Vitória de Crivella no Rio, a ponta de lança do projeto político da Igreja Universal

Influente membro da terceira igreja evangélica mais numerosa do Brasil governará a cidade-vitrine do país.

Crivella eleito para a prefeitura do Rio nas eleições 2016O novo prefeito do Rio, Marcelo Crivella. Foto:YASUYOSHI CHIBA AFP

O Rio de Janeiro, a segunda maior cidade do Brasil, sede dos últimos Jogos Olímpicos e do Carnaval mais famoso do mundo, acaba de eleger prefeito o líder evangélico Marcelo Crivella, de 59 anos. Sua vitória, com 59,37% dos votos decide uma eleição que levou ao segundo turno as duas faces do Brasil de hoje.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Em um extremo estava o modelo conservador encarnado por Crivella, senador desde 2002, engenheiro, cantor gospel de sucesso, defensor da teoria criacionista, evangelizador na África e ex-bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, a terceira com mais fiéis do Brasil, fundada por seu tio Edir Macedo, que controla a segunda maior rede de TV do Brasil, a Record.

No outro, Marcelo Freixo, um professor de história, de 49 anos, deputado estadual e defensor da legalização do aborto e das drogas, que encarnou a resistência das forças de esquerda em plena crise do Partido dos Trabalhadores, da ex-presidenta Dilma Rousseff, destituída do poder há apenas dois meses. Para além dos espectros ideológicos irreconciliáveis, os programas de ambos os candidatos divergiam em alguns pontos, como a participação da iniciativa privada na gestão da cidade, que Crivella defende.

A folgada vitória de Crivella, do Partido Republicano Brasileiro (PRB), braço político de sua igreja, foi impulsionada pelo eleitorado evangélico, que representa um terço dos quase 4,9 milhões de votantes, e pelos eleitores mais pobres e menos instruídos. Crivella, que disputava sua terceira eleição a prefeito da cidade e já tentara se tornar governador em 2006 e 2014, atraiu também os votos de seus aliados políticos de centro e direita, como Índio da Costa (PSD) e Carlos Osório (PSDB) e a maioria dos vereadores eleitos pelo PMDB, e da direita radical, representada por Flávio Bolsonaro (PSC).

Freixo, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), paradoxalmente, contou com o apoio das classes mais ricas e educadas, assim como dos mais jovens. Os grandes vencedores, porém, foram a abstenção (26,85%) e os votos brancos (4,18%) e nulos (15,90%). A ressaca da crise política, os escândalos de corrupção e o longo processo de destituição de Rousseff se traduziram em desânimo nestas eleições municipais. Apesar de o voto ser obrigatório no Brasil, a abstenção já tinha sido a protagonista no primeiro turno no Rio e em outras grandes capitais, onde os candidatos mais votados não conseguiram superar a soma dos votos não dados.

No seu primeiro discurso como prefeito, Crivella agradeceu a Deus, sua família, seus aliados e até a Igreja Católica. “Aquele que se elege é apenas um representante de todos os que lutaram junto para que nosso projeto pudesse alcançar o coração dos nossos eleitores. É um momento de imensa emoção, sobre todo para mim que já vinha tentando ser prefeito do Rio em varias ocasiões. O momento em que saiu o resultado foi insquecível”, disse acompanhado da esposa e dezenas de militantes.

Crivella criticou, mais uma vez, a imprensa que, segundo ele, orquestrou uma campanha contra sua candidatura. Nos bastidores, na verdade, há também uma luta de poder entre a TV da Igreja Universal, a TV Record, e sua principal concorrente, a TV Globo. “Vencemos uma onda enorme de preconceitos, por parte de uma mídia facciosa que se opôs à nossa campanha”, diz Crivella.

Uma vitória sem precedentes

Crivella na prefeitura da segunda cidade mais populosa do Brasil é uma conquista sem precedentes para os evangélicos. As igrejas evangélicas estão em expansão no Brasil: o número cresceu 61% entre 2000 e 2010. Seus pastores já concentram poder no Legislativo –são 80 parlamentares, 14% a mais do que na última legislatura–, mas têm, até agora, pouco peso em cargos executivos.

O novo prefeito, que se empenhou durante toda a campanha em suavizar seu papel em uma igreja que demoniza outras religiões e vê a homossexualidade como um pecado terrível, promete não misturar religião com política. No entanto, Crivella já declarou anos atrás que trocou o altar pela política por determinação de sua igreja e que algum dia o Brasil teria um presidente evangélico. “E, então, queridos irmãos”, disse a um grupo de pastores em 2011, “poderemos ser a igreja evangelizadora dos últimos dias e levar o evangelho a todas as nações da terra”.

Agora deverá demonstrar com sua gestão e suas indicações que seu gabinete ficará afastado do púlpito. Entre os nomes que têm se discutido para ocupar as secretárias de Crivella está o do cientista político e editor César Bejamin, para a pasta de Educação, Carlos Osório, candidato derrotado do PSDB, na secretaria de Transportes, e Índio da Costa na Casa Civil, embora ele prefira a secretária da Saúde.

Crivella deve enfrentar o enorme desafio do Rio pós-olímpico. A cidade, de mais de seis milhões de habitantes, enfrenta depois dos Jogos um brusco aumento do desemprego e sofre os reflexos da grave crise financeira vivida pelo país e, sobretudo, o Estado do Rio, em áreas fundamentais como segurança e saúde.

Os cariocas precisam também de itens básicos como saneamento, ruas que não se tornem rios na época das chuvas, moradia social e ônibus com ar condicionado em verões que ultrapassam os 45 graus. O Rio precisa também projetar-se como destino de turismo internacional, não só de visitantes, mas de empresários e eventos esportivos, para rentabilizar as milionárias obras e as mais de 50.000 vagas de hotel com as que a cidade chegou à maior festa esportista do mundo.
Maria Martín/ElPais

No Brasil da Lava Jato, urnas punem PT, mas não outros investigados no escândalo

O PT perdeu cerca de 60% das prefeituras. Analistas discutem o peso da do fator corrupção no voto.

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Em ano dominado pela Operação Lava Jato, em que o assunto corrupção foi mote de manifestações a conversas de bar, o PT saiu como o grande derrotado das eleições municipais.

No melhor dos cenários, terá sofrido uma queda de 58,6% no número de prefeituras pelo Brasil – número semelhante, 44,8%, indica o encolhimento nas Câmaras municipais.

Para grande parte do eleitorado, a punição das urnas significa uma vitória contra a [ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]corrupção. Em Perdizes, bairro de classe média alta de São Paulo, quando anunciada a vitória em primeiro turno de João Dória (PSDB) – uma das mais acachapantes e surpreendentes das eleições – os gritos de um homem se sobressaíam em meio à comemoração generalizada: “O PT acabou, chupa petralha, agora vocês vão ter que trabalhar, acabou a boquinha!”.

A surra foi no PT ou na corrupção como um todo? Alguns indicadores ajudam a responder a questão.

O quase de Fernando Haddad

Eleito em São Paulo teve menos votos que a soma de brancos, nulos e ausentes
Candidatos das ‘bancadas da bala’ exploram discurso do medo e miram prefeituras
PP, por exemplo, legenda campeã em citações na Lava Jato, com 32 políticos investigados, tornou-se ontem a quarta maior força em número de prefeituras. São 494. O PMDB, vencedor histórico quando o assunto é o número de administrações municipais, manteve sua média ao eleger 1.027 prefeitos.

Na Lava Jato, tem ao menos sete políticos em investigação, sendo que alguns têm grande projeção nacional, como Renan Calheiros, presidente do Senado, e Romero Jucá, ex-ministro do Governo Temer. Além do suposto envolvimento em esquemas de corrupção, há uma série de novos vereadores, prefeitos e aspirantes ao cargo que disputarão o segundo turno e têm problemas na Justiça. Afinal, as urnas punem corruptos e candidatos enroscados, de forma geral, em problemas judiciários? Para especialistas ouvidos pelo EL PAÍS, a resposta é não.

“É difícil mostrar cientificamente como funciona a punição ao corrupto na política brasileira, mas minha pesquisa mostra empiricamente que quanto maior é a percepção da corrupção, mais tolerante o eleitor fica e mais limitada é a punição”, diz a cientista política Nara Pavão, que desenvolveu uma linha de estudo em universidades do exterior sobre o comportamento do eleitorado.

Segundo ela, dados concretos mostram que a percepção da corrupção aumentou nos últimos dez anos no Brasil, mas que a tolerância do eleitorado também aumentou. “Essa é uma dinâmica perversa, mas é importante lembrar que a corrupção é apenas uma das múltiplas dimensões da avaliação do eleitorado. Se o voto é influenciado por processos judiciais, ele também depende de outras questões, como situação econômica, políticas sociais, ideologia”, analisa Nara. Neste contexto, o PT, que governou por quase 14 anos, também é ligado à mais grave recessão em ao menos 25 anos, com 12 milhões de desempregados.

“Quanto maior é a percepção da corrupção, mais tolerante o eleitor fica e mais limitada é a punição”

Para o sociólogo Jessé de Souza, que tem dedicado seus estudos às novas classes trabalhadoras emergentes no Brasil, nos últimos anos existiu uma fulanização da corrupção na figura do PT. “Este tema tem sido usado de forma manipulativa e desta vez não foi diferente. Ao apontar para o PT, o problema da corrupção, que é sistêmico do programa político brasileiro, é esvaziado. Assim, o castigo da urna é torto em alguns casos e em outros não acontece”, diz.

“Ao deixar os processos pouco acessíveis, acabamos reforçando a ideia de que a política é em si uma atividade corrupta”

Segundo Andrei Roman, coidealizador do site Atlas Político (que através de um banco de dados mapeia perfis e atuação de políticos brasileiros), cenários polarizados, como o descrito por Souza, são os que mais desfavorecem a punição política por meio das urnas. “Esperava-se que a Lava Jato teria a capacidade de ‘limpar a política’. Mas não é isso que está acontecendo. Por conta de um cenário de exacerbação da polarização política, movimentos favoráveis ao impeachment fecham os olhos para evidências de corrupção dentro do Governo. E a esquerda, incrédula com o Judiciário, passou a não dar mais crédito à operação”, comenta Roman.

Para Nara, os momentos de polarização também favorecem o uso político das acusações de corrupção, o que acaba por banalizar a questão. “Neste contexto, o eleitor acaba conseguindo descartar acusações com mais facilidade. Além disso, muitas vezes as notícias que chegam são usadas apenas para reforçar um comportamento que o eleitorado já tinha. Quando a informação não serve a esse fim, ela é simplesmente descartada”, diz a pesquisadora.

Ao escolher vereadores o eleitorado costuma se informar mais sobre o candidato, buscando informações em sites de monitoramento político e votando em quem tem atuação nos bairros em que os eleitores vivem, por exemplo, identificou a reportagem. Quando o assunto é o poder Executivo, contudo, a coisa muda um pouco de figura. “Minha escolha de vereadora é por uma pessoa que atua em projetos sociais dos quais eu sou próximo. Agora quando escolho para cargos altos, como prefeito, governador e presidente, o dado de se tem um processo na Justiça ou não, importa menos.

Quase todos estão envolvidos em algum tipo de escândalo”, diz o analista de pesquisa de mercado, Cleber Valvassori. Outros entrevistados relataram o mesmo procedimento: uma pesquisa apurada para o Legislativo e um voto que leva em consideração diferentes pontos para o Executivo.

Segundo Nara, as escolhas para Executivo e Legislativo são sempre diferentes. A primeira é bem mais impessoal que a segunda, mas o peso de processos judiciais seria o mesmo na balança da opção. Acontece, contudo, que esse não é o peso central. Nem aqui, nem no resto do mundo. Recentemente, o EL PAÍS publicou um texto tratando da percepção de que políticos corruptos não são punidos na Espanha.

A conclusão? Essa percepção é geral e mundial. Um raciocínio habitual é equiparar com cinismo a corrupção em todos os partidos: para que entrem outros corruptos, que fiquem os meus. “O principal obstáculo para o castigo tem relação com o partidarismo: os seguidores de um partido tendem a ver a corrupção dessa partido como menos grave”, diz Jordi Muñoz, professor da Universidade de Barcelona, citado na reportagem que analisa a vitória do conservador Partido Popular espanhol.

Justiça e transparência

Não há um levantamento acurado de quantos políticos com problemas judiciais participaram ou foram eleitos neste pleito. Ao fazer um levantamento caso a caso, a ferramenta Atlas Político é a que mais se aproxima da resposta, mas não consegue chegar a um número preciso pela falta de transparência do sistema Judiciário. “Existem dezenas de tribunas, cada um com sua especificidade própria na divulgação de processos, então fica muito difícil cruzar dados de cada um deles”, explica Roman.

A dificuldade do acesso à base de processos é uma faca de dois gumes. O professor Ivar Hartmann, do curso de Direito da FGV-RJ, explica que no caso da Justiça do Trabalho, por exemplo, uma decisão do Conselho Nacional de Justiça proibiu que processos fossem publicados na Internet.

“Algumas empresas estavam começando a montar banco de dados com funcionários que já processaram empregadores no passado, assim, a pessoa era desclassificada de seleções para vagas automaticamente”, conta. Contudo, Hartmann acredita que isso poderia ser facilmente resolvido com uma resolução que obrigasse, por exemplo, que os tribunais divulgassem processos de pessoas com vida política.

Há ainda outra questão. Se o senso comum diz que todo político é corrupto, existe o fato de que muitos poucos políticos conseguirão passar por toda uma vida entre Executivo e Legislativo sem um processo sequer. E isso não é, muitas vezes, sinônimo de desvios. “Ao deixar os processos pouco acessíveis, acabamos reforçando a ideia de que a política é em si uma atividade corrupta.

Só que muitas vezes as ações judiciais são movidas por conta de prestação de contas e não por uma denúncia mais séria, por exemplo”, comenta Roman. Com a dificuldade de acessar processos, fica difícil também discriminá-los e todos acabam caindo em um mesmo balaio indigno.

“Eu não estou certa de que mais transparência do Judiciário, neste caso específico, signifique algo com para o eleitor. Talvez o ideal fosse que ele só recebesse informações sobre condenações”, analisa Nara. A pesquisadora ainda volta à questão de que a corrupção é usada cada vez mais como arma política e isso só reforça a impressão de que todos são corruptos. “Esse tipo de percepção diminui o peso eleitoral da corrupção: se ela é percebida como uma constante entre os políticos, deixa de ser um critério útil de escolha”.
André de Oliveira/El País

Eleições Municipais 2016 – Aplicativos TSE

Está disponível para download nas lojas da Apple Store e Google Play o aplicativo Candidaturas 2016.

O aplicativo permite que o eleitor tenha acesso às informações dos candidatos que irão concorrer às eleições municipais de outubro e acompanhar a prestação de contas da campanha.

O App. é de fácil manuseio, basta selecionar o estado do candidato e depois a cidade desejada.

Com o aplicativo, o eleitor tem informações dos postulantes aos cargos de prefeitos e vice, além de poder conhecer todos os vereadores.

Também poderá ter acesso às informações pessoais e declaração de bens e dos detalhes do registro da referida candidatura.[ad name=”Retangulos – Direita”]

Todas as informações são obtidas diretamente das bases de dados do Tribunal Superior Eleitoral e atualizada três vezes ao dia, 8h, 14h e 19h.

Ainda, de acordo com o TSE serão lançados, ao todo, 11 aplicativos e já estão disponíveis o Agenda JE (Calendário Eleitoral) e o JE Processos que permite o acompanhamento do trâmite dos processos do Sistema de Acompanhamento Processual e do Processo Judicial Eletrônico.
Fonte: TSE

Eleições 2016: A armadilha das coligações partidárias

O saldo da última reforma eleitoral é muito baixo diante das mudanças que poderiam ter sido implementadas. Uma vez que os deputados federais foram eleitos pelo modelo atual, que beneficia a maioria que assume os seus mandatos pelas distorções do sistema proporcional, não houve vontade para promover uma melhora no formato que os permite ocupar as cadeiras da Câmara.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Um exemplo disso é a manutenção da coligação proporcional, aquela que dará assentos aos vereadores eleitos em 2016. Sem qualquer viés ideológico ou coerência, as alianças partidárias se transformaram em aberrações que desafiam o crivo do eleitor, unindo propostas antagônicas em alguns estados, enquanto em outros esses mesmos partidos se apresentam como opositores.

Quando as coligações partidárias foram criadas, o intuito era possibilitar a união de associações com matrizes ideológicas afins, no entanto, a proliferação de partidos transformou as alianças genuínas em um balcão de negócios para angariar mais tempo nas campanhas de rádio e de televisão, além de secretarias municipais, estaduais/distritais e ministérios. Com isso, as coligações favorecem tanto os partidos maiores, que angariam exposição destacada nas campanhas majoritárias, quanto os pequenos e médios, que sobrevivem graças aos puxadores de votos nas campanhas proporcionais.

Prejudicada é a sociedade e o eleitorado que precisam conviver com diversos partidos criados para dar lugar a algumas lideranças políticas que não conseguem conviver com seus pares em uma mesma legenda. O Brasil não tem 35 líderes políticos de representatividade nacional, então não há razão para haver tantos partidos. Mesmo se houvesse, essas figuras deveriam se organizar em um número menor de legendas que dessem maior clareza ao eleitor a respeito de seus propósitos políticos.

Inflação de partidos políticos

Para um saneamento e uma melhora do sistema eleitoral e da atividade política, o Brasil precisa revisar a lei que permite as coligações. Somos hoje um país que vive uma inflação de partidos políticos. No entanto, poucos são os de matriz ideológica, pois uma grande parcela foi constituída para representar figuras políticas que já não tinham espaço em outro partido existente, para se beneficiar do fundo partidário, ou para servir como uma difusa base governista e usufruir de cargos importantes do poder executivo, independente de qual seja o governo.

Do modo como são criadas, as coligações partidárias que almejam espaço de exibição na televisão e no rádio são nocivas à estrutura política do Brasil, porque alimentam um modelo presidencialista de conchavos que se reproduz nos estados e municípios. Com uma revisão da distribuição do fundo partidário e se as coligações fossem proibidas nas eleições, cada partido poderia contar tão somente com as suas próprias forças.

A tendência é que o tempo se encarregasse de selecionar os partidos mais bem estruturados e com maior respaldo popular para seguirem existindo, enquanto os menores e os médios teriam de se fusionar, seriam incorporados ou rumariam para a extinção. Com esse artifício poderíamos limitar o número de partidos empregando a legitimação dada pelo povo nas urnas sem adotar uma antidemocrática e inconveniente medida de proibição de criação de novas legendas. A fundação de novos partidos continuaria sendo legal, mas a sua sustentação somente seria possível com real apoio popular.

Atualmente, dada a quantidade de 35 partidos com registro no TSE (além de mais de 20 outros que estão coletando assinaturas para oficializar a sua participação no jogo político), os mandatários do poder executivo nas três esferas (federal, estadual/distrital e municipal) precisam fazer concessões e alianças com diversas lideranças partidárias para garantir a governabilidade.

Está em análise na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado, uma proposta de emenda constitucional (PEC 151/2015), de autoria do senador Valdir Raupp (PMDB-RO), que tenciona acabar com as coligações partidárias nas eleições proporcionais. Se aprovada, será um avanço, mas ainda insuficiente, pois mantém as alianças para as eleições para presidente, governadores, senadores e prefeitos. Ou seja, o tempo de propaganda na televisão e no rádio seguirá como poder de barganha para pequenos partidos com pouca representação na Câmara dos Deputados.

Porém, mais do que esperar por reformas de um Congresso distante dos anseios da população, o eleitorado precisa se educar sobre as regras democráticas. O eleitor que alega votar apenas na pessoa e não no partido está duplamente enganado, porque, primeiramente, o seu voto nas eleições proporcionais vai para o partido ou para a coligação pelo quociente eleitoral. Em segundo lugar, após eleito, é bastante comum o parlamentar ter de seguir um posicionamento partidário definido pelo diretório central em decisões no plenário, mesmo que ele tenha uma opinião adversa.

As três etapas

Na eleição para o poder legislativo (exceto para senador), o eleitor pode votar tanto no candidato quanto no partido ou na coligação, porém, o sistema proporcional que define os deputados estaduais/distritais, federais e vereadores computa, primeiramente, os votos para os partidos e coligações que obtiveram mais votos, e apenas em um segundo momento distribui as vagas disponíveis entre os candidatos mais votados de cada partido.

São três as etapas do sistema proporcional: inicialmente, calcula-se o quociente eleitoral, que determina a quantidade de vagas para cada partido. Posteriormente, define-se o quociente partidário, que estabelece os candidatos de cada partido ou coligação que ocuparão as vagas. A partir deste pleito, os ocupantes das vagas devem receber votos numa quantidade igual ou maior que 10% do quociente eleitoral.

Por último, quando há sobra de vagas, faz-se um novo cálculo para a obtenção de uma nova média que determinará qual partido ou coligação pode ocupar a(s) cadeira(s) não preenchida(s). Por isso, é muito mais fácil um candidato com poucos votos ser eleito por um grande partido do que outro com uma grande votação vir a ocupar uma cadeira na Câmara por um pequeno partido.

No romance “Ensaio sobre a lucidez”, José Saramago conta a história de uma população que vota maciçamente em branco no pleito. Entretanto, se a terra fictícia criada pelo autor português seguisse a legislação eleitoral brasileira, o quociente eleitoral seria tão baixo que beneficiaria os partidos e candidatos que receberiam os poucos votos válidos.

Não existe sistema eleitoral perfeito, pois todos os formatos podem apresentar distorções. O sistema distrital prioriza o candidato ligado à sua comunidade, mas não o ideológico. Isso pode se refletir em minorias menos representadas. Por esse modelo, teoricamente, existe a possibilidade de ocupação de todas as vagas por um único partido. O sistema misto, parcialmente distrital, parcialmente proporcional, tende a ser mais equilibrado, aproximando o representante do representado, bem como mantendo o voto de opinião.

Uma verdadeira reforma política que beneficie o povo e não a classe política é urgente. Se as lideranças partidárias não conseguem enxergar e se movimentar para promover mudanças, a descrença e a decepção dos cidadãos tende a permanecer e aumentar. É importante salientar que a mudança no sistema proporcional precisa de uma alteração na Constituição Federal, ou seja, sem um Congresso sensível a transformações em prol da população, o brasileiro seguirá caindo em uma armadilha.
* Pablo Antunes é psicólogo e escritor.

Eleições 2016:O voto não é tão racional. Veja como alguns vieses influem na sua decisão

Todos somos vítimas de vieses cognitivos, que são interpretações ilógicas da informação disponível. 

O voto não é tão racional. Veja como alguns vieses influem na sua decisão
GETTY IMAGES

“Mais que erros, são atalhos, mecanismos que usamos todos os dias e funcionam muito bem para tomar decisões rápidas, mas, às vezes, nos conduzem ao erro”, explica Helena Matute, psicóloga espanhola da Universidade de Deusto, em Bilbao.

Não é fácil corrigi-los, sobretudo porque na maior parte do tempo nem sequer estamos conscientes deles. A única coisa que podemos fazer é “estar alerta e ser mais críticos”, diz Matute. Em política, a situação se agrava porque se adicionam elementos como emoção e sentimento de pertencimento.

Estes são alguns dos vieses que podem influir em nosso voto:

1. Viés de confirmação: só fazemos isso com os dados que endossam nossas ideias e somos céticos com a informação que as contradiz. Como explica Michel Shermer em The Believing Brain, primeiro nos identificamos com uma posição política e, a partir daí, interpretamos a informação para que se encaixe em nosso modelo de realidade.

2. Efeito auréola: confundimos aparência com essência. Quando nos chama a atenção um aspecto positivo de alguém (seu atrativo físico, por exemplo), tendemos a generalizá-lo para toda a pessoa. Também acontece quando escutamos opiniões políticas de atores e cantores: estendemos sua influência a áreas que não têm nada a ver com seus dotes artísticos.

3. Efeito de enquadramento: tendemos a extrair conclusões diferentes conforme o modo como os dados são apresentados. Matute nos dá um exemplo: “Se você diz que a carne tem 30% de gordura, ninguém a comprará. Mas os resultados mudam se você disser que é 70% magra, apesar de dar na mesma”.

4. A correlação ilusória: é a tendência a assumir que há relação de causa e efeito entre duas variáveis, embora não haja dados que confirmem isso. Ocorre especialmente no caso dos estereótipos e nos leva, por exemplo, a subestimar a proporção de comportamentos negativos em grupos relativamente pequenos.

5. Efeito Barnum ou Forer: é comum os candidatos se dirigirem a “esses cidadãos honrados e trabalhadores que enfrentam as adversidades e estão fartos da corrupção”. É fácil se identificar, mas somente porque tendemos a tratar as descrições vagas e genéricas como se fosse específicas e detalhadas. Os horóscopos parecem críveis por causa desse viés.

6. Custo irrecuperável: é difícil para nós mudar o voto quando estamos há anos apostando nos mesmos. Por isso as ideologias são tão rígidas. Em relação a esse viés, Matute acrescenta o efeito de ancoragem, que se dá quando opinamos em voz alta. “Já nos posicionamos, por isso custa mais mudar de opinião.”

7. Viés de atribuição: nós definimos nosso voto porque somos inteligentes e estamos informados, mas os demais não têm nem ideia e estão cheios de preconceitos.

8. Viés de autoridade: nós nos fixamos mais em quem diz algo do que em quem não diz. Este é um exemplo de viés que funciona com frequência. Faz sentido confiar em um médico, por exemplo, mas o que acontece quando dois especialistas sustentam opiniões contrárias, como ocorre atualmente em política?

9. Efeito arrastão: nós nos deixamos levar pelo que o nosso entorno opina. Se todos os nossos amigos são de esquerda, será mais difícil dizer que somos de direita (a não ser que gostemos de ser do contra).

10. Falso consenso: superestimamos o grau em que outras pessoas estão de acordo conosco.

11. O ponto cego: não estamos conscientes de nossos próprios vieses, embora os dos outros pareçam evidentes.
El País/Jaime Rubio Hanckoc

Impeachment levaria um ano e meio, quase todo mandato de Dilma

Alencastro, professor da FGV e emérito da SorbonneConversar com o historiador e cientista político Luiz Felipe de Alencastro é entender um pouco mais o Brasil a partir de uma perspectiva exterior.

Luiz Filipe de Alencastro, professor da FGV e emérito da Sorbonne.

Conversar com o historiador e cientista político Luiz Felipe de Alencastro é entender um pouco mais o Brasil a partir de uma perspectiva exterior.

Ele avalia a ascensão e o declínio do país no cenário internacional nos últimos anos e propõe comparações entre as crises daqui e da Europa.

Professor emérito da Universidade de Paris Sorbonne, o historiador fez praticamente toda sua carreira na França, para onde mudou-se ainda durante a ditadura militar brasileira.

Hoje dá aulas na Faculdade Getúlio Vargas, em São Paulo, e ainda orienta doutorandos da Sorbonne. Com uma formação ampla, aborda temas da história brasileira até política econômica e internacional. Em entrevista ao EL PAÍS reflete sobre o Brasil e o cenário político atual.

Pergunta. O Brasil começou a década como um dos atores que mais atraíam atenção no cenário global, essa impressão era um exagero?

Resposta. Eu passei muito tempo fora do Brasil, sou de uma época em que presidente brasileiro no exterior era vaiado. Não à toa, eram os militares. A situação externa brasileira só foi melhorar com o FHC, mas só mudou com o Lula. A nomeação de José Graziano na direção da FAO[Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura] e de Roberto Azevêdo na direção da OMC[Organização Mundial do Comércio] são exemplos claros da política externa exitosa dos anos Lula.

A diplomacia brasileira passou a ter um papel muito significativo, o ministro Celso Amorim teve um papel importante no G20, em várias outras iniciativas de política internacional e expandiu os horizontes do Brasil no mundo. Hoje, temos mais embaixadas na África do que na América Latina, o que acabou sendo fundamental para a eleição de Azevêdo, que, apoiado pelas delegações africanas, venceu o candidato mexicano apoiado pelos EUA. Desse ponto de vista, a empolgação dentro e fora do Brasil não era uma ficção. Aquela capa da The Economist, em que o Cristo Redentor aparecia sendo lançado como um foguete, era um exagero do ponto de vista econômico, mas não do geopolítico.

P. E o que fez o país perder essa relevância? Só as crises econômicas e políticas explicam?

R. Com a Dilma, o Brasil voltou à mediocridade que sempre reinou no campo da política externa. Ela sempre foi extremamente provinciana e voltou a ser. Um exemplo caro disso é que durante as eleições, por exemplo, não se debate sobre política externa. Só entram, de maneira indireta, questões sobre chavismo,Venezuela, Cuba. Isso não é debate. Aí também tem o fato de que Dilma nunca se interessou pela questão exterior, não toma iniciativas internacionais importantes. Hoje a gente esqueceu os nomes dos ministros do exterior, são pessoas que não têm relevo e isso vai de par com a perda de um encanto e relevância brasileira.

P. 2015 foi talvez o ano mais duro politicamente dos últimos tempos. Qual é seu prognóstico daqui para frente?

“No Brasil as comparações com casos do exterior não são bem feitas. A Lava Jato é abertamente inspirada na Mani Pulite, mas essa operação foi problemática”

R. A questão do impeachment, que pautou grande parte das discussões,ficou bastante improvável no Congresso depois da decisão do STF (Supremo Tribunal Federal). E, por outro lado, no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) se tudo acontecer como quer a oposição, o processo levaria no mínimo um ano e meio, o que nos jogaria praticamente para o fim do Governo Dilma. Invalidar um mandato de alguém que está na reta final seria um despropósito. Desse ponto de vista, estamos em um momento de esgotamento da ofensiva contra o Governo e também do assédio ao Governo.

P. E não é a primeira vez que a via do TSE é testada pela oposição…

R. É verdade. Logo no início de 2015, o PSDB pediu a recontagem de votos. Ela foi feita e, no final, eles deram uma declaração de que não conseguiram chegar a nenhuma conclusão. Esse fato com certeza vai pesar em qualquer decisão futura do Tribunal. Além disso, é importante dizer uma coisa. Muito se falou sobre a margem apertada com que Dilma venceu as eleições de 2014 e isso não é verdade. 3,5 milhões de votos a mais é muita coisa. As vantagens sempre são mínimas nas democracias e dá pra dizer que nunca mais um presidente vai ser eleito com tranquilidade no Brasil, as posições já estão muito cristalizadas. Na França, o único exemplo factível de comparação, por ter uma eleição presidencial de dois turnos, a diferença entre Hollande e Sarkozy foi pequena também. Isso é normal.

P. E como você avalia o papel da Justiça nessa crise política?

R. No Brasil as comparações com casos do exterior não são bem feitas. A Lava Jato é abertamente inspirada na Mani Pulite [que investigou casos de corrupção e resultou no fim de partidos políticos na Itália], mas essa operação foi problemática. Um dos resultados foi que Berlusconi acabou primeiro-ministro e, se caiu depois, não foi pelas mãos da operação, mas por causa de uma intervenção da União Europeia. Aqui no Brasil, não existe nenhuma instância suprarregional que poderia intervir ou reavaliar decisões. É o mesmo caso do julgamento do mensalão.

Lá não houve uma possibilidade de recall, ou seja, os julgados não puderam recorrer a uma segunda instância, o que é básico em países com democracia consolidada. Primeiro porque foram julgados direto noSTF, segundo porque não podiam recorrer a nenhuma instância supranacional, como há, na Europa, a corte de Luxemburgo. Eu sou bem cioso em relação à presunção da inocência e acho a coerção por prisão que tem havido algo escandaloso.

P. De qualquer jeito, a crise continua aí. O que vai tirar a política da inércia?

R. É importante dizer que nós estamos em uma situação grave, mas que, quando olho para fora, vejo outros países com ainda mais problemas. Velhos Estados, como Espanha e França, convivem com crises de representatividade em que se somam problemas de identidade nacional. O Sarkozy, por exemplo, queria criar um ministério da identidade nacional. Há problemas que colocam em questão a noção de cidadania e isso não existe no Brasil, um país de dimensões continentais. O que há no Brasil é um Governo na defensiva, impotente. Acredito que o fato que fará com que as coisas comecem a desanuviar um pouco o ambiente são as eleições municipais. No Brasil, elas representam o fim e o começo da política.

P. Como assim?

“O Alckmin está testando com o João Dória a possibilidade de se impor como candidato a presidente em 2018. Se ele não conseguir, é bem possível que saia do PSDB”

R. A instância mais antiga de organização das oligarquias é a Câmara municipal. O colonato se organizava ali e é possível ver sua importância no fato de que o reconhecimento do imperador, por exemplo, foi feio exatamente por essas câmaras municipais. Não havia outra assembleia naquele momento, então se vê, por aí, que é uma instância muito antiga. Outra coisa é que as eleições municipais nunca se interromperam completamente no Brasil.

Durante a ditadura militar foram interrompidas nas capitais e em cidades com grande população, mas continuaram acontecendo em alguns locais. Isso é muito particular, porque dá uma força, não de tradição democrática, mas de tradição parlamentar. Um dos resultados disso é que no Brasil nunca houve a figura do ditador, tão comum a vários países hispano-americanos. Não é que houvesse democracia, mas é que a descentralização oligárquica dava uma feição diferente ao jogo político. Essa é a importância histórica, por isso o fim e o começo da política.

P. Mas como essas eleições vão ajudar na crise política?

R. Elas vão redistribuir as cartas na política nacional. O sujeito que se elege prefeito é o cara que já condiciona a eleição do deputado estadual e do deputado federal. Toda a vinculação da próxima eleição legislativa vai ser mapeada agora, inclusive por causa da questão do financiamento das campanhas que, pela primeira vez, não poderá contar com doação de empresas. O futuro candidato a deputado tem todo o interesse em aparecer do lado de um prefeito ou vereador que está em trajetória ascendente. Isso vai reorganizar as coisas.

P. Como os partidos irão lidar com essa proibição?

R. Ninguém sabe como isso vai funcionar direito. A meu ver, há duas questões centrais. A primeira é a possibilidade de que os atuais prefeitos sejam reeleitos. Desafiar um prefeito já estabelecido tem um custo altíssimo e sem poder contar com fundos de financiamento empresarial ficará complicado. É possível que o cenário fique cristalizado de uma maneira rígida. Isso é uma possibilidade ruim que puxa a outra questão envolvida no assunto. Sem fundos, os partidos terão que contar com militância e mobilização. Vão conseguir? Nesse sentido, o PT, que passa por um momento muito difícil, é o único que tem uma vantagem relativa. O Brasil tem cerca de 5.500 municípios no Brasil, eles tem diretórios em 4.200. PSDB e PMDB têm muito menos que isso.

P. Desse ponto de vista, São Paulo é bem importante…

R. Sim. É uma cidade de 12 milhões de habitantes com um orçamento alto e fundos de tributação próprios. É um lugar de efeito simbólico muito grande para a eleição nacional e que, no momento, vive um caso de exemplaridade de gestão. O prefeito Haddad está mostrando isso ao ter feito uma administração que ganhou grande visibilidade internacional. Hoje, por exemplo, a prefeitura de São Paulo tem técnicos competentes para gerir o orçamento e conseguir parcerias com órgãos internacionais e nacionais, como o Banco Mundial, o BID e o BNDES. Isso é uma coisa que não fica evidente e que é muito importante, é um caso raro na América Latina e até em países europeus, como Espanha e Portugal, que tiveram problemas para lidar com as normas europeias de demanda de fundos. São Paulo, assim, é um trunfo para o PT.

P. Mas o petista, apesar de bem avaliado internacionalmente, tem problemas graves de aprovação.

R. Aí entra o outro lado interessante dessas eleições municipais: é que o Haddad pode ser reeleito por causa da desordem do outro lado, da oposição. Há um racha no PSDB. Visivelmente, o Alckmin está testando com o João Dória, a possibilidade de se impor como candidato a presidente em 2018. Se ele não conseguir, é bem possível que saia do PSDB. O mesmo vale para o José Serra, se o Alckmin ganhar, talvez o Serra saia do partido.

O que estamos vendo é que a eleição municipal pode ser o primeiro indício do fim do PSDB em São Paulo, que representa, por si só, metade do PSDB. No lado do PT, o Haddad representa a sobrevivência política do partido em um momento em que a oposição se prepara para tentar dar o golpe final. As eleições do segundo semestre representam a sobrevivência para o PT e a consolidação para o PSDB. Os dois partidos nasceram em São Paulo e podem ter o futuro definido agora.

“Velhos Estados europeus convivem com crises de representatividade em que se somam problemas de identidade nacional. Isso não existe no Brasil”

P. E você arrisca algum cenário para depois das eleições?

R. O fato de o Lula ainda ser considerado o melhor presidente da história do país, apesar dos ataques cotidianos na mídia tradicional, não é de se desprezar. Digo isso porque esse é um traço forte do caso brasileiro: o PT não tem nenhum apoio na mídia, ela é inteira antipetista. Se a comparação pode ser feita, é o contrário do que acontece nos EUA, por exemplo, onde o Obama é perseguido, mas tem os dois maiores jornais do país ao seu favor.

Aqui, apoiando o PT, só há revistas de circulação baixa e sites de nicho. É claro que sua imagem está abalada agora, mas o PSDB também está desgastado. O PT cai muito, mas o PSDB não ganha. Por isso, há aí, mais uma vez, um espaço para outro candidato crescer, como a Marina.

O que ficou claro no Brasil é que ninguém aguenta quatro mandatos de um mesmo partido, porque sempre há corrupção, porque há incompetências, porque há um desgaste das palavras de ordem, porque a militância desaparece e o partido perde contato com a base. Não dá para reescrever as coisas, mas isso deve deixar ensinamentos para as lideranças políticas no futuro.

Eleições municipais 2016: O ‘japonês da Federal’ flerta com a carreira política

Símbolo da Lava Jato, Newton Ishii visita o Congresso e estuda convites para concorrer à eleição.

Marchinha e fantasias de Carnaval, flashes por onde passa e até tietagem de deputados. O agente da Polícia Federal Newton Ishii, alçado à fama por aparecer em quase todas as prisões de políticos e empreiteiros da operação Lava Jato está prestes a se deparar com mais uma grande novidade em sua vida: poderá se tornar político.

Conhecido como o japonês da Federal, Ishii esteve nesta quarta-feira na Câmara dos Deputados para visitar o deputado Aluisio Mendes (PTN-MA) e recebeu seu “sexto ou sétimo convite” para se filiar a um partido e concorrer a um cargo nas eleições municipais deste ano, segundo seus amigos.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“Convites para se filiar ele tem vários. Mas até a semana que vem deve se decidir se aceita algum. Hoje, ele é um símbolo do combate à corrupção e pode aproveitar esse momento”, afirmou Fernando Vicentino, o presidente do sindicato dos policiais federais do Paraná que fez a ponte entre o japonês da federal e parte do mundo político.

 

Ishii não quis falar com repórteres.

Usando seus inseparáveis óculos escuros, marca registrada dos momentos em que aparece carregando os detidos pelos braços, ele apenas caminhou pelo plenário da Câmara, tirou dezenas de fotos (inclusive selfies) com deputados e sorriu para todos que o abordavam.

Entre seus fãs momentâneos estavam os ultraconservadores deputados Jair Bolsonaro (ex-militar filiado ao PP) e Eduardo Bolsonaro (policial federal filiado ao PSC-SP), além do deputado Tiririca (do PR-SP), um ex-palhaço que também aproveitou da fama para seguir carreira política.

No fim do ano passado, durante a tumultuada votação que escolheu a primeira comissão especial que analisaria o pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff (PT), parte da oposição provocava os governistas aos gritos de: “olha o japa! Olha o japa!”, em referência a Ishii.

Ontem, ninguém se assustou quando o japonês da Federal apareceu. Mas nenhum dos parlamentares investigados pela Lava Jato quis tirar fotos ao lado dele.

Oficialmente, o tour de Ishii pela capital federal se deve à participação dele na assembleia da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef).
Afonso Benites/El País