Fatos & Fotos – 29/12/2020

 


As ilustrações de Tang Yau Hoong


Desemprego cresce 2,7% em um ano, enquanto aumenta a informalidade. A taxa de informalidade chegou a 38,8% da população ocupada com 32,7 milhões de trabalhadores informais no país.


Escultura de Mikhail Gubin XVIII


Uma pessoa dá uma festa de arromba de 5 dias, em plena pandemia, reunindo uma pequena multidão em sua mansão. A questão é: só dono da festa parece estar em outro planeta? E todos os envolvidos (músicos, convidados, empresas terceirizadas que dão suporte ao rega-bofe) ficam como?


Automóveis Clássicos – Desoto Hood,1946


Até Sócrates, Platão e Aristóteles vão ser vacinados e a gente não.
Grécia recebe primeiro lote da vacina da Pfizer; a vacinação começará amanhã. Além de 1,2 milhão de unidades esperadas da vacina americana, o país tem acorodo com as empresas Moderna e AstraZeneca.
Γαμώτο Μπολσονάρο.


Relatório da Polícia Federal mostrou que delação de Palocci foi inventada. Foi retirada de pesquisas na internet e notícias falsas de jornais.
E a golpista mor, Globo, divulgou 24 hs com vinheta de plantão. Serviu para gerar fato político na semana que antecedia as eleições de 2018.


Fim do auxílio emergencial.
O povo irá viver como?


Morreu Pierre Cardin. Visionário e pioneiro na moda, estilista francês tinha 98 anos


Como é, Bolsonaro? Não pode interferir na Anvisa para salvar vidas, mas na Polícia Federal e na Abin para proteger os filhos bandidos, pode?



Foto do dia Gjon Mili


Pintura de Gustav Klimt
Lady with a Fan, 1918


Estou impressionado como a vulgaridade infectou o país. Não que antes do Bolsonaro ela não existisse, mas esse governo abriu a porteira. Não  bastassem os Olavos e Saras, um site di-rei-tis-ta faz manchete que Fux “botou (aquilo) na mesa”. Não respeitam o STF ou é ele que não se dá ao respeito?


Ex-Libris Roman Nikolaevich Sustov


Motivos para o fracasso brasileiro:
1.Negacionismo
2.Troca de ministros da saúde na pandemia culminando com um que não conhece o SUS
3.Gasto de dinheiro com remédio que não funciona
4.Falta de planejamento para vacinação
5.Falta de liderança na crise
6.Descaso com a vida alheia
7.Uma vírus na rua e um verme no poder
8.Todas as acima


Caos econômico: indústria enfrenta inflação e falta de matérias-primas

Fracasso da política econômica do ministro Paulo Guedes, associado com o avanço da pandemia, fez com que indústria enfrentasse escassez de matérias-primas em novembro, além de um aumento recorde na inflação de insumos.

A indústria brasileira enfrentou em novembro escassez de matéria-prima, o que, combinado com a depreciação do real, provocou aumento recorde na inflação de insumos, apontou nesta terça-feira a pesquisa Índice de Gerentes de Compras (PMI, na sigla em inglês).

A IHS Markit, que realiza a sondagem, informou que o aumento dos custos de insumos e preços cobrados em ritmo recorde na pesquisa se deveu a um mix de escassez de matérias-primas, em parte devido às restrições globais por causa da pandemia, depreciação do real e forte demanda por insumos.

Os produtores aumentaram sensivelmente a produção em resposta ao crescimento contínuo nas vendas, mas ainda assim o PMI do setor caiu a 64,0 em novembro, de 66,7 em outubro, menor patamar em quatro meses. Leitura acima de 50 indica expansão da atividade.

Entretanto, a IHS Markit ressalta que o índice “assinalou a mais acentuada melhora na saúde do setor, superior a todas as outras registradas antes do surto da doença do coronavírus de 2019 (Covid-19)”.

“O setor industrial brasileiro continuou se beneficiando de um crescimento robusto em novembro. As taxas de expansão mensais de novos pedidos, produção e compra de insumos se atenuaram, mas permaneceram mais sólidas do que o observado antes do surto de Covid-19”, explicou a diretora econômica da IHS Markit, Pollyanna De Lima.

“Os comentários dos participantes da pesquisa sugerem que a desaceleração foi um reflexo principalmente da escassez de matérias-primas”, completou.

Houve expansão significativa no volume de novas encomendas, em meio a forte demanda, lançamentos, pedidos em larga escala e melhora de participação de mercado, segundo a IHS Markit.

As vendas totais foram impulsionadas por aumento recorde nos novos pedidos do exterior. Se por um lado a depreciação do real em relação ao dólar nos últimos meses pressionou a inflação de insumos, por outro melhorou a competitividade dos preços no mercado externo.

Os dados da pesquisa sugerem que o crescimento da produção foi parcialmente restringido pela falta de materiais disponíveis para a conclusão dos pedidos em atraso. Com isso, os negócios pendentes aumentaram no ritmo mais acentuado já registrado em quase 15 anos de pesquisa.

O emprego no setor industrial brasileiro cresceu pelo quinto mês seguido em novembro. Entre os 21% dos participantes que informaram crescimento, houve citações a esforços de reposição de funcionários dispensados por causa da Covid-19, ao otimismo em relação às perspectivas e à forte demanda.

A indústria prevê crescimento da produção no próximo ano, com mais publicidade, planos de expansão da capacidade, novos investimentos e previsões de aumento nas vendas, reforçando o otimismo.

“Quartinho de empregada é a senzala moderna”

Filha de empregada, a cineasta Karoline Maia lançará em 2021 “Aqui não entra luz”.

Filme aborda as marcas da escravidão e do racismo estrutural no trabalho das domésticas. “A abolição não foi concluída”, diz.

A cineasta Karoline Maia lembra-se muito bem de quando era criança e, por vezes, ia junto com a mãe, empregada doméstica, ao trabalho dela. Recorda-se não só do trabalho árduo, mas também da maneira como ela era tratada, em um misto de afeto e autoritarismo, por todos os membros da família – inclusive pelas crianças.

Já adulta, Maia percebeu que, no Brasil, a profissão de domésticas está muito ligada à cor da pele – e é uma herança difícil de ser quebrada. Em geral, trata-se de uma vocação que passa de mãe para filha, ou seja, uma função preponderantemente ocupada por mulheres.
Cena do filme “Aqui não entra luz”: “Muitas mulheres negras estiveram ou estão na profissão de doméstica”

Karoline Maia: “Quarto de empregada é resultado da falta de estrutura que vitimou a população negra no pós-abolição”

Assim, a cineasta se considera privilegiada: ao contrário de muitas filhas de domésticas, não precisou trabalhar desde cedo para ajudar em casa. “A gente vivia com pouco, mas vivia”, conta Maia, que atribui aos pais o fato de ela ter podido priorizar os estudos.

Ela graduou-se em rádio e TV e, desde os 19 anos, trabalha com cinema. Atualmente, aos 26 anos, é cofundadora de uma produtora formada por mulheres negras, a Pujança.

Em 2016, quando vivenciou uma situação racista no trabalho, em que a sua então chefe lhe disse que ela iria “dormir no quartinho de empregada, ali na senzala”, teve a ideia de rodar um filme para documentar como o trabalho doméstico no Brasil acabou se tornando, de certa maneira, uma continuidade da escravidão.

O documentário Aqui não entra luz foi gravado em 2019 e agora está em fase de finalização e montagem. Deve ser lançado em 2021. Em entrevista à DW, a cineasta fala sobre o filme e o contexto brasileiro.

DW Brasil: Seu filme aborda a vida nos quartos de empregada. De que modo podemos dizer que eles são a senzala moderna?

Karoline Maia: Aqui não entra luz é uma investigação, uma pesquisa que tem uma tese bastante óbvia mas às vezes pouquíssimo discutida: a relação da senzala com o quarto de empregada. Quando a gente fala que o quarto de empregada é a senzala moderna é justamente pensando nessa sucessão de fatos históricos a que a população negra foi sendo submetida, entendendo que o pós-abolição foi um processo bastante mal-resolvido para a população negra.

A abolição não foi concluída. Essa população teve de continuar em condições de trabalho muito parecidas, a maioria dessas pessoas continuou pobre, em situações análogas à escravidão ou até mesmo na escravidão.

“Quarto de empregada é reflexo da senzala – em termos de estrutura, simbologias de poder, de afeto e de controle”

O quarto de empregada claramente é um resultado concreto dessa falta de estrutura que vitimou a população negra no pós-abolição. Quando a gente diz que o quarto de empregada é o reflexo da senzala, ele é literalmente esse reflexo – pensando em estrutura, em arquitetura, em simbologias de poder, de afeto e de controle.

O filme traz bastante essa visão, de uma forma afetiva e de forma pessoal, a partir das histórias das trabalhadoras. Mas a gente também traz o olhar arquitetônico e histórico para tentar entender o que de fato levou ao quarto de empregada, pensando na urbanização das cidades, do país, e quais foram os movimentos necessários para que a elite construísse esses quartinhos.

Ao comparar esses quartos a senzalas, podemos entender que há uma certa desumanização ou um menosprezo às domésticas?

Acredito que sim. O trabalho doméstico tem uma marca bastante racial e bastante feminina. E é desvalorizado. Porque o trabalho doméstico não pago por si só já é visto de forma menor. Muitas mulheres estão fazendo trabalhos domésticos em suas casas, sendo mães, cozinheiras, faxineiras, e sendo pouquíssimo respeitadas por isso por suas famílias, seus filhos, suas companheiras e companheiros, pais…

Quando o trabalho doméstico vai para o lugar profissional, econômico, ele é desvalorizado porque é feito de graça por algumas pessoas. Então ele acaba misturado com o afeto. Você pode comprar o amor de uma pessoa para dar atenção ao seu filho, porque você não tem tempo para dar ao seu filho. Então você compra o afeto “aqui dessa mulher” para substituir o seu – estou falando de uma forma bem grosseira.

Aí as pessoas veem esse trabalho sendo feito de um jeito natural. Acabam achando que vale pouco financeiramente. Mas dá muito trabalho. Qualquer pessoa que lava a própria privada tem noção de quanto tempo, disposição e força é preciso para realizar um trabalho doméstico. Se as pessoas lavassem mais a própria privada, iriam conseguir ver esse trabalho com outros olhos, iriam valorizar mais, remunerar melhor.

Em geral, no Brasil, a profissão de empregada doméstica passa de mãe para filha. Como você conseguiu quebrar esse ciclo? Acredita que também exista uma questão racial? Quebrar esse ciclo é mais difícil para pessoas negras?

O trabalho doméstico é bastante marcado pelo racismo e pelo machismo estrutural. Muitas mulheres negras de muitas famílias negras estiveram ou estão nessa profissão. Recentemente, a gente vem acompanhando transformações significativas de filhas de trabalhadoras domésticas que conseguiram entrar na universidade, fazer um curso técnico ou simplesmente ir para uma outra profissão porque a elas foram dadas possibilidades de desejar e realizar essa transformação, a quebra desse ciclo.

“Quarto de empregada é reflexo da senzala – em termos de estrutura, simbologias de poder, de afeto e de controle”

O quarto de empregada claramente é um resultado concreto dessa falta de estrutura que vitimou a população negra no pós-abolição. Quando a gente diz que o quarto de empregada é o reflexo da senzala, ele é literalmente esse reflexo – pensando em estrutura, em arquitetura, em simbologias de poder, de afeto e de controle.

O filme traz bastante essa visão, de uma forma afetiva e de forma pessoal, a partir das histórias das trabalhadoras. Mas a gente também traz o olhar arquitetônico e histórico para tentar entender o que de fato levou ao quarto de empregada, pensando na urbanização das cidades, do país, e quais foram os movimentos necessários para que a elite construísse esses quartinhos.

Ao comparar esses quartos a senzalas, podemos entender que há uma certa desumanização ou um menosprezo às domésticas?

Acredito que sim. O trabalho doméstico tem uma marca bastante racial e bastante feminina. E é desvalorizado. Porque o trabalho doméstico não pago por si só já é visto de forma menor. Muitas mulheres estão fazendo trabalhos domésticos em suas casas, sendo mães, cozinheiras, faxineiras, e sendo pouquíssimo respeitadas por isso por suas famílias, seus filhos, suas companheiras e companheiros, pais…

Quando o trabalho doméstico vai para o lugar profissional, econômico, ele é desvalorizado porque é feito de graça por algumas pessoas. Então ele acaba misturado com o afeto. Você pode comprar o amor de uma pessoa para dar atenção ao seu filho, porque você não tem tempo para dar ao seu filho. Então você compra o afeto “aqui dessa mulher” para substituir o seu – estou falando de uma forma bem grosseira.

Aí as pessoas veem esse trabalho sendo feito de um jeito natural. Acabam achando que vale pouco financeiramente. Mas dá muito trabalho. Qualquer pessoa que lava a própria privada tem noção de quanto tempo, disposição e força é preciso para realizar um trabalho doméstico. Se as pessoas lavassem mais a própria privada, iriam conseguir ver esse trabalho com outros olhos, iriam valorizar mais, remunerar melhor.

Em geral, no Brasil, a profissão de empregada doméstica passa de mãe para filha. Como você conseguiu quebrar esse ciclo? Acredita que também exista uma questão racial? Quebrar esse ciclo é mais difícil para pessoas negras?

O trabalho doméstico é bastante marcado pelo racismo e pelo machismo estrutural. Muitas mulheres negras de muitas famílias negras estiveram ou estão nessa profissão. Recentemente, a gente vem acompanhando transformações significativas de filhas de trabalhadoras domésticas que conseguiram entrar na universidade, fazer um curso técnico ou simplesmente ir para uma outra profissão porque a elas foram dadas possibilidades de desejar e realizar essa transformação, a quebra desse ciclo.

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A economia global no pós-pandemia

Economia global no pós-pandemiaDinheiro,Economia,Ouro,BitCoin,Dolar,Euro,Real,Blog do Mesquita

A perda de empregos tem efeitos sobre a capacidade de consumo das famílias. Por ora, os efeitos negativos mais intensos do desemprego estão sendo sentidos principalmente por pessoas de baixa renda, que gastam tudo ou quase tudo do que ganham. Os indícios são de que as perdas salariais vão atingir também frações superiores da distribuição de renda. Com a queda da massa salarial, parece inevitável que o consumo das famílias, pelo menos o de natureza mais discricionária, parta de patamares muito inferiores em relação aos níveis pré-crise.

A crise econômica ganhou autonomia em relação ao choque que a gerou. Isto é, apesar de a crise econômica ter origem na pandemia, é improvável que a solução do problema médico-sanitário resolva o problema econômico.

Veja no novo artigo do Observatório da Economia Contemporânea:

Não há quem considere que a crise econômica global atual seja independente da pandemia de Covid-19. Justamente por isso essa crise se distingue das passadas. Não se sabe ainda a extensão dos danos econômicos e sequer se já atingimos o fundo do poço. Apesar disso, tem-se discutido os cenários sobre como será a atividade econômica mundial pós-pandemia. Esse texto argumenta que a crise econômica ganhou autonomia em relação ao choque que a gerou. Isto é, apesar de a crise econômica ter origem na pandemia, é improvável que a solução do problema médico-sanitário resolva o problema econômico.

Acumulam-se evidências de que o choque econômico gerado pelo novo coronavírus é pelo menos de proporção tão grande quanto aqueles vivenciados na Grande Depressão e na Crise Financeira Global de 2007-2009. O choque atual incide sobre uma economia que já vinha em desaceleração. As últimas estimativas do FMI sugerem que a economia global deve encolher cerca de 3% em 2020, muito mais do que a retração de 0,07% observada em 2009.

Ainda segundo o FMI, as economias dos Estados Unidos e da Eurozona devem encolher 5,9% e 7,5%, respectivamente. No caso da Zona do Euro, Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, já alertou que espera em 2020 contração ainda maior que a estimada pelo FMI, algo entre 8% e 12%. Projeta-se uma taxa de crescimento da economia chinesa de 1,2% em 2020, que seria a menor desde o final da Revolução Cultural, em meados da década de 1970. Há ainda muitos países que terão a maior recessão desde o pós-Segunda Guerra Mundial.

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Glass globe with stacks on US paper currency underneath

As informações já disponíveis sobre mercado de trabalho, produção e vendas também expressam um choque de grandes proporções. Nos Estados Unidos, cerca de 43 milhões de pessoas já solicitaram seguro desemprego, perfazendo mais de 27% da força de trabalho do país. A taxa de desemprego de 13,3%, observada em maio último, supera a do pico do desemprego da crise de 2007-2009, que foi de 10%. Matéria da Bloomberg aponta que tem havido cortes de salários daqueles que ainda estão empregados, o que é atípico mesmo em recessões. O grau de utilização da capacidade instalada manufatureira já atingiu, em abril, mínimas históricas, indicando 35% de capacidade ociosa. Na Eurozona, os impactos no mercado de trabalho têm sido mais tênues por enquanto, em função das regulações trabalhistas e das políticas econômicas focadas em evitar demissões em massa. Contudo, as perspectivas são também de forte crescimento do desemprego. O grau de ociosidade na Eurozona já é comparável ao do vale da crise de 2007-2009, atingindo cerca de 30% conforme dados da Eurostat.

Ou seja, os dados já disponíveis e as estimativas de consenso pintam um cenário nefasto e sem precedentes em termos da profundidade e velocidade de deterioração da atividade econômica global.

Suponha-se um cenário otimista: a pandemia acabará logo e uma eventual segunda onda será, de alguma forma, controlada. Evidentemente, parte da deterioração da atividade econômica será dissipada na medida em que o problema médico-sanitário seja superado. Mas poderíamos declarar que a economia estará saudável com a remissão da pandemia?

Olhemos para alguns dos seus efeitos. Eles se manifestaram tanto do lado da oferta quanto do lado da demanda. O necessário isolamento social acarretou algum grau de paralisação da atividade econômica e grande parte dos agentes econômicos perdeu receitas, o que tem consequências dinâmicas diversas, as quais, em geral, desencadeiam cortes de gastos.

O nível de emprego é um dos termômetros mais importantes da atividade econômica. A experiência histórica indica que a perda de empregos ocorre, em geral, mais rápido do que a sua retomada. O gráfico abaixo exemplifica o problema. Ele mostra o percentual de empregos perdidos em relação ao pico em todas as recessões dos Estados Unidos pós-guerra e em quantos meses o nível de emprego pré-crise é recuperado. Uma das coisas que se pode observar é que a retomada do volume de empregos perdidos na recessão de 2007-2009 levou mais de seis anos, no que foi a recuperação mais lenta no pós-guerra. Na recessão atual, iniciada em fevereiro, a perda de empregos tem se mostrado ainda mais rápida e pronunciada que em 2007-2009.

Quanto tempo levará para que o nível de emprego seja retomado na recessão atual? No caso dos Estados Unidos, mesmo considerando que parte importante da perda de empregos refletida no gráfico se deveu a licenças temporárias, seria necessário que a recuperação do emprego repetisse, na subida, a velocidade da queda, e que se revertesse rapidamente a tendência de baixa nos demais países. É possível que isso aconteça, mas para isso seriam necessários novos ineditismos.

Economia global no pós-pandemia

A perda de empregos tem efeitos sobre a capacidade de consumo das famílias. Por ora, os efeitos negativos mais intensos do desemprego estão sendo sentidos principalmente por pessoas de baixa renda, que gastam tudo ou quase tudo do que ganham. Os indícios são de que as perdas salariais vão atingir também frações superiores da distribuição de renda. Com a queda da massa salarial, parece inevitável que o consumo das famílias, pelo menos o de natureza mais discricionária, parta de patamares muito inferiores em relação aos níveis pré-crise.

As empresas do setor de serviços e manufatureiras, por sua vez, estão com muita capacidade ociosa. Mesmo em um cenário em que o restante da atividade econômica retome em “V”, elas poderão atender à demanda sem necessidade de expandir a capacidade, desestimulando novos investimentos privados.

Alternativamente, o investimento privado poderia ser puxado pela reposição ou substituição de máquinas e equipamentos existentes para ganhar eficiência produtiva, mas parece pouco plausível que a maior parte das empresas esteja, em nível global, disposta a lidar com as potenciais baixas contábeis envolvidas e/ou com as subtrações requeridas de caixa, num contexto em que liquidez vale muito. Taxas de juros baixas não farão milagre.

Por fim, mas não menos importante, um grande efeito da pandemia é que muitos agentes econômicos se endividaram ou reduziram reservas previamente acumuladas, não porque se desejava acumular capital não financeiro (investir), mas porque as quedas drásticas de receita não eliminaram, proporcionalmente, as contas a pagar. Isso dá um indício de que a tônica, pelo menos dos agentes privados que não forem à falência, será cortar gastos para saldar dívidas ou reconstituir reservas. Se alguém quer comprar menos, alguém, mesmo que possa e queira vender, não vende mais.

Portanto, há muitos indícios de que a economia global estará emaranhada em uma espiral pouco virtuosa, em que consumo e investimento combalidos geram pouco emprego e receitas anêmicas, retroalimentando a fraqueza da atividade econômica.

Estando o mundo acometido por uma infecção que rompeu os elos tradicionais entre oferta e demanda, as políticas econômicas já adotadas globalmente parecem ter atingido o que poderiam em termos econômicos: estancaram o sangramento. Também está claro que quanto mais tempo a economia estiver exposta aos efeitos da pandemia, pior. Mas, se uma solução qualquer resolvesse o problema sanitário hoje, seus efeitos na economia global se dissipariam completamente, como num passe de mágica? Não parece que esse seja o caso. Diante da magnitude do choque, sequelas foram infligidas no organismo econômico global, o que aumenta substancialmente a probabilidade de uma recuperação lenta da atividade econômica ao longo dos próximos anos, se nada mais for feito.

A política monetária está, mundo afora, perto do seu limite. A nível global, provavelmente serão necessárias novas rodadas de afrouxamento fiscal, como os recentemente anunciados pela Alemanha, cujos desenhos específicos devem ser moldados a partir das escolhas democráticas de cada país e/ou região. Mas há, contudo, o risco de que velhos dogmas prevaleçam e embarguem o tratamento que poderia salvar o doente, ou pelo menos atenuar seu sofrimento.

Ítalo Pedrosa é professor de Economia do Instituto de Economia da UFRJ.

O total de desempregados nos EUA está prestes a ficar pior do que durante a Grande Depressão. É hora de uma nova abordagem radical

© AFP / GETTY IMAGES AMÉRICA DO NORTE / SPENCER PLATT

Estamos entrando em uma Depressão ainda maior do que nos anos 1930, com centenas de milhões de desempregados em todo o mundo.

Noventa e um anos após o início da Grande Depressão (a pior crise do capitalismo até agora), estamos entrando em uma Depressão ainda maior. Os anos 30 foram tão terríveis que, desde então, os líderes das economias capitalistas disseram ter aprendido a evitar futuras depressões. Todos prometeram tomar as medidas necessárias para evitá-las. Todas essas promessas foram quebradas. O capitalismo permanece intrinsecamente instável.

Essa instabilidade é revelada em seus ciclos recorrentes, recessões, desacelerações, depressões, colisões, etc. Eles atormentaram o capitalismo onde quer que ele se estabelecesse como o sistema econômico predominante. Agora que o sistema econômico predominante no mundo inteiro é o capitalismo, sofremos instabilidade global. Até o momento, a instabilidade capitalista resistiu a todos os esforços (políticas monetárias e fiscais, economia keynesiana, privatização, desregulamentação etc.) para superá-la ou detê-la. E agora está aqui mais uma vez.

Em todo o mundo, centenas de milhões de trabalhadores estão desempregados. As ferramentas, equipamentos e matérias-primas de suas fábricas, escritórios e lojas ficam ociosos, acumulando poeira e ferrugem. Os bens e serviços que eles podem ter produzido não surgem agora para nos ajudar nesses tempos terríveis. Plantas e animais perecíveis que agora não podem ser processados ​​são destruídos, mesmo quando a escassez se multiplica.

O capitalismo é um sistema instável e quebrado que está além do reparo – mas existem alternativas.
Os trabalhadores perdem seus empregos se e quando os empregadores – principalmente capitalistas privados – os demitem. Os empregadores contratam trabalhadores quando os trabalhadores agregam mais valor ao que o empregador vende do que o valor do salário desses trabalhadores. A contratação aumenta os lucros. Os empregadores despedem trabalhadores quando acrescentam menos do que o valor dos salários pagos a eles. O disparo reduz as perdas. Os empregadores protegem e reproduzem suas empresas, maximizando os lucros e minimizando as perdas.

O lucro, não o pleno emprego dos trabalhadores nem os meios de produção, é “o resultado final” dos capitalistas e, portanto, do capitalismo. É assim que o sistema funciona. Os capitalistas são recompensados ​​quando seus lucros são altos e punidos quando não são.

Ninguém quer desemprego. Os trabalhadores querem seus empregos de volta; os empregadores querem que os trabalhadores voltem a produzir resultados lucrativos; os governos querem as receitas tributárias que dependem de trabalhadores e empregadores capitalistas que colaboram ativamente para produzir.

No entanto, o sistema capitalista produz regularmente crises econômicas em todos os lugares por três séculos – em média, a cada quatro a sete anos. Até o momento, tivemos três acidentes neste século: ‘dot.com’ em 2000, ‘hipoteca subprime’ em 2008 e agora ‘corona’ em 2020. Isso ocorre em média em um acidente logo a cada sete anos – a norma do capitalismo ‘ Os capitalistas não querem desemprego, mas o geram regularmente. É uma contradição básica do seu sistema.


Por Richard D. Wolff, professor de Economia Emérito, Universidade de Massachusetts, Amherst, e professor visitante no Programa de Pós-Graduação em Assuntos Internacionais da New School University, Nova York. O programa semanal de Wolff, Economic Update, é distribuído em mais de 100 estações de rádio e vai para 55 milhões de receptores de TV via Free Speech TV e seus dois livros recentes com Democracy at Work são Understanding Marxism e Understanding Socialism, ambos disponíveis em democratwork.info.

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Uma nova era do gelo ou uma recessão sem igual?

Ninguém dessa geração pós 1929 experimentou uma queda econômica tão repentina.Economia,Blog do Mesquita

Ainda não podemos dizer que estamos em recessão, pelo menos não formalmente. Um comitê decide essas coisas – não, realmente. O governo geralmente adota a visão de que uma contração não é uma recessão, a menos que a atividade econômica tenha caído mais de dois quartos.

Mas estamos em recessão e todo mundo sabe disso. E o que estamos experimentando é muito mais do que isso: um cisne negro, uma guerra financeira, uma praga. Talvez as coisas pareçam normais onde você está. Talvez as coisas não pareçam normais. As coisas não são normais.

Por semanas ou meses, não saberemos quanto o PIB desacelerou e quantas pessoas foram forçadas a sair do trabalho. As estatísticas do governo demoram um pouco para serem geradas. Eles olham para trás, os números mais recentes ainda mostram uma economia quente perto do pleno emprego.

Para quantificar a realidade atual, precisamos contar com histórias de empresas, pesquisas com trabalhadores, fragmentos de dados privados e alguns números de estados. Eles mostram uma economia que não está em crise, em contração ou em uma situação delicada, sem sofrer perdas ou vender ou corrigir. Eles mostram evaporação, desaparecimento no que parece uma escala religiosa.Economia,Capitalismo,Blog do Mesquita 01

O que está acontecendo é um choque para a economia americana, mais repentino e severo do que qualquer pessoa viva já experimentou. A taxa de desemprego atingiu o ápice de 9,9% 23 meses após o início formal da Grande Recessão. Apenas algumas semanas após a pandemia doméstica de coronavírus e apenas alguns dias após a imposição de medidas de emergência para detê-la, quase 20% dos trabalhadores relatam que perderam horas ou perderam o emprego.

Uma pesquisa em folha de pagamento e agendamento sugere que 22% das horas de trabalho foram evaporadas para funcionários horistas, com três em cada 10 pessoas que normalmente comparecem para o trabalho que não ocorre na terça-feira. Na ausência de uma forte resposta governamental, a taxa de desemprego parece alcançar alturas nunca vistas desde a Grande Depressão ou até o miserável final do século XIX. Uma taxa de 20% não é impossível.

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Os trabalhadores mal pagos que permitem que você se divirta e consuma na internet

O ‘microtrabalho’ pode incluir fornecer dados para abastecer a tecnologia usada em carros sem motorista

Pense em como é sua vida digital. Você está no celular, entra em um site de buscas para procurar restaurantes nas redondezas e aparecem várias sugestões. O seu aplicativo de música oferece uma playlist que combina perfeitamente com você, e os seus feeds de rede social são em sua maioria livres de conteúdo ofensivo. Mas você sabia que se não fosse por um exército oculto de milhares de trabalhadores em todo o mundo, nada disso seria possível?

São os chamados “microtrabalhadores” – uma espécie de crowdsourcing (colaboração coletiva) paga para executar tarefas que as máquinas não conseguem desempenhar sozinhas.

Esses empregos costumam ter uma reputação negativa – são vistos como mal remunerados e podem envolver um trabalho repulsivo, de analisar vídeos e imagens com conteúdo perturbadores.

Mas para muita gente, é o trabalho perfeito.

O que é ‘microtrabalho’?

Os microtrabalhadores geram dados ao transcrever, limpar, corrigir e categorizar conteúdo.

Eles ajudam a fornecer dados para os algoritmos de aprendizagem automática (“machine learning”, em inglês), que são a base da inteligência artificial.

Imagem representando o trabalho sendo executado tarefa por tarefa
Image caption Grandes empresas usam ‘microtrabalhadores’ para realizar pequenas tarefas digitais

As tarefas podem incluir desenhar caixas delimitadoras ao redor de imagens para ensinar aos carros sem motorista o que é uma árvore, um obstáculo ou uma pessoa em movimento.

Eles também rotulam os conteúdos com emoções, de modo que os algoritmos de análise de sentimentos possam aprender como soa uma música “triste”, ou se um texto ou uma palavra é “alarmante”.

Podem, ainda, identificar imagens de seres humanos, para ajudar o reconhecimento facial a diferenciar entre características como olhos, narizes e bocas.

Quem usa esse serviço?

A Amazon montou a primeira plataforma de microtrabalho em 2005.

Na ocasião, o CEO da empresa, Jeff Bezos, a descreveu como “inteligência artificial artificial”.

A plataforma chama Amazon Mechanical Turk, nome inspirado no “Turco Mecânico”, um robô jogador de xadrez do século 18 que os adversários enfrentavam pensando estar competindo contra uma máquina, quando na verdade havia um mestre de xadrez escondido lá dentro.

Amazon Mechanical TurkDireito de imagem GETTY IMAGES
O ‘Turco Mecânico’ zombava dos jogadores, que pensavam estar jogando xadrez contra uma máquina

A Amazon usou esse sistema pela primeira vez para eliminar milhões de páginas duplicadas de produtos, uma vez que os computadores não conseguiam perceber diferenças sutis nas páginas, mas os humanos, sim.

No entanto, como uma pessoa não seria capaz de completar essa tarefa sozinha, eles dividiram o trabalho em tarefas pequenas, independentes e repetitivas que poderiam, em teoria, ser realizadas em segundos por trabalhadores humanos de qualquer lugar.

Em seguida, lançaram esse modelo de trabalho por meio de um site que servia como intermediário entre empresas que postavam tarefas e candidatos a relizar o trabalho.

Os microtrabalhadores ao redor do mundo que completam as tarefas são, então, pagos por elas.

Quem são os microtrabalhadores?

É difícil estimar quantos microtrabalhadores há no mundo, já que as companhias não divulgam números oficiais, a não ser os de usuários registrados.

Mas, para se ter uma ideia, estima-se que na Amazon Mechanical Turk, a plataforma mais conhecida, dezenas de milhares de pessoas trabalhem todos os meses – e que em qualquer momento do dia haja cerca de 2 mil a 2,5 mil microtrabalhadores ativos.

Esse número foi calculado por Panos Ipeirotis, professor na Universidade de Nova York, nos EUA.

O estudo dele constatou que a maioria dos trabalhadores da MTurk está baseada nos EUA e na Índia – mas isso se deve principalmente ao fato de que a plataforma limitou por muitos anos o acesso de trabalhadores de fora do território americano.

Atualmente, existem muitas outras plataformas de microtrabalho ao redor do mundo.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) entrevistou 3,5 mil microtrabalhadores em 75 países.

E descobriu que a idade média dos entrevistados era de 33 anos.

Um terço era de mulheres, mas em países em desenvolvimento, esse percentual caía para um quinto.

Eles também são instruídos – menos de 18% dos entrevistados haviam estudado até o ensino médio, um quarto havia frequentado a universidade e 20% tinham pós-graduação.

Mais da metade é especialista em ciência e tecnologia, 23% em engenharia e 22% em tecnologia da informação.

Como é ser um microtrabalhador?

O microtrabalho pode ser uma tábua de salvação para pessoas que não têm acesso a emprego ou a fontes de renda tradicionais, especialmente em países em crise.

Michelle Muñoz é dentista. Ela mora na Venezuela e trabalha online há dois anos.

Michelle, microtrabalhadora
Image caption Michelle diz que ganha mais como microtrabalhadora na Venezuela do que quando era dentista

O colapso da economia e a hiperinflação galopante tornaram o microtrabalho a melhor opção para Michelle ganhar dinheiro na Venezuela.

“Eu tinha um consultório. Mas, infelizmente, tive que fechá-lo por causa da emigração. Muitas pessoas se foram, e as que ficaram não têm dinheiro suficiente para pagar dentista, precisam se preocupar com comida, educação e outras coisas”, explica.

Yahya Ayoub Ahmed é sírio e vive no campo de refugiados de Darashakran, em Erbil, no Iraque, após ter fugido da guerra.

Ele aprendeu inglês e habilidades de TI com uma organização chamada Preemptive Love, o que permitiu a ele ter acesso a microtrabalhos.

“Você pode usar (esse sistema) remotamente e gerar renda. Por aqui, se candidatar a um emprego é muito difícil, não é como se você pudesse simplesmente dar um Google em busca de trabalho, então isso permite que você trabalhe sem precisar se candidatar e enviar um currículo”, explica.

Ele aprendeu a realizar tarefas altamente precisas, como traçar caixas delimitadoras em volta de imagens ou desenhar máscaras de segmentação.

“Estou muito animado em aprender sobre machine learning e inteligência artificial”, diz ele.

Yahya, microtrabalhador
Image caption Yahya atua como microtrabalhador de um campo de refugiados no Iraque

Mas há um obstáculo extra para trabalhadores em países como o Iraque, já que as tarefas são voltadas principalmente para países desenvolvidos, explica Allen Ninous, da Preemptive Love.

“A maioria dos serviços restringe o acesso de iraquianos. E mesmo que conseguissem entrar, não há uma maneira simples de receber o dinheiro, uma vez que todos os pagamentos são feitos por meio de sistemas bancários terceirizados, como o PayPal”, diz Allen Ninous, da Preemptive Love.

A organização dele assina acordos especiais com empresas para facilitar o acesso.

Encontrar trabalho é ainda mais complexo para quem faz isso sozinho em casa.

Rafael Pérez, que mora na Venezuela e ganha a vida com microtrabalhos, descreve uma situação semelhante.

Ele diz que não pode realizar a maioria das tarefas que são postadas.

E conta como muitas vezes levou calote.

“Lembro quando ganhei US$ 180 em 15 dias. É muito dinheiro, mas nunca me pagaram. Mandei email, liguei… mas você não tem com quem reclamar.”

Quanto paga?

O microtrabalho tem sido alvo de críticas por pagar muito pouco. A pesquisa da OIT mostrou que os trabalhadores ganhavam, em média, US$ 4,43 por hora.

Mas o pagamento varia muito de acordo com a região.

Enquanto nos EUA eles ganham uma média de US$ 4,70 (que é menos do que o salário-mínimo), na África recebem US$ 1,33.

E isso sem contar que os trabalhadores gastam, em média, 20 minutos em atividades não remuneradas para cada hora de trabalho remunerado.

Isso inclui procurar tarefas ou fazer testes para se qualificar para as mesmas.

“Passo o dia todo, ou a maior parte do dia, procurando tarefas. Quando consigo, tenho de sentar e fazer”, diz Rafael.

Eles também gastam parte do tempo fugindo de golpes.

Michelle conta que no início foi enganada por sites fraudulentos, mas que agora se certifica de pesquisar e submeter as plataformas a um período de teste antes de começar a trabalhar nelas.

A forma como recebem o pagamento tampouco é simples.

Como é feito o pagamento?

Os trabalhadores são remunerados por meio de pagamentos eletrônicos.

Para terem acesso aos valores, usam plataformas online em que terceiros convertem seu crédito eletrônico em dinheiro vivo, após cobrar uma comissão.

Rafael diz que, se o dia for favorável, ele ganha de US$ 8 a US$ 10, com os quais consegue comprar uma caixa de ovos pequena, um quilo de farinha de milho e um quilo de feijão.

“Você não vai viver muito bem, mas vai comer”, diz.

Ele se concentra naquilo que chama de tarefas “tediosas”, mas fáceis, como buscar informações na web e identificar partes de frases.

Michelle, por sua vez, realiza tarefas mais complexas, como traduções, desenhos de caixas e análise de sentimentos. Ela conta à BBC que chegou a ganhar cerca de US$ 80 em um dia, que usou para comprar um smartphone que utiliza agora para o microtrabalho.

Ela acredita que deveria haver mais “apoio e reconhecimento” aos microtrabalhadores, que as plataformas ganham muito dinheiro graças ao trabalho deles e “pagam mal, pelo menos na Venezuela”.

É o trabalho do futuro?

Paola Tubaro, que estuda as práticas de microtrabalho, acha que esse tipo de trabalho não é transitório, mas estrutural para o desenvolvimento de novas tecnologias, como a inteligência artificial.

“Mesmo que as máquinas aprendam, digamos, a reconhecer cães e gatos e não precisem de mais exemplos, ainda é necessário fornecer mais detalhes para elas reconhecerem, como sinais de trânsito em outros idiomas ou de outros países.”

À medida que essas tecnologias avançam, aumentará a necessidade de pessoas para alimentá-las de dados. “Não é algo temporário”, avalia.

Atualmente, não há regulamentação governamental para plataformas de microtrabalho, portanto, são as próprias plataformas que estabelecem as condições.

Também houve críticas à falta de apoio aos microtrabalhadores que realizam tarefas de moderação e estão expostos a conteúdos perturbadores, com os quais têm de lidar sozinhos.

A OIT, em seu estudo, pede uma melhor regulação do setor para que certas condições – como salário-mínimo e maior transparência nos pagamentos – sejam cumpridas.

Por enquanto, diz Tubaro, “o microtrabalho é invisível para muita gente e tem atraído pouca atenção da opinião pública”.

Até mesmo o debate ético em torno da inteligência artificial, diz ela, se concentrou na transparência e na imparcialidade dos algoritmos, mas “não levou em conta os trabalhadores que estão por trás da própria produção da inteligência artificial”.

“Não pode ser justo se essas pessoas não são pagas o suficiente, ou não têm nenhum tipo de proteção social. Se as pessoas trabalham sob as mesmas condições que as fábricas do século 19, isso não é algo que nossa sociedade deveria aceitar.”

Mario Sérgio Cortella,Blog do Mesquita

Mário Sérgio Cortella: Bem-formada, nova geração chega mal-educada às empresas, diz filósofo

Cortella lança o livro “Por que fazemos o que fazemos?” sobre a busca de propósito no trabalhoMario Sérgio Cortella,Blog do Mesquita

Segunda-feira, seis da manhã. O despertador toca e você não quer sair da cama. Está cansado? Ou não vê sentido no que faz? 

Na introdução de seu livro, o filósofo e escritor Mario Sergio Cortella coloca em poucas palavras o questionamento central da obra Por que fazemos o que fazemos?. Trata da busca por um propósito no trabalho, uma das maiores aflições contemporâneas.

Em entrevista à BBC Brasil, Cortella, também doutor em Educação e professor, fala como um mundo de múltiplas possibilidades levou as pessoas a negarem ser apenas uma peça na engrenagem.

O filósofo explica como a combinação de um cenário imediatista, anos de bonança e pais protetores fez com que a “busca por propósito” dos jovens seja muitas vezes incompatível com a realidade.

“No dia a dia, eles se colocam como alguém que vai ter um grande legado, mas ficam imaginando o legado como algo imediato.”

Essa visão “idílica”, afirma, transforma escritórios e salas de aula em palcos de confronto entre gerações.

“Parte da nova geração chega nas empresas mal-educada. Ela não chega mal-escolarizada, chega mal-educada. Não tem noção de hierarquia, de metas e prazos e acha que você é o pai dela.”

Leia os principais trechos da entrevista abaixo:

BBC Brasil – O que desencadeou a volta da busca pelo propósito?

Mario Sergio Cortella – A primeira coisa que desencadeou foi um tsunami tecnológico, que nos colocou tantas variáveis de convivência que a gente fica atordoado.

A lógica para minha geração foi mais fácil. Qual era a lógica? Crescer, estudar. Era escola, e dependendo da tua condição, faculdade. Não era comunicação em artes do corpo. Era direito, engenharia, tinha uma restrição.

Essa overdose de variáveis gerou dificuldade de fazer escolhas. Isso produz angústia em relação a esse polo do propósito. Por que faço o que estou fazendo? Faço por que me mandam ou por que desejo fazer? Tem uma série de questões que não existiam num mundo menos complexo.

Não foi à toa que a filosofia veio com força nos últimos vinte anos. Ela voltou porque grandes questões do tipo “para onde eu vou?”, “quem sou eu?”, vieram à tona.

Livro de Cortella foi lançado em julho e traz reflexão sobre trabalhoLivro de Cortella foi lançado em julho e traz reflexão sobre trabalho

BBC Brasil – Podemos dizer que nesse contexto vai ser cada vez menor o número de pessoas que não tem esses questionamentos?

Mario Sergio Cortella – Cada vez menor será o número de pessoas que não se incomoda com isso. O próprio mundo digital traz o tempo todo, nas redes sociais, a pergunta: “por que faço o que faço?”, “por que tomo essa posição?”. E aquilo que os blogs e os youtubers estão fazendo é uma provocação: seja inteiro, autêntico. É a expressão “seja você mesmo”, evite a vida de gado.

BBC Brasil – No seu livro, você fala da importância do reconhecimento no trabalho. Qual é ela?

Mario Sergio Cortella – O sentir-se reconhecido é sentir-se gostado. Esse reconhecimento é decisivo. A gente não pode imaginar que as pessoas se satisfaçam com a ideia de um sucesso avaliado pela conquista material. O reconhecimento faz com que você perca o anonimato em meio à vida em multidão.

No fundo, cada um de nós não deseja ser exclusivo, único, mas não quer ser apenas um. Eu sou um que importa. E sou assim porque é importante fazer o que faço e as pessoas gostam.

BBC Brasil – Pelo que vemos nas redes sociais, os jovens estão trazendo essa discussão de forma mais intensa. Você percebeu isso?

Mario Sergio Cortella – Há algum tempo tenho tido leitores cada vez mais jovens. Como me tornei meio pop, é comum estar andando num shopping e um grupo de adolescentes pedir para tirar foto.

Uma parcela dessa nova geração tem uma perturbação muito forte, em relação a não seguir uma rota. E não é uma recuperação do movimento hippie, que era a recusa à massificação e à destruição, ao mundo industrial.

Hoje é (a busca por) uma vida que não seja banal, em que eu faça sentido. É o que muitos falam de ‘deixar a minha marca na trajetória’. Isso é pré-renascentista. Aquela ideia do herói, de você deixar a sua marca, que antes, na idade média, era pelo combate.

O destaque agora é fazer bem a si e aos outros. Não é uma lógica franciscana, o “vamos sofrer sem reclamar”. É o contrário. Não sofrer, se não for necessário.

Uma das coisas que coloco no livro é que não há possibilidade de se conseguir algumas coisas sem esforço. Mas uma das frases que mais ouço dos jovens, e que para mim é muito estranha, é: quero fazer o que eu gosto.

‘Tsunami tecnológico’ gerou volta da busca por um propósito, diz Cortella
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BBC Brasil – Esse é um pensamento comum entre os jovens quando se fala em carreira.

Mario Sergio Cortella – Muito comum, mas está equivocado. Para fazer o que se gosta é necessário fazer várias coisas das quais não se gosta. Faz parte do processo.

Adoro dar aulas, sou professor há 42 anos, mas detesto corrigir provas. Não posso terceirizar a correção, porque a prova me mostra como estou ensinando.

Não é nem a retomada do ‘no pain, no gain’ (‘sem dor, não há ganho’). Mas é a lógica de que não dá para ter essa visão hedonista, idílica, do puro prazer. Isso é ilusório e gera sofrimento.

BBC Brasil – O sofrimento seria o choque da visão idílica com o que o mundo oferece?

Mario Sergio Cortella – A perturbação vem de um sonho que se distancia no cotidiano. No dia a dia, a pessoa se coloca como alguém que vai ter um grande legado, mas fica imaginando o legado como algo imediato.

Gosto de lembrar uma história com o Arthur Moreira Lima, o grande pianista. Ao terminar uma apresentação, um jovem chegou a ele e disse ‘adorei o concerto, daria a vida para tocar piano como você’. Ele respondeu: ‘eu dei’.

Há uma rarefação da ideia de esforço na nova geração. E falo no geral, não só da classe média. Tivemos uma facilitação da vida no país nos últimos 50 anos – nos tornamos muito mais ricos. Isso gerou nas crianças e jovens uma percepção imediatizada da satisfação das necessidades. Nas classes B e C têm menino de 20 anos que nunca lavou uma louça.

BBC Brasil – Quais as consequências dessa visão idealizada?

Mario Sergio Cortella – Uma parte da nova geração perde uma visão histórica desse processo. É tudo ‘já, ao mesmo tempo’. De nada adianta, numa segunda-feira, castigar uma criança de cinco anos dizendo: sábado você não vai ao cinema. A noção de tempo exige maturidade.

Vejo na convivência que essa geração tem uma visão mais imediatista. Vou mochilar e daí chego, me hospedo, consigo, e uma parte disso é possível pelo modo que a tecnologia favorece, mas não se sustenta por muito tempo.

Quando alguns colocam para si um objetivo que está muito abstrato, sofrem muito. Eu faço uma distinção sempre entre sonho e delírio. O sonho é um desejo factível. O delírio é um desejo que não tem factibilidade.

Muitos jovens querem deixar grande legado, mas não tem noção de esforço, diz filósofoMuitos jovens querem deixar grande legado, mas não tem noção de esforço, diz filósofo
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BBC Brasil – Muitos deliram nas suas aspirações?

Mario Sergio Cortella – Uma parte das pessoas delira. Ela delira imaginando o que pode ser sem construir os passos para que isso seja possível. Por que no campo do empreendedorismo existe um nível de fracasso muito forte? Porque se colocou mais o delírio do que a ideia de um sonho.

O sonho é aquilo que você constrói como um lugar onde quer chegar e que exige etapas para chegar até lá, ferramentas, condições estruturais. O delírio enfeitiça.

BBC Brasil – Qual é o papel dos pais para que a busca pelo propósito dos jovens seja mais realista?

Mario Sergio Cortella – Alguns pais e mães usam uma expressão que é “quero poupar meus filhos daquilo que eu passei”. Sempre fico pensando: mas o que você passou? Você teve que lavar louça? Ou está falando de cortar lenha? Você está poupando ou está enfraquecendo? Há uma diferença. Quando você poupa alguém é de algo que não é necessário que ele faça.

Tem coisas que não são obrigatórias, mas são necessárias. Parte das crianças hoje considera a tarefa escolar uma ofensa, porque é um trabalho a ser feito. Ela se sente agredida que você passe uma tarefa.

Parte das famílias quer poupar e, em vez de poupar, enfraquece. Estamos formando uma geração um pouco mais fraca, que pega menos no serviço. Não estou usando a rabugice dos idosos, ‘ah, porque no meu tempo’. Não é isso, é o meu temor de uma geração que, ao ser colocada nessa condição, está sendo fragilizada.

Para Cortella, ao tentarem proteger filhos, pais criam geração mais fracaPara Cortella, ao tentarem proteger filhos, pais criam geração mais fraca
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BBC Brasil – Sempre lemos e ouvimos relatos de conflitos entre chefes e subordinados, alunos e professores. Como se explicam esses choques?

Mario Sergio Cortella – Criou-se um fosso pelo seguinte: crianças e jovens são criados por adultos, que são seus pais e mantêm com eles uma relação estranha de subordinação. A geração anterior sempre teve que cuidar da geração subsequente e essa vivia sob suas ordens.

A atual geração de pais e mães que têm filhos na faixa dos dez, doze anos, é extremamente subordinada. Como há por parte dos pais uma ausência grande de convivência, no tempo de convivência eles querem agradar. É a inversão da lógica. Eu queria ir bem na escola para os meus pais gostarem, não era só uma obrigação.

Essa lógica faz com que, quando o jovem vai conviver com um adulto que sobre ele terá uma tarefa de subordinação, na escola ou trabalho, haja um choque. Parte da nova geração chega nas empresas mal-educada. Ela não chega mal-escolarizada, chega mal-educada.

Não tem noção de hierarquia, de metas e prazos e acha que você é o pai dela. Obviamente que ela também chega com uma condição magnífica, que é percepção digital, um preparo maior em relação à tecnologia.
BBC/Ingrid Fagundez

Ford,Emprego,Brasil,Economia,Blog do Mesquita

‘Todos os meus sonhos ruindo’: o drama dos metalúrgicos com fechamento de fábrica da Ford em SP

Ford,Emprego,Brasil,Economia,Blog do MesquitaTrabalhadores da Ford iniciaram uma paralisação depois do anúncio de fechamento da fábrica de São Bernardo do Campo

“Quando você entra na Ford, você realiza um sonho que tinha desde criança. Pronto, você entrou, virou um metalúrgico, como o seu pai. É um sonho realizado que vai te ajudar a atingir outros sonhos: ter uma casa, ter uma família, fazer faculdade, comprar um carro. Então, você me perguntou o que eu senti ontem. Senti como se todos esses sonhos estivessem ruindo.”

Em um bar ao lado da Ford, em São Bernardo do Campo, o metalúrgico Gustavo Alves, de 30 anos, fala com a BBC News Brasil enquanto seus colegas conversam sobre o futuro incerto que todos ali devem enfrentar nos próximos dias.

A Ford mudará a decisão de fechar a fábrica na cidade conforme anunciou na terça? E se houver mobilização dos trabalhadores? O sindicato vai conseguir negociar? A greve continuará? O governo pode ajudar? E se nada der certo, até quando eles terão emprego? Como ficarão os benefícios?

Não é que eles não soubessem que algo poderia acontecer na companhia, pois os rumores de que a unidade poderia fechar já circulavam havia algum tempo em virtude dos prejuízos da empresa na América do Sul. Nos últimos anos, os funcionários se acostumaram aos cortes de benefícios, congelamento de salários, demissões e redução de jornada de trabalho.

A unidade montava principalmente caminhões, mas vinha operando bastante abaixo da capacidade. Em 2018, por exemplo, a fábrica produziu apenas 19% dos 89 mil caminhões que é capaz de montar, segundo dados da empresa. Por causa disso, um acordo reduziu a jornada dos empregados – eles estavam trabalhando apenas três dias por semana.

Gustavo Alves, de 30 anos, funcionário da Ford
Image caption Gustavo Alves, de 30 anos, começou a trabalhar na Ford em 2014, indicado por seu pai, que se aposentou pela empresa

“Quando entrei, em 2014, essa fábrica tinha 7 mil trabalhadores”, diz Gustavo, mais tarde, enquanto abre as portas de seu Fiesta, carro Ford. Hoje, ela opera com 2,8 mil funcionários diretos, de acordo o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Todos serão demitidos com o fechamento da unidade.

Segundo o sindicato, o anúncio deve impactar cerca de 24 mil empregos diretos e indiretos – entre terceirizados e fornecedores. Além disso, bares e restaurantes do entorno devem ser afetados com a saída da massa de funcionários.

A notícia do fechamento da fábrica, no entanto, surpreendeu os trabalhadores na terça-feira, logo após o almoço. “Ninguém esperava que fosse assim. Depois de uma reunião, nossos representantes pararam a produção e avisaram sobre o anúncio”, diz Gustavo, montador de painéis de caminhões. “Foi um choque.”

Em seguida, os trabalhadores entraram em greve atrás de um acordo para evitar o encerramento das atividades. No entanto, não há informação de que isso possa ocorrer, pois a decisão foi tomada pela cúpula da empresa.

Filho de metalúrgico, metalúrgico é

Gustavo entrou na Ford depois de uma indicação do pai, Armezino, que se aposentou pela empresa depois de 30 anos de trabalho como ponteador de peças. Conhecido por Tucano, o metalúrgico foi sindicalista e participou das históricas greves em fábricas do ABC, movimento que lançou Luiz Inácio Lula da Silva como uma figura política importante e popular entre as camadas mais pobres.

“Sempre quis ser metalúrgico da Ford, porque eu acompanhava meu pai desde moleque. Ele me trazia aqui, me levava no sindicato, eu via como era aquela vida de luta”, diz o jovem. “O que agora me deixa mais triste é que a gente se sacrificou pela empresa, cedendo benefícios, deixando de receber aumento real. E agora, ela nos deixa na mão.”

A história familiar de Clayton Diogenes da Silva, de 43 anos, também se confunde com a Ford – a fábrica em São Bernardo existe desde 1967. Entre os colegas, ele é conhecido por Risadinha (o sorriso fácil, mesmo quando fala de coisas tristes, talvez explique o apelido).

Clayton Diogenes da Silva, 43, funcionário da Ford
Image caption Clayton Diogenes da Silva, 43, e seu pai Antonio Carlos trabalharam por décadas na Ford em São Bernardo do Campo

“Foi na Ford que meu pai criou cinco filhos e que eu criei meus dois”, diz o inspetor de processo, há 23 anos na fábrica. “Entrei com 19 anos, e ainda trabalhei um ano com meu pai aqui.”

O pai, Antonio Carlos da Silva, ficou 25 anos na unidade, parte deles como inspetor de qualidade de motores. “Em 1971, quando entrei como chão de fábrica, a gente fazia Maverick, Belina, Landau”, diz Antonio, mais tarde, por telefone.

Já seu filho, o Risadinha, passou pelas fases Escort, Verona, Ka, Fiesta. “Nossa família se formou na Ford, primos e tios também trabalharam aqui, temos um apreço muito grande pela empresa”, afirma. “Só compramos carros da Ford. Se um parente aparece com um Volks, a gente exclui da família”, brinca.

O que diz a Ford?

A montadora americana afirma que vai encerrar as atividades da fábrica em São Bernardo ao longo deste ano, acabando com o setor de caminhões e transferindo a montagem do modelo Fiesta para outras unidades no país. Um acordo entre a companhia e o sindicato prevê estabilidade dos trabalhadores até novembro.

Em nota, a Ford explica que a decisão de deixar o mercado de caminhões “foi tomada após vários meses de busca por alternativas, que incluíram a possibilidade de parcerias e venda da operação. A manutenção do negócio teria exigido um volume expressivo de investimentos sem, no entanto, apresentar um caminho viável para um negócio lucrativo e sustentável”.

A empresa prevê um gasto de R$ 1,7 bilhão com “compensações de funcionários, concessionários e fornecedores.”

“Sabemos que essa decisão terá um impacto significativo sobre os nossos funcionários de São Bernardo do Campo e, por isso, trabalharemos com todos os nossos parceiros nos próximos passos”, disse Lyle Watters, presidente da Ford América do Sul.

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Wagner Santana, criticou o anúncio e disse que os trabalhadores vão se mobilizar. “Nossa decisão é de resistência, nós não vamos aceitar. O que vamos fazer? Tudo, tudo o que aprendemos no movimento sindical. Se tiver que fazer greve, vamos fazer. Ou acampamento. Se tiver que negociar, vamos negociar”, afirmou à BBC News Brasil.

O prefeito de São Bernardo do Campo, Orlando Morando (PSDB), mostrou indignação com a decisão da montadora americana. “Não aceito a forma que está sendo feito. Não considero correto, acho um desrespeito com os trabalhadores e com a cidade”, disse, em um vídeo nas redes sociais.

Entrada da Ford em São Bernardo do Campo, SPDireito de imagem REUTERS
Ford afirma que vai acabar com setor de caminhões, em São Bernardo do Campo

E o futuro dos metalúrgicos?

Para o preparador de máquinas Anderson Viana, de 38 anos, conhecido entre os colegas como Pitchulinha, o desemprego pode significar sérias dificuldades para sustentar seus dois filhos. “Também tenho um irmão deficiente, com paralisia cerebral, que depende de mim. A Ford é meu ganha pão, minha vida digna depende dela”, diz.

Quando entrou na empresa em 2010, Anderson pensava que seu bem-estar estava garantido por muito tempo – o salário médio na empresa é de cerca de R$ 6.000. “Achava que eu iria me aposentar aqui, sonhava que meu filho viesse trabalhar na Ford. Mas parece que a empresa não teve pena de ninguém, como se a gente fosse uma mercadoria que se descarta, como se fosse um carro”, diz.

Seu colega, o funileiro de produção Sergio Soares, de 50 anos, conta como o emprego na montadora melhorou sua vida. “A Ford significou uma mudança. Você vai subindo na folha, vai melhorando. Compra casa, carro, faz faculdade”, enumera.

Ele está há 25 anos na fábrica de São Bernardo, e tem esperança de que o sindicato da categoria consiga reverter o jogo, como tantas vezes conseguiu ao longo de sua história de mobilizações. “Espero que a gente mude essa decisão, porque terá um impacto muito grande na vida das pessoas.”

Já Clayton Diogenes da Silva, o Risadinha, não acredita muito no futuro como metalúrgico. “Aqui no ABC, o auge da cadeia produtiva era ser metalúrgico de uma montadora”, diz ele, cuja faculdade de tecnologia em processo de produção foi paga pela Ford. “Nós, da área de tecnologia, sabemos quando nossa mão de obra fica obsoleta.”

Seu pai, o aposentado Antonio Carlos, é um pouco mais otimista, embora perceba que, dessa vez, o cenário parece pior que o da sua época. “Quando entrei na Ford, em 1971, já tinha um papo de que a fábrica de São Bernardo iria fechar. Mas era só fofoca entre os peões, nunca teve um anúncio como esse”, diz.

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Por que Getúlio Vargas criou o Ministério do Trabalho, que Bolsonaro quer extinguir

Caso seja confirmada a extinção do Ministério do Trabalho no governo de Jair Bolsonaro, conforme anunciou o presidente eleito nesta semana, será a primeira vez em 88 anos que o país não terá uma pasta na área, desde que Getúlio Vargas (1882-1954) a criou após chegar ao poder.História,Política,Emprego,Previdência Social,Brasil,Getúlio Vargas,Ministério do Trabalho,Bolsonaro,Justiça (1)

Hoje, esse ministério é responsável por elaborar diretrizes para geração de emprego e renda, além de emitir documentos e fiscalizar as relações trabalhistas no Brasil, investigando denúncias de trabalho escravo e infantil e o cumprimento da legislação por parte das empresas. Mas sua criação teve outro propósito.

Quando surgiu, em 26 de novembro de 1930, a ideia era que a pasta fosse responsável por intermediar as relações entre trabalhadores e empresários, até então sob a responsabilidade do Ministério da Agricultura.

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“Era uma política alinhada com o que se pensava então sobre o papel do Estado como um mediador das relações entre grupos e indivíduos”, explica Renan Pieri, professor de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP) e do Insper.

“Vargas dá um golpe de mestre e assume a dianteira deste processo, estatizando estas relações.”

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A criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio foi uma das primeiras iniciativas de Vargas ao assumir o governo por meio de um golpe, após a Revolução de 1930, que culminou com a deposição do então presidente Washington Luís (1869-1957) e o impedimento de que seu sucessor, Júlio Prestes (1882-1946), assumisse o cargo, dando fim à República Velha.

A pasta foi batizada de “ministério da Revolução” por Lindolfo Collor (1890-1942), seu primeiro titular e avô do ex-presidente Fernando Collor de Melo.

“Essa revolução se refere a uma ruptura com a velha oligarquia agrária por meio da criação de um Estado positivista, a instauração de um modelo legal e burocrático que passa a organizar as relações sociais por meio do monopólio da força através de um sistema normativo”, diz Marcelo Nerling, professor do curso de Gestão de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo (USP).

“O Estado passa a ser o protagonista, baseado na crença de que é possível mudar a realidade social por meio de normas criadas de cima para baixo.”

Nerling explica que não havia na época no Brasil um Estado como conhecemos hoje. “A administração pública só começa a se organizar a partir da década de 1930. Até então, as principais forças do país estavam concentradas nos municípios, comandados por coronéis. Era um modelo descentralizado e patrimonialista, em que não se separava o público do privado.”

Qual foi o impacto da criação do Ministério do Trabalho?
Uma das primeiras medidas do novo ministério neste sentido foi criar uma nova regulamentação da atividade sindical, com critérios para a criação de sindicatos.

Entre as novas regras, estava haver uma única representação para profissionais de uma categoria dentro de uma mesma região, um mínimo de 30 membros, com ao menos dois terços de brasileiros, veto a qualquer manifestação política e ideológica, punições a empresários que impedissem a sindicalização dos trabalhadores e a aprovação da entidade pelo ministério – até então, não se dependia de autorização do governo.

O ministro Collor declarava na época que enxergava os sindicatos como uma forma de mediar os conflitos e tinha como objetivo trazer estas organizações para a órbita do novo ministério para que passassem a ser controladas pelo Estado.

“Vargas queria que os sindicatos se tornassem satélites do governo, politizando as relações entre empresas e trabalhadores”, diz Pieri.

Na época, o Brasil ainda era um país extremamente rural, mas havia uma indústria nascente, que ganha força em reação ao crescente impedimento de importar produtos da Europa a partir da Primeira Guerra Mundial.

Ao mesmo tempo, a abolição da escravatura lançou um grande contigente de mão de obra ao mercado enquanto houve simultaneamente uma chegada massiva de imigrantes a partir do fim do século 19, facilitada pela Constituição de 1891, que, ao mesmo tempo, consagrou o direito de livre associação.

Surge, assim, uma classe de trabalhadores urbanos e de profissionais liberais, e se formam os primeiros movimentos sindicais, que foram reconhecidos e regulamentados em lei ao longo da primeira década do século 20, primeiro para os trabalhadores agrícolas e, depois, para os urbanos.

“Com a formação de uma economia de mercado, foi natural a formação de sindicatos especializados para representar os trabalhadores”, diz Pieri.

Ao mesmo tempo, nas questões relativas a direitos, o regime de Vargas buscava atender reivindicações históricas dos trabalhadores, alinhado com a ideia da outorga dos direitos trabalhistas pelo Estado.

“Vargas havia acompanhado o que ocorreu na Rússia a partir de 1917 com a revolução, quando, em meio ao conflito entre capital e trabalho, o proletariado assumiu o poder. Então, ele, que era um capitalista, sabia aonde isso poderia acabar”, diz Nerling.

“Vargas sabia que, se os trabalhadores fizessem greve atrás de greve para reivindicar direitos, poderiam quebrar o capital. Ele opta por chamar para si a responsabilidade de regular estas relações, cria leis que vinculam os cidadãos. Entrega os anéis para não perder os dedos.”

O que mudou a cada Constituição?História,Política,Emprego,Previdência Social,Brasil,Getúlio Vargas,Ministério do Trabalho,Bolsonaro,Justiça (2)
O ministério teve sob Vargas uma atividade legislativa intensa. Foram lançadas medidas importantes, como a criação da carteira profissional (precursora da atual carteira de trabalho e previdência social), a regulamentação do trabalho feminino e infantil e o estabelecimento de juntas de conciliação de conflitos entre patrões e empregados, que seria um embrião da Justiça do Trabalho, criada pela Constituição de 1934 e que passaria a atuar a partir de 1941.

Ministério criou a carteira profissional, precursora da atual carteira de trabalho e previdência social.
Também se destaca a criação dos Institutos de Aposentadoria e Pensões, que mudaram o sistema previdenciário do país. Ainda seriam instituídos o salário mínimo, a jornada de trabalho de oito horas e o descanso semanal, as férias remuneradas e a indenização por dispensa sem justa causa.

Uma das iniciativas de maior peso foi a instituição em 1943 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que unificou as leis trabalhistas existentes até então. O dia em que recebeu a sanção presidencial, 1º de maio, passaria a ser o Dia do Trabalho, feriado celebrado até hoje em todo o país.

As décadas após a primeira era Vargas foram marcadas por diversas mudanças nas leis e direitos trabalhistas.

Em 1946, a Assembleia Constituinte convocada após o fim da ditadura, acrescentou novos pontos como o direito à greve e o descanso remunerado aos domingos e feriados.

O Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) surge em 1966, já durante o regime militar, para proteger o trabalhador demitido sem justa causa com uma conta aberta em seu nome, vinculada a seu contrato de trabalho, na qual são depositados mensalmente o correspondente a 8% do salário.

A Constituição de 1967 instituiu a aplicação da legislação trabalhista a empregados temporários, a proibição de greve em serviços públicos e atividades essenciais e o direito à participação do trabalhador no lucro das empresas, entre outras medidas.

A partir da Constituição de 1988, passam a ser previstos medidas de proteção contra demissões sem justa causa, o piso salarial, a licença maternidade e paternidade, o veto à redução do salário, a limitação da jornada de trabalho a oito horas diárias e 44 horas semanais e proibição de qualquer tipo de discriminação quanto a salário e critérios de admissão do trabalhador portador de deficiência. Também foi criado o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), destinado em parte ao custeio do Programa de Seguro Desemprego.

“São políticas criadas e geridas dentro do Ministério do Trabalho, por ele oferecer um corpo técnico e orçamento dentro do governo para discutir essas relações, mas que têm muito mais a ver com o ambiente político de cada época, a pressão popular por mudanças e cada governo do que com o órgão em si”, avalia Pieri.

O economista destaca que a partir dos anos 1990, a pasta assume um papel cada vez mais de fiscalização do cumprimento das normas e leis trabalhistas e na gestão de recursos como os do FGTS e do FAT.

E se o ministério acabar?História,Política,Emprego,Previdência Social,Brasil,Getúlio Vargas,Ministério do Trabalho,Bolsonaro,Justiça (3)Direito de imagem REUTERS Presidente eleito anunciou a extinção do Ministério do Trabalho

Se sua extinção se confirmar, não será a primeira vez que o Ministério do Trabalho será fundido com outras áreas.

Ao surgir em 1930, a pasta também era responsável por indústria e comércio. Em 1960, passa ser Ministério do Trabalho e Previdência Social. Torna-se puramente Ministério do Trabalho em 1974. Em 1990, volta a incorporar a Previdência.

Dois anos depois, passa a ser o Ministério do Trabalho e da Administração Federal e, em 1999, do Trabalho e Emprego. Em 2015, vira mais uma vez Ministério do Trabalho e Previdência Social, até, em 2016, tornar-se novamente apenas Ministério do Trabalho.

Ao tratar do tema, Bolsonaro já declarou em entrevistas que o trabalhador terá de”decidir entre menos direito e emprego ou todos os direitos e desemprego”. “Os encargos trabalhistas fazem com que se tenha aproximadamente 50 milhões de trabalhadores brasileiros na informalidade”, disse à rádio Jovem Pan.

Pieri avalia que, com o anúncio do fim da pasta, surge uma “incerteza jurídica” sobre quem exercerá os papéis que hoje cabem ao ministério. “Isso é uma questão mais importante do que se terá ou não um status de ministério, que é algo secundário.”

Nerling discorda e acredita que a transformação da pasta em uma secretaria sinaliza quais serão as prioridades do novo governo.

“Isso representa uma mudança de paradigma. Quando você dá a uma área status de ministério, diz que as políticas públicas nesta área serão priorizadas. Em um governo, a tomada de decisões ocorre em camadas, e a alteração de status precariza o cumprimento das competências que hoje cabem ao ministério, retira força e abala a eficácia de suas políticas”, diz Nerling.

“Ao dizer que se deve escolher entre trabalho e direitos, o presidente eleito diz que os direitos são um problema, mas isso só é um problema para o capital. Se antes o Estado se posicionava para garantir os direitos dos trabalhadores, agora, ele pesa a mão para o outro lado e passa a priorizar o capital.”

Por sua vez, Pieri destaca que, com a Reforma Trabalhista, passou a prevalecer sobre as leis trabalhistas a negociação entre sindicatos e empresas.

“O fim do ministério pode sinalizar um novo tempo em que o Estado não mais intermedia a relação entre capital e trabalho. Isso teria no futuro o efeito de despolitizar os sindicatos”, diz Pieri.

“Será necessário entender o que o presidente quis dizer com o fim do ministério. Significa um relaxamento da fiscalização e que o governo não está mais pensando nestes problemas ou apenas uma mudança burocrática? Bolsonaro não pode dar uma canetada e tirar direitos, mas temos de debater se alguns benefícios previstos na lei de fato beneficiam o trabalhador.”
BBC