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Meio Ambiente: O ar que você respira pode agravar a pandemia

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O Brasil, até 3 de junho de 2020, havia atingido mais de 580 mil casos e 32 mil óbitos confirmados por Covid-19. O país já é o 2º com maior número de casos, após os EUA; o 4º com maior mortalidade, e o 10º em número de mortes por 100 mil habitantes.

Pesquisas recentes apontam que a poluição do ar pode levar ao aumento de número de novos casos e mortes por Covid-19, revelando ainda mais a estreita relação da saúde com os impactos da ação humana no meio ambiente. O Brasil, até 3 de junho de 2020, havia atingido mais de 580 mil casos e 32 mil óbitos confirmados por Covid-19. O país já é o 2º com maior número de casos, após os EUA; o 4º com maior mortalidade, e o 10º em número de mortes por 100 mil habitantes.

Como agravante deste cenário, pesquisadores da Universidade de São Paulo averiguaram o aumento de 30% (6.061) do número de mortes nas cinco cidades brasileiras mais acometidas pelo coronavírus em relação aos anos anteriores e revelaram ainda que, deste total, mais de 60% delas não se devem aos casos de Covid-19 e sim por outras causas. Trata-se do número mais relevante para entender o impacto real da pandemia na sociedade por dois motivos: a subestimação nos números oficiais de óbitos por Covid-19, principalmente devido à falta de testes diagnósticos e; a ampliação de mortes por outras causas como reflexo da sobrecarga no sistema de saúde.

Enquanto a Universidade Imperial College, da Inglaterra, mostrava que o Brasil possui o maior índice de transmissibilidade do vírus entre 48 países, estimativas de uma pesquisa liderada pelo “Grupo Covid-19 Brasil”, formado por cientistas de mais de 10 universidades brasileiras, apontam que o número de casos da doença é 14 vezes maior que os registros oficiais – mais de 1,6 milhão – ultrapassando os Estados Unidos, – dados que colocam o Brasil como o atual epicentro global da pandemia.

Ao encontro desse contexto o que se vê é uma situação caótica em muitas cidades do país no qual pelo menos 8 unidades federativas, como tentativa de conter o avanço da epidemia e controlar o colapso nos hospitais – decretarem o lockdown. São elas: Rio de Janeiro, Paraná, Roraima, Pernambuco, Pará, Tocantins, Amapá e Roraima. O Estado e o município de São Paulo decretaram 3 dias de feriados antecipados pelo mesmo motivo. A cidade de São Paulo alcançou mais de 90% de ocupação dos leitos de Unidades de Terapia Intensiva.

O novo coronavírus evidencia como as precárias condições de saneamento, moradia, renda e o acesso a serviços públicos de boa parte dos brasileiros colocam as populações mais vulneráveis em maior risco. Ademais, também reflete as situações de eventos extremos que a humanidade passa a enfrentar de forma mais frequente, como já vinha sendo pontuado no debate sobre o aquecimento global. Tais observações aceleraram as frentes de pesquisas que associam as mudanças ambientais e a Covid-19, como as que agora revelam que a poluição atmosférica pode ser um agravante na pandemia.

Como isso pode ocorrer? Pela demonstração das correlações entre a poluição do ar e o aumento dos números de novos casos de Covid-19 e de mortes pela doença, influenciando em sua pior incidência e letalidade. Recentes evidências foram publicadas em estudos científicos, tais quais:

Efeitos da exposição a curto prazo (2 semanas) da população à poluição do ar e o aumento do número de casos da Covid-19.Poluição,Meio Ambiente,Blog do Mesquita 01

Zhu e outros pesquisadores estudaram a correlação entre o aumento de cinco poluentes no ar (material particulado MP2.5 e MP10, dióxido de enxofre SO2, monóxido de carbono CO, dióxido de nitrogênio NO2 e ozônio O3) e o número de novos casos da doença pelo coronavírus em 20 cidades na China. A observação da concentração dos poluentes ocorreu nas duas semanas anteriores à contabilização dos novos casos. Ou seja, analisaram o aumento de casos novos após a exposição da população aos poluentes por duas semanas, considerada uma exposição de curto prazo.

Os resultados mostraram que o aumento da concentração PM2.5 e PM10, aumentou, respectivamente em 2,2% e 1,8% o número de novos casos diários de Covid-19. No entanto o maior impacto foi observado para NO2 e O3, que aumentaram o surgimento de novos casos diários em, respectivamente, 6,9% e 4,7%.

Han e outros pesquisadores também demonstraram os efeitos benéficos da redução das concentrações de poluição do ar (MP2.5 e MP10, SO2, CO, NO2 e O3) experimentados durante as medidas de isolamento domiciliar na redução do número de casos confirmados de Covid-19, em Wuhan e outras 30 províncias da China. O que quer dizer que a redução de poluentes, por si só, independente do fator isolamento (redução do tráfego de veículos), levou à uma diminuição do surgimento de casos novos de Covid-19.

Embora não tenha sido abordado especificamente os impactos na saúde da população, estudos recentes mostraram que a redução compulsória da atividade econômica e da circulação de veículos nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Barcelona revelaram decréscimo da concentração de poluentes. Em São Paulo foram observadas as diminuições de NO (até -77,3%), NO2 (até -54,3%) e CO (até -64,8%) na área urbana. Por outro lado, houve um aumento de aproximadamente 30% nas concentrações de ozônio.

Efeitos da exposição a longo prazo (10 ou mais anos) da população à poluição do ar e o agravamento da Covid-19.

Ao avaliarem a poluição do ar nos últimos 15 anos, em 3.000 cidades americanas, pesquisadores de Harvard concluíram em seu estudo que uma pequena diferença na exposição de populações a longo prazo à poluentes – concentração anual de 1 μg/m3 maior do MP2.5 que outras cidades – acarretará 15% de aumento na taxa de mortalidade por Covid-19. Isso significa uma magnitude 20 vezes maior que o observado para todas as demais causas de mortalidade. Concluem ressaltando a importância de continuar a aplicar os regulamentos de poluição do ar existentes (a agência americana ambiental afrouxou a fiscalização das medidas de licenciamento durante a pandemia) para proteger a saúde humana durante e após a crise da Covid-19.

Yaron Ogen, um pesquisador alemão, revelou que 78% de mortes por Covid-19 analisadas em seu estudo (4.443 óbitos em 66 regiões administrativas da Itália, Espanha, França e Alemanha) ocorreu no norte da Itália e no centro da Espanha. Regiões onde se mostraram as maiores concentrações de NO2 combinadas com uma dispersão ineficiente da poluição do ar.

Nossa falta de ar não é apenas o coronavírus

O fenômeno da pandemia colocou em evidência, ainda mais, a tortuosa relação da sociedade com o meio ambiente, em especial no contexto econômico contemporâneo, e como estes desequilíbrios passam a trazer riscos para a existência humana. Um alerta que já vinha sendo feito pela Organização Mundial de Saúde ganha destaque neste cenário: 7 milhões de pessoas morrem anualmente por problemas decorrentes da má qualidade do ar e a emissão de gases de efeito estufa está colocando em risco a existência na Terra de forma irreversível.

Organizações da sociedade civil reunidas na Coalizão Respirar, grupo que atua em defesa da qualidade do ar no Brasil, redigiram um manifesto intitulado Queremos respirar no “novo agora”, chamando atenção para pontos como a necessidade urgente de diminuição das queimadas, a mudança na matriz energética dos transportes e a demanda por atualização nas leis – O Brasil até hoje ainda não aprovou um Plano Nacional de Qualidade do Ar.

Agora, além da ausência de infraestrutura e acesso à serviços públicos, evidências científicas apontam que a poluição do ar se revela como um potencial coeficiente para o agravamento da doença – sendo fundamental a descoberta ou elucidação de novos agravantes da infecção por Covid-19, de modo a serem combatidos. A poluição do ar – um agente ambiental essencialmente decorrente da atividade humana e cujas causas podem ser alvo da ação do Estado por meio de políticas públicas emergenciais – revela-se um fator que demanda muito mais atenção da sociedade brasileira do que se deu até o presente momento.

Evangelina Vormittag é diretora do Instituto Saúde e Sustentabilidade, médica, especialista em microbiologia e doutora em Patologia pela Faculdade de Medicina da USP. Camila Acosta Camargo é responsável pela comunicação do Instituto Saúde e Sustentabilidade, Relações Públicas, professora, mestre e doutoranda em Ciências da Comunicação na USP. Hélio Wicher Neto é responsável pelo advocacy do Instituto Saúde e Sustentabilidade, advogado e cientista social, especialista em Direito Urbanístico, Fundiário e Ambiental e mestre em Planejamento e Gestão do Território.

O elo entre desmatamento e epidemias investigado pela ciência

A região com a maior floresta tropical do mundo também é considerada um provável polo de epidemias, como mostrou uma análise feita por uma equipe liderada por Simon Anthony, da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Só de coronavírus que circulam em morcegos também no Brasil, o levantamento contabilizou pelo menos 3.204 tipos.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

Faz pelo menos duas décadas que cientistas repetem o alerta: à medida que populações avançam sobre as florestas, aumenta o risco de micro-organismos – até então em equilíbrio – migrarem para o cotidiano humano e fazerem vítimas.

Cientistas alertam há décadas para o risco de novas doenças como consequência da destruição de florestas. Assim como a Ásia, origem do novo coronavírus, a Amazônia é vista como possível polo de enfermidades.

Foi por isso que a notícia sobre a propagação do novo coronavírus, detectado pela primeira vez na China em dezembro passado e que se espalhou pelo mundo, não pegou Ana Lúcia Tourinho de surpresa. Doutora em Ecologia, ela estuda como o desequilíbrio ambiental faz com que a floresta e sociedade fiquem doentes.

“Quando um vírus que não fez parte da nossa história evolutiva sai do seu hospedeiro natural e entra no nosso corpo é o caos. Está aí o novo coronavírus esfregando isso na nossa cara”, argumenta Tourinho, pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

No caso do novo coronavírus, batizado de Sars-CoV-2, muito antes de infectar os primeiros humanos e viajar a partir da China, abrigado no corpo de viajantes, para outras partes do mundo, ele habitava outros hospedeiros num ambiente selvagem – morcegos, provavelmente.

Isolados e em equilíbrio em seu habitat, como florestas fechadas, vírus como esse não ameaçariam os humanos. O problema é quando esse reservatório natural começa a ser recortado, destruído e ocupado.

Estudos científicos publicados anos antes da atual pandemia já mostravam a conexão entre perda florestal, proliferação de morcegos nas áreas degradadas e coronavírus. Análises assinadas por Aneta Afelt, pesquisadora da Universidade de Varsóvia, na Polônia, descrevem como os altos índices de destruição florestal nos últimos 40 anos na Ásia eram um indicativo de que a próxima doença infecciosa grave poderia sair dali.

Para chegar a essa conclusão, Afelt seguiu o rastro de pandemias prévias provocadas por outros coronavírus, como a da Sars, em 2002 e 2003, com taxa de mortalidade de 10%, e a Mers, em 2012, que matou 38% das vítimas infectadas.

“Por ser uma das regiões do mundo onde o crescimento populacional é mais intenso, onde as condições sanitárias permanecem ruins e onde a taxa de desmatamento é mais alta, o Sudeste Asiático atende a todas as condições para se tornar o local de emergência ou reemergência de doenças infecciosas”, afirmou Afelt num artigo de 2018.

Tais condições não se aplicam apenas a essa parte do mundo. Na Amazônia, onde em 2019 o desmatamento bateu o recorde desta década, com 9.762 km² destruídos, e os alertas de desmatamento aumentaram 51,4% entre janeiro e março de 2020 em relação ao período anterior, o cenário é parecido.

O risco que vem da Amazônia

Tourinho não gosta nem de pensar sobre o impacto na saúde pública se a destruição da Floresta Amazônica seguir o ritmo acelerado. “Se a Amazônia virar uma grande savana, não dá nem para imaginar o que pode sair de lá em termos de doenças. É imprevisível”, diz a pesquisadora. “Além de ser importante para nós por causa do clima, da fauna, ela é importante para nossa saúde.”

Estudos feitos no país já traçaram a relação direta entre o corte da Amazônia e o aumento de doenças. Em 2015, por exemplo, uma equipe do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) constatou que, para cada 1% de floresta derrubada por ano, os casos de malária aumentavam 23%.

A pesquisa foi feita com dados de 773 cidades no Projeto de Monitoramento de Desmatamento da Amazônia, de 2004 a 2012. Além da malária, a incidência de leishmaniose também se mostrou diretamente relacionada ao desmatamento.

“A floresta fechada é como um escudo para que comunidades externas entrem em contato com animais que são hospedeiros de micro-organismos que causam doenças. E quando a gente fragmenta a floresta, começa a fazer vias de entrada no seu seio, isso é uma bomba-relógio”, conclui Tourinho, mencionando ainda o perigo trazido por grandes empreendimentos, como hidrelétricas na Amazônia.

O entra e sai da floresta fragmentada para tirar madeira, colocar gado, abrir garimpo também é apontado como um perigo para a saúde. “As pessoas que entram nessas áreas podem ter contato com esses vírus e levar dentro delas o problema para centros urbanos”, exemplifica Tourinho.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita

Nesse cenário, indígenas conseguem ser mais resistentes devido ao convívio por séculos com a floresta intocada, pontua a pesquisadora.

“Quando esses vírus chegam às cidades, a disseminação é muito rápida, justamente por toda a facilidade de deslocamento nesses centros, possibilidade de deslocamentos internacionais. As cidades repetem o mesmo estilo de confinamento que a gente faz com os animais e são gatilhos para proliferação de doenças contagiosas”, acrescenta a bióloga.

Uma dessas rotas pode explicar a origem da pandemia do Sars-Cov-2. A covid-19, doença respiratória provocada pelo coronavírus, infectou mais de 2 milhões de pessoas e matou mais de 128 mil no mundo, segundo dados atualizados pela Universidade Johns Hopkins.

Como ancestrais indígenas se preveniam de epidemias

Utilizado para conter pandemia de coronavírus, isolamento social é empregado há séculos por indígenas brasileiros frente a doenças por eles desconhecidas, com preocupação com coletivo justificando sacrifício individual.

Historicamente vítimas de doenças trazidas pelo “homem branco”, povos indígenas brasileiros podem mirar no passado para sobreviver à pandemia da covid-19, em um momento em que a Amazônia é um dos epicentros da doença. Desde os primeiros contatos com europeus, muitos povos indígenas recorreram ao isolamento social para se proteger de epidemias – justamente a estratégia hoje adotada mundialmente como a mais eficaz para o combate ao novo coronavírus.

“Diante daquelas epidemias do passado, os nossos especialistas de proteção e cura de doenças não tinham muito a fazer. Meus avós benzedores diziam que, diante das epidemias, se sentiam impotentes, pois não sabiam as raízes das doenças, não sabiam que tipos de seres causavam essas doenças”, conta à DW Brasil o padre Justino Sarmento Rezende, indígena do povo Tuyuka, morador do município de Santa Isabel do Rio Negro, no Amazonas. “Por isso, eles se retiravam das comunidades para viver em lugares mais afastados até que passasse a epidemia.”

Ou seja: na falta de medicamentos adequados, a regra era o isolamento. Rezende se recorda de que, quando era criança, no início dos anos 1960, houve uma epidemia de coqueluche que matou muitas crianças na região. “Minha irmã mais velha morreu. Eu consegui escapar. As famílias iam para acampamentos mais distantes para se proteger”, lembra.

“Penso que no atual quadro de pandemia, nós, indígenas, podemos oferecer inspiração por resistirmos há mais de 500 anos de doenças, genocídios, etnocídios e ecocídios sem desistirmos de nossos sonhos na busca pelos territórios ancestrais e por alteridade”, diz à DW Brasil o historiador Carlos José Santos, também chamado de Casé Angatu Xucuru Tupinambá (em alusão a suas raízes indígenas), professor da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), na Bahia.

Pesquisador de etnologia indígena e professor da Universidade de São Paulo (USP), o antropólogo Pedro de Niemeyer Cesarino ressalta à reportagem que, “ainda que não tivessem como evitar a mortandade”, os povos indígenas “sempre tiveram suas estratégias de proteção”. “Em geral, elas consistem em tentar escapar de centros de contágio, quando havia a percepção de que isso era possível. O isolamento em áreas de difícil acesso da floresta, por exemplo, era e é uma opção praticada ainda nos dias de hoje”, exemplifica.

Os xamãs sempre tentaram compreender o que eram essas novas doenças, a fim de tratá-las a partir de suas técnicas e conhecimentos, mas, com o tempo, entretanto, muitos começaram a perceber que as “doenças dos brancos” eram distintas e demandavam cuidados diferentes daqueles que podiam ser realizados com seus conhecimentos, aponta o antropólogo.

“O que chamamos de isolamento social não foi praticado apenas no passado. Ele é uma estratégia ainda hoje corrente, que está sendo utilizada agora na proteção à covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus. No entanto, não se trata exatamente de um isolamento social, mas de uma evitação da vida em comunidades situadas nas margens de rios navegáveis e de contato mais fácil com cidades”, afirma.

“Muitas vezes, famílias inteiras sobem para a direção das cabeceiras de rios e reformulam os seus modos de existência. Passam a viver de maneira similar à de seus antepassados, o que implica também a produção de novos corpos que sejam mais fortes e, ao mesmo tempo, mais sábios para lidar com os desafios provocados pela iminência do genocídio.”

Para a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da USP, os saberes herdados das populações indígenas brasileiras devem ser preservados como “vestígios de uma cultura secular, única, um instrumento importante de combate as epidemias”. “Seus conhecimentos sobre a flora e fauna curam doenças do corpo e da alma, nem sempre valorizados pelos homens da ciência”, diz.

Tulio Chaves Novaes, promotor de Justiça, professor e pesquisador da Universidade Federal do Oeste do Pará, considera que é preciso humildade para “efetivar esse aprendizado” com o os povos indígenas. “Penso que o aprendizado mais relevante, ensinado atemporalmente por esses povos, massacrados pela ganância e pelo poder de uma razão instrumental ocidental soberana, encontra-se na ética”, pontua.

“A atitude do indígena aponta sempre para o bem-estar e para a preservação do grupo, para sua relevância frente ao indivíduo. Visto como um todo, desta maneira, na lógica do grupo, o destino de um é o destino do outro. A preocupação com o coletivo, ao ponto de justificar o sacrifício individual, talvez enseje outro parâmetro educativo ético que precisamos resgatar com a história desses povos. Se tivéssemos em mão hoje esse patrimônio moral, sem dúvida, seria mais fácil fazer frente aos inimigos comuns, como o atual coronavírus”, considera.Indígenas em barco no pôr do sol
Em meio à pandemia atual, indígenas vêm evitando a vida em comunidades situadas nas margens de rios navegáveis e de contato mais fácil com cidades.

Doenças que varreram vidas

Segundo o pesquisador Paulo Rezzutti, membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, padres jesuítas relataram que entre 1554 e 1584 morreram mais de 60 mil indígenas em decorrência de epidemias trazidas pelo “homem branco”. “Eram principalmente sarampo e varíola as doenças”, aponta ele à DW Brasil. “E já havia um colapso funerário. Algumas tribos chegaram a ter 20 mortos por dia.”

Se no passado varíola e sarampo eram as principais vilãs, na era contemporânea, muito antes do novo coronavírus, os indígenas já sofriam com malária e hepatite. “São duas das maiores responsáveis por óbitos em sociedades indígenas”, aponta Cesarino. “Eu mencionaria também a desnutrição e o diabetes que, no caso de algumas comunidades, também precisam ser consideradas como doenças impostas pela sociedade envolvente.”

De acordo com os antropólogos Marta Rosa Amoroso e Rafael Pacheco, respectivamente coordenadora científica e pesquisador do Centro de Estudos Ameríndios da USP, “sarampo, varicela, varíola, malária, coqueluche, gripes, desnutrição, diabetes, pressão alta e diarreia estão entre as doenças que mais acometem os povos indígenas, histórica e atualmente”.

À DW Brasil, Pacheco pontuou que “os casos de depopulação e extermínio massivos ocorridos nessas circunstâncias são emblemáticos na história do Brasil republicano, e seguem até hoje sem uma reparação minimamente adequada”.

Ele recorda registros históricos, como “o relato perplexo” do padre jesuíta José de Anchieta (1534-1597) “diante da amplitude e rapidez da mortandade de milhares de tupis na Baía de Todos os Santos”. “Varíola e sarampo, nesse período [século 16], varriam vidas em diversas regiões”, afirma. E o cenário prosseguiu.

Mais tarde, no século 17, com as entradas bandeirantes, “os grupos tupi-guarani da região de Guaíra foram assolados por contaminações”, aponta o antropólogo. “Isso segue pelos século 18, 19 e atravessa o século 20. No começo da década de 1970, a mortalidade infantil ainda no primeiro ano de vida no Parque Indígena do Xingu chegava a 10%.”

“Lembro alguns casos, por exemplo, ocorrências durante a construção da rodovia Transamazônica, quando após o contato, em 1981, os indígenas foram abatidos por uma epidemia de gripe, provocando a morte coletiva e a dizimação dos grupos”, completa Tucci Carneiro. “Deve ser também contabilizada a omissão do Estado que não prestou socorro.”

A covid-19 é um desafio novo e complexo, que pode ter amplitude local, em uma etnia ou mais ampla, abrangendo complexos socioterritoriais e regiões.

“O município indígena de São Gabriel da Cachoeira no Amazonas, por exemplo, neste momento luta pela instalação de um hospital de campanha equipado que possa atender a população indígena. No momento os indígenas são deslocados para os hospitais em Manaus, cidade cujo sistema único de saúde já se encontra em colapso. A previsão pessimista é que a situação se espalhe diante de uma falta de ação”, diz Pacheco. “Relatos de lideranças e pesquisadores indígenas e indigenistas, de diferentes regiões, têm destacado que o isolamento social vem sendo praticado para impedir a entrada do vírus nos territórios indígenas.”

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Coronavírus: por que a pandemia pode acelerar a desglobalização da economia mundial

O novo coronavírus teve efeitos econômicos imediatos e esmagadores em todo o mundo. Uma das palavras-chave para entender os últimos 25 anos da história mundial é a globalização.

Embora, como diz Jonty Bloom, jornalista da BBC, qualquer historiador econômico possa falar de como há séculos – se não milênios – as pessoas negociam a grandes distâncias.

Bloom se lembra de observar o lucrativo comércio de especiarias na Idade Média.

Mas a globalização de hoje é realmente diferente por causa da escala e velocidade das trocas internacionais, que nas últimas décadas explodiram em níveis sem precedentes.
Direitos autorais da imagem GETTY IMAGES
As instalações de viagens, a Internet, o fim da Guerra Fria, os acordos comerciais e as economias em rápido desenvolvimento se combinaram para criar um sistema mais interdependente do que nunca.

É por isso que o surto do novo coronavírus teve efeitos econômicos tão imediatos e esmagadores em todo o mundo.

“Estamos diante de uma crise generalizada do capitalismo democrático mundial e do capitalismo não democrático, como o da China”
A professora Beata Javorcik, economista-chefe do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento, disse a Jonty Bloom que o ritmo de mudança da economia nos últimos 17 anos foi muito profundo.

“Quando pensamos na epidemia de Sars em 2003, a China representou 4% da produção global”, lembra ele. “A China agora representa 16%, quatro vezes mais. Isso significa que o que quer que aconteça naquele país afeta muito mais o mundo”.

O lado oculto
Por sua parte, Ian Goldin, professor de globalização e desenvolvimento da Universidade de Oxford, diz que nos últimos anos foi permitido espalhar riscos. “Eles são o lado oculto da globalização”.

Isso, ele acrescenta, pode ser visto não apenas nesta crise, mas na crise econômica de 2008 e na vulnerabilidade da Internet a ataques cibernéticos. “O novo sistema econômico mundial oferece enormes benefícios, mas também implica riscos enormes”.

Então, o que essa crise significa para a globalização?Direitos autorais da imagem GETTY IMAGES

Muitos acreditam que as cadeias produtivas localizadas em diferentes países serão afetadas. Richard Portes, professor de economia da London Business School, diz que é óbvio que algumas coisas terão que mudar, porque pessoas e empresas perceberam o tamanho dos riscos que estão assumindo. “Olhe para o comércio. Depois que as cadeias de suprimentos foram interrompidas [pelo coronavírus], as pessoas começaram a procurar fontes alternativas em casa, mesmo que fossem mais caras”, diz ele.

“Se as pessoas encontrarem fornecedores domésticos, ficarão com eles, precisamente por causa dos riscos que agora percebem.”

O professor Javorcik concorda e acredita que há uma combinação de fatores que farão com que a indústria manufatureira ocidental comece a trazer para casa alguns de seus empregos (“re-shoring”).

“Eu acho que a guerra comercial (principalmente entre os EUA e a China) combinada com a epidemia de coronavírus fará com que muitas empresas levem muito a sério a reforma”, diz ele.

“Muitas dessas atividades podem ser automatizadas, porque a reposição de peças traz certeza. Você não precisa se preocupar com a política comercial nacional. E isso oferece a oportunidade de diversificar sua base de fornecedores”.Direitos autorais da imagem GETTY IMAGES

Alguns argumentaram que, no futuro, a fabricação de ventiladores e máscaras faciais deve ser considerada uma questão de segurança nacional.
Em um artigo publicado na revista mexicana Letras Libres, Toni Timoner, especialista em risco macroeconômico, é mais forte:

“A retirada do comércio internacional se acelerará. Os exportadores já estão reconfigurando suas cadeias de suprimentos e aproximando a produção com o custo das eficiências. Os importadores aumentarão as barreiras tarifárias em resposta. Esse processo já havia começado com a guerra comercial e agora entrará em turbulência. Ásia” e o Ocidente se isolam. Uma cortina econômica de ferro cai sobre o mundo “.

As Universidades
Mas Como aponta o jornalista Jonty Bloom, grande parte da globalização não se refere apenas ao movimento de mercadorias ou matérias-primas, mas a pessoas, idéias e informações. Algo que as economias ocidentais fazem muito bem.

David Henig, diretor da Política Comercial do Reino Unido para o Centro Europeu de Política Econômica Internacional, observa que “o setor de serviços deve parecer que caiu de um penhasco. Olhe apenas para o turismo e as universidades”.

“Deve haver uma enorme preocupação com o número de novas inscrições para universidades ocidentais neste outono. É uma indústria enorme. Muitas universidades, por exemplo, dependem de estudantes chineses”.Direitos autorais da imagem CHRISTOPHER FURLONG

O que acontecerá com as universidades? Na foto, uma luva cirúrgica abandonada nas ruas da Universidade de Oxford, na Inglaterra.
A mesma preocupação foi expressa  pelo escritor e pensador canadense Michael Ignatieff, reitor da Universidade da Europa Central, com sede em Budapeste.

“Eu acho que as fronteiras estão aumentando em todos os lugares e que a mobilidade do trabalho será reduzida, mas a mobilidade do capital não.

“Com fronteiras mais estritas, será mais difícil para universidades como a minha continuar atraindo estudantes de cem países diferentes. Tenho latino-americanos em Budapeste … Continuarei com os mesmos colombianos, peruanos ou brasileiros extraordinários que tenho agora?

“Não sei, os países apertarão as fronteiras, apertarão as restrições. Portanto, podemos ter uma desglobalização do ensino superior. Essa é uma ameaça real de que todo mundo no mundo universitário está falando. Não quero que a próxima geração seja preso dentro das fronteiras nacionais “. ponderar.

Já estava em declínio
Segundo o jornalista Jonty Bloom, a desaceleração ou a reversão da globalização afetará fortemente todas as indústrias acima mencionadas, mas acrescenta que o professor Goldin acha que a atual pandemia marca uma mudança oceânica e que 2019 “foi o ano que marcou o pico maior na fragmentação da cadeia de suprimentos “.

Fatores como impressoras 3D, automação, entrega rápida e protecionismo já os faziam sentir. Aparentemente, a covid-19 apenas acelerou o processo.

A preocupação agora, diz Bloom, não é se essas mudanças ocorrerão, mas quão profundas serão e como serão gerenciadas.

Alicia Bárcena, secretária executiva da Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (Eclac), acredita que a gobalização “pelo menos como a conhecíamos antes dessa pandemia, será definitivamente diferente”.Direitos autorais da imagem GETTY IMAGES

Alicia Bárcena acredita que a globalização definitivamente vai mudar.
Em entrevista ele indicou que “isso definitivamente não será uma globalização das cadeias de valor. Isso é o que será mais importante: a mudança nos modos de produção e nos modos de consumo”.

“Isso vai parecer muito com uma economia de guerra”: o alerta sobre como a crise do coronavírus aumentará o desemprego e a pobreza na América Latina
Por sua vez, Terry Breton, Comissário do Mercado Interno da União Européia, disse em uma teleconferência com jornalistas que é muito cedo para tirar conclusões”, mas todos sabemos que haverá um antes e depois dessa crise. Ninguém sabe. como sairemos, mas será escrito um novo mundo baseado em outras regras. Seremos mais autônomos em certas áreas críticas. As relações bilaterais serão revistas “, relatou o jornal El País na Espanha.

O professor Goldin tem uma maneira simples de abordar as profundas mudanças que a globalização enfrentará, explicou à BBC: Será mais parecido com o que aconteceu após a Primeira Guerra Mundial ou o que aconteceu após a Segunda?

Depois de 1918, tínhamos organizações internacionais fracas, a ascensão do nacionalismo, protecionismo e depressão econômica.

Em vez disso, depois de 1945, tínhamos mais cooperação e internacionalismo, refletidos no acordo de Bretton Woods, no Plano Marshall, nas Nações Unidas e no Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio.Direitos autorais da imagem GETTY IMAGES

O economista britânico John Maynar Keynes – centro – foi vital na formulação do acordo de Bretton Woods, o primeiro acordo monetário internacional que estabeleceu as regras para as relações comerciais e financeiras entre os países industrializados.
Embora otimista, o professor Goldin está preocupado com algo: quem assumirá a liderança. “Podemos estar otimistas, mas não vemos liderança da Casa Branca“. E acrescenta: “A China não pode assumir isso e o Reino Unido não pode liderar na Europa”.

Então a globalização será revertida?, pergunta o jornalista Jonty Bloom. E ele responde que provavelmente não, porque é um desenvolvimento econômico muito importante, mas certamente pode desacelerar.

A grande questão, acrescenta Bloom, é se vamos aprender as lições desta crise.

E ele conclui: “Vamos aprender a identificar, controlar e regular os riscos que parecem inerentes à globalização? Porque a cooperação e a liderança necessárias para que isso ocorra não parecem abundar no momento”.

 

Covid-19 e a política anti-capitalista

“Se a China não puder repetir o papel que desempenhou em 2007-8, então o ônus de sair da atual crise econômica se deslocará para os Estados Unidos e aqui está a grande ironia: as únicas políticas que funcionarão, tanto econômica como politicamente, são muito mais socialistas do que qualquer coisa que possa propor Bernie Sanders”, escreve David Harvey, geógrafo e teórico social britânico, em artigo publicado por Observatorio de la crisis, 22-03-2020. A tradução é do Cepat.

David Harvey* –  UHU Adital

Quando busco interpretar, entender e analisar o fluxo diário de notícias, tendo a localizar o que está acontecendo no contexto de duas maneiras um tanto diferentes (e cruzadas) que almejam explicar como o capitalismo funciona.

O primeiro nível é um mapeamento das contradições internas da circulação e acumulação de capital como fluxos de valor monetário em busca de lucro através dos diferentes “momentos” (como os chama Marx) de produção, realização (consumo), distribuição e reinvestimento. Esse modelo da economia capitalista como uma espiral de expansão e crescimento sem fim se complica bastante na medida em que se elabora, através de, por exemplo, as lentes das rivalidades geopolíticas, desenvolvimentos geográficos desiguais, instituições financeiras, políticas estatais, reconfigurações tecnológicas e uma rede em constante mudança das divisões do trabalho e das relações sociais.

No entanto, também acredito que esse modelo deve se inscrever em um contexto mais amplo de reprodução social (nos lares e comunidades), em uma relação metabólica permanente e em constante evolução com a natureza (incluindo a “segunda natureza” da urbanização e o ambiente construído) e todos os tipos de formações culturais, científicas (baseadas no conhecimento), religiosas e sociais contingentes que as populações humanas geralmente criam através do espaço e do tempo.

Esses últimos “momentos” incorporam a expressão ativa dos desejos, necessidades e anseios humanos, a ânsia de conhecimento e significado e a busca evolutiva da satisfação em um contexto de mudanças nos arranjos institucionais, disputas políticas, confrontos ideológicos, perdas, derrotas, frustrações e alienações, tudo em um mundo de acentuada diversidade geográfica, cultural, social e política.

Essa segunda maneira constitui, por assim dizer, minha compreensão prática do capitalismo global como uma formação social distinta, enquanto a primeira trata das contradições dentro do motor econômico que conduz essa formação social por certos caminhos de sua evolução histórica e geográfica.

Quando em 26 de janeiro de 2020 li pela primeira vez sobre um coronavírus – que estava ganhando terreno na China – pensei imediatamente nas repercussões para a dinâmica mundial da acumulação de capital – David Harvey

Quando em 26 de janeiro de 2020 li pela primeira vez sobre um coronavírus – que estava ganhando terreno na China -, pensei imediatamente nas repercussões para a dinâmica mundial da acumulação de capital. Sabia por meus estudos do modelo econômico que os bloqueios (fechamentos) e interrupções na continuidade do fluxo de capital provocariam desvalorizações e que, se as desvalorizações fossem generalizadas e profundas, isso indicaria o início de uma crise.

Também sabia muito bem que a China é a segunda economia maior do mundo e que foi a potência que resgatou o capitalismo mundial, após o período 2007-2008. Portanto, qualquer golpe na economia chinesa estava destinado a ter graves consequências para uma economia global que, de qualquer forma, já estava em uma situação lamentável.

O modo existente de acumulação de capital está com muitos problemas. Estavam sendo produzidos movimentos de protesto em quase em todos os lugares (de Santiago a Beirute), muitos dos quais focados em um modelo econômico dominante que não funciona para a maioria da população.

Este modelo neoliberal se baseia cada vez mais em capital fictício e em uma grande expansão da oferta monetária e na criação massiva de dívida. Esse modelo já estava enfrentando uma insuficiente “demanda efetiva” para “realizar” os valores que o capital é capaz de produzir.

Então, como poderia o sistema econômico dominante, com sua legitimidade decadente e sua delicada saúde, absorver e sobreviver ao inevitável impacto de uma pandemia da magnitude que enfrentamos?

A resposta depende em grande parte do tempo que dura a perturbação, pois, como apontou Marx, a desvalorização não se produz porque os produtos básicos não podem ser vendidos, mas porque não podem ser vendidos a tempo.

Durante muito tempo, havia rejeitado a ideia de que a “natureza” estava fora e separada da cultura, da economia e da vida cotidiana. Adotei um ponto de vista mais dialético da relação metabólica com a natureza. O capital modifica as condições ambientais de sua própria reprodução, mas o faz em um contexto de consequências não intencionais (como a mudança climática) e no contexto de forças evolutivas autônomas e independentes que estão reconfigurando constantemente as condições ambientais.

Os vírus sofrem mutação o tempo todo para estar seguros. Mas as circunstâncias em que uma mutação se torna um ameaça para a vida dependem das ações humanas – David Harvey

Deste ponto de vista, não existe um verdadeiro desastre “natural”. Os vírus sofrem mutação o tempo todo para estar seguros. Mas as circunstâncias em que uma mutação se torna um ameaça para a vida dependem das ações humanas.

Existem dois aspectos relevantes nisso. Primeiro, as condições ambientais favoráveis aumentam a probabilidade de mutações poderosas. Por exemplo, é plausível esperar que o fornecimento de alimentos intensivos (e indiscriminados) nos subtópicos úmidos possa contribuir para isso. Tais sistemas existem em muitos lugares, incluindo a China ao sul do Yangtzé e todo o Sudeste Asiático.

Em segundo lugar, as condições que favorecem a rápida transmissão variam consideravelmente. As populações humanas de alta densidade parecem ser alvos fáceis para os hóspedes. É sabido que as epidemias de sarampo, por exemplo, só florescem em grandes centros populacionais urbanos, mas morrem rapidamente em regiões pouco populosas. A forma com que os seres humanos interagem entre si, se movem, se disciplinam ou esquecem de lavar as mãos afeta a maneira como são transmitidas as doenças.

Nos últimos anos, a SARS, a gripe aviária e a gripe suína parecem ter saído do Sudeste Asiático. A China também sofreu muito com a peste suína no ano passado, forçando um massivo abate de porcos e um consequente aumento dos preços da carne suína. Não estou dizendo tudo isso para acusar a China.

Existem muitos outros lugares onde os riscos ambientais de mutação e disseminação viral são altos. A gripe espanhola de 1918 pode ter saído do Kansas. O HIV pode ter eclodido na África, o ebola começou no Nilo Ocidental e a dengue parece ter florescido na América Latina. Mas os impactos econômicos e demográficos da propagação de vírus dependem das fendas e vulnerabilidades pré-existentes no sistema econômico hegemônico.

Não me surpreendeu muito que a COVID-19 tenha sido encontrada inicialmente em Wuhan (embora ainda não se saiba se ela se originou lá). Claramente, os efeitos locais podem se tornar importantes. Mas como esse é um grande centro de produção, seu impacto pode ter repercussões econômicas globais.

A grande questão é como ocorre o contágio e sua difusão, e quanto tempo durará (até que possa ser encontrada uma vacina). A experiência anterior demostrou que um dos inconvenientes da crescente globalização é a impossibilidade de impedir uma rápida difusão internacional de novas doenças. Vivemos em um mundo altamente conectado, onde quase todo mundo viaja. As redes humanas de difusão potencial são vastas e abertas. O perigo (econômico e demográfico) é que a interrupção dure um ano ou mais.

Embora tenha havido um declínio imediato nos mercados acionários mundiais quando foram divulgadas as notícias, foi surpreendentemente seguido pela alta dos mercados. As notícias pareciam indicar que os negócios eram normais em todos os lugares, exceto na China.

A crença parecia ser que iríamos experimentar uma repetição da SARS, que foi rapidamente contida e teve um baixo impacto global, apesar de sua alta taxa de mortalidade.

Depois descobrimos que a SARS criou um pânico desnecessário nos mercados financeiros. Então, quando apareceu a COVID-19, a reação foi apresentá-la como uma repetição da SARS e, portanto, agora a preocupação era injustificada.

O fato de a epidemia ter causado estragos na China com rapidez e crueldade moveu o resto do mundo a tratar erroneamente o problema como algo que ocorria “lá” e, portanto, fora da vista e da mente nossa, ocidentais – David Harvey

O fato de a epidemia ter causado estragos na China com rapidez e crueldade moveu o resto do mundo a tratar erroneamente o problema como algo que ocorria “lá” e, portanto, fora da vista e da mente nossa, ocidentais (acompanhados de sinais de xenofobia contra os chineses).

O vírus que teoricamente teria interrompido o crescimento histórico da China foi recebido com alegria em certos círculos do governo Trump.

No entanto, dentro de poucos dias, houve uma interrupção nas cadeias de suprimentos mundiais, muitas das quais passam por Wuhan. Essas notícias foram ignoradas e tratadas como problemas para certas linhas de produtos e algumas empresas (como a Apple). As desvalorizações eram locais e particulares e não sistêmicas.

Também se minimizou a queda na demanda dos consumidores, embora algumas empresas, como McDonald‘s e Starbucks, que tinham operações dentro do mercado interno chinês tiveram de fechar suas portas. A coincidência do Ano Novo chinês com o surto do vírus mascarou os impactos ao longo de todo o mês de janeiro. E a autocomplacência do ocidente se demonstrou escandalosamente fora de lugar.

As primeiras notícias da propagação internacional do vírus foram ocasionais e episódicas, com um grave surto na Coréia do Sul e em alguns outros pontos quentes como o Irã. Foi o surto italiano que provocou a primeira reação violenta. A queda do mercado de ações em meados de fevereiro oscilou um pouco, mas em meados de março havia levado a uma desvalorização líquida de quase 30% nos mercados de ações em todo o mundo.

A escalada exponencial das infecções provocou uma série de respostas muitas vezes inconsistentes e às vezes de pânico. O presidente Trump realizou uma imitação do Rei Canuto diante de uma potencial maré de doenças e mortes.

Algumas das respostas foram estranhas. O fato de o ‘Federal Reserve’ ter baixado as taxas de juros diante de um vírus parecia insólito, mesmo quando se reconhecia que a medida tinha por objetivo aliviar o impacto nos mercados, em vez de retardar o progresso do vírus.

Quarenta anos de neoliberalismo em toda Américas do Norte e do Sul e na Europa deixaram a população totalmente exposta e mal preparada para enfrentar uma crise de saúde pública – David Harvey

As autoridades públicas e os sistemas de saúde foram surpreendidos em quase todos os lugares pela escassez de mão de obra. Quarenta anos de neoliberalismo em toda Américas do Norte e do Sul e na Europa deixaram a população totalmente exposta e mal preparada para enfrentar uma crise de saúde pública, apesar das epidemias anteriores – causadas pela SARS e o ebola – terem proporcionado abundantes advertências e lições sobre o que deveríamos fazer.

Em muitas partes do mundo supostamente “civilizado”, os governos locais e as autoridades estaduais – que invariavelmente constituem a primeira linha de defesa nas emergências de saúde pública – se viram privados de recursos, graças a uma política de austeridade destinada a financiar cortes impostos e subsídios às empresas e aos ricos.

As grandes empresas farmacêuticas têm pouco ou nenhum interesse em pesquisas não remuneradas sobre doenças infecciosas (como o coronavírus, conhecidas desde os anos 1960). A “Grande Indústria Farmacêutica” raramente investe em prevenção. Tem pouco interesse em investir diante de uma crise de saúde pública. Dedica-se apenas a projetar curas. Quanto mais doentes estamos, mais ganham. A prevenção não é uma fonte de renda para seus acionistas.

O modelo de negócios aplicado à saúde pública eliminou a capacidade necessária para enfrentar uma emergência. A prevenção não era sequer um campo de trabalho suficientemente atraente para justificar associações público-privadas.

O presidente Trump cortou o orçamento do Centro de Controle de Doenças e dissolveu o grupo de trabalho sobre pandemia do Conselho de Segurança Nacional, no mesmo espírito em que cortou todo o financiamento para pesquisas, incluindo as relacionadas à mudança climática.

Se eu quisesse ser antropomórfico e metafórico, concluiria que a COVID-19 é a vingança da natureza por mais de quarenta anos de maus-tratos brutais e abusivos ao meio ambiente, pelas mãos de um extrativismo neoliberal violento – David Harvey

Se eu quisesse ser antropomórfico e metafórico, concluiria que a COVID-19 é a vingança da natureza por mais de quarenta anos de maus-tratos brutais e abusivos ao meio ambiente, pelas mãos de um extrativismo neoliberal violento e não regulamentado.

Talvez seja sintomático que os países menos neoliberais, China e Coréia do Sul, Taiwan e Cingapura, até agora superaram a pandemia de melhor forma que a Itália.

Há muitas provas de que a China administrou mal, inicialmente, a última epidemia da SARS. Mas desta vez, com a COVID-19, o presidente Xi se apressou em ordenar total transparência, tanto na apresentação de relatórios, quanto nas provas.

Mesmo assim, a China perdeu um tempo valioso (foram apenas alguns dias, mas importantes). No entanto, o que tem sido notável é que a China conseguiu confinar a epidemia à província de Hubei, com Wuhan no centro. A epidemia não se espalhou para Pequim, nem para o Oeste, nem mais ao Sul.

As medidas tomadas para confinar o vírus geograficamente foram draconianas. Seria difícil reproduzir em outros lugares por razões políticas, econômicas e culturais. China e Cingapura desdobraram seus poderes de vigilância social. Ao que parece, foram extremamente eficazes, embora se essas medidas tivessem sido implementadas apenas alguns dias antes, muitas mortes poderiam ter sido evitadas.

Esta é uma informação importante: em qualquer processo de crescimento exponencial, há um ponto de inflexão além do qual a massa ascendente se descontrola totalmente (observe, aqui, a importância da massa em relação à taxa). O fato de Trump ter perdido tempo por tantas semanas pode resultar custoso em muitas vidas humanas.

Os efeitos econômicos estão agora fora de controle, sobretudo fora da China. As perturbações ocorridas nas cadeias de valor das empresas e em certos setores resultaram mais sistêmicas e substanciais do que se pensava originalmente.

O efeito a longo prazo pode ser encurtar e diversificar as cadeias de suprimentos e, ao mesmo tempo, avançar para formas de produção que exijam menos mão de obra (com grandes repercussões no emprego) e uma maior dependência dos sistemas de produção com inteligência artificial.

A interrupção das cadeias produtivas leva à dispensa e demissão de muitos trabalhadores, o que diminuirá a demanda final, enquanto a demanda por matérias-primas está diminuindo o consumo produtivo. Esses impactos pelo lado da demanda produzirão por si mesmos uma recessão.

Mas a maior vulnerabilidade do sistema está enraizada em outros lugares. Os modos de consumismo que explodiram após 2007-8 se romperam com consequências devastadoras. Esses modos se baseiam em reduzir o tempo de rotação do consumo o mais próximo de zero.

A avalanche de investimentos nessas formas de consumismo teve tudo a ver com a máxima absorção dos volumes de capital, mediante o aumento exponencial das formas de consumismo, que têm, por sua vez, o menor tempo de rotatividade possível.

Nesse sentido, o turismo internacional é emblemático. As visitas internacionais aumentaram de 800 milhões para 1,4 bilhão, entre 2010 e 2018. Essa forma de consumismo instantâneo exigiu investimentos massivos em infraestrutura em aeroportos e companhias aéreas, hotéis e restaurantes, parques temáticos e eventos culturais, etc.

Esta praça de acumulação de capital está agora morta. As companhias aéreas estão perto da falência, os hotéis estão vazios e o desemprego em massa nas indústrias de hospitalidade é iminente. Comer fora não é uma boa ideia. Os restaurantes e bares foram fechados em muitos lugares. Até comida para viagem parece arriscada.

O vasto exército de trabalhadores na economia do trabalho autônomo e do trabalho precário está sendo destruído sem nenhum meio visível de apoio governamental. Eventos como festivais culturais, torneios de futebol e basquete, concertos, convenções empresariais e profissionais e até reuniões políticas e eleições são canceladas. Essas formas de consumismo vivencial “baseadas em eventos” são praticamente suprimidas. As receitas dos governos locais foram reduzidas. As universidades e escolas estão fechando.

Grande parte do modelo de vanguarda do consumismo capitalista contemporâneo é inoperante nas condições atuais. O impulso para o que André Gorz descreve como “consumismo compensatório” foi esmagado – David Harvey

Grande parte do modelo de vanguarda do consumismo capitalista contemporâneo é inoperante nas condições atuais. O impulso para o que André Gorz descreve como “consumismo compensatório” foi esmagado (um recurso que supunha que os trabalhadores alienados poderiam recuperar seu espírito por meio de um pacote de férias em uma praia tropical).

Mas as economias capitalistas contemporâneas estão impulsionadas em 70 ou até 80% pelo consumismo. Nos últimos quarenta anos, os sentidos básicos do consumidor se tornaram a chave para a mobilização da demanda efetiva e o capital se tornou cada vez mais dependente dessas demandas, artificiais em muitos casos.

Essa fonte de energia econômica não havia estado sujeita a flutuações repentinas, como a erupção vulcânica da Islândia que bloqueou voos transatlânticos durante algumas semanas. Mas a COVID–19 não é uma flutuação repentina. É um choque verdadeiramente poderoso no coração do consumismo que domina nos países mais prósperos.

A forma em espiral de acumulação de capital sem fim está colapsando para dentro, de uma parte do mundo a outra. A única coisa que pode salvá-la é um consumismo massivo financiado pelo governo, evocado do nada – David Harvey

A forma em espiral de acumulação de capital sem fim está colapsando para dentro, de uma parte do mundo a outra. A única coisa que pode salvá-la é um consumismo massivo financiado pelo governo, evocado do nada. Isso exigirá socializar toda a economia dos Estados Unidos, por exemplo, sem chamá-la de socialismo, é claro.

As linhas de frente

Existe uma conveniente mitologia de que “as doenças infecciosas não reconhecem barreiras e fronteiras de classe”. Como muitos desses ditados, há uma certa verdade nisso. Nas epidemias de cólera do século XIX, a horizontalidade da doença entre as classes sociais foi dramática o suficiente para dar lugar ao nascimento de um movimento pela saúde pública (que mais tarde se profissionalizou) e que persiste até hoje.

Não está claro se esse movimento pretendia proteger a todos ou apenas as classes altas. Mas hoje as diferenças de classe e os efeitos sociais são uma história muito diferente.

Agora, o impacto econômico e social se insere através das discriminações “habituais” que está instalada em toda parte. Para começar, a força de trabalho que trata de um crescente número de doentes é tipicamente sexista e racializada na maior parte do mundo ocidental. Essas trabalhadoras e trabalhadores são facilmente apreciados, por exemplo, nos serviços mais desprezados, em aeroportos e outros setores logísticos.

Essa “nova classe trabalhadora” está na vanguarda e carrega o fardo de ser a força de trabalho que mais corre o risco de contrair o vírus devido à natureza de seus empregos. Se tiverem a sorte de não contrair a doença, provavelmente serão demitidos mais tarde devido à crise econômica que a pandemia trará.

Há também a questão de quem pode trabalhar em casa e quem não pode. Isso agudiza a divisão social. Nem todos podem se dar ao luxo de se isolar ou se colocar em quarentena (com ou sem remuneração) em caso de contato ou infecção.

Nos terremotos na Nicarágua (1973) e no México D.F. (1995), aprendi em campo que os terremotos foram, na realidade, “um terremoto para os trabalhadores e os pobres”.

A pandemia da COVID-19 exibe todas as características de uma pandemia de classe, gênero e raça – David Harvey

Portanto, a pandemia da COVID–19 exibe todas as características de uma pandemia de classe, gênero e raça. Embora os esforços de mitigação estejam convenientemente ocultos na retórica de que “todos estamos juntos nesta guerra”, as práticas, em particular por parte dos governos nacionais, sugerem motivações mais sombrias.

A classe trabalhadora contemporânea dos Estados Unidos (composta predominantemente por afro-americanos, latinos e mulheres assalariadas) enfrenta uma escolha horrível: a contaminação por cuidar dos doentes e manter meios de subsistência (entregadores de supermercado, por exemplo) ou o desemprego sem benefícios e assistência médica adequada.

Os funcionários assalariados (como eu) trabalham em casa e recebem seus salários como antes, enquanto os diretores gerais se movimentam em jatos particulares e helicópteros.

As forças de trabalho na maior parte do mundo têm sido socializadas durante muito tempo para se comportarem como bons sujeitos neoliberais (ou seja, culpar a si mesmas ou a Deus se algo der errado, mas nunca ousar sugerir que o capitalismo pode ser o problema).

Contudo, mesmo bons sujeitos neoliberais podem ver hoje que há algo muito errado na forma como a pandemia está sendo respondida.

A grande questão é: quanto tempo isso vai durar? Pode levar mais de um ano, e quanto mais o tempo passa, mais desvalorização haverá, mesmo para a força de trabalho. É quase certo que os níveis de desemprego subirão para níveis comparáveis aos dos anos 1930, na ausência de intervenções estatais massivas que teriam que ir contra a lógica neoliberal.

O consumismo contemporâneo é indubitavelmente excessivo, Marx o descreveu como “consumo excessivo e insano, monstruoso e bizarro” – David Harvey

As ramificações imediatas para a economia, assim como para a vida social diária, são múltiplas e complexas. Mas nem todas são ruins. O consumismo contemporâneo é indubitavelmente excessivo, Marx o descreveu como “consumo excessivo e insano, monstruoso e bizarro”.

A imprudência do consumo excessivo desempenhou um papel importante na degradação do meio ambiente. O cancelamento de voos de companhias aéreas e a redução radical de transporte – e de movimento – tiveram consequências positivas em relação às emissões de gases do efeito estufa.

A qualidade do ar em Wuhan melhorou muito, como em muitas cidades dos Estados Unidos. Os locais de turismo ecológico terão um tempo para se recuperar do pisoteio dos viajantes. Os cisnes retornaram aos canais de Veneza. À medida que diminui o gosto pelo excesso de consumo imprudente e sem sentido, poderá haver alguns benefícios a longo prazo. (Menos mortes no Monte Everest pode ser algo bom).

E embora ninguém diga isso em voz alta, o viés demográfico do vírus poderá acabar afetando as pirâmides etárias, com efeitos a longo prazo na Seguridade Social e no futuro da “indústria do cuidado”.

A vida cotidiana vai desacelerar e para algumas pessoas isso será uma bênção. As regras sugeridas de distanciamento social poderão, se a emergência for prolongada o suficiente, levar a mudanças culturais. A única forma de consumismo que quase certamente se beneficiará é a que chamo de economia “Netflix”, que atende os “consumidores compulsivos”.

No plano econômico, as respostas foram condicionadas pela forma como foi produzida a saída da crise de 2007-8. Isso levou a uma política monetária ultraflexível, ao resgate de bancos e a um aumento dramático no consumo produtivo por meio de uma expansão massiva no investimento em infraestruturas (inclusive na China).

Isso não pode ser repetido na escala necessária. Os planos de resgate estabelecidos em 2008 focavam nos bancos, mas também envolviam a nacionalização de fato da General Motors. Talvez seja significativo que, frente ao descontentamento dos trabalhadores e o colapso da demanda, as três grandes montadoras automobilísticas de Detroit estejam fechando, pelo menos temporariamente.

Se a China não puder repetir o papel que desempenhou em 2007-8, então o ônus de sair da atual crise econômica se deslocará para os Estados Unidos e aqui está a grande ironia: as únicas políticas que funcionarão, tanto econômica como politicamente, são muito mais socialistas do que qualquer coisa que possa propor Bernie Sanders. Os programas de resgate terão que começar sob a égide de Donald Trump, presumivelmente sob a máscara de “Making America Great Again” (Tornando a América Grande Novamente).

Todos os republicanos que se opuseram visceralmente ao resgate de 2008 terão que comer o corvo ou desafiar Donald Trump. Esse personagem poderia chegar a cancelar as eleições “pela emergência” e impor uma presidência autoritária do Império para salvar o capital e o mundo dos “distúrbios e da revolução”.

David Harvey (Gillingham, Kent, 7 de dezembro de 1935) é um teórico da Geografia britânico formado na Universidade de Cambridge. É professor da City University of New York e trabalha com diversas questões ligadas à geografia urbana. Em 2007 foi classificado como o décimo oitavo teórico vivo mais citado nas ciências humanas

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Por que o Brasil não consegue vencer a dengue?

Série de fatores contribui para a proliferação do mosquito transmissor, tornando impossível sua erradicação. Para especialistas, solução está na educação e em tecnologias para prevenir a doença, que se alastra pelo país.    

Mosquitos Aedes aegyptiNa guerra contra o “Aedes aegypti”, médicos e biólogos defendem um trabalho maciço de conscientização da população

Quatro pacientes que haviam recebido transplante de medula óssea contraíram dengue no Hospital das Clínicas, em São Paulo, em 2015. “Foram diagnosticados tardiamente, pois a última coisa que poderíamos pensar é que no hospital pudesse ocorrer transmissão”, diz o médico patologista Amaro Nunes Duarte Neto, professor da Universidade de São Paulo (USP), mantenedora do hospital.

“Fomos procurar, achamos numerosos criadouros [de mosquito Aedes aegypti] no fosso do hospital, uma área próxima à unidade de transplante e doação de sangue”, conta ele. “Ou seja, onde quer que estejamos, estamos sob risco, pois nossa área é altamente endêmica para a dengue. O mosquito prolifera em qualquer lugar favorável.”

O relato de Duarte Neto ilustra bem a dificuldade de vencer a dengue no Brasil. Na semana passada, o Ministério da Saúde informou que 1.439.471 casos foram registrados no país nos primeiros oito meses do ano, um salto de 600% em relação ao mesmo período do ano passado. Vários estados estão em situação de epidemia. Em São Paulo, a incidência já é 37 vezes maior que em 2018.

O primeiro caso de dengue documentado clínica e laboratorialmente no Brasil data de 1981, em Boa Vista (RR). Contudo, de acordo com o Instituto Oswaldo Cruz, há relatos de ocorrência da doença em Curitiba no fim do século 19 e em Niterói no começo do século 20.

O mosquito Aedes aegypti, originário da África, provavelmente chegou ao território brasileiro pelo menos 100 anos antes – acredita-se que tenha vindo a bordo de navios negreiros.

Fatores favoráveis para a proliferação

Mas é possível vencer o mosquito transmissor da dengue? “A possibilidade de erradicação do Aedes aegypti é virtualmente impossível”, afirma o biólogo Magno Botelho, especialista em meio ambiente da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Mesmo localmente, se um município conseguisse essa proeza, rapidamente mosquitos de regiões vizinhas repovoariam esse local.”

O problema é complexo. Porque há uma conjunção de fatores favoráveis para que o bicho prolifere no Brasil. As condições ambientais são extremamente favoráveis, com temperaturas variando entre 20 e 40 graus na maior parte do território. “Além disso, as regiões mais densamente povoadas, como Sul e Sudeste, têm regime de chuvas adequado ao ciclo reprodutivo do mosquito, que ainda por cima é extremamente adaptável às eventuais variações climáticas tropicais”, completa Botelho.

“É um problema sanitário e climático”, define o médico patologista Paulo Saldiva, professor da USP. Ele lembra que a proliferação do mosquito é resultado não só das condições tropicais, mas também do crescimento desordenado das cidades e da precariedade do saneamento básico. “A procriação do mosquito está associada ao acúmulo de lixo, por exemplo”, acrescenta.

“Temos enorme dificuldade de controlar a dengue porque existe no país um crescimento urbano desordenado, urbanização precária, falta de fornecimento regular de água, de saneamento básico, de coleta regular de lixo, de política de reciclagem e de educação para a promoção de saúde”, enumera o médico infectologista Edimilson Migowski, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “Esse é o pano de fundo. O mosquito é fruto de tudo isso.”

Guerra ao mosquito

Os esforços de combate ao Aedes aegypti reúnem uma sucessão de batalhas inglórias. Campanhas governamentais, fumacês, mutirões para eliminar água parada, entre outros. Botelho lembra que somente em 2001 “foi oficialmente abandonada a meta (irrealizável) de erradicar o mosquito”. “O veneno acaba funcionando como uma pressão seletiva no Aedes”, acrescenta Saldiva.

“Não acredito que com a tecnologia que dispomos atualmente o Brasil vá se ver livre da dengue”, afirma o médico Celso Granato, professor de infectologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Cingapura, que é muito menor do que o Brasil e tem mais dinheiro, não conseguiu.”

“Precisamos mudar a estratégia”, completa Granato. “O mosquito é muito adaptado ao meio ambiente, ele cresce em qualquer garrafinha PET, se aproveita da chuva. Então é muito difícil debelar a dengue com fumacê e esses químicos que a gente usa.”

Os pesquisadores são, portanto, unânimes: acabar com o Aedes aegypti é impossível. A solução seria mesmo investir em educação e tecnologia.

Por educação entende-se um trabalho maciço de conscientização da população. Para que não haja água parada nos quintais e, assim, a procriação do bicho diminua consideravelmente.

Conforme ressalta Migowski, “80% dos criadouros estão nas casas das pessoas”. “Combate ao vetor é conscientização e educação. E isso não se faz de uma hora para outra”, diz o médico. “O principal problema da saúde na população brasileira é a falta de educação para a saúde.”

Quanto à tecnologia, é necessário primeiro o desenvolvimento de uma vacina abrangente, eficaz e realmente efetiva. “Hoje só se consegue imunizar para duas cepas [tipos], e é contraindicado para quem já teve doença por determinada cepa”, explica Duarte Neto. “Falta uma vacina efetiva que possa ser colocada em escala, abrangendo todos os subtipos da dengue”, completa Saldiva.

Outras táticas podem dar resultado, se aplicadas de modo abrangente, adiantam os especialistas. Granato enumera duas ideias, em desenvolvimento e fase de testes: “Por exemplo, usar a Wolbachia, uma bactéria que, no organismo do inseto, inibe a transmissão de dengue.”

Outra tecnologia envolve mosquitos geneticamente modificados, afirma Granato, mas trata-se de uma alternativa mais cara. Nesse caso, esses insetos transgênicos são espalhados no ambiente, e seus descendentes morrem antes de chegar à fase adulta – uma experiência, contudo, que não acabou bem-sucedida em testes recentes na Bahia.

Saúde,Venezuela,Blog do Mesquita

Colapso da saúde na Venezuela pode gerar surto regional de doenças infecciosas

Antes pioneiro no combate a malária, dengue e zika, país sofre com falta de entrada de medicamentos devido à crise e êxodo de médicos. Doenças como Chagas ameaçam se espalhar para países vizinhos, diz pesquisa.Saúde,Venezuela,Blog do Mesquita

Funcionário da Saúde Pública trabalha em campanha contra o zika em Caracas

A crise humanitária na Venezuela poderá resultar num aumento das infecções de malária, doença de Chagas, dengue, zika e outros males que ameaçam 20 anos de avanços obtidos na saúde pública do país.

O alerta surgiu em um estudo publicado no portal da revista científica The Lancet para doenças infecciosas na quinta-feira (21/02), onde os autores afirmam que algumas epidemias poderão avançar para além das fronteiras venezuelanas, podendo, potencialmente, causar uma emergência de saúde pública na região.

“Assim como o ressurgimento do sarampo e outras doenças infecciosas que podem ser prevenidas através de vacinas, o aumento contínuo dos casos de malária poderá se tornar incontrolável”, afirmou Martin Llewellyn, acadêmico da Universidade de Glasgow que liderou o estudo junto a pesquisadores da Venezuela, Brasil, Colômbia e Equador.

Ele afirma que com o colapso do sistema de saúde venezuelano e uma dramática redução nos programas de saúde pública e de controle de doenças, as chamadas doenças vetoriais – transmitidas por insetos como mosquitos e carrapatos – aumentam e se espalham em novas partes da Venezuela.

O país foi declarado livre de malária em 1961 pela Organização Mundial de saúde (OMS). Mas os pesquisadores revelaram que as infecções da doença aumentaram 359% entre 2010 (29.736 casos registrados) e 2015 (136.402 casos). Apenas entre 2016 e 2017, o crescimento foi de 71%, aumentando de 240.613 para 411.586 casos em razão da redução do controle dos mosquitos e da escassez de medicamentos.

“A dura realidade é que, como consequência da ausência de vigilância, diagnóstico e medidas preventivas, essas cifras provavelmente subestimam a situação verdadeira”, alertou Llewellyn.

Segundo o estudo, a transmissão da doença de Chagas – que mais causa insuficiências cardíacas na América Latina – é a mais alta em 20 anos na Venezuela. As infecções da doença em menores de 10 anos entre 2008 e 2018 tiveram percentual de 12,5% em algumas comunidades, em contraste com o índice de 0,5 em 2018, o mais baixo já registrado no país.

As infecções por dengue se multiplicaram entre 2010 e 2016, com 211 casos para cada 100 mil habitantes. Os especialistas detectaram seis epidemias nacionais da doença que aumentaram progressivamente de proporção entre 2007 e 2016.

Os casos de chikungunya e zika com possibilidade de provocar epidemias também aumentaram. Estima-se que até dois milhões de pessoas estivessem contagiadas com o vírus do chikungunya, número doze vezes maior do que as estimativas oficiais.

Os pesquisadores alertam ainda para os efeitos da migração em massa de venezuelanos para os países vizinhos, como o Brasil e a Colômbia. Com a média diária de 5,5 mil pessoas que atravessaram a fronteira em 2018, esses países também podem sofrer, potencialmente, surtos de doenças infecciosas.

Nesse contexto, algumas regiões brasileiras fronteiriças também teriam detectado um aumento dos “casos importados de malária”, como em Roraima, onde passaram de 1.538 em 2014 a 3.129 em 2017. Em outros países, dizem os cientistas, a situação “não está clara” – motivo pelo qual recomendam reforço da cooperação bilateral no âmbito do combate a doenças.

O controle eficaz da “crescente crise sanitária” também precisará de políticas de “coordenação regional” e um “compromisso sólido” da comunidade nacional e internacional, dizem os estudiosos. “Pedimos aos membros da Organização dos Estados Americanos (OEA) e outros organismos políticos internacionais que exerçam mais pressão sobre o governo venezuelano para que aceite a ajuda humanitária oferecida pela comunidade internacional para reforçar o sistema de saúde”, afirma Llewellyn.

RC/rtr/efe/dpa

Mais sobre a polemica das vacinas

Nos últimos 2 meses surgiu uma “epidemia” de sarampo na universidade de Harvard, nos EUA.

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Ao todo, 40 estudantes contraíram a doença até agora.

Curioso eh que todos eles são vacinados contra o sarampo; e ainda mais: 99% dos estudantes da universidade são vacinados contra o sarampo.

Ao mesmo tempo, ja foram registrados mais 12 casos no estado de Massachusetts.

A fabricante da vacina, a Merck, afirma que ela tem 95% de eficácia.

No entanto, dois cientistas da Merck, Sthepen Krahling e Joan Wlochowski, afirmam que os dados foram falsificados, e os estudos científicos manipulados.

Mais detalhes:

http://www.naturalnews.com/053829_Harvard_mumps_outbreak_vaccine_myths.html

http://www.naturalblaze.com/2016/04/current-harvard-mumps-outbreak-occurs-in-99-percent-vaccinated.html

http://www.boston.com/news/local-news/2016/04/26/harvard-40-cases-mumps


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Zika mata células de cérebros em desenvolvimento, aponta estudo americano

O vírus Zika mata um tipo de tecido essencial para cérebros em desenvolvimento, afirmam pesquisadores.

(Foto: Reuters)Estudo americano é mais uma evidência da relação entre zika e microcefalia
Image copyright Reuters

Em testes de laboratório, o Zika foi capaz de destruir ou impedir o crescimento de células progenitoras neurais, que constroem o cérebro e o sistema nervoso.

A descoberta, anunciada na publicação científica Cell Stem Cell, reforça a crença de que o vírus esteja causando as más-formações nos cérebros de bebês.

Os pesquisadores americanos, alertam, porém, que isso ainda não representa uma relação definitiva entre o Zika e a condição.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Segundo o último boletim divulgado pelo Ministério da Saúde brasileiro, já são 641 confirmações de microcefalia ou outras más-formações em cérebros de bebês. Outros 4,2 mil casos suspeitos estão sob investigação e pouco mais de 1 mil foram descartados.

A epidemia de zika tem sido amplamente apontada como o motivo do aumento dos casos de microcefalia, mas esse elo ainda não foi cientificamente confirmado aos olhos da Organização Mundial da Saúde.

A equipe americana, formado por pesquisadores das universidades Johns Hopkins (Maryland), do Estado da Flórida e Emory (Geórgia), infectou um grupo das células com o Zika por duas horas e analisou essas amostras três dias depois.

(Foto: Fiocruz)Uma das primeiras imagens do vírus Zika, em amostra retirada de um paciente sul-americano

O vírus conseguiu infectar até 90% das progenitoras neurais em uma das amostras, levando à morte de cerca de um terço das células e a sérios danos nas demais. Um efeito similar teria resultados devastadores em um cérebro em desenvolvimento.

Por outro lado, o Zika foi capaz de infectar apenas 10% dos outros tecidos testados, incluindo células cerebrais mais avançadas, renais e tronco.

A professora Guo-li Ming, uma dos cientistas responsáveis pelo estudo, afirmou que as descobertas são significantes e representam um primeiro passo para entender a relação entre zika e microcefalia.

“As células progenitoras neurais são especialmente vulneráveis ao vírus Zika”, afirmou ela ao site da BBC. “Elas dão origem ao córtex – a principal parte (do cérebro) a apresentar volume reduzido na microcefalia.”

“Mas esse estudo não provém uma evidência direta de que o vírus Zika é a causa da microcefalia.”

Segundo a pesquisadora, são necessários mais estudos em cérebros em miniatura, criados em laboratório, e em animais.

(Foto: Reuters)Brasil já registra mais de 600 casos confirmados de microcefalia
Image copyright Reuters

Ainda não está claro o motivo de essas células serem tão vulneráveis – elas aparentemente não criam uma defesa contra a infecção pelo Zika.

Embora não seja definitivo, o estudo se soma às evidências já anunciadas pela comunidade científica – incluindo a descoberta do vírus em cérebros de bebês mortos e em líquido amniótico.

Madeleine Lancaster, que pesquisa o desenvolvimento do cérebro no Laboratório de Biologia Molecular do MRC (Conselho de Pesquisas Médicas britânico, na sigla em inglês), afirmou que o estudo é um “significativo passo adiante”.

“Os efeitos vistos poderiam explicar o surto de microcefalia e abrem alas para muitos estudos futuros sobre como o vírus afeta células-tronco e sua habilidade de produzir neurônios em cérebros em desenvolvimento”, afirmou ela ao site da BBC.

“Eu acho que se trata de uma contribuição muito importante, e num momento extremamente oportuno.”

Mas a cientista concorda com os pesquisadores: é preciso investigar mais. “(Deve-se) testar se o Zika afeta a produção de neurônios e o tamanho do cérebro” e descobrir como ele atravessa a placenta, afirma.

Bruce Aylward, da Organização Mundial de Saúde, diz que as evidências de que o Zika esteja causando microcefalia e outra condição – a síndrome de Guillain-Barré – se acumulam.

“Desde a declaração de emergência internacional, em fevereiro, as evidências de uma relação causal vêm se acumulando.”
BBC/James Gallagher

Uganda: Por que o berço do zika nunca teve nenhum surto?

Apesar de ter sido isolado pela primeira vez por cientistas no final da década de 40, o zika vírus ─ transmitido pelo mosquito Aedes aegypti ─ nunca se tornou uma epidemia em Uganda, onde foi descoberto no sangue de macacos.

(BBC)Segundo virologista Julius Lutwama, tipo de Aedes encontrado no país prefere animais a humanos; mutação pode estar relacionada a desmatamento

Ali, na floresta de Zika, na região central do país, o vírus adquiriu contornos diferentes do que no Brasil, que vive atualmente um surto da doença.

Segundo o Ministério da Saúde, já são mais de 70 mil notificações em 19 Estados brasileiros. O vírus também vem sendo associado ao aumento do número de casos de microcefalia ─ uma má-formação cerebral em fetos ─ com 508 casos confirmados e outros 3.935 suspeitos sendo investigados.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Mas, em Uganda, tampouco houve registros de má-formações congênitas.

Além disso, entre 1947 a 2007, quando foi registrado o primeiro surto de zika fora da Ásia e da África (nas Ilhas Yap, na Micronésia), foram apenas 14 casos confirmados no mundo.

O que explica então a ausência de um surto de zika no país africano?

Motivos

Segundo Julius Lutwama, principal virologista do Instituto de Uganda de Pesquisa de Vírus (Urvi, na sigla em inglês), o motivo se deve, em grande parte, ao tipo deAedes aegypti encontrado em Uganda.

“Em Uganda, a subespécie de Aedes aegypti que temos ─ o Aedes aegypti formosus ─ é diferente da daquela encontrada na América do Sul, o Aedes aegypti aegypti. O mosquito daqui pica mais animais do que humanos”, explica ele à BBC Brasil.

“Esse mosquito vive na floresta e costuma se alimentar à noite. Mesmo que um ser humano seja picado e venha a desenvolver a doença, a probabilidade de ela se alastrar é baixa, por causa da ausência do vetor nas áreas urbanas. Ou seja, se não há mosquitos para espalhar o vírus, dificilmente haverá uma epidemia”, acrescenta.

Outro fator, destaca Lutwama, envolve características geográficas e climáticas de Uganda.

Segundo ele, diferentemente de outros locais que enfrentaram surtos de zika, o país manteve suas florestas razoavelmente intactas, preservando o habitat natural do mosquito.

(Getty)Já são mais de 70 notificações de zika no Brasil – Image copyright Getty

“Esse mosquito vive predominantemente nas florestas. Com o desmatamento, acreditamos que ele tenha migrado para as zonas urbanas e evoluído, passando a se alimentar do sangue de seres humanos”, diz ele.

Nesse sentido, a forte predominância de chuvas, típicas do clima de Uganda, também teria contribuído para evitar uma epidemia da doença.

“Aqui em Uganda chove muito e, por isso, a população não costuma armazenar água em casa”, argumenta.

“Mas nos países africanos que desmataram suas florestas, como no oeste da África, por exemplo, o mosquito migrou para as áreas urbanas e acabou encontrando um ambiente perfeito, pois precisa de água parada para se reproduzir”.

Lutwama diz acreditar ainda que a população ugandense teria desenvolvido imunidade à doença, devido a “diferentes flavivírus” (vírus transmitidos por carrapatos e mosquitos) encontrados na região, como dengue, chikungunya e O’nyong’nyong, todos transmitidos pelo mosquito Aedes aegypti.

“Como temos outras doenças muito semelhantes ao zika, como dengue, chikungunya e O’nyong’nyong, acredito que possa ter havido algum tipo de imunidade cruzada. Dessa forma, quem já contraiu algum desses vírus, teria menor vulnerabilidade a uma nova infecção”, observa.

E devido ao baixo número de casos da doença em Uganda, acrescenta Lutwama, não foi possível estabelecer nenhuma relação entre o vírus e a microcefalia.

“Diferentemente do Brasil, não temos um número suficiente de casos de zika para comprovar qualquer associação entre o vírus e essa má-formação congênita em fetos”, afirma.

Brasil

BBCJulius Lutwama é principal pesquisador do Instituto de Uganda de Pesquisa de Vírus (Urvi, na sigla em inglês)

Principal pesquisador do Uvri, instituto criado em 1936 com financiamento da Fundação Rockefeller, dos Estados Unidos, Lutwama diz que ele e sua equipe vêm realizando um trabalho de prevenção para evitar que a subespécie latino-americana se espalhe em Uganda.

“Coletamos e monitoramos amostras de sangue de pacientes de todo o país. São medidas preventivas importantes”, assinala ele.

Lutwama cita o caso dos Estados Unidos, onde o Aedes aegypti ─ virtualmente inexistente há alguns anos ─ já é encontrado em regiões com temperaturas mais amenas, como o Estado da Flórida.
Luís Barrucho/BBC