Coronavírus acelera declínio da indústria de carvão

A mineradora Eagle Butte está localizada em Gillette, Wyoming, USA. Após o fechamento das minas de Blackjewel a indústria do carvão já estava sofrendo antes do coronavírus.

Josh Galemore / The Casper Star-Tribune via AP, arquivo
CHEYENNE, Wyo. (AP

A pandemia tornou as coisas muito piores. A produção diminui junto com a demanda de eletricidade, com as luzes do escritório e da escola apagadas em todo o país. Travis Deti está trabalhando nos telefones para tentar obter apoio do governo para os EUA. indústria de carvão durante a pandemia de coronavírus. Entre ligações recentes, o chefe da Associação Mineira de Wyoming tentou desentupir uma pia em casa.

Mas, diferentemente da pia de Deti, que finalmente começou a fluir novamente com a ajuda de um encanador, a ajuda permanece obstinadamente entupida para uma indústria cujo declínio já rápido está se acelerando devido aos efeitos econômicos do vírus.

“Vamos levar qualquer coisa agora”, disse Deti, cujo grupo representa empresas que produzem cerca de 40% do carvão do país.

A demanda por carvão afundou na última década em meio à competição com gás natural barato e fontes de energia renováveis ​​expandidas. As empresas de carvão enfrentaram um acerto de contas, à medida que o mundo procura combater as mudanças climáticas e se afastar dos combustíveis fósseis, apesar do esforço do presidente Donald Trump em reviver a indústria.

Agora, a pandemia piorou as coisas. Os bloqueios desligaram luzes e computadores em escritórios e escolas, minando a demanda por eletricidade fornecida pelas usinas a carvão. Os americanos presos em casa assistindo a Netflix não estão chegando perto de compensar essa queda na demanda, estimada em 3% para 2020.

A segurança dos trabalhadores é outra questão. Na região de carvão mais produtiva dos EUA – Wyoming e a bacia do rio Powder, em Montana – as empresas estão mudando de maneira impressionante e operando mais ônibus de e para cidades mineiras para criar mais espaço entre os trabalhadores.

As empresas suspenderam temporariamente as operações nas minas da Pensilvânia, Illinois e Virgínia para impedir a propagação do vírus. Alguns mineiros estão trabalhando apenas dois ou três dias por semana.

“Não há consistência entre a minha e a minha, mesmo dentro da mesma empresa”, disse Phil Smith, porta-voz do United Mine Workers of America, um sindicato que representa milhares de mineiros de carvão principalmente no leste dos EUA.

Mesmo antes do vírus, as empresas foram forçadas à falência e os trabalhadores enfrentaram folgas e demissões. Seis dos sete principais EUA as empresas de carvão pediram a falência do capítulo 11 desde 2015 e os analistas esperam mais à medida que a economia mergulha.

Existem pontos brilhantes, no entanto. O declínio mundial no consumo de eletricidade, juntamente com menos combustível sendo queimado para o transporte, significou um céu mais claro. A poluição por partículas caiu quase 19% na Índia e 6% na China desde antes do surto, segundo Fiona Burlig, do Instituto de Política Energética da Universidade de Chicago. A diminuição nos EUA é um modesto 0,5%.

Os EUA espera-se uma queda de 7,5% nas emissões de gases de efeito estufa causadas pelo aquecimento climático, associadas à redução da produção – ou seja, até que as emissões de dióxido de carbono surjam no próximo ano, à medida que a economia se recupera, segundo projeções da Energy Information Administration.

Mas há poucas dúvidas sobre o efeito esmagador das consequências econômicas do vírus no carvão. Em janeiro, antes da pandemia nos EUA, previa-se que a produção de carvão caísse 14% este ano. Com o coronavírus e um inverno ameno que significava menos eletricidade necessária para aquecer residências e empresas, espera-se que essa queda seja de até 25% – caindo para níveis nunca vistos em 55 anos.

“Simplesmente será que as energias renováveis ​​e o gás manterão seu mercado, e o carvão, sendo o combustível mais caro, será empurrado ainda mais do que seria”, disse Seth Feaster, do Instituto de Análise Econômica e Financeira de Energia.

A empresa de carvão de St. Louis, Foresight Energy, que emprega 800 pessoas, pode ser a primeira vítima relacionada ao coronavírus do setor. Ele entrou com pedido de proteção federal à falência em março, citando em parte “uma desaceleração da economia global devido a preocupações com o coronavírus”.

No mês passado, a Associação Nacional de Mineração pediu ao Congresso e à Casa Branca US $ 822 milhões em assistência federal, reduzindo ou eliminando royalties, impostos e taxas.

“Se pudermos continuar operando, isso é importante para nós”, disse Deti, do grupo Wyoming.

Até o momento, o Congresso mostrou pouca vontade de ajudar, e nenhum dos pedidos do setor foi incluído na conta de alívio de US $ 2 trilhões de coronavírus. Os analistas duvidam que qualquer ajuda significativa venha.

“Normalmente, quando você pensa em indústrias que o governo protegeu, são grandes e estrategicamente importantes”, disse Benjamin Nelson, diretor de crédito do Moody’s Investors Service. “Então, em um setor em declínio acentuado e secular, acho que há menos incentivo para se envolver”.

Quantos tipos de tomadas existem e por que há tantos diferentes?

TomadaAté agora, não foi possível convencer países sobre a conveniência de se unificar os padrões de tomada – Image copyrightTHINKSTOCK

Quem viaja muito deve conhecer até quatro tipos diferentes, mas existem pelo menos 14 deles, identificados por letras de A a N, segundo a Comissão Eletrotécnica Internacional (IEC, na sigla em internacional).[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Já para a International Trade Administration, órgão ligado ao Departamento de Comércio do governo americano, a lista conta com 15 tipos. “Não há um número definitivo”, diz Gabriela Ehrlich, porta-voz da IEC.

Achou confuso? Isso já dá uma ideia de como é complicado o debate em torno padronização das tomadas.

Por que tantos tipos?

Trata-se de uma pergunta lógica – e também um pesadelo para a IEC, instituição fundada em 1906 para desenvolver uma plataforma comum na qual pesquisadores e inventores pudessem desenvolver novas tecnologias. O grupo tenta padronizar plugues e tomadas há décadas.

“Quando começamos em 1906, nos concentramos nas grandes coisas, como a geração de energia, a terminologia, etc. Eram os grandes problemas de uma tecnologia ainda muito recente”, diz Ehrlich.

“As pessoas quase não viajavam, e os aparelhos eletrônicos, muito menos. As pessoas se conectavam à eletricidade com parafusos nos postes de iluminação pública. Com a popularização, cada país foi criando a sua própria solução, pouco a pouco.”

Nos anos 1970, os avanços nos transportes de mercadorias transformaram o comércio internacional em algo comum, mas já nessa época era muito difícil dar um jeito na confusão que se havia instalado.

“Alguns países deram muita ênfase à proteção dos seus mercados”, explica Ehrlich, que destaca que o primeiro padrão internacional para tomadas foi criado no fim dos anos 1960, mas até hoje só foi adotado por dois países: Brasil e África do Sul.

E a adoção é motivo de polêmica entre brasileiros desde 2007, quando as novas tomadas começaram a chegar ao mercado. Na época, o Instituto Nacional de Metrologia (Inmetro) decidiu unificar os mais de dez de tipos de plugues e tomadas que existiam. Em 2011, foi proibido fabricar aparelhos com outro padrão.

A nova tomada foi criada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e apresentada como mais segura, por reduzir a chance de choques elétricos.

Mas foi muito criticada por consumidores, que tiveram de adaptar as suas casas ao novo modelo, assim como os fabricantes de eletrônicos para exportação, já o Brasil era o único país a usá-lo até então – a África do Sul só viria a adotá-lo em 2014.

Padrões de tomadaImage copyrightIEC

A tomada do futuro

Há vantagens de eficiência ou segurança dependendo da tomada?

Ehrlich diz que não há muitas. Alguns tipos são mais seguros, outros podem ser mais eficientes em termos de custos, mas, em geral, são equivalentes.

No entanto, você deve ter notado que, no canto inferior esquerdo da imagem acima, está a foto de um cabo USB junto à pergunta: “A tomada do futuro?”

É que, segundo Ehrlich, é possível que esta seja a solução para que haja no mundo um padrão único.

“É a próxima grande oportunidade, quando houver corrente elétrica direta (diferente da corrente alternada, adotada universalmente no fim do século 19) em todo o mundo.”

Para isso, cabos e tomadas USB já presentes em vários dos nossos aparelhos teriam de ser adotados como padrão por países. Mas isso já é assunto para uma outra reportagem.
Yolanda Valery/BBC

Caos do setor elétrico já custou mais de R$ 110 bilhões em quatro anos

Considerada por muitos especialistas o “11 de setembro” do setor elétrico brasileiro, a MP 579 trouxe ônus para consumidores e insegurança para companhias e investidores.

Boa parte da conta do caos do setor elétrico acabou sobrando para os consumidores. | Brunno Covello/Gazeta do Povo

Boa parte da conta do caos do setor elétrico acabou sobrando para os consumidores.
Foto:Brunno Covello/Gazeta do Povo

No dia 7 de setembro de 2012, a então presidente Dilma Rousseff entrava em rede nacional para anunciar uma redução média de 20% na tarifa de energia dos brasileiros. Quase quatro anos após a aprovação da polêmica Medida Provisória 579, o saldo final para o setor elétrico e para os consumidores é um prejuízo que ultrapassa a casa dos R$ 100 bilhões – e que ainda deve crescer.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Boa parte dessa conta caiu no colo do consumidor, que, ao contrário do que havia sido prometido, viu sua tarifa de energia explodir de lá para cá.

Segundo cálculo do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), a conta chega a R$ 111 bilhões. Já Roberto D’Araujo, do Instituto Ilumina, calcula que ela ultrapasse os R$ 160 bilhões. A maior fatia está relacionada justamente às indenizações ofertadas como contrapartida às empresas de geração e transmissão que aceitaram antecipar a renovação dos contratos.

EFEITOS: Confira alguns dos principais custos decorrentes da MP 579

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Também entram no cálculo, empréstimos feitos com um pool de bancos para socorrer o caixa das distribuidoras, que sofriam com a exposição involuntária ao mercado livre; o custo do chamado “déficit hídrico” das geradoras, aportes do Tesouro para ajudar a bancar as tarifa, além de uma série de outros custos decorrentes de medidas para tentar reequilibrar o setor.

Para entender porque a MP 579 foi um grande desastre para o setor elétrico é preciso voltar um pouco. A medida foi criada para promover uma redução média de 20% na tarifa de energia dos consumidores em troca da renovação antecipada das concessões das empresas, mas uma série de mudanças regulatórias – e dois imprevistos importantes – trouxeram efeitos danosos para o setor.

O governo não contava, por exemplo, que cerca de 10 mil MW de energia ficariam de fora do pacote de renovações. A não adesão das concessionárias Cesp (SP), Cemig (MG) e Copel (PR) à proposta acabou deixando as distribuidoras de energia descontratadas em um curto espaço de tempo, justamente num momento em que o preço da energia no mercado à vista estava nas alturas.
Isso porque, no ano em que a MP virou lei, em 2013, a falta de chuvas começava a comprometer o nível dos reservatórios e deteriorar as condições de geração de energia. A situação que já era ruim ficou ainda pior, obrigando o setor a recorrer às térmicas mais caras para garantir o abastecimento ao longo de 2013, 2014 e parte de 2015.

“A MP 579 parte de um diagnóstico correto. A redução da tarifa de energia era necessária para promover a competitividade do setor, sobretudo da indústria. O problema é que ela coincidiu com problemas não previstos pelo governo, que foi ao extremo e tomou uma série de medidas equivocadas para respaldar sua decisão”, afirma Joisa Dutra, diretora do Centro de Estudos em Regulação e Infraestrutura da Fundação Getulio Vargas (FGV/CERI).

O que veio depois foi uma sucessão de ações do governo para tentar saná-los. Mais de 40 medidas, entre portarias, regulamentações e decretos, foram editadas pelo governo depois da MP 579 para tentar reequilibrar as finanças do setor elétrico, lembra Joisa.

Tarifa disparou

Sem dinheiro para manter os aportes prometidos para subsidiar a redução na conta de luz, e pego no contrapé pela maior estiagem dos últimos anos, o governo foi obrigado a autorizar o repasse de parte dos custos bilionários para a tarifa. Resultado: no fim de 2014 a conta de luz dos brasileiros havia voltado ao patamar de antes do desconto.

Só as bandeiras tarifárias, que entraram em vigor em janeiro de 2015 para cobrir o custo das distribuidoras com energia térmica, impactaram as tarifas em R$ 17,8 bilhões até março deste ano, segundo dados da Conta da Bandeira Tarifária.

No Paraná, após uma queda de 22% em 2012 e 2013, a tarifa residencial da Copel, sofreu quatro reajustes, um deles extraordinário, acumulando alta de 104% no período

Segundo o Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie), não é possível precisar, com exatidão, quanto, em valores, tarifas ao consumidor final cobrem dos custos do setor elétrico decorrentes do impacto da MP 579 e nem quanto desses custos são resultado da estiagem ou das mudanças regulatórias. O que se sabe é que essa conta será paga de duas formas: parte pelos consumidores, por meio das tarifas de energia, parte pelos contribuintes, em forma de tributos, no caso dos recursos que foram aportados pelo Tesouro.

Herança bilionária

Confira alguns dos principais custos decorrentes da MP 579

1 Indenizações – R$ 50 bilhões

Até agora, as indenizações somam cerca de R$ 50 bilhões, R$ 37,9 bilhões da Transmissão e R$ 12 bilhões para as geradoras. Pela proposta original da MP 579, os ativos de transmissão anteriores ao ano 2000 não seriam indenizados, mas o governo voltou atrás e decidiu compensar as transmissoras. O acordo prevê que as empresas enviem ao governo laudos técnicos com estimativas do valor a ser indenizado. A ANEEL ainda não aprovou os Laudos de Avaliação das concessionárias CEEE GT, COPEL GT, CELG GT e há recurso administrativo sobre o valor da CTEEP. No entanto, os valores já aprovados somam R$ 20 bilhões, mas o saldo das reivindicações dessas empresas é de R$ 25 bilhões.

2 Empréstimos às distribuidoras – R$ 21,2 bilhões

No total, foram três empréstimos feitos com oito bancos por meio da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE). Em 2014 foram 17,8 bilhões divididos em duas etapas (R$ 11,2 bilhões e R$ 6,6 bilhões). Em 2015 foram aportados mais 3,4 bilhões. Colocando o valor aos juros acumulados durante o período de amortização dos empréstimos (até 2020) o total chega a R$ 39,1 bilhões, valor que passou a ser pago em 2015, por meio de encargos nas tarifas de energia. Esses recursos foram usados para cobrir a exposição involuntária das companhias ao mercado à vista, onde o preço da energia estava alto em função do elevado despacho térmico.

3 Socorro às geradoras – R$ 30 bilhões

Trata-se do custo do chamado “déficit hídrico” (diferença entre a energia que as hidrelétricas geraram e o que elas deveriam ter produzido para atender seus contratos) medido pelo GSF (Generation Scaling Sactor). Diante da falta de chuvas, as empresas tiveram de comprar energia mais cara no mercado à vista, gerando um rombo bilionário que se acumula desde 2014. A conta ultrapassou aos R$ 20 bilhões em 2015, quando foi editada a MP 688 que faz uma repactuação do risco hidrológico e prorroga as concessões hidrelétricas para compensar o prejuízo.

4 Aporte do Tesouro para redução das tarifas – R$ 20 bilhões

Para ajudar a bancar a redução de 20% das tarifas, o governo prometeu uma contrapartida em aportes do Tesouro. Foram R$ 10 em 2014 e mais R$ 10 em 2015. Esse valor foi aportado a fundo perdido. Este custo não foi repassado ás tarifas de energia, mas ficou na conta no pagador de impostos.

5 Relicitação com outorga – R$ 17 bilhões

Previsto para seis de novembro, o leilão das 29 hidrelétricas que não participaram da renovação das concessões em 2013 projetava uma redução de 82% na tarifa média dessas usinas, o que traria um alívio de R$ 6 bilhões na conta de luz dos brasileiros. Mas o governo mudou as regras do certame e, além de aplicar uma tarifa mais elevada, vai cobrar das empresas vencedoras uma bonificação de outorga de R$ 17 bilhões, algo inédito desde a remodelação do setor, em 2004. O valor deve ser diluído na tarifa dos consumidores

Valor de mercado da Eletrobras derreteu com a MP 579

Os cálculos que tentam dimensionar o rombo bilionário deixado pela MP 579 não incluem a perda de valor das companhias do setor, especialmente da Eletrobras, mas deveriam, argumenta Roberto D’Araujo, diretor do Ilumina.

Usada para bancar a redução artificial das tarifas de energia, a empresa de capital aberto controlada pelo governo brasileiro perdeu 62% do seu valor de mercado. Em 2011, a Eletrobras valia R$ 26,5 bilhões. Seis anos depois, em maio de 2016, seu valor de mercado era de R$ 10,1 bilhões, uma desvalorização de R$ 16,3 bilhões, de acordo com dados da consultoria Economatica.

A estatal federal foi a companhia com o maior número de ativos enquadrados pela MP 579. Na área de geração, 47,4% dos ativos da empresa foram afetados pela renovação das concessões; na transmissão, o índice chegou a 92%. “Esse déficit não me assusta, pois, apenas como exemplo de sumiço de receita, a tarifa de uma usina como Furnas caiu de R$ 90/MWh para R$ 8/MWh. Só na energia, redução de 90%”, afirma D’Araujo.

Além de ser penalizada com tarifas baixas, que em muitos casos não cobrem os custos de operação e manutenção das usinas e linhas de transmissão, a indenização devida pelos ativos não amortizados também ficou abaixo do valor real desses ativos.

O setor elétrico como um todo perdeu R$ 48 bilhões valor de mercado nesse período, ressalta o professor Renato de Queiroz, pesquisador associado do Grupo de Economia da Energia (GEE) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Depois de alcançar R$ 179,5 bilhões em valor de mercado em 2011, o setor atingiu seu pior momento em dezembro de 2015, quando as elétricas valiam R$ 117,8 bilhões. Neste ano, até maio, o setor elétrico registrava R$ 131,4 bilhões. Apesar da recuperação, o valor segue abaixo do patamar de 2012, antes da MP.
Cíntia Junges/Gazeta do Povo

Usina de Belo Monte, e como não produzir energia no século XXI

Em 12 de dezembro de 2015, a represa de Belo Monte, no Brasil, começou a ser enchida.*Hidreléticas,Belo Monte,Energia,Brasil,Poluição,Amazônia,Blog do MesquitaO projeto mais importante do programa energético da presidenta Dilma Rousseff também é um monumento a como não se deve produzir energia no século XXI. Além de seu alto custo, a represa está associada a casos de corrupção e a grandes impactos socioambientais.

Belo Monte seria a terceira maior represa do mundo. Foi construída no norte do Brasil, no rio Xingu, um afluente importante do Amazonas. Produziria, em média, apenas um terço da sua capacidade máxima. Vai inundar 516 km2 (o tamanho da cidade de Chicago) de floresta amazônica, áreas cultiváveis e zonas urbanas de Altamira, Pará.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“…o governo e a sociedade brasileiros não toleram e não vão tolerar a corrupção. A democracia brasileira se fortalece quando a autoridade assume o limite da lei como seu próprio limite. Muitos de nós lutamos para isso justamente quando as leis e os direitos foram atacados durante a ditadura…”, disse Rousseff na Assembleia Geral da ONU em setembro passado. Ela falou de incluir os “problemas das comunidades indígenas” nos compromissos climáticos do país.

Também em setembro, a casa da Dona Antônia Melo, em Altamira, foi demolida pela Norte Energia, consórcio construtor de Belo Monte. Antônia lidera o Movimento Xingu Vivo para Sempre que defende os direitos dos moradores da bacia do Xingu.

A de Antônia é uma das cerca de 3.000 famílias deslocadas por uma represa que afetará 40.000 pessoas no total, muitas delas indígenas.

No dia 24 de novembro de 2015, a autoridade ambiental autorizou a operação de Belo Monte, apesar do descumprimento de condições socioambientais essenciais e ignorando pareceres técnicos ambientais e da autoridade de proteção dos indígenas.

Desde 2011, quando começou a construção, várias comunidades indígenas sofreram graves danos à saúde, integridade, território e cultura. Isso piorou com a proximidade da operação da represa. Os serviços públicos, incluindo centros de saúde e cuidados infantis – já em si precários –, entraram em colapso. A violência cresceu exponencialmente: os assassinatos dobraram, acidentes de trânsito aumentaram 144% e a violência sexual e a prostituição explodiram, afetando crianças e adolescentes, sem que as denúncias sejam atendidas.

Embora tenham sido entregues mais de 2.600 casas para as famílias deslocadas, elas denunciam defeitos estruturais, falta de transporte público e serviços essenciais. As casas não têm esgoto, uma das condições da licença.

O discurso de Rousseff é um paradoxo com a realidade. Ela foi vítima da ditadura, mas agora usa recursos desse regime para implementar Belo Monte.

O Ministério Público Federal entrou com mais de 20 ações judiciais contra o projeto e juízes ordenaram a suspensão de suas obras em pelo menos seis ocasiões. Essas decisões foram anuladas a pedido do governo de Rousseff, aplicando a suspensão de segurança, instrumento legal ironicamente criado pela ditadura. A última vez foi em janeiro, quando a Justiça Federal suspendeu o enchimento da represa por descumprimento de obrigações relativas à proteção das comunidades indígenas. A decisão foi anulada dias depois.

A corrupção também atingiu o projeto. Segundo confessaram executivos das empresas Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez, milionários subornos foram pagos para a sua implementação. A questão é parte da Lava Jato, a maior investigação contra a corrupção da história do Brasil.

Os impactos de Belo Monte foram denunciados à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e às Nações Unidas. As respostas foram lentas ou inexistentes. Em abril de 2011, a CIDH pediu que o Brasil suspendesse as obras por falta de consulta livre, prévia e informada com as comunidades indígenas.

A reação brasileira foi contundente: retirou seu candidato para a CIDH, seu embaixador junto à OEA, parou de enviar suas contribuições anuais a esse organismo e começou um processo de “fortalecimento” do Sistema Interamericano que terminou reformando o regulamento da Comissão.

A CIDH deixou de pedir a suspensão das obras, mas apenas ações urgentes para proteger as comunidades indígenas afetadas. Em 2011, estas comunidades processaram o Brasil e quatro anos depois, em dezembro de 2015, a Comissão começou a avaliar o caso. Este organismo poderia priorizar o caso, tomar uma decisão logo e evitar mais danos.

Como diz dona Antônia, a luta continua. Rousseff ainda pode demonstrar que seu governo não vai tolerar a corrupção e que, ao contrário da ditadura, não despreza as normas. A CIDH e outras autoridades têm a oportunidade histórica de exigir o respeito pelos direitos humanos e ajudar que os países consigam um desenvolvimento que não sacrifique pessoas. Devem fazer isso logo, porque Belo Monte já está enchendo.

* Astrid Puentes Riaño é codiretora da AIDA, Associação Interamericana para a Defesa do Ambiente. @AIDAespanol, @astridpuentes.

Amazônia, energia elétrica e sustentabilidade

Por Joaquim Francisco de Carvalho e Ildo Luís Sauer – VALOR 

Imagens colhidas de satélites meteorológicos mostram que o clima da Amazônia exerce forte influência sobre os regimes hidrológicos e pluviométricos de toda a América do Sul, e garante a estabilidade climática, fluvial e pluviométrica – portanto, a sustentabilidade da agricultura – de todo o Brasil.

Assim, a Amazônia vale pela importância de seus próprios ecossistemas.

Enquanto não se acumularem e testarem suficientes conhecimentos científicos e técnicos sobre os intrincados ecossistemas regionais, a Amazônia deve ser mantida em sua integridade, evitando-se, principalmente, a pecuária extensiva, a ampliação de monoculturas de exportação (soja, milho etc.), a exploração madeireira e a implantação de novos projetos de mineração.

Apesar da polêmica desencadeada pelas organizações ambientalistas, a alternativa mais interessante para se desenvolver a Amazônia, mantendo a sua integridade, seria a de aproveitar o potencial dos recursos naturais renováveis da região, com projetos de turismo ecológico, extrativismo e geração de energia elétrica.

Além de serem excelentes geradores de empregos e uniformizarem a distribuição de renda na região, o turismo ecológico e o extrativismo dependem da integridade do ecossistema.

Empresas públicas e privadas de geração elétrica poderão ser as maiores defensoras do ecossistema amazônico 

Quanto è geração de energia elétrica, a Amazônia tem um dos maiores potenciais do mundo e, mediante políticas inteligentes e rigorosamente aplicadas, as empresas públicas e o empresariado do setor de geração elétrica deverão se transformar nas maiores defensoras do ecossistema amazônico.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Alterações causadas por desmatamentos para abrir terrenos para plantações de soja e milho, criação de gado, projetos de exploração mineral e outros comprometerão o potencial hidrelétrico, inviabilizando as próprias usinas.

De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o potencial hidrelétrico brasileiro é de 268 GW, dos quais apenas 30% estão em aproveitamento. A região amazônica detém 65% do potencial não aproveitado.

Admitamos que, por motivos de caráter social e ambiental, os planos de expansão do sistema elétrico sejam reformulados, para se limitar em 80% o potencial hidrelétrico a aproveitar na Amazônia – e que as hidrelétricas a serem implantadas naquela região alaguem 0,2 km2 /MW. O que é uma hipótese conservadora, pois a maioria dos aproveitamentos existentes em outras regiões e em construção, na própria Amazônia, apresenta uma relação bem menor entre área inundada e potência instalada. Neste caso o aproveitamento do potencial hidrelétrico amazônico ocuparia cerca de 0,4% da área da região, ou seja, menos do que os grandes projetos agrícolas ou de pecuária.

Mesmo assim o Brasil poderá adicionar uma capacidade hidrelétrica de 148,7 GW aos 79,3 GW já instalados. Somando-se a isto os 17 GW das pequenas hidrelétricas, teremos uma capacidade hidrelétrica total de 245 GW.

No entanto, as ONGs ambientalistas optam por uma posição fundamentalista, baseada no dogma de que a Amazônia é intocável. É certo que os ecossistemas amazônicos são delicados, mas isso não significa que ficarão estacionados em sua condição primordial, se é que se possa falar em condição primordial de sistemas que se vêm alterando desde a origem, como todos os ecossistemas terrestres.

Com ou sem hidrelétricas, os povos indígenas (que fazem parte do ecossistema amazônico) vão continuar com as derrubadas e queimadas de matas, tradicionais em sua agricultura. E ainda há as mineradoras, o agronegócio e os pecuaristas, sobre os quais as ONGs ambientalistas ficam silenciosas, preferindo vociferar contra o aproveitamento do potencial hidrelétrico, que poderá dar ao Brasil um sistema elétrico limpo e sustentável.

A interligação do sistema hidrelétrico com o sistema eólico permitiria que parte da energia gerada pelas centrais eólicas ficasse “armazenada”, na forma de água acumulada nos reservatórios hidrelétricos – de maneira semelhante às malhas termo-eólicas de alguns países europeus, nas quais a energia dos parques eólicos permite que se economize gás natural ou óleo combustível. Segundo o Centro de Pesquisas em Energia Elétrica da Eletrobras, o potencial eólico brasileiro (com turbinas em torres de 50 metros) é de 143 GW. Note-se que, com torres mais altas, o potencial é maior.

O sistema hidroeólico poderia operar em sinergia com usinas termelétricas a biomassa, pois a frota automotiva brasileira é em grande parte alimentada com etanol, forçando a produção do bagaço de cana em escala suficiente para alimentar termelétricas de pequeno e médio porte, totalizando, em conjunto, uma capacidade da ordem de 15 GW, segundo a União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).

Assim, aproveitando apenas fontes primárias limpas e renováveis, o sistema interligado hidroeólicobiotérmico teria uma capacidade conjunta de 403 GW, podendo gerar 1.589 GW por hora firmes por ano, admitindo-se, conservadoramente, que o fator de capacidade do sistema integrado será igual à média ponderada dos fatores de capacidade de cada sistema isoladamente, que é 0,45.

Por outro lado, de acordo com o IBGE, a população brasileira deverá se estabilizar em 215 milhões de habitantes, por volta do ano 2040, de modo que o sistema integrado hidroeólicobiotérmico teria um potencial suficiente para oferecer à população 7.390 kWh por habitante por ano, equiparando o Brasil a países de alto nível de qualidade de vida, tais como a França, a Alemanha e a Grã-Bretanha.

A reserva de segurança do sistema hidroeólicobiotérmico seria constituída pelas termelétricas a gás já existentes nas diversas regiões do país. Portanto, ao contrário de alguns países europeus e do Japão que, em médio prazo, não têm melhor alternativa, o Brasil não precisa correr o risco de gerar em centrais nucleares a energia elétrica de que precisa ou precisará.

Joaquim Francisco de Carvalho é pesquisador associado ao IEE/USP e ex-diretor industrial da Nuclen (atual Eletronuclear).
Ildo Luís Sauer é diretor do IEE/USP e ex-diretor de energia e gás da Petrobras

Design – Chuveiro gerador de energia

Mini Hydro Turbine – Designer: Jin Woo Han

Que tal produzir energia enquanto toma banho?
A pressão da água move uma mini turbina eletrônica, que produz energia para ser utilizada através de plug colocado acima da turbina.
Nesse plug pode ser ligada uma bateria para armazenar a eletricidade produzida.



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Apagão. Sistema brasileiro é vunerável

Sistema elétrico brasileiro tem vulnerabilidade, afirma Pinguelli Rosa

Problema não é de geração, é de propagação de falhas de transmissão.

Gestão mais inteligente bloquearia efeito dominó ocorrido ontem.

Na avaliação do físico Luiz Pinguelli Rosa, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o apagão que afetou vários estados brasileiros na noite de terça-feira (10) não indica um problema de fornecimento de energia no país, mas de gestão de linhas de transmissão de longa distância.

“O sistema de interligação é necessário em um país que usa muitas hidrelétricas, mas precisa ter uma gestão melhor”, disse. “Não tivemos problema de energia, nós temos água, temos hidrelétricas disponíveis e o combustível para elas, o que tivemos foi um problema elétrico.”

“No mundo todo se dedica atenção a esse problema, de ter redes mais inteligentes, chamadas smart grid, de energia elétrica.”

A lição do apagão de ontem, portanto, seria a necessidade de assegurar um “ilhamento”, um isolamento de problemas que evite a propagação de falhas. O efeito dominó registrado ontem acabou isolando uma usina com 14 gigawatts de potência, fundamental para o fornecimento de todo o país. “Segurança absoluta na engenharia não existe. Não se pode garantir 100% nada, mas tem de se minimizar esse risco e estamos notando que isso não vai bem.”

“Segurança absoluta na engenharia não existe. Não se pode garantir 100% nada, mas tem de se minimizar esse risco e estamos notando que isso não vai bem”

“(Esse desafio) é característico de um país hidrelétrico. Em um país cuja geração hidrelétrica não é porcentualmente importante, a geração está em toda parte, em qualquer lugar você tem usina”, explicou Pinguelli Rosa. “No Canadá e no Brasil, com geração hidrelétrica concentrada, já há esse problema. Você tem de trazer muita energia a uma distância muito grande.”

“Tudo indica que houve fenômeno atmosférico intenso, um temporal que rompeu a linha elétrica”, disse Pinguelli Rosa, que coordena o Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Ele avalia que, progressivamente, as alterações do clima vão exigir adaptações do país para fazer frente a tempestades mais frequentes e para fazer gestão da água.

Eletricidade gerada por fogão a lenha para moradores isolados na floresta

Acre tem 25 mil famílias que moram em locais remotos.
Fogão-gerador permite uso de lâmpadas, TV e geladeira.

Tecnologia,Energia,Meio Ambiente,Amazônia,Energias AlternativasO aparelho tem uma máquina a vapor embutida.
Foto: Divulgação

O Acre tem cerca de 25 mil famílias que vivem em regiões de difícil acesso. A ausência de rede elétrica acaba deixando essas pessoas ainda mais isoladas e sem confortos básicos, como televisão, rádio e geladeira. Pensando nisso, o inventor Ronaldo Sato desenvolveu um fogão a lenha capaz de produzir eletricidade.

Adotado e produzido pelo governo do Acre, o aparelho tem tecnologia simples: uma máquina a vapor move um gerador que alimenta uma bateria. Com oito horas de fogo é possível gerar eletricidade para alimentar quatro lâmpadas econômicas e um televisor por quatro horas.

Segundo a Fundação de Tecnologia do Estado do Acre (Funtac), apesar de o sistema funcionar com vapor, o aparelho não é perigoso porque uma válvula se abre automaticamente sempre que necessário, aliviando a pressão.

Tecnologia,Energia,Meio Ambiente,Amazônia,Energias AlternativasLevar o fogão a pontos remotos do Acre pode ser um verdadeiro desafio.
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O fogão funciona com qualquer tipo de biomassa – lenha, serragem, restos de madeira. Um novo projeto acoplou um freezer ao sistema diretamente, ou seja, a máquina a vapor gira o motor do refrigerador, sem ser necessária a geração de eletricidade.

O fogão-gerador custa R$ 5 mil. Como o preço é alto para o público a que se destina, o governo está doando o equipamento. Até agora foram produzidas 63 unidades, mas outras 300 devem ficar prontas até o fim do ano.

Tecnologia,Energia,Meio Ambiente,Amazônia,Energias AlternativasA expectativa da Funtac é que o fogão seja incluído no Programa Luz Para Todos do governo federal, o que permitiria que fosse produzido em escala, barateando seu preço.

do G1 – Dennis Barbosa Do Globo Amazônia, em Rio Branco – o jornalista viajou a convite da Embaixada da Alemanha