100 mil: a culpa não é do morcego

Pandemia: a antítese entre sociedade e mercado. Retomo o tema à luz do que ocorreu nesses últimos três meses. Em artigo anterior, citei Rousseau que, a propósito de uma catástrofe natural, o terremoto de Lisboa em 1755, disse que a maior parte dos nossos males são sociais e não naturais.  Elas se distribuem desigualmente e é a estrutura social que determina quem sofre, quem morre, quem tem sua vida destruída.

Sepultamentos no Cemitério Nossa Senhora Aparecida causados pela Covid-19 (Foto: Alex Pazuello/Semcom)

No artigo, também cito o terremoto de São Francisco de 1989, de intensidade 7,1 graus na escala Richter, que causou a morte de 63 pessoas e deixou cerca de 3.700 mil feridos. Em comparação, o terremoto de Porto Príncipe de 2010, magnitude 7 na escala Richter, deixou 300 mil mortos e mais de 300 mil feridos. Dez meses depois, uma epidemia de cólera matou nove mil pessoas. A natureza não pode ser responsabilizada pelas mortes a mais em Porto Príncipe ou pelo 1,5 milhão de pessoas que lá ficaram desabrigadas. Isso é obra humana.

A hipótese mais aceita para a origem do coronavírus é o comércio de animais selvagens na China. Teria saltado dos morcegos para os humanos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os primeiros casos na China apareceram em dezembro de 2019, dois meses antes de a doença se espalhar pelo planeta. O país teve cerca de 84 mil infecções e apenas 4.600 mortes. Os Estados Unidos têm até agora 4,3 milhões de infectados e 150 mil mortos. No Brasil, há aproximadamente três milhões de infecções e 100 mil mortos. Essa diferença não vai para a conta do morcego. Deve-se à desigualdade, a um modo de vida em que o mercado é a racionalidade hegemônica e – produto arrasador de 40 anos de neoliberalismo – ao entorpecimento da consciência da massa pela ideia de que não há sociedade, mas indivíduos que lutam por seus interesses, como acreditava Margaret Thatcher. Ou, como disse Marx certa vez, a uma estrutura em que indivíduos são “mônadas dobradas sobre si mesmos”.

Vejamos como um fato da natureza transforma-se em catástrofe social tomando o município de São Paulo como exemplo para evitar que disparidades regionais contaminem as conclusões. Aqui, o prefeito e o governador (antes do seu plano arco-íris) apareceram inicialmente como heróis do combate à pandemia. O que, em contraponto com o genocida Jair Bolsonaro, não era exatamente um grande feito.

Em 23 de março, a capital tinha 477 casos confirmados e 30 óbitos. A quarentena foi decretada em 24 de março. Funcionavam apenas os serviços essenciais de alimentação, abastecimento, saúde, bancos, limpeza e segurança. No final de maio, João Doria apresentou seu plano de fases coloridas que não era um “relaxamento” da quarentena, mas o fim gradativo dela. Com sua linguagem pomposa e pernóstica, apresentou a proposta como um “monitoramento e ajuste fino regional”, tudo “seguindo a orientação da ciência, da medicina e da saúde”. Punha-se de maneira dissimulada na mesma esfera de Jair Bolsonaro, permitindo que a capital reabrisse shoppings, atividades imobiliárias, comércio e concessionárias. Enquanto Bolsonaro defendia às claras o fim do isolamento social – fascistas normalizam a loucura moral –, o outro aparecia como representante de uma burguesia ilustrada que sabe ser oblíqua. Ambos a serviço do mercado.

Nessa trajetória paulistana de fechamento à abertura, de março a agosto, passamos de 477 casos e 30 óbitos no dia 23 de março para cerca de 246 mil infecções e mais de 10 mil óbitos no dia 8 de agosto, segundo boletins da prefeitura de São Paulo. Vejamos mês a mês, tomando aleatoriamente o dia 15 para efeito de comparação. Infecções e mortes, respectivamente, em 15 de abril: 8.024 e 563. Em 15 de maio: 37.106 e 2.695. Em 15 de junho: 100.627 e 5.703. Em 15 de julho: 179.850 e 8.510. Em 8 de agosto: 246.650 e 10.172. Considerando as subnotificações, podemos multiplicar isso tudo por algum número que não se pode saber ao certo.

No período de 15 de maio a 15 de julho, desde o fim do isolamento, passamos de cerca de 37 mil casos para cerca de 179 mil, com a reabertura de shoppings, imobiliárias, comércio e concessionárias de carros. Agora, já são 246 mil casos. João Doria e Bruno Covas jogaram centenas de milhares de trabalhadores nas ruas, nos transportes coletivos e em contato com a população em geral, em situação de vulnerabilidade, provocando o agravamento da pandemia.

Quem precisa de shoppings abertos? Quem precisa comprar carros? Quem precisa comprar imóveis agora? Quem não pode esperar alguns meses para ter carros novos, perfumes, roupas de grife e sapatos de 800 reais? A elite empresarial – com seus interesses econômicos e sua ânsia desenfreada por lucros – e os consumidores da classe média para cima. Qual a lógica de fechar a cidade com 477 casos e prosseguir na reabertura quando se atingem 246 mil?

A Unifesp fez uma pesquisa sobre desigualdade e vulnerabilidade na pandemia e concluiu que regiões com mais presença de autônomos e pessoas que usam transporte público têm mais mortes do que regiões em que pessoas usam mais carros, são empregadores ou profissionais liberais. O responsável pelo estudo, Kazuo Nakano, foi taxativo em entrevista à Folha: “de uma maneira bem contundente estão acontecendo mais mortes onde você tem mais viagens de transporte coletivo, de ônibus, trem e metrô”.

O que todos os especialistas com um mínimo de comprometimento com a ciência e a razão afirmam é que, não havendo vacina ou qualquer antiviral eficaz, a única maneira de enfrentar a pandemia é o isolamento. Mas a própria estrutura do capitalismo inviabiliza isso porque somente uma porcentagem ínfima no topo da pirâmide é capaz de se proteger desse modo. Além do mais, temos uma das burguesias mais estúpidas do planeta (de que Bolsonaro e Doria são legítimos representantes), incapaz de ver seus interesses estruturais de classe. Se conseguisse raciocinar além do balanço mensal, os danos teriam sido atenuados. Além disso, 40 anos de hegemonia neoliberal deixaram marcas na ideia de consciência social e de solidariedade, transformando cada vez mais os indivíduos em mônadas dobradas sobre si mesmas. De qualquer forma, o capitalismo será sempre incompatível com a totalidade e com a ideia de uma humanidade em que todos possam ser igualmente protegidos por direitos.Rodando o globo terresre,Capitalismo,Economia,Humor,Trabalho,Escravos,Blog do Mesquita

A culpa não é do morcego. É do capitalismo. Comecei com Rousseau e termino com Rousseau, citado por Marx em Sobre a questão judaica (1844): “quem se propõe a tarefa de instituir um povo deve transformar a natureza humana (quer dizer, o homem em seu estado natural) de um todo perfeito e solitário a parte de um todo maior, de substituir a existência física e independente por uma existência parcial e moral. Deve ser despojado de suas próprias forças para que receba outras, que lhe são estranhas e das quais só possa fazer uso com a ajuda de outros homens”.

Substituir a “existência física” por uma “existência moral” expressa em outras palavras que o mercado não é sociedade. Quando a “existência física” deriva para a loucura moral, passamos para o fascismo, a forma mais perversa de capitalismo. É o capitalismo, com eventuais derivações fascistas, que está nos matando. Não o morcego.

MARCIO SOTELO FELIPPE é advogado e foi procurador-geral do Estado de São Paulo. É mestre em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela USP

China alerta após caso confirmado de peste bubônica

As autoridades alertaram a população contra a caça, consumo ou transporte de animais potencialmente infectados.

Um voluntário desinfeta uma escola no Condado de Suining, China, em 6 de julho de 2020. Diário da China / Reuters

As autoridades de saúde chinesas confirmaram que um pastor na região da Mongólia Interior está infectado pela peste bubônica. A comissão de saúde da cidade chinesa de Bayannur detalhou que o homem foi diagnosticado com a doença no domingo e que ele está atualmente em uma condição estável e recebendo tratamento em um hospital, informou a mídia local.

Além disso, a agência emitiu um alerta de terceiro nível (o segundo mais baixo em um sistema de quatro níveis), alertando a população contra a caça, consumo ou transporte de animais potencialmente infectados, principalmente marmotas, e informar sobre roedor morto ou doente.

Cientistas determinam que a peste bubônica chegou da Europa à Rússia
Cientistas determinam que a peste bubônica chegou da Europa à Rússia
O governo da cidade indicou que havia implementado medidas de prevenção de pragas que continuariam em vigor pelo resto do ano.

O país vizinho da Mongólia anunciou na segunda-feira que suspendeu as medidas de isolamento na província de Hovd depois que dois casos de peste bubônica relacionados ao consumo de carne de marmota sem cozimento prévio foram relatados. As autoridades locais alegaram que as condições dos pacientes haviam melhorado, relata o portal Ikon.mn.

Morte Negra

A peste bubônica, causada pela bactéria ‘Yersinia pestis’, é disseminada principalmente pela picada de pulgas infectadas que habitam roedores. O sintoma mais conhecido é o surgimento dos chamados bubões, linfonodos infectados, aumentados e dolorosos. Eles são comumente encontrados nas axilas, fêmur superior, virilha e região do pescoço.

No século XIV, essa doença – então conhecida como Peste Negra – matou mais de um terço da população européia. Hoje, a peste bubônica pode ser totalmente controlada e curada se a pessoa infectada receber o tratamento indicado a tempo.

Além disso, os casos de peste aparecem em número limitado em grande parte do mundo. Em novembro, Pequim anunciou que duas pessoas da Mongólia Interior tinham peste pneumônica, outra forma causada pela mesma bactéria. A peste pneumônica é a única forma que pode ser transmitida de pessoa para pessoa, através de gotículas respiratórias.

Se não tratada adequadamente, a peste pneumônica é invariavelmente fatal, enquanto a peste bubônica é fatal em aproximadamente 30-60% dos casos não tratados, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. Antibióticos podem curar a doença se administrados precocemente.

As surpreendentes semelhanças entre o coronavírus e a peste bubônica

Novas pesquisas da Universidade de Barcelona analisam os paralelos entre a atual pandemia e a doença que varreu o Império Bizantino, há 1.500 anos

A pandemia se originou em uma terra estrangeira e se estendeu rapidamente por todos os portos onde os passageiros infectados chegaram – assintomáticos ou não. Não havia cura médica disponível para detê-lo, todos os moradores estavam confinados em suas casas para evitar contágio, a economia parou, o exército foi colocado nas ruas, os médicos exaustos se esforçaram até os ossos e havia milhares de vítimas cujos corpos ficaram sem enterro “por dias a fio, porque escavadores não podiam trabalhar rápido o suficiente …”

Este não é um relato da pandemia de coronavírus de 2020. É a crônica fornecida pelo historiador Procópio de Cesareia sobre o surto de peste bubônica que ocorreu no mundo conhecido entre 541 e 544, sob o imperador bizantino Justiniano I. A doença varreu vasto território, da China às cidades portuárias da Hispânia, como os romanos chamavam de Península Ibérica.

PROCÓPIO HISTÓRIADOR DE CAESAREA
Um novo estudo chamado La Plaga de Justinià, Segons el Testimoni de Procopi (ou A praga de Justiniano segundo o testemunho de Procópio), de Jordina Sales Carbonell, pesquisadora da Universidade de Barcelona, ​​acrescenta nova relevância a esse conto antigo escrito 1.500 anos atrás.

“A partir de 1º de abril de 2020, certas semelhanças e paralelos observados no comportamento humano em relação a um vírus e suas conseqüências parecem tão familiares e contemporâneas que, apesar da tragédia que todos estamos enfrentando pessoalmente, permanece uma fonte de espanto como a história se repete. , Escreve este arqueólogo e historiador Sales Carbonell, que trabalha no Instituto de Pesquisa de Cultura Medieval da universidade.

No ano de 541, sob o governo bizantino Justiniano, houve um surto de peste bubônica no império. “O alarme soou no Egito, de onde a infecção se expandiu rápida e letalmente.” Procópio refletiu isso em seu livro History of the Wars, onde contou as campanhas militares de Justiniano na Itália, norte da África e Hispânia, e como os soldados espalharam a doença pelos portos em que pararam – fundamentalmente na Europa, norte da África, Império Sasaniano (Pérsia). ) e de lá até a China.

Como consultor jurídico de Belisarius, principal comandante militar de Justiniano, Procópio acompanhou as campanhas deste último e, assim, tornou-se uma “testemunha privilegiada” dos efeitos de uma pandemia que passou a ser conhecida como a Praga de Justiniano.

Continua sendo uma fonte de espanto como a história se repete.

“Surgiu uma epidemia que quase aniquilou toda a raça humana e é impossível encontrar uma explicação com palavras, nem mesmo com pensamentos, exceto para atribuí-la à vontade de Deus”, escreveu Procópio. “Essa epidemia não afetou uma porção limitada da Terra, nem um conjunto específico de homens, nem foi reduzida a uma estação específica do ano […], mas se espalhou e atacou toda a vida humana, não importa quão diferente os indivíduos podem ser, sem levar em conta a natureza ou a idade. ” A doença atingiu “todos os cantos do mundo, como se tivesse medo de perder um lugar”.

Um ano após a primeira detecção, a praga atingiu a capital do império, Bizâncio (atual Istambul), devastando-a por quatro meses. “Houve confinamento e isolamento completos”, escreve Sales Carbonell em seu estudo. “Era absolutamente obrigatório para pessoas doentes. Mas havia também um tipo de autocontrole espontâneo e intuitivamente voluntário, amplamente motivado pelas circunstâncias. ”

“Não foi nada fácil ver alguém em espaços públicos, pelo menos em Bizâncio; em vez disso, todos que estavam saudáveis ​​estavam em casa, cuidando dos doentes ou chorando por seus mortos ”, escreveu Procópio.

Enquanto isso, a economia estava em queda livre. “As atividades cessaram e os artesãos abandonaram todo o trabalho que estavam fazendo.” Ao contrário de hoje, no entanto, as autoridades não conseguiram garantir o fornecimento de serviços essenciais. “Parecia muito difícil obter pão ou qualquer outro tipo de alimento, de modo que, no caso de alguns pacientes, o fim de sua vida foi sem dúvida prematuro devido à falta de itens essenciais”, escreveu Procópio em History of the Wars.

“Muitos morreram porque não tinham ninguém para cuidar deles”, acrescentou. Os cuidadores da época “caíram de exaustão porque não conseguiam descansar e estavam sofrendo constantemente. Por causa disso, todos sentiram mais pena deles do que dos doentes.”

Patrulhas nas ruas

À luz da situação desesperadora, o imperador enviou grupos de guardas do palácio para patrulhar as ruas e os corpos de pessoas que morreram sozinhos foram enterrados às custas dos cofres imperiais, escreveu o historiador. Até o próprio Justiniano foi vítima da peste, mas a superou e continuou a reinar por mais de uma década.

Os picos de mortalidade aumentaram de 5.000 para 10.000 vítimas por dia e mais, de modo que, “embora, a princípio, todos cuidassem de seus mortos em casa, o caos se tornou inevitável e cadáveres também foram jogados dentro dos túmulos de outros, furtivamente ou usando violência. ” Com o tempo, os corpos começaram a se acumular dentro das torres e não havia serviços funerários para eles.

Quando a pandemia finalmente terminou, uma coisa positiva surgiu.

“Os que apoiaram as várias facções políticas abandonaram as acusações mútuas. Mesmo aqueles que haviam sido dados anteriormente a atos baixos e maus abandonaram todo o mal em suas vidas cotidianas, porque necessidades imperiosas os fizeram aprender sobre a honestidade ”, escreveu Procópio.

“Esse elemento da poesia oferece um pouco de esperança de que talvez possamos superar isso e não tropeçar novamente na mesma pedra”, diz Sales Carbonell, parecendo mais esperançoso do que certo de si mesma.

Globalismo,Mundo,História,Economia,Blog do Mesquita

A economia global no pós-pandemia

A crise econômica ganhou autonomia em relação ao choque que a gerou. Isto é, apesar de a crise econômica ter origem na pandemia, é improvável que a solução do problema médico-sanitário resolva o problema econômico.

Não há quem considere que a crise econômica global atual seja independente da pandemia de Covid-19. Justamente por isso essa crise se distingue das passadas. Não se sabe ainda a extensão dos danos econômicos e sequer se já atingimos o fundo do poço. Apesar disso, tem-se discutido os cenários sobre como será a atividade econômica mundial pós-pandemia. Esse texto argumenta que a crise econômica ganhou autonomia em relação ao choque que a gerou. Isto é, apesar de a crise econômica ter origem na pandemia, é improvável que a solução do problema médico-sanitário resolva o problema econômico.

Acumulam-se evidências de que o choque econômico gerado pelo novo coronavírus é pelo menos de proporção tão grande quanto aqueles vivenciados na Grande Depressão e na Crise Financeira Global de 2007-2009.

O choque atual incide sobre uma economia que já vinha em desaceleração. As últimas estimativas do FMI sugerem que a economia global deve encolher cerca de 3% em 2020, muito mais do que a retração de 0,07% observada em 2009.

Ainda segundo o FMI, as economias dos Estados Unidos e da Eurozona devem encolher 5,9% e 7,5%, respectivamente. No caso da Zona do Euro, Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, já alertou que espera em 2020 contração ainda maior que a estimada pelo FMI, algo entre 8% e 12%. Projeta-se uma taxa de crescimento da economia chinesa de 1,2% em 2020, que seria a menor desde o final da Revolução Cultural, em meados da década de 1970. Há ainda muitos países que terão a maior recessão desde o pós-Segunda Guerra Mundial.

As informações já disponíveis sobre mercado de trabalho, produção e vendas também expressam um choque de grandes proporções. Nos Estados Unidos, cerca de 43 milhões de pessoas já solicitaram seguro desemprego, perfazendo mais de 27% da força de trabalho do país. A taxa de desemprego de 13,3%, observada em maio último, supera a do pico do desemprego da crise de 2007-2009, que foi de 10%. Matéria da Bloomberg aponta que tem havido cortes de salários daqueles que ainda estão empregados, o que é atípico mesmo em recessões.

O grau de utilização da capacidade instalada manufatureira já atingiu, em abril, mínimas históricas, indicando 35% de capacidade ociosa. Na Eurozona, os impactos no mercado de trabalho têm sido mais tênues por enquanto, em função das regulações trabalhistas e das políticas econômicas focadas em evitar demissões em massa. Contudo, as perspectivas são também de forte crescimento do desemprego. O grau de ociosidade na Eurozona já é comparável ao do vale da crise de 2007-2009, atingindo cerca de 30% conforme dados da Eurostat.

Ou seja, os dados já disponíveis e as estimativas de consenso pintam um cenário nefasto e sem precedentes em termos da profundidade e velocidade de deterioração da atividade econômica global.

Suponha-se um cenário otimista: a pandemia acabará logo e uma eventual segunda onda será, de alguma forma, controlada. Evidentemente, parte da deterioração da atividade econômica será dissipada na medida em que o problema médico-sanitário seja superado. Mas poderíamos declarar que a economia estará saudável com a remissão da pandemia?

Olhemos para alguns dos seus efeitos. Eles se manifestaram tanto do lado da oferta quanto do lado da demanda. O necessário isolamento social acarretou algum grau de paralisação da atividade econômica e grande parte dos agentes econômicos perdeu receitas, o que tem consequências dinâmicas diversas, as quais, em geral, desencadeiam cortes de gastos.

O nível de emprego é um dos termômetros mais importantes da atividade econômica. A experiência histórica indica que a perda de empregos ocorre, em geral, mais rápido do que a sua retomada. O gráfico abaixo exemplifica o problema. Ele mostra o percentual de empregos perdidos em relação ao pico em todas as recessões dos Estados Unidos pós-guerra e em quantos meses o nível de emprego pré-crise é recuperado. Uma das coisas que se pode observar é que a retomada do volume de empregos perdidos na recessão de 2007-2009 levou mais de seis anos, no que foi a recuperação mais lenta no pós-guerra. Na recessão atual, iniciada em fevereiro, a perda de empregos tem se mostrado ainda mais rápida e pronunciada que em 2007-2009.

Quanto tempo levará para que o nível de emprego seja retomado na recessão atual? No caso dos Estados Unidos, mesmo considerando que parte importante da perda de empregos refletida no gráfico se deveu a licenças temporárias, seria necessário que a recuperação do emprego repetisse, na subida, a velocidade da queda, e que se revertesse rapidamente a tendência de baixa nos demais países. É possível que isso aconteça, mas para isso seriam necessários novos ineditismos.

Economia global no pós-pandemiaBrasil,Economia,Impostos,Blog do Mesquita

A perda de empregos tem efeitos sobre a capacidade de consumo das famílias. Por ora, os efeitos negativos mais intensos do desemprego estão sendo sentidos principalmente por pessoas de baixa renda, que gastam tudo ou quase tudo do que ganham. Os indícios são de que as perdas salariais vão atingir também frações superiores da distribuição de renda. Com a queda da massa salarial, parece inevitável que o consumo das famílias, pelo menos o de natureza mais discricionária, parta de patamares muito inferiores em relação aos níveis pré-crise.

As empresas do setor de serviços e manufatureiras, por sua vez, estão com muita capacidade ociosa. Mesmo em um cenário em que o restante da atividade econômica retome em “V”, elas poderão atender à demanda sem necessidade de expandir a capacidade, desestimulando novos investimentos privados. Alternativamente, o investimento privado poderia ser puxado pela reposição ou substituição de máquinas e equipamentos existentes para ganhar eficiência produtiva, mas parece pouco plausível que a maior parte das empresas esteja, em nível global, disposta a lidar com as potenciais baixas contábeis envolvidas e/ou com as subtrações requeridas de caixa, num contexto em que liquidez vale muito. Taxas de juros baixas não farão milagre.

Economia,Blog do Mesquita

Por fim, mas não menos importante, um grande efeito da pandemia é que muitos agentes econômicos se endividaram ou reduziram reservas previamente acumuladas, não porque se desejava acumular capital não financeiro (investir), mas porque as quedas drásticas de receita não eliminaram, proporcionalmente, as contas a pagar. Isso dá um indício de que a tônica, pelo menos dos agentes privados que não forem à falência, será cortar gastos para saldar dívidas ou reconstituir reservas. Se alguém quer comprar menos, alguém, mesmo que possa e queira vender, não vende mais.

Portanto, há muitos indícios de que a economia global estará emaranhada em uma espiral pouco virtuosa, em que consumo e investimento combalidos geram pouco emprego e receitas anêmicas, retroalimentando a fraqueza da atividade econômica.

Estando o mundo acometido por uma infecção que rompeu os elos tradicionais entre oferta e demanda, as políticas econômicas já adotadas globalmente parecem ter atingido o que poderiam em termos econômicos: estancaram o sangramento. Também está claro que quanto mais tempo a economia estiver exposta aos efeitos da pandemia, pior.

Mas, se uma solução qualquer resolvesse o problema sanitário hoje, seus efeitos na economia global se dissipariam completamente, como num passe de mágica? Não parece que esse seja o caso. Diante da magnitude do choque, sequelas foram infligidas no organismo econômico global, o que aumenta substancialmente a probabilidade de uma recuperação lenta da atividade econômica ao longo dos próximos anos, se nada mais for feito.

A política monetária está, mundo afora, perto do seu limite. A nível global, provavelmente serão necessárias novas rodadas de afrouxamento fiscal, como os recentemente anunciados pela Alemanha, cujos desenhos específicos devem ser moldados a partir das escolhas democráticas de cada país e/ou região. Mas há, contudo, o risco de que velhos dogmas prevaleçam e embarguem o tratamento que poderia salvar o doente, ou pelo menos atenuar seu sofrimento.

Ítalo Pedrosa é professor de Economia do Instituto de Economia da UFRJ.

Coronavírus: por que a pandemia pode acelerar a desglobalização da economia mundial

O novo coronavírus teve efeitos econômicos imediatos e esmagadores em todo o mundo.

Uma das palavras-chave para entender os últimos 25 anos da história mundial é a globalização.

Embora, como o jornalista Jonty Bloom diga, qualquer historiador econômico possa falar sobre como há séculos – se não milênios – as pessoas negociam a grandes distâncias.

Bloom se lembra de observar o lucrativo comércio de especiarias na Idade Média.

Mas a globalização de hoje é realmente diferente por causa da escala e velocidade das trocas internacionais, que nas últimas décadas explodiram em níveis sem precedentes.
As instalações de viagens, a Internet, o fim da Guerra Fria, os acordos comerciais e as economias em rápido desenvolvimento se combinaram para criar um sistema mais interdependente do que nunca.

É por isso que o surto do novo coronavírus teve efeitos econômicos tão imediatos e esmagadores em todo o mundo.

“Estamos enfrentando uma crise generalizada do capitalismo mundial democrático e do capitalismo não democrático, como o da China”
A professora Beata Javorcik, economista-chefe do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento, disse a Jonty Bloom que o ritmo das mudanças na economia nos últimos 17 anos foi muito profundo.

“Quando pensamos na epidemia de Sars em 2003, a China representou 4% da produção global”, lembra ele. “A China agora representa 16%, quatro vezes mais. Isso significa que o que quer que aconteça naquele país afeta muito mais o mundo”.

Por sua parte, Ian Goldin, professor de globalização e desenvolvimento da Universidade de Oxford, diz que nos últimos anos os riscos têm se espalhado. “Eles são o lado oculto da globalização”.

Isso, ele acrescenta, pode ser visto não apenas nesta crise, mas na crise econômica de 2008 e na vulnerabilidade da Internet a ataques cibernéticos. “O novo sistema econômico mundial oferece enormes benefícios, mas também implica riscos enormes”.

Então, o que essa crise significa para a globalização?

Muitos acreditam que as cadeias produtivas localizadas em diferentes países serão afetadas.

Richard Portes, professor de economia da London Business School, diz que é óbvio que algumas coisas terão que mudar, porque pessoas e empresas perceberam o tamanho dos riscos que correm .

“Olhe para o comércio. Depois que as cadeias de suprimentos foram interrompidas [pelo coronavírus], as pessoas começaram a procurar fontes alternativas em casa, mesmo que fossem mais caras”, diz ele.

“Se as pessoas encontrarem fornecedores domésticos, ficarão com eles, precisamente por causa dos riscos que agora percebem”.

O professor Javorcik concorda e acredita que há uma combinação de fatores que farão com que a indústria de manufatura ocidental comece a trazer para casa alguns de seus empregos (“re-shoring”).

“Eu acho que a guerra comercial (principalmente entre os EUA e a China) combinada com a epidemia de coronavírus fará com que muitas empresas levem muito a sério o reescoramento”, diz ele.

“Muitas dessas atividades podem ser automatizadas, porque a reposição de peças traz certeza. Você não precisa se preocupar com a política comercial nacional. E oferece a oportunidade de diversificar sua base de fornecedores”.

Alguns argumentaram que, no futuro, a fabricação de ventiladores e máscaras faciais deve ser considerada uma questão de segurança nacional.
Em um artigo publicado na revista mexicana Letras Libres, Toni Timoner, especialista em risco macroeconômico, é mais forte:

“A retirada do comércio internacional se acelerará. Os exportadores já estão reconfigurando suas cadeias de suprimentos e aproximando a produção com o custo das eficiências. Os importadores aumentarão as barreiras tarifárias em resposta. Esse processo já havia começado com a guerra comercial e agora entrará em colapso. Ásia e o Ocidente se isolam. Uma cortina econômica de ferro cai sobre o mundo “.

As universidades

Mas. Como o jornalista Jonty Bloom indica, grande parte da globalização não se refere apenas ao movimento de mercadorias ou matérias-primas, mas a pessoas, idéias e informações. Algo que as economias ocidentais fazem muito bem.

David Henig, diretor da Política Comercial do Reino Unido para o Centro Europeu de Política Econômica Internacional, observa que “o setor de serviços deve parecer que caiu de um penhasco. Olhe apenas para o turismo e as universidades”.

“Deve haver uma enorme preocupação com o número de novas inscrições para as universidades ocidentais neste outono. É uma indústria enorme. Muitas universidades, por exemplo, dependem de estudantes chineses”.

O que acontecerá com as universidades? Na foto, uma luva cirúrgica abandonada nas ruas da Universidade de Oxford, na Inglaterra.

A mesma preocupação foi expressa pelo escritor e pensador canadense Michael Ignatieff, reitor da Universidade da Europa Central, com sede em Budapeste.

“Eu acho que as fronteiras estão sendo levantadas em todos os lugares e que a mobilidade do trabalho será reduzida, mas a mobilidade do capital não.

“Com as fronteiras mais rígidas, será mais difícil para universidades como a minha continuar atraindo estudantes de cem países diferentes. Tenho latino-americanos em Budapeste … Continuarei com os mesmos colombianos, peruanos ou brasileiros extraordinários que tenho agora?

“Não sei, os países apertarão as fronteiras, apertarão as restrições. Portanto, podemos ter uma desglobalização do ensino superior. Essa é uma ameaça real de que todo mundo no mundo universitário está falando. Não quero que a próxima geração seja preso dentro das fronteiras nacionais “. ponderar.

Já estava em declínio

Segundo o jornalista Jonty Bloom, a desaceleração ou a reversão da globalização afetará fortemente todas as indústrias mencionadas, mas acrescenta que o professor Goldin acha que a atual pandemia marca uma mudança oceânica e que 2019 “foi o ano que marcou o pico maior na fragmentação da cadeia de suprimentos “.

Fatores como impressoras 3D, automação, entrega rápida e protecionismo já os faziam sentir. Aparentemente, a covid-19 apenas acelerou o processo.

A preocupação agora, diz Bloom, não é se essas mudanças ocorrerão, mas quão profundas serão e como serão gerenciadas.

Alicia Bárcena, secretária executiva da Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (Eclac), acredita que a gobalização “pelo menos como a conhecíamos antes dessa pandemia, será definitivamente diferente”.

Alicia Bárcena acredita que a globalização definitivamente vai mudar.
Ela indicou que “isso definitivamente não será uma globalização das cadeias de valor. Isso é o que será mais importante: a mudança nos modos de produção e nos modos de consumo”.

“Isso vai parecer muito com uma economia de guerra”: o alerta sobre como a crise do coronavírus aumentará o desemprego e a pobreza na América Latina.
Por sua vez, Terry Breton, comissário do mercado interno da União Européia, disse em uma teleconferência com jornalistas que é muito cedo para tirar conclusões “, mas todos sabemos que haverá um antes e depois dessa crise. Ninguém sabe. como sairemos, mas um novo mundo baseado em outras regras será escrito. Seremos mais autônomos em certas áreas críticas. As relações bilaterais serão revisadas “, segundo o jornal El País da Espanha.

O professor Goldin tem uma maneira simples de abordar as profundas mudanças que a globalização enfrentará, explicou à BBC: será mais parecido com o que aconteceu após a Primeira Guerra Mundial ou com o que aconteceu após a Segunda?

Depois de 1918, tínhamos organizações internacionais fracas, a ascensão do nacionalismo, protecionismo e depressão econômica.

Em vez disso, depois de 1945, tínhamos mais cooperação e internacionalismo, refletidos no acordo de Bretton Woods, no Plano Marshall, nas Nações Unidas e no Acordo Geral de Tarifas e Comércio.

O economista britânico John Maynar Keynes – centro – foi vital na formulação do acordo de Bretton Woods, o primeiro acordo monetário internacional que estabeleceu as regras para as relações comerciais e financeiras entre os países industrializados.

Embora otimista, o professor Goldin está preocupado com algo: quem assumirá a liderança. “Podemos estar otimistas, mas não vemos liderança da Casa Branca”. E acrescenta: “A China não pode assumir isso e o Reino Unido não pode liderar na Europa”.

Então a globalização será revertida ?, pergunta o jornalista Jonty Bloom. E ele responde que provavelmente não, porque é um desenvolvimento econômico muito importante, mas certamente pode desacelerar.

A grande questão, acrescenta Bloom, é se vamos aprender as lições desta crise.

E ele conclui: “Vamos aprender a identificar, controlar e regular os riscos que parecem inerentes à globalização? Porque a cooperação e a liderança necessárias para que isso ocorra não parecem abundar no momento”.

As máscaras da pandemia no olhar da arte

Das mídias sociais à arte de rua, as máscaras estão surgindo em todos os lugares.

Deborah Nicholls-Lee encontra imagens em todo o mundo refletindo o que está acontecendo agora. Uma foto de perfilcom a boca coberta recebe os visitantes da página do Instagram da designer visual cipriota.

O artista do mash-up pegou uma tesoura virtual e cola em sua própria imagem e sobrepôs uma máscara cirúrgica azul brilhante a uma fotografia monocromática.

Corona Lisa, de Hayati Evren, tornou-se um meme estampado em sacolas e canecas (Crédito: Hayati Evren)

O artista brincalhão, que mexe com obras de arte há quase uma década, é mais conhecido agora por sua atrevida Corona Lisa, que bebe uma cerveja Corona através de uma máscara facial perfurada. Juntamente com a versão teetotal de Antonio Brasko, com sede em Oregon, o meme se espalhou das mídias sociais para camisetas, bolsas e canecas. The Persistence of Corona, a reformulação de Evren de uma obra icônica de Salvador Dali, coloca a máscara no centro do palco novamente, desta vez cercada por outros apetrechos de gerenciamento de coronavírus: desinfetante para as mãos, luvas de borracha e colônia de limão – um desinfetante tradicional na Turquia.

Desde o surgimento do Covid-19, a máscara – o emblema da pandemia – alimentou a criatividade de artistas em todo o mundo, assumindo várias formas, de memes engraçados a declarações sérias. Obrigatória em alguns países e inicialmente desencorajada em outros, a máscara é objeto de controvérsia: símbolo de censura e separação, mas também de cuidado e proteção.Uma paródia de Garota com brinco de pérola de Johannes Vermeer, A garota de Banksy com um piercing no nariz foi recentemente atualizada com uma máscara (Crédito: PA)

Embora a mídia social tenha sido o playground de artistas digitais como Evren, a rua também se tornou uma galeria de máscaras. Recentemente, os lábios gentilmente separados da garota de Banksy com um piercing no nariz foram escondidos durante a noite atrás de uma máscara protetora de tecido. O mural gigante, um riff de Girl With a Pearl Earrings, de Vermeer, mas com um alarme de segurança para um piercing, apareceu pela primeira vez em Albion Dock, em Bristol, em 2014. Se o gesto foi um ato de preservação amoroso ou o escárnio cômico de nossos medos, Banksy negou qualquer envolvimento.Hijack doou 100% dos lucros de seu Pandemonium impresso para a Global Foodbanking

No bairro de Pico-Robertson, em Los Angeles, o grafiteiro Hijack recentemente pintou com spray duas figuras mascaradas em macacões com detergente em spray, um espanador de penas e um aspirador de pó como armas contra o vírus – um comentário irônico, sem dúvida, sobre a nossa impotência . “Em tempos como esse, a criatividade pode nos ajudar a lidar com … uma crise como a que estamos enfrentando”, diz ele à BBC Culture. “A peça em si é mais uma observação do nosso estado mental atual. Parece que estamos travando uma guerra contra um inimigo invisível, deixando alguns de nós em pânico. Eu queria transmitir isso da maneira típica do Hijack. ”

Esse pânico, sugere o fotógrafo alemão Marius Sperlich, às vezes pode ser cego. Sperlich, cujo trabalho normalmente explora de perto o corpo humano, tem os olhos, ouvidos e boca de seu modelo cobertos por máscaras cirúrgicas brancas em uma fotografia recente intitulada Isolation. Comentando a postagem no Instagram, ele escreve: “Nossos sentidos foram restringidos, estamos isolados e com medo, incapazes de pensamentos racionais”.

O retrato de Zabou do grafiteiro de Nova York BK Foxx, Born to Paint, foi criado em 2019, mas teve ressonância especial este ano (Crédito: Zabou)

Embora os novos trabalhos estruturados em torno do meme da máscara tenham se multiplicado, as peças existentes com máscaras também ganharam novos públicos. O retrato de 3m² de Zabou do artista de rua BK Foxx usando sua máscara respiratória trouxe cor à Brick Lane de Londres no início de 2019, mas o mural do artista francês adquiriu um novo significado durante a pandemia, e agora é visto como uma imagem icônica da crise. A máscara, Zabou disse à BBC Culture, agora se tornou parte de nossas vidas diárias. “Representa uma ferramenta de ação e proteção – e às vezes sobrevivência – contra o vírus, e é por isso que as máscaras podem ser uma imagem poderosa neste contexto.”

Homenagens ao NHS de Rachel List – que pinta seus murais à mão livre, em vez de usar estênceis – foram compartilhadas em todo o mundo (Crédito: Rachel List)

Em alguns casos, o poder da imagem da máscara facial atraiu artistas menos conhecidos para os holofotes e transformou os heróis em humildes. Rachel List, de 29 anos, de Pontefract, em West Yorkshire, marcou seu mural gigante de máscara com #itwasntbanksy para terminar com as especulações que começaram quando suas séries anteriores de pinturas na parede de uma pequena enfermeira de desenho animado do NHS em uma máscara facial tendiam no Twitter.

O que chama a atenção na máscara é que você não consegue ver o sorriso das pessoas. Traz o foco de volta aos olhos, o que o torna realmente expressivo – Rachel List
List, que ganha a vida pintando murais nos quartos das crianças, viu seu trabalho secar desde o fechamento, mas uma comissão por uma faixa de agradecimento do NHS para um pub local levou a uma série de pedidos de seus tributos alegres ao serviço de saúde. List está distribuindo impressões para 500 trabalhadores do NHS e angariando fundos para o NHS e o Hospice Prince of Wales através de leilões de seu trabalho. “Para mim, o que chama a atenção na máscara é que você não consegue ver o sorriso das pessoas. Traz o foco de volta aos olhos, o que o torna realmente expressivo ”, ela diz à BBC Culture.

Tom Croft pintou um retrato da enfermeira de A&E Harriet Durkin gratuitamente depois de postar nas redes sociais (Crédito: Tom Croft)

O pintor de retratos de Oxford, Tom Croft, também usou suas habilidades como artista para reconhecer o sacrifício que está sendo feito pelos profissionais de saúde durante a crise. Quando a pandemia o deixou lutando para encontrar um objetivo em seu trabalho, ele decidiu oferecer um retrato gratuito ao primeiro trabalhador do NHS a contatá-lo. Harriet Durkin, uma enfermeira de A&E da Manchester Royal Infirmary, logo foi imortalizada em óleos em EPI completo, com sua estrutura central robusta da máscara facial 3M. Usando a hashtag #portraitsforheroes, Croft convidou outros artistas para participar da iniciativa e formar parceria com os funcionários da linha de frente.

Os sentimentos de Croft sobre a máscara são ambivalentes. “A máscara protege, esperançosamente, mas também cria uma barreira entre paciente e profissional de saúde e afeta a conexão humana com a qual estamos acostumados, que é uma grande parte dos cuidados”, disse ele à BBC Culture. “Só vendo os olhos, é muito mais difícil ler a expressão facial abaixo. Eu entendo que isso pode causar ansiedade adicional para os pacientes. ” Croft planeja produzir um segundo retrato de Harriet com seu EPI, relaxado e sorrindo em casa. “Eu senti que era importante descrever os dois lados para ela, para dar uma imagem mais completa de quem está por trás da máscara que presta os cuidados”, diz ele.

A artista britânica Rowena Dring bordou rostos em máscaras de lona, ​​incluindo The Amsterdammer, na foto (Crédito: Rowena Dring)

“Uma das piadas entre meus amigos é que eu apenas girei minhas habilidades”, diz a artista Rowena Dring, de Amsterdã, que também viu a pandemia como um chamado à ação. A abordagem ambidestro de Dring, que se baseia nas habilidades tradicionais de artesanato para re-contextualizar a costura e a pintura, deu uma nova virada quando ela uniu função e arte para responder à falta de máscaras faciais.

“Eu sou um criador: alguém que responde a situações criando coisas”, ela diz à BBC Culture. “Pesquisei com muito cuidado os materiais que usei com a ajuda de um médico, mas, ao mesmo tempo, queria fazer as pessoas rirem.” O resultado foi uma coleção cada vez maior de máscaras de lona de algodão com cera de abelha, bordadas com bigodes encaracolados, barbas desgrenhadas e sorrisos. À medida que os novos designs saíam de sua oficina improvisada em casa, eles eram enviados para amigos e familiares ou vendidos para clientes on-line. “Gosto dos sorridentes”, diz ela. “É muito engraçado ir ao supermercado com eles”.

A máscara também influenciou o design de moda. Em abril, a estilista nigeriana e estilista de celebridades Tiannah Toyin Lawani criou uma roupa mascarada deslumbrante para aumentar a conscientização sobre o vírus. Lawani agora tem uma equipe de alfaiates trabalhando em sua casa em Lagos – onde as máscaras agora são obrigatórias – fazendo máscaras incrustadas de jóias com tecidos africanos para venda ou doação.Max Siedentopf pediu desculpas por causar qualquer ofensa à sua série, argumentando que seu objetivo era inspirar outras pessoas a “ver as coisas de uma perspectiva diferente” (Crédito: Max Siedentopf)

As máscaras faciais caseiras foram a inspiração por trás de uma série de fotografias explícitas produzidas pelo artista visual namibiano-alemão Max Siedentopf em sua polêmica série Como sobreviver a um vírus global mortal. “Comecei a ver on-line todos os tipos de máscaras de bricolage para proteger contra o vírus que eram feitos de objetos domésticos comuns”, diz ele à BBC Culture. “No meio desta crise, eu queria me concentrar na criatividade dessas máscaras e em como, através de uma barreira ou problema, você ainda pode encontrar soluções inteligentes e criativas”.

Criticadas por serem insensíveis e enganosas, as imagens assustaram alguns e inspiraram outros. Mas observando pelas asas, Siedentopf ficou impressionado ao ver fotografias de pessoas replicando as máscaras da série. “Gostei de como a arte imitava a vida e, em seguida, a vida imitava a arte e se tornou um círculo completo”, diz ele.

Tatsuya Tanaka usou máscaras na entrada de 31 de março de seu Miniature Calendar (Crédito: Tatsuya Tanaka)

No Japão, a máscara facial tornou-se um item doméstico e chegou ao intrincado trabalho da miniatura japonesa Tatsuya Tanaka, que combina objetos do cotidiano em tamanho real com figuras humanas de 2 cm de altura. Desde 2011, Tanaka libera imagens diárias como parte de uma série em andamento do Miniature Calendar. Em 31 de março, uma foto de pequenos surfistas usando máscaras foi publicada com a legenda “superamos muitas dificuldades”. O motivo da máscara reapareceu em 1 de maio, quando Tatsuya divulgou a imagem de um médico mascarado fazendo uma consulta em vídeo em um computador com chocolate.

Com muitos países em confinamento, os itens domésticos comuns estão ressonando com os artistas e o público mais do que nunca. “Tornar o que você vê casualmente na vida cotidiana diferente – chamado de ‘mitigar’ no Japão – torna a vida cotidiana divertida”, disse Tatsuya à BBC Culture. “Eu usava máscaras diariamente no Japão desde antes da crise. Não é incomum, mas recebi muita atenção por causa da crise da corona [vírus], então fiz disso um motivo ”, diz ele.

A micro-arte de Hasan Kale inclui profissionais de saúde pintados em uma máscara e analgésico (Crédito: Hasan Kale)

O trabalho do micro-artista turco Hasan Kale também força uma reavaliação de objetos familiares. Prendendo a respiração para firmar a mão, ele pinta retratos e paisagens com minúsculos estranhos, como cabeças de palitos de fósforo e sementes de maçã, transformando-os no que ele chama de “cápsulas artísticas”.

As telas recentes de Kale incluem uma pastilha de paracetamol e a válvula de uma máscara cirúrgica, ambas pintadas com imagens de profissionais da saúde mascarados como sinal de gratidão pelo serviço prestado à sociedade. Uma inspeção cuidadosa do tablet revela que as máscaras não impediram seus usuários de comunicar uma mensagem microscópica em nome do artista. “Vimos o mal que fizemos ao mundo”, diz Kale. “O coronavírus é uma oportunidade para melhorarmos”.

A vacina potencial contra o coronavírus da Moderna ganha o status de “via rápida” da FDA

Moderna Inc. disse na terça-feira que a Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA concedeu a designação “fast track” para sua vacina experimental contra o coronavírus, uma medida que acelera o processo de revisão regulatória.

Garrafas pequenas rotuladas com um adesivo “Vaccine COVID-19” e uma seringa médica são vistas nesta ilustração tirada em 10 de abril de 2020. REUTERS / Dado Ruvic / Ilustração /(Reuters)

Moderna vem correndo para desenvolver uma vacina segura e eficaz contra o novo coronavírus que matou mais de 285.000 pessoas em todo o mundo.

Uma vacina ou tratamento que obtém a designação de “via rápida” é elegível para o status de “revisão prioritária” da agência, sob o qual o FDA pretende tomar uma decisão sobre a aprovação do medicamento dentro de seis meses.

Mais de 100 possíveis vacinas contra COVID-19 estão sendo desenvolvidas, incluindo várias em ensaios clínicos, mas a Organização Mundial da Saúde em abril alertou que uma vacina levaria pelo menos 12 meses.

Moderna espera iniciar um estudo em estágio avançado da vacina no início do verão e diz que há potencial para a aprovação de um pedido de marketing em 2021.

A vacina funciona com a tecnologia de RNA mensageiro (mRNA), que instrui as células do corpo a produzir proteínas específicas para o coronavírus que produzem uma resposta imune.

A abordagem pode ser usada em muitos tipos de tratamentos, mas ainda não foi aprovada para nenhum medicamento.

Fabricantes de medicamentos como Johnson & Johnson e Pfizer Inc, que estão trabalhando com a BioNTech SE da Alemanha, também estão trabalhando para desenvolver vacinas para o novo coronavírus.

No mês passado, Moderna recebeu financiamento de US $ 483 milhões de uma agência do governo dos EUA para acelerar o desenvolvimento da vacina.

“Estamos na véspera de um genocídio”: o Brasil pediu para salvar as tribos amazônicas da Covid-19

Carta aberta do fotojornalista Sebastião Salgado e figuras globais alertam que doença pode dizimar povos indígenas.

Os líderes do Brasil devem tomar medidas imediatas para salvar os povos indígenas do país de um “genocídio” do Covid-19, afirmou uma coalizão global de artistas, celebridades, cientistas e intelectuais.

Em uma carta aberta ao presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, figuras como Madonna, Oprah Winfrey, Brad Pitt, David Hockney e Paul McCartney alertaram que a pandemia significava que comunidades indígenas na Amazônia enfrentavam “uma ameaça extrema à própria sobrevivência”.

“Cinco séculos atrás, esses grupos étnicos foram dizimados por doenças trazidas pelos colonizadores europeus … Agora, com esse novo flagelo se espalhando rapidamente pelo Brasil … [eles] podem desaparecer completamente, pois não têm como combater o Covid-19”, escreveram eles.

O organizador da petição, o fotojornalista brasileiro Sebastião Salgado, disse que invasores, incluindo garimpeiros e madeireiros ilegais, devem ser expulsos imediatamente de terras indígenas para impedir a importação de uma doença que já matou mais de 240.000 pessoas em todo o mundo, incluindo 6.750 no Brasil.

“Estamos às vésperas de um genocídio”, disse Sebastião Salgado, que passou quase quatro décadas documentando a Amazônia e seus habitantes.

Mesmo antes de Covid-19, os povos indígenas do Brasil estavam presos no que os ativistas chamam de luta histórica pela sobrevivência.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita 0

Críticos acusam Bolsonaro, um populista de extrema direita no poder desde janeiro de 2019, de estimular a invasão de reservas indígenas e desmantelar as agências governamentais que deveriam protegê-las.

“As comunidades indígenas nunca foram tão atacadas … O governo não tem nenhum respeito pelos territórios indígenas”, disse Sebastião Salgado, apontando para cortes orçamentários incapacitantes e o recente saque de vários dos principais funcionários ambientais que tinham como alvo garimpeiros e madeireiros ilegais.

Mas a carta dizia que a pandemia tinha uma visão já sombria de Bolsonaro ainda pior, paralisando os esforços de proteção restantes.“Como resultado, não há nada para proteger os povos indígenas do risco de genocídio causado por uma infecção introduzida por estrangeiros que entram ilegalmente em suas terras”, argumentaram os signatários, que também incluem as supermodelos Gisele Bündchen e Naomi Campbell, autor Mario Vargas Llosa, o artista Ai Weiwei, o arquiteto Norman Foster e o ator Meryl Streep.

Sebastião Salgado, que documentou o genocídio de Ruanda em 1994, alertou que os 300.000 indígenas da Amazônia brasileira enfrentam aniquilação.

“Em Ruanda, vimos um genocídio violento, um ataque, onde as pessoas foram mortas fisicamente. O que acontecerá no Brasil também significará a morte dos indígenas ”, disse o homem de 76 anos que passou os últimos sete anos fotografando a região para seu grande projeto final.

“Quando você endossa ou encoraja um ato que você sabe que irá eliminar uma população ou parte de uma população, esta é a definição de genocídio … [Será] genocídio porque sabemos que isso vai acontecer, estamos facilitando … entrada de coronavírus … [e, portanto] está sendo dada permissão pela morte desses povos indígenas. ”

“Isso significaria a extinção dos povos indígenas do Brasil”, acrescentou Sebastião Salgado.

O medo de que o Covid-19 pudesse devastar as comunidades indígenas cresceu no mês passado, quando a morte de um adolescente Yanomami reviveu memórias horríveis de epidemias causadas por construtores de estradas e garimpeiros nas décadas de 1970 e 1980.

Sebastião Salgado – FacebookTwitterPinterest

 Sebastião Salgado: ‘[Permitir que o coronavírus entre nas comunidades amazônicas] significaria a extinção dos povos indígenas do Brasil’ ‘. Foto: David Fernandez / EPA
“Em algumas aldeias, eu sabia que o sarampo matou 50% da população. Se Covid fizer a mesma coisa, seria um massacre ”, disse Carlo Zaquini, um missionário italiano que passou décadas trabalhando com os Yanomami.

A cidade brasileira até agora mais afetada pelo coronavírus é Manaus, capital do Amazonas, estado onde parte da reserva Yanomami está localizada.

Sebastião Salgado – que está pedindo a criação de uma força-tarefa liderada pelo exército para despejar invasores de áreas protegidas – admitiu que Bolsonaro não agiria por sua própria vontade. Mas ele acreditava que a pressão internacional poderia forçar o governo a fazê-lo, como aconteceu no ano passado, quando a indignação global resultou na mobilização de militares para extinguir incêndios na Amazônia.

“Apenas na Amazônia brasileira, temos 103 grupos indígenas que nunca foram contatados – eles representam a pré-história da humanidade”, disse Sebastião Salgado. “Não podemos permitir que tudo isso desapareça.”

A resposta ao COVID-19 está mostrando o poder da fé

A fé está ajudando muitos na pandemia de coronavírus – e também pode ser fundamental na proteção do clima, dizem Inger Andersen, do PNUMA, e Azza Karam, do Religions for Peace, do PNUMA, em um comentário de um convidado.

A fé fornece apoio espiritual e prático a bilhões de pessoas, especialmente em tempos de crise. Estamos vendo isso em ação mais uma vez, enquanto igrejas, mesquitas, templos, outros locais de culto e organizações religiosas em todo o mundo oferecem apoio, comida, moradia, doações e serviços médicos durante a pandemia. Essa solidariedade é extremamente necessária, pois milhões sofrem o impacto físico, econômico e emocional do COVID-19.
Mas as religiões e aqueles que as lideram têm um papel maior a desempenhar. Eles podem e devem ajudar a impedir que piores crises ocorram no futuro, exercendo sua enorme influência para melhorar a administração do planeta pela humanidade.

Inger Andersen, diretor executivo do PNUMA, diz que a resposta à pandemia precisa consertar nosso relacionamento com o planeta

O COVID-19, juntamente com muitas doenças anteriores que foram transmitidas de animais para seres humanos, é o resultado de como gerenciamos mal nosso habitat natural e os seres vivos nele. Se você olha para esta pandemia, os recentes incêndios florestais australianos, o janeiro mais quente já registrado ou o pior surto de gafanhotos no Chifre da África em décadas, o planeta está nos enviando uma mensagem urgente: Se não cuidarmos da natureza, não podemos cuidar de nós mesmos.

Seríamos sábios em atender a esse chamado. Nossa resposta a longo prazo ao COVID-19 deve ser a de fixar nosso relacionamento com o planeta. Esse trabalho de reparo deve ser uma resposta de todo o sistema composta por várias partes.

Os pacotes de estímulo à recuperação econômica devem apoiar investimentos em energia renovável, edifícios e infraestrutura inteligentes, transporte verde e público.
Nos últimos anos, o desmatamento na floresta amazônica atingiu seu nível mais alto em mais de uma década.O mercado mundial de animais, onde milhares de espécies são compradas e vendidas a cada ano, é uma séria ameaça à biodiversidade

Precisamos mudar nossos hábitos de produção e consumo – comprando menos, desperdiçando menos e reaproveitando mais – como muitos de nós estamos fazendo durante as restrições de bloqueio. Devemos restaurar nossas florestas e investir em áreas protegidas. E devemos combater o comércio ilegal de animais selvagens e recursos florestais e melhorar as condições de higiene no comércio legal.

Pressionando para um envolvimento proativo

Os líderes e comunidades religiosos estão se mostrando cruciais para todas essas mudanças sistêmicas porque têm autoridade para impactar o comportamento e as atitudes de bilhões de pessoas. Suas instituições estão entre as mais antigas e mais antigas e prestam serviços essenciais a bilhões de pessoas em todo o mundo, tornando-as parceiras essenciais em tempos normais e em situações de emergência.

As organizações religiosas possuem um grande número de instituições educacionais, para que possam liderar esforços para aumentar a conscientização sobre os vínculos entre a saúde humana e a saúde planetária. Em todas as partes do mundo, eles possuem e gerenciam instituições de saúde que combatem a atual pandemia, fornecendo assistência médica às comunidades mais difíceis de alcançar.Azza Karam, da Religions for Peace, diz que líderes religiosos e comunidades podem influenciar como as pessoas tratam o planeta

Um exemplo de engajamento proativo e colaboração entre países é a Interfaith Rainforest Initiative, uma parceria global que inclui o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e Religions for Peace, trabalhando para proteger as florestas tropicais remanescentes do mundo e os direitos dos povos indígenas que servem como guardiões.

Tais iniciativas são um bom começo, mas podemos fazer mais.

Como estão as coisas, a humanidade, em sua arrogância, está destruindo a casa que muitos acreditam que seu criador forneceu. Os líderes religiosos precisam continuar a usar sua considerável influência para impulsionar um planeta saudável, assim como os crentes devem atender ao chamado para cuidar da criação contida nas escrituras de todas as religiões e na tradição de todas as crenças.

A resposta ao COVID-19 está mostrando o poder da fé. Agora devemos aproveitar esse poder, juntos, para criar um futuro sustentável para nós e para todas as outras espécies que compartilham este planeta.

Economia,Capitalismo,Blog do Mesquita 01

Geopolítica e tecnologia ameaçam o domínio financeiro da América

Em janeiro, um ex-general americano falou em uma reunião de financistas globais seniores. Acostumado a pensar em estratégia e força, ele alertou que os Estados Unidos estão lidando mal com a mais complexa gama de ameaças desde a Guerra Fria – do Irã e da Rússia ao novo coronavírus.

Mas ele também falou de uma ameaça muito menos visível: como, através do uso agressivo de sanções econômicas, os Estados Unidos estão usando mal sua influência como poder financeiro predominante, pressionando aliados e inimigos para a construção de uma arquitetura financeira separada. “Não tenho certeza da apreciação do decisor-chefe de como o sistema financeiro funciona”, disse ele. O fato de um ex-general estar pensando no sistema financeiro global diz muito sobre o quão significativo esse perigo se tornou.

O sistema é constituído por instituições, moedas e ferramentas de pagamento que determinam como a liquidez invisível que alimenta a economia real flui ao redor do mundo. Os Estados Unidos têm sido seu centro pulsante desde a Segunda Guerra Mundial. Agora, porém, erros repetidos e a crescente atração da China começaram a rasgar as costuras. Muitos assumem que o status quo está enraizado demais para ser desafiado, mas esse não é mais o caso. Uma esfera financeira separada está se formando no mundo emergente, com diferentes pilares e um novo mestre.

O hegemon-in-waiting financeiramente, como geopoliticamente, é a China, cuja rápida ascensão está puxando o sistema. Hoje, o país representa 15,5% do PIB global, ante 3,6% em 2000. Sua economia, a segunda maior do mundo, está profundamente envolvida no tecido do comércio global. No entanto, pesa pouco no sistema financeiro. A China considera a correção dessa assimetria crucial para obter o status de grande potência. “O domínio do dólar está sendo escavado por baixo”, diz Tom Keatinge, da rusi, um think tank. A crise do covid-19 ameaça dar um impulso decisivo às forças centrífugas.

O primeiro pilar do sistema foi estabelecido em 1944 com a fundação do Banco Mundial, o FMI e a ordem monetária global em Bretton Woods, New Hampshire. Tendo fornecido armas a aliados durante a guerra, os EUA possuíam a maior parte do ouro do planeta, no qual precificavam seus produtos. Grande parte da Europa e da Ásia estava em ruínas. O sistema entre guerras das taxas de câmbio flutuantes se mostrou disfuncional. Decidiu-se, portanto, que todas as moedas seriam vinculadas ao dólar e o dólar vinculado ao ouro. Isso fez do dólar a nova moeda de reserva do mundo. Duas décadas depois, o crescente peso econômico do Japão e da Alemanha, juntamente com a imensa impressão de dinheiro dos Estados Unidos durante a guerra do Vietnã, tornaram os estacas insustentáveis. O sistema se desintegrou, mas o “padrão do dólar” sobreviveu.

Na década de 1970, os Estados Unidos também dominaram o sistema de encanamento que sustenta os pagamentos globais. Os bancos americanos, então impedidos de operar fora das fronteiras estaduais, se uniram para desenvolver sistemas de mensagens interbancárias e redes de caixas eletrônicos em todo o país. Os credores também se uniram para formar “esquemas” de cartão de crédito – associações que estabelecem as regras e sistemas através dos quais os membros liquidam os pagamentos em plástico. Esses mundos se fundiram quando duas das principais redes de cartões (logo Visa novamente e MasterCard) compraram as duas maiores empresas de caixas eletrônicos para expandir no exterior. Ao permitir que as pessoas comprassem em qualquer lugar, cartões e caixas eletrônicos se tornaram a infraestrutura dominante para movimentar pequenas somas de dinheiro em todo o mundo.Dinheiro,Economia,Ouro,BitCoin,Dolar,Euro,Real,Blog do Mesquita

Uma revolução logo se seguiu em transferências de grande valor. No antigo sistema de “telex”, um pagamento transfronteiriço entre bancos exigia a troca de uma dúzia de mensagens em texto livre, um processo propenso a erros humanos. Em 1973, um grupo de bancos se uniu para criar o swift, um serviço de mensagens automatizado que atribui um código único a cada agência bancária. Tornou-se a língua franca para pagamentos por atacado.

A nova tecnologia impulsionou os bancos americanos, que se tornaram mais bem equipados para acompanhar clientes no exterior e seus mercados de capitais, ajudados pela digitalização de ativos em papel. Após a reconstrução, o Japão e a Alemanha, ricos em poupança, depositaram seus dólares em títulos do tesouro. Um boom imobiliário gerou títulos lastreados em ativos. Entre 1980 e 2003, o estoque de títulos da América cresceu de 105% para três vezes o PIB, formando o trampolim internacional para seus bancos de investimento. Após um big bang regulatório nos anos 90, eles se fundiram com bancos comerciais. Em 2008, 35 empresas haviam se tornado as quatro maiores empresas – Citigroup, Wells Fargo, JPMorgan Chase e Bank of America – a última ponta do domínio financeiro da América.

A atração da América dentro do sistema permanece enorme. Quando os desastres acontecem, o dólar aumenta. Ainda é a reserva de valor mais segura do mundo e seu principal meio de troca. Isso faz da instituição que a menta o metrônomo dos mercados globais. Em 2008, o Federal Reserve da América evitou uma crise geral de caixa em todo o mundo ao oferecer “linhas de swap” aos bancos centrais do mundo rico, permitindo que eles emprestassem dólares em suas próprias moedas. Quando o pânico tomou conta dos mercados novamente em março, o Fed expandiu a oferta para alguns países emergentes. Em abril, ampliou-o ainda mais, permitindo que a maioria dos bancos centrais e instituições internacionais trocassem seus títulos de dívida americanos contra dólares, impedindo assim a debandada.

O encanamento financeiro do mundo também permanece sob o controle da América. os 11.000 membros da swift em todo o mundo fazem ping uns aos outros 30 milhões de vezes por dia. A maioria das transações internacionais que eles fazem são encaminhadas através de Nova York pelos bancos “correspondentes” americanos para os chips, uma câmara de compensação que paga US $ 1,5 trilhão em pagamentos por dia. A Visa e a Mastercard processam dois terços dos pagamentos com cartão em todo o mundo, de acordo com a Nilson Report, empresa de dados. Os bancos americanos capturam 52% das taxas de banco de investimento do mundo.Rodando o globo terresre,Capitalismo,Economia,Humor,Trabalho,Escravos,Blog do Mesquita

Três coisas estão impulsionando a mudança. Primeiro, o fator “empurrão” da geopolítica. A centralidade da América permite aleijar os rivais, negando-lhes acesso ao suprimento de liquidez do mundo. Até recentemente, ele se absteve de fazê-lo. O sistema financeiro era visto como uma infraestrutura neutra para promover o comércio e a prosperidade. As primeiras rachaduras apareceram depois de 2001, quando os Estados Unidos começaram a usá-la para sufocar fundos para o terrorismo. O crime organizado e os proliferadores nucleares logo se juntaram à lista. Ele convenceu os aliados ao apresentar grupos como ameaças à segurança internacional e à integridade do sistema financeiro, diz Juan Zarate, ex-consultor de George W. Bush que projetou o programa original.

O arsenal ganhou força sob Barack Obama. Após a invasão da Crimeia pela Rússia em 2014, os EUA puniram oligarcas, empresas e setores inteiros de uma economia com o dobro do tamanho das metas anteriores. Sanções “secundárias” foram impostas às empresas de outros países que negociavam com entidades na lista negra. Desde então, o presidente Donald Trump elevou o sistema para uso como arma e o usou contra aliados. Em dezembro, visou empresas construindo um gasoduto que trazia gás russo para a Europa. Em março, endureceu as sanções contra o Irã, enquanto outros canalizavam ajuda para o país. O arsenal dificilmente parece imparcial: desde 2008, os EUA multam os bancos europeus em US $ 22 bilhões, dos US $ 29 bilhões no total. Em 2019, ele designou novas metas de sanções 82 vezes, diz Adam Smith, da Gibson Dunn, um escritório de advocacia.

As sanções agora são cada vez mais usadas em conjunto com outras restrições para estrangular a China. O Departamento de Comércio mantém uma série de listas de entidades com as quais outras empresas não conseguem lidar. Um deles, a lista “não verificada”, proíbe as exportações para empresas sobre as quais o ministério tem dúvidas. Ele passou de 51 nomes em 2016 para 159 em março. As entidades chinesas representam dois terços das adições. Outros departamentos também estão correndo para serem vistos como os mais difíceis da China.

No curto prazo, a natureza opaca de todo o sistema maximiza o impacto das sanções. Mas também cria um forte incentivo para que outras pessoas busquem soluções alternativas, e a tecnologia está cada vez mais fornecendo as ferramentas necessárias para construí-las.

Ajuda que muitos mercados emergentes, não apenas a China, estejam interessados ​​em um reequilíbrio

Tais avanços resultam do segundo impulsionador das novas tendências: o fator “puxar” das tentativas de atender às necessidades das economias emergentes. As empresas de tecnologia visam as 2,3 bilhões de pessoas no mundo com pouco acesso a serviços financeiros. Ajudados por capital abundante e regras permissivas, eles criaram sistemas de baixo custo que estão começando a exportar. Alguns também visam possibilitar o comércio em regiões onde os cartões de crédito são raros, mas os celulares são comuns. Apoiados por seu enorme mercado doméstico, os “superapps” da China administram ecossistemas nos quais os usuários passam o seu caminho sem usar dinheiro real.China,Economia,China,Blog do Mesquita

Ajuda que muitos mercados emergentes, não apenas a China, estejam interessados ​​em um reequilíbrio. A maioria empresta no exterior e precifica suas exportações em dólares. A América já foi o maior comprador. Sempre que o dólar subia, a demanda se seguia, compensando dívidas mais caras. Mas um dólar mais forte agora significa que a China, seu principal parceiro comercial, pode comprar menos coisas. Portanto, a demanda cai exatamente quando o pagamento dos empréstimos fica mais caro. E as apostas aumentaram: o estoque da dívida em dólares dos mercados emergentes dobrou desde 2010, para US $ 3,8 trilhões.

O terceiro fator que ajuda os insurgentes é o covid-19, que pode levar a um ponto de inflexão. Já prejudicado pelo aumento das tarifas, é provável que o comércio global se fragmente ainda mais. Como uma ruptura distante causa escassez local, os governos querem encurtar as cadeias de suprimentos. Isso dará às potências regionais como a China mais espaço para escrever suas próprias regras. As consequências econômicas nos Estados Unidos – inclusive o impacto fiscal de suas medidas de estímulo de US $ 2,7 bilhões – podem prejudicar a confiança em sua capacidade de pagar dívidas, que sustentam seus títulos e moeda.Economia,Blog-do-Mesquita,Bancos,Finanças 02

Mais importante, a crise prejudica a confiança de outros países na aptidão dos EUA para liderar. Ele ignorou os primeiros avisos e estragou sua resposta inicial. A China é culpada de coisas piores – seus próprios erros ajudaram a exportar a covid-19 em primeiro lugar. No entanto, conseguiu conter os casos rapidamente e agora está transmitindo uma narrativa de competência doméstica. A capacidade da América de garantir a prosperidade global é a cola que mantém a ordem financeira unida. Com sua legitimidade gravemente atingida, novos ataques ao sistema parecem inevitáveis. Na linha da frente estão os soldados de infantaria do sistema do dólar, os bancos.