O Morro do Bumba, o Conde D’Eu e O Cortiço de Aluísio de Azevedo

O cortiço
David Coimbra

Ao caminhar por entre as artérias do Monumento ao Holocausto, no coração de Berlim, a cada passo aumentava minha admiração pelos alemães. Ali estava um povo que não se esquivava de suas culpas. Ao contrário, as purgava em público e em voz alta.

Os mesmos passos me faziam pensar nos brasileiros. Nós aqui, ao que parece, não nos aflige culpa alguma. Do que o brasileiro se envergonha, afora a derrota na Copa de 50? Pois é. Mas nós temos do que nos envergonhar. Temos também o nosso nazismo. O nosso holocausto.

Chama-se escravidão.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão, mas nem ao aboli-la lavou-se de sua desonra. Agora mesmo, no Rio de Janeiro flagelado, lateja essa dor. Pois quem são esses que morrem sufocados pela terra que se desprende dos morros cariocas? Descendentes de escravos e ex-escravos expulsos do Centro quando o Rio se transformou no que hoje é.

Você leu O Cortiço, de Aluísio Azevedo? Bom livro. Não devia ser obrigatório nas escolas, devia ser tratado como romance para iniciados. O Cortiço conta a história de um imigrante português que, como se dizia então, “amasiou-se” com uma escrava para somar suas economias às dela. Juntos, os dois e seus dinheiros, melhoraram a bodega dele e investiram em quartos de aluguel. Montaram um cortiço aos moldes de tantos que havia no Rio do século 19, o mais célebre deles chamado Cabeça de Porco, de propriedade do Conde D’Eu, ilustre marido da Princesa Isabel. O que não deixa de ser irônico – entre os 4 mil moradores do cortiço do marido, havia inúmeros ex-escravos libertados pela esposa.

Essa gente não teve mais onde morar a partir do começo do século 20, quando a prefeitura do Rio botou abaixo os cortiços. O prefeito Pereira Passos, inspirado nas reformas feitas em Paris décadas antes, rasgou avenidas, abriu largos arejados, mudou a face da cidade. Os moradores dos cortiços, muitos deles, foram para a zona norte. Outros, que precisavam morar perto do Centro, onde trabalhavam para os senhores brancos e bem alimentados, esses ficaram por perto: subiram os morros do entorno, construíram casebres com as sobras das demolições protagonizadas por Pereira Passos, formaram as favelas como as conhecemos.

Essa gente pingente das favelas não foi libertada da escravidão; foi atirada à liberdade. Para eles, nunca houve planejamento, muito menos investimento. Hoje, Lula dá certa atenção a esses desgraçados. Não é o ideal, claro que não. Porque não é uma ajuda estratégica; é uma ajuda tática. Mas, ao menos, é algo. Para quem não tinha nada, talvez seja muito. Por isso, Lula foi amassado pela vaia do Maracanã, na abertura do Pan em 2007. Vaiaram-lhe os brancos e bem alimentados, os moradores da planície, que olham para o alto, para o morro, com medo.

Hoje, os brancos e bem alimentados da planície olham de novo para o morro. Aquela gente parda, aquela gente que passa os dias de bermuda e sem camisa, que mora em barracos construídos com pedaços de qualquer coisa, aquela gente teima em chamar a atenção. Às vezes roubando, às vezes matando e às vezes, como agora, morrendo. Inconvenientes, é o que são. Vivem a nos lembrar que em nós, também, pode haver culpa.

Fonte: http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2866966.xml&template=3916.dwt&edition=14457&section=70

Exclusão social e as tragédias dos desabamentos no Rio

Enquanto houver exclusão e indiferença, não haverá solução para as tragédias dos desabamentos.
Jorge Rubem Folena ¹

(…)após mais uma noite de fortes chuvas em nosso Estado do Rio de Janeiro, e particularmente pela tragédia que recaiu sobre os moradores de área pobre de Niterói.

Pelo que estou lendo, assistindo e ouvindo, quem tem culpa de tudo, definitivamente, é a população pobre, que construiu suas casas onde não deveria. É o que fica evidente nos pronunciamentos das autoridades constituídas.

Os administradores públicos, conscientes ou não, governam para uma sociedade fundamentada na exclusão, na diferença e na indiferença. Nunca valorizarão o trabalho, base de tudo, porque eles enxergam nos homens e mulheres dos bairros dos subúrbios e das favelas apenas uma fonte de mão-de-obra barata a ser explorada diariamente e um manancial de votos para a confirmação da ordem política.

A letra da lei é bonita e só vale no papel, como todos sabem. É fácil, na tragédia, transferir a responsabilidade para a população, incriminando-a como sempre fizeram ao longo da História. Porém, é negado aos pobres e aos miseráveis o direito de habitar com o mínimo de dignidade e em condições salubres, apesar de estar consignado na Constituição (artigo 6º).

Não podemos perdoar estes políticos, pois o problema não é a falta de dinheiro, tecnologia e áreas em condições de construir residências dignas para todos. Não fazem porque não querem, e por ser próprio do regime em que vivemos a manutenção da desigualdade, apesar de ser apregoado, por todos os cantos, que constituímos uma sociedade livre e democrática.

Enquanto houver a exploração de homens e mulheres, os idosos não forem amparados e as crianças viverem sem esperança de futuro, tudo estará na mais perfeita ordem natural das coisas, com chuva ou qualquer outra forma de tragédia que recaia sobre nós.

Manifesto minha tristeza por tudo isso, que não é novo e infelizmente se repetirá amanhã ou depois de amanhã, na medida em que não existe interesse de acabar com esta lamentável situação. O duro é ver governantes na televisão com charme de tristeza e cara de choro diante de famílias que jamais protegeram ou protegerão.

Jorge Rubem Folena ¹
Presidente da Comissão de Estudos Constitucionais
do Instituto dos Advogados Brasileiros
Tribuna da Imprensa