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Brasil, um país do passado – Philipp Lichterbeck

No Brasil, está na moda um anti-intelectualismo que lembra a Inquisição. Seus representantes preferem Silas Malafaia a Immanuel Kant. Os ataques miram o próprio esclarecimento, escreve o colunista Philipp Lichterbeck.Jared Diamond,Colapso,Literatura,LivrosÉ sabido que viajar educa o indivíduo, fazendo com que alguém contemple algo de perspectivas diferentes. Quem deixa o Brasil nos dias de hoje deve se preocupar. O país está caminhando rumo ao passado.

No Brasil, pode ser que isso seja algo menos perceptível, porque as pessoas estão expostas ao moinho cotidiano de informações. Mas, de fora, estas formam um mosaico assustador. Atualmente, estou em viagem pelo Caribe – e o Brasil que se vê a partir daqui é de dar medo.

Na história, já houve momentos frequentes de regresso. Jared Diamond os descreve bem em seu livro Colapso: Como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. Motivos que contribuem para o fracasso são, entre outros, destruição do meio ambiente, negação de fatos, fanatismo religioso. Assim como nos tempos da Inquisição, quando o conhecimento em si já era suficiente para tornar alguém suspeito de blasfêmia.

No Brasil atual, não se grita “herege!”, mas “comunismo!”. É a acusação com a qual se demoniza a ciência e o progresso social. A emancipação de minorias e grupos menos favorecidos: comunismo! A liberdade artística: comunismo! Direitos humanos: comunismo! Justiça social: comunismo! Educação sexual: comunismo! O pensamento crítico em si: comunismo!

Tudo isso são conquistas que não são questionadas em sociedades progressistas. O Brasil de hoje não as quer mais.

Porém, a própria acusação de comunismo é um anacronismo. Como se hoje houvesse um forte movimento comunista no Brasil. Mas não se trata disso. O novo brasileiro não deve mais questionar, ele precisa obedecer: “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”.

Está na moda um anti-intelectualismo horrendo, “alimentado pela falsa noção de que a democracia significa que a minha ignorância é tão boa quanto o seu conhecimento”, segundo dizia o escritor Isaac Asimov. Ouvi uma anedota de um pai brasileiro que tirou o filho da escola porque não queria que ele aprendesse sobre o cubismo. O pai alegou que o filho não precisa saber nada sobre Cuba, que isso era doutrinação marxista. Não sei se a historia é verdade. O pior é que bem que poderia ser.

A essência da ciência é o discernimento. Mas os novos inquisidores amam vídeos com títulos como “Feliciano destrói argumentos e bancada LGBT”. Destruir, acabar, detonar, desmoralizar – são seus conceitos fundamentais. E, para que ninguém se engane, o ataque vale para o próprio esclarecimento.

Os inquisidores não querem mais Immanuel Kant, querem Silas Malafaia. Não querem mais Paulo Freire, querem Alexandre Frota. Não querem mais Jean-Jacques Rousseau, querem Olavo de Carvalho. Não querem Chico Mendes, querem a “musa do veneno” (imagino que seja para ingerir ainda mais agrotóxicos).

Dá para imaginar para onde vai uma sociedade que tem esse tipo de fanático como exemplo: para o nada. Os sinais de alerta estão acesos em toda parte.

O desmatamento da Floresta Amazônica teve neste ano o seu maior aumento em uma década: 8 mil quilômetros quadrados foram destruídos entre 2017 e 2018. Mas consórcios de mineradoras e o agronegócio pressionam por uma maior abertura da floresta.

Jair Bolsonaro quer realizar seus desejos. O próximo presidente não acredita que a seca crescente no Sudeste do Brasil poderia ter algo a ver com a ausência de formação de nuvens sobre as áreas desmatadas. E ele não acredita nas mudanças climáticas. Para ele, ambientalistas são subversivos.

Existe um consenso entre os cientistas conhecedores do assunto no mundo inteiro: dizem que a Terra está se aquecendo drasticamente por causa das emissões de dióxido de carbono do ser humano e que isso terá consequências catastróficas. Mas Bolsonaro, igual a Trump, prefere não ouvi-los. Prefere ignorar o problema.

Para o próximo ministro brasileiro do Exterior, Ernesto Araújo, o aquecimento global é até um complô marxista internacional. Ele age como se tivesse alguma noção de pesquisas sobre o clima. É exatamente esse o problema: a ignorância no Brasil de hoje conta mais do que o conhecimento. O Brasil prefere acreditar num diplomata de terceira categoria do que no Instituto Potsdam de Pesquisa sobre o Impacto Climático, que estuda seriamente o tema há trinta anos.

Araújo, aliás, também diz que o sexo entre heterossexuais ou comer carne vermelha são comportamentos que estão sendo “criminalizados”. Ele fala sério. Ao mesmo tempo, o Tinder bomba no Brasil. E, segundo o IBGE, há 220 milhões de cabeças de gado nos pastos do país. Mas não importa. O extremista Araújo não se interessa por fatos, mas pela disseminação de crenças. Para Jared Diamond, isso é um comportamento caraterístico de sociedades que fracassam.

Obviamente, está claríssimo que a restrição do pensamento começa na escola. Por isso, os novos inquisidores se concentram especialmente nela. A “Escola Sem Partido” tenta fazer exatamente isso. Leandro Karnal, uma das cabeças mais inteligentes do Brasil, com razão descreve a ideia como “asneira sem tamanho”.

A Escola Sem Partido foi idealizada por pessoas sem noção de pedagogia, formação e educação. Eles querem reprimir o conhecimento e a discussão.

Karl Marx é ensinado em qualquer faculdade de economia séria do mundo, porque ele foi um dos primeiros a descrever o funcionamento do capitalismo. E o fez de uma forma genial. Mas os novos inquisidores do Brasil não querem Marx. Acham que o contato com a obra dele transformaria qualquer estudante em marxista convicto. Acreditam que o próprio saber é nocivo – igual aos inquisidores. E, como bons inquisidores, exortam à denúncia de mestres e professores. A obra 1984, de George Orwell, está se tornando realidade no Brasil em 2018.

É possível estender longamente a lista com exemplos do regresso do país: a influência cada vez maior das igrejas evangélicas, que fazem negócios com a credulidade e a esperança de pessoas pobres. A demonização das artes (exposições nunca abrem por medo dos extremistas, e artistas como Wagner Schwartz são ameaçados de morte por uma performance que foi um sucesso na Europa). Há uma negação paranoica de modelos alternativos de família. Existe a tentativa de reescrever a história e transformar torturadores em heróis. Há a tentativa de introduzir o criacionismo. Tomás de Torquemada em vez de Charles Darwin.

E, como se fosse uma sátira, no Brasil de 2018 há a homenagem a um pseudocientista na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, que defende a teoria de que a Terra seria plana, ou “convexa”, e não redonda. A moção de congratulação concedida ao pesquisador foi proposta pelo presidente da AL e aprovada por unanimidade pelos parlamentares.Jared Diamond,Colapso,Literatura,Livros,Brasil,Marxismo,Escola sem partido,Bolsonaro

Philipp Lichterbeck queria abrir um novo capítulo em sua vida quando se mudou de Berlim para o Rio, em 2012. Desde então, ele colabora com reportagens sobre o Brasil e demais países da América Latina para os jornais Tagesspiegel (Berlim), Wochenzeitung (Zurique) e Wiener Zeitung. Siga-o no Twitter em @Lichterbeck_Rio.

Paulo Velez,Ministro da Educação,Brasil,Escola sem partido

Novo Ministro da Educação terá orçamento que fará fortuna para membros do governo

Paulo Velez,Ministro da Educação,Brasil,Escola sem partido

JAIR BOLSONARO nÃO poderia ter escolhido um comandante para o Ministério da Educação mais alinhado ao que defende para o setor. O colombiano naturalizado brasileiro Ricardo Vélez Rodríguez acredita que o sistema de ensino estaria contaminado por uma “doutrinação de índole cientificista e enquistada na ideologia marxista” e “destinado a desmontar os valores tradicionais da nossa sociedade”.

Caberá a ele definir prioridades para um orçamento de mais de R$ 120 bilhões, o terceiro maior da União (atrás de Desenvolvimento Social e Saúde), e discutir temas que são caros ao presidente eleito e seus apoiadores, mas que estão longe de consenso na sociedade e no meio político – como a Escola sem Partido.

Indicado pelo filósofo de extrema direita Olavo de Carvalho, Rodríguez é professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e professor associado da Universidade Federal de Juiz de Fora. Em seu blog pessoal, ele publicou, antes de ser confirmado no cargo, um “roteiro para o MEC”, no qual defende que a educação seja recolocada “a serviço das pessoas” e não para “perpetuar uma casta que se enquistou no poder”. Ele também chama o golpe militar de 1964 de “intervenção” e acha que o Enem é “instrumento de ideologização”. Em outra postagem, de setembro de 2017, opinou sobre o projeto Escola sem Partido: “uma providência fundamental”.

No ensino privado, temas como a Escola Sem Partido tem mais entrada, já que as instituições ficam livres para desenharem seus currículos ao sabor do mercado.
Mas não é só uma questão ideológica. O projeto Escola sem Partido, uma lei que propõe abordagens “neutras”, como tratar a ditadura militar brasileira como “contra-revolução democrática de 31 de Março de 1964″, e sem educação sexual para livrar salas de aula de “doutrinação de esquerda”, também envolve dinheiro. E alguns dos mais interessados estão justamente na base do presidente eleito.

As propostas de Bolsonaro para a Educação valorizam o ensino privado, em que temas como a Escola Sem Partido acabam tendo mais entrada, já que as instituições ficam mais livres para desenharem seus currículos educacionais ao sabor do mercado. Já foi anunciado que haverá corte de recursos para universidades públicas, e a equipe analisa a cobrança de mensalidade em instituições federais e a distribuição de “vouchers” para alunos de baixa renda estudarem nessas instituições. O próximo governo também quer priorizar o ensino à distância, considerado mais barato que o convencional. Bolsonaro já defendeu o ensino privado e à distância como forma de combater o “marxismo”.

Se for aprovado, além de satisfazer a onda conservadora que varre o país, o Escola Sem Partido também será uma ótima oportunidade de negócio para empresas de educação, sejam elas escolas ou editoras que imprimem livros didáticos. Publicações e currículos terão de ser reescritos, e quem se adiantar ao projeto larga em vantagem.

Um dos principais beneficiados com o projeto é o seu guru da Economia, Paulo Guedes. Nos últimos anos, o Posto Ipiranga do novo presidente teve como foco de investimento justamente o setor de educação particular, que agora deve florescer.

Os negócios em educação de Guedes podem lucrar em duas frentes: com o reforço da educação privada e com as mudanças que podem ocorrer nos próximos anos com o Escola Sem Partido.

Paulo Guedes é um dos principais beneficiados com o Escola Sem Partido. Nos últimos anos, o Posto Ipiranga teve como foco justamente o setor de educação particular.
Na Bozano Investimentos, ele investiu em grupos de escolas, universidades e editoras de livros escolares, prevendo que o ensino particular iria trazer maior retorno. As empresas que fazem parte da cartela da Bozano reúnem, hoje, centenas de milhares de estudantes. O bom desempenho garantiu retorno financeiro à Bozano (e, por consequência, a Guedes).

Um deles é o autointitulado maior grupo educacional do mundo – o Kroton. Ele alcançou a posição após comprar a Somos Educação. Esta, por sua vez, cresceu vertiginosamente nos últimos anos. Para isso, recebeu ajuda: investimentos da empresa de Guedes.

Não fica claro quanto, exatamente, foi parar no bolso do economista. Os balanços operacionais da Bozano foram retirados do site recentemente. Mas, se as empresas investidas têm lucro, os fundos de Guedes recebem mais dinheiro, e uma parte é dividida entre os sócios.

Para se ter uma ideia, em 2012, quando entrou no fundo BR Educacional, uma gestora de ativos pertencente a Guedes, o grupo Anima projetou que passaria de 42 mil para 100 mil alunos. Foi o que aconteceu. No balanço de resultados deste ano, o grupo apontou ter chegado aos 97,9 mil estudantes. O lucro bruto, no primeiro semestre deste ano, foi de R$ 246 milhões contra R$ 70 milhões no começo de 2012. O MPF está investigando o fundo por suspeita de irregularidades na gestão de dinheiro de fundo de estatais.

Curiosamente, no mesmo texto em que traça um “roteiro para o MEC”, o novo ministro da Educação critica empresas financeiras que, “através de fundos de pensão internacionais, enxergam a educação brasileira como terreno onde se possam cultivar propostas altamente lucrativas para esses fundos”. Resta saber se ele será tão duro assim com os negócios de Guedes, seu colega de primeiro escalão.

Izalci Lucas,Bolsonaro,Paulo Velez,Ministro da Educação,Brasil,Escola sem partidoUm dos autores do Escola Sem Partido, o deputado Izalci Lucas, é um velho defensor do ensino particular. Foto: AP Photo/Eraldo Peres

Lobby no Congresso
Não é só Paulo Guedes que tem interesse no Escola sem Partido. Um dos autores do projeto de lei sobre o assunto na Câmara, o deputado Izalci Lucas, é um velho defensor do ensino particular. Ele diz, no projeto, que a “ideologia de gênero” estaria sendo usada em sala de aula para destruir famílias. Izalci foi eleito para o Senado e já declarou apoio a Bolsonaro. Ele é presidente do PSDB do Distrito Federal e integrante da bancada da Bíblia.

Izalci ainda consta como sócio de instituições de ensino em Brasília, apesar de alegar que se afastou dos negócios quando entrou na política. Ele também já foi presidente do sindicato do setor duas vezes. Enquanto líder sindical, criou o Cheque Educação, que oferecia descontos de até 50% na mensalidade de universidades particulares para estudantes de baixa renda – proposta muito parecida com o voucher de Guedes. Uma de suas propostas de lei pede isenção de impostos para instituições de ensino privadas.

Em 2014, a sua campanha à Câmara foi financiada por grandes grupos educacionais. As doações somaram R$ 218 mil, cerca de um quarto do total arrecadado por ele na época. A prestação de contas da campanha de 2018 ainda não foi divulgada.

Se não for à votação este ano, a partir de 2019 a Escola Sem Partido terá o trâmite facilitado.
O projeto Escola sem Partido ainda deverá ser aprovado no plenário da Câmara e do Senado. Nos próximos dias, o Supremo Tribunal Federal pode decidir sobre uma lei do Alagoas semelhante à Escola sem Partido. Mesmo valendo apenas para o estado, a decisão irá firmar a posição da Corte sobre o assunto.

Se não for à votação este ano, a partir de 2019 o trâmite será facilitado, pois o PSL, partido de Bolsonaro, terá a segunda maior composição da Casa. Foram eleitos notórios apoiadores da medida, como Joice Hasselmann, Alexandra Frota e Kim Kataguiri, que trabalharão para ela ser aprovada.

No ano passado, a ONU manifestou preocupação com a proposta. Relatório enviado ao governo brasileiro diz que a proposição permite “alegar que um professor está violando as regras pelo fato de autoridades ou pais subjetivamente considerarem a prática como propaganda político-partidária”, e poderá retirar das salas de aula “discussões de tópicos considerados controversos ou sensíveis, como discussões de diversidade e direitos da minorias”.

Dos 45 deputados que integram a comissão especial na Câmara, a maioria (23) pertence à bancada evangélica. O presidente, Marcos Rogério, do PDT de Rondônia, se diz defensor dos “valores da família e princípios cristãos”. Os primeiro e segundo vice-presidentes são pastores evangélicos.

O relator do projeto na comissão, deputado Flavinho, do PSC de São Paulo, diz em seu parecer que é possível que uma criança mude de sexo por influência dos professores. O texto foi chamado de “brilhante” por Miguel Nagib, procurador de São Paulo que criou uma empresa e uma associação com o nome Escola sem Partido. Ele dá palestras sobre o assunto pelo país, e lucra com isso.

A bandeira também é defendida publicamente por grupos neoliberais como o Movimento Brasil Livre e o Revoltados Online – este último tem como uma de suas coordenadoras uma cunhada de Nagib.

Sem partido mas com a conta cheia
No mercado editorial, há expectativa entre as editoras de material didático de que sejam aplicadas regras da Escola sem Partido no próximo edital para compra de livros didáticos (o governo é o maior comprador), de acordo com Carlo Carrenha, editor e fundador do Publishnews. Algumas se adiantaram e já estão adaptando os materiais, numa espécie de autocensura. “Tenho ouvido de escritores e ilustradores que não pode mais aparecer criança nua tomando banho, por exemplo. Isso seria pornografia’”, afirma Volnei Canônica, especialista em literatura infantil e diretor do clube de livros Quindim.

A professora Fernanda Moura, que estudou o Escola sem Partido para a dissertação de mestrado, defende que o movimento é moralista na aparência, mas esconde interesses econômicos. A ideia é criar pânico, como se os estudantes realmente estivessem aprendendo sobre socialismo e educação sexual de forma inadequada. “Assim, aumenta-se o mercado para materiais didáticos e aulas prontas, e também a demanda por matrículas em sistemas particulares de ensino nos quais os professores têm autonomia extremamente restrita”, afirma.
TheIntercept

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Escola sem partido: o fim do pensamento crítico em um ‘admirável mundo novo’

Brasil,Educação,Política,Escola sem partidoA escola sem partido e os ataques às universidades não são simplesmente ideias mirabolantes de um homem sem noção: são talvez o que há de mais perigoso num país que já sofre com a falta de educação crítica.

Estava ouvindo as entrevistas que a BBC fez, no começo do mês, com dois importantes brasilianistas, os professores Tim Power, da Universidade de Oxford, e Anthony Pereira, do Brazil Institute, King’s College.

Nenhum dos dois se destacou, como outros brasilianistas, por terem se manifestado contra o processo de impeachment no Brasil ou a prisão de Lula.

Mas resolvi ler os comentários deixados pelos ouvintes sobre os professores e suas análises. Apesar de chocantes, estes comentários em nada me surpreenderam.

Primeiro o ataque tosco aos indivíduos Tim Power e Anthony Pereira, com a sua total desqualificação. Diziam os cultos ouvintes que, apesar de fazerem do Brasil o objeto de estudo de suas vidas inteiras, os professores não estariam qualificados para falar sobre o Brasil, simplesmente porque não moravam no país.

E mais, Pereira não poderia saber de nada do Brasil porque chamou o PT de social-democrata, quando sabemos todos que, na realidade, o PT é comunista. Mas a coisa pegou mesmo feio para Pereira, especialista em direitos humanos, porque ousou dizer que o MST e o MTST tinham direito legítimo de existir numa democracia.

Power, especialista em instituições políticas e partidos, é desqualificado porque demonstra alguma ressalva em relação à nomeação de Moro como ministro, antecipando que a aceitação poderia macular a imagem da Lava-Jato. Power seria, portanto, um esquerdopata porque, como todos sabemos, o PT é corrupto e a ascensão de Moro à posição de ministro só poderia ser vista como coisa boa, afinal ele trará a agenda anticorrupção ao cerne do governo e quem poderia achar isso ruim?

Contemplei responder aos comentários feitos no site e decidi não o fazer.

Por que? Simplesmente não tenho as ferramentas necessárias para conversar com estes indivíduos. Minhas palavras não são capazes de quebrar a muralha que existe entre nós.

A direita, o establishment e a mídia clamam o tempo todo a tal ‘autocrítica’ do PT, sem olharem para os seus próprios umbigos. (Será que eles acham que protagonismo político deles é tão irrisório, de tão pouca consequência, que só o PT importa aos rumos do país?).

Pois bem, como pessoa de esquerda, entrarei no jogo e farei um pouco da clamada ‘autocrítica’.

A esquerda errou sim: foi incapaz de travar a guerra das narrativas. Não estou nem mesmo falando de ganhar esta guerra. Estou simplesmente dizendo que a ‘guerra das narrativas’ nem fez parte das concepções daquilo que deveria ter sido parte de um governo que se diz de esquerda ou centro-esquerda.

E não é só o PT, ou a esquerda brasileira, que deve ser culpada por isso, mas todas as esquerdas mundiais. Fomos incapazes de ver o estrago que a narrativa e as práticas neoliberais fariam à esquerda e, na verdade, ao liberalismo também.

Porque, afinal, se tudo pode ser comprado e vendido, se tudo é negócio que precisa ter sustentabilidade econômica, então a informação, os fatos, as opiniões e a verdade, também são moedas de troca. E como estamos vendo, o mercado de informações está causando muitos danos não só à democracia brasileira, que parece ter sido singularmente afetada, mas às democracias de todas as partes do mundo.

Discute-se se Trump ganhou as eleições com a ajuda de centros de informações situados na Rússia e no leste europeu. A Cambridge Analytica, que tanto afetou o Brexit, como outras eleições, comprou dados pessoais para trabalhar os perfis de usuários das redes virtuais e canalizar informações falsas àqueles indivíduos mais propensos a acreditarem em certas versões.

Nem precisamos falar de Bolsonaro e do seu uso, até onde sabemos, inédito do WhatsApp.

Com a caída do Muro de Berlim, o consenso nos induzia a acreditar que já não haveria esquerda e direita, só técnica.

Como nos diz Marilena Chauí, o neoliberalismo reinante neste novo mundo da não ideologia nos faz crer que todas as instituições seriam iguais e todas se beneficiariam do tratamento empresarial se quiséssemos ter êxito, fossem elas governos, hospitais, mídia, teatros ou supermercados, sem esquecer, é claro, das novas empresas digitais que em tão pouco tempo dominaram o mundo.

Mas parece que não foi só parte da esquerda que resistiu (apesar de não querer mudar opiniões), à essa narrativa. Elementos milionários da direita se aproveitaram da aparente ‘trégua’ dos conflitos entre as classes sociais para tirar vantagens para si.

Assim, o tal mercado tomou conta de absolutamente tudo, os sindicatos perderam força, as empresas nacionais e o setor público foram privatizados, ou terceirizados, os impostos foram reduzidos a tal nível que as grandes fortunas se avolumaram de maneira nunca vista antes.

E o que estão fazendo com toda essa dinheirama, estes milionários? Alguns estão usando sua imensa fortuna, como os irmãos Koch, para espalhar as suas ideologias. Assegurar, que todo pensamento e, pior, prática de esquerda seja eliminada. Aqueles que tem algum poder aquisitivo alto não só financiam campanhas políticas, como fez o ‘pequeno’ dono da Havan, mas apoiam ou montam fundações políticas, patrocinam workshops, palestras e cursos e apoiam candidatos que tenham um impacto transformacional na política.

Num artigo publicado no Guardian chamado “Como os irmãos Koch construíram o mais poderoso grupo de direita que você jamais ouviu falar” explica como a “Americans for Prosperity” (Americanos pela Prosperidade), financiada pelos Koch e outros bilionários, conseguiu mudar a política no Estado de Wisconsin, nos Estados Unidos.

Como? De maneira muito simples, elegendo e apoiando um governador que introduziu uma lei para retirar o poder do que era até então o poderoso sindicato dos servidores públicos do Estado.

Passada a lei pelos Republicanos, com o apoio do governador, financiado, a filiação do sindicato caiu em mais de 50%, o que foi pouco a pouco reduzindo a chance dos Democratas de ganharem no Estado. E sem dúvida, diz o artigo escrito por professores das Universidades de Columbia e Harvard, o fato que Trump ‘surpreendentemente’ ganhou em Wisconsin, um estado tradicionalmente Democrata, provavelmente se deve, em parte, ao enfraquecimento dos sindicatos.

Outro impacto

Mas o neoliberalismo tem outro impacto, o que reduz ainda mais nossa capacidade de combater o que está acontecendo.

A lógica do mercado, pelo menos em teoria, é a lógica daquilo que vende, o sucesso rápido, imediato através da popularidade fácil, não havendo tempo, recursos ou espaço para aquilo que está fora dos parâmetros – a não ser em nichos especializados, que as pessoas ricas, ou pelos menos as que têm mais recursos, possam usufruir a um preço mais alto.

O resultado foi banalização e a simplificação do complexo em duas áreas críticas: a educação e a mídia.

Quando a educação vira uma máquina de passar exames – porque é isso que vende – não há tempo ou espaço para a leitura, o pensamento crítico, o criativo. Exatamente o que precisamos para combater essa enxurrada de tentativas de lavagens cerebrais e informações falsas.

Infelizmente, mesmo ainda sem a introdução da ‘escola sem partido’ e o cerceamento das universidades, parece que a população brasileira não estava preparada para lidar com este admirável mundo novo.

Vou dar um exemplo pessoal. Meu filho, apesar de ávido leitor no inglês (chegou ao Brasil com 11 anos de idade), conseguiu entrar na Universidade Federal de Santa Catarina sem nunca ter lido um livro inteiro em português (não estou exagerando). Sua ‘educação’ nas áreas humanas consistiu em citações e passagens de livros e respostas em escolha múltipla. E a educação de meu filho se deu em duas das ‘melhores’ escolas particulares de Florianópolis. Isto é, não é o ensino público, não são os ‘pobres’ ou o Estado brasileiro omisso os únicos culpados pela tão mencionada ‘má qualidade da educação brasileira’ (então por favor, vamos parar de pôr a culpa nos pobres): o mercado educacional das escolas privadas também tem culpa.

Não estou dizendo que todos os alunos não leem livros, mas que é possível chegar à universidade no Brasil sem jamais ter lido um livro inteiro. Meu filho é prova disso.

Suspeito também que a imbecilidade que vemos sair da boca de juízes e procuradores, e demais profissionais com curso superior seja também resultado desta ‘educação faltante’. Outro exemplo: quando trabalhava como professora de inglês, meus alunos eram pessoas inteligentes, pós-graduandos, gente que trabalhava em empresas de ponta, muitos, grandes conhecedores de suas próprias áreas de estudos, especialistas de qualidade em questões específicas, mas que tinham um conhecimento geral extremamente básico – e ainda mais deficiente quando se tratava do mundo fora do Brasil.

Meu filho foi educado em Santa Catarina, o Estado ‘europeu’, que deu a Bolsonaro mais de 75% dos votos válidos.

Repito, um dos Estados considerados mais ricos e desenvolvidos do país deu mais de 75% dos votos a Bolsonaro: um candidato que mal apresentou propostas e encheu as redes de fake news.

Não estou querendo desqualificar ninguém, somente dizer que mais do que nunca precisamos de um bom ensino de humanas, das artes e das ciências sociais.

O que precisamos

Num mundo cada vez mais soterrado por informação – informação essa que é comprada, manipulada ou inventada por quem tem dinheiro – precisamos de pensamento crítico, precisamos saber questionar fontes, precisamos que nossos cidadãos se interessem em ler para além das manchetes, saibam discernir entre fato e opinião, questionar a lógica –e a motivação – de um texto.

Não é por acaso que o presidente eleito quer emplacar seu projeto de ‘escola sem partido’. Não é por acaso que alguns “minions” dizem que só as ‘ciências exatas’ deveriam existir.

Lendo o programa de governo de Bolsonaro, para além da linguagem rasa, a falta de propostas bem elaboradas e de associações pseudocientíficas malfeitas, o que perpassou foi o desejo de tornar o Brasil um ‘tigre asiático’.

Estes países podem ser louvados pela sua capacidade econômica, mas não são conhecidos pela qualidade de suas democracias ou a liberdade dos seus cidadãos. Suspeito que, apesar de se saírem bem nos rankings de educação mundial, que no geral examinam a matemática, as ciências exatas e o conhecimento da língua materna, o estudo das ciências sociais e humanas não seja o forte destas nações.

Num país, como o Brasil, onde a mídia é majoritariamente propriedade de algumas famílias, onde não há diversidade e é tendenciosa, é importante saber interpretar e entender as entrelinhas e nunca se fiar nas manchetes, que muitas vezes nada tem a ver com o conteúdo das matérias.

E vejam, se há um consenso nestas eleições é que tanto os eleitores de esquerda quanto os de direita não confiam mais na mídia. É por isso que tantos acreditaram mais na informação que recebiam dos amigos e parentes no WhatsApp do que liam (quando liam) nos jornais, ou viam na televisão.

Acontece que mesmo sem confiar, não podemos totalmente descartar as notícias que chegam a nós através da mídia tradicional. Em sociedades complexas não podemos ter acesso direto a tudo, e se não somos especialistas em todas as áreas, então precisamos dos jornalistas para investigar os fatos e trazê-los até nós. E mesmo quando os fatos chegam misturados com opiniões, ou são mal pesquisados, enviesados ou vetados, ainda assim precisamos deste trabalho para ter ao menos uma noção de outras coisas que não são só nossas tendenciosas experiências pessoais.

Aí está a necessidade de estarmos preparados para lidar com a informação. Não é o caso de simplesmente rejeitar tudo que se lê na Folha de São Paulo, por exemplo, ou no Estadão. Mas é necessário saber interpretar.

E, principalmente, não podemos aceitar que boa parcela da sociedade simplesmente dispense do conhecimento gerado nas universidades, como aparenta ser o desejo deste novo governo.

Pode-se fazer muitos paralelos entre o Brexit, as eleições do Trump e do Bolsonaro, e um deles certamente é a rejeição ‘dos especialistas’ e de seu conhecimento. A maneira encontrada pelos ‘Brexiteers’ para lidar com os centenas de economistas que advertiram contra o Brexit foi desqualificando-os, chamando-os de elites sem noção, ou pessoas com o rabo preso.

Repito, a questão não é aceitar acriticamente o que dizem os especialistas, precisamos questionar o que os especialistas dizem também, mas precisamos ter as ferramentas para saber de onde vem a informação e para analisá-la, e saber quando, o quê, e por quê rejeitar alguma ideia.

Voltando ao exemplo que dei anteriormente, é razoável discordar das ideias que Anthony Pereira expõe na BBC. Não é razoável chamá-lo de comunista simplesmente porque não concordamos com ele.

A ‘escola sem partido’ e os ataques às universidades não são simplesmente ideias mirabolantes de um homem sem noção. São talvez o que há de mais perigoso num país que já sofre com a falta de educação crítica.
Mariana Noviello

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Educação, o primeiro ‘front’ da guerra cultural do Governo Bolsonaro

Adepta do Escola sem Partido, futura gestão cogita revisionismo sobre a ditadura, além de incentivar vigilância a professores para “expurgar Paulo Freire” das escolas. Paulo Freire,Política,Brasil,Educação,BolsonaroAntes mesmo de ganhar a eleição, Jair Bolsonaro já aparecia em vídeos convocando pais e alunos a delatar professores que promovam, segundo suas palavras, “doutrinação ideológica”. Agora, políticos do PSL incentivam o patrulhamento contra “o comunismo e a ideologia de gênero”. Eleita deputada estadual por Santa Catarina, Ana Caroline Campagnolo criou um canal para denúncias contra professores. Nesta quinta-feira, a Vara da Infância e da Juventude acatou representação do Ministério Público Estadual e considerou ilegal o canal mantido por Campagnolo, determinando também a retirada do ar de vídeos em que ela aparece conclamando pais e alunos a denunciarem.

Educação, o primeiro ‘front’ da guerra cultural do Governo Bolsonaro Universidade paga, ‘vouchers’ e ensino à distância: os planos da gestão Bolsonaro.

Não se trata de iniciativas isoladas, pelo contrário. A pregação contra a suposta sexualização de crianças nas escolas e a “doutrinação” de esquerda na educação são facetas centrais da campanha vitoriosa de Bolsonaro, que também estão presentes na estratégia de mobilização de forças conservadoras e de extrema direita pelo mundo, parte das chamadas “guerras culturais”. Uma semana após a votação, já há sinais de que a Educação será um dos primeiros fronts do bolsonarismo que chega ao poder.

Na Câmara dos Deputados, na euforia após a vitória do capitão reformado do Exército, o tema também se moveu. O projeto “Escola sem Partido”, que veta várias práticas, entre elas o uso da palavra “gênero” e da expressão “orientação sexual” nas escolas, foi pautado para ser discutido em uma comissão especial. A votação acabou, no entanto, adiada.

“Esse tema não é apenas do Parlamento. Ganhou as ruas. É um tema do Brasil. Pautaremos na próxima semana para debate democrático”, prometeu o deputado presidente da comissão, Marcos Rogério (DEM-RO).

Os efeitos já são sentidos em escolas e universidades pelo país, que registraram nos últimos dias episódios de denúncias a professores e rusgas entre apoiadores e detratores de Bolsonaro. Em Fortaleza, o professor de história Jam Silva Santos foi acusado de doutrinação após exibir o filme Batismo de Sangue, baseado em um livro de Frei Betto sobre a ditadura, a estudantes do ensino médio no colégio Santa Cecília. Um aluno gravou trecho do filme que parou nas redes sociais, onde Santos sofreu linchamento virtual sob a alegação de crítica velada a Bolsonaro. Na segunda-feira, ele foi recebido no colégio com aplausos dos estudantes, que consideraram injustas as críticas ao professor. Ele exibe o filme em suas aulas há cinco anos e nunca havia tido problemas semelhantes.

De acordo com o Sindicato dos Professores do Ceará (APEOC), os casos de denúncias por suposta “doutrinação ideológica” têm crescido no Estado este ano. Desde janeiro, pelo menos cinco professores, além de Jam Silva Santos, estiveram sob a mira de críticos nas redes sociais.

Um deles é Euclides de Agrela, professor de história e sociologia da Escola Estadual Otávio Terceiro de Farias, em Fortaleza. Uma discussão entre ele e um aluno, expulso de sala depois de ofendê-lo, foi filmada e viralizou em páginas de apoio a Bolsonaro, que atrelaram a fala do professor sobre atitudes “nazifascistas” atribuídas ao ex-capitão à sua militância pelo PSOL, partido ao qual é filiado.

Agrela admite que se exaltou e teve reação descabida à confrontação do estudante bolsonarista, mas condena a divulgação fora de contexto dos vídeos em sala de aula, que lhe rendeu ameaças de morte. “Tive que sair de casa por alguns dias. Um clima de terror.” O vice-presidente da APEOC, Francisco Reginaldo Pinheiro, afirma que o sindicato criou um canal para prestar apoio a educadores vítimas de intimidação e patrulhamento nas escolas. “Defendemos a liberdade de ensino. Existem espaços adequados para queixas de pais e alunos. Expor o professor em rede social é perigoso, coloca sua segurança em risco. Infelizmente isso está se tornando recorrente por causa da polarização ideológica motivada pela política”, diz Pinheiro.

Paulo Freire e os grandes males
O plano de governo em educação é considerado vago em vários pontos como valorização do professor ou reforma do ensino médio, mas a equipe de Bolsonaro explicita bem suas prioridades. Aponta que “um dos maiores males atuais é a forte doutrinação” e promete “expurgar a ideologia de Paulo Freire”, o patrono da educação brasileira, embora atualmente as bases curriculares tanto do ensino fundamental quanto do médio não façam referência aos métodos do educador. “A rejeição a Paulo Freire é uma estratégia narrativa”, afirma Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação e ex-candidato ao Senado pelo PSOL. “Porque ele simboliza o estímulo ao senso crítico e a própria pedagogia, que, na visão de Bolsonaro, significam doutrinação.”

Cara não está sozinho na avaliação. “O que Paulo Freire preconiza é aceito no mundo inteiro. Estive em Cingapura, primeiro lugar no (teste educacional) Pisa, e eles citaram Paulo Freire como alguém que inspira o país a buscar as aspirações educacionais que desejam”, disse à revista Nova Escola Cláudia Costin, coordenadora do Centro de Excelência e Inovação de Políticas Educacionais (CEIPE) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e ex-diretora do Banco Mundial.

Outro desejo do futuro Governo é, também, a reinserção no currículo escolar das disciplinas de educação moral e cívica, algo abolido após o fim da ditadura militar. Durante a campanha, o general Aléssio Ribeiro Souto, um dos designados por Bolsonaro para elaborar o plano de educação, chegou a questionar a teoria da evolução e defender o criacionismo no ensino de ciências. “Se a pessoa acredita em Deus e tem o seu posicionamento, não cabe à escola querer alterar esse tipo de coisa”, afirmou Souto.

Souto também prega uma revisão do período ditatorial nas aulas de história, exigindo que se conte “a verdade” sobre o regime. “É uma concepção autoritária da educação”, diz Luiz Carlos de Freitas, pesquisador e professor aposentado da Unicamp. “Enxergam qualquer pensamento diferente do deles como um risco, que deve ser combatido com disciplina e repressão. E, ao combaterem uma possível ideologia com a imposição de suas crenças, acabam caindo na contradição de promover doutrinação às avessas. É um retrocesso.” Atualmente, ao contrário do material didático adotado em colégios militares, que se referem ao golpe militar como “revolução de 1964”, os livros do MEC definem o regime como uma ditadura. O criacionismo consta na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Já a educação sexual, que tanto mobiliza Bolsonaro, já vem sendo atacada há anos e é tratada apenas de maneira transversal com foco em sexualidade no último ano do ensino fundamental.

Os obstáculos para colocar as ideias em prática
Para colocar em prática as propostas direcionadas à área a partir do próximo ano, Bolsonaro terá de entrar em rota de colisão com as diretrizes do Plano Nacional de Educação (PNE) e da Base Nacional Comum Curricular, além de apelar à influência no Congresso. As propostas de revisão de currículo nas escolas se chocam com determinações recentes do Conselho Nacional de Educação, órgão independente que auxilia as tomadas de decisão do MEC e é responsável pela definição da Base Curricular. A reforma do ensino infantil e fundamental já está finalizada, enquanto a do ensino médio deve ser concluída até o fim do ano. Como os mandatos de conselheiros do órgão foram renovados por Michel Temer, Bolsonaro teria de esperar pelo menos dois anos para mudar parte da mesa diretora, que hoje prioriza o enxugamento de disciplinas e tem praticamente fechada a lista de livros didáticos recomendados nas escolas.

Por muito tempo nossas instituições de ensino foram tomadas por ideologias nocivas e inversão de valores, pessoas que odeiam nossas cores e Hino. Hastear uma bandeira do Brasil não tem relação com política, mas com o orgulho de ser brasileiro e a esperança de tempos melhores.

Se quiser impor as ideias de seus correligionários já no início de mandato, entre elas o revisionismo da ditadura, que, segundo o general Souto, passa pela eliminação de livros que “não tragam a verdade sobre 1964 [ano do golpe militar]”, criacionismo, ensino de moral e cívica e foco nas matérias de ciência, matemática e português, o novo governo precisaria transferir para o Congresso o poder de determinar as disciplinas no currículo. “Bolsonaro já deu mostras de desprezo pelas regras do jogo democrático”, critica Daniel Cara. “O caminho para emplacar suas medidas na Base Curricular seria um rompimento institucional com o Conselho.”

Olavo Nogueira Filho, diretor do movimento Todos Pela Educação, lamenta que os planos para educação não tenham sido debatidos na campanha e critica a falta de profundidade dos projetos de Bolsonaro, cujo plano conclui dizendo que a educação precisa “evoluir para uma estratégia de integração” entre os governos federal, estadual e municipal, sem maiores detalhes. “Infelizmente, o debate sobre políticas educacionais não ocorreu nessas eleições. Há muitas propostas em discussão na esfera suprapartidária. Espero que o novo governo esteja disposto a ouvi-las para buscar avanços duradouros na área.”

PAGAR POR UNIVERSIDADE PÚBLICA DEPENDE DE MUDANÇA NA CONSTITUIÇÃO
No plano já ventilado por apoiadores de Bolsonaro, há propostas como a cobrança de mensalidade nas universidades que dependem de alterações na Constituição – a gratuidade está prevista em todos os níveis do ensino público. Para revogar as cotas raciais, desejo antigo do presidente de extrema direita, que pretende manter apenas as cotas sociais, ele teria de mexer na lei de 2012 que reserva vagas para estudantes negros e indígenas nas instituições federais. As emendas dependeriam de aprovação em dois turnos na Câmara e no Senado. Pelos acenos favoráveis a seu partido, que elegeu a segunda maior bancada de deputados, o governo não teria grandes entraves para aglutinar maioria em torno dos projetos, mas corre o risco de desperdiçar capital político previsto para reformas que lhe exigirão mais esforços, como a tributária e a da Previdência.

Dentro da intenção de levar ordem e disciplina ao ambiente escolar, se destaca a proposta de construir um colégio militar em cada capital brasileira. Hoje existem 13 instituições de ensino fundamental e médio vinculadas ao Exército no país, sendo 11 delas localizados em capitais. O custo por aluno nesse modelo é três vezes maior que o da escola pública.

Além do investimento, o desempenho dos colégios militares costuma ser inflado pelo fato de adotarem processos seletivos na admissão de estudantes. A promessa de campanha, entretanto, teria pouco impacto no contexto de problemas complexos da educação nacional.

“O Brasil tem mais de 40 milhões de alunos. Somos um país que carece de políticas públicas para resolver a dificuldade de acesso e permanência nas escolas, especialmente entre a população mais vulnerável.Os colégios militares são um recurso de baixo alcance, que, no fim das contas, acabam beneficiando os estudantes de melhor condição”, afirma Anna Helena Altenfelder, presidente do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec).
ElPais