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Guilherme Pavarin – Farol do sono

Farol do sono
Guilherme Pavarin

lua oculta, novo enigma:
entre os calos das falhas
as valas das dúvidas
desacatam o agora

na forja das grutas
cubro com dorflex e saliva
a coceira de lapidar
uma nova pedra bruta

hoje não há saída:
vedam-se os vagões
o aquário das intuições
partidas, bebidas

amanhã — torço —
os trilhos estarão a postos
um farol iluminará o fosso
a bússola virá como sopro

que a noite germine o ócio
da carne, cresçam os ossos
e o impensável
se torne óbvio

Foto de Gilbert Garcin

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Lendo uma carta de Em Busca do Tempo Perdido de Albert Camus

Alguns escritores nos falam
pela janela de seu tempo

Precisamos voltar para onde eles pertenciam para realmente focar na forma de suas idéias – e alguns nos falam permanentemente, pulando, com fluidez de buraco de minhoca, de seus tempo para o nosso.

Os últimos são um grupo imprevisível, e sua presença não parece depender de uma certa qualidade de pensamento tanto quanto de uma espécie de lucidez de espírito. Temos que trabalhar duro, por exemplo, para entender os escritos filosóficos de Jean-Paul Sartre, com sua mistura estranha da teoria alemã e da política francesa contemporânea. Lê-los é um trabalho (gratificante).

Mas Albert Camus, o grande colega e rival de Sartre, ainda nos fala diretamente, embora seu tempo seja tão distante do nosso quanto o de Sartre. Camus não era um pensador amplo – ou mesmo, em certo sentido, um original -, mas ganhou a qualidade que as crianças costumavam descrever, admiradamente, como “profunda”. (Como em “Leonard Cohen é profundo.”) O que ele dizia sobre todo assunto era sempre simples e profundo, e geralmente correto. Nós o lemos como nosso contemporâneo, e ele raramente nos decepciona. Ele ainda é imensamente popular, como disse sua filha Catherine há pouco tempo, porque escreve não na tentativa de encontrar o enredo na história e entrar no lado direito, mas em nome das vítimas da história.

Esse pensamento é desencadeado pela descoberta, no ano passado, na França, de uma carta anteriormente desconhecida de Camus, encontrada nos arquivos de Charles de Gaulle pelo biógrafo e estudioso Vincent Duclert, que Camus havia enviado de Paris a Londres em algum momento em 1943. Não assinado, mas instantaneamente identificável pelo tom e pelo contexto, é intitulado “De um intelectual resistente” e foi extraído pelo jornal Le Figaro no mês passado; com o acordo de Catherine Camus, também aparece em um novo livro, de Duclert, sobre seu pai.

É uma carta estranha e muito francesa: um relato filosófico sonoro da crise da resistência francesa e seu futuro, percorrendo delicadamente vários campos minados de solidariedade entre resistências, e ainda uma carta que, embora intensamente enraizada em seu próprio tempo, ainda assim administra , com estranha presciência, para falar sobre algumas das nossas disputas.

Camus, um franco-argelino de nascimento, passou a guerra primeiro em Lyon, onde escreveu rascunhos de seu romance “The Stranger“, e depois em Paris, onde escreveu editoriais para o jornal de resistência underground Combat. (De fato, o tom e o estilo da carta são tão próximos dos editoriais que instantaneamente se destacam como os dele.) A forma da circunstância é bem conhecida.

A Resistência, num padrão complicado, foi ostensivamente liderada em Londres por um líder militar de direita, De Gaulle, mas lutou na França por uma coalizão de forças conservadoras, católicas, patrióticas e ferozmente anti-nazistas – junto com forças inquietas e hostis. assembléia suspeita de forças “liberais” republicanas, incluindo socialistas dos velhos tempos, apoiada por um forte componente de comunistas que, tendo ficado de fora do início da guerra, na época do pacto de Stalin-Hitler, entraram feroz e bravamente em resistência armada uma vez que a União Soviética foi invadida.

Na carta, Camus escreve primeiro a fundação da “elite” – a classe intelectual e administrativa e até militar que eram o orgulho da meritocracia francesa. Ele começa com uma nota de visão equilibrada que, difícil de manter na melhor das hipóteses, era heroicamente difícil de manter em um momento de estresse tão existencial. “Aqui, muito brevemente, resumi os sentimentos de um intelectual francês”, escreve ele, “diante da situação atual, como pode ser observado de dentro para fora. Em outras palavras, os primeiros sentimentos seriam de angústia. Minha profunda convicção é que a forma de guerra adotada pela região metropolitana da França e na qual estamos todos envolvidos pode levar ao renascimento desse povo ou à sua queda definitiva.”

As falhas dessa elite foram, ao que parecia, responsáveis pela “estranha derrota” da França, como colocou o historiador Marc Bloch. (Como Picasso comentou com Matisse, os generais franceses eram “os professores de Belas-Artes” – ou seja, parte do mesmo quadro administrativo cego.)

Como alguém pode pensar nessa elite agora, a carta pergunta, e como ela deve reconstituir depois que a guerra foi vencida – se foi vencida? Camus escreve que uma nação morre, porque sua elite derrete literalmente. Mas essa elite pode ser refeita não da classe tradicional de examinadores administrativos, mas de uma nova elite dos resistentes, cuja experiência está enraizada na “experiência real” e que mantêm sua realidade sobre eles.

Ele reclama que a resistência direta e armada dentro da França ainda não recebeu ação militar externa – superestimando, talvez, os recursos do Exército francês no exílio, mas impaciente pela “segunda frente” que há muito foi prometida, mas que foi entregue apenas em junho de 1944.

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Conceição Evaristo – A noite não adormece nos olhos das mulheres – Poesia

A noite não adormece nos olhos das mulheres
Conceição EvaristoPicasso,Arte,Mulher Chorando,blog do Mesquita
 
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
 
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso

de nossas molhadas lembranças

Foto: Kylere

O prazer do poder segundo Humberto Eco

Umberto Eco: O novo prazer do poder

Umberto Eco ¹

Os eleitores estavam acostumados com que a vida dos políticos fosse governada por dois princípios, o primeiro deles é melhor resumido por um apimentado ditado italiano: “Megghiu cumannari c’a fottiri”.

Traduzindo de uma forma casta, isso quer dizer: “exercer o poder é melhor do que sexo”. O outro é que os homens poderosos normalmente desejavam mulheres como Mata Hari, Sarah Bernhardt ou Marilyn Monroe.

O que é espantoso é que muitos políticos ou empresários de hoje não sucumbem, digamos, à tentação de desviar dinheiro de obras públicas, mas, sim, às seduções de prostitutas de luxo que comandam somas mais altas do que as exigidas por Madame de Pompadour em sua época. E se essas garotas de programa profissionais não são de seu agrado, eles procuram outras que fornecem serviços mais especializados.

Além disso, muitos parecem buscar o poder especificamente com esperança de demonstrá-lo entre quatro paredes. Veja bem, grandes homens em toda a história não foram indiferentes aos prazeres da carne.

Aqui na Itália, embora alguns líderes políticos de outrora tenham talvez observado uma certa austeridade, Júlio César ia alegremente para a cama com centuriões, nobres romanas e rainhas egípcias igualmente.

Isso também vale para outros lugares: o Rei Sol tinha amantes em abundância, o rei Victor Emmanuel 2º da Itália perseguia a sua Rosina e, quanto ao presidente norte-americano John F. Kennedy… Quanto menos dissermos, melhor.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Entretanto, esses homens pensavam nas mulheres (ou nos garotos) como uma espécie de descanso e recreação para um bom soldado. Em outras palavras, a ordem do dia era conquistar o país da Báctria, humilhar o chefe gaulês Vercingetorix, dominar todos os inimigos desde os Alpes até as Pirâmides, ou unir a Itália.

O sexo era um bônus, como um martíni servido no final de um dia exaustivo. Por outro lado, hoje em dia, os homens no poder parecem desejar em primeiro lugar, e acima de tudo, passar uma noite festejando com dançarinas de boate, e as grandes iniciativas nunca fazem parte do cenário.

Se os heróis do passado liam Plutarco para se divertir, seus colegas modernos sintonizam certos canais de TV depois da meia noite ou entram em sites sugestivos na internet. Uma recente pesquisa para buscar informações sobre o padre e místico italiano Padre Pio de Pietrelcina na internet gerou 1,4 milhão de resultados. Nada mal.

Mas uma busca por pornografia encontrou 130 milhões (sim, 130 milhões) de sites. Uma vez que “Jesus” é um termo de busca mais específico do que “pornografia”, decidi buscar a palavra “religião” para poder comparar: a busca produziu pouco mais de 9 milhões de sites como resultado – uma gota num balde se comparada à “pornografia”.

O que é possível encontrar nesses 130 milhões de sites pornográficos? As opções mais básicas respondem vividamente ao “quem, o quê, onde, quando e porque” do sexo. O restante são sites dedicados a todo tipo de coisas, desde várias formas de incesto (que deixaria Édipo e Jocasta constrangidos) até fetiches incomuns.

A pornografia pode ter uma função positiva: fornecendo uma válvula de escape para aqueles que, por algum motivo, não praticam o ato em si, ou então reacendendo a vida sexual de casais com relacionamentos mornos. Mas ela também pode iludi-lo, fazendo-o acreditar que uma garota de programa cara pode fazer coisas que Friné, a cortesã mais famosa do mundo clássico, nunca teria imaginado.

Não estou me referindo apenas aos 42% de italianos que usam a internet, de acordo com a União Internacional de Telecomunicação; todos os dias, os demais 58% podem assistir na tela de suas TVs coisas que são dez vezes mais estimulantes do que qualquer coisa que estivesse disponível a um rico empresário de Milão dos anos 40.

Hoje, as pessoas estão muito mais expostas ao sexo do que seus avós estavam. Considere um pobre padre de paróquia: houve um tempo em que a única mulher que ele via era a empregada doméstica, e tudo o que ele lia era o jornal católico “L’Osservatore Romano”. Hoje há garotas com trajes mínimos na TV todas as noites.

Então, será que existe algum motivo para não pensar que esse incessante estímulo ao desejo também está afetando os funcionários do governo, causando uma mutação da espécie e modificando o próprio propósito de seu papel na sociedade?

¹ Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista.
O livro mais recente e Umberto Eco é “História da Feiura“. Ele também é autor dos bestsellers internacionais “Baudolino”, “O Nome da Rosa” e “O Pêndulo de Foulcault”, entre outros. Traduzido do italiano por Alastair McEwen.