Aquecimento Global; Um verão desastroso no Ártico

Na Sibéria, no final de maio, o degelo do permafrost causou o colapso de um tanque de armazenamento de petróleo, levando ao maior derramamento de óleo já ocorrido no Ártico russo.

A remota cidade siberiana de Verkhoyansk, a cinco mil quilômetros a leste de Moscou e a seis milhas ao norte do Círculo Polar Ártico, há muito mantém o recorde, com outra cidade siberiana, do lugar mais frio e habitado do mundo. O recorde foi estabelecido em 1892, quando a temperatura caiu para noventa abaixo de zero Fahrenheit, embora atualmente as temperaturas do inverno sejam notavelmente mais amenas, pairando em torno de cinquenta abaixo. No último sábado, Verkhoyansk reivindicou um novo recorde: a temperatura mais quente já registrada no Ártico, com uma observação de 100,4 graus Fahrenheit – a mesma temperatura foi registrada naquele dia em Las Vegas. Miami só atingiu cem graus uma vez desde 1896. “Esta é uma primavera incomumente quente na Sibéria”, disse Randy Cerveny, relator de clima e extremos climáticos da Organização Mundial de Meteorologia. “A coincidência falta de neve subjacente na região, combinada com o aumento global da temperatura global, sem dúvida ajudou a desempenhar um papel crítico na causa desse extremo”. A Sibéria, em outras palavras, está no meio de uma onda de calor surpreendente e histórica.

A mudança climática antropogênica está fazendo com que o Ártico aqueça duas vezes mais rápido que o resto do planeta. Os modelos climáticos previram esse fenômeno, conhecido como amplificação no Ártico, mas não previram a rapidez com que o aquecimento ocorreria. Embora Verkhoyansk tenha visto temperaturas quentes no passado, o recorde de 100,4 graus de sábado segue um ano muito quente em toda a região. Desde dezembro, as temperaturas no oeste da Sibéria estão dezoito graus acima do normal. Desde janeiro, a temperatura média na Sibéria é de pelo menos 5,4 graus Fahrenheit acima da média de longo prazo. Como relatou o meteorologista Jeff Berardelli para a CBS, o calor que caiu na Rússia em 2020 “é tão notável que coincide com o que é projetado para ser normal até o ano 2100, se as tendências atuais nas emissões de carbono capturadoras de calor continuarem”. Em abril, devido ao calor, os incêndios florestais na região eram maiores e mais numerosos do que na mesma época do ano passado, quando o governo russo finalmente teve que enviar aviões militares para combater grandes incêndios. A escala dos atuais incêndios florestais – com altas nuvens de fumaça visíveis por milhares de quilômetros em imagens de satélite – sugere que este verão poderia ser pior. Por causa da pandemia de coronavírus, eles também serão mais complicados de combater.

No final de maio, quando o sol parou de cair no horizonte, o calor continuou. Na cidade de Khatanga, ao norte do Círculo Polar Ártico, a temperatura atingiu setenta e oito graus Fahrenheit, ou quarenta e seis graus acima do normal, superando o recorde anterior em vinte e quatro graus. O calor e os incêndios também estão acelerando a dissolução do permafrost da Sibéria, terra eternamente congelada que, quando descongelada, libera mais gases de efeito estufa e desestabiliza dramaticamente a terra, com graves conseqüências. Em 29 de maio, fora de Norilsk, a cidade mais setentrional do mundo, o degelo se deteriorou, causando um colapso do tanque de armazenamento de petróleo e vomitando mais de cento e cinquenta mil barris, ou vinte e um mil toneladas de diesel. Rio Ambarnaya. O derramamento foi o maior que já ocorreu no Ártico russo.

Norilsk, que foi construído na década de 1930 pelos prisioneiros de um campo Gulag nas proximidades, Norillag, já era um dos lugares mais poluídos do mundo. A maioria dos seus cento e setenta e sete mil residentes trabalha na Norilsk Nickel, a empresa proprietária do tanque de óleo em colapso. Somente seu complexo maciço de mineração e metalurgia vale dois por cento do PIB da Rússia. A cidade contribui com um quinto do suprimento global de níquel e quase metade do paládio do mundo, um metal usado na fabricação de conversores catalíticos. As fábricas ondulam incessantemente nuvens de dióxido de enxofre, e a chuva ácida resultante transformou a cidade e seus arredores em um terreno baldio industrial, sem espaços verdes ou parques, apenas terra e árvores mortas. A expectativa de vida em Norilsk é vinte anos mais curta do que nos Estados Unidos. A última vez que a cidade divulgou as notícias, antes do derramamento de óleo, foi há exatamente um ano, quando um urso polar emaciado, refugiado de sua casa em decomposição, foi fotografado vasculhando o depósito de lixo da cidade.

Os executivos da Norilsk Nickel tentaram contornar a responsabilidade pelo derramamento de óleo, culpando o degelo permafrost – ou, como um comunicado à imprensa afirmou, “um afundamento repentino dos pilares do tanque de armazenamento, que funcionou sem acidentes por mais de trinta anos”. Mas o degelo não aconteceu inesperadamente, do nada. Os edifícios em Norilsk entraram em colapso por causa do terreno caído. Especialistas russos e internacionais estão cientes dos riscos que o degelo rápido do permafrost representa há mais de uma década. Um relatório de 2017 de um grupo de trabalho do Conselho do Ártico disse que “as comunidades e a infraestrutura construídas em solos congelados são significativamente afetadas pelo degelo do permafrost, um dos impactos mais econômicos das mudanças climáticas no Ártico”. Eles descobriram que o degelo do permafrost pode contaminar a água doce, quando os resíduos industriais e municipais congelados anteriormente são liberados, e que a capacidade de sustentação das fundações das construções diminuiu de quarenta a cinquenta por cento em alguns assentamentos siberianos desde os anos noventa e sessenta. Eles também observaram que “o vasto campo de gás de Bovanenkovo ​​no oeste da Sibéria registrou um aumento recente de deslizamentos de terra relacionados ao degelo do permafrost”. Os autores de um artigo de 2018, publicado na Nature Communications, descobriram que “45% dos campos de extração de hidrocarbonetos no Ártico russo estão em regiões onde a instabilidade do solo relacionada ao degelo pode causar danos graves ao ambiente construído”. O documento continuou: “De maneira alarmante, esses números não são reduzidos substancialmente, mesmo que os objetivos de mudança climática do Acordo de Paris sejam alcançados”

No início de junho, o presidente Vladimir Putin declarou uma emergência nacional e censurou as autoridades locais por sua lenta resposta ao derramamento. O Kremlin supostamente descobriu o vazamento dois dias após o fato, a partir de fotos de um rio vermelho postado nas mídias sociais. Embora o Ministério Público russo tenha concordado, em uma conclusão preliminar, que o degelo permafrost foi um fator que contribuiu para o derramamento, os investigadores também disseram que o tanque de armazenamento de combustível precisava de reparos desde 2018. Eles prenderam quatro funcionários da usina sob acusações violar os regulamentos ambientais. Norilsk Nickel negou as acusações, mas disse que a empresa está cooperando com as agências policiais e lançou “uma investigação completa e completa”. “Aceitamos totalmente nossa responsabilidade pelo evento”, disse a empresa em comunicado ao Guardian.

Vladimir Potanin, presidente da Norilsk Nickel e o homem mais rico da Rússia, disse que a empresa pagará o custo total do desastre, que ele calculou em dez bilhões de rublos, ou cento e quarenta e seis milhões de dólares. (Um órgão ambiental russo, Rosprirodnadzor, pagou o custo em cerca de um bilhão e meio de dólares.) Putin, enquanto isso, criticou publicamente Potanin pelo desastre, enfatizando que foi a negligência de sua empresa que levou ao derramamento. “Se você os substituísse a tempo”, disse Putin, em uma vídeo chamada no início de junho, referindo-se ao tanque de armazenamento de petróleo em envelhecimento, “não haveria danos ao meio ambiente e sua empresa não precisaria carregar esses custos “.

Os esforços de resposta inicial da empresa – barreiras flutuantes para conter o vazamento – falharam amplamente. Em 9 de junho, o petróleo havia entrado no lago Pyasino, com 68 quilômetros de extensão, que faz fronteira com uma reserva natural e deságua no rio Pyasino. “Uma vez que entra no sistema fluvial, ele não pode mais ser parado”, disse Rob Huebert, especialista do Ártico da Universidade de Calgary. “O petróleo poderia então chegar ao Oceano Ártico.” Em 11 de junho, o comitê de investigação da Rússia acusou o prefeito de Norilsk de negligência criminal por sua resposta frustrada ao desastre. Na sexta-feira passada, em outra vídeo chamada, o ministro de emergências de Putin relatou que as equipes de resposta coletaram 3,6 milhões de pés cúbicos de solo poluído e 1,1 milhão de pés cúbicos de água contaminada. A empresa construirá um oleoduto para bombear a lama contaminada para locais de descarte não especificados. Mas a região continuará sendo tóxica. O óleo diesel penetra nas margens do rio. Mesmo se o óleo estiver contido no lago, a contaminação nunca poderá ser totalmente removida. Algumas delas passarão pela cadeia alimentar. A vida selvagem – peixes, pássaros, renas – pode sofrer por décadas. “Você nunca pode realmente limpar um vazamento”, disse Huebert. Putin, na chamada, enfatizou que o trabalho deve continuar até que o dano seja sanado. “Obviamente, o desastre trouxe conseqüências terríveis para o meio ambiente e impactou severamente a biodiversidade nos corpos d’água”, disse ele. “Vai levar

O elo entre desmatamento e epidemias investigado pela ciência

A região com a maior floresta tropical do mundo também é considerada um provável polo de epidemias, como mostrou uma análise feita por uma equipe liderada por Simon Anthony, da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Só de coronavírus que circulam em morcegos também no Brasil, o levantamento contabilizou pelo menos 3.204 tipos.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

Faz pelo menos duas décadas que cientistas repetem o alerta: à medida que populações avançam sobre as florestas, aumenta o risco de micro-organismos – até então em equilíbrio – migrarem para o cotidiano humano e fazerem vítimas.

Cientistas alertam há décadas para o risco de novas doenças como consequência da destruição de florestas. Assim como a Ásia, origem do novo coronavírus, a Amazônia é vista como possível polo de enfermidades.

Foi por isso que a notícia sobre a propagação do novo coronavírus, detectado pela primeira vez na China em dezembro passado e que se espalhou pelo mundo, não pegou Ana Lúcia Tourinho de surpresa. Doutora em Ecologia, ela estuda como o desequilíbrio ambiental faz com que a floresta e sociedade fiquem doentes.

“Quando um vírus que não fez parte da nossa história evolutiva sai do seu hospedeiro natural e entra no nosso corpo é o caos. Está aí o novo coronavírus esfregando isso na nossa cara”, argumenta Tourinho, pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

No caso do novo coronavírus, batizado de Sars-CoV-2, muito antes de infectar os primeiros humanos e viajar a partir da China, abrigado no corpo de viajantes, para outras partes do mundo, ele habitava outros hospedeiros num ambiente selvagem – morcegos, provavelmente.

Isolados e em equilíbrio em seu habitat, como florestas fechadas, vírus como esse não ameaçariam os humanos. O problema é quando esse reservatório natural começa a ser recortado, destruído e ocupado.

Estudos científicos publicados anos antes da atual pandemia já mostravam a conexão entre perda florestal, proliferação de morcegos nas áreas degradadas e coronavírus. Análises assinadas por Aneta Afelt, pesquisadora da Universidade de Varsóvia, na Polônia, descrevem como os altos índices de destruição florestal nos últimos 40 anos na Ásia eram um indicativo de que a próxima doença infecciosa grave poderia sair dali.

Para chegar a essa conclusão, Afelt seguiu o rastro de pandemias prévias provocadas por outros coronavírus, como a da Sars, em 2002 e 2003, com taxa de mortalidade de 10%, e a Mers, em 2012, que matou 38% das vítimas infectadas.

“Por ser uma das regiões do mundo onde o crescimento populacional é mais intenso, onde as condições sanitárias permanecem ruins e onde a taxa de desmatamento é mais alta, o Sudeste Asiático atende a todas as condições para se tornar o local de emergência ou reemergência de doenças infecciosas”, afirmou Afelt num artigo de 2018.

Tais condições não se aplicam apenas a essa parte do mundo. Na Amazônia, onde em 2019 o desmatamento bateu o recorde desta década, com 9.762 km² destruídos, e os alertas de desmatamento aumentaram 51,4% entre janeiro e março de 2020 em relação ao período anterior, o cenário é parecido.

O risco que vem da Amazônia

Tourinho não gosta nem de pensar sobre o impacto na saúde pública se a destruição da Floresta Amazônica seguir o ritmo acelerado. “Se a Amazônia virar uma grande savana, não dá nem para imaginar o que pode sair de lá em termos de doenças. É imprevisível”, diz a pesquisadora. “Além de ser importante para nós por causa do clima, da fauna, ela é importante para nossa saúde.”

Estudos feitos no país já traçaram a relação direta entre o corte da Amazônia e o aumento de doenças. Em 2015, por exemplo, uma equipe do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) constatou que, para cada 1% de floresta derrubada por ano, os casos de malária aumentavam 23%.

A pesquisa foi feita com dados de 773 cidades no Projeto de Monitoramento de Desmatamento da Amazônia, de 2004 a 2012. Além da malária, a incidência de leishmaniose também se mostrou diretamente relacionada ao desmatamento.

“A floresta fechada é como um escudo para que comunidades externas entrem em contato com animais que são hospedeiros de micro-organismos que causam doenças. E quando a gente fragmenta a floresta, começa a fazer vias de entrada no seu seio, isso é uma bomba-relógio”, conclui Tourinho, mencionando ainda o perigo trazido por grandes empreendimentos, como hidrelétricas na Amazônia.

O entra e sai da floresta fragmentada para tirar madeira, colocar gado, abrir garimpo também é apontado como um perigo para a saúde. “As pessoas que entram nessas áreas podem ter contato com esses vírus e levar dentro delas o problema para centros urbanos”, exemplifica Tourinho.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita

Nesse cenário, indígenas conseguem ser mais resistentes devido ao convívio por séculos com a floresta intocada, pontua a pesquisadora.

“Quando esses vírus chegam às cidades, a disseminação é muito rápida, justamente por toda a facilidade de deslocamento nesses centros, possibilidade de deslocamentos internacionais. As cidades repetem o mesmo estilo de confinamento que a gente faz com os animais e são gatilhos para proliferação de doenças contagiosas”, acrescenta a bióloga.

Uma dessas rotas pode explicar a origem da pandemia do Sars-Cov-2. A covid-19, doença respiratória provocada pelo coronavírus, infectou mais de 2 milhões de pessoas e matou mais de 128 mil no mundo, segundo dados atualizados pela Universidade Johns Hopkins.

Covid-19; Isolamento reforça importância dos parques para a saúde

O objetivo maior de uma unidade de conservação é a proteção da natureza, mas por debaixo dessa missão há na verdade uma troca, na qual a própria sociedade é protegida e beneficiada pela presença da área preservada.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (6)

A quarentena pode ser um convite para repensar nossas conexões com a natureza e a importância das áreas protegidas.

Dentre os benefícios que a natureza nos presta, também conhecidos como serviços ambientais ou ecossistêmicos, está a saúde promovida tanto diretamente pelo contato com a natureza, quanto indiretamente, por nos proteger contra doenças, como a febre amarela, a malária e, especula-se, o próprio coronavírus.

A lista de serviços ecossistêmicos prestados por uma área de natureza preservada é maior do que imaginamos. “A natureza nos presta serviços pelos quais a gente não paga nada: nascentes de água, regulação de clima, solo fértil… E há também o efeito de diluição. A biodiversidade tem a capacidade de diluir o processo de transmissão de agentes infecciosos e manter esses agentes numa proporção muito baixa dentro de uma área com grande biodiversidade. Esse é um serviço da natureza que a gente nunca fala”, ressalta a coordenadora do Centro de Informação em Saúde Silvestre da Fiocruz, Marcia Chame.

“Para quê que serve uma unidade de conservação? Serve para água, pra gente passear, pra ficar perto da natureza, desestressar, para tudo isso, mas também serve para diluir o processo de transmissão dos agentes infecciosos. A gente precisa fazer as pessoas entenderem o quanto as unidades de conservação nos protegem”, aponta Chame.

A pesquisadora lembra que essa rica biodiversidade também é fonte para remédios e princípios ativos de vacinas. “Quando você tem uma unidade de conservação grande, bem conservada, o que a gente tem ali dentro? Uma diversidade de espécies grandes também. É desse conjunto biológico que o homem se aproveita para produzir várias coisas, entre elas remédios. Mais de 75% dos remédios utilizados são baseados em compostos naturais, a maior parte de plantas. E o que não é produzido a partir dessas moléculas da natureza, é inspirado nessas moléculas. Quando você perde biodiversidade, você perde esse potencial todo de produção de remédio e de inspiração”.

Dentre as unidades de conservação, parques são a categoria que mais se aproximam da sociedade e que têm a missão de ser “a janela do sistema”, em referência ao SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação). Apesar dessa vocação ao público, ainda há um grande gargalo no Brasil para consolidar essa conexão entre parque e sociedade.

O voluntariado pode ser uma oportunidade para engajar as pessoas na conservação da natureza. Foto: Duda Menegassi.

De acordo com o diretor-presidente do Instituto Semeia, Fernando Pieroni, uma das dimensões mais importantes para construir essa cultura de parques entre os brasileiros começa no imaginário. “Os parques são um patrimônio da sociedade. Parte desse processo inclui trazer os parques para o imaginário coletivo, inclui explicar para sociedade a conexão que os parques têm com saúde pública, com bem-estar, e com mais do que normalmente associamos à função de conservação ambiental do parque”, analisa Pieroni.

A publicação “Parques do Brasil: Percepções da População”, produzida e divulgada pelo Semeia em março deste ano, ajuda a mapear as percepções dos brasileiros sobre os parques e a entender como traduzir o papel deles para sociedade, tanto os naturais quanto os urbanos. “Há uma complementaridade. O parque urbano normalmente é o primeiro contato e que depois tende a te levar para um parque natural. Normalmente a experiência de imersão na natureza é diferente nos dois, assim como o tipo de atividade. O parque natural é visto como oportunidade de contato com a natureza, enquanto o parque urbano está mais relacionado com aquele esporte corriqueiro, passear, encontrar amigos”, descreve Pieroni baseado nos levantamentos do estudo.

O diretor acredita que os parques terão um papel importante na hora do fim do isolamento e pós-crise do coronavírus. “Tem muita gente sofrendo com esse confinamento em casa e se os parques já tinham um papel importante antes, na hora que as pessoas voltarem a sair de casa e quiserem se reconectar com espaços públicos e naturais, os parques terão um papel de descompressão emocional fundamental – principalmente os urbanos, que são mais acessíveis”.

O vice-presidente da Comissão Mundial de Áreas Protegidas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), Cláudio Maretti, acredita que o fim da quarentena será uma oportunidade para quem trabalha com áreas protegidas. “Acho que as pessoas que gostam da natureza e de estar ao ar livre vão sentir a necessidade de retomar esse contato o mais rápido possível, mesmo que seja em parques urbanos e mais antropizados. Principalmente as pessoas que estão confinadas em apartamentos nas grandes cidades”, analisa. “Isso seria uma oportunidade. Existe uma intenção manifesta, reprimida por causa do distanciamento social”.

Abrir a porta dos parques e colocar o tapete de bem-vindos, entretanto, não será suficiente para ganhar novos aliados da conservação. “Eu acho que vai ter essa corrida no início, e eu espero que ela seja ampla e duradoura, mas os outros estímulos, como cinemas e shoppings, vão continuar competindo. E competir com a indústria do entretenimento, com o consumismo, vai ser igualmente difícil. Cabe a nós, profissionais das áreas protegidas, abrir mais oportunidades com a oferta de atividades, mais áreas para visitação e a criação de programas de engajamento, como o voluntariado”, pondera o especialista em conservação.

Enquanto a quarentena não acaba e a fruição dos parques e de outras áreas protegidas fica comprometida, cabe buscar formas alternativas de manter o contato com a natureza – uma conexão que, inclusive, faz muito bem para saúde. Maretti, que em janeiro publicou em ((o)) eco uma coluna sobre a relação de áreas protegidas e saúde, pontua a quantidade de artigos científicos da área médica que indicam como o contato com a natureza contribui com o bem-estar, ajuda no combate ao estresse e até na recuperação de doenças.Ambiente,Amazônia,Brasi,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Meio Ambiente,Queimadas,Ecologia,Fauna,Flora,Pecuária,Pesticidas,Agrotóxicos,Biodiversidade,CrimesAmbientais,Sustentabilidade,VidaSelvagem,AquecimentoGlobal,Água,Alimentos,Clima,Agricultura

“Tem uma gradação que vai desde você ver uma foto, até você ter uma janela pro verde urbano, até você morar numa parte da cidade que é mais arborizada, ou numa área próxima a parques. É o que eu faço aqui em casa, vou para sacada ver o verde para me sentir melhor. Isso está nas pesquisas científicas. Há teorias que dizem que esse sentimento é uma herança do tempo em que a gente vivia no mato, uma convivência que perdemos com a vida urbana. Da mesma forma que você olha a foto de um ente querido e isso pode te fazer bem, faz bem olhar a natureza, mesmo que por uma imagem ou pela janela”, explica Maretti.

Clima, coragem e a ambição de que precisamos agora

Enquanto formuladores de políticas e ativistas de todo o mundo se reúnem para a Semana do Clima na cidade de Nova York, Lynn Scarlett explica por que precisamos de compromissos mais ousados ​​- mas por que é nos detalhes diabólicos da ação que o progresso acontece.

Ser um defensor de longa data da ação climática às vezes parece ser Cassandra do mito grego – amaldiçoada por ver o futuro, mas nunca acreditar.

Este é talvez o aspecto mais assustador das mudanças climáticas. Conhecemos os terríveis impactos. Sabemos o que precisamos fazer para evitar uma catástrofe global. Mas ficamos muito aquém de tomar ações na escala necessária.

É de se perguntar o que Cassandra teria pensado se estivesse presente na assinatura do Acordo de Paris em 2015, sabendo que esse compromisso internacional sem precedentes seria seguido por mais quatro anos de aumento nas emissões, temperaturas e níveis do mar.

Ainda assim, não me desespero pelo futuro. Não me sinto como Cassandra – agora as vozes da ação climática estão sendo ouvidas de maneira mais ampla. Poderíamos estar à beira de uma oportunidade sem precedentes de ação climática corajosa.

Mexa-se agora
Convide os líderes mundiais a serem corajosos em relação às mudanças climáticas.

Um novo momento de conscientização
Quando o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) divulgou seu relatório de 1,5 graus em outubro passado, a reação do público foi alarmante – e isso é promissor. De repente, a mensagem se espalhou – de maneira ampla e com ressonância – quando as pessoas viram o que os Cassandras haviam visto há muito tempo.

Este ano traz mais dois relatórios do IPCC – um relatório sobre uso da terra e clima foi lançado em agosto, e outro focado no oceano e na criosfera chegará no final deste mês. Esses relatórios também não contêm boas notícias, mesmo que não estejam inspirando o mesmo choque que o relatório de meta de 1,5 grau. Mas vale a pena prestar atenção, porque os problemas específicos que eles colocam podem nos indicar soluções específicas.

É provável que o relatório das terras de agosto enfatize ainda mais o que já sabemos – que o uso extensivo da humanidade pelas terras da terra é um dos principais impulsionadores das mudanças climáticas. De fato, o setor de uso da terra é atualmente responsável por um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa, bem como pela degradação do solo, desmatamento e perda de biodiversidade.

Mas isso também significa que mudar nossas ações pode beneficiar o futuro do planeta. A maneira como comunidades, proprietários de terras e empresas utilizam, protegem e desenvolvem a terra e a natureza é essencial para esse empreendimento. Pesquisa liderada pela The Nature Conservancy (TNC) mostra que soluções climáticas naturais – estratégias para proteger, restaurar e gerenciar terras para reduzir as emissões e melhorar o armazenamento de carbono – poderiam, em conceito, fornecer mais de um terço das reduções de emissões necessárias até 2030 para manter níveis de aquecimento abaixo de 2 graus Celsius.

As soluções terrestres capturam pouca atenção ou financiamento, pelo menos por enquanto, mas com mais investimento, elas podem ser um complemento poderoso para a transição contínua para a energia limpa. Natureza e tecnologia juntas fornecem a maioria das ferramentas necessárias para limitar as mudanças climáticas. A questão é se temos coragem de usá-los – e usá-los em breve.

As vozes da ação climática estão sendo ouvidas agora de forma mais ampla. Poderíamos estar à beira de uma oportunidade sem precedentes de ação climática corajosa.

Coragem significa ambição – e ambição significa detalhes.
O que quero dizer com coragem? Sim, é corajoso quando os países estabelecem e escalam compromissos de redução de emissões ou quando as empresas trabalham em direção a 100% de fontes de energia limpa ou cadeias de suprimento de desmatamento zero.

Tais compromissos são positivos, passos críticos; Estou animado em ver mais deles. Mas a verdadeira coragem climática não se resume apenas a anúncios grandiosos – ela é encontrada nas profundezas da execução. Requer ambição, mas também detalhes diabólicos – de como, quando, onde e quem – para transformar essas declarações em ações concretas.

Considere: sabemos que precisamos acelerar a transição para a energia limpa – mas também precisamos pensar em como fazemos essa transição e onde colocamos essa nova infraestrutura. A localização mais inteligente é necessária não apenas para proteger as terras naturais da conversão – sequestrando mais carbono naturalmente e protegendo a biodiversidade – mas também para eliminar alguns dos riscos financeiros que impedem a expansão da energia limpa.

Portanto, precisamos de políticas, planejamento e incentivos que direcionem desenvolvedores e investidores para a localização inteligente de infraestrutura de energia – é assim que atraímos investimentos de nível institucional em energia limpa, localizamos bem e garantimos a proteção de terras naturais. Foi exatamente isso que o estado norte-americano de Nevada fez – por meio de um foco de “mineração solar”, o estado está facilitando a localização da energia solar em áreas degradadas de minas. Se olharmos para a escala global, temos terras degradadas suficientes disponíveis para localização para atender às metas de energia limpa do mundo 17 vezes.

Da mesma forma, não basta simplesmente “proteger florestas”. Grande parte das terras florestais intactas do mundo é gerenciada por comunidades indígenas, muitas das quais são líderes em desenvolvimento sustentável de baixo carbono – e, no entanto, muitas delas não têm ou têm direitos tênues a essas terras. Portanto, os países precisam garantir que os povos indígenas garantam seus direitos e posse da terra.

Percorremos um longo caminho em um tempo relativamente curto para entender uma nova realidade climática. O que antes seriam promessas ousadas agora é quase comum. Mas ainda estamos muito aquém do avanço dos mecanismos pelos quais essas promessas são cumpridas – governança, política financeira, estruturas de incentivos e impostos e posse da terra, para citar alguns.

Esses processos raramente atraem a atenção do público, mas são um trabalho duro e corajoso – o tipo necessário para converter a coragem em ação climática tangível.

Nós somos os protagonistas. A única coisa que nos impede de enfrentar as mudanças climáticas é nossa lentidão para agir de maneira proporcional à escala dos desafios.
É necessário um trabalho árduo e corajoso para converter a coragem em ação climática tangível.

“Um drama épico”
Comecei por esse caminho pensando em coragem e figuras míticas como Cassandra depois de ouvir o autor David Wallace-Wells falar recentemente para uma audiência de conservacionistas comprometidos.

A luta atual da humanidade com as mudanças climáticas, disse David, “é um drama épico, do tipo que costumávamos ver apenas na mitologia ou na teologia, mas estamos vivendo em tempo real e como protagonistas – porque o clima futuro do planeta será escrito pelo que fazemos.”

Nós somos os protagonistas. A única coisa que nos impede de enfrentar as mudanças climáticas é nossa lentidão para agir de maneira proporcional à escala dos desafios.
Estranhamente, esse é um pensamento encorajador – porque ainda temos escolhas. E isso me faz pensar em outro termo para protagonista: herói.

Esse momento é revigorante: os alunos estão saindo das escolas; os líderes indígenas estão reivindicando seu lugar de direito nas negociações internacionais; Estados como Nova York e cidades de Nairóbi a Brasília estão estabelecendo planos de mitigação mais detalhados e ambiciosos do que qualquer governo nacional. Agora é hora de mais heróis nacionais e internacionais também.

Aqueles que se adiantam para realizar o trabalho árduo dessa jornada enfrentam incerteza – sobre as conseqüências de suas ações, intencionais e não intencionais; sobre se o resto do mundo seguirá o exemplo deles; sobre quais detalhes diabólicos da ação realmente produzirão grandes resultados; e sobre o tipo de impacto que experimentaremos, mesmo no melhor cenário.

É por isso que requer coragem. Mas a alternativa não é uma opção viável.

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Meio Ambiente:Cerca de 3,5 bilhões poderão viver em zonas de calor extremo até 2070, diz estudo

Em 50 anos, um terço da população mundial poderá sofrer com o aumento da temperatura global se emissões de gases poluentes não forem reduzidas, alertam cientistas.

Regiões quentes do planeta deverão aumentar até 19%.

Daqui a 50 anos, até 3,5 bilhões de pessoas poderão estar vivendo em zonas de calor extremo ao redor do mundo se as emissões globais de gases de efeito estufa não forem reduzidas, diz um estudo da universidade holandesa de Wageningen divulgado nesta segunda-feira (04/05).

Até 2070, estima-se que a população mundial seja de 10 bilhões de pessoas. Nesse período, na pior das hipóteses, um terço da população mundial deverá viver em áreas onde se prevê que a temperatura média anual subirá para acima de 29ºC, apontam os especialistas no estudo publicado pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. Quantas pessoas exatamente acabarão vivendo sob risco dependerá da redução das emissões de gases poluentes na atmosfera e da velocidade de crescimento da população.

Atualmente, entre 20 e 25 milhões de pessoas vivem nas regiões mais quentes do planeta, concentradas principalmente no deserto do Saara. Em 2070, as áreas mais afetadas pelo calor extremo deverão ser América do Sul, África, Índia, Sudeste da Ásia e norte da Austrália. Apenas na Índia, o clima mais quente deverá afetar mais de um bilhão de pessoas. Na Nigéria, no Paquistão, na Índia e no Sudão, mais de 100 milhões de habitantes sofrerão as consequências do calor extremo.

“O coronavírus mudou o mundo de uma forma difícil de imaginar há alguns meses. Nossos resultados mostram como as mudanças climáticas poderiam causar algo similar”, afirmou Marten Scheffer, que liderou o estudo.

Segundo o estudo, as mudanças climáticas não ocorrerão tão rapidamente quanto as causadas pela pandemia da covid-19, mas, ao contrário do cenário atual, o mundo não teria uma perspectiva de alívio num futuro imediato.

Para o estudo, os cientistas adotaram uma abordagem incomum das mudanças climáticas e avaliaram os seres humanos como fazem com ursos, pássaros e abelhas, para saber em que “nicho climático” civilizações florescem.Aquecimento Global,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita 01

Parte das conclusões dos pesquisadores foram baseadas em análises de dados passados, em que compararam condições climáticas das regiões onde os seres humanos mais se estabeleceram. A densidade populacional teve picos em áreas onde as temperaturas médias anuais ficavam em torno de 11 e 15ºC. Um segundo pico de densidade, mais baixo que o primeiro, ocorreu em regiões com temperaturas entre 20 e 25ºC. Como a distribuição populacional quase não se alterou nos últimos 6 mil anos, os pesquisadores chamaram esse intervalo de temperatura de “nicho ecológico humano”.

Quanto mais a temperatura se afasta desse nicho, mais difícil é a sobrevivência de seres humanos numa determinada área.  De acordo Scheffer, os habitantes das futuras regiões de calor extremo habitarão áreas fora do “nicho climático” ocupado por seres humanos nos últimos 6 mil anos.

Para prognósticos de cenários futuros, os cientistas usaram uma previsão climática do quinto relatório de análise do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas como base. Esse relatório prevê que a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera continuará se expandindo desenfreadamente – assim como ocorreu nas últimas décadas –, levando a aumentos equivalentes de temperatura em todo o planeta.

Usando as projeções internacionais da terceira Via Socioeconômica Compartilhada (SSP3), que prevê um futuro marcado por rivalidades regionais, os pesquisadores calcularam um modelo em que comparam a população mundial prevista com a alta das temperaturas. Seca,Queimadas,Ambiente,Meio Ambiente,BlogdoMesquita

Eles descobriram que a área continental com uma temperatura média anual de mais de 29ºC vai se ampliar de 0,8% (que, atualmente, se localiza principalmente no deserto do Saara) para 19% em 2070. “Isso também dificultaria a gestão de crises futuras como novas pandemias pelas sociedades”, enfatizou Scheffer.

O especialista preferiu não prever migrações em massa a partir das regiões mais afetadas, dizendo que esses movimentos têm gatilhos complexos. Mas ele disse esperar que o estudo seja visto como um alerta urgente à comunidade global para reduzir velozmente as emissões de gases poluentes na

Alta concentração microplástica encontrada no fundo do oceano

O que acontece com os microplásticos no oceano?

Os cientistas identificaram os níveis mais altos de microplásticos já registrados no fundo do mar.

A contaminação foi encontrada em sedimentos retirados do fundo do Mediterrâneo, perto da Itália.

A análise, liderada pela Universidade de Manchester, encontrou até 1,9 milhão de peças plásticas por metro quadrado.

Esses itens provavelmente incluíam fibras de roupas e outros tecidos sintéticos e pequenos fragmentos de objetos maiores que haviam se quebrado ao longo do tempo.

As investigações dos pesquisadores os levam a acreditar que os microplásticos (menores que 1 mm) estão sendo concentrados em locais específicos no fundo do oceano por poderosas correntes de fundo.

“Essas correntes constroem o que chamamos de depósitos à deriva; pense nas dunas subaquáticas”, explicou o Dr. Ian Kane, que liderou a equipe internacional.

“Eles podem ter dezenas de quilômetros de comprimento e centenas de metros de altura. Eles estão entre os maiores acúmulos de sedimentos da Terra. Eles são feitos predominantemente de lodo muito fino, por isso é intuitivo esperar que microplásticos sejam encontrados dentro deles”.

Amazônia; Número de queimadas cai; desmatamento dispara

Desaceleração das queimadas com relação ao mesmo período de 2019 não é suficiente para desligar o alerta vermelho na Amazônia.
Foto: Vinícius Mendonça/Ibama.

Enquanto os sistemas que monitoram a Amazônia confirmam o aumento do desmatamento no mês de março e no primeiro trimestre de 2020, com relação ao ano anterior, o número de focos de queimadas no bioma caiu cerca de um terço no acumulado dos três primeiros meses. De acordo com os dados do Programa de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), no mês de março a queda foi ainda maior, de cerca de 50% no número de queimadas. Os dados apurados não são, entretanto, motivo de comemoração, pois seguem acima da média para o período.

Em 2019, a queimada na Amazônia virou assunto internacional. O ano passado bateu recordes de focos de queimadas em março e abril, com 3.383 e 1.702 focos respectivamente. Em 2020, houve uma desaceleração de cerca de 50% no mês de março, com registro de “apenas” 1.641 focos. Apesar da redução, o número ainda está acima da média histórica para o período. Em abril, até o dia 22 (data anterior ao fechamento desta reportagem), o monitoramento havia registrado 595 focos.

“No contexto geral, eu diria que o cenário não é tão animador assim. Caiu, mas ainda está acima da média. Então também é preocupante. O ano de 2019 foi um ano muito complicado do ponto de vista das queimadas. Então a queda de queimadas em relação ao ano anterior não significa que o número de focos está baixo, até porque os dados do INPE mostram que os números de 2020 ainda estão acima da média, com exceção de janeiro e até o momento abril, mas ainda faltam 7 dias pro final do mês”, explica o pesquisador do Programa de Queimadas do INPE,  Alberto Setzer.

Gráfico do Programa de Queimadas do INPE com comparativo dos valores do 1º semestre de 2020 de acordo com série histórica.

O pesquisador lembra também que o começo do ano é apenas a ponta do iceberg quando o assunto são as queimadas na Amazônia, pois o auge do fogo na região ocorre historicamente nos meses de julho a outubro, durante a seca.  “O início do ano sempre tem números baixos, pois é o período chuvoso. É mais pro final do ano, com a estiagem, que o povo começa a queimar. 95% do que vai queimar na Amazônia vai acontecer nesse período. É muito cedo para tentar adivinhar o que vai acontecer esse ano”, explica.

Setzer argumenta ainda que o cenário para o ano depende de fatores como o clima, a economia, o setor agropecuário e a própria situação da fiscalização e dos órgãos ambientais.

Os três primeiros meses de 2020 somaram 4.037 focos de queimadas, uma redução de 35% em relação a 2019, quando no mesmo período foram registrados 6.170 focos na Amazônia.

Os índices do desmatamento tiveram um rumo contrários no mesmo período, com crescimento de 63%, de acordo com os dados do DETER (Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real), também do INPE. O número saltou de 503 km² desmatados em 2019 para 796 km² no primeiro trimestre deste ano. O sistema do DETER mostra o quanto de desmatamento foi detectado nesses meses e não o que efetivamente foi desmatado no período.

“Esse índice alto de desmatamento agora nos próximos meses pode induzir ao aumento de queimadas ou talvez os desmatadores da Amazônia tenham mudado de estratégia e não estejam mais fazendo queimadas justamente porque era isso que estava acionando vários alarmes de destruição da floresta”, analisa o pesquisador associado do Centro de Estudos Integrados da Biodiversidade Amazônica (CEIBAM/Inpa), Lucas Ferrante, em referência à grande mobilização nacional e internacional feita em 2019 quando as queimadas na Amazônia escureceram o céu de São Paulo e chamaram atenção do mundo.

O pesquisador aponta que esses números só expõem ainda mais quão falhas e ineficazes têm sido as ações do governo para tentar mitigar a devastação da floresta. “O Exército Brasileiro foi colocado no combate intensivo às queimadas na Amazônia. Só que a queimada ocorre depois que o desmatamento já foi feito, que é justamente para limpar a área. Isso mostra como as ações do Exército podem ser completamente ineficazes. O desmatamento está explodindo nesse momento, mas as queimadas não, então a destruição da floresta não está mais tão associada à queimada e sim ao desmatamento direto, o corte raso”, completa Lucas.

Na opinião do pesquisador, o governo falha reiteradamente na missão de proteger a floresta, “outro exemplo de ineficácia é o Conselho da Amazônia que foi formado agora pelo Vice-Presidente General Mourão e que é composto por 19 militares e não possui nenhum especialista do Ibama nem de nenhum outro órgão ambiental”, acrescenta.

Efeito quarentena

Pandemia afetará fiscalização? Foto: Felipe Werneck/Ibama.

Numa análise preliminar, os números, tanto de queimadas quanto do desmatamento, não parecem ter sido muito afetados pela pandemia do coronavírus e do confinamento recomendado. “No começo da quarentena houve uma diminuição significativa no desmatamento, que talvez se justifique pelo menor trânsito de pessoas, mas o que a gente tem observado agora que a quarentena já está consolidada é que os números triplicaram. A gente não tem mais como dizer que a quarentena diminuiu o desmatamento”, pondera Lucas.

Para fins de análise a curva dos números a partir do dia 11 de março, quando a movimentação sobre o coronavírus se acentuou no país e os estados começaram a implementar restrições e estimular a quarentena. Os dados do DETER de avisos de desmatamento entre o dia 11/03 e 09/04 (data da última atualização do sistema), detectaram o desmatamento de 487,96km². O que chama atenção é que, entre os dias 14 e 22 de março, não houve nenhum registro de desmatamento (0km²), o que pode sugerir que de fato houve um freio inicial causado pela prevenção – ou medo – do COVID-19.

O freio, entretanto, não durou muito, e logo após a “retomada”, nos 18 dias que se seguiram (23/março a 09/abril) o desmatamento deu um salto exponencial e foram detectados 411,39km² de solo exposto e floresta derrubada.

As queimadas, entretanto, se mantiveram desaceleradas em relação à 2019. Entre 1º de março de 2020 e 22 de abril (dia anterior ao fechamento desta matéria), o monitoramento do INPE havia registrado 2.236 focos de queimadas na Amazônia, uma queda de 53% com relação ao mesmo período do ano passado, quando foram registrados 4.798 focos. Quem lidera o número de focos é o Mato Grosso com 1.172 focos. Completam o ranking os estados de Roraima (819 focos), Pará (93), Amazonas (85) e Rondônia (56). A queda mais expressiva foi registrada no estado de Roraima que teve uma redução de mais de 75% no número de focos.

Quando comparado o número de focos a partir do dia 11 de março deste ano, são 1.613 focos até o dia 22 de abril versus 2.236 no mesmo período em 2019.

Apesar dos números em queda, o fato do desmatamento seguir em crescimento acelerado combinado com as medidas pouco eficazes do governo no combate à destruição da floresta são um alerta de que o cenário permanece sombrio.

O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) divulgou uma Nota Técnica na qual analisa o fogo e o desmatamento em 2019 e explica que “a análise dos dados do ano passado demonstra o efeito positivo de ações de fiscalização e controle do uso do fogo na Amazônia, principalmente no período da moratória das queimadas (setembro e outubro de 2019). Elas foram necessárias antes e devem ser mantidas agora, especialmente considerando que quase um terço dos focos de calor registrados em 2019 aconteceu em terras públicas sem destinação – ou seja, efeito de grilagem –, que se intensificou no primeiro trimestre de 2020, num verdadeiro roubo de patrimônio público dos brasileiros.

Contudo, ao contrário do que aconteceu em 2019, o esforço em campo deve coibir também o desmatamento, visto que são duas faces de uma mesma moeda. Sem estratégias que mirem ambos os problemas conjuntamente, espera-se pouca efetividade de qualquer plano governamental de controle do fogo na Amazônia”.

A Nota Técnica alerta ainda que a temporada de queimadas deste ano poderá ser igualmente – ou até mais – severa, pois o desmatamento gera um acúmulo excessivo de matéria seca, combustível ideal para as chamas se converterem em incêndios florestais.

Covid-19; A pandemia não é um desastre natural

O coronavírus não é apenas uma crise de saúde pública. É ecológico.

Celeiros cheios de animais são bons lugares para criar patógenos. Dentro da previsibilidade uniforme da agricultura moderna, o imprevisível emerge.

Nos velhos tempos – isto é, algumas semanas atrás – eu costumava compartilhar minhas manhãs com meu vizinho Wesley. Nós nos cumprimentávamos com um abraço, depois atravessávamos a rua para o terreno do jardim que compartilhamos, em um bairro arborizado de Washington, DC O jardim costumava ser um aterro, deixado para trás quando uma fileira de casas foi demolida por algumas décadas atrás.

Durante muitos meses, melhoramos o solo com composto de cozinha e cobertura vegetal habitada por uma multidão de micróbios, insetos e vermes. Durante a primavera incomumente quente deste ano, plantamos algumas mudas, colhemos couve e mostarda e preparamos uma salada fresca para o almoço. Wes e eu crescemos próximos dessas rotinas, apesar de estar nos meus cinquenta e poucos anos e nos seus vinte e poucos anos e compartilharmos pouco em comum além de um pequeno conjunto de território urbano.

A maioria das metáforas que temos para falar sobre o nosso mundo biológico não corresponde a esse modelo de cooperação. O pensamento darwiniano – ou a versão popular dos desenhos animados – nos ensina o conceito de competição interminável entre o “adequado” e o “inapto”. As religiões abraâmicas nos dizem que os seres humanos receberam a terra e suas criaturas para governar.

A mitologia americana incentiva o individualismo empreendedor. Mas Wesley e eu não competimos por espaço em nosso pequeno canteiro elevado; em vez disso, compartilhamos micróbios do ar e do solo, expelindo-os pela respiração e limpando-os nas mãos e, posteriormente, ingerindo-os. Com nossas ações, formamos uma comunidade, tanto no sentido social quanto microbiano.

As redes microbianas uniram os espaços entre seres humanos e outras espécies durante toda a nossa história. Muito antes que alguém soubesse o que era um organismo unicelular, as práticas culturais maximizavam a troca de micróbios: quando as pessoas cultivavam, procuravam alimento, cuidavam do gado, fermentavam sua comida, mergulhavam as mãos em tigelas comuns e se cumprimentavam com um toque. em rituais que os uniam a seus vizinhos e outros organismos.

Provavelmente não foi acidental. Uma abundância de evidências mostra que, quando compartilhamos micróbios com outras pessoas e organismos, nos tornamos mais saudáveis, melhor adaptados ao nosso ambiente e mais sincronizados como uma unidade social.⁠

A interconexão de nossas vidas biológicas, que se tornou ainda mais clara nas últimas décadas, está nos levando a reconsiderar nossa compreensão do mundo natural. Acontece que a familiar taxonomia linineana, com cada espécie em seu próprio ramo distinto da árvore, é muito sutil: os líquenes, por exemplo, são constituídos por um fungo e uma alga tão fortemente ligada que as duas espécies criam um novo organismo isso é difícil de classificar. Os biólogos começaram a questionar a idéia de que cada árvore é um “indivíduo” – pode ser entendida com mais precisão como um nó em uma rede de trocas no submundo entre fungos, raízes, bactérias, líquen, insetos e outras plantas.

A rede é tão complexa que é difícil dizer onde um organismo termina e o outro começa. Nossa imagem do corpo humano também está mudando. Parece menos um vaso autônomo, definido pelo código genético de uma pessoa e controlado pelo cérebro, do que como um ecossistema microbiano que varre as correntes atmosféricas, coletando gases, bactérias, fungos, esporos de fungos e toxinas transportadas pelo ar em suas redes.

No meio do surto de coronavírus, essa idéia de um corpo como um conjunto de espécies – uma comunidade – parece recentemente relevante e perturbadora. Como devemos nos proteger, se somos tão porosos? As pandemias são inevitáveis ​​quando os seres vivos estão tão unidos numa esfera planetária densa?

A história da civilização depende da construção e demolição de fronteiras entre espécies. A agricultura inicial desconsiderava a maior parte do mundo natural, a fim de cultivar apenas as plantas e animais mais produtivos; isso permitiu que as populações crescessem e as cidades prosperassem. Mas as colheitas e o gado, uma vez concentrados em um local e cultivados em monoculturas, tornaram-se vulneráveis ​​a doenças. À medida que as cidades e as operações agrícolas cresciam, pessoas e animais se aproximavam. O resultado foi uma nova ordem epidemiológica, na qual as doenças zoonóticas – aquelas que poderiam pular de animal para humano – prosperaram.

A princípio, essas doenças permaneceram confinadas aos locais de origem. Então a globalização chegou. John McNeill, historiador ambiental da Universidade de Georgetown, especula que a primeira onda do surto de cólera de 1832-33 foi a primeira verdadeira pandemia; alcançava todos os continentes habitados pegando carona em caravanas e navios. Mais infecções se seguiram, muitas vezes afetando as culturas das quais as pessoas dependiam para comer. No início do século XIX, as plantas de batata na América do Sul sofreram uma praga; o culpado, um molde chamado Phytophthora infestans, navegou para a Irlanda em 1845, onde levou a um milhão de mortes. Nos anos 1860, um pequeno inseto parecido com um pulgão chamado filoxera migrou dos Estados Unidos para a Europa, quase destruindo a indústria vinícola francesa; na década de 1960, a doença do Panamá erradicou a banana comercial favorita do mundo, a Gros Michel. Em 1970, o fungo Bipolaris maydis dizimou o American Corn Belt antes de se espalhar pelo mundo; outra infecção fúngica, a ferrugem do trigo, causou inúmeras fomes em todo o mundo.

E, no entanto, as vantagens da agricultura industrial eram difíceis de resistir. Nos anos noventa e cinquenta, a Revolução Verde produziu tantas colheitas de cereais que os Estados Unidos começaram a doar alimentos; quando suas técnicas foram exportadas para o resto do mundo, eles desativaram a “bomba populacional”. Nos anos sessenta, a Revolução Pecuária liderada pelos Estados Unidos integrou verticalmente a produção de produtos de origem animal, criando um aumento paralelo no consumo de carne. Na década de setenta, grandes empresas de aves produziam tantas galinhas que precisavam inventar novos produtos – nuggets de frango, salada de frango, alimentos para animais à base de frango. Grandes corporações compraram produtores locais de aves, suínos e bovinos; os confinamentos cresceram para o tamanho de feiras; galinheiros empoeirados em shoppings de bairro. As fazendas passaram de pequenas operações com uma média de setenta galinhas a fábricas que abrigavam trinta mil aves. Nos anos 80, com a Revolução Azul, a criação industrial de peixes também se expandiu. De 1980 a 2018, a produção global de animais para consumo cresceu cerca de uma vez e meia mais rapidamente que a população mundial.

Rio de Janeiro e o descarte ecológico do lixo

A gestão transformadora do lixo poderia ter um papel importante no cumprimento da meta de zero-zero de carbono no Rio de Janeiro?

A cidade está explorando uma nova maneira de processar o desperdício de alimentos, com um projeto que é o primeiro de seu tipo na América Latina.

Nos arredores do norte do Rio de Janeiro, longe das vastas extensões de areia branca da icônica praia de Copacabana, mangas machucadas e douradas, pimentões vermelhos murchos e um conjunto de vegetais de mandioca são misturados com lascas de madeira.

Estes podem não parecer ingredientes especiais, mas um projeto experimental na megacidade brasileira está explorando se a queima desse lixo poderia ser parte de uma receita para atingir sua meta de zero-rede de carbono até 2050.

“Caso contrário, todo esse alimento seria jogado fora”, diz Bernardo Ornelas Ferreira, pesquisador do Ecoparque do Caju, que abriga a primeira unidade de “biometanização” da América Latina.

Um forte aroma ácido preenche o ar do armazém no calor do meio-dia, enquanto Ferreira acena uma empilhadeira. “Esse potencial é muito perdido. Precisamos fazer isso em todo o país”, acrescenta.Bernardo Ornelas Ferreira, pesquisador do Ecoparque do Caju

O Brasil é um dos 10 maiores produtores de resíduos alimentares do mundo, descartando cerca de 30% de todas as frutas e legumes colhidos. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, cerca de 40.000 toneladas de alimentos são jogadas fora todos os dias no país, onde se decompõe em aterros, liberando quantidades significativas de metano.

No entanto, o Rio de Janeiro, uma cidade de cerca de 6,7 milhões, também é uma das mais de 70 cidades do mundo que se comprometeram a se tornar “neutras em carbono” até 2050. As cidades respondem por cerca de 75% das emissões de CO2, de acordo com as Nações Unidas, e mais de dois terços da energia que consumimos.

Gerando energia a partir de resíduos orgânicos

O projeto piloto do Ecoparque, lançado em dezembro de 2018 pelo departamento municipal de resíduos do Rio, Comlurb, transforma matéria orgânica – quase inteiramente resíduos de alimentos – em biogás, usando um processo que gera eletricidade, biocombustíveis e composto para ser usado como fertilizante na agricultura e silvicultura, e produz emissões mínimas.

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Processando entre 35 e 50 toneladas de resíduos por dia, a planta cria energia suficiente para abastecer a si mesma, a maior instalação de resíduos no local e a frota da empresa de 19 veículos elétricos. Isso equivale a mais de 1.000 residências com base no consumo médio no Brasil, Ferreira diz.

A fábrica recebe resíduos orgânicos de supermercados e barracas de frutas e vegetais do centro da cidade, mas também lidou com o lixo doméstico e até descartou hambúrgueres e batatas fritas do festival Rock in Rio de outubro.

Um gasoduto que transporta gás para ser transformado em eletricidade

O Brasil é um dos 10 maiores produtores de resíduos alimentares do mundo

Sete reatores no Ecoparque, todos do tamanho aproximado de contêineres, são usados ​​para processar os resíduos. Em um processo escalonado, cada um recebe resíduos orgânicos e é selado por duas a três semanas, com bactérias introduzidas para decompor a matéria e produzir metano. O gás é então armazenado em um grande recipiente acima da instalação e posteriormente convertido em eletricidade.

“A idéia do Ecoparque é ter um local para experimentação de novas tecnologias que possam, no futuro – e se demonstrarem sua viabilidade econômica, financeira e ambiental – ser adotada pela Comlurb, fazendo com que cada vez menos resíduos sejam descartados. em aterros “, disse José Henrique Monteiro Penido, chefe de sustentabilidade ambiental da Comlurb. “O modelo pode ser replicado nas cidades e ter um impacto positivo para todo o país”.

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Segundo a Comlurb, esse é o “primeiro passo” para lidar com as 5.000 toneladas de resíduos orgânicos que o Rio de Janeiro produz diariamente. Com um empréstimo não reembolsável do Fundo Brasileiro de Desenvolvimento de Tecnologia e desenvolvido em colaboração com a Universidade Federal de Minas Gerais, o plano é expandir esse modelo em outras cidades do Brasil e da América Latina.

Equipamento que mede a qualidade do gás produzido

“No geral, é um sinal realmente positivo e não duvido que seja escalável”, diz Richard Lowes, pesquisador de política energética da Universidade de Exeter. “Parece ser um processo eficiente, com controles muito medidos sobre a produção. Quando o desperdício de alimentos vai para o aterro, ele pode produzir metano, um poderoso gás de efeito estufa – mas com esse processo você obtém a energia e não produz as emissões”. ”

Atingindo as metas climáticas

O processo de biometanização sozinho, no entanto, não será suficiente para reduzir significativamente a pegada ambiental do Brasil, Lowes diz: “Seria melhor se esse resíduo simplesmente não fosse produzido em primeiro lugar. Se não houvesse desperdício, não haveria desperdício. uma necessidade de processar qualquer coisa. Tendemos a ser muito desperdiçadores como sociedade e precisamos nos concentrar em reduzi-la “.

Ainda assim, o município acredita que poderia ajudar a atingir sua meta de reduzir as emissões de mudanças climáticas em 20% entre 2005 e 2020, como parte da iniciativa C40 Cities, uma rede de cidades que promove ações climáticas. Sob o Programa de Desenvolvimento da Cidade de Baixo Carbono do Rio de Janeiro, a cidade lançou nos últimos anos um projeto de reflorestamento urbano para plantar 12 milhões de árvores e um esquema municipal de compartilhamento de bicicletas, o Bike Rio, enquanto amplia a rede de caminhos da cidade.

O projeto marca um raro vislumbre de positividade para o país em meio ao desmatamento na década passada, na Amazônia, e críticas à falta de compromisso do Brasil com as principais metas climáticas da COP25, a recente conferência em Madri.

Nas instalações de Ecoparque, a equipe está constantemente tentando melhorar os níveis de eficiência, empregando eletrônicos, sensores e medidores que ajudam a controlar e otimizar a produção de biogás em sua busca por produzir energia sustentável. A esperança é que uma instalação como essa seja construída para cada 50.000 pessoas no país.

“Existem dois caminhos a seguir”, diz o pesquisador Ferreira. “Podemos prosseguir com o sistema atual de grandes instalações de resíduos que requerem quantidades significativas de transporte, ou podemos descentralizar o processo e construir um em cada cidade do Brasil”.

Inteligência Artificial está ajudando a entender os oceanos

As aplicações de aprendizado de computadores estão se mostrando especialmente úteis para a comunidade científica que estuda as maiores massas de água do planeta.

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Se você tivesse cerca de 180.000 horas de gravações subaquáticas do Oceano Pacífico e precisasse saber quando e onde, nessas horas diferentes, baleias jubarte estavam cantando, você pesquisaria no Google?

Foi o que Ann Allen, ecologista de pesquisa da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, fez. 

Em janeiro de 2018, ela se aproximou do Google e perguntou se eles poderiam ajudá-la a encontrar o sinal de músicas de baleias jubarte em meio a todo o ruído do oceano, como chamadas de golfinhos ou motores de navios. Usando 10 horas de dados anotados, nos quais as músicas das baleias e outros ruídos foram identificados, os engenheiros do Google treinaram uma rede neural para detectar as músicas, com base em um modelo para reconhecer sons nos vídeos do YouTube, disse Julie Cattiau, gerente de produtos do Google.

Cerca de nove meses depois, a Dra. Allen tinha um modelo para identificar canções de baleias jubarte, que ela está usando em sua pesquisa sobre a ocorrência da espécie em ilhas do Pacífico e como ela pode ter mudado na última década. O Google usou algoritmos semelhantes para ajudar o Departamento de Pescas e Oceanos do Canadá a monitorar em tempo real a população da Orca Residente do Sul, em risco de extinção, que tem cerca de 70 animais.

As aplicações de aprendizado de máquina e inteligência artificial estão se mostrando especialmente úteis no oceano, onde existem tantos dados – grandes superfícies, profundidades profundas – e dados insuficientes – é muito caro e não é necessariamente útil coletar amostras de qualquer tipo por toda parte.

A mudança climática também torna o aprendizado de máquina muito mais valioso: muitos dados disponíveis para os cientistas não são mais precisos, pois os animais mudam de habitat, as temperaturas aumentam e as correntes mudam. À medida que as espécies se movem, o manejo de populações se torna ainda mais crítico.

A baleia franca do Atlântico Norte, ameaçada de extinção, cuja população caiu para cerca de 400, é um animal que pode se beneficiar de um monitoramento tecnologicamente mais avançado: provavelmente por causa do aquecimento das temperaturas, essas baleias se mudaram para o norte de seu habitat tradicional do Golfo do Maine para o Golfo de São Lourenço no Canadá. Coincidir com essa mudança é o que a NOAA chamou de “evento incomum de mortalidade”, no qual se sabe que 30 baleias morreram desde 2017 – 21 no Canadá e 9 nos Estados Unidos – a maioria devido a ataques de navios ou emaranhados em equipamentos de pesca.

As baleias francas do Atlântico Norte, como esta mãe e filhote, se mudaram para o norte, e mais delas estão morrendo.

Para proteger as baleias, os cientistas precisam saber onde estão, o que o Charles Stark Draper Laboratory e o New England Aquarium estão fazendo no que chamam de “contar baleias do espaço”. Tomando dados de satélites, sonar, radar, avistamentos humanos, correntes oceânicas e muito mais, eles estão treinando um algoritmo de aprendizado de máquina para criar um modelo de probabilidade de onde as baleias podem estar. Com essas informações, as autoridades federais, estaduais e locais podem tomar decisões sobre rotas de navegação e velocidades e pesca mais rapidamente, ajudando-as a proteger melhor as baleias, de acordo com Sheila Hemami, diretora de desafios globais da Draper.

Muitas populações de peixes também estão se movendo ou estão com sobrepesca ou se aproximando, e grande parte dessa pesca é feita ilegalmente. Em um esforço para conter as atividades ilegais e manter as populações em níveis saudáveis no oceano, o Google também ajudou a iniciar o Global Fishing Watch, uma organização que monitora a pesca em todo o mundo coletando.