja – do que uma parte das classes política e jornalística faz parecer.

Vejamos:

Ele fez uma campanha racista para a presidência. O nome “Willie Horton” deveria estar indelevelmente associado à eleição de Bush para a Casa Branca em 1988. Horton, que cumpria uma pena de prisão perpétua por assassinato em Massachusetts – estado governado pelo adversário democrata de Bush, Michael Dukakis –, aproveitara-se de um indulto de fim de semana para fugir e estuprar uma mulher em Maryland. O famoso anúncio de TV intitulado Weekend Passes (“Indultos de Fim de Semana”, em tradução livre), produzido por um comitê de ação política ligado à campanha de Bush, deixava claro ao telespectador que Horton era negro, e sua vítima, branca.

Lee Atwater, o diretor de campanha de Bush na época, gabou-se: “Quando terminarmos, vai ter gente achando até que Willie Horton é da chapa de Dukakis.” O próprio Bush logo classificou as acusações de racismo de “absolutamente ridículas”, mas era óbvio na época – mesmo para republicanos de direita, como Roger Stone, atual aliado de Trump – que o anúncio havia passado dos limites. “Esse caso vai seguir você e George Bush até a cova”, reclamou Stone com Atwater. “É um anúncio racista. (…) Vocês vão se arrepender”, avisou.

Stone tinha razão quanto a Atwater, que, em seu leito de morte, pediu perdão por ter usado Horton contra Dukakis. Mas Bush nunca se desculpou.

Ele usou argumentos desonestos para ir à guerra. Treze anos antes de que George W. Bush mentisse sobre as armas de destruição em massa iraquianas para justificar a invasão e ocupação do país, seu pai já havia dado declarações falsas para poder bombardear o Iraque. A primeira Guerra do Golfo, como concluiu uma investigação do jornalista Joshua Holland, “foi baseada em uma montanha de propaganda”.

Para começar, Bush disse aos americanos que o Iraque havia invadido o Kuwait “sem provocação ou aviso”. Mas ele esqueceu de mencionar que a embaixadora americana no Iraque, havia praticamente dado sinal verde a Saddam Hussein, dizendo a ele, em julho de 1990, uma semana antes da invasão do Kuwait: “Não temos opinião sobre conflitos entre árabes, como a sua disputa de fronteiras com o Kuwait.”

Depois veio a falsificação de informações de inteligência. Bush enviou tropas americanas para o Golfo em agosto de 1990 sob o pretexto de “prestar assistência ao governo da Arábia Saudita na defesa de seu território”. Mas, como escreveu Scott Peterson no Christian Science Monitor, em 2002: “Com base em supostas imagens de satélite confidenciais, funcionários do Pentágono estimaram (…) em 250 mil o número de soldados e em 1.500 o número de tanques na fronteira, ameaçando o maior fornecedor de petróleo dos EUA.”

Porém, a repórter do St. Petersburg Times Jean Heller obteve acesso a imagens de satélite da fronteira saudita disponibilizadas comercialmente, e elas mostraram apenas o deserto vazio, sem nenhum sinal das tropas iraquianas. “Era uma mentira gravíssima”, disse Heller a Peterson. “Aquilo [a mobilização iraquiana] era a justificativa de Bush para o envio de tropas à região, mas simplesmente não era verdade”, acrescentou.

USA,BushO presidente George H. W. Bush conversa com o secretário de Estado, James Baker III, e o secretário de Defesa, Dick Cheney, durante uma reunião de gabinete na Casa Branca sobre a Guerra do Golfo, no dia 17 de janeiro de 1991. O presidente George H. W. Bush conversa com o secretário de Estado, James Baker III, e o secretário de Defesa, Dick Cheney, durante uma reunião de gabinete na Casa Branca sobre a Guerra do Golfo, no dia 17 de janeiro de 1991. Foto: Ron Edmonds/AP

Ele cometeu crimes de guerra. No governo de Bush pai, os EUA jogaram nada menos do que 88.500 toneladas de bombas no Iraque e nos territórios ocupados do Kuwait, muitas das quais causaram terríveis perdas civis. Em fevereiro de 1991, por exemplo, um bombardeio americano contra um abrigo antiaéreo no bairro de Amiriyah, em Bagdá, matou pelo menos 408 civis iraquianos. Segundo um relatório da Human Rights Watch, o Pentágono sabia que o alvo havia sido usado como abrigo para civis durante a guerra Irã-Iraque, mas, mesmo assim, atacou sem avisar. “Uma grave violação das leis da guerra”, conclui o documento.

As bombas americanas também destruíram infraestruturas civis essenciais para o Iraque, de usinas elétricas e estações de tratamento de água a fábricas de alimentos e moinhos. Isso não foi acidental. Barton Gellman, em artigo publicado no Washington Post em junho de 1991, escreveu: “Alguns alvos, principalmente na reta final da guerra, foram bombardeados para aumentar o poder de barganha contra o Iraque depois da guerra, e não para influenciar o conflito em si. Estrategistas agora dizem que o objetivo era destruir ou danificar instalações importantes que só poderiam ser reparadas com ajuda internacional. (…) Por causa disso, muitos dos danos causados a estruturas e interesses civis, invariavelmente classificados como ‘colaterais’ e ‘involuntários’ nos relatórios, não eram nem uma coisa, nem outra.”

Entenderam? O governo Bush atacou alvos civis para poder “barganhar” com Saddam Hussein. Como não chamar isso de terrorismo? Uma equipe de especialistas em saúde pública de Harvard concluiu, em junho de 1991, menos de quatro meses depois do fim da guerra, que a destruição da infraestrutura iraquiana havia causado desnutrição e níveis “epidêmicos” de cólera e febre tifoide na população do país.

Em janeiro de 1992, Beth Osborne Daponte, demógrafa do Departamento do Censo dos Estados Unidos, estimava em 158 mil o número de baixas iraquianas na Guerra do Golfo, incluindo 13 mil civis mortos imediatamente e 70 mil devido aos estragos sofridos pelas usinas de energia e estações de tratamento de água. Os números de Daponte contradiziam as estimativas oficiais do governo, e ela foi ameaçada de demissão por difundir “informações falsas”. (Soa familiar?)

Ele se recusou a colaborar com a Justiça. O caso Irã-Contras, no qual os EUA venderam mísseis em troca da libertação de reféns americanos no Irã e, com o dinheiro da venda, financiaram rebeldes na Nicarágua, foi uma grande mancha no mandato de Ronald Reagan. Apesar disso, pouco se falou do envolvimento do então vice-presidente no escândalo. “Infelizmente, o inquérito criminal contra Bush foi incompleto”, escreveu no relatório final do caso Irã-Contras, em agosto de 1993, o promotor independente Lawrence Walsh, que havia sido vice-procurador-geral do governo Eisenhower.

Por quê? Porque Bush – que “tinha total conhecimento da venda de armas ao Irã”, segundo o promotor independente – não entregou à Justiça um diário “contendo anotações contemporâneas relevantes para o caso” e se recusou a depor nas últimas fases da investigação. Em seus últimos dias como presidente, Bush concedeu o perdão presidencial a seis condenados no caso Irã-Contras. Um deles era o ex-secretário de Defesa Caspar Weinberger, que foi perdoado na véspera de seu julgamento por falso testemunho e obstrução da Justiça. “Foi a primeira vez em que um réu obteve um perdão presidencial em um julgamento no qual o próprio presidente poderia ser chamado para depor, pois Bush tinha conhecimento de fatos inerentes ao caso”, enfatizou Walsh. Irritado, o promotor acusou Bush de “desvio de conduta” e de ter ajudado a “acobertar o caso Irã-Contras”.

Parece um caso trumpiano de obstrução da Justiça, não parece?

Um oficial de justiça, à esquerda, mostra uma foto de um suspeito a um homem que, segundo a polícia, fora encontrado usando drogas em um ponto de venda de entorpecentes em Washington, D.C., no dia 18 de julho de 1989. A operação fazia parte da “guerra às drogas” do então presidente dos EUA, George H. W. Bush. Um oficial de justiça, à esquerda, mostra uma foto de um suspeito a um homem que, segundo a polícia, fora encontrado usando drogas em um ponto de venda de entorpecentes em Washington, D.C., no dia 18 de julho de 1989. A operação fazia parte da “guerra às drogas” do então presidente dos EUA, George H. W. Bush. Foto: J. Scott Applewhite/AP
Ele intensificou a guerra racista contra as drogas. Em setembro de 1989, no Salão Oval, em um discurso televisionado para toda a nação, Bush segurava um pacote de crack, que, segundo ele, havia sido “apreendido dias antes em um parque em frente à Casa Branca. (…) Poderia muito bem ter sido um pacote de heroína ou PCP”.

Naquele mesmo mês, contudo, uma investigação do Washington Post revelou que policiais federais haviam “atraído” um traficante para Parque Lafayette para “uma falsa compra de crack em um parque mais conhecido por estar situado em frente à Casa Branca do que pelo tráfico de drogas”. O traficante não sabia onde ficava a Casa Branca e chegou a perguntar o caminho aos policiais. Ardilosamente, Bush usou o pacote de crack como um acessório de cena para pedir um aumento de 1,5 bilhões de dólares no orçamento da guerra às drogas, proclamando: “Precisamos de mais presídios, mais cadeias, mais tribunais, mais promotores.”

O resultado? “Milhões de americanos foram encarcerados, centenas de bilhões de dólares foram desperdiçados e permitiu-se que centenas de milhares de seres humanos morressem de aids – tudo em nome de uma ‘guerra às drogas’ que não fez nada para reduzir o uso de entorpecentes”, afirmou Ethan Nadelmann, fundador da Drug Policy Alliance, em 2014. Para ele, Bush “colocou a ideologia e a política acima da ciência e da saúde”. Hoje em dia, até mesmo líderes republicanos como Chris Christie e Rand Paul reconhecem que a guerra às drogas, intensificada por Bush pai durante seus quatro anos na Casa Branca, foi um fracasso deplorável e racista.

Ele assediava mulheres. Desde o início do movimento #MeToo, no fim de 2017, pelo menos oito mulheres afirmaram ter sido bolinadas pelo ex-presidente – enquanto posavam para fotos com ele, na maioria dos casos. Uma delas, Roslyn Corrigan, disse à revista Time que Bush a havia apalpado em 2003, quando ela tinha apenas 16 anos. “Eu era uma criança”, contou. O ex-presidente tinha 79. O porta-voz de Bush defendeu seu chefe em outubro de 2017 da seguinte forma: “O presidente Bush está com 93 anos, cinco deles em uma cadeira de rodas, então o braço dele fica abaixo da cintura das pessoas com quem tira fotos.” Mas, como observou a reportagem da Time, “Bush estava em pé quando conheceu Corrigan em 2003”.

Os fatos são importantes. O 41º presidente dos EUA não foi o último republicano moderado nem o representante de uma era imaginária de decência e urbanidade conservadoras. Ele usou o racismo para se promover, obstruiu a Justiça e cometeu crimes de guerra. Ele tinha muito mais em comum com os dois presidentes republicanos que o sucederam do que seus fãs de última hora querem nos fazer crer.

Tradução: Bernardo Tonasse

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Moradia para mulheres sem teto nos USA

A vila de minicasas (construída por voluntárias) que vai abrigar mulheres em situação de rua nos EUAMulheres,Moradias,Sem Teto,Estados Unidos,Política Hamitacional,Moradores de rua,Blog do Mesquita 1

A vila de minicasas (construída por voluntárias) que vai abrigar mulheres em situação de rua nos EUA
Razões Para Acreditar

Sim, uma pequena vila formada por 15 minicasas será o lar de mulheres em situação de rua em Seattle, nos Estados Unidos. A Whittier Heighs é uma iniciativa do instituto Low Income Housing, que gerencia outros projetos semelhantes na cidade.

Segundo o veículo Arquitetura & Construção, as moradias foram construídas com a participação de mulheres voluntárias, como a carpinteira Melinda Nichols, que ensina as pessoas a construir casas há 45 anos.

Outra mulher voluntária é a professora aposentada Linda Uno, que contribuiu com a limpeza e arrumação das casinhas antes de serem entregues às novas moradoras. No total, a vila abrigará até 20 mulheres sem-teto.

“Eu estava aqui quando o primeiro prego foi martelado. Então estar aqui para decorar os quartos é realmente um presente”, disse Linda. “Quando elas entrarem em suas novas casas, esperamos que elas se sintam realmente bem cuidadas porque a comunidade está realmente cuidando dessas mulheres”, acrescentou.

Nichols disse também que o Low Income Housing vai acompanhar de perto o projeto e, caso seja um sucesso, irá construir outras vilas somente para mulheres em situação de rua. Vale lembrar que as moradias não são permanentes, mas uma forma de oferecer segurança e estabilidade para que essas mulheres consigam se reestabelecer.

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Estados Unidos: Número de mulheres eleitas para Congresso bate recorde histórico

Foram eleitas 112 mulheres, sendo que 92 irão ocupar assentos na Câmara dos Representantes, além de 10 no Senado; do total, 99 são democratas.Política Internacional,Estados Unidos,USA,Mulheres,Congresso Americano,Trump,Democratas,Republicanos,Trump

Alexandria Ocasio-Cortez e Ilhan Omar foram duas das eleitas nas midterms de 2018
Foto Reprodução

As eleições de meio de mandato que aconteceram nesta terça-feira (06/11) nos Estados Unidos, conhecida como midterms, registraram um recorde histórico de mulheres eleitas para o Congresso do país. Ao todo, foram escolhidas 112, sendo 92 na Câmara e 10, no Senado.

O resultado reflete uma guinada eleitoral nos EUA, após o republicano Donald Trump sair vitorioso das eleições de 2016 contra a democrata Hillary Clinton. Atualmente, há 107 mulheres exercendo cargo eletivo na Câmara e no Senado.

Neste ano, foram 273 candidaturas femininas ao Congresso, número superior às 184 das últimas midterms. Se comparado com a eleições de 2008, o número de candidatas mulheres ao Congresso quase dobrou, passando de 143 à época para as 273 deste ano. Em relação ao último pleito, foram eleitas cinco mulheres a mais, superando os 107 cargos totais e os 85 na Câmara.

Para o cargo de governadora, foram eleitas nove mulheres pelos estados de Oregon, Novo México, Dakota do Sul, Kansas, Iwoa, Arkansas, Michigan, Alabama e Maine. Ao todo, as candidatas femininas do Partido Democrata venceram em cinco estados, enquanto que os republicanos fizeram quatro governadoras mulheres.

No estado de Oregon, a democrata Kate Brown foi reeleita com 49% dos votos, superando o republicano Knute Buehler, que somou 44%. No Novo México, a advogada democrata Michelle Lujan Grisham venceu o republicano Steve Pearce e atingiu 56,9% dos votos.

Do total de mulheres eleitas para o Congresso norte-americano, 99 são democratas. Entre as eleitas, há negras, muçulmanas e socialistas.

Alexandria Ocasio-Cortez

A democrata Alexandria Ocasio-Cortez se tornou a congressista mais jovem da história dos EUA. Negra, latina e socialista, a candidata de 29 anos saiu vitoriosa com 78% dos votos no 14º distrito de Nova York, tradicionalmente vencido por democratas.

Ocasio-Cortez já havia surpreendido quando desbancou o ex-congressista Joe Crowley nas primárias do partido. Crowley foi representante dos distritos do Bronx e Queens durante 10 mandatos.

Sua agenda progressista, que inclui defesa dos direitos de migrantes, criação de um sistema universal de saúde e controle do porte de armas, rendeu à democrata quantidade superior à necessária para derrotar seu adversário republicano Anthony Pappas, que somou 13% dos votos válidos.

Muçulmanas

Os estados de Michigan e Minnesota também elegeram representantes mulheres à Câmara e proporcionaram dois fatos inéditos na história das midterms. A filha de palestinos Rashida Tlaib, eleita em Minnesota, se tornou a primeira congressista muçulmana dos EUA, ao lado de Ilhan Omar, eleita em Michigan, de origem somali.

No estado do Kansas, a democrata Sharice Davids conquistou o assento do republicano Kevin Yoder na Câmara pelo 3º distrito e se tornou a primeira representante de povos nativos a ganhar uma vaga no Congresso. Ela é membro da etnia Ho-Chunk, tribo que habita os estados de Wisconsin e Nebraska.

No Tennessee, o democrata Phil Bredesen, que havia sido governador do Estado de 2003 a 2011, perdeu a vaga no Senado para a republicana Marsha Blackburn, que se tornou a primeira mulher eleita para o cargo.

A agora senadora é conhecida por suas posições conservadoras sobre aborto, porte de armas e migração. Durante campanha, Blackburn chegou a dizer que é “politicamente incorreta” e que tem “orgulho disso”.

Maioria democrata

O Partido Democrata já garantiu ao menos 219 dos 435 assentos da Câmara, um a mais do que os 218 necessários para formar maioria simples.

No Senado, no entanto, onde estavam em jogo 35 de suas 100 cadeiras, a maioria delas democratas, o Partido Republicano conseguiu segurar sua maioria, que deve ser até ampliada.
OperaMundi

Project Veritas: Você sabe o que é?

O grupo conservador que profissionalizou a guerra de informação nos EUA

James O’Keefe durante evento em 2015.James O’Keefe durante evento em 2015. PABLO MARTINEZ MONSIVAIS AP

O mais recente alvo do ‘Project Veritas’ foi o jornal ‘The Washington Post’, que acusa a organização de criar um factoide sobre um senador republicano para deslegitimar a empresa

Nada parece conter James O’Keefe em sua aversão pelo mundo progressista. Em 2009, ele se fez passar por um cafetão em um encontro com a organização social Acorn. No ano passado, tentou simular em um telefonema ser um húngaro se colocando à disposição para colaborar com a fundação do magnata George Soros, na órbita do Partido Democrata, mas não desligou o telefone direito e acabou revelando, sem saber, o próprio golpe. Agora, tudo indica que ele está por trás da tentativa de levar o jornal The Washington Post a publicar uma informação mentirosa ao noticiar o relato de uma suposta vítima de um falso affairesexual de Roy Moore, o candidato republicano ao Senado pelo Alabama, atacado por uma onda de acusações de assédio sexual.

O’Keefe, de 33 anos, se apresenta como um “jornalista de guerrilha”. Ele encarna o princípio de que, para atacar os círculos progressistas, tudo é válido. O meio utilizado – a mentira – justifica esse fim, que ele chama de revelar a “corrupção e desonestidade”. É uma personalidade emergente no mundo da direita norte-americana sem complexos, que aposta na ruptura e na atuação antiestablishment, próxima do presidente Donald Trump. Não surpreende, portanto, o fato de que seu mentor tenha sido Andrew Breitbart, criador do site ultraconservador que leva o seu nome e que é hoje dirigido por Steve Bannon, figura de destaque na campanha eleitoral de Trump e de seus meses iniciais na Casa Branca.

Project Veritas, organização conservadora fundada por O’Keefe em 2010, promete investigações explosivas contra os grandes veículos de imprensa norte-americanos. Ele os define como “Pravda”, nome do jornal oficial da União Soviética. E promete desmascarar uma mina de supostas verdades. Além do Post, alguns de seus alvos foram a rádio NPR, a rede CNN e o jornal The New York Times.

O último objetivo era aparentemente ajudar Moore, que Trump apoiou apesar das acusações sexuais contra ele, e tirar a legitimidade do Post, que divulgou as acusações que colocaram o político contra a parede. Uma mulher contatou o jornal alegando que manteve uma relação sexual com Moore em 1992, engravidou e abortou aos 15 anos.

O jornal descobriu, no entanto, que a mulher havia mentido sobre sua identidade e, na segunda-feira, a viu entrando na sede do Project Veritas, em Nova York. Paralelamente, o Post divulgou um vídeo, feito com câmera escondida, do encontro entre essa mulher e uma repórter do jornal, que a pressionava a respeito das inconsistências de seu relato e perguntava o que a tinha levado a contar aquela história.

O’Keefe evitou confirmar se a mulher trabalhava para sua organização. E contra-atacou a aparente descoberta de sua armação divulgando outro vídeo com câmera escondida em que um repórter do Post critica a linha editorial do jornal por sua dureza contra Trump. O jornalista disse que acreditava estar falando com estudantes.

O’Keefe vive mergulhado em polêmica, sempre acusado de mentir e exagerar suas descobertas. Formado em Filosofia, ganhou fama em 2009 no caso da Acorn. Munido de uma câmera escondida, foi acompanhado de uma mulher, que disse ser uma prostituta menor de idade, a várias reuniões com a organização que ajuda pessoas de baixa renda. Ambos disseram buscar assessoria para aparentar que seria legal a prostituição de uma imigrante. E os trabalhadores lhes deram conselhos. Houve demissões e consequências políticas. A Câmara de Representantes cortou os recursos federais da Acorn, que acabou sendo dissolvida.

Entretanto, o jovem acabou se desculpando por essas gravações e teve de pagar 100.000 dólares (320.000 reais) depois de ser processado por um funcionário da Acorn, que denunciou que não tinha dado autorização para ser gravado, como requer a lei da Califórnia.

Os problemas legais se repetiram em 2010. O’Keefe foi detido por entrar com identidade falsa no gabinete de uma senadora democrata e condenado a três anos de liberdade condicional e uma multa.

As irregularidades, no entanto, não frearam o jovem direitista. Muito pelo contrário. Em 2016, o Project Veritas recebeu 4,8 milhões de dólares em doações e tinha 38 funcionários. Em uma oferta de trabalho em seu site, buscam-se jornalistas dispostos a trabalhar disfarçados. Por ser uma organização sem fins lucrativos, não é obrigado a divulgar a identidade de seus doadores. Segundo o Post, um dos doadores em 2015 foi a fundação Trump, que doou 10.000 dólares.

No ano passado, a campanha do republicano se beneficiou implicitamente do trabalho do Project Veritas. O chefe de uma organização próxima ao Partido Democrata renunciou depois que O’Keefe divulgou um vídeo em que falavam de supostos métodos para tentar incitar a violência em comícios de Trump.
Joan Faus/ElPais

Slavic, o hacker mais procurado (e protegido) do mundo

Vinculado aos mais graves ciberataques contra os EUA, ele vive supostamente amparado por MoscouO hacker russo Evgeniy M. Bogachev, em imagem do FBI publicada pelo ‘The New York Times’.

O hacker russo Evgeniy M. Bogachev, em imagem do FBI publicada pelo ‘The New York Times’.

Cabelo raspado, olheiras profundas e o sorriso de quem não posa muito convencido para a foto. Evgeniy Mikhailovich Bogachev já saqueou dezenas de bancos, roubou milhares de contas correntes e lançou assaltos em escala planetária. O FBI oferece uma recompensa de três milhões de dólares (9,3 milhões de reais) por sua captura, e dois tribunais dos Estados Unidos o processam por fraude, lavagem de dinheiro, pirataria informática e conspiração. Mais conhecido como Slavic ou lucky12345, é o hacker mais procurado do mundo. Mas ninguém o detém. De nada adiantam as diversas fotos suas conhecidas. Nem saber onde mora e o que faz no tempo livre. Aos 33 anos, Bogachev e seu meio sorriso podem mais que a estrutura judicial e policial da nação mais poderosa do mundo.

Slavic se esconde na Rússia, e em dezembro passado foi incluído no grupo sancionado pelo então presidente Barack Obama em conexão com o ciberataque orquestrado pelo Kremlin para prejudicar a campanha eleitoral de Hillary Clinton. Embora a Casa Branca só se referisse a ele como um bandido comum, a ordem, que também afetou quatro altos funcionários do serviço secreto russo, proibiu-o de viajar aos EUA e congelou todas as suas contas. Duas medidas sem efeito para quem fez história fora da lei.

Os relatórios do FBI e autos judiciais aos quais o EL PAÍS teve acesso revelam Slavic como um dos hackers mais incisivos de todos os tempos. Ele criou o Cryptolocker, um vírus que bloqueia os computadores e obriga o pagamento de um resgate para a sua liberação. No final de 2013, mais de 234.000 computadores haviam sido infectados. Um golpe com o qual Bogachev arrecadou 27 milhões de dólares (83,7 milhões de reais) em apenas dois meses.

Criador do Zeus

Mas a sua criatura mais conhecida e reverenciada é o Zeus. Extremamente sofisticado, esse código malicioso nasceu em 2006, quando Bogachev tinha apenas 22 anos. Desde então, com enorme perícia, ele o modificou e melhorou até chegar à versão Gameover. Considerado um dos mais perigosos do planeta, o programa age em duas frentes. Por um lado, rouba os dados bancários e as senhas da máquina que infecta; por outro, sem que o dono saiba, coloca o aparelho a serviço de uma rede oculta (botnet). Produz, assim, um universo de escravos silenciosos que os piratas utilizam livremente para todo tipo de propósitos.

“É a rede de programas maliciosos mais avançada que já enfrentamos”, declarou o agente especial encarregado da investigação. Sob o mando de Slavic, essa estrutura chegou a submeter um milhão de computadores (25% deles nos EUA) e se transformou no pior pesadelo já vivido pelo FBI. O troféu superou os 100 milhões de dólares (310 milhões de reais).

“Todos os computadores que infectava faziam parte de uma botnet, na qual não apenas roubavam os dados que os usuários introduziam ou tinham gravados, como também usavam a potência desses milhares – ou até mesmo milhões – de computadores infectados e controlados para cometer outros crimes, como ataques de negação de serviço (DDoS) destinados a extorquir as empresas”, diz o especialista David Barroso, fundador da Countercraft.

O Kremlin, que embora negue, há anos emprega ciberpiratas para seus fins geopolíticos

Após um esforço conjunto internacional, a rede foi desmantelada em 2014. Mas seu criador, sobre o qual pesa a maior recompensa já oferecida a um cibercriminoso, não foi preso. Assim como muitos hackers russos, sua tranquilidade estava garantida longe de Washington.

Um relatório de segurança ucraniano indica que Slavic age sob a supervisão de uma unidade especial da espionagem russa. Não é nada extraordinário. O Kremlin, que nunca aceitou tais acusações, há anos emprega ciberpiratas para seus fins geopolíticos. Também fez isso, sempre segundo os informes de inteligência norte-americanos, com o Wikileaks.

No ataque cibernético que orquestrou contra Clinton na campanha eleitoral, usou a organização de Julian Assange para difundir material roubado. No caso de Slavic, a própria trajetória e evolução do vírus Zeus o vincula a essas práticas. No apogeu de sua atividade, Bogachev analisava a imensa rede de computadores cativos à sua disposição em busca de informações confidenciais: e-mails de altos funcionários da polícia turca, dados de inteligência da Geórgia, documentos classificados da Ucrânia.

“Há tempo, considera-se que Bogachev tenha algum tipo de relação com pessoas próximas dos serviços de inteligência. Inclusive quando a Rússia invadiu a Crimeia, parte dabotnet foi utilizada para buscar informações de vítimas da Ucrânia”, explica Jaime Blasco, especialista em segurança cibernética e chefe científico da Alien Vault.

Slavic era e é um pirata, mas não age apenas como tal. Seu objetivo vai além: um território pantanoso do qual pouco se conhece. O Kremlin mantém silêncio, e as autoridades dos EUA evitam dar detalhes sobre os ciberataques a Clinton. Como sempre, a escuridão ampara. Slavic pode continuar sorrindo.

UMA VIDA DE LUXO NA COSTA

Casado e com uma filha, Evgeniy Mikhailovich Bogachev, codinome Slavic curte a vida como um rei na pequena e portuária cidade de Anapa, no Cáucaso Ocidental. Ali, segundo relatórios policiais, ele coleciona carros de luxo, navega pelo Mar Negro e, quando pode, visita a Crimeia. Slavic tem adoração pelos felinos. Tanto que seu animal de estimação é um gato-de-bengala (fruto do cruzamento entre o gato doméstico e o gato-leopardo) e sua roupa preferida é um pijama com estampa de leopardo.

Segundo a inteligência ucraniana, Slavic tem uma frota de automóveis espalhada por toda a Europa só para não ter de alugar nenhum veículo quando está de férias. O hacker costumava passar alguns dias num dos chalés que possuía na França e viajava com um dos três passaportes russos de que dispunha para transitar com liberdade.
ElPaís

Estados Unidos rejeitam rendição do Talibã. Por quê?

O Talibã já tentou se render, os Estados Unidos rejeitaram e guerra no Afeganistão não tem fim.Blog do Mesquita,Talibão,USA,Afeganistão,Terrorismo,Guerra,Oriente Médio

Combatentes talibãs que queriam se render mostram armas a repórteres em Herat, Afeganistão (04/11/2010). Foto: Majid Saeedi/Getty Images

 VOCÊ SABIA QUE o Talibã tentou se render pouco tempo depois de os Estados Unidos invadirem o Afeganistão?[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Segundo a tradição afegã, há séculos, quando uma força rival vence, os derrotados depõem as armas e se integram à nova estrutura de poder. Claro, com muito menos poder – às vezes, sem poder nenhum. É o que tem que ser feito para que a convivência entre vizinhos continue a ser possível. Não é que nem jogo de futebol, os times não voltam para suas respectivas cidades depois que tudo acaba. Para os norte-americanos, pode ser difícil lembrar que é assim que as coisas funcionam, já que os Estados Unidos não vivem uma guerra prolongada sobre o próprio território desde a Guerra Civil.

Quando o Talibã quis se entregar, os Estados Unidos recusaram a rendição repetidas vezes, em uma série de trapalhadas arrogantes, relatadas por Anand Gopal em seu livro “No Good Men Among the Living”, uma investigação sobre a guerra do Afeganistão.

Só a completa aniquilação do inimigo interessava ao governo Bush. O que eles queriam era empilhar mais e mais corpos de terroristas. O problema é que os talibãs já tinham parado de lutar: tinham fugido para o Paquistão ou se reinserido na vida civil. E a Al Qaeda se resumia a um punhado de combatentes.

Mas se não há mais terroristas, como matá-los?

Fácil: afegãos que colaboravam com os Estados Unidos entenderam o dilema do aliado militar e inventaram vilões. A demanda sempre acaba gerando oferta, e os Estados Unidos passaram a pagar por informações que levassem à morte ou à captura de soldados talibãs. De repente, havia talibãs por todos os lados e a vingança correu solta: para matar um vizinho ou mandá-lo para Guantânamo, bastava dizer aos Estados Unidos que se tratava de um membro do Talibã.

Invadiam-se casas e arrombavam-se portas sem nem precisar explicar por quê. Os que foram poupados se tornaram senhores da guerra, enriqueceram e mandaram sua fortuna para o exterior. “Não estamos construindo novamente uma nação”, afirmou o presidente Donald Trump na segunda-feira. Bem, na verdade, nós, americanos, nunca construímos nada por lá – a menos que erguer arranha-céus em Dubai à base de dinheiro sujo conte.

Depois de anos vivendo essa farsa e vendo seus esforços de rendição serem ignorados, o antigo Talibã voltou a pegar em armas. Na época em que foram derrubados do poder, a população tinha ficado feliz em vê-los partir. Mas os Estados Unidos conseguiram torná-los novamente populares.

Os liberais passaram a campanha presidencial de 2008 reclamando que os EUA tinham “ignorado” o Afeganistão — quando, na verdade, as regiões sem a presença de tropas eram as únicas em paz, sem nenhum tipo de insurgência contra o governo afegão. Aí o então recém-empossado presidente Barack Obama resolveu aumentar o efetivo militar, ao mesmo tempo em que anunciava a retirada das tropas. Além disso, ampliou bombardeios noturnos, confiando no mesmo sistema questionável de inteligência que já tinha custava a vida a tantos inocentes.

E agora Trump vem dizer que tem uma estratégia nova e melhor. Segundo ele, os Estados Unidos precisam fazer com que o Paquistão se envolva mais – só que, claro, o serviço de inteligência paquistanês sustenta o Talibã há decadas.

O livro de Gopal é o relato cabal de um conflito que saiu dos trilhos. Parece um livro de ficção, mas é o perfil bem real de três afegãos que viveram a guerra: um senhor da guerra pró-Estados Unidos, um comandante talibã e uma dona de casa. Eu recomendaria a leitura a Trump. O livro traz uma grave advertência ao tipo de esforço de guerra que o presidente está prestes a intensificar. O problema é que tem mais de uma página – e, de acordo com seus assessores, esse é o máximo que ele consegue processar. No mais, a única coisa que interessa mesmo a Trump é o fato de o Afeganistão ter um monte de minerais – que ele acha que o país deve aos Estados Unidos.

Antes de sair gastando os lucros que pretende fazer com os minérios afegãos, Trump deveria parar para pensar na dura realidade: os Estados Unidos estão perdendo a guerra para um inimigo que já tinha se entregado. É uma proeza para poucos.
Ryan Grim/Tradução: Carla Camargo Fanha