Brasil: Eleições 2018

O pulverizado tabuleiro político da sucessão presidencial em 2018

Palácio do Planalto iluminado com as cores da bandeira brasileira por conta da Olimpíada do Rio, em abril.

Resultado das eleições municipais dá a largada para a corrida pelo Palácio do Planalto

Geraldo Alckmin, Aécio Neves, Ciro Gomes, Henrique Meirelles, José Serra, Marina Silva, Ronaldo Caiado, Flavio Dino, Jair Bolsonaro. As eleições municipais deste ano ampliaram as chances de alguns desses nomes pleitearem candidaturas presidenciais em 2018. A hecatombe política com o fracasso retumbante do PT no pleito municipal abriu uma avenida de possibilidades para outros nomes, seja à esquerda ou à direita.

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O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda vinha liderando as intenções de voto para o próximo pleito presidencial em pesquisas de diferentes institutos feitas nos últimos meses: Datafolha, Vox Populi, CNT/MDA. Mas, a rejeição à legenda nas urnas e o fato de Lula ter sido três vezes indiciado pela Lava Jato mostra que são poucas as chances de o ex-presidente sobreviver politicamente até 2018. O partido conquistou a prefeitura em 254 cidades neste ano, com derrotas simbólicas como no ABC paulista, berço do partido. Em 2012, obteve vitória em 638.

Por ora, o grande destaque que emerge após as eleições municipais é, sem sombra de dúvidas, o governador de São Paulo. O tucano Alckmin já tinha sido consagrado no primeiro turno com a eleição em primeiro turno de João Doria (PSDB) em São Paulo, seu afilhado político, o que o fez largar na frente com folga na corrida para 2018. Neste segundo turno, além de eleger aliados em cidades estratégicas do PT, como São Bernardo e Santo André, o PSDB de Alckmin chegou a 167 prefeituras do Estado.

A vitória de seus afilhados dá musculatura ao governador para lidar com a disputa pela candidatura presidencial dentro do seu próprio partido. O PSDB segue sob o comando do senador Aécio Neves, que perdeu por pouco a eleição de 2014 para Dilma Rousseff e vinha sustentando algum protagonismo na oposição até a chegada de Michel Temer (PMDB) ao Palácio do Planalto. A competição interna chegou a levar a boatos de que Alckmin poderia se lançar à presidência pelo PSB.

Mas, para sorte de Alckmin, Aécio amargou neste domingo a derrota de seu afilhado político João Leite, para o empresário Alexandre Kalil, em Belo Horizonte, base política do senador. Resta agora a disputa com outro tucano, José Serra, atual ministro das Relações Exteriores do Governo Temer, que também tem pretensões presidenciais.

Se o PSDB, o segundo partido que mais ampliou o número de prefeituras nesta eleição – 807 em todo país, 16% a mais do que em 2012 –, bate cabeça na hora de encaminhar a sucessão presidencial, a situação do PT é ainda mais complicada. Refém da figura do ex-presidente Lula, o partido deixa 2016 sem perspectivas para 2018. A grande baixa neste xadrez municipal foi Fernando Haddad, que não chegou nem para o segundo turno em São Paulo.

É nesse vácuo petista que entra o ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT), que se apresenta como alternativa de esquerda e tem feito várias aparições públicas na tentativa de reunir partidos desse espectro político em torno de seu nome. A reeleição neste domingo do seu aliado em Fortaleza, Roberto Claudio, dá fôlego para novas investidas de Gomes, que já se declara pré-candidato à presidência. Ao todo, o PDT obteve 335 prefeituras no país.

Outra alternativa de esquerda que se apresenta é o governador do Maranhão, Flavio Dino (PCdoB), que tem se estabelecido como alternativa de poder à família Sarney em seu Estado e ajudou a triplicar o número de prefeituras comunistas por lá na última eleição. “Não teremos no Brasil uma ‘onda conservadora’ duradoura. Por várias razões. Uma delas que isso fortaleceria a desigualdade, já absurda”, tuitou ele nesta segunda, à luz dos resultados eleitorais que apequenaram a esquerda. Seu partido conquistou 81 prefeituras, 50% a mais que em 2012. “A esquerda deve olhar menos para trás e mais para frente. Novo programa sustentado por uma frente ampla”, defende o governador maranhense. Falta a Dino, entretanto, a amplitude nacional que Ciro Gomes conseguiu ao ter atuado como ministro nos Governos Itamar Franco e Lula e por já ter concorrido à Presidência duas vezes, em 1998 e 2002.

Quem também depende de uma maior exposição nacional, caso venha a pleitear a cadeira de presidente da República como se cogita, é o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, filiado ao PSD. Para se viabilizar, Meirelles dependeria ainda do sucesso do Governo Michel Temer na tentativa de retomar o crescimento da economia nacional, uma incógnita diante de uma política de austeridade que entra com a PEC 241. Do sucesso do Governo Temer também dependeria um eterno presidenciável: José Serra, que embarcou no Governo via Ministério das Relações Exteriores de olho em 2018. Apesar de ter perdido espaço no PSDB, poderia migrar de partido – o PMDB seria a legenda – para se lançar ao Palácio do Planalto. Além de Serra, o PMDB cogita outros nomes, inclusive o de Temer, ou ainda entrar em aliança com o PSDB. O partido que o governa o país atualmente elegeu 1.038 prefeitos, um pequeno crescimento em comparação com 2012 (1.021).

Os planos do Partido Republicano Brasileiro (PRB) para 2018 ainda são uma incógnita, mas não há dúvidas que a legenda passa a ambicionar um protagonismo nacional, depois de eleger Marcelo Crivella no Rio, e conquistar 105 prefeituras, 31% a mais do que em 2012. O candidato derrotado à prefeitura de São Paulo, Celso Russomano, já avisou que pretende encarar essa disputa dentro da legenda.

Na outra ponta do tabuleiro, entre aqueles que saíram menores do processo eleitoral, está a ex-senadora Marina Silva, idealizadora e grande nome da Rede Sustentabilidade, que ficou de fora das prefeituras e câmaras das maiores capitais do país em sua estreia nas urnas, com exceção de Macapá. Clécio Luis foi reeleito prefeito da capital do Amapá e firmou o nome do partido entre os grandes municípios. No balanço nacional, a Rede conquistou sete cidades, mas esperava-se um desempenho muito melhor pelo tamanho de Marina na última eleição presidencial, quando obteve 22 milhões de votos.

Outras legendas correm por fora, como o Democratas. Na esteira do impeachment de Dilma Rousseff, o DEM ressurgiu após as eleições municipais com a expressiva reeleição de ACM Neto na prefeitura de Salvador logo no primeiro turno. Conquistou, ainda, outras 265 prefeituras no país. Um dos nomes mais importantes do partido hoje, Neto defende que o partido discuta um projeto nacional a partir deste segundo turno e já sugeriu o nome do senador Ronaldo Caiado (GO) para concorrer ao Planalto. Candidato à Presidência em 1989, Caiado se destacou nos últimos anos como opositor ferrenho do Governo Dilma, o que lhe credenciou como alternativa para o eleitorado de direita.

Um nome de sucesso entre os eleitores direitistas é o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que foi o parlamentar mais votado do Rio de Janeiro em 2014 e tem sido recebido por apoiadores em diversos aeroportos do país. Uma candidatura Bolsonaro, porém, está muito longe de se provar competitiva, mas o entusiasmo de seus apoiadores deve contribuir para tumultuar, ao longo dos próximos dois anos, o já conturbado cenário político brasileiro que levará à eleição do próximo presidente da República.
Rodolfo Borges

Vitória de Crivella no Rio, a ponta de lança do projeto político da Igreja Universal

Influente membro da terceira igreja evangélica mais numerosa do Brasil governará a cidade-vitrine do país.

Crivella eleito para a prefeitura do Rio nas eleições 2016O novo prefeito do Rio, Marcelo Crivella. Foto:YASUYOSHI CHIBA AFP

O Rio de Janeiro, a segunda maior cidade do Brasil, sede dos últimos Jogos Olímpicos e do Carnaval mais famoso do mundo, acaba de eleger prefeito o líder evangélico Marcelo Crivella, de 59 anos. Sua vitória, com 59,37% dos votos decide uma eleição que levou ao segundo turno as duas faces do Brasil de hoje.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Em um extremo estava o modelo conservador encarnado por Crivella, senador desde 2002, engenheiro, cantor gospel de sucesso, defensor da teoria criacionista, evangelizador na África e ex-bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, a terceira com mais fiéis do Brasil, fundada por seu tio Edir Macedo, que controla a segunda maior rede de TV do Brasil, a Record.

No outro, Marcelo Freixo, um professor de história, de 49 anos, deputado estadual e defensor da legalização do aborto e das drogas, que encarnou a resistência das forças de esquerda em plena crise do Partido dos Trabalhadores, da ex-presidenta Dilma Rousseff, destituída do poder há apenas dois meses. Para além dos espectros ideológicos irreconciliáveis, os programas de ambos os candidatos divergiam em alguns pontos, como a participação da iniciativa privada na gestão da cidade, que Crivella defende.

A folgada vitória de Crivella, do Partido Republicano Brasileiro (PRB), braço político de sua igreja, foi impulsionada pelo eleitorado evangélico, que representa um terço dos quase 4,9 milhões de votantes, e pelos eleitores mais pobres e menos instruídos. Crivella, que disputava sua terceira eleição a prefeito da cidade e já tentara se tornar governador em 2006 e 2014, atraiu também os votos de seus aliados políticos de centro e direita, como Índio da Costa (PSD) e Carlos Osório (PSDB) e a maioria dos vereadores eleitos pelo PMDB, e da direita radical, representada por Flávio Bolsonaro (PSC).

Freixo, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), paradoxalmente, contou com o apoio das classes mais ricas e educadas, assim como dos mais jovens. Os grandes vencedores, porém, foram a abstenção (26,85%) e os votos brancos (4,18%) e nulos (15,90%). A ressaca da crise política, os escândalos de corrupção e o longo processo de destituição de Rousseff se traduziram em desânimo nestas eleições municipais. Apesar de o voto ser obrigatório no Brasil, a abstenção já tinha sido a protagonista no primeiro turno no Rio e em outras grandes capitais, onde os candidatos mais votados não conseguiram superar a soma dos votos não dados.

No seu primeiro discurso como prefeito, Crivella agradeceu a Deus, sua família, seus aliados e até a Igreja Católica. “Aquele que se elege é apenas um representante de todos os que lutaram junto para que nosso projeto pudesse alcançar o coração dos nossos eleitores. É um momento de imensa emoção, sobre todo para mim que já vinha tentando ser prefeito do Rio em varias ocasiões. O momento em que saiu o resultado foi insquecível”, disse acompanhado da esposa e dezenas de militantes.

Crivella criticou, mais uma vez, a imprensa que, segundo ele, orquestrou uma campanha contra sua candidatura. Nos bastidores, na verdade, há também uma luta de poder entre a TV da Igreja Universal, a TV Record, e sua principal concorrente, a TV Globo. “Vencemos uma onda enorme de preconceitos, por parte de uma mídia facciosa que se opôs à nossa campanha”, diz Crivella.

Uma vitória sem precedentes

Crivella na prefeitura da segunda cidade mais populosa do Brasil é uma conquista sem precedentes para os evangélicos. As igrejas evangélicas estão em expansão no Brasil: o número cresceu 61% entre 2000 e 2010. Seus pastores já concentram poder no Legislativo –são 80 parlamentares, 14% a mais do que na última legislatura–, mas têm, até agora, pouco peso em cargos executivos.

O novo prefeito, que se empenhou durante toda a campanha em suavizar seu papel em uma igreja que demoniza outras religiões e vê a homossexualidade como um pecado terrível, promete não misturar religião com política. No entanto, Crivella já declarou anos atrás que trocou o altar pela política por determinação de sua igreja e que algum dia o Brasil teria um presidente evangélico. “E, então, queridos irmãos”, disse a um grupo de pastores em 2011, “poderemos ser a igreja evangelizadora dos últimos dias e levar o evangelho a todas as nações da terra”.

Agora deverá demonstrar com sua gestão e suas indicações que seu gabinete ficará afastado do púlpito. Entre os nomes que têm se discutido para ocupar as secretárias de Crivella está o do cientista político e editor César Bejamin, para a pasta de Educação, Carlos Osório, candidato derrotado do PSDB, na secretaria de Transportes, e Índio da Costa na Casa Civil, embora ele prefira a secretária da Saúde.

Crivella deve enfrentar o enorme desafio do Rio pós-olímpico. A cidade, de mais de seis milhões de habitantes, enfrenta depois dos Jogos um brusco aumento do desemprego e sofre os reflexos da grave crise financeira vivida pelo país e, sobretudo, o Estado do Rio, em áreas fundamentais como segurança e saúde.

Os cariocas precisam também de itens básicos como saneamento, ruas que não se tornem rios na época das chuvas, moradia social e ônibus com ar condicionado em verões que ultrapassam os 45 graus. O Rio precisa também projetar-se como destino de turismo internacional, não só de visitantes, mas de empresários e eventos esportivos, para rentabilizar as milionárias obras e as mais de 50.000 vagas de hotel com as que a cidade chegou à maior festa esportista do mundo.
Maria Martín/ElPais

No Brasil da Lava Jato, urnas punem PT, mas não outros investigados no escândalo

O PT perdeu cerca de 60% das prefeituras. Analistas discutem o peso da do fator corrupção no voto.

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Em ano dominado pela Operação Lava Jato, em que o assunto corrupção foi mote de manifestações a conversas de bar, o PT saiu como o grande derrotado das eleições municipais.

No melhor dos cenários, terá sofrido uma queda de 58,6% no número de prefeituras pelo Brasil – número semelhante, 44,8%, indica o encolhimento nas Câmaras municipais.

Para grande parte do eleitorado, a punição das urnas significa uma vitória contra a [ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]corrupção. Em Perdizes, bairro de classe média alta de São Paulo, quando anunciada a vitória em primeiro turno de João Dória (PSDB) – uma das mais acachapantes e surpreendentes das eleições – os gritos de um homem se sobressaíam em meio à comemoração generalizada: “O PT acabou, chupa petralha, agora vocês vão ter que trabalhar, acabou a boquinha!”.

A surra foi no PT ou na corrupção como um todo? Alguns indicadores ajudam a responder a questão.

O quase de Fernando Haddad

Eleito em São Paulo teve menos votos que a soma de brancos, nulos e ausentes
Candidatos das ‘bancadas da bala’ exploram discurso do medo e miram prefeituras
PP, por exemplo, legenda campeã em citações na Lava Jato, com 32 políticos investigados, tornou-se ontem a quarta maior força em número de prefeituras. São 494. O PMDB, vencedor histórico quando o assunto é o número de administrações municipais, manteve sua média ao eleger 1.027 prefeitos.

Na Lava Jato, tem ao menos sete políticos em investigação, sendo que alguns têm grande projeção nacional, como Renan Calheiros, presidente do Senado, e Romero Jucá, ex-ministro do Governo Temer. Além do suposto envolvimento em esquemas de corrupção, há uma série de novos vereadores, prefeitos e aspirantes ao cargo que disputarão o segundo turno e têm problemas na Justiça. Afinal, as urnas punem corruptos e candidatos enroscados, de forma geral, em problemas judiciários? Para especialistas ouvidos pelo EL PAÍS, a resposta é não.

“É difícil mostrar cientificamente como funciona a punição ao corrupto na política brasileira, mas minha pesquisa mostra empiricamente que quanto maior é a percepção da corrupção, mais tolerante o eleitor fica e mais limitada é a punição”, diz a cientista política Nara Pavão, que desenvolveu uma linha de estudo em universidades do exterior sobre o comportamento do eleitorado.

Segundo ela, dados concretos mostram que a percepção da corrupção aumentou nos últimos dez anos no Brasil, mas que a tolerância do eleitorado também aumentou. “Essa é uma dinâmica perversa, mas é importante lembrar que a corrupção é apenas uma das múltiplas dimensões da avaliação do eleitorado. Se o voto é influenciado por processos judiciais, ele também depende de outras questões, como situação econômica, políticas sociais, ideologia”, analisa Nara. Neste contexto, o PT, que governou por quase 14 anos, também é ligado à mais grave recessão em ao menos 25 anos, com 12 milhões de desempregados.

“Quanto maior é a percepção da corrupção, mais tolerante o eleitor fica e mais limitada é a punição”

Para o sociólogo Jessé de Souza, que tem dedicado seus estudos às novas classes trabalhadoras emergentes no Brasil, nos últimos anos existiu uma fulanização da corrupção na figura do PT. “Este tema tem sido usado de forma manipulativa e desta vez não foi diferente. Ao apontar para o PT, o problema da corrupção, que é sistêmico do programa político brasileiro, é esvaziado. Assim, o castigo da urna é torto em alguns casos e em outros não acontece”, diz.

“Ao deixar os processos pouco acessíveis, acabamos reforçando a ideia de que a política é em si uma atividade corrupta”

Segundo Andrei Roman, coidealizador do site Atlas Político (que através de um banco de dados mapeia perfis e atuação de políticos brasileiros), cenários polarizados, como o descrito por Souza, são os que mais desfavorecem a punição política por meio das urnas. “Esperava-se que a Lava Jato teria a capacidade de ‘limpar a política’. Mas não é isso que está acontecendo. Por conta de um cenário de exacerbação da polarização política, movimentos favoráveis ao impeachment fecham os olhos para evidências de corrupção dentro do Governo. E a esquerda, incrédula com o Judiciário, passou a não dar mais crédito à operação”, comenta Roman.

Para Nara, os momentos de polarização também favorecem o uso político das acusações de corrupção, o que acaba por banalizar a questão. “Neste contexto, o eleitor acaba conseguindo descartar acusações com mais facilidade. Além disso, muitas vezes as notícias que chegam são usadas apenas para reforçar um comportamento que o eleitorado já tinha. Quando a informação não serve a esse fim, ela é simplesmente descartada”, diz a pesquisadora.

Ao escolher vereadores o eleitorado costuma se informar mais sobre o candidato, buscando informações em sites de monitoramento político e votando em quem tem atuação nos bairros em que os eleitores vivem, por exemplo, identificou a reportagem. Quando o assunto é o poder Executivo, contudo, a coisa muda um pouco de figura. “Minha escolha de vereadora é por uma pessoa que atua em projetos sociais dos quais eu sou próximo. Agora quando escolho para cargos altos, como prefeito, governador e presidente, o dado de se tem um processo na Justiça ou não, importa menos.

Quase todos estão envolvidos em algum tipo de escândalo”, diz o analista de pesquisa de mercado, Cleber Valvassori. Outros entrevistados relataram o mesmo procedimento: uma pesquisa apurada para o Legislativo e um voto que leva em consideração diferentes pontos para o Executivo.

Segundo Nara, as escolhas para Executivo e Legislativo são sempre diferentes. A primeira é bem mais impessoal que a segunda, mas o peso de processos judiciais seria o mesmo na balança da opção. Acontece, contudo, que esse não é o peso central. Nem aqui, nem no resto do mundo. Recentemente, o EL PAÍS publicou um texto tratando da percepção de que políticos corruptos não são punidos na Espanha.

A conclusão? Essa percepção é geral e mundial. Um raciocínio habitual é equiparar com cinismo a corrupção em todos os partidos: para que entrem outros corruptos, que fiquem os meus. “O principal obstáculo para o castigo tem relação com o partidarismo: os seguidores de um partido tendem a ver a corrupção dessa partido como menos grave”, diz Jordi Muñoz, professor da Universidade de Barcelona, citado na reportagem que analisa a vitória do conservador Partido Popular espanhol.

Justiça e transparência

Não há um levantamento acurado de quantos políticos com problemas judiciais participaram ou foram eleitos neste pleito. Ao fazer um levantamento caso a caso, a ferramenta Atlas Político é a que mais se aproxima da resposta, mas não consegue chegar a um número preciso pela falta de transparência do sistema Judiciário. “Existem dezenas de tribunas, cada um com sua especificidade própria na divulgação de processos, então fica muito difícil cruzar dados de cada um deles”, explica Roman.

A dificuldade do acesso à base de processos é uma faca de dois gumes. O professor Ivar Hartmann, do curso de Direito da FGV-RJ, explica que no caso da Justiça do Trabalho, por exemplo, uma decisão do Conselho Nacional de Justiça proibiu que processos fossem publicados na Internet.

“Algumas empresas estavam começando a montar banco de dados com funcionários que já processaram empregadores no passado, assim, a pessoa era desclassificada de seleções para vagas automaticamente”, conta. Contudo, Hartmann acredita que isso poderia ser facilmente resolvido com uma resolução que obrigasse, por exemplo, que os tribunais divulgassem processos de pessoas com vida política.

Há ainda outra questão. Se o senso comum diz que todo político é corrupto, existe o fato de que muitos poucos políticos conseguirão passar por toda uma vida entre Executivo e Legislativo sem um processo sequer. E isso não é, muitas vezes, sinônimo de desvios. “Ao deixar os processos pouco acessíveis, acabamos reforçando a ideia de que a política é em si uma atividade corrupta.

Só que muitas vezes as ações judiciais são movidas por conta de prestação de contas e não por uma denúncia mais séria, por exemplo”, comenta Roman. Com a dificuldade de acessar processos, fica difícil também discriminá-los e todos acabam caindo em um mesmo balaio indigno.

“Eu não estou certa de que mais transparência do Judiciário, neste caso específico, signifique algo com para o eleitor. Talvez o ideal fosse que ele só recebesse informações sobre condenações”, analisa Nara. A pesquisadora ainda volta à questão de que a corrupção é usada cada vez mais como arma política e isso só reforça a impressão de que todos são corruptos. “Esse tipo de percepção diminui o peso eleitoral da corrupção: se ela é percebida como uma constante entre os políticos, deixa de ser um critério útil de escolha”.
André de Oliveira/El País