Aécio Neves – Eleições 2018 e a ruína do império de um político

Como o império político de Aécio ruiu em Minas Gerais

Aécio Neves JBS

Aécio: de presidenciável aclamado a rejeitado no próprio estado. REUTERS

Traições, alianças rompidas, censura e crise econômica minaram hegemonia local do ex-governador.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Há quatro anos, o maior líder político mineiro das últimas duas décadas dava sua primeira cartada para lançar-se à tão sonhada Presidência da República.

Aécio Neves acabava de ser eleito presidente nacional do PSDB, com quase 100% dos votos.

O ato simbólico de largada para assumir a cadeira que o avô Tancredo Neves esteve prestes a ocupar no período da redemocratização encobria, no entanto, a incipiente perda de força do tucano em seu reduto eleitoral.

A gravação de Joesley Batista, que flagra Aécio pedindo propina de 2 milhões de reais, é apenas o golpe de misericórdia sobre o corroído capital político que restava ao ex-presidenciável depois de ter sido engolido pelas delações da Odebrecht na Operação Lava Jato.

Desde que iniciou o primeiro mandato como governador, em 2003, o neto de Tancredo adotou um perfil distinto do avô, que notabilizou-se pela liderança personalista. Embora tentasse se vender como estadista, Aécio tinha como virtude a repartição do poder em diversas frentes, sobretudo no interior de Minas Gerais.

“Aécio é um facilitador, nunca foi protagonista”, afirma o cientista político Rudá Ricci. Com maioria na Assembleia Legislativa e o controle do orçamento, o governador conseguia direcionar recursos para núcleos sob sua influência no estado, que reuniam não só a base aliada, mas também políticos identificados com o governo federal.

A afinidade com a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não demonstrava puramente o estilo pacificador, mas também uma estratégia para ampliar seu campo de atuação. “O aecismo, que se formou em torno de um quebra-cabeça, tinha a capacidade de aglutinar forças antagônicas. Dava poder a partidos de oposição e conciliava famílias rivais pelo interior. Depois de sua experiência como deputado federal,

Aécio levou a pequena política do baixo clero do Congresso para o estado. Essa estrutura lhe garantiu por muitos anos um status de intocável”, analisa Ricci. A favor do tucano também pesava a juventude e a projeção nacional que ganhara como presidente da Câmara dos Deputados. “Depois de Tancredo, Aécio foi o primeiro representante do executivo mineiro com envergadura de presidenciável”, diz Bruno Reis, professor de ciências políticas da Universidade Federal de Minas Gerais. “Ele simbolizava as pretensões da elite e dos setores econômicos.”

Para consolidar sua força, a verve aglutinadora de Aécio alcançou proezas que o conduziram ao pedestal de um semideus. Primeiro, uniu PSDB e PT para emplacar o desconhecido Márcio Lacerda, do PSB, na prefeitura de Belo Horizonte. Em seguida, garantiu a eleição de Antonio Anastasia, sem nenhum lastro na política, como seu sucessor no governo enquanto se lançava ao Senado. A esta altura, ele já havia protagonizado os fenômenos “Lulécio” e “Dilmécio”, em que vários prefeitos do interior apoiavam o PSDB no estado e, ao mesmo tempo, o PT, no plano nacional. As seguidas mostras de domínio nas entranhas mineiras o deixaram confiante para resgatar o ex-ministro Pimenta da Veiga do ostracismo e escolhê-lo para a sucessão de Anastasia em 2014.

Segundo antigos aliados, esse teria sido o erro capital de sua trajetória política. A escolha foi vista como uma traição ao deputado federal Marcus Pestana, regente de um importante núcleo eleitoral na Zona da Mata mineira e candidato natural ao governo. “O Aécio não traiu somente o Marcus Pestana, mas toda a rede que ele liderava no interior, que foi rapidamente desarticulada. Na campanha, havia prefeitos ligados ao Pestana posando para fotos com o Fernando Pimentel [candidato do PT que acabou superando Pimenta da Veiga no primeiro turno]. Foi um erro grosseiro de cálculo político”, afirma Ricci. Para Bruno Reis, “as conquistas que obteve em Minas subiram um pouco à cabeça de Aécio, que cedeu à tentação de tirar um nome do bolso do colete para se manter influente no governo”.

Não bastassem o esfacelamento da base no interior, o fracasso com Pimenta da Veiga e as humilhantes derrotas nos dois turnos em Minas Gerais para Dilma Rousseff na disputa presidencial, o senador teve de lidar com o acirramento da crise econômica que, ainda no governo de Anastasia, havia iniciado o processo de deterioração do aecismo. Em pouco mais de uma década à frente do executivo, a administração que propalava o famoso “choque de gestão” fez de Minas o segundo estado mais endividado do país e perdeu o fôlego para investimentos em áreas-chave como saúde, segurança e educação.

“O modelo do Aécio se restringia às relações econômicas e negligenciava as políticas. A partir do momento em que se fecha a torneira e o dinheiro acaba, essa estrutura não se sustenta mais”, avalia Ricci. Do Congresso, em meio à guerra declarada com o PT e a concentração de esforços para derrubar Dilma, Aécio tampouco conseguia atender às demandas estaduais com emendas parlamentares, o que desagradava ainda mais os apoiadores que seguiam ao seu lado após a derrota. “Aécio sempre foi um insider da política, de postura centrista”, diz Reis. “Ao partir para o ataque contra o PT, ele saiu de seu hábitat e fez do impeachment a última cartada pela presidência. Mas, como tinha retaguarda vulnerável, acabou se expondo demais.”

Nesse ponto, a corrida presidencial deixou feridas jamais escancaradas em seu berço eleitoral. Contando com a mão de ferro da irmã Andréa Neves, que desempenhou o papel informal de articuladora política durante o governo, Aécio domava a grande imprensa mineira de acordo com seus interesses. Tinha relacionamento próximo com proprietários de meios de comunicação, como Flávio Jacques Carneiro, antigo dono do jornal Hoje em Dia, que, segundo delação de Joesley Batista, teria se reunido com o empresário para tratar de propinas destinadas à campanha do tucano.

O bom trânsito na imprensa do estado, historicamente alinhada a governos de diferentes orientações partidárias, somado à dependência das verbas de publicidade estatal, construiu uma blindagem praticamente impenetrável em torno de Aécio. Vários jornalistas mineiros despedidos durante a proeminência do aecismo atribuem a demissão a exigências de Andrea Neves. De acordo com o Sindicato de Jornalistas de Minas Gerais, ela “exercia forte controle sobre as publicações no estado e perseguia críticos de Aécio”.

Andrea Neves, irmã de Aécio, foi presa na última quinta-feira.
Andrea Neves, irmã de Aécio, foi presa na última quinta-feira. REUTERS
Horas depois da prisão de Andrea, que teria negociado pessoalmente com Joesley os 2 milhões de propina repassados por meio de Frederico Costa, primo de Aécio, dezenas de jornalistas promoveram um encontro no sindicato para celebrar o que chamaram de “Dia da Liberdade de Imprensa em Minas Gerais”. Foi justamente nesse contexto de insatisfação velada nas redações que tornou-se praxe ao longo da campanha presidencial o que repórteres apelidaram, em tom irônico, de “tráfico de matérias”.
Muitas vezes guiados pela autocensura, a fim de evitar colocar o próprio emprego em risco, profissionais repassavam informações que pudessem comprometer Aécio a veículos de outros estados. Jornais nacionais começaram, então, a publicar reportagens que dificilmente ganhariam espaço em Minas, como a história do aeroporto construído com recursos públicos em um terreno da família do senador, na cidade de Cláudio.

Fora da zona de conforto, diante de uma artilharia que nunca havia experimentado, Aécio e o clã liderado por Andrea Neves reagiam de forma pouco republicana à circulação de notícias negativas que afetavam até mesmo o lado mais íntimo do senador. No começo de 2014, por exemplo, a Justiça negou um pedido para barrar buscas na internet que relacionavam o nome de Aécio ao uso de drogas.

A imagem desgastada também comprometeu a capacidade de angariar recursos para as campanhas do PSDB no estado, tanto que o pleito à Presidência deixou uma dívida superior a 15 milhões de reais para o partido. Ainda segundo a delação de Joesley, a JBS teria repassado pelo menos 60 milhões de reais em propinas para a campanha de Aécio.

“Esse escândalo é a concretização do desgaste que se desenhava há alguns anos. O declínio de Aécio deixa um vácuo de lideranças políticas sem precedentes na história de Minas”, afirma Rudá Ricci.

Por determinação do Supremo Tribunal Federal, Aécio Neves foi afastado do cargo no Senado, pode ter o mandato cassado e ainda é acusado de tentar obstruir investigações da Lava Jato. A defesa do tucano alega que o pedido a Joesley se tratava meramente de um empréstimo para fins pessoais.
BREILLER PIRES/Elpais

TSE – Comadres na farsa

Temer x Gilmar no tribunal do desdém

Michel Temer cumprimenta Gilmar Mendes na posse do ministro como presidente do TSE, em maio de 2016.
Michel Temer cumprimenta Gilmar Mendes na posse do ministro como presidente do TSE, em maio de 2016. ANDERSON RIEDEL VPR

Chegou nessa semana para o Tribunal Superior Eleitoral julgar a ação que vai decidir se o presidente Michel Temer terá ou não seu mandato cassado.

O presidente fica diante de um júri que avalia se sua conduta foi mais ou menos honrosa do que a do PT durante a campanha eleitoral de 2014, embora tenham disputado juntos o pleito.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

É um julgamento que começa com ares de peça ensaiada. Não só porque o presidente está nessa posição por obra de seu atual parceiro de Governo, o PSDB, enrolado até o pescoço com suspeitas de corrupção. É também desconfortável ver a corte presidida pelo ministro Gilmar Mendes, que nunca se constrangeu em falar sobre sua proximidade com Temer, mesmo sendo ele o presidente do TSE que vai julgá-lo agora.

Mendes tem lugar privilegiado na agenda de Temer desde sempre. Jantaram duas vezes este ano, uma em janeiro e outra no dia 12 de março, sem avisar a imprensa, na residência oficial do presidente. Estiveram juntos uma vez mais num jantar na casa do magistrado para discutir reforma política e celebrar o aniversário do senador tucano José Serra, segundo ele, no último dia 17.

Houve ainda o episódio do funeral do ex-presidente português, Mario Soares. Em janeiro, Mendes ganhou uma carona para Lisboa no avião presidencial com o intuito de participar dos rituais fúnebres. Ele acabou não indo ao enterro. Mas partilhou dez horas na mesma aeronave com o mandatário, tempo suficiente que permitiria alinhar qualquer projeto.

Eles nunca trataram do juízo do TSE nesses encontros, garantem. Muito embora, nem um nem outro se importe com o que pensam os brasileiros a respeito dessa estreita relação. O presidente até indicou um primo de Gilmar, Francisval Dias Mendes, para a diretoria da Agência Nacional de Transporte Aquaviário (Antaq) no mês passado. “Devo ter uns 70 primos”, desdenhou Gilmar, dando pouca importância ao assunto.

Pois é com a sensação de desdém que começa este julgamento. A conexão do presidente com o juiz que vai julgá-lo seria motivo de constrangimento em qualquer lugar do mundo. Ou qual seria a reação geral se o ex-presidente Lula jantasse com o juiz Sérgio Moro sem que a imprensa fosse avisada?

Qual seria a avaliação, a partir daí, sobre a Lava Jato? O mesmo se aplica agora. Qual o grau de credibilidade de um processo no TSE com Mendes na presidência da Corte?

A comparação entre Moro e Lula é feita inclusive pelo presidente da Associação Nacional de Juízes Federal, Eduardo Cubas, em um artigo intitulado Carta ao colega Gilmar Mendes. É um texto ácido que ataca o estilo “Trumpista judicial”, assumido pelo magistrado, que não se intimida de expor suas opiniões ainda que sejam contraditórias.

Ao mesmo tempo que Gilmar reclama de juízes que fazem política — como disse recentemente, ao que tudo indica, alfinetando Janot e Moro —, ele sabe como ninguém manejar o timing de suas ações, de acordo com suas simpatias.

“Min. Gilmar Mendes, diz que ‘política não pode ser feita por juízes ou promotores’, quando se acusa a esses vazamentos seletivos de investigações judiciais. Indaga-se se ‘política’ pode ser realizada por Juízes da Suprema Corte?”, questionou Cubas.

A dúvida cabe em outro episódio, que coincide com o início do julgamento no TSE. Mendes tem viagem marcada para a Europa, onde deve participar de um seminário na terceira semana de abril. Trata-se de um tempo precioso num processo que, caso se estenda, beneficia Temer, o presidente com 10% de apoio popular. Ganha tempo ainda para trocar ministros que estão para se aposentar no TSE.

Questionado se estaria disposto a adiar a viagem para não alongar o processo na corte eleitoral, o ministro não respondeu, segundo informa a Agência Brasil, estatal de notícias do Governo federal. Argumenta que a ‘institucionalidade’ do tribunal é o que persevera em suas decisões. Mas quais valores regem o conceito de institucional perseguido por ele?

Preocupa-se em desenhar os futuros cenários do julgamento em entrevistas nas últimas semanas, inclusive clareando que Temer pode ser cassado sim, mas poderia ser reindicado pelo Congresso numa eleição indireta. Buscar a institucionalidade não é manter tudo como está. Saiu uma presidenta acusada de manter os olhos fechados para a corrupção do seu partido. Agora se julga o bom ou mau uso de recursos na campanha de um então vice-presidente que tem um bocado de aliados do partido enroscados com a Lava Jato.

Assiste-se, assim, a um tribunal com ares de peça teatral. Após três anos de uma investigação que desmascara as cínicas relações de poder no Brasil, a postura do magistrado ganhou um tom de deboche e indiferença a um país machucado pelo pouco caso que a homens públicos têm dado à letra da lei. Vejam a quantidade de políticos, ministros, empresários bilionários, e tribunais sujos com a lama da Lava Jato.

Em meio a uma profunda dor de alma da sociedade brasileira, de encarar a realidade nua e crua de seus governantes, há um fiapo de esperança de que pessoas de caráter ajudem a regenerar o tecido social. Qual é a contribuição do ministro Gilmar Mendes nesta nova configuração?
Carla Jimenez

Impugnação chapa Dilma/Temer

“Este é o maior processo da história do TSE”, diz relator de ações contra a chapa Dilma-Temer

Herman: danos à Petrobras têm que ser debitados “na conta de quem causou o escândalo”

Ministro Herman Benjamin se diz espantado com os valores desviados com o objetivo de abastecer campanhas eleitorais, segundo acusações da Lava Jato.

“Eu às vezes até repetia a pergunta [a depoentes] para saber se eu estava entendendo bem, pra saber se era bilhões ou milhões. A dimensão é enorme”[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Dizendo-se espantado com os valores da corrupção da Operação Lava Jato, o corregedor-geral do Tribunal SupeOperação Lava Jatorior Eleitoral (TSE), ministro Herman Benjamin, está no posto desde 30 de agosto.
Relator das quatro ações em curso na corte pedindo a cassação da chapa da ex-presidente Dilma Rousseff e de seu vice, o atual presidente da República, Michel Temer, Herman diz que tenta imprimir celeridade à análise do processo. Para o magistrado, a decisão colegiada sobre o caso – “o maior da história do TSE” – será “histórica” e responsabilizará os agentes do esquema pelos prejuízos da petrolífera no exterior.“Não é só o maior processo na minha história como juiz, mas sim de todos. O TSE nunca julgou uma cassação de uma chapa presidencial eleita”, declarou o juiz à imprensa durante participação no VI Encontro Nacional de Juízes Estaduais, realizado na última sexta-feira (4) em Porto Seguro (BA).

“Isso [os danos à Petrobras] tem que ser debitado na conta de quem causou o escândalo”, acrescentou o ministro, para quem acordos de delação premiada, tanto de agentes individuais quanto de empresas, não têm levado em conta a dimensão do estrago que o esquema provocou à estatal.

Depois de colher depoimentos formais no transcurso da investigação, o juiz se disse impressionado com as dimensões do esquema de corrupção. Entre outros, Herman já ouviu, na condição de testemunhas, os empreiteiros Ricardo Pessoa (ex-presidente da UTC) e Otávio Marques de Azevedo (ex-presidente da Andrade Gutierrez) e o lobista Julio Camargo, ex-consultor da empresa Toyo Setal, também alvo da Lava Jato.

“Os valores são espantosos. Eu às vezes até repetia a pergunta [aos depoentes] para saber se eu estava entendendo bem, para saber se era bilhões ou milhões. A dimensão é enorme”, declarou o ministro.

Segundo registro do jornal Valor Econômico, o ministro disse não haver, mundo afora, experiências como a que o Brasil enfrenta atualmente – um contexto de crise política, econômica e ética, com a magnitude verificada, em que próprias instituições confrontem as mazelas sem que haja ruptura da normalidade democrática ou mesmo derramamento de sangue.

“Claro que os ânimos estão exaltados, mas isso não me impressiona. O que me impressiona é ver o estado de normalidade no país”, observou.

Herança pesada

Herman herdou as quatro ações – uma delas ajuizada pelo PSDB do senador Aécio Neves (MG), que perdeu as eleições para Dilma em 2014 – tão logo se tornou corregedor-geral da Justiça Eleitoral. Ele é o responsável pelo conjunto de investigações provocadas por duas Ações de Investigação Judicial Eleitoral (Aijes), uma Ação de Impugnação de Mandato Eleitoral (Aime) e uma representação por violação da legislação pertinente.

Mas, a despeito da quantidade de informações com que tem lidado, Herman defende um julgamento rápido – sem que, no entanto, estejam em risco a presunção de inocência e o pleno direito de defesa dos acusados.

“Vocês podem ver no meu gabinete no TSE, hoje deve haver 29 processos. Não estou com um oceano de processos e, neste, estou dando uma agilidade maior. Eu acho que processos eleitorais, por natureza, têm que ser rápidos”, disse o ministro.

Segundo o jornal Folha de S.Paulo, com base em relatos de advogados de réus da Lava Jato, Herman tem empregado um ritmo célere ao processo, especialmente no que diz respeito ao depoimento de testemunhas. “Em relação a maior ou menor rapidez, eu imprimo ao processo o ritmo que eu acho que o caso merece.

Sem querer fazer previsões sobre quando o processo será concluído, Herman informou que já foram realizados os exames decorrentes da quebra de sigilo bancário dos suspeitos, segundo requerimento do próprio TSE.

Ele também não quis falar sobre a hipótese de separação dos casos de Dilma e de Temer, para julgamento individualizado. O ministro disse ainda que uma equipe de técnicos do tribunal e de órgãos de fiscalização ainda se debruçam sobre o material recolhido, e preferiu não comentar informações referentes a esse trabalho.

Caixa dois

Entre outras acusações, a chapa é suspeita de ter sido financiada com recursos de caixa dois recolhidos em fraudes contratuais descobertas pela Polícia Federal na Petrobras, via pagamento de propina para agentes políticos e ex-diretores da estatal.

Tanto o PT quanto o PMDB dizem que suas movimentações financeiras de campanha foram aprovadas pelo TSE e estão dentro das exigências da legislação eleitoral.

Cassada em 31 de agosto, Dilma sempre negou ter tido conhecimento de qualquer esquema criminoso na petrolífera. E que, como candidato eleita e reeleita à Presidência da República, em uma chapa com alcance nacional, não tinha como controlar cada movimentação financeira de sua campanha.

Por sua vez, Temer também se diz alheio a qualquer esquema de corrupção com o objetivo de financiar campanhas eleitorais. Presidente nacional licenciado do PMDB, ele diz que o fato de ter disputado eleições em uma chapa com o PT não quer dizer que os eventuais desmandos foram compartilhados.

Segundo Temer, há uma corrente jurídica que defende a separação das contas de campanha, para efeitos de eventual questionamento na Justiça, de maneira a impedir que um partido que tenha agido dentro da lei seja responsabilizado por outro que, parceiro de chapa, incorreu em crime eleitoral.
Congresso em Foco

Eleições 2014: Os pilares da estupidez

Censura Internet Blog do Mesquita 01Está em curso, há anos, nas “redes sociais” insidiosa campanha de agressão à democracia e crescentes ataques às instituições.

Quem cala, consente. Os governos do PT têm feito, em todo esse período, cara de paisagem. Nem mesmo quando diretamente insultados, ou caluniados, os dirigentes do partido tomaram qualquer providência contra quem os atacava, ou atacava as instituições, esquecendo-se de que, ao se omitirem, a primeira vítima foi a democracia. Nisso, sejamos francos, foram precedidos por todos os governos anteriores, que chegaram ao poder depois da redemocratização do país.

Mergulhados na luta política e na administração cotidiana dos problemas nacionais, nenhum deles percebeu que o primeiro dever que tínhamos, nesta nação, depois do fim do período autoritário, era regar e proteger a frágil flor da Liberdade, ensinando sua importância e virtudes às novas gerações, para que sua chama não se apagasse no coração dos brasileiros. Se, naquele momento, o da batalha pela reconquista do Estado de Direito, cantávamos em letras de rock que queríamos votar para presidente, hoje parece que os polos da razão foram trocados, e que vivemos sob a égide da insânia e da vilania.

Em absoluta inversão de valores, da ética, da informação, da própria história, retorna a velha balela anticomunista de que Jango — um latifundiário liberal ligado ao trabalhismo — ia implantar uma ditadura cubano-soviética no Brasil, ou que algumas dezenas de estudantes poderiam derrubar, quatro anos depois, um regime autoritário fortemente armado, quando não havia nenhuma condição interna ou externa para isso.

Retorna a velha balela anticomunista de que Jango ia implantar uma ditadura cubano-soviética no Brasil
Agora, para muitos que se manifestam pela internet, quem combatia pela democracia virou terrorista, os torturadores são incensados e defendidos, e prega-se abertamente o fim do Estado de Direito, como se o fascismo e o autoritarismo fossem solução para alguma coisa, ou o Brasil não fosse ficar, política e economicamente, imediata e absolutamente, isolado do resto do mundo, caso fosse rompida a normalidade constitucional.

Ora, os mesmos internautas que insultam, hoje, o Judiciário, sem serem incomodados — afirmando que o ministro Toffoli fraudou as eleições — já atacaram pesadamente Aécio Neves e sua família, quando ele disputava a indicação como candidato à Presidência pelo PSDB em 2010. São eles os mesmos que agridem os comandantes militares, acusando-os de serem “frouxos” e estarem controlados pelos comunistas, e deixam claro seu desprezo pelas instituições brasileiras, incluindo as Forças Armadas, pedindo em petição pública à Casa Branca uma intervenção dos Estados Unidos no Brasil, como se fôssemos reles quintal dos EUA, quando são eles os que se comportam como abjetos vira-latas, em sua patética submissão ao estrangeiro.

São eles os que defendem o extermínio dos nordestinos e a divisão do país, como se apenas naquela região a candidata da situação tivesse obtido maioria, e não estivéssemos todos misturados, ou nos fosse proibida a travessia das fronteiras dos estados.

São eles que inventam generais de araque, supostos autores de manifestos igualmente falsos, e usam, sem autorização, o nome de oficiais da reserva, em documentos delirantes, tentando manipular, a todo momento, a base das Forças Armadas e as forças de segurança, dando a impressão de que existem sediciosos no Exército, na Marinha, na Aeronáutica, quando as três forças se encontram unidas, na execução de projetos como o comando das Operações de Paz da ONU no Haiti e no Líbano; as Operações Ágata, em nossas fronteiras; o novo Jato Cargueiro Militar KC-390 da Embrer; o novo Sistema de Mísseis Astros 2020 da Avibras; ou o novo submarino nuclear brasileiro, no cumprimento, com louvor, de sua missão constitucional.

O site SRZD, do jornalista Sérgio Rezende, entrou em contato com oficiais militares da reserva, que supostamente teriam “assinado” um manifesto, que circula, há algum tempo, na internet. O texto se refere a “overdose de covardia, cumplicidade e omissão dos comandantes militares” e afirma que, como não há possibilidade de tirar o PT do poder, é preciso dar um golpe militar, antes que o Brasil se transforme em uma “Cuba Continental”.

Segundo o SRZD, todos os oficiais entrevistados, incluindo alguns generais, negaram peremptoriamente terem assinado esse “manifesto” e afirmaram já ter entrado em contato com o Ministério do Exército, denunciando tratar-se o e-mail que divulgava a mensagem de uma farsa e desmentindo sua participação no suposto movimento.

Por mais que queiram os novos hitlernautas, os militares brasileiros sabem que o governo atual não é comunista e que o Brasil não está, como apregoam os “aloprados” de extrema direita que tomaram conta da internet, ameaçado pelo comunismo internacional.

Como dizer que é comunista, um país em que os bancos lucram bilhões, todos os trimestres; em que qualquer um — prerrogativa maior da livre iniciativa — pode montar uma empresa a qualquer hora, até mesmo com apoio do governo e de instituições como o Sebrae; no qual investidores de todo o mundo aplicam mais de 60 bilhões de dólares, a cada 12 meses, em Investimento Estrangeiro Direto; onde dezenas de empresas multinacionais se instalam, todos os anos, junto às milhares já existentes, e mandam, sem nenhuma restrição, a cada fim de exercício, bilhões e bilhões de dólares e euros em remessa de lucro para e exterior?

Como taxar de comunista um país que importa tecnologia ocidental para seus armamentos, tanques, belonaves e aeronaves, cooperando, nesse sentido, com nações como a França, a Suécia, a Inglaterra e os Estados Unidos? Que participa de manobras militares com os próprios EUA, com países democráticos da América do Sul e com democracias emergentes, como a Índia e a África do Sul?

Baboso, atrasado, furibundo, ignorante, permanentemente alimentado e realimentado por mitos e mentiras estapafúrdias, que medram como fungos nos esgotos mais sombrios da Rede Mundial, o anticomunista de teclado brasileiro é sobretudo hipócrita e mendaz.

Nada contra alguém ser de direita, desde que se obedeçam as regras estabelecidas na Constituição
Ele acredita “piamente” que Dilma Rousseff assaltou bancos e matou pessoas e que José Genoino esquartejou pessoalmente um jovem, começando sadicamente pelas orelhas, quando não existe nesse sentido nenhum documento da ditadura militar.

Ele vê em um site uma foto da Escola Superior de Agricultura da USP, a Esalq, situada em Piracicaba, e acredita, também, “piamente”, que é uma foto da mansão do “Lulinha”, que teria virado o maior fazendeiro do país, junto com seu pai, sem que exista uma única escritura, ou o depoimento — até mesmo eventualmente comprado — de um simples peão de fazenda ou de um funcionário de cartório, que aponte para alguma prova ou indício disso, como de outras “lendas urbanas”, como a participação da família do ex-presidente da República na propriedade de um grande frigorífico nacional.

Ele crê, piamente, e divulga isso, todo o tempo, que todos os 600 mil presos brasileiros têm direito a auxílio-reclusão quando quase 50% deles sequer foram julgados, e menos de 7% recebem esse benefício, e mesmo assim porque contribuíram normalmente, antes de serem presos, para a Previdência, durante anos, como qualquer trabalhador comum.

Nada contra alguém ser de direita, desde que se obedeçam as regras estabelecidas na Constituição. Nesse sentido, o senhor Jair Bolsonaro presta um serviço à democracia quando diz que falta, no Brasil, um partido com essa orientação ideológica, e já se declara candidato à Presidência, por essa provável agremiação, ou por essa parcela do eleitorado, no pleito de 2018.

Os mesmos internautas que pensam que Cuba é uma ditadura contagiosa e sanguinária, da qual o Brasil não pode se aproximar, ligam para os amigos para se gabar de seu novo smartphone ou do último gadget da moda, Made in República Popular da China, que acabaram de comprar.

Eles são os mesmos que leem os textos escritos, com toda a iberdade, pela opositora cubana Yoami Sanchez — já convenientemente traduzidos por “voluntários” para 18 diferentes idiomas — e não se perguntam, por que, sendo Cuba uma ditadura, ela está escrevendo de seu confortabilíssimo, para os padrões locais, apartamento de Havana, e não pendurada em um pau de arara, ou tomando choques e sendo espancada na prisão.

Mas fingem ignorar que 188 países condenaram, na semana passada, em votação de Resolução da ONU, o embargo dos Estados Unidos contra Cuba, exigindo o fim do bloqueio.

Ou que os EUA elogiaram e agradeceram a dedicação, qualidade e profissionalismo de centenas de médicos cubanos enviados pelo governo de Havana para colaborar, na África, com os Estados Unidos, no combate à pandemia e tratamento das milhares de vítimas do ebola.

Ou que a Espanha direitista de Mariano Rajoy, e não a Coreia do Norte, por exemplo, é o maior sócio comercial de Cuba.

Ou que há poucos dias acabou em Havana a XXXIII FIHAV, uma feira internacional de negócios com 4.500 expositores de mais de 60 países — aproximadamente 90% deles ocidentais — com a apresentação, pelo governo cubano, a ávidos investidores estrangeiros, como os italianos, canadenses e chineses, de 271 diferentes projetos de infraestrutura, com investimento previsto de mais de 8 bilhões de dólares.

Radical, anacrônica, desinformada e mais realista que o rei, a minoria antidemocrática que vai, eventualmente, para as ruas e se manifesta raivosamente na internet querendo falar em nome do país e do PSDB, pedindo o impeachment da presidente da República e uma intervenção militar, ou dizendo que é preciso se armar para uma guerra civil, baseia-se na fantasia de que a nação está dividida em duas e que houve fraude nas urnas, mas se esquece, no entanto, de um “pequeno” detalhe: quase um terço dos eleitores, ou mais de 31 milhões de brasileiros, ausentes ou donos de votos brancos e nulos, não votaram nem em Dilma nem em Aécio, e não podem ser ignorados, como se não existissem, quando se fala do futuro do país.

Cautelosa e consciente da existência de certos limites intransponíveis, impostos pelo pudor e pela razão, a oposição tem se recusado a meter a mão nessa cumbuca, fazendo questão de manter razoável distância desse pessoal.

Guindado, pelo voto, à posição de líder inconteste da oposição, o senador Aécio Neves, presidente do PSDB, por ocasião de seu primeiro discurso depois do pleito, no Congresso, disse que respeita a democracia permanentemente e que “qualquer utilização dessas manifestações no sentido de qualquer tipo de retrocesso terá a nossa mais veemente oposição. Eu fui o candidato das liberdades, da democracia, do respeito. Aqueles que agem de forma autoritária e truculenta estão no outro campo político, não estão no nosso campo político”.

Antes dele, atacado por internautas, por ter classificado de “antidemocráticas” as manifestações pedindo o impeachment da presidente Dilma e a volta do autoritarismo, o sociólogo Xico Graziano, também do PSDB, já tinha afirmado que “a truculência dessa cambada fascista que me atacou passa de qualquer limite civilizado. No fundo, eles provaram que eu estava certo: não são democratas. Pelo contrário, disfarçam-se na liberdade para esconder seu autoritarismo”.

E o vice-presidente nacional do PSDB, Alberto Goldman, também negou, no dia primeiro, em São Paulo, que o partido ou a campanha de Aécio Neves estivessem por trás ou apoiassem — classificando-as de “irresponsáveis” — as manifestações pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff.

É extremamente louvável a iniciativa do presidente da OAB, Marcus Vinícius Furtado Côelho, de pedir a investigação e o indiciamento, que já estão em curso, pela Polícia Federal, com base na Lei do Racismo por procedência, dos internautas responsáveis pela campanha contra os nordestinos, lançada logo após a divulgação do resultado da eleição.

Mas, se essa campanha é grave, mais grave ainda, para toda a sociedade brasileira, tem sido a pregação constante, que já ocorre há anos, pelos mesmos internautas, da realização de um Golpe de Estado, do assassinato e da tortura de políticos e intelectuais de esquerda, e de “políticos” de modo geral, além do apelo à mobilização para uma guerra civil, incluindo até mesmo a sugestão da compra de armas para a derrubada das instituições.

Cabe ao STF, ao Ministério Público, ao TSE, e aos tribunais eleitorais dos estados, que estão diretamente afeitos ao assunto, e à OAB, por meio de seus dirigentes, pedir, como está ocorrendo nos casos de racismo, a imediata investigação, e responsabilização, criminal, dos autores desses comentários, cada vez mais rançosos e afoitos, devido à impunidade, e o estabelecimento de multas para os veículos de comunicação, que os reproduzem, já que na maioria deles existem mecanismos de “moderação” que não têm sido corretamente aplicados nesses casos.

A Lei 7.170 é clara, e define como “crimes contra a Segurança Nacional e a Ordem Política e Social, manifestações contra o atual regime representativo e democrático, a Federação e o Estado de Direito”.

Há mais de 30 anos, pelas mãos de Tancredo Neves e de Ulisses Guimarães — em uma luta da qual Aécio também participou — e de milhões de cidadãos brasileiros, que foram às ruas, para exigir o fim do arbítrio e a volta do Estado de Direito, o Brasil reconquistou a democracia, pela qual havia lutado, antes, a geração de Dilma Rousseff, José Dirceu, José Serra e Aluísio Nunes, entre outros.

Por mais que se enfrentem, agora, essas lideranças, não dá para apagar, de suas biografias, que todos tiveram seu batismo político nas mesmas trincheiras, enfrentando o autoritarismo.

Cabe a eles, principalmente os que ocupam, neste momento, alguns dos mais altos cargos da República, assumir de uma vez por todas sua responsabilidade na defesa e proteção da democracia, para que a Liberdade e o bom-senso não esmoreçam, nem desapareçam, imolados no altar da imbecilidade.

Jornalistas, meios de comunicação, Judiciário, militares, Ministério Público, Congresso, Governo e Oposição, precisamos, todos, derrubar os pilares da estupidez, erguidos com o barro pisado, diuturnamente, pelas patas do ódio e da ignorância, antes que eles ameacem a estabilidade e a sobrevivência da nação, e da democracia.
Por: Mauro Santayana

Imprensa: Mediação versus ancoragem

Imprensa ManipulaçãoA Folha de S.Paulo publicou no domingo (9/11) uma curiosa análise sobre o papel da mídia tradicional nas redes sociais (ver aqui)

O levantamento foi feito entre os dias 19 e 28 de outubro, quando a disputa eleitoral era levada ao fundo do poço, em grande parte por conta de ações da própria imprensa, e consistiu em rastrear postagens feitas no Facebook e no Twitter com expressões relacionadas ao segundo turno da eleição presidencial e ao resultado das urnas.

A intenção da reportagem é demonstrar como a imprensa institucional ainda é relevante na organização das informações que circulam no ambiente hipermediado da tecnologia digital. Paralelamente, o material tenta convencer o leitor da importância da própria Folha de S.Paulo como protagonista desse ecossistema informacional, e demonstrar que o jornal não apenas está integrado às redes sociais, como assume função de avalista do que é verdade e do que não é, no meio dos boatos que circulam durante períodos de comunicação intensa como as disputas eleitorais.

Segundo o levantamento, durante os dez dias de cobertura, 61% dos compartilhamentos de links por usuários das redes sociais vieram de conteúdos publicados por jornais, portais da internet, emissoras de rádio e TV, sistemas informativos locais ou da imprensa internacional. Nos dois dias posteriores à eleição, ou seja, dias 27 e 28 de outubro, essa média subiu para 70%.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

A principal conclusão da Folha é de que o “jornalismo profissional domina as redes sociais”. Este é o primeiro grande equívoco da análise. Mas esse não é o único erro: todo o levantamento tem indicações de que se trata de um apanhado de elementos muito específicos, num contexto de alta complexidade, com o objetivo de demonstrar uma tese a priori: a de que a mídia tradicional determina a maior parte das interações nas duas principais redes sociais digitais.

A seleção de conversas com links num universo composto por uma enorme quantidade de variáveis já constitui, por si, um critério definidor do resultado. O estudo tem características de uma grosseira falácia.

Jornalismo profissional?

Como toda análise de conteúdos midiáticos, comecemos por observar a síntese do trabalho, apresentada no título. Diz a manchete da Folha: “Jornalismo profissional alimenta redes sociais”. Na linha fina, logo abaixo, afirma-se que “na reta final da eleição, 6 de cada 10 links compartilhados eram notícias”.

E o que a Folha chama de “jornalismo profissional”? – apenas o conteúdo publicado por empresas de comunicação. Mais correto seria definir esse conteúdo como “jornalismo corporativo”, ou “jornalismo institucionalizado”, ou mesmo “material da mídia tradicional”, porque “jornalismo profissional” é todo produto do trabalho de jornalistas profissionais, ou seja, de pessoas que têm o jornalismo como atividade produtiva, e não apenas daqueles que trabalham numa empresa de mídia. Aliás, depois que o Supremo Tribunal Federal, aliciado pelas empresas de comunicação – com grande protagonismo da Folha de S. Paulo – eliminou as bases definidoras do jornalismo profissional no Brasil, essa expressão fica quase sem sentido.

Outro erro, que compromete o ensaio de objetividade do jornal paulista, é considerar que uma troca de informações ou opiniões entre integrantes de uma rede social tem mais valor quando inclui um link, ou uma referência direta a conteúdo processado por uma corporação jornalística. A anexação de um link não altera a validade da informação, pois se sabe que, progressivamente, os usuários das redes tendem a confiar mais em indicações de amigos do que em conteúdos da mídia tradicional ou de publicidade.

Observe-se, por exemplo, que a capa da revista Veja com o factoide sobre o escândalo da Petrobras, que constituiu o principal evento midiático no dia da eleição, foi multiplicada por dezenas de imagens falsas, com anedotas, criadas por eleitores de Dilma Rousseff. Como o estudo da Folha classificaria esses compartilhamentos?

A verdade é que as redes sociais digitais tornam menos relevante o papel tradicional da mídia: as interações diretas entre os indivíduos desconstroem a própria mediação como função central nas relações comunicacionais. Quando muito, um jornal ou um portal noticioso funcionam no ambiente das redes como uma espécie de ancoragem da informação – mas mesmo essa função depende da credibilidade de cada veículo.

E a credibilidade da imprensa brasileira…
Por Luciano Martins Costa/Observatório da Imprensa

A velha mídia tem credibilidade?

Mída,Educação,Lavagem Cerebral, Blog do MesquitaA velha mídia tem credibilidade? Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o acesso à internet no Brasil cresceu 143,8% de 2005 a 2011. A proporção de internautas no Brasil chegou a 50,1%, em 2013. Não é pouca coisa num país de dimensões continentais, forte desigualdade social e uma população de mais de 200 milhões de pessoas.

Um dos inegáveis efeitos dessa democratização é o acesso a fontes alternativas de notícias. A opinião,que antes era formada, basicamente, a partir do Jornal Nacional e revista Veja (maior audiência e maior circulação do país, respectivamente) tem agora portais, sites, blogs e redes sociais contribuindo para sua análise.

Se você é a favor da multiplicidade de discursos, com liberdade de expressão para todos, então essa é uma ótima notícia.

Mas, se você olhar pelo ponto de vista dos jornalões… Não é de hoje que a relevância da mídia pulverizada via web representa uma forte ameaça ao poderio hegemônico dos mais tradicionais jornais, canais de TV e revistas de todo o mundo. Nos últimos anos, eles precisaram montar seus sites, liberar notícias de graça (com comentários), aumentar a participação do leitor e reduzir drasticamente o volume de exemplares impressos (alguns extinguiram de vez a versão impressa).

Tudo para tentar manter suas posições no mercado jornalístico. No Brasil, os maiores e principais jornais, revistas e canais de TV, são comandados por apenas seis famílias e uma “igreja”: Abravanel (SBT), Civita (Abril), Frias (Folha), Marinho (Organizações Globo), Mesquita (O Estado de S.Paulo), Saad (Band) e Record (Universal). Esses grupos, bem como seus ancestrais, mantiveram por décadas seguidas o monopólio da formação da opinião pública no Brasil.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O problema deles é que a crescente inserção digital permite que qualquer estudante, empresário, jornalista, padeiro ou faxineiro divulgue informações e fatos que não ganharam destaque nesses veículos, contestando versões e reportagens que seriam encaradas como verdade absoluta. Muitos sites e blogs independentes dessas estruturas já ganharam corpo, com públicos próprios que não vão aceitar mais como 100% da verdade o que aparecer na mídia tradicional, simplesmente porque agora eles têm acesso às outras faces das notícias, o que antes era muito improvável.

Além disso, os sites independentes passaram a “furar” os grandes. Estão mais próximos dos fatos e noticiam antes, mais rápido e sem ter que passar por uma grande estrutura. Hoje, muitas vezes, uma notícia que surge em um blog marginal e termina por pautar a grande mídia. É um sinal de que o pêndulo detentor da opinião pública brasileira aos poucos se afasta das sete famílias.

Uma regulamentação mais decente

Nestas eleições, combates nas redes sociais foram travados usando links de matérias “jornalísticas” como provas para argumentações. Nesse momento, levanta-se a questão da credibilidade dessas matérias. Uma notícia publicada na Folha tem o mesmo peso de uma divulgada pela Record? Uma notícia do G1 tem o mesmo peso de uma do blog Mídia Sem Máscara? Em resumo: uma notícia de um site da mídia tradicional tem mais valor do que uma da nova mídia? Evidente que o peso da repercussão instantânea é maior nos sites dos grandes. Mas, e o peso da verdade?

Há “zilhares” de exemplos de verdades manipuladas pela grande mídia nas últimas décadas por simples irresponsabilidade ou para atender aos interesses políticos do veículo (e não o interesse da sociedade), mas são exemplos totalmente desconhecidos do grande público. Só para citar os mais recentes, podemos lembrar que o Brasil da grande mídia jamais conseguiria sediar uma Copa do Mundo em 2014.

Já o caso mais recente é a histórica matéria “Eles sabiam de tudo”, sobre Lula e Dilma, publicada em Veja. Um perfeito manual inverso de jornalismo: “como não fazer”. Não se trata de ser contra ou a favor do viés político, pois os veículos têm liberdade (apesar das acusações de que vivemos numa ditadura) para assumir suas ideologias e muitos o fazem. Errado é alardear imparcialidade e não ser imparcial.

Pior ainda é publicar “reportagens” (entre aspas mesmo) sem checar a veracidade dos fatos, ou a confiabilidade da fonte, buscando influenciar fortemente resultados de uma eleição presidencial. No caso específico, o próprio advogado representante do doleiro Alberto Youssef, Antonio Basto, disse: “Asseguro que eu e minha equipe não tivemos nenhuma participação nessa divulgação distorcida.” Logo, é mentira. O pior é que tem gente que gosta de ser enganada.

Checagem dos fatos e confiabilidade da fonte são coisas básicas, mas que podem ser relativizadas quando o objetivo não é fazer jornalismo.

Diante desse e de muitos outros maus exemplos de jornalismo da mídia tradicional, está claro que é preciso regulamentação mais decente para impedir que a mídia faça de trouxa toda uma população, sem limite nenhum para inventar o que quiser.

Está claro também, que desprezar o que se diz em blogs e sites alternativos é besteira, pois a informação pode e deve ser conhecida por todos os ângulos possíveis. Aí, sim, podemos orientar nossas opiniões.
Por Ricardo de Barros Bonchristiani Ferreira, jornalista/Observatório da imprensa

Eleição 2014 foi marcada por guerra de marketing viral

Mídia, Marketing Viral,Eleições 2014,Campanhas Políticas,Internet, Blog do MesquitaO historiador americano Robert Darnton descreveu, em seu livro “Poesia e polícia”, uma forma de comunicação criada no século XVIII, na França. Descontentes com o rei Luís XV, os franceses escreviam poemas em que criticavam o monarca – chamando-o, entre outros nomes, de monstro – e espalhavam os versos em folhas de papel manuscritas ou através de canções recitadas em praças públicas. Seria, segundo Darnton, a primeira rede de comunicação da História, criada bem antes de haver computadores, internet, redes sociais ou a eleição para presidente do Brasil em 2014.

Considerando-se, porém, o que se viu pela internet brasileira nos últimos meses, o pioneirismo francês em criar uma espécie de marketing político viral não apenas segue atual como marcou a eleição este ano no Brasil. Devido à facilidade de publicação e de capilaridade do meio, qualquer pessoa pôde se tornar um marqueteiro.

Durante a campanha, todos os dias apareciam novas montagens de fotos favorecendo um candidato ou atacando o outro. Às vezes as imagens começavam a circular a partir dos perfis oficiais dos candidatos ou de seus partidos. Às vezes, elas vinham de meros militantes sem ligação partidária. E, em muitos casos, era impossível saber sua origem, o que facilitou que se propagassem mentiras e boatos.

Na última semana, por exemplo, um texto apócrifo circulou pelo Facebook pedindo atenção aos eleitores porque os marqueteiros do PT teriam criado uma estratégia: Lula seria internado, simulando uma doença para gerar comoção e ajudar na campanha de Dilma. Por outro lado, eleitores receberam mensagens via WhatsApp sugerindo que, caso eleito, Aécio acabaria com o programa Bolsa Família.

– Como há uma liberdade muito grande, as pessoas podem escrever o que quiserem na internet – afirma Jorge Oliveira, coordenador de Marketing da campanha de Paulo Hartung (PMDB), eleito em primeiro turno ao governo do Espírito Santo. – Então o que se viu nas redes sociais foi muita sujeira. Coisas que são proibidas na campanha eleitoral foram feitas na web. O meio acabou sendo usado mais para a desconstrução dos candidatos, menos para se debaterem propostas.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Segundo Oliveira, muitas das campanhas dos candidatos a presidente montaram duas equipes: uma para o programa oficial de rádio e TV, outra especificamente para a internet.

– Pela rede, o eleitor recebe um material de campanha que ele não optou por ver. Os marqueteiros sabem disso e se prepararam não apenas para espalhar as informações que conviessem para seus candidatos, como também para rebater acusações contrárias – diz ele.

Voto consolidado

A tática da desconstrução foi bastante utilizada no primeiro turno contra Marina Silva (PSB), principalmente quando a candidata retirou de seu programa de governo o apoio ao casamento de pessoas do mesmo sexo. A mudança de posicionamento rapidamente virou alvo de críticas e piadas nas redes sociais, inclusive com o perfil oficial de Dilma no Facebook publicando um post em que apontava as “contradições de Marina Silva”. O texto dizia: “Evangélica fervorosa, Marina já teve várias opiniões sobre o tema. Em 2010, era contrária e, em 2013, chegou a defender as ações de Marco Feliciano (PSC-SP), famoso pelas críticas homofóbicas”.

Na época, no fim de agosto, as intenções de voto em Marina vinham subindo nas pesquisas, muito pela comoção criada também nas redes após a morte de Eduardo Campos, e ela chegou a ficar tecnicamente empatada com Dilma no primeiro turno. Mas, já nos primeiros levantamentos feitos em setembro, a candidata do PSB começou a perder eleitores de acordo com os institutos de pesquisa Ibope e Datafolha.

– Eu acho que a principal razão de a Marina não ter ido para o segundo turno foi a repercussão daquele fato na internet – diz Marcelo Maia, coordenador de Marketing da campanha de reeleição de Cesar Maia (DEM) para prefeito do Rio em 2004. – Os próprios eleitores viralizaram que ela havia voltado atrás num ponto de seu programa, e isso foi prejudicando sua candidatura.

Já no segundo turno foi a vez de Aécio Neves sentir na pele os efeitos de como a repercussão na internet pode estremecer uma campanha. Depois de se sair bem num dos debates na TV contra Dilma, ele passou a ser tachado de machista nas redes sociais por ter chamado Dilma, e também a candidata Luciana Genro (PSOL) no primeiro turno, de leviana. O resultado foi a queda da intenção de votos de Aécio, segundo as pesquisas, entre as eleitoras brasileiras.

– Numa campanha, tudo o que acontece é planejado. Só não se planeja o erro. E um erro viraliza 300 mil vezes mais do que tudo o que você planejou – diz Marcelo Maia. – Quando o Aécio saiu daquele debate na TV achando que havia vencido por falar mais duro com Dilma, ele jamais imaginaria que seu desempenho seria transformado na internet numa situação de um machão atacando as mulheres.

Os debates, aliás, são um bom exemplo de como a internet foi utilizada na campanha de 2014.

Qualquer frase de efeito ou colocação inoportuna se transformavam quase que imediatamente em postagens para o compartilhamento da militância. Há, inclusive, um mote entre os marqueteiros de que mais importante do que vencer um debate é convencer as pessoas de que seu candidato venceu.

Por isso, os grandes temas dos debates, como corrupção, economia, privatização e a continuidade dos programas sociais, estavam sempre presentes nas redes.

Uma lógica semelhante ocorreu com as pesquisas: todas elas, independentemente de procedência e confiabilidade, foram sendo utilizadas pelos candidatos em montagens na redes sociais para mostrar alguma vantagem para um candidato.

Também se propagou muito os apoios manifestados por celebridades, de cantores como Chico Buarque (Dilma Rousseff) e esportistas como Ronaldo (Aécio Neves).

De prejudicial, Marina Silva foi atacada nas redes sociais depois que o ator americano Mark Ruffalo retirou o apoio previamente declarado à candidata do PSB, alegando que não conhecia antes suas posições quanto ao casamento LGBT.

– Esta foi a campanha em que se planejou de maneira mais organizada a utilização das redes sociais.

Houve profissionais pensando nisso para todos os candidatos, mas também apareceram colaboradores espontâneos, formando grupos de apoio – diz Gaudêncio Torquato, autor de “Novo manual de marketing político”. – Cada frase dita por alguém era pinçada e transformada em campanha na internet.

Também se usaram muito as matérias dos jornais e das revistas para destacar pontos positivos ou promover ataques. O problema é que esta campanha foi a mais chula e adjetivada desde 1989. Então nem sempre o nível do debate na internet foi bom.

Entre os marqueteiros, ainda é impreciso, porém, o real impacto do marketing viral.

Pesquisa divulgada em junho pelo Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (Cetic.br) mostrou que cerca de 50% da população brasileira acima de 10 anos de idade são usuários de internet. A dúvida é saber o quanto dessas pessoas é impactado pelo que aparece nas redes.

– A base de usuários se alargou, então é natural que haja uma preocupação maior com esse marketing na internet. Mas o público que acessa as redes sociais é o meio da pirâmide demográfica, é um público com voto mais consolidado e mais racional.

A base da pirâmide, onde está quem vota pelo bolso, ainda não é afetada pelo marketing nas redes – avalia Torquato.
Andrea Miranda/Observatório da Imprensa

Eleições 2014; Urna eletrônica pode ser fraudada? Especialistas explicam

Urna eletrônica,Fraude,Eleições 2014,Blog do MesquitaA urna eletrônica usada no Brasil não é totalmente confiável, está sujeita a fraudes internas e externas e não permite auditoria, segundo especialistas ouvidos pelo UOL. Isso significa que seu voto pode ir a outro candidato e não necessariamente o crime será descoberto.

No último teste público do equipamento promovido pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), em 2012, uma equipe de especialistas em computação da UnB (Universidade de Brasília) descobriu uma lacuna no sistema de segurança. O tribunal não permitiu novos exames públicos e não respondeu por que não realizou mais avaliações.

“Atualmente votamos com confiança incondicional na autoridade eleitoral e seus processos, algo que não faz qualquer sentido do ponto de vista de segurança”, afirmou Diego Aranha, professor de computação da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e da UnB, que liderou o grupo de especialistas em segurança e tecnologia da informação que encontrou a brecha na urna.

O grupo conseguiu quebrar o sigilo da urna e desembaralhar a ordem dos votos fictícios registrados  no equipamento.

“Em um sistema com registro puramente eletrônico dos votos, como o brasileiro, há o perigo constante de fraude em larga escala via software e sem possibilidade de detecção. Uma fraude sofisticada pode inclusive eliminar os próprios rastros, tornando-se indetectável até em uma auditoria posterior nas memórias internas dos equipamentos”, explicou Aranha.

Para o professor Pedro Rezende, do Departamento de Ciência da Computação da UnB, a votação no Brasil continua podendo ser fraudada mesmo depois de ser informatizada.

“Não há sistema informatizado invulnerável. Qualquer interessado em fraudar um complexo sistema informatizado buscará o caminho que lhe ofereça melhor relação entre o esforço ou dificuldade de execução, e o risco de ter o efeito da fraude desvelado e anulado ou a sua autoria rastreada e punida.”[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Principais problemas da urna eletrônica, segundo especialistas
  •  Possibilidade de fraudes externas

    Fraudes externas, no software da urna, são difíceis de achar. Um grupo conseguiu quebrar o sigilo da urna em um teste em 2012 e desembaralhar a ordem dos votos fictícios registrados. “Há o perigo constante de fraude em larga escala via software e sem possibilidade de detecção. Uma fraude sofisticada pode inclusive eliminar os próprios rastros, tornando-se indetectável”, explica Diego Aranha

  •  Possibilidade de fraudes internas

    Há chances de ataques internos. Segundo Amílcar Brunazo Filho, supervisor do Fórum do Voto Eletrônico, a urna brasileira é vulnerável a ataques internos, os efetuados por quem atua nas eleições como mesários e funcionários do TSE. “Alguns dos ataques dá para detectar, outras fraudes não dá se for via software. E a sociedade não consegue garantias de que o sistema foi fraudado”

  •  Não há garantia (voto impresso)

    O sistema utilizado pela urna brasileira conta os votos apenas eletronicamente, mas não permite a verificação ou a recontagem independente de software

Questionado sobre a segurança da urna brasileira, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) tergiversou. “A confiabilidade não é determinada pela razão, mas pela percepção que uma ou mais pessoas têm sobre algo (equipamento, processo, governo, cliente, fornecedor, etc). No entanto, a segurança deve ser garantida por barreiras impostas tendo como base a realidade e não em aspectos subjetivos da percepção”, afirmou Giuseppe Janino, secretário de Tecnologia de Informação do tribunal.

O TSE também afirmou que tem buscado bloquear possíveis ataques, mas reconhece que “tais barreiras nem sempre ‘garantidamente’ impedem uma fraude“. Segundo Janino, o fraudador “com grande margem de certeza” deixa marcas que permitem sua identificação. O secretário, no entanto, não explicou que meios utiliza para manter a segurança dos dados nas eleições e fiscalizar supostas sabotagens nas urnas. Também não informou o percentual do que chama de “margem de certeza”.

Críticas e modelos de urnas

Uma das recomendações dos membros do Fórum do Voto Eletrônico é a introdução do voto impresso complementar para que o eleitor possa conferir se seu voto foi registrado corretamente na urna para permitir a auditoria independente da apuração do TSE. A iniciativa ocorre na Argentina, Israel, Estados Unidos, Equador, Bélgica, Canadá e Peru, de acordo com os especialistas.

A Justiça Eleitoral brasileira implantou a urna eletrônica em 1996 e utiliza desde então um modelo de equipamento que os especialistas em segurança da informação chamam de sistema de 1ª geração, que é exclusivamente eletrônico. Já foram criadas as de 2ª e 3ª geração, que incluem uma versão impressa auxiliar ao meio eletrônico.

O equipamento usado no Brasil é do modelo DRE (Direct Record Electronic) foi criado em 1991. Ele conta votos eletronicamente, mas não permite a verificação ou a recontagem independente de software. Isso quer dizer que se a votação ou a apuração for violada dificilmente será identificada e sua auditoria não é possível, apontam especialistas.

Há também equipamentos de 2ª geração como o modelo VVPT (Voter-Verifiable Paper Audit Trail) criado em 2000. Esse sistema exige um registro impresso do voto digital para que seja possível uma auditoria independente do software da máquina. “Alguns tipos de urna requerem o registro material [de papel] na entrada da coleta eletrônica, onde uma cédula é escaneada, enquanto outros geram o registro material como saída, imprimindo uma cédula correspondente ao voto digital coletado”, explicou Rezende. Segundo o professor da UnB, esse modelo é passível de sabotagem também porque se houver discrepância entre a contagem eletrônica, automática, e a física, com o papel do voto, a auditoria não consegue  descobrir qual delas foi violada.

Os especialistas destacam o modelo E2E (End-to-End auditability) que é de 3ª geração como o mais transparente. Essas máquinas começaram a ser usadas em 2006 na Argentina e em regiões dos Estados Unidos. O modelo concentra as duas versões de voto, a impressa e a digital. O voto é eletrônico, mas gera um papel com voto e um chip com o registro do voto eletrônico. Assim, caso haja alguma discrepância entre uma contagem eletrônica e do voto impresso, é possível identificar a origem do erro ou da fraude.

“Votação puramente eletrônica e votação puramente em papel são sistemas vulneráveis a vários ataques. Combinar as duas tecnologias exige que o fraudador seja capaz de manipular não apenas as cédulas eleitorais, mas também a contagem eletrônica de votos, para que ambos os registros sejam compatíveis, o que termina por aumentar o custo de ataque substancialmente”, afirmou Aranha. “A imensa maioria das máquinas de votar em operação em outros países obedecem a esses princípios, para que os resultados não dependam unicamente do software de votação. Em sistemas com registro físico dos votos, tentativas de manipular o resultado se tornam visíveis, e, portanto passíveis de detecção por eleitores ou fiscais de partido.”

Os especialistas consultados pelo UOL explicam que a fraude no sistema exclusivamente eletrônico é difícil de ser identificada porque não há outra maneira de contagem de votos que identificaria um erro ou sabotagem. Se o voto eletrônico fosse combinado com o impresso seriam duas contagens que precisariam ser correspondentes e uma funcionaria como auditoria da outra. Em caso de fraude, ficaria muito mais difícil ao responsável pela sabotagem corromper os dois meios de votação, impresso e eletrônico.

“Uma solução interessante é adotada na Argentina: cada cédula de votação carrega o registro impresso (para verificação pelo eleitor) e eletrônico (para apuração rápida) de um voto individual”, defendeu Aranha.

Casos suspeitos de fraude
  • Saquarema (RJ)
    Um hacker identificado apenas como Rangel afirmou que conseguiu violar a urna durante as eleições de 2012 e mudar os votos antes da transmissão para a TSE por meio de um acesso da intranet do tribunal. Ele capturava o voto, alterava os resultados e retransmitia. Segundo ele, havia um leilão na internet para que hackers efetuassem o trabalho. O caso é investigado pela Polícia Federal.
  • Caxias (MA)
    Uma urna de uma seção da periferia de Caxias (MA) apresentou problemas, segundo relatos de eleitores em 2012. Um dos indícios é que um dos candidatos que votava na seção da urna não teve nenhum voto computado, nem o dele mesmo. Outros eleitores alegaram que quando digitavam o número do candidato não aparecia a foto dele. O caso foi investigado pela Justiça Eleitoral.Foto: Arte/UOL
  • Alagoas
    Durante as eleições para governador de 2006 um terço das urnas eletrônicas utilizadas em Alagoas apresentou funcionamento irregular e impróprio, revelou o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica). O caso foi investigado pela Justiça Eleitoral que após quase quatro anos arquivou o processo.Fonte: Fórum do Voto Eletrônico

Concentração de poder da Justiça Eleitoral

No Brasil, o TSE organiza e julga o processo eleitoral e isso comprometeria a isenção do órgão, segundo os especialistas. Eles defendem que seja criada uma entidade independente para organizar as eleições e que o TSE fique cuide exclusivamente dos processos judiciários das eleições como julgamento de registros, impugnações, recursos, entre outros.

Para Amílcar Brunazo Filho, o principal problema do sistema de votação no país é a concentração de poder da Justiça Eleitoral. É o que os especialistas chamam de “autoridade eleitoral”.  “O TSE são juízes e administradores. A regra de transparência é estabelecida por eles. Se você questiona, eles vestem a roupa de juiz e vão julgar se erraram?”, questiona.

“Até onde sei, dentre as democracias atuais, só no Brasil as votações oficiais são regulamentadas, executadas e julgadas por uma mesma instituição. Mais precisamente, por um ramo atípico do judiciário cuja cúpula congrega metade dos juízes da Corte Suprema, os quais não se constrangem em alardear, até em sentenças, a falaciosa suposta invulnerabilidade do sistema de votação que eles controlam”, declarou Rezende.

Questionado a respeito da concentração de poder, o TSE não se posicionou sobre a crítica feita pelos especialistas nem respondeu sobre a possibilidade de ser criado um órgão independente para administrar as eleições.

A resposta da seção jurídica do TSE sobre esta questão foi: “a Constituição de 1988 não dispõe sobre a competência da Justiça Eleitoral, limitando-se a dizer que ela será definida em lei complementar (art. 121, caput), porém tal lei complementar ainda não foi editada, acordando os doutrinadores que se consideram as disposições do Código Eleitoral.”

Aranha e um grupo de especialistas em computação desenvolveram um aplicativo para que o próprio eleitor atue como auditor da apuração eleitoral, o “Você Fiscal”. A ideia é auditar o processo final da votação, a chamada totalização, que envolve a soma dos resultados parciais produzidos por urnas eletrônicas em todo o país.

Para utilizar o aplicativo, o eleitor deverá tirar fotos do BU (boletim de urna) que é disponibilizado na seção eleitoral ao final da votação. Esse boletim é uma espécie de recibo emitido pelas urnas eletrônicas dos votos de cada candidato. As fotos do boletim são comparadas pelo aplicativo, que também relaciona a informação extraída dessas fotos com os boletins eletrônicos publicados pelo TSE alguns dias após o resultado da eleição.

“Desta forma, ficam evidentes possíveis erros ou fraudes na transmissão dos BUs para os servidores do TSE. A fiscalização será efetuada nas eleições ainda deste ano e a previsão é de que o aplicativo fique pronto entre 15 e 20 de setembro”, explicou o professor.