A quem interessa nossa ignorância?

Corruptos e desonestos lucram com a ignorânciaEnsino público no Brasil

Alunos em uma sala de aula. DANIEL CASTELLANO SMCS

A manutenção do péssimo modelo de educação pública interessa, e muito, aos desonestos e corruptos, que formam a grande maioria dos nossos dirigentes

Por Luiz Ruffato

Esse cenário de ceticismo se explica em duas frentes. A primeira, a falta de novidades entre os nomes apresentados – a única “renovação” é um candidato que prega… o retorno aos tempos da ditadura militar! Todos os outros, sem exceção, são políticos manjados, que já tiveram a oportunidade de mostrar a que vieram. A segunda questão é que, devido à sensação de que não conseguimos nunca, como coletividade, avançar na resolução dos nossos problemas básicos, caímos naquele estado de autocomiseração: se aqui, em se plantando tudo dá, quem colhe os frutos são sempre os mesmos…

 

Ora, se a conclusão acima reflete uma verdade, essa verdade é relativa, não absoluta. Embora o Brasil apresente uma das maiores diferenças entre ricos e pobres do planeta – segundo o IBGE, a média de renda mensal real de 1% da população (R$ 27.085) equivale a 33,6 vezes ao recebido pela metade da população que ganha menos (R$ 747) –, a única solução para todos os problemas encontra-se no fortalecimento da nossa débil democracia. Ou seja, somos nós os responsáveis tanto pelos caminhos percorridos até aqui, como pelos que serão trilhados no futuro.

Para mim, o cerne do problema encontra-se no péssimo sistema de educação pública que adotamos. É sabido que um em cada quatro brasileiros não sabe ler e escrever ou não compreende textos simples. Além disso, o Brasil ocupa o 65º lugar entre 70 países avaliados pelo PISA, programa internacional que analisa o desempenho de alunos de 15 anos dos sistemas público e privado de ensino. A falta de escolaridade é um impedimento não só para o crescimento individual – mas também para o desenvolvimento coletivo.

A pessoa que não tem acesso a um ensino de qualidade não consegue usufruir do mundo em sua plenitude. A noção de subjetividade, ou seja, aquela que permite que compreendamos a realidade a partir da complexidade da nossa própria existência, deriva do contato com formas mais elaboradas de conhecimento, que adquirimos por meio da educação formal. Sem educação, com as exceções de praxe, dificilmente galgamos o estatuto de cidadãos – tornamo-nos meramente estatísticas, seja na hora de apertar botões na urna eletrônica, seja na hora de ocupar o lugar na urna funerária.

A ignorância, advinda da falta de escolaridade, explica a mediocridade na qual nossa sociedade encontra-se atolada. O obscurantismo, que aceita respostas simples para perguntas complexas, seja no campo religioso, seja no campo artístico, seja no campo político, mina a tentativa de construirmos um Brasil multicultural e pluriétnico. Ao contrário, empurra-nos para o pensamento hegemônico, fundamentalista e simplório. O resultado, a História nos mostra, é sempre catastrófico.

A manutenção do péssimo modelo de educação pública interessa, e muito, aos desonestos e corruptos, que formam a grande maioria dos nossos dirigentes. É a forma mais fácil de a elite – seja ela política, econômica ou intelectual – garantir seus privilégios, que não são poucos. Ainda restam nove meses para exigirmos dos candidatos compromissos com mudanças substantivas pelo menos do nosso sistema escolar. No entanto, para isso, desde já, somos nós que temos de arregaçar as mangas.

Como a pobre Brejo Santo, no Ceará, construiu as melhores escolas públicas do Brasil

Cidade desafia todos os estereótipos e teorias pedagógicas para conquistar o maior Ideb nacional.

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Escola em Brejo Santo, no Ceará. Foto Ana Carolina Cortez.

Sob um sol forte e um calor de mais de 30 graus, começam a descer das vans escolares, às 7 horas da manhã, os alunos da escola de ensino fundamental Maria Leite de Araújo, na zona rural de Brejo Santo, cidade a 70 quilômetros de Juazeiro do Norte, no Ceará, e a mais de 500 km da capital do Estado, Fortaleza.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O verde das paredes da escola, uma construção simples de tijolos, contrasta com a paisagem ao redor, dominada pelo marrom das estradas de terra, pelo amarelo das plantações acostumadas à escassez de chuva e pela magreza do gado, castigado pela seca.

A escola tem somente cinco salas e 180 alunos, dos quais mais de 90% dependem de programas sociais do Governo, como o Bolsa Família. A renda per capita da região não passa de 350 reais mensais (contra pouco mais de 1.000 reais no Brasil), dinheiro que vem principalmente da agricultura familiar. Com essas características, que são bastante comuns na rede de ensino de um Brasil tão desigual, a escola Maria Leite desafia todos os estereótipos e teorias pedagógicas de um colégio modelo: é a melhor instituição pública de ensino fundamental do país.

O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), apurado pelo Ministério da Educação (MEC), é quem constata o fato. A escola Maria Leite de Araújo possui a maior nota do Brasil, 9,6, para o primeiro ciclo do fundamental. A média para o país, inclusive, é quase a metade (5,2). O indicador mede o desempenho em português e matemática dos alunos da rede pública.

O segredo para tal desempenho, segundo a secretária municipal de Educação, Ana Jacqueline Braga, não se esconde em uma fórmula mágica mirabolante. “Não é preciso muito dinheiro. Basta fazer um feijão com arroz bem feito. Se tiver recurso sobrando, faz também um bifinho à milanesa, claro. Mas é o básico que precisa ser feito primeiro”, conta. A secretária foi percebendo os desafios educacionais do município durante seus mais de 20 anos de experiência como professora da rede.

Um exemplo do “básico” que precisava ser feito parece um reles detalhe, mas fez toda a diferença num município predominantemente pobre. Desde 2009, as crianças tomam um café da manhã quando chegam para assistir às aulas, uma medida fundamental quando grande parte delas tem na escola a principal fonte de alimentação (às vezes, a única). Além dessa refeição, contam com um almoço bem reforçado no recreio. A matéria-prima vem dos agricultores familiares do município, uma iniciativa que garante a qualidade das frutas e verduras no prato das crianças e movimenta a economia local.

Outra iniciativa importante para elevar a qualidade de ensino do município foi o acompanhamento pedagógico constante dos alunos. Antes de todo ano letivo, cada criança é avaliada por suas competências. Aquelas que não aprenderam o conteúdo esperado, assistem a aulas de reforço fora do horário no qual foram matriculadas. Ao longo de todo o ano, as crianças também são acompanhadas por coordenadores pedagógicos. Quando têm dificuldades em alguma disciplina, os professores são orientados sobre como trabalhar com aquela criança para nivelá-la em relação àquilo que é esperado da turma.

A guinada na qualidade do ensino de Brejo Santo, com cerca de 45 mil habitantes, não é um caso isolado do Ceará. Foi durante o governo de Cid Gomes, entre 2007 e 2014, que o Estado começou a implantar um projeto educacional para todos os municípios da região, com destaque para o Programa Alfabetização na Idade Certa (Paic). Em 2007, 39% das crianças entre 7 e 8 anos saíam dos primeiros anos do ensino fundamental sem saber ler nem escrever, percentual de analfabetismo que caiu para 6% em 2014. Foram iniciativas como acompanhamento pedagógico de professores e de alunos e meritocracia, como as feitas em Brejo Santo, que o Estado viu o seu Ideb evoluir de 3,5 para 5,2 nos estágios iniciais do ensino fundamental em menos de sete anos. O projeto educacional do Estado, contudo, foi inspirado em uma experiência na cidade natal da família Gomes, Sobral.

No caso da cidade visitada pelo EL PAÍS, os 921 professores da rede municipal fazem treinamentos semanais na secretaria de Educação, como parte de um programa de educação continuada do município. O piso salarial é superior ao nacional, que hoje soma 2.135 reais. Os magistrados também recebem bônus de final de ano, um 14 salário que acompanha o desempenho da sua escola no Ideb e no Spaece, prova que mede o conhecimento dos alunos no Estado do Ceará. “Quem faz acontecer, na verdade, é o professor. Então a sua profissão deve ser valorizada”, explica Jacqueline.

Nos últimos anos, a rede toda foi reformulada, e a maior parte das 42 escolas de ensino básico foram segregadas por séries. Algumas escolas oferecem matrículas do ensino infantil, outras do primeiro ao quinto ano do fundamental e, outras, do sexto ao nono. Diferentemente da tentativa de reorganização escolar aplicada no Estado de São Paulo, as crianças que foram transferidas contam com transporte escolar e, ainda que tudo seja muito perto na zona urbana da interiorana Brejo Santo, não precisam se preocupar com a distância entre o novo colégio e as suas casas. Na zona rural, onde as distâncias são de fato um problema, as escolas costumam oferecer vaga para todos níveis de ensino. Mesmo assim, o transporte escolar é obrigatório.

Antes de 2009, o ensino em Brejo Santo era multisseriado, ou seja, na mesma sala de aula encontravam-se alunos de séries diferentes. O modelo, que funciona bem na Escola da Ponte, em Portugal, parece não se adaptar a Brejo Santo. “Modelos muito construtivistas são ótimos quando os alunos têm boa estrutura familiar, conhecimentos prévios para serem trabalhados. As crianças aqui não vivem essa realidade e eu não posso simplesmente ignorá-las, nem esperar que elas estejam preparadas para as pedagogias modernas”, defende Jacqueline.

Dados comprovam a evolução do município após a reestruturação, rede de ensino que já esteve entre as piores do país. O Ideb médio de Brejo Santo passou de 3 em 2007 para 7,2 em 2013. Há alguns anos, a evasão escolar era uma das maiores do Brasil e, o número de matrículas, baixo. Atualmente, 99% dos alunos em idade escolar estão, de fato, na escola, o que corresponde a 12.325 estudantes. Tudo o que foi conquistado pela cidade, contudo, provém de poucos recursos. Além dos repasses do Fundeb, fundo de educação básica distribuído pelo Governo federal para todos os municípios do país, Brejo Santo aplica no segmento 27,5% de suas receitas com tributos, pouco mais de 13 milhões de reais por ano. A cidade conta com cerca de 47 mil habitantes, dos quais 11 mil dependem de bolsas assistenciais do Governo.

Sucesso na simplicidade

Diferentemente de uma escola de primeiro mundo, os estudantes da zona rural de Brejo Santo não têm muito contato com as novas tecnologias. Nunca viram um drone, não desenvolvem robôs em sala, não aprendem com o auxílio de tablets e, antes de 2014, nem tinham acesso à internet. De acordo com Maria das Graças Bezerra, diretora da escola Maria Leite, nada disso faz falta para o processo de aprendizagem de seus alunos. “Fazemos tudo de forma muito simples, e o simples dá trabalho”, afirma. Para a diretora, o foco da escola não é trabalhar a tecnologia, mas sim o conhecimento e a leitura. “Quem interpreta bem um texto consegue interpretar bem e executar bem qualquer coisa”, complementa. No intervalo, todos os dias os alunos vão para debaixo da sombra de um grande juazeiro que fica no pátio da escola. Em roda, contam histórias e interpretam contos com fantoches.

A diretora também “pega no pé” dos alunos no quesito frequência escolar. Cada falta deve ser justificada pelos pais e se necessário vai na casa dos alunos entender o que está acontecendo. Maria das Graças acredita que a frequência escolar também sofreu uma influência positiva do Bolsa Família. “Esse programa fez muita diferença para as famílias da região. Hoje não vemos mais alunos desmaiarem de fome. Eles vêm mais arrumadinhos, têm material para estudar. Vem com mais autoestima”, complementa.

O pecuarista Jaílson Cosmo, de 46 anos, é um dos beneficiário do programa na região. Somando o auxílio do Governo, a renda da família, composta por cinco pessoas, chega a 1.000 reais por mês. Seus três filhos, os gêmeos Jeferson e Jardel, de 9 anos, e Cícera, de 14 anos, estão matriculados na E.E.F. Maria Leite de Araújo, “a melhor escola do país”, como se orgulha em dizer. Ele, que vende leite e gado para abate, largou os estudos na terceira série do fundamental. “A escola era muito longe, eu tinha que caminhar 6 quilômetros por dia. Também precisava trabalhar para ter o que comer”, conta. “Quero que meus filhos tenham um futuro melhor, quero que aprendam, que estudem muito. Eles que vão escolher o que querem ser. Se quiserem ser agricultores, como eu, tudo bem. Mas se quiserem ser outra coisa, terão essa opção”, complementa.

Quando foi entrevistado, o pai estava de passagem na escola. Tinha visitado um amigo ali perto e resolveu “dar uma olhadinha nos meninos”. A cobrança de Jaílson é constante e, ainda que não consiga mais acompanhar a lição de casa dos filhos, que já passaram da série na qual ele parou de estudar, pede para a filha mais velha “checar os cadernos” dos irmãos mais novos, para “saber se fizeram tudo direito”, explica. Outra “ferramenta” que auxilia Jaílson na cobrança é a memória fotográfica. “Sei se eles escreveram no caderno porque guardei a última página”.

De volta à escola

A presença dos pais na vida escolar dos filhos é fundamental, na opinião de Maria Auxiliadora Moura, diretora da Nobilino Alves de Araújo, outra escola rural de Brejo Santo com um Ideb invejável (9,2). “Educação de qualidade é um processo e depende da dedicação da equipe, da construção de um ambiente favorável ao aprendizado e do envolvimento ativo da comunidade”, afirma.

Para engajar os alunos, a escola promove diversas competições, que vão desde “olimpíadas” de matemática, concursos de redação e até gincanas de astronomia. Em maio, por exemplo, o professor de física da escola inspirou os alunos a construírem um foguete de material reciclado. Ganhava o grupo que desenvolveu o foguete que voava mais alto.

A instituição tem salas de ensino infantil à EJA (Educação de Jovens e Adultos), pois é a única do bairro onde atua. Ainda que esteja situada na zona rural, Nobilino está no meio de uma região industrial em Brejo Santo, perto de fábricas de tijolos e até das obras da ferrovia Transnordestina, projeto que vai ligar o Porto de Pecém (CE), o Porto de Suape (PE) e o município de Eliseu Martins (PI) em uma rota de produção mineral.

Aproveitando a demanda dessas empresas por funcionários locais, a escola buscou fazer parcerias com elas, para diminuir a evasão dos alunos da EJA e atrair mais adultos para concluírem os estudos. “Deu super certo, pois eram companhias que pediam diploma de ensino fundamental para contratação”, diz.

Programa de inclusão

Outro projeto de inclusão que as “escolas-modelo” de Brejo Santo vem implementando é o de crianças com necessidades especiais. A cidade, que recebe cada vez mais visitas de educadores e pesquisadores de todo o país, interessados em entender o que tornou o município um case de sucesso educacional, faz um acompanhamento pedagógico e clínico desses alunos com frequência. Na escola municipal Padre Pedro Inácio Ribeiro, que fica na zona urbana, no centro, a figura do “cuidador” existe há alguns anos. O profissional ajuda o professor titular no aprendizado dos alunos com deficiência, para que toda a sala receba atenção por igual. Também existe um professor, formado em psicologia, em cada turno escolar. Fora do período em que o aluno está matriculado, o psicólogo “dá aulas” que desenvolvem as habilidade motoras e cognitivas da criança com deficiência.

Ariela, de 10 anos, é um exemplo de aluna que conseguiu melhorar seu desempenho com a ajuda desses profissionais. A estudante do 4 ano do fundamental, possui uma doença degenerativa e quase não enxerga mais. Ainda assim, foi a primeira de sua turma a se alfabetizar, ainda no primeiro ano. Também é uma das primeiras da classe em matemática. “Estamos lhe ensinando a ler em braile, agora”, conta a diretora Caline Araújo. Ariela já sabe o que quer ser quando crescer: médica. Para a gestora, integração é um dos pilares que fazem de Brejo Santo uma “cidade educadora”. “Os estudantes querem se sentir protagonistas do aprendizado. Demandam mais aulas interativas, gostam de aprender juntos, de desenvolver atividades em equipe. Dar aula só com lousa e giz não funciona”, defende.

A diretora Ivonete Moemia, da escola Maria Heraclides Lucena Miranda, concorda. “Primamos muito por aulas ao ar livre, pela formação cidadã. Oferecemos atividades culturais depois do turno, como aulas de música, saraus, projetos de literatura. Tudo isso é muito importante, ainda mais em uma região de extrema vulnerabilidade social como a nossa”, diz.

As transformações pelas quais Brejo Santo vem passando também envolvem grandes obras de infraestrutura. Além da Transnordestina, a Transposição do Rio São Francisco há dez anos promete melhorar o abastecimento de água do município. O projeto prevê a construção de represas para as comunidades rurais do Ceará, incluindo os município vizinhos de Penaforte, Jati e Mauriti.

Um dos reservatórios está em construção a menos de dois quilômetros de distância da E.E.F. Maria Leite de Araújo. Há dois anos, quando o consórcio responsável pela obra começou a extrair argila vermelha de três jazidas da região, o bônus e o ônus do “progresso” se tornou visível até nas paredes da escola. Os efeitos do tremor das dinamites levou a secretaria de educação a ter de reparar algumas rachaduras da construção. Também teve de levantar um muro ao redor da escola, para proteger as crianças do tráfego intenso de caminhões que passam em frente, carregando toneladas de argila para as obras. As próprias estradas acabam sendo reparadas pelo consórcio constantemente, já que não foram feitas para suportar o peso das carretas.

Por outro lado, as obras geraram emprego para muitos dos moradores da cidade – e até de municípios próximos, em Pernambuco. Junto com os trabalhadores migrantes, vieram os “filhos de Francisco”, procurando vaga nas escolas rurais de Brejo Santo.

A previsão é que tudo acabe em 2017, mas as consequências da Transposição prometem durar mais. A expectativa é que as famílias possam usufruir da reserva para plantação e para o gado. Atualmente, a água utilizada para essas finalidades vêm de poços artesianos.
Ana Carolina Cortez/ElPais

Escola rural gaúcha fisga jovens do campo com ensino tecnológico

Acordar bem cedo até nos fins de semana e nos dias de inverno mais rigoroso para dar água e alimentar os animais da fazenda, uma rotina bastante comum para os habitantes da zona rural de Viamão, região metropolitana do Rio Grande do Sul, pode estar com os dias contados, se depender da criatividade dos alunos da escola municipal Zeferino Lopes.
Alunos explicam como funcionará o cocho eletrônico que estão desenvolvendo

Com apenas 15 e 17 anos, os estudantes Victor Matheus, Richard Diovani e Matheus Maica, no 9º ano, desenvolveram dentro da sala de aula o protótipo de dois cochos automáticos, um para água e outro para alimentos, que prometem se encarregar dessas tarefas matinais. Os três moram em sítios com criação de animais e ajudam a família nos trabalhos diários do campo.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“Os animais têm horário certo para comer e às vezes a gente gostaria de dormir até mais tarde no domingo”, brinca Victor, o mais velho do grupo. A motivação para o invento dos jovens, contudo, transcende a reivindicação de mais tempo para descansar. “O cocho poderia servir, também, como um sistema de estoque em épocas de secas”, complementa.

Os alunos ainda trabalham na conclusão do protótipo de ração. Para construi-lo, já projetaram o motor para a tampa automática e construíram a estrutura de madeira do cocho. Falta, agora, programar. Isso eles começarão a fazer na aula de robótica, guiada por um professor especialista em computação, fruto de parceria com a Fundação Telefônica.

Na Zeferino Lopes, todos os alunos, desde o primeiro ano, desenvolvem projetos como o desses meninos. A proposta pedagógica da escola, que foi considerada uma das mais inovadoras do país pelo Ministério da Educação, incorpora o uso de pesquisa e tecnologia ao currículo básico no desenvolvimento de soluções para os problemas do dia a dia.

Nem tudo, entretanto, tem correlação com a vida no campo. Victor e Richard, por exemplo, não imaginam permanecer em Viamão. Querem fazer faculdade em Porto Alegre ou Canoas. “Mas, quem sabe um dia, eu trabalhe com tecnologia”, cogita Victor. “O aprendizado extrapola a realidade da comunidade, pois o ensino direcionado para projeto estimula a criatividade dos alunos e permite que eles vislumbrem possibilidades de carreira articuladas com tecnologia, seja no campo ou fora dele.

O nosso objetivo é incentivar um aprendizado mais autônomo e pautado na própria curiosidade e interesse de cada aluno”, explica a coordenadora da escola, Cristina de Faria.

No ano letivo, os alunos geralmente fazem três “saídas disparadoras”, passeios fora da escola – e até do município – para levantarem perguntas para as quais buscarão descobrir as respostas. A primeira rodada de 2016, por exemplo, foi composta de passeios por fazendas e fábricas de arroz, principal cultivo de Viamão. Dali partiram diversas engenhocas dos alunos. Uma delas, elaborada por crianças de 7 a 9 anos, eliminava ervas daninhas na plantação.

Mas diversas rodadas já foram feitas desde o começo de 2015, quando o projeto pedagógico da escola foi reformulado. Delas, partiram perguntas como “por que o avião voa se ele é tão pesado?”, “como as flores conseguem nascer sem serem plantadas pelo homem?”, “como o leite se forma dentro da vaca?”, “como o carrinho de bate-bate se movimenta?”, “para onde vai o lixo da praia?”.

Cada pergunta gera uma pesquisa. As aulas de pesquisa ocorrem duas vezes por semana, dias em que os alunos ficam na escola em tempo integral. As consultas são geralmente feitas na internet, pelos tablets e netbooks que cada criança recebeu, doados à escola por meio de parcerias entre o setor privado e o governo.

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Alunos do 2º e 3º anos mostram suas engenhocas inspiradas no parque de diversões. Cada grupo estuda o funcionamento de um brinquedo. Foto Eduardo Tavares

De cada projeto, nascem protótipos, que podem ser de papelão e materiais diversos até robôs de lego, programados nas aulas de robótica. “Essa rede recolhe o lixo do rio”, explica Alan Lima, de 10 anos, mostrando orgulhosamente o barco de garrafa pet e isopor que seu grupo está construindo para resolver o problema da poluição das águas. Com pouco mais de um metro de altura, ele já fala com a propriedade de um engenheiro ambiental sobre os estragos que faz em todo o ecossistema o lixo que as pessoas jogam irresponsavelmente na praia.

A dúvida que o grupo enfrenta no momento é em que parte da engenhoca vão acoplar a haste da rede na “lixeira sustentável do mar”, como o barco foi batizado, pois ainda são jovens demais para aulas de física. De qualquer jeito, a intuição resolve o conhecimento técnico que ainda não adquiriram. “Pensamos em colocar aqui mais no meio… assim o barco não pesa na frente e não afunda”. Ainda será desenvolvida a hélice, de garrafa, que será responsável pela movimentação do barco na água.

Na mesa ao lado, outro grupo de crianças replica em um robô de lego, a coluna vertebral de uma chita. “É um dos animais mais velozes do mundo”, conforme explica João Vitor, de 10 anos. “Ela pode alcançar mais de 110 quilômetros por hora. Ela é tão rápida que suas vértebras funcionam como uma corrente e a pata tem a função de um amortecedor”, complementa o colega de grupo, Luis Miguel, de 11 anos. Como os meninos descobriram este animal típico da savana africana? Na internet. A paixão por animais direciona as pesquisas online há algum tempo. Antes da chita, reproduziram um tigre dente de sabre.

A professora Márcia Kist explica que são os próprios alunos que sugerem os passeios e os temas de pesquisa. “A ideia do projeto pedagógico é partir da curiosidade dos alunos e de seus conhecimentos prévios para construir conceitos novos”, conta. O método permite que professores e alunos aprendam juntos. “Descobrimos muita coisa em conjunto, pois nós, professores, não sabemos tudo de todas as áreas. E os alunos não se importam. Eles gostam de pesquisar com a gente, de nos ensinar a mexer até nos tablets”, diz.

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João Vitor, 10 anos (superior à esquerda) e Luis Miguel, 11 anos (inferior à esquerda) programam coluna vertebral de uma chita, com lego. Foto Eduardo Tavares

A comunidade também participa dos projetos. Algumas rodadas atrás, um pai trouxe um cavalo para a escola para que os alunos pudessem aprofundar seus conhecimentos sobre o tema do trimestre: os artefatos farroupilhos, ideia que partiu de um passeio ao museu. No final do ano, alunos apresentam seus trabalhos para a comunidade e, aqueles mais votados, ganham um prêmio simbólico.

Desinibidos e bem articulados, os estudantes mostram suas engenhocas, montam slides em power point e até desenvolvem sites para exibir as fotos que tiram dos tablets e celulares dos passeios e de seus protótipos. No ano passado, o destaque da mostra foi o cocho automático para água do pasto.

Em Viamão, oito escolas fazem parte de um projeto de inovação na cidade, tanto na zona rural quanto na urbana. O município, que soma pouco mais de 250 mil habitantes, conta com 61 escolas, 24.600 alunos e 1.380 professores. Ainda que faça parte da região metropolitana do Estado, a maior extensão territorial do município é destinada à agricultura e pecuária, uma paisagem que mescla o vermelho das estradas de terra ao verde das plantações. A população, contudo, é predominantemente urbana.

Há 20 quilômetros da Zeferino Lopes, por exemplo, se localiza outra escola inovadora do município, a Frei Pacífico. Com paredes de pedra e telhado de grama, o lema da instituição é trabalhar a sustentabilidade com os alunos. “Inovação não se limita apenas ao uso de tecnologia em sala de aula, mas também em método de ensino.

O objetivo é permitir a construção de um conhecimento que os jovens possam levar para além da sala de aula, pata que eles aprendam com um pouco mais de autonomia e criatividade”, explica a secretária de Educação de Viamão, Márcia Culau. No ano passado, o município escolheu oito escolas-piloto para um projeto de inovação, munindo os professores e os alunos com computadores móveis. “O computador é um dos milhares de recursos disponíveis para inovar e as crianças hoje o utilizam de forma bastante natural”, complementa.

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Alunos fazem pesquisa na internet para dar continuidade ao projeto. Foto Eduardo Tavares

Ainda que não seja a meta do projeto de inovação, Juliano Bittencourt, consultor técnico do projeto, sócio da Hardfun Studios, acredita que a tecnologia contribui para reduzir a migração dos jovens para a cidade. “À medida que trabalhamos a alta tecnologia no campo, desfazemos um pouco aquela imagem de atraso da zona rural.

A ideia do projeto é empoderar essas crianças para que elas façam o futuro que quiserem, independentemente de onde”, afirma. Para ele, o método de ensino da Zeferino subverte o funcionamento de uma escola tradicional. “No lugar de ensinar para as crianças um monte de conteúdo que elas não precisam, deixamos que elas tragam um conhecimento prévio, que sejam guiadas pela curiosidade, para desenvolver um aprendizado mais condizente com suas realidades”, complementa.

E isso não vale apenas para a vida no campo. “Por meio dos protótipos, por exemplo, os alunos conseguem compreender melhor conceitos abstratos, como matemática, além de desenvolver mais autonomia na construção do conhecimento”, diz.
Por Ana Carolina Cortez

Se o Brasil quiser competir com Alemanha, Japão e Coreia do Sul, tem que reformular o ensino público

 “O Brasil acordou!” é o que temos ouvido, mesmo daqui dos EUA, sobre as manifestações no país.

A mídia, como sempre, enfatiza a violência acima do que as pessoas nas ruas estão pedindo.

Na quinta, a primeira página do “New York Times” mostrou um guarda atingindo o rosto de uma senhora com um spray lacrimogêneo; pouco fala da insistência da maioria dos manifestantes em manter a ordem, dos esforços em abrir uma relação com a polícia que, como tantos já disseram, é povo e precisa de melhorias tanto quanto o resto.

Existe um contrato social e financeiro entre a população e o governo.

A população, por meio dos impostos, paga o governo para exercer certas funções que deveriam garantir sua qualidade de vida: saúde, educação, segurança, transportes.

Se a população não paga, o governo castiga com multas e prisão.

O que ocorre quando o governo não faz a sua parte e deixa de garantir a qualidade do tratamento médico, da educação pública, da segurança nas ruas e das fronteiras, dos transportes?[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

É óbvio que existe uma assimetria no poder: como o governo detém controle da polícia e das forças armadas, fica fácil coibir qualquer desavença. O que as pessoas talvez estejam começando a perceber é que também têm poder.

O contrato deve ser mantido dos dois lados; sem dinheiro, o governo quebra.

Mas vamos ser positivos e imaginar que as manifestações tenham o efeito de redefinir as metas do governo para cumprir o seu lado do contrato. O que deve ser feito?

O desafio do Brasil é ser um país de dimensões continentais, com cerca de 200 milhões de habitantes. Bem diferente da Suécia ou Holanda. Temos uma economia baseada na agropecuária e mineração.

Nada de errado nisso, mas é insuficiente no mundo de hoje, onde tecnologias digitais estão redefinindo como vivemos. Precisamos de energia sustentável, de infraestrutura de comunicação, de técnicos, engenheiros e cientistas que possam competir em pé de igualdade com os dos países que vemos como modelos.

Um exemplo simples: quais carros guiamos no Brasil? Alemães, americanos, japoneses e coreanos. O que isso nos diz? Que esses países têm um sistema de educação capaz de suprir a enorme demanda que uma tecnologia competitiva requer. Se o Brasil tem a intenção de competir nesse nível, tem que reformular o ensino público.

Imagine que a Coreia do Sul era um dos países mais pobres do mundo em 1950, não muito diferente do Haiti. O que aconteceu? Fizeram da educação a área prioritária. Treinaram engenheiros, cientistas e médicos para levantar o país da miséria.

Não é falta de dinheiro. Em 2010, 4,3% do PIB foi investido em educação básica. O que falta?

Treinamento de professores que então recebam salários dignos. Que jovem vai querer ser professor para ganhar R$ 1.200 por mês? Não basta apenas pôr as crianças nas escolas; o que fazem lá é essencial. Para isso, precisamos de professores bem treinados e de escolas com laboratórios, bibliotecas e computadores.

Sem uma profunda transformação na educação, o Brasil será passado para trás pelos países que já perceberam que sem um investimento sério na educação estão optando pela mediocridade.  (artigo enviado por Mário Assis)
Marcelo Gleiser (Folha)