Zika e aborto: Camisinha é ‘decisão pessoal’ e mães devem encarar microcefalia como ‘missão’, diz arcebispo

A Igreja Católica dá “muito espaço à decisão pessoal” pelo uso de camisinhas, mas não aceita o aborto porque “ninguém pode decidir sobre vida e morte de um ser humano”, diz o cardeal dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo.

Em entrevista na Cúria metropolitana, um casarão de Higienópolis onde são tomadas decisões administrativas da arquidiocese, dom Odilo afirma que os bispos ainda não se reuniram para discutir o tema, mas que gestantes de fetos com microcefalia “devem encará-los como uma missão”.

“Toda gravidez sempre envolve alguma incógnita e pode resultar em alguma anomalia, o que é indesejável. (…) Um bebê (microcéfalo), embora tenha suas limitações, pode ter certa autonomia. É uma pessoa que terá alegrias na vida. Então, (é preciso) acolher esse ser humano com suas limitações e encarar como uma missão a ser acompanhada durante toda a vida.”[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

À BBC Brasil, o arcebispo qualifica números divulgados pela OMS (Organização Mundial da Saúde) e do SUS (Sistema Único de Saúde) sobre abortos realizados no Brasil como “aproximativos” e “duvidosos”. Segundo a OMS, 1 milhão de abortos ilegais são feitos por ano no país e matam uma mulher a cada dois dias.

“Mas não há que se duvidar que se fazem muitos abortos clandestinos e que há problemas e até mortes de mulheres”, diz. “Isso é extremamente lamentável.”

Como primeira solução, ao contrário da descriminalização, o religioso defende a fiscalização e propõe que governo e autoridades combatam “clínicas e mesmo os abortos clandestinos com base na lei”.

Para dom Odilo, um dos 13 filhos de imigrantes alemães que chegaram ao Rio Grande do Sul, o foco da discussão sobre o aborto está na “origem da vida dos fetos”, e não na quantidade ou na classe social das mulheres que se submetem ao procedimento – por ano, mais de 200 mil são internadas no SUS com complicações pós-aborto.

“É ser humano. Ainda em formação, mas é ser humano”, afirma. “O bebê não nascido, (seja com) apenas 12 semanas ou com 20 semanas de gestação, é humano desde o primeiro instante da concepção.”

Já o uso de métodos contraceptivos seria “bem diferente”, diz o arcebispo. “Não é uma solução simplista, use ou não use”, afirma. “Os casais sabem muito bem como prevenir uma gravidez indesejada. Não sou eu a ensinar.”

Dom Odilo explica seu raciocínio: “Nos contraceptivos, não se trata de uma vida já gerada, mas de evitar a geração de uma vida. No caso do aborto, se trata de intervir para suprimir uma vida”.

(Foto: Getty)Para líder católico, gestantes devem encarar fetos com microcefalia como uma “missão” – Image copyright Getty

‘Não se pode culpar o governo’

Às pessoas que defendem o direito de escolha pelo aborto e afirmam que mulheres “não têm culpa” pelo fracasso na erradicação do Aedes aegypti, Dom Odilo responde que “não se pode culpar o Estado pelo fato de haver o mosquito”.

“O mosquito apareceu e ele se prolifera. Mesmo que o Estado faça talvez a sua parte o mosquito vai continuar existindo”, diz Dom Odilo. “A culpa não pode ser atribuída ao Estado simplesmente. Muito menos ainda isso pode ser argumento em favor de um suposto direito que está sendo lesado.”

Personalidades como o ex-ministro da saúde José Gomes Temporão, que adiantou à BBC Brasil na última quarta-feira que também vai pedir a descriminalização do aborto ao STF (Supremo Tribunal Federal), discordam e atribuem a responsabilidade ao governo.

“Cerca de 80% dos focos (de zika) no Nordeste não estão lá por culpa das famílias. Elas não têm acesso a água de forma contínua, por isso estocam. O Brasil enfrenta surtos permanentes há 30 anos porque estas questões não foram atacadas”, disse Temporão.

Horas depois desta entrevista com o arcebispo, a presidente Dilma Rousseff fez pronunciamento em rede nacional pedindo “ajuda e boa vontade de todos” na “verdadeira batalha” contra o Aedes.

“Se nos unirmos, a maneira de lutar se torna simples”, disse a presidente. “Não podemos admitir a derrota porque a vitória depende da nossa determinação.”

(Foto: ISAGS)Ex-ministro da Saúde, Temporão diz apoiar pedido pela descriminalização do aborto nesses casos

Estado laico e eugenia

Questionado sobre a interferência da Igreja na legislação em um Estado laico, como o Brasil, Dom Odilo diz que “valores universais como dignidade humana, direitos humanos, honestidade e justiça” são “compartilhados independente de religião”.

“O aborto não é um fato religioso enquanto tal, é um fato moral e ético. A vida do ser humano é um valor, não entra em jogo a fé religiosa.”

O cardeal arcebispo então associa o aborto em caso de microcefalia a uma “seleção dos indivíduos que podem nascer, de acordo com suas possibilidades de render ao longo de sua vida”.

“Acho que se a humanidade se orientar por privilegiar somente os que são saudáveis, fortes e poderosos, nos estaremos encaminhando para a eugenia”, diz. “A lei da eugenia manda eliminar. Essa forma de raciocinar em relação ao ser humano é absolutamente indigna na civilização”.

O termo “eugenia” se refere a técnicas que visam “melhorar qualidades físicas e morais de gerações futuras”, segundo o dicionário Michaelis, e frequentemente é associado a políticas de controle social adotadas por Adolf Hitler durante o regime nazista alemão.

A reportagem pergunta se é o caso das mulheres pobres que optam para o aborto pela precariedade dos sistemas de saúde e saneamento nas periferias.

O cardeal recua: “A eugenia é uma doutrina assumida oficialmente por Estados, por leis. Não digo que pessoas individualmente praticando atos que não são aceitáveis já estejam praticando eugenia ou adotando esta ideologia”.

‘Debate será feito’

Os dados mais recentes do Ministério da Saúde apontam 404 casos confirmados de bebês com microcefalia e/ou outras más-formações do sistema nervoso central – na semana anterior eram 270, mas até então a pasta citava apenas ocorrências de microcefalia ao divulgar os números.

O ministério confirmou 76 mortes por causa desses tipos de má-formação durante a gravidez ou no nascimento.

As discussões entre bispos católicos sobre zika e microcefalia, entretanto, ainda não começaram. “O tema é extremamente recente e não tenho ainda conhecimento de debate já feito pelos bispos. Ele que se fará daqui por diante junto à sociedade”, afirma dom Odilo.

Ele pede calma: “Não se deve criar uma espécie de pânico geral em torno de um perigo que existe, mas que é evitável”, diz.

“É preciso de participação de toda a sociedade nisso que é uma luta grande contra um bichinho pequeno que pode trazer tanto mal. Eu tenho certeza de que a sociedade unindo esforços será vitoriosa e não se deixará tomar pelo pânico, porque ele não é bom para tomar decisões razoáveis.”
BBC/Ricardo Senra

Francisco no Brasil: Papa pop vai esquentar debate sobre Estado laico

Papa Francisco Religião Igreja Católica Blog do MesquitaA simpatia, humanidade e despojamento que se irradiam de Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, não impedirão que junto com a empolgação religiosa/espiritual propiciada pela sua visita ao Brasil aflore sem constrangimentos a esquecida relação Igreja-Estado.

A formidável preparação para a visita pontifícia ao Rio de Janeiro e ao santuário de Aparecida – inclusive na esfera midiática – deverá carrear ganhos efetivos ao catolicismo jovem, sobretudo latino-americano. Como contrapartida, é justo esperar que o debate sobre laicismo e teocracia, discutido enfaticamente quando se trata da derrubada do presidente Mohamed Morsi no Egito, seja capaz de transferir-se para a notória supremacia do catolicismo no Estado brasileiro.

As aberrantes atitudes do pastor-deputado Marco Feliciano na condição de presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados retiraram da questão religiosa a blindagem de assunto-tabu, porém a conduziram para uma esfera banalizada, próxima da galhofa.

Um fanático religioso, racista, no estilo do Ku Klux Kan, não pode presidir uma Comissão de Direitos Humanos, a não ser numa sátira. Os traços caricaturais do personagem impediram que se examinasse com a necessária seriedade o caráter dúbio do nosso laicismo e a fragilidade do conceito de isonomia embutido em nossa democracia.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Pode parecer injusto que a presença de uma figura tão calorosa e humana como o papa Francisco seja a deflagradora de uma discussão sobre a fabulosa soma de poderes, privilégios, facilidades e recursos públicos disponibilizados pelas autoridades para garantir uma celebração como a 28ª Jornada Mundial da Juventude. Impossível, porém, escapar deste dilema: ou o Estado é efetivamente equidistante em matéria de crenças e descrenças ou terá que abdicar da pretensão de se apresentar como democrático.

Nem as lideranças nem as massas de evangélicos pentecostais protestarão contra as vantagens e primazias oferecidas aos católicos. Vão preferir compensações, se não em espécie, pelo menos em ganhos políticos. Tal como fizeram em novembro de 2008 depois da formalização da calamitosa e semiclandestina Concordata entre o Brasil e a Santa Sé, assinada pelo ex-presidente Lula em Roma e assistida pela então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff [ver remissões abaixo].

E, assim, alternando favores às duas maiores confissões religiosas, criou-se uma teocracia tipo gangorra, binária e disfarçada, igualmente injusta, duplamente perniciosa.

Onde a mídia aceita o papel de acólito

A grande imprensa dita nacional e o seu escalão regional há semanas empenham-se em criar um clima de vibração religiosa. Verdadeira torcida da fé. Substituta dos sinos na convocação de fieis, a mídia badalou ao máximo a visita pontifícia e a Jornada Mundial da Juventude.

Uma imprensa até então asfixiada pela falta de papel não poupou espaço para convocar as multidões no velho diapasão tão eficaz em Copas do Mundo e eventos populares.

Nenhum jornal ou revista deu atenção às questões mais inconfortáveis: não se apresentou o montante do dinheiro público gasto no evento; não se ousou discutir a pertinência dos dois dias e meio de feriados no município do Rio para permitir a movimentação dos peregrinos; ninguém lembrou a Concordata com o Vaticano travada no Supremo Tribunal Federal; está em suspenso a questão do ensino religioso nas escolas públicas com a disseminação das doutrinas criacionistas; embora ilegal mantém-se a pratica de alugar para cultos horários nobres em emissoras de TV aberta e novas concessões de radiodifusão são distribuídas a sacerdotes, seitas e congregações.

Esta não é uma pauta antirreligiosa, ao contrário, é uma garantia do pluralismo. Mas no Brasil, imprensa e pluralismo não se atraem.

Ninguém ouviu o estalo do Vieira

Francisco é o primeiro papa jesuíta: com tantos especialistas em ciência das religiões na mídia, não apareceu um estudo sobre a história da Companhia de Jesus, seu papel na colonização e na formação da sociedade colonial. Ao personagem mais fascinante do jesuitismo brasileiro, o português Antonio Vieira, não se dedicou uma linha. O defensor dos índios, inspirado sermonista, “imperador da língua portuguesa”, militante da Restauração, estadista visionário, ícone do ecumenismo e adversário incansável da Inquisição (ele próprio encarcerado e processado) encarna alguns atributos que servem de matriz ao Paradigma Francisco. Não foi lembrado. E dificilmente será.

Nossa imprensa não tem competência para assumir-se como baluarte da Igreja. É apenas uma igrejinha.

Pesquisa com células embrionárias. O Estado é laico, confirma o STF

Todas as discussões que alteram padrões comportamentais da sociedade, desde os primórdios da organização social, e, principalmente as oriundas da ciência, tendem a ser altamente polêmicas. Não poderia ser diferente com a pesquisa das células embrionárias.

Se confrontaram, cada qual com suas justezas morais, éticas e científicas, o Estado Laico, constitucionalmente definido, e o conjunto da sociedade defensora de um Estado Teocrático.

Assim, deliberando pela constitucionalidade das pesquisas, o principal mérito da decisão do Supremo Tribunal Federal, a par dos ganhos científicos para aqueles acometidos de doenças neuro-degenerativas, foi evitar que precedentes fossem abertos na laicidade do Estado, nos deixando, os brasileiros, passíveis de nos tornarmos uma sociedade balizada por fanatismos religiosos, a exemplo do que ocorre em países islâmicos, nos quais, os dirigentes religiosos se sobrepõem ao Estado.

Os opositores às pesquisas com células tronco embrionárias, embora, na superfície esgrimissem argumentos jurídicos, na essência, era patente a motivação religiosa que os moviam.

Ao considerar “constitucionais as pesquisas com células-tronco embrionárias para fins terapêuticos, nos restritivos limites da Lei de Biossegurança de 2005″ o STF, mais que decidir questões éticas, religiosas e/ou científicas, consagrou, para a preservação da Segurança Jurídica, o caráter laico do Estado brasileiro.