Coronavírus: como a covid-19 acirrou guerra política entre EUA e China

O novo coronavírus virou o último campo de batalha entre os Estados Unidos e a China.

A crise de saúde mundial por causa da covid-19, doença causada pelo vírus, colocou em evidência a tensa rivalidade entre as duas superpotências mundiais e deixou definitivamente para trás a aparente lua de mel depois de sua reaproximação comercial.

Desta vez, o conflito se deu em meio à circulação de teorias de conspiração sem provas e declarações polêmicas, como a recente do presidente americano, Donald Trump, classificando o corona como “vírus chinês”. Um morde e assopra que, segundo advertem os especialistas, é perigoso para todos.

‘Transparente’

Na semana passada, um post em redes sociais chinesas e estrangeiras chamou a atenção.

“Pode ter sido o Exército dos EUA que levou a epidemia a Wuhan“, disse Zhao Lijian, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, em 12 de março.

Ele estava se referindo ao novo coronavírus detectado na cidade chinesa de Wuhan em dezembro passado que se espalhou pelo mundo, causando uma pandemia de consequências ainda desconhecidas.

Os primeiros casos de covid-19 foram registrados na China – Imagem Getty

Ao comentário, o representante do Ministério das Relações Exteriores da China anexou um vídeo do diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC), Robert R. Redfield, reconhecendo no Congresso que algumas das mortes por influenza no país podem ter sido causados ​​pelo novo coronavírus, sem especificar datas.

“Quando o paciente zero foi registrado nos Estados Unidos? Quantas pessoas estão infectadas? Quais são os nomes dos hospitais? Pode ter sido o Exército dos EUA que trouxe a epidemia para Wuhan. Seja transparente! Torne a data pública! Os Estados Unidos nos devem uma explicação”, escreveu Zhao no Twitter.

O comentário, conforme noticiado por veículos de imprensa como o jornal de Hong Kong The South China Morning Post (SCMP), parece se referir aos Jogos Militares Mundiais, realizados em Wuhan em outubro, com a participação de mais de 100 países pouco antes da cidade se tornar ponto zero da pandemia.

O vírus é assim, segundo essa ilustração criada pelo Centro para o Controle e a Prevenção de Doenças dos EUA – Getty Images

O Pentágono confirmou casos de coronavírus entre os militares na Coreia do Sul e Itália, e está se preparando para mais casos, mas nenhuma doença foi relatada entre os membros que compareceram ao evento mencionado, de acordo com o jornal The New York Times.

Os comentários do porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da China levaram ao Departamento de Estado dos EUA a chamar o embaixador chinês em Washington para consultas (medida que sinaliza uma reprimenda diplomática).

Apesar das queixas, o ministério apoiou as declarações de Zhao.

“Nos últimos dias, vimos inúmeras discussões sobre a origem do [vírus causador da doença] covid-19. Fazemos forte oposição a comentários infundados e irresponsáveis ​​de autoridades americanas e membros do Congresso sobre esse assunto para difamar e atacar para a China”, disse outro porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Geng Shuang, em entrevista a jornalistas.

Geng criticou a postura americana – Getty Images

Embora a China não tenha questionado inicialmente a origem do surto no país, referências posteriores de sua comunidade científica mostraram outra visão.

Em janeiro, Gao Fu, diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças da China, disse que sabia que “a fonte do vírus eram os animais selvagens vendidos no mercado de animais vivos” em Wuhan.

No entanto, no final de fevereiro, o cientista Zhong Nanshan disse a jornalistas que “a epidemia apareceu pela primeira vez na China, mas não necessariamente se originou” no país, segundo a agência de notícias francesa AFP.

As insinuações geraram reações e críticas nos Estados Unidos.

“É simplesmente vergonhoso que o governo chinês não esteja disposto a assumir a responsabilidade pelo coronavírus”, diz Elizabeth Economy, diretora de estudos asiáticos do Centro dos EUA para o Conselho de Relações Internacionais.

“As pessoas não culpam o governo chinês pelo fato de o coronavírus ter aparecido na China, eles culpam o governo por encobrir a epidemia e agora estar tentando disfarçar a responsabilidade pela forma como lidou com ela desde o início”, diz ela à BBC.

Em fevereiro, os líderes chineses enfrentaram uma onda de críticas sem precedentes por causa da maneira como lidaram com a crise, especialmente quando o caso do médico Li Wenliang, 33 anos, veio a público.

O médico Li publicou uma foto sua em sua cama hospital nas redes sociais no dia 31 de janeiro. No dia seguinte, foi diagnosticado com a covid-19

Li, um dos profissionais da linha de frente da epidemia, tentou alertar seus colegas sobre a existência desse novo vírus, mas foi silenciado pela polícia, que o acusou de espalhar informações falsas.

O jovem médico acabou morrendo em decorrência da doença, o que despertou uma onda gigantesca de indignação nas redes sociais chinesas.

Outra ‘teoria’

Outros especialistas consultados pela BBC também consideram que os comentários do porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China culpando os militares americanas são uma resposta clara a outras teorias da conspiração promovidas nos Estados Unidos.

É o caso do senador americano do Partido Republicano Tom Cotton, que em fevereiro insistiu em vários canais que o vírus poderia ter se originado em um laboratório de biossegurança em Wuhan, hipótese amplamente contestada por cientistas.

É consenso na comunidade científica que o vírus atravessou a barreira das espécies, de animal para humano, em um dos mercados de Wuhan.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) observou que, embora o caminho exato que o vírus tomou para entrar nos seres humanos ainda não esteja claro, o SARS-CoV-2 “não era conhecido antes do surto que começou em Wuhan, na China, em dezembro de 2019”.

‘O vírus chinês’

Além das teorias da conspiração, várias declarações controversas foram dadas recentemente.

A última veio do próprio presidente Donald Trump, que em um tuíte referiu-se ao patógeno como o “vírus chinês”.

No entanto, o SARS-CoV-2 foi citado por vários membros do governo dos EUA como o coronavírus “chinês” ou o “vírus de Wuhan”, conforme declarações do secretário de Estado, Mike Pompeo.

No caso de Trump, o governo chinês foi rápido em reagir aos seus comentários mais recentes, pedindo que ele recuasse e reprimisse suas “acusações infundadas contra a China”

Trump se referiu ao novo coronavírus como “vírus chinês”, pouco depois dos comentários de autoridades do país asiático – Getty Images

A imprensa oficial do país asiático, que atualmente destaca o sucesso da China na luta contra a covid-19 e a ajuda que Pequim oferece e está oferecendo a outras nações afetadas, foi além e classificou as declarações do presidente como “racistas e xenófobas”.

Para os observadores de políticas chinesas, “este jogo geopolítico de atribuição de culpas é uma corrida ao abismo”, segundo Bonnie Glaser, diretora do projeto Poder Chinês do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais .

“Ambos os países estão jogando para seu benefício, em vez de unir forças para derrotar um inimigo comum que não reconhece fronteiras políticas ou geográficas”, disse Yonden Lhatoo, editor-chefe do SCMP, jornal de Hong Kong.

Para Glaser, além disso, é uma disputa perigosa, pois torna ainda mais difícil para os dois países gerenciarem adequadamente os problemas de seus relacionamentos, como as diferenças comerciais, que terão consequências inevitáveis ​​para o resto do mundo.

“[Uma intensa competição estratégica entre os dois] aumentará a pressão sobre outros países para escolher entre os Estados Unidos e a China. A atitude atual tornará um incidente militar mais difícil de manejar”, disse ele.

Longe de se acalmar, o governo chinês lançou outra “bomba” na terça-feira (17/3): a expulsão da China de jornalistas americanos de três principais jornais do país (The New York Times, The Washington Post e The Wall Street Journal), tanto no continente quanto em áreas com maiores liberdades, como Hong Kong, onde organizações que não podem atuar no continente chinês (como ONGs em defesa dos direitos humanos) geralmente têm sua base.

Os jornalistas americanos dos três veículos afetados não poderão trabalhar nem no continente nem em Hong Kong ou em Macau, regiões com mais liberdades – Getty Images

A medida — incomum em termos de escala — responde, segundo Pequim, às limitações impostas por Washington ao número de cidadãos chineses que podem trabalhar para a mídia estatal chinesa nos Estados Unidos.

Uma decisão que a Casa Branca anunciou depois que  expulsou três repórteres do Wall Street Journal.

Outro morde e assopra que já afeta todas as áreas.Crise diplomática entre Brasil e China – Getty Images

O alinhamento ideológico do governo de Jair Bolsonaro com o governo de Donald Trump acabou por arrastar o Brasil para o conflito diplomático.

Um tuíte em que o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), um dos filhos do presidente brasileiro, criticou a China por sua postura diante da eclosão do novo coronavírus renovou as tensões entre o governo Bolsonaro e os chineses.

A atitude de Eduardo também reverberou na política brasileira: de um lado, políticos aliados do presidente e ativistas de direita saíram em defesa do deputado, e alguns copiaram Trump ao empregar a expressão “vírus chinês” para se referir ao novo coronavírus.

Do outro, vários partidos e políticos críticos do governo lamentaram a atitude de Eduardo e exaltaram a importância da China para o Brasil.

Eduardo BolsonaroDireito de imagemERIK S. LESSER/EPA
Polêmica começou quando filho do presidente comparou a postura da China à atitude da antiga União Soviética após o acidente na usina de Chernobyl

O embate se iniciou na quarta-feira (18/03), quando o deputado comparou a postura da China diante do novo coronavírus com a atitude da antiga União Soviética após o acidente na usina de Chernobyl.

“Mais uma vez uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas que salvaria inúmeras vidas. A culpa é da China e liberdade seria a solução”, escreveu Eduardo no Twitter ao compartilhar uma sequências de mensagens publicadas pelo editor de um portal conservador que culpava o Partido Comunista Chinês pela pandemia.

A mensagem do deputado foi rebatida pelo embaixador da China no Brasil, Yang Wanming.

“As suas palavras são um insulto maléfico contra a China e o povo chinês. Tal atitude flagrante anti-China não condiz com o seu estatuto como deputado federal, nem a sua qualidade como uma figura pública especial”, escreveu Yang.

O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB-RJ) também se pronunciou sobre a polêmica.

“O Eduardo Bolsonaro é um deputado. Se o sobrenome dele fosse Eduardo Bananinha, não era problema nenhum. Só por causa do sobrenome. Ele não representa o governo”, disse Mourão, em entrevista à Folha de São Paulo.

De todo modo, ao criticar a China pelo novo coronavírus, Eduardo Bolsonaro agitou as redes pró-governo num momento em que o presidente é alvo de protestos e panelaços contra sua postura diante da pandemia.

Economia,Blog-do-Mesquita,Bancos,Finanças 02

Uma nova era do gelo ou uma recessão sem igual?

Ninguém dessa geração pós 1929 experimentou uma queda econômica tão repentina.Economia,Blog do Mesquita

Ainda não podemos dizer que estamos em recessão, pelo menos não formalmente. Um comitê decide essas coisas – não, realmente. O governo geralmente adota a visão de que uma contração não é uma recessão, a menos que a atividade econômica tenha caído mais de dois quartos.

Mas estamos em recessão e todo mundo sabe disso. E o que estamos experimentando é muito mais do que isso: um cisne negro, uma guerra financeira, uma praga. Talvez as coisas pareçam normais onde você está. Talvez as coisas não pareçam normais. As coisas não são normais.

Por semanas ou meses, não saberemos quanto o PIB desacelerou e quantas pessoas foram forçadas a sair do trabalho. As estatísticas do governo demoram um pouco para serem geradas. Eles olham para trás, os números mais recentes ainda mostram uma economia quente perto do pleno emprego.

Para quantificar a realidade atual, precisamos contar com histórias de empresas, pesquisas com trabalhadores, fragmentos de dados privados e alguns números de estados. Eles mostram uma economia que não está em crise, em contração ou em uma situação delicada, sem sofrer perdas ou vender ou corrigir. Eles mostram evaporação, desaparecimento no que parece uma escala religiosa.Economia,Capitalismo,Blog do Mesquita 01

O que está acontecendo é um choque para a economia americana, mais repentino e severo do que qualquer pessoa viva já experimentou. A taxa de desemprego atingiu o ápice de 9,9% 23 meses após o início formal da Grande Recessão. Apenas algumas semanas após a pandemia doméstica de coronavírus e apenas alguns dias após a imposição de medidas de emergência para detê-la, quase 20% dos trabalhadores relatam que perderam horas ou perderam o emprego.

Uma pesquisa em folha de pagamento e agendamento sugere que 22% das horas de trabalho foram evaporadas para funcionários horistas, com três em cada 10 pessoas que normalmente comparecem para o trabalho que não ocorre na terça-feira. Na ausência de uma forte resposta governamental, a taxa de desemprego parece alcançar alturas nunca vistas desde a Grande Depressão ou até o miserável final do século XIX. Uma taxa de 20% não é impossível.

Coronavírus: Quão perto estamos de uma vacina?

O coronavírus está se espalhando pelo mundo e estão os governos preparados para um grande aumento de casos?

Atualmente, não há vacina disponível para proteger as pessoas contra a doença. Mas quando isso poderia mudar?

Quando haverá uma vacina contra o coronavírus?
Os pesquisadores desenvolveram vacinas e estão começando a testá-las em animais e pessoas, e se isso der certo, poderá haver testes em humanos no final do ano. Mas mesmo que os cientistas possam comemorar o desenvolvimento de uma vacina antes de 2021, ainda há o trabalho maciço de poder produzi-la em massa.

Significa, realisticamente, que não estaria pronto até pelo menos o meio do próximo ano.

Tudo isso está acontecendo em uma escala de tempo sem precedentes e usando novas abordagens para vacinas, portanto não há garantias de que tudo corra bem.

Lembre-se de que existem quatro coronavírus que já circulam nos seres humanos. Eles causam o resfriado comum e não temos vacinas para nenhum deles.

Dentro do laboratório dos EUA desenvolvendo uma vacina contra o coronavírus.

A vacina protegeria pessoas de todas as idades?

Será, quase inevitavelmente, menos bem-sucedido em pessoas mais velhas. Isso não se deve à própria vacina, mas o sistema imunológico envelhecido também não responde à imunização. Vemos isso todos os anos com a vacina contra a gripe.

Todos os medicamentos, mesmo o paracetamol, têm efeitos colaterais. Mas sem ensaios clínicos, é impossível saber quais podem ser os efeitos colaterais de uma vacina experimental.

Até que uma vacina esteja pronta, que tratamentos existem?
As vacinas previnem infecções e a melhor maneira de fazer isso no momento é uma boa higiene.

Se você está infectado pelo coronavírus, então para a maioria das pessoas seria leve. Existem alguns medicamentos antivirais em uso em ensaios clínicos, mas não podemos afirmar com certeza que algum deles funcione.

Como você cria uma vacina?
As vacinas mostram inofensivamente vírus ou bactérias (ou mesmo pequenas partes deles) ao sistema imunológico. As defesas do corpo os reconhecem como invasores e aprendem a combatê-lo.

Então, se o corpo for exposto de verdade, ele já sabe como combater a infecção.

Epidemia X pandemia: qual é a diferença?
O principal método de vacinação há décadas tem sido o uso do vírus original.

A vacina contra sarampo, caxumba e rubéola (MMR) é feita usando versões enfraquecidas dos vírus que não podem causar uma infecção total. A vacina contra a gripe sazonal é feita tomando as principais estirpes de gripe durante as crises e desativando-as completamente.

O trabalho de uma nova vacina contra o coronavírus está usando abordagens mais novas e menos testadas, chamadas de vacinas “plug and play”. Como conhecemos o código genético do novo coronavírus, o Sars-CoV-2, agora temos o plano completo para a criação desse vírus.

Alguns cientistas de vacinas estão retirando pequenas seções do código genético do coronavírus e colocando-o em outros vírus completamente inofensivos.Agora você pode “infectar” alguém com o vírus inofensivo e, em teoria, dar alguma imunidade contra a infecção.

Outros grupos estão usando pedaços de código genético bruto (DNA ou RNA, dependendo da abordagem) que, uma vez injetados no corpo, devem começar a produzir pedaços de proteínas virais que o sistema imunológico novamente pode aprender a combater.

A crise que definirá nossa geração

Em exílio, mundo é obrigado a se repensar suas prioridades, seus líderes e seu destino

Turistas usam máscaras de proteção na avenida Champs Elysees, em Paris, no dia 17 de março.MICHEL EULER / AP (AP)

Não faltaram casamentos adiados, ampliando por alguns meses a vida de solteiro de alguns. Todos eles serão remarcados? As cortinas de milhares de teatros caíram, derrubando milhares de empregos. Todos eles voltarão aos palcos?

O que parecia uma história exótica de uma região da China ganhou, de forma silenciosa e invisível, o resto do mundo. Por semanas, nos corredores da OMS, eu ouvia de dirigentes e técnicos: “Acordem, isso tudo é muito grave”.

Agora, depois de muita hesitação, o continente europeu e o resto do Ocidente começaram a entender a dimensão do problema. Descobrimos um mundo vulnerável e dependente.

A partir dessa semana, quase 200 milhões de pessoas estão em quarentena completa ou parcial pela Europa. O vírus colocou uma parte importante do mundo em isolamento. Um exílio em suas casas, um exílio do contato social.

Sempre cauteloso com suas palavras, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, foi claro nesta segunda-feira sobre a dimensão da crise. “Ela definirá nossa geração”, afirmou. Ela testará nossa confiança na ciência e coloca em xeque a relação entre lideranças políticas e seus cidadãos, justamente no momento em que essa relação está corroída.

Dramático é folhear nos últimos dias os jornais italianos e descobrir que a seção de óbitos conta com dez páginas.

A pandemia também traz o pior e melhor da sociedade. Descobrimos a falta de escrúpulos de quem usa tal situação politicamente. E aqueles que, ignorando os cientistas, colocam uma população em risco em nome de um egoísmo que flerta com o crime. Na França, apesar do vírus bater à porta, eleições municipais foram mantidas, obrigado as pessoas a se encontrar em locais de votos.

O coronavírus só é invisível para quem não quer vê-lo.
Jair Bolsonaro deu uma clara demonstração de que não sabe o papel de um presidente ao convocar as pessoas às ruas.

Nas filas dos supermercados ou de serviços essenciais, descobrimos quem é quem. Na espera para comprar botijão de gás, enquanto uma senhora que estava sendo atendida buscava suas moedas e sua idade a levava mais tempo para encontrá-las, alguém tentou furar a fila sob a justificativa de que não tinha a vida toda para esperar.

Mas também presenciei como mães e pais se organizavam numa farmácia para dividir as fraldas ainda existentes no tamanho que precisavam. A solidariedade deve ser mais contagiosa que o vírus.

Ficamos aliviados quando ouvimos histórias de como vizinhos saíram às suas sacadas para cantar juntos na Itália e na Espanha. Um sentimento de uma comunidade real surgido às sombras do mundo virtual?

Mas a quarentena também impõe perguntas desconfortáveis ao mundo. Como é que certos governos gastam mais em armas que em remédios? Em 2018, o mundo destinou 1,8 trilhão de dólares de seus orçamentos públicos para o setor militar. A OMS estima que precisa de 7 bilhões de dólares para lidar com o vírus.

Outra pergunta inconveniente se refere ao destino dos mais pobres nessa crise. Para uma classe privilegiada do mundo, nunca foi tão fácil vencer uma pandemia. Fechados, temos as janelas abertas ao mundo graças às dezenas de conexões e possibilidades tecnológicas. Para aqueles em campos de refugiados, estão mais presos do que nunca.

Curioso como, num momento de agonia coletiva, a mão invisível do mercado parece não ter poderes para lidar com um inimigo. Resta apenas a ironia de ver ultraliberais perguntando: onde está o estado? A constatação é simples: a dificuldade em dar uma resposta ao vírus é o preço que o planeta está pagando por décadas investindo pouco no serviço público.

Desconcertante também é a pergunta sobre onde foram parar os líderes. Aqueles que deveriam chamar para si a responsabilidade pelo destino do mundo optaram pela miopia de uma disputa política por mandatos e influência.

Inquestionável por décadas, a abertura de fronteiras também foi suspensa e a Europa, por algumas semanas, voltará a manter a desconfiança sobre seus vizinhos. O fechamento, agora, pode servir como uma insurreição das consciências de que os luxos do século 21 foram conquistas sociais que o século 20 nos deixou. E conquistas que envolveram o sangue de muitos.

As mesinhas nas calçadas pela Europa não são apenas um hábito de lazer. Trata-se de uma parcela do contrato social de democracias vivas. A garantia da segurança pública, a garantia da renda, a garantia do tempo de lazer, a garantia de participação. Ao vê-las vazias, recolhidas e empilhadas, fica a sombra da possibilidade de que nada é irreversível.

E se usássemos essa quarentena para desenhar um modelo para ampliar a democracia e garantir que a ocupação dos locais públicos seja um direito universal? E se o isolamento fosse usado como incubadora de uma nova geração de líderes? E se o isolamento fosse aproveitado para ajudar nossos filhos sem escolas por semanas a desenhar a letra A? A de ágora.

Em seu livro A peste, Albert Camus conta como a doença que se espalhava pela cidade de Orã gerava em cada um dos moradores um sentimento diferente de exílio e isolamento. Distância daqueles que amamos, de nosso país de origem e até de uma amante.

No começo, todos queriam acelerar o tempo para decretar o fim da peste. Com o passar do tempo, alguns desistiram e outros criaram fantasias paralelas para manter a razão. Todos eram vítimas da mesma epidemia. Todos estavam em um exílio de seus universos. Mas se isso os unia, todos viviam a profunda desconfiança mútua. O resultado: estavam isolados em seu sofrimento.

O nosso exílio que começa nesta semana pela Europa e que pode chegar a outras partes do mundo não pode ser desperdiçado. Uma oportunidade única para a sociedade, fechada, olhar para si mesma e se examinar. Temos como construir uma geração fincada na responsabilidade social?

Entre as milhares de mensagens que circulam pelo Velho Continente nos últimos dias, uma delas tocava no coração do orgulhoso povo europeu, repleto de batalhas. “Nossos avós foram convocados a sair de casa para lutar por sua sobrevivência. Nós, desta vez, estamos sendo convocados a ficar em casa”.

A OMS garante que há como vencer o vírus. Mas ele deixará como legado uma necessidade real de repensar nossa existência.

Adere a
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A rede social e o coronavírus

Para retardar o vírus, Alessandro Vespignani e outros analistas estão correndo para modelar o comportamento de seu hospedeiro humano.

Alessandro Vespignani, diretor do Network Science Institute da Northeastern University, em Boston.

Os escritórios do Network Science Institute da Northeastern University ficam 10 andares acima da Back Bay de Boston. Janelas envolventes oferecem um panorama flutuante da cidade, de Boston Common a Fenway Park, enquanto meia dúzia de jovens analistas trabalham em silêncio em computadores.

Às 10 da manhã de uma manhã recente, com as primeiras ligações para a Organização Mundial de Saúde e médicos europeus concluídas e o check-in com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças agendados para mais tarde, Alessandro Vespignani, diretor do instituto, teve algum tempo para trabalhar a sala. De blazer preto e calça jeans, ele passou de cubículo em cubículo, dando a cada membro de sua equipe as últimas atualizações sobre a pandemia de coronavírus.

“Chamamos isso de ‘tempo de guerra'”, disse Vespignani mais tarde em seu escritório; ele estava sentado, mas suas mãos não pararam de se mover. “Antes disso, estávamos trabalhando no Ebola e no Zika e, quando essas coisas estão se espalhando, você está trabalhando em tempo real, não para. Você está continuamente modelando redes. ”

Historicamente, os cientistas que tentam antecipar a trajetória de doenças infecciosas focam nas propriedades do próprio agente, como seu nível de contágio e letalidade. Mas as doenças infecciosas precisam de ajuda para espalhar sua miséria: humanos encontrando humanos pessoalmente. Na última década, pesquisadores importantes começaram a incorporar redes sociais em seus modelos, tentando identificar e analisar padrões de comportamento individual que ampliam ou silenciam possíveis pandemias.

Essas descobertas, por sua vez, informam recomendações de políticas. Quando faz sentido fechar escolas ou locais de trabalho? Quando o fechamento de uma borda fará a diferença e quando não fará? As autoridades mundiais de saúde consultam modeladores de redes sociais quase diariamente, e o laboratório do Dr. Vespignani faz parte de um dos vários consórcios que estão sendo consultados nas decisões cruciais e talvez perturbadoras nas próximas semanas.

Na sexta-feira, em uma análise publicada pela revista Science, o grupo estimou que a proibição de viagens da China a Wuhan atrasou o crescimento da epidemia em apenas alguns dias na China continental e em duas a três semanas em outros lugares. “Esperamos que as restrições de viagens às áreas afetadas pelo COVID-19 tenham efeitos modestos”, concluiu a equipe.

“Hoje, com o enorme poder computacional disponível na nuvem, Vespignani e outros colegas podem modelar o mundo inteiro usando” dados publicamente disponíveis, disse Elizabeth Halloran, professora de bioestatística da Universidade de Washington e pesquisadora sênior da Universidade de Washington. o Centro de Pesquisa de Câncer Fred Hutchinson. “Por um lado, há o surgimento da ciência de redes e, por outro, o enorme aumento no poder da computação”.

Dr. Vespignani chegou à análise de redes através da física. Depois de concluir um doutorado. em sua Itália natal, ele fez estudos de pós-doutorado em Yale, onde começou a se concentrar na aplicação de técnicas computacionais à epidemiologia e dados geográficos.

“Olha, sou romano e sou fã do Lazio. Estávamos em primeiro lugar – finalmente, depois de quantos anos? – e alguns fãs pensam que o coronavírus é uma conspiração contra a Lazio. Não digo que isso seja engraçado, mas sim: cada rede social funciona à sua maneira.”

Ele estava de pé novamente e passeava por uma fileira de escritórios com paredes de vidro. A certa altura, ele enfiou a cabeça em um escritório onde Ana Pastore y Piontti, física e pesquisadora associada, trabalhava em um dos problemas do dia: fechamento de escolas, analisado estado por estado e região por região. As autoridades de saúde de todo o país estão discutindo se devem fechar as escolas locais – quais, em quanto tempo e por quanto tempo.

“Ana está trabalhando nisso agora, queremos poder estimar os efeitos”, disse Vespignani.

Detalhes em um mapa de risco do início deste mês simulando o possível caminho do coronavírus da China para o resto do mundo.Credito: Kayana Szymczak for The New York Times

Seu projeto, como muitos outros do instituto, usa dados do censo, que revelam a composição de quase todos os lares americanos: o número de adultos e crianças e suas idades. A partir de uma única família, um grande mapa pode ser construído. Primeiro, as conexões entre mãe, pai, filho e filha. Em seguida, são adicionadas as conexões do pai na loja, a mãe no escritório e as crianças nas respectivas escolas. A análise pode determinar que, digamos, um garoto de 12 anos que mora no centro de Redmond, Washington, perto de Seattle, entre em contato regularmente com seus pais, irmã e uma média de 20,5 colegas da escola secundária local. .

Repetir o processo com famílias próximas gera um mapa digital denso de interconexões sobre uma comunidade inteira. No monitor do computador do Dr. Pastore y Piontti, ele se assemelha a um circuito elétrico complexo, com fios e cabos multicoloridos de e para hubs de interação compactos.

“Pense nisso como rastrear todas as interações regulares no videogame SimCity”, disse ela.

Nesse mapa, ela adiciona ainda mais conexões, incorporando dados de viagens dentro e fora dessa comunidade – por avião, trem ou ônibus (se essas informações estiverem disponíveis). O resultado final, que ela chama de “matriz de contato”, parece um mapa de calor aproximado – um slide colorido mostrando quem tem maior probabilidade de interagir com quem, por idade. A partir disso, ela subtrai todas as interações da escola, revelando uma estimativa de quantas menos interações – e possíveis novas infecções – ocorreriam ao fechar determinadas escolas.

“Cada país, cada estado, pode ser muito diferente, dependendo dos padrões de interação e composição das famílias”, afirma Pastore y Piontti. “E há a questão do que é mais eficaz: uma semana de fechamento, ou duas semanas, ou fechado até o próximo ano letivo.”

Vespignani havia desaparecido de volta ao seu consultório com dois analistas seniores. Eles estavam amontoados em um viva-voz, executando as últimas alterações de modelagem com um pesquisador externo. O laboratório faz parte de um consórcio que assessora a CDC e realiza chamadas contínuas de operações de mapeamento de doenças infecciosas em todo o mundo.

A conversa e a consultoria são ininterruptas, porque o instituto deve navegar pelas limitações inerentes a toda modelagem preditiva. Um desafio é que nem todos os locais importantes de progressão da doença podem ser previstos: navios de cruzeiro, por exemplo. Outra é fatorar eventos aleatórios – digamos, uma pessoa infectada que de repente decide que agora é o momento de fazer uma viagem de sonho à Espanha.

Coronavirus; Por que tão poucos casos de coronavírus foram relatados na África?

A disseminação no país africano é preocupante por causa da fragilidade do sistema de saúde e devido aos problemas já existentes

Os especialistas ainda não sabem por que tão poucos casos do novo coronavírus foram relatados na África, apesar da China – onde o vírus se originou – ser o principal parceiro comercial do continente com uma população de 1,3 bilhão de pessoas, aponta a publicação NewScientist.

Embora o número oficial de casos no Egito tenha aumentado de dois para 59 no fim de semana, incluindo 33 pessoas que estavam em um cruzeiro pelo Nilo, na África, o número de casos permaneceu baixo.

Na manhã de terça-feira, havia apenas 95 casos oficiais no continente, embora dois países – Togo e Camarões – relataram seus primeiros casos no fim de semana. A disseminação na África é preocupante por causa da fragilidade do sistema de saúde, e pelo continente já enfrentar grandes problemas de saúde pública, como malária, tuberculose e HIV.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) se apressou em reforçar a capacidade dos países africanos de testar o vírus e treinar profissionais de saúde para cuidar das pessoas afetadas por ele. Somente o Senegal e a África do Sul tinham laboratórios que poderiam testar o vírus no final de janeiro, mas 37 países agora têm capacidade de teste.

Mary Stephen, da OMS, com sede em Brazzaville, na República do Congo, diz que acredita que a contagem de casos é precisa, porque mais de 400 pessoas foram testadas para a covid-19 em toda a África até agora.

“Eu não diria que é uma subestimação”, diz ela. “Sempre será possível perder casos e isso sempre foi admitido no Reino Unido”, diz Mark Woolhouse, da Universidade de Edimburgo, Reino Unido. Mas, dada a maior conscientização na África, a falta de mortes relacionadas ao coronavírus no continente implica que ainda não existem grandes surtos não detectados, diz ele.

“Se houvesse grandes surtos, da escala que a Itália ou o Irã tiveram, em qualquer lugar da África, eu esperaria que essas mortes estivessem bem acima do radar até agora”.

Coronavirus, Itália enfrenta um aumento constante de casos

Com a imprevisível e repentina disseminação do coronavirus, a Itália passou a ser o país europeu mais afetado pelo covid-19.

Em 23 de fevereiro, o número de pessoas infectadas com o coronavírus que surgiram na cidade chinesa de Wuhan, saltou para 190 infectados e 12 mortos, um salto de cerca de 100 em um dia. Três deles, todos com 60 anos ou mais, já morreram. A Itália agora tem o terceiro maior número de casos no mundo, depois da própria China, onde 77.000 foram infectados, e da Coréia do Sul, onde o total subiu para mais de 600.

Dois grupos de infecção surgiram, ambos no norte. Um fica ao sudeste de Milão, ao redor da cidade de Codogno; o outro fica a sudoeste de Veneza, perto de Pádua.
O Carnaval de Veneza foi cancelado

Ambas as áreas foram colocadas em quarentena, restringindo o movimento de cerca de 50.000 pessoas. Mais 500 policiais foram enviados para realizar patrulhas e bloquear barreiras nas estradas de e para as duas áreas.

Quatro dos jogos de domingo da Série A de futebol, todos no norte, foram cancelados. O governo de Roma proibiu as excursões escolares. Luca Zaia, governador de Veneto, a região que circunda Veneza, anunciou que estava encerrando o famoso carnaval da cidade à meia-noite de 23 de fevereiro, cancelando assim os dois últimos dias de um festival que atrai cerca de 3 milhões de visitantes por ano. Zaia também disse que estava fechando os museus da cidade e suspendendo todos os outros eventos envolvendo multidões. Ele reconheceu que as medidas que aprovara eram drásticas. Mas ele acrescentou: “Queremos prevenir e não curar”.

Na vizinha Lombardia, na região de Milão, creches, escolas e universidades não reabrirão por pelo menos uma semana. A Ópera La Scala e a Pinacoteca di Brera, o mais famoso museu de arte de Milão, também estão fechando.

Giorgio Armani e Laura Biagiotti, duas estilistas, exibiram suas coleções de outono e inverno na cidade via transmissão ao vivo, a portas fechadas.

O governador da Lombardia, Attilio Fontana, disse que se a situação piorasse, ele imporia mais medidas draconianas, semelhantes às de Wuhan.

Os consumidores da capital de negócios da Itália, temendo um bloqueio, entraram nos supermercados para estocar alimentos e outros itens essenciais. “Estamos trabalhando como animais de carga”, disse um funcionário à agência de notícias Ansa. Outros varejistas disseram que sofreram uma queda drástica nas vendas.

As autoridades de saúde italianas pensaram que haviam identificado a fonte do surto: um executivo que retornou da China em 21 de janeiro. Mas ele já deu negativo para o vírus; em 22 de fevereiro, emergiu que não havia evidências até o momento para sugerir que ele havia desenvolvido anticorpos. Isso deixa em aberto a questão de quem trouxe a doença para a Itália e complica os esforços para conter o surto.

O primeiro ministro, Giuseppe Conte, disse que ficou surpreso com o que chamou de “explosão de casos”. O Sr. Conte apelou pela unidade entre partes para enfrentar a emergência. Em uma aparente referência ao chefe da Liga Norte de extrema-direita, Matteo Salvini, ele disse que havia informado o líder da oposição sobre as medidas que seu governo estava tomando.

Salvini, cujo partido foi deposto do poder no ano passado depois que ele não forçou uma eleição geral, parecia não estar disposto a cooperar. “Mais de cem infectados na Itália”, ele escreveu em sua página no Facebook.

“No entanto, para alguns gênios do governo, até alguns dias atrás, o problema era Salvini e a Liga: odiadores e racistas que tocavam o alarme sem motivo. Você devia se envergonhar]!” O susto com a saúde parece mais provável de intensificar as amargas divisões políticas da Itália do que de amenizá-las.

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Surto de coronavírus é uma pandemia ‘em tudo, menos no nome’, diz especialista

Preocupante a possibilidade de uma Pandemia pelo Coronavirus.

Milão,Itália – Turistas em frente a Catedral de Milão -Foto: Andreas Solaro / AFP

A Organização Mundial da Saúde acredita que o vírus ainda pode ser contido, embora o CoronaVirus já esteja na Itália e no Irã.

A Organização Mundial da Saúde minimizou os temores de uma pandemia de coronavírus que varre o mundo, apesar de surtos sérios e sérios na Itália e no Irã, mas alguns especialistas disseram acreditar que agora é inevitável.

“Usar a palavra pandemia agora não se encaixa nos fatos, mas certamente pode causar medo”, disse o diretor geral da OMS, dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, em um briefing.

Ainda não estamos lá, disse Tedros. “O que vemos são epidemias em diferentes partes do mundo, afetando diferentes países de diferentes maneiras”.

O vice-ministro da Saúde do Irã tem resultados positivos

A palavra pandemia é usada para descrever uma doença grave que está se espalhando de maneira descontrolada pelo mundo. A China, ele apontou, parecia ter contido. A equipe internacional enviada pela OMS, que está prestes a relatar sua descoberta.

O mais preocupante é a chegada do coronavírus na Itália e no Irã sem aviso prévio, presumivelmente espalhado por pessoas que eram portadoras assintomáticas. A Itália agora tem 219 casos e sete pessoas morreram. Os números no Irã são contestados, mas alguns relatos alegam que houve 50 mortes na cidade de Qom, que é um local de peregrinação.

Um turista usando uma máscara facial visita o Coliseu em Roma, Itália, em 24 de fevereiro. Fotografia: Antonio Masiello / Getty Images

Outros especialistas disseram que é difícil acreditar que o Covid-19 agora não se espalhe pelo mundo.

“Agora consideramos que isso é uma pandemia, com exceção do nome, e é apenas uma questão de tempo até que a Organização Mundial da Saúde comece a usar o termo em suas comunicações”, disse Bharat Pankhania, da Faculdade de Medicina da Universidade de Exeter.

“Isso nos dá foco e nos diz que o vírus agora está aparecendo em outros países e transmitindo para longe da China. No entanto, isso não muda nossa abordagem no monitoramento do surto. No Reino Unido, não há necessidade de avançar em direção a estratégias de mitigação, pois até agora nossas políticas de contenção estão funcionando. Temos apenas 13 casos, e eles são contidos e controlados. Espero que continuemos com essa estratégia de contenção enquanto for bem-sucedida. “

Congo:Especialistas prevêem que o covid-19 se espalhará mais amplamente

Os países pobres são especialmente vulneráveis

“Existem tantas crises no Congo.”

Gervais Folefack, que coordena os programas de emergência da Organização Mundial da Saúde (OMS) na República Democrática do Congo, domina a arte do eufemismo. O país foi destruído pela guerra e corrupção. “O tempo todo estamos respondendo a crises”, diz Folefack. Ele lista os mais recentes: Ebola, sarampo, cólera.

Para eles, ele pode ter que adicionar a covid-19, uma doença respiratória originada na China. Aqueles que precisariam responder a uma onda de casos cobertos por 19 anos já estão ocupados com o surto de Ebola que começou em 2018. “Estamos tentando nos preparar”, continua o Dr. Folefack, mas simplesmente não há tempo suficiente.

Até o momento, 99% dos casos confirmados do novo coronavírus estão na China. Dos 1.000 casos estranhos fora da China continental, mais da metade esteve no Diamond Princess, um navio de cruzeiro ancorado no Japão; o restante está espalhado por 27 países, principalmente na Ásia.

O Covid-19 se espalhou rapidamente na China, apesar do governo bloquear cidades inteiras por semanas. Os esforços da China, juntamente com as restrições de viagem que muitos países impuseram a seus cidadãos, retardaram o progresso do vírus. Mas muitos especialistas temem que isso se torne inevitavelmente uma pandemia. As autoridades de saúde estão tentando freneticamente se preparar.

Em 12 de fevereiro, Nancy Messonnier, dos Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (cdc), disse que os Estados Unidos devem estar preparados para o vírus “ganhar uma posição” no país. Médicos na África do Sul estão em alerta, diz Cheryl Cohen, do Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis. Mais de 850 médicos em todas as nove províncias do país foram ensinados a identificar a doença. Quem está enviando máscaras cirúrgicas, aventais e luvas para hospitais em mais de 50 países. Ele está ensinando os profissionais de saúde em toda a África como usá-los para prevenir infecções por covid-19 – e como tratar aqueles que têm a doença.

Um número crescente de países está examinando passageiros nos aeroportos e nas fronteiras em busca de sinais da covid-19. Mas quando um vírus começa a viajar pelo mundo, diz Michael Ryan, o verdadeiro ponto de entrada é uma sala de emergência movimentada ou uma cirurgia médica. No surto de sars de 2003 (síndrome respiratória aguda grave), outro coronavírus que se espalhou para mais de 20 países, cerca de 30% das 8.000 pessoas infectadas eram profissionais de saúde. Muitos, se não a maioria, dos surtos de sars no mundo – de Toronto a Cingapura – começaram em um hospital com um único paciente que havia sido infectado no exterior.

Em países onde os casos de covid-19 ainda são raros, os médicos estão tentando, por enquanto, identificar pacientes suspeitos perguntando àqueles com tosse e febre sobre viagens recentes a países com surtos da doença e testando-os. Nos Estados Unidos, se os pacientes apresentarem resultados negativos para a gripe sazonal, os laboratórios estão começando a testar a covid-19 (o país até agora identificou 29 casos).

Confirmar uma suspeita de infecção em um laboratório pode levar dias. Alguns pequenos países europeus têm apenas um ou dois laboratórios capazes de processar testes covid-19. Todo o suprimento de kits de teste da Europa é enviado dos dois principais laboratórios do Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças (ecdc), a agência de saúde pública da ue. Todo o suprimento da América vem do CDC em Atlanta. Levará vários meses até que os testes comerciais estejam disponíveis.

Esteja preparado
Os EUA estão à frente da maioria dos países no planejamento de tais coisas, diz Hanfling. Desastres como o furacão Katrina – quando muitos pacientes morreram em hospitais que não estavam preparados para o desastre – revelaram a necessidade de se preparar para o pior. A cada ano, o governo federal concede aos estados e hospitais cerca de US $ 1 bilhão especificamente para a preparação para desastres. Isso é mais do que o orçamento nacional de saúde de muitos países africanos.

A experiência recente de outros países pode ajudá-los. Kerala, o único estado da Índia a confirmar casos de covid-19, rapidamente conteve um surto de Nipah, um vírus desagradável, em 2018 e, desde então, reforçou seu sistema de saúde. Uganda reteve a propagação do ebola do vizinho Congo e, no processo, acumulou estoques de roupas de proteção para os profissionais de saúde.

Mas os países pobres seriam particularmente afetados por surtos de cobiços-19. Uganda está acostumado a lidar com doenças transmitidas por sangue, mosquitos ou parasitas. O Covid-19, se vier, poderia se espalhar de forma rápida e imprevisível, o que testaria um sistema de assistência médica sem dinheiro. Ian Clarke, presidente de uma federação de saúde privada com sede em Uganda, teme que as taxas de mortalidade possam ser mais altas na África do que na China, porque muitas pessoas já enfraqueceram o sistema imunológico como resultado de HIV ou nutrição deficiente.

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Coronavírus de Wuhan deixa a China cada vez mais isolada do resto do mundo

Os anúncios de fechamento de fronteira e de cancelamento de voos causaram mal-estar no Governo chinês, que trata de controlar a epidemia o quanto antes

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Um grupo de pessoas com máscara deixa uma estação ferroviária de Pequim, neste sábado. WU HONG (EFE)

China impõe censura diante da indignação popular com a epidemia do coronavírus

Cúpula do regime reforça o controle da mídia e da Internet e envia 300 propagandistas a Hubei após denúncias de irregularidades sobre os números de mortos e a distribuição de máscaras.Coronavirus,Epidemia,Brasi,China,Blog do Mesquita 4

O coronavírus de Wuhan não deixou isolados apenas os 46 milhões de pessoas que habitam as cidades bloqueadas da província chinesa de Hubei, o foco da epidemia. Depois que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou emergência sanitária internacional, na quinta-feira, é toda a China que se encontra cada vez mais desconectada do resto do mundo. Numerosas companhias aéreas se apressam em cancelar suas rotas chinesas. Diversos governos nacionais anunciaram o fechamento de suas fronteiras para quem tiver estado no país asiático nos últimos 14 dias, incluídos os cidadãos de outras origens.

Dentro da China, a situação criada pelo coronavírus 2019-nCoV não dá trégua. O número de infectados ronda os 14.380; as vítimas mortais chegam a 304; as pessoas sob observação são 163.000, das quais 19.544 com suspeita de terem sido contagiadas. A notícia positiva: o número de pacientes curados, 328, supera o de mortos. Na madrugada deste domingo, o Departamento de Saúde das Filipinas anunciou a morte de um homem de nacionalidade chinesa, de 44 anos, por causa do coronavírus.

A epidemia já chegou a 24 países, que acumulam mais de 150 casos. Só a África e a América do Sul se encontram livre do vírus por enquanto.Coronavirus,Epidemia,Brasi,China,Blog do Mesquita 2

Uma situação que, segundo os Estados Unidos, justifica uma declaração de “emergência de saúde pública” em seu território. Esse país ―o primeiro a anunciar a repatriação de seus cidadãos em Wuhan depois do abrupto fechamento dessa cidade, em 23 de janeiro― fechará suas fronteiras a qualquer estrangeiro que não tiver laços familiares com cidadãos ou residentes permanentes dos EUA e que tiverem visitado a China nas duas semanas anteriores à sua chegada, o período máximo de incubação. O veto entrará em vigor já neste domingo. Além disso, as companhias aéreas norte-americanas também anunciaram a suspensão temporária de seus voos para a China.

Outros países já fizeram o mesmo. Neste sábado, se multiplicavam os anúncios de cancelamentos de voos. A British Airways, Iberia e Lufthansa, que já haviam anunciado essa medida, somaram-se a australiana Qantas e as companhias nacionais do Vietnã, Uzbequistão, Turcomenistão e Irã. Os viajantes que tiverem passado pela China nas últimas duas semanas tampouco serão admitidos em nações como Austrália, El Salvador, Mongólia, Itália e Singapura.Coronavirus,China,Epidemia

As medidas causaram um profundo mal-estar no Governo chinês, que trata de controlar a epidemia o quanto antes, sem poupar gastos. Pequim quer deixar claro que erros como o da gestão da SARS ―uma epidemia semelhante à atual, que matou quase 800 pessoas em todo o mundo em 2003― não vão se repetir.

“Não é necessário que o pânico se espalhe inutilmente, nem tomar medidas excessivas”, declarou o embaixador chinês na ONU em Genebra, Xu Chen, numa entrevista coletiva. A OMS, salientou o diplomata, não deixa de salientar sua “plena confiança” na capacidade chinesa de resolver a crise. Esse órgão da ONU não considera necessário restringir as viagens nem o comércio com o país asiático, segunda maior economia do mundo.

Para Pequim, o fechamento de fronteiras e a saída desordenada dos estrangeiros de Wuhan representam um voto de não confiança em suas medidas de controle e no seu sistema sanitário, apesar de o próprio Governo já ter admitido uma situação de saturação e falta de material protetor. Em muitos casos, os obstáculos burocráticos atrasaram em horas ou dias inteiros os voos de repatriação de estrangeiros.

Até certo ponto, não cabe dúvida de que existe um componente político, e não só sanitário, em algumas das decisões de fechar fronteiras ou mantê-las abertas. Apesar das numerosas recomendações de especialistas médicos, e de já ter confirmado 13 casos em seu território, o Governo de Hong Kong se negou até agora a fechar completamente a fronteira ―mas suspendeu as ligações por balsa e trem rápido, além de reduzir o número de voos para a China continental. Os sindicatos da área da saúde ameaçam declarar greve nesta segunda-feira se a chefa do Governo, Carrie Lam, não ordenar um fechamento completo.Coronavirus,Epidemia,Brasi,China,Blog do Mesquita

Outros países com uma grande dependência econômica da China se colocaram decididamente ao lado desta potência. O Paquistão reluta em retirar seus universitários de Wuhan, apesar dos apelos desses estudantes, para demonstrar “solidariedade” a Pequim. Um argumento semelhante foi usado pelo primeiro-ministro do Camboja, Hun Sen. Numa entrevista coletiva na quinta-feira em Phnom Penh, a capital, ele insistia em que seus cidadãos na China, inclusive em Wuhan, “têm que permanecer ali para ajudar o povo chinês a combater essa doença. Não se deve fugir do povo chinês nestes momentos difíceis”.

Mas as medidas dos Estados Unidos, especificamente, ameaçam abrir mais uma frente de atrito nas difíceis relações entre as duas grandes potências, que tinham assinado em dezembro uma trégua em sua guerra comercial que já durava quase dois anos. Antes do anúncio do fechamento de fronteiras, nesta semana o secretário de Comércio, Wilbur Ross, dizia que o coronavírus na China beneficiava os EUA, pois obrigaria muitas empresas a tirarem suas cadeias de fornecimento do país asiático.

“As palavras e os atos de alguns responsáveis norte-americanos nem se baseiam em fatos nem são adequados”, declarou Hua Chunying, porta-voz da chancelaria chinesa, em nota. “Bem no momento em que a OMS se pronunciou contra restrições de viagem, os Estados Unidos se apressaram em trilhar o caminho oposto. Não é, certamente, um gesto de boa vontade”.

Preocupação com o racismo

O Governo chinês também se preocupa, segundo fontes diplomáticas, com a possibilidade de surtos de racismo contra seus cidadãos em outros países, especialmente indivíduos oriundos de Hubei. Já na semana passada, vários cidadãos japoneses se amotinaram em um avião de volta quando perceberam que um grupo de pessoas dessa província estava a bordo. Nos últimos dias, foram denunciados incidentes de xenofobia na Itália —o país que mais turistas chineses recebe na Europa—, França, Reino Unido e Canadá.

Na França, um porta-voz da Associação de Residentes Chineses, Sacha-Lin Jung, declarou ao canal BFMTV que “as pessoas estão se recusando a serem atendidas por funcionários asiáticos nas lojas… Retiraram uma mulher de um trem porque era asiática, e portanto era óbvio que era portadora do vírus. Essas coisas se somam ao racismo e aos estereótipos que já existem sobre os chineses”.

No Canadá, um grupo de pais solicitou ao conselho escolar num distrito de Ontário que exigissem das famílias que tivessem retornado recentemente da China que “permanecessem em isolamento domiciliar durante um mínimo de 17 dias para observar uma quarentena”.