Governo tenta intencionalmente destruir povos indígenas

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Eu sou o que me cerca. Se eu não preservar o que me cerca, eu não me preservo. José Ortega y Gasset

Em entrevista, ex-presidente da Funai diz que já na não se pode falar em falha na proteção de reservas, mas numa política deliberada para destruí-las: “Não tem ninguém no governo que seja a favor do meio ambiente”.

Queimada perto de Apui, no estado do Amazonas: destruição da floresta avança sob Bolsonaro

Se nos governos anteriores havia desaprovação a ações pontuais ligadas aos povos tradicionais, no governo de Jair Bolsonaro as críticas são direcionadas a tantas áreas que a questão indígena acaba diluída em meio a uma desaprovação maior e mais geral.

É essa a avaliação do jurista Carlos Frederico Marés de Souza Filho, professor de Direito Agrário e Socioambiental na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Ele foi presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) entre 1999 e 2000.

Para o jurista, a política ambiental da atual gestão, simplesmente, não existe. “Até o ministro [do Meio Ambiente] diz que quer destruir, então não tem ninguém no governo que seja a favor do meio ambiente”, afirma.

Em entrevista à DW Brasil, Marés também comenta o enfraquecimento e desmonte gradual da Funai nos últimos anos, fala sobre o papel do governo federal em conter o avanço do coronavírus e dos recentes incêndios em terras indígenas e explica como a demarcação de terras ganhou cada vez mais ares de processo político em vez de técnico.

DW Brasil: Você foi presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) entre 1999 e 2000. Em essência, o que mudou de lá para cá em relação à questão indígena no Brasil?

Na virada de 1999 para 2000, os povos indígenas estavam muito expostos na mídia por causa dos 500 anos [do descobrimento]. Havia, então, essa exposição muito grande e, consequentemente, uma articulação muito grande. Justamente em 2000, houve uma repressão policial ao movimento indígena na festa dos 500 anos em Porto Seguro (BA), razão pela qual pedi demissão do cargo. Não podia compactuar com uma ação daquelas.

Quanto à Funai, nesses últimos 20 anos, ela foi sendo deteriorada do ponto de vista da ação possível. Até 2016, mais ou menos, embora estivesse fraca, ela ainda tinha dinheiro, funcionários e, portanto, ação. Mas de quatro anos para cá ela foi perdendo tudo isso. Foram muitas aposentadorias sem reposição de quadro funcional e uma deterioração da política significativa. Um exemplo é a proteção dos povos indígenas chamados “isolados”, que demandam somente uma aproximação muito distante. Essa é uma política correta e que não custa muito. Mas nos últimos anos, e principalmente nos primeiros dois anos de gestão [Jair] Bolsonaro, essa política foi rompida. Trata-se de uma política desastrosa, mortal. O correto é proteger as áreas de povos isolados e não deixar ninguém entrar.

A diferença, então, é que houve uma piora funcional e política. A Funai deixou de ser uma intermediária entre governo e povos indígenas para ela mesma ser contrária a essa população. O governo atual incentiva o ingresso em terras indígenas, a ocupação ilegal de terras, e a Funai não faz nada. E não adianta os indígenas correrem para a Funai porque a Funai “corre com eles”.

No fim de agosto, o presidente Bolsonaro afirmou em uma live que há “índios evoluídos” no Brasil, que poderiam ter “mais liberdade sobre sua terra”…

Não posso atribuir isso à ignorância porque o nome disso é racismo. Essa fala é racista e genocida. É uma postura inimiga dos indígenas, porque ele acha que os povos indígenas atrapalham. Quando ele diz que os indígenas devem ter mais liberdade, eu concordo plenamente, mas qual é a liberdade que os indígenas querem? Que ninguém entre em suas terras, que a natureza não seja destruída, que não tenha garimpeiro, madeireiro por lá. Os povos indígenas têm pouca força para usufruir dessa liberdade e quem tem que garanti-la é exatamente o Estado brasileiro. O Estado precisa ouvir os indígenas. Os ianomâmis [grupo que vive na floresta amazônica, na fronteira entre Venezuela e Brasil], por exemplo, eu sei o que vão responder: tirem os garimpeiros das nossas terras.

Os indígenas querem liberdade, mas não para trazer gente branca para a terra deles, e sim para impedir que haja exploração. E o que o presidente quer dizer é que as terras indígenas devem ser mais livres para quem quiser invadir.

Um relatório divulgado recentemente pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), apontou que no primeiro ano de governo Bolsonaro (2019) as invasões em terras indígenas cresceram 135%. É exagero dizer que o atual governo está falhando na proteção aos povos indígenas?

“Falha” é uma palavra gentil. O governo não está falhando, está intencionalmente tentando destruir os povos indígenas. E isso é genocídio.

Até o momento foram registrados 36 mil casos de contaminação pela Covid-19 entre indígenas, segundo dados da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). O senhor acredita que o estabelecimento de barreiras sanitárias em terras indígenas por parte do Governo Federal, previsto emMedida Provisória publicada no último dia 1°, ajudará, de forma efetiva, a conter esse cenário? Além disso, o governo não demorou muito para tomar ações a respeito? A pandemia começou em março.

Essa demora foi intencional. Essas barreiras sanitárias eram muito fáceis de terem sido feitas há seis meses. Alguns povos, inclusive, fizeram barreiras por conta própria, mas mesmo assim teve missionário que quis entrar [nas terras], pessoas do governo, gente para entregar remédio. Há uma tensão muito grande em relação ao coronavírus e os povos indígenas.

Somente em setembro, mais de uma centena de focos de incêndio avançaram sobre terras indígenas na região do Pantanal. Em agosto, foram 200 focos. Ainda que queimadas sejam esperadas para a região nesta época do ano, os números não são altos demais? Qual é o papel do Poder Público para proteger as terras indígenas?

O grande drama que vive o Pantanal, assim como o Cerrado e a Amazônia, é o desmatamento irregular. Sempre que acontece um episódio como esses incêndios temos que nos perguntar: alguém leva vantagem nisso? O incêndio é bom para alguém?

Nesses três biomas, há quem leve vantagem com os incêndios, que é quem quer ocupar terra, que são pessoas que não são de lá. Não são os indígenas, não são os povos tradicionais, os quilombolas. Agora, para quem quer expandir suas terras, o incêndio é bom. Lembro também do Cerrado porque é uma região da qual se fala menos, mas que está sendo duramente castigada pela abertura e derrubada da vegetação nativa para dar lugar a grandes monoculturas.

Podemos então dizer que hoje a demarcação das terras indígenas se transformou em um processo político e não técnico?

A resposta é sim, apesar de que o caráter político sempre esteve presente. Os indígenas têm garantido na Constituição Federal direito à terra que ocupam. Eles têm esse direito com ou sem demarcação. A demarcação é uma providência que a Constituição determinou ao Estado brasileiro para que haja melhor proteção da terra. A ideia, portanto, não é definir qual deve ser essa terra, mas dar proteção à terra que já é do povo. Só que as forças contrárias aos povos indígenas sabem que, uma vez demarcada, é mais difícil invadir a terra, matar índio, tocar fogo. Assim, politicamente, serão contra a demarcação. Essa ação contrária aos povos indígenas é uma ação política, e acaba transformando a demarcação em um ato político.

Já no governo [Michel] Temer, mas com mais força a partir do governo Bolsonaro, veio uma vontade política muito forte de não demarcar. Mais ainda: tentar reverter as demarcações já feiras. E aqui esse adendo vale tanto para as terras indígenas como para os quilombolas. Antes de ser eleito, inclusive, o presidente Bolsonaro declarou que não iria demarcar nenhum centímetro a mais de terra indígena.

Para o senhor, quais são as principais diferenças entre o modo como o governo Bolsonaro trata a questão indígena em relação a governos anteriores? Os governos do Partido dos Trabalhadores (PT), por exemplo, receberam muitas críticas no sentido de que deveriam ter demarcado mais terras.

O governo Bolsonaro recebe críticas em tantas áreas – desenvolvimento, direitos humanos, etc – que a questão indígena é “só” mais uma coisa. No governo do PT houve fortes críticas à política ambiental, mas eram sempre críticas localizadas. A questão de [usina hidrelétrica de] Belo Monte, por exemplo, do rio Xingu, da Usina Hidrelétrica de Jirau. Eram ações específicas. Agora, no governo Bolsonaro, a política ambiental não existe, é de destruição. Até o ministro [do Meio Ambiente, Ricardo Salles] diz que quer destruir, então não tem ninguém no governo que diga que é a favor do meio ambiente. Nos outros governos ao menos tinha alguém para defender. Nesse sentido, as críticas ambientais acabam diluídas em meio a uma crítica maior e mais geral.

Costuma-se contrapor o direito dos povos indígenas ao desenvolvimento nacional. Essa contraposição já não seria, por si só, contraditória?

Dizer que a proteção aos povos indígenas é contrária ao desenvolvimento nacional é uma mentira. Não podemos admitir um desenvolvimento nacional com destruição da natureza, e as terras indígenas preservam a natureza. Quem é contrário a isso está ultrapassado. Uma das maiores preocupações mundiais é a alimentação. Mas a falta de comida significa que temos que invadir terras indígenas? Elas não são o lugar para produzir comida. É preciso pensar em desenvolvimento atrelado à preservação da natureza. Destruir as terras indígenas vai piorar a condição da água, gerando reflexos em todo o país. Dependemos da Amazônia, da Mata Atlântica. Tudo o que for destruidor da natureza prejudica o nosso desenvolvimento. Não se trata, portanto, de mera contradição, mas de uma mentira.

Arquitetura e meio ambiente

Tecnologia, arquitetura e meio ambiente

Empresa americana constrói cabana móvel ecológica com madeira de demolição
A empresa americana Wheelhaus é especializada na construção de cabanas ecológicas. Eles usam madeira de demolição, tornando a obra mais ecológica.

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É hoje! Ministério do Meio Ambiente busca derrubar proteções ambientais de manguezais e restingas

Salles usará poder do governo federal sobre o Conama para garantir flexibilização.

O Ministério do Meio Ambiente está prestes a derrubar um conjunto de resoluções que hoje delimitam as áreas de proteção permanente (APPs) de manguezais e de restingas do litoral brasileiro. A revogação dessas regras abre espaço para especulação imobiliária nas faixas de vegetação das praias e ocupação de áreas de mangues para produção de camarão.

Os temas estão na pauta da reunião do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que é presidido pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles . Esse conselho, que tem papel fundamental na definição de normas e critérios da área ambiental, teve a sua estrutura modificada por Salles em junho do ano passado e, com isso, o poder de decisão do colegiado ficou nas mãos do governo federal.

Na reunião do Conama desta segunda-feira, o governo pretende revogar duas resoluções (302 e 303, de 2002) que, hoje, são os instrumentos de proteção dos mangues e das restingas, as faixas com vegetação comumente encontradas sobre áreas de dunas, em praias do Nordeste. O argumento do governo é que essas resoluções foram abarcadas por leis que vieram depois, como o Código Florestal. Especialistas em meio ambiente afirmam, porém, que até hoje essas resoluções são aplicadas, porque são os únicos instrumentos legais que protegem, efetivamente, essas áreas.

“Não há nenhuma outra norma brasileira que confirma proteção às restingas como essas resoluções do Conama, que continuam a definir limites. A realidade é que há um grande lobby de resorts e criadores de camarão do Nordeste, que querem entrar nessas áreas”, diz Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam).

Em agosto, por exemplo, em São Paulo, a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) perdeu uma ação na Justiça e foi obrigada, por meio de sentença, a respeitar as delimitações previstas na resolução de 2002, “para evitar a ocorrência de dano irreparável à coletividade e ao meio ambiente”.

Outra resolução que está na pauta do Conama (284/2001) acaba com os critérios de regras federais para licenciamento ambiental de empreendimentos de irrigação. No entendimento dos ambientalistas, a revogação tem o objetivo de acabar com exigências legais a pedido de parte do agronegócio.

A Confederação Nacional da Agricultura (CNA) defende o fim da resolução, sob o argumento de “não haver embasamento técnico/legal da promulgação desta resolução, pois a irrigação não é um estabelecimento ou atividade, mas apenas uma tecnologia utilizada pela agricultura para o fornecimento de água para as plantas em quantidade suficiente e no momento certo”.

A pauta do Conama desta segunda-feira inclui ainda a proposta de uma nova resolução que trata de critérios de incineração de resíduos em fornos de produção de cimento, para liberar a queima de resíduos de agrotóxicos. Hoje esse material passa por um processo detalhado de tratamento e destinação. A nova resolução, porém, passa a permitir que tudo seja incinerado. Há preocupação, porém, com o material lançado na atmosfera após essa queima.

“Tudo foi pautado em regime de urgência. Qual é a urgência de tomar decisões tão importantes em tão pouco tempo e sem que esses temas sejam submetidos a estudos, por meio de câmaras técnicas? Todas essas resoluções mereceriam uma discussão aprofundada”, afirma Carlos Bocuhy, presidente do Proam. O ministro Ricardo Salles foi procurado pelo Estadão e, questionado sobre o assunto, afirmou que “as pautas do Conama serão debatidas e todos os conselheiros terão a oportunidade de expor suas posições”.

Para a ex-presidente do Ibama Suely Araújo, especialista sênior em políticas públicas do Observatório do Clima, trata-se de decisões graves, que poderão fragilizar profundamente a proteção ambiental. “O desmonte promovido pelo governo Bolsonaro na política ambiental atingiu duramente o Conama, que infelizmente parece estar reduzido a uma esfera de flexibilização de normas, de passar a boiada. A pauta dessa reunião é evidência forte nesse sentido: revogação de resoluções que dispõem áreas de preservação permanente e sobre licenciamento da irrigação, sem o debate público prévio que marcava os processos do Conselho”, diz Suely.

A especialista chama atenção ainda para a proposta de aprovar uma resolução que dá abertura para flexibilizar a concentração de poluentes orgânicos por meio de incineração. “Isso é totalmente inaceitável, chega a ser assustador.”

Órgão passou por mudanças e perdeu representantes de Estados e entidades civis em julho

O Conama – que é um órgão consultivo com poder de definir normas e critérios na área ambiental – foi desidratado em julho do ano passado em relação à sua estrutura anterior, concentrando nas mãos do governo federal e de representantes do setor produtivo a maioria dos votos. Estados e entidades civis perderam representação. Por decisão de Salles, o Conama teve seus membros reduzidos de 96 para 23 representantes.

A composição anterior do órgão tinha o objetivo de dar maior representatividade a vários segmentos da sociedade. Uma parte dos integrantes da sociedade era escolhida por indicação e outra, por eleição. Desde o ano passado, porém, essa escolha passou a ser feita por sorteio.

Instituições que representam a sociedade civil, incluindo associações de trabalhadores rurais e povos indígenas, viram suas posições caírem de 23 para 4. Os Estados também perderam representação. Se antes havia uma cadeira para cada um dos 26 Estados e o Distrito Federal, agora são 5 cadeiras representadas por um Estado de cada região geográfica do País. Os municípios, que tinham 8 representantes, agora têm 2.

*As informações são da Agência Estado”.

Em julho, 73% do desmatamento para garimpo na Amazônia ocorreu em unidades de conservação e terras Indígenas

Em julho deste ano, 73% do desmatamento para garimpo na Amazônia ocorreu em unidades de conservação (UCs) e em terras indígenas (TIs), informou um levantamento realizado pelo Greenpeace Brasil, com base em dados do Deter, sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Registro feito em maio pela organização mostra as invasões na Terra Indígena Munduruku Foto: Marcos Amend / Greenpeace

O estudo apontou que, durante o mês, foram detectados 2.369 hectares de destruição na Amazônia para exploração da atividade. O Pará concentra 91% dessas áreas, sendo que 70% de todo o desmatamento se concentrou nas cidades Itaituba e Jacareacanga, localizadas na região do rio Tapajós. De acordo com a organização, os locais são apontados como principais pontos de origem do ouro ilegal e boa parte do material seria fruto da extração em áreas protegidas.

Desmatamento na Amazônia: Derrubada da floresta cresce 34% no período de um ano, indicam dados do Inpe

Ainda considerando todo o desmatamento para exploração garimpeira durante o mês, 55% ocorreu dentro de apenas três áreas, localizadas no mesmo estado: a Área de Proteção Ambiental do Tapajós, a Terra Indígena Munduruku e a Terra Indígena Kayapó.

Uma outra análise do Greenpeace Brasil já havia alertado para um aumento da exploração da atividade em territórios que deveriam estar sob regime de conservação. Entre janeiro e abril de 2020, 72% de todo o garimpo na Amazônia ocorreu nestes locais. Em relação ao mesmo período do ano passado, foi apontado um aumento de 13,4% dentro das terras indígenas, com 434 hectares desmatados com esse objetivo, e de 80,6% nas unidades de conservação, com 879 hectares.

A quantidade de áreas protegidas que foram desmatadas para garimpo no mês de julho, portanto, é maior do que a soma dos quatro primeiros meses do ano, calcula Carolina Marçal, porta-voz da campanha Amazônia do Greenpeace Brasil.

— De janeiro a junho, 4781 hectares foram destruídos com esse objetivo na Amazônia Legal como um todo. Ou seja, foi destruído no mês de julho metade do que havia sido ao longo de 6 meses. E o que a gente tem observado é que a maioria desse desmatamento está se concentrando dentro de áreas protegidas — explica.

A alta do ouro e o contexto político

Para a porta-voz do Greenpeace, a alta no preço do ouro tem uma influência nesse avanço, mas já ocorre há alguns meses. Ela explica que, em momentos de crise como o atual, o ouro se torna um elemento seguro para investimento e, com isso, o preço aumenta, assim como a exploração. Outra questão apontada é o contexto político atual:

— Temos pronunciamentos do governo e do presidente dizendo que tem interesse em abrir, por exemplo, as terras indígenas para mineração. E temos medidas correndo no Congresso para tentar legalizar a realização dessas atividades dentro de TIs, o que é uma afronta à Constituição — analisa, e acrescenta que também há uma diminuição das atividades de campo dos órgãos que deveriam estar fiscalizando essas atividades.

Além disso, ela pontua que há uma questão da própria singularidade do sistema: atualmente é temporada de seca na Amazônia, então há menos limitação para identificar as áreas desmatadas. No período de chuva, muitas acabam não aparecendo no levantamento, explica Marçal.

Para a representante do Greenpeace Brasil, o avanço do garimpo em áreas protegidas traz uma série de consequências e conflitos. Nesse momento de pandemia, Carolina Marçal pontua que a presença de invasores dentro de Territórios Indígenas representa potenciais transmissores da Covid-19.

Ela também destaca o impacto do garimpo da região. Há o problema da contaminação dos rios com mercúrio, e os rejeitos depositados pela atividade, que podem gerar assoreamento e desequilíbrios ecológicos. Além disso, ressalta que a questão social é outro problema grave:

— O garimpo traz para a região prostituição, uso de drogas, violência e a desestabilização social de um povo — enumera.

Garimpo ilegal

Qualquer atividade de garimpo é proibida nas terras indígenas, de acordo com o Artigo 231 da Constituição. Já nas unidades de conservação, Marçal explica que eles podem ocorrer, dentro de algumas categorias. No entanto, para isso, a atividade precisa estar prevista no plano de manejo da unidade, um instrumento de gestão.

Quando existe uma comunidade nessa área, o plano precisa ser aprovado pelo conselho. Caso esse primeiro requisito seja cumprido, ainda é preciso que o órgão competente por licenciar a atividade a autorize, explica a porta-voz do Greenpeace.

— Acontece que boa parte das UCs não tem plano de manejo. A Área de Proteção Ambiental dos Tapajós, por exemplo, que concentrou mais de 900 hectares desmatados em julho, não tem — exemplifica.

A reportagem entrou em contato com o Ministério do Meio Ambiente, que afirmou que assuntos sobre a Amazônia deveriam ser tratados diretamente com a Vice Presidência e com o Ministério da Defesa.

Este último se limitou a responder aos questionamentos da reportagem listando as atribuições da Operação Verde Brasil 2, como é chamada chamada a ação de Garantia de Lei e da Ordem (GLO), iniciada no começo de maio para o combate a desmatamento ilegal e focos de incêndio na Amazônia Legal.

Segundo a Defesa, desde então, “militares e agentes de órgãos parceiros aplicaram R$ 445 milhões em multas e termos de infração. Efetuaram 153 prisões e realizaram 24,5 mil inspeções navais e terrestres, vistorias e revistas em embarcações, 122 inspeções em madeireiras serralharias e fazendas”.

Maior índice de branqueamento de corais em 35 anos é registrado na APA Costa dos Corais

O branqueamento de colônias de corais acontece em razão da perda das algas que vivem em associação mutualística com o coral, as chamadas zooxantelas, causando a morte desses corais.

Branqueamento de coral. Foto: Pedro Pereira.

Tal fenômeno vem ocorrendo em nível global e está diretamente ligado ao aquecimento das águas dos oceanos causado pelas mudanças climáticas – e não parou por conta da pandemia.

Ao contrário. Uma recente expedição nos recifes de coral da Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais (APACC), realizada pela gestão da unidade de conservação na semana passada, constatou que o pior está acontecendo. Os pesquisadores detectaram uma grande onda de branqueamento de várias colônias de corais em zonas de preservação e de visitação da APA em Maragogi, Alagoas, famoso ponto turístico.

De acordo com Pedro Henrique C. Pereira, pesquisador do projeto Águas Marinhas e Costeiras Protegidas (GEF Mar) e membro da equipe do ICMBio Costa dos Corais, esse é o pior evento de branqueamento dos últimos 35 anos. “Esse ano ocorreu o maior aquecimento das águas da APA desde 1985. Registramos mortes de até 70% para Millepora braziliensis (coral-de-fogo) e de 40% para Mussismilia hartii (coral-cérebro), espécie ameaçada de extinção”, diz.

O monitoramento foi realizado entre os dias 20 e 24 de julho, no qual a equipe do ICMBio Costa dos Corais, com o apoio do Projeto Conservação Recifal (PCR), mergulharam na Zona de Preservação da Vida Marinha (área fechada a visitantes) e nas Zonas de Visitação aquário e nas galés da APACC em Maragogi. Pereira explicou que o monitoramento dos corais é feito há vários anos, porém o último havia sido realizado apenas em março, devido à pandemia de coronavírus.

Monitoramento dos corais. Foto: Pedro Pereira.

A mais recente expedição tinha como objetivo avaliar os efeitos do isolamento social nos ambientes coralíneos, isto é, avaliar como o ambiente se comportou com a suspensão da visitação pública. “Infelizmente, apesar do isolamento social, os efeitos do branqueamento foram implacáveis, sendo observada grande mortalidade de corais e muitos corais ainda branqueados”, lamentou Pereira.

Os pesquisadores utilizaram dados da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (National Oceanic and Atmospheric Administration – NOAA) para avaliar o aquecimento das águas oceânicas e o nível de alerta de branqueamento dos corais para 2020. “Apesar da falta de dados entre os meses de isolamento social, o monitoramento continuado dos recifes da APACC mostra que este é provavelmente o maior evento de mortalidade de corais das últimas décadas”, explicou Pereira.
Branqueamento de colônia de coral-cérebro (Mussismilia hartii). Foto: Pedro Pereira.

Questionado sobre como seria possível mitigar o fenômeno, Pereira destacou a urgente necessidade de redução dos impactos das mudanças climáticas. “A solução são os acordos internacionais de redução de poluentes. O aquecimento global só será revertido com uma demanda da sociedade em geral sobre os governantes dos países que mais poluem”.

O Brasil é o sétimo maior emissor de gases de efeito estufa do planeta, segundo o SEEG para 2018 (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima).

APA Costa dos Corais

Branqueamento da Millepora sp. (coral de fogo). Foto: Pedro Pereira.A APA

Costa dos Corais (APACC) é a maior unidade de conservação federal marinha costeira do Brasil. Possui mais de 400 mil hectares de área e cerca de 120 quilômetros de praias e mangues. Seu objetivo é a conservação ambiental e o equilíbrio entre os usos direto (pesca) e indireto (turismo e pesquisa) dos recursos naturais, garantindo-os para as gerações atuais e futuras.

Aquecimento Global; Um verão desastroso no Ártico

Na Sibéria, no final de maio, o degelo do permafrost causou o colapso de um tanque de armazenamento de petróleo, levando ao maior derramamento de óleo já ocorrido no Ártico russo.

A remota cidade siberiana de Verkhoyansk, a cinco mil quilômetros a leste de Moscou e a seis milhas ao norte do Círculo Polar Ártico, há muito mantém o recorde, com outra cidade siberiana, do lugar mais frio e habitado do mundo. O recorde foi estabelecido em 1892, quando a temperatura caiu para noventa abaixo de zero Fahrenheit, embora atualmente as temperaturas do inverno sejam notavelmente mais amenas, pairando em torno de cinquenta abaixo. No último sábado, Verkhoyansk reivindicou um novo recorde: a temperatura mais quente já registrada no Ártico, com uma observação de 100,4 graus Fahrenheit – a mesma temperatura foi registrada naquele dia em Las Vegas. Miami só atingiu cem graus uma vez desde 1896. “Esta é uma primavera incomumente quente na Sibéria”, disse Randy Cerveny, relator de clima e extremos climáticos da Organização Mundial de Meteorologia. “A coincidência falta de neve subjacente na região, combinada com o aumento global da temperatura global, sem dúvida ajudou a desempenhar um papel crítico na causa desse extremo”. A Sibéria, em outras palavras, está no meio de uma onda de calor surpreendente e histórica.

A mudança climática antropogênica está fazendo com que o Ártico aqueça duas vezes mais rápido que o resto do planeta. Os modelos climáticos previram esse fenômeno, conhecido como amplificação no Ártico, mas não previram a rapidez com que o aquecimento ocorreria. Embora Verkhoyansk tenha visto temperaturas quentes no passado, o recorde de 100,4 graus de sábado segue um ano muito quente em toda a região. Desde dezembro, as temperaturas no oeste da Sibéria estão dezoito graus acima do normal. Desde janeiro, a temperatura média na Sibéria é de pelo menos 5,4 graus Fahrenheit acima da média de longo prazo. Como relatou o meteorologista Jeff Berardelli para a CBS, o calor que caiu na Rússia em 2020 “é tão notável que coincide com o que é projetado para ser normal até o ano 2100, se as tendências atuais nas emissões de carbono capturadoras de calor continuarem”. Em abril, devido ao calor, os incêndios florestais na região eram maiores e mais numerosos do que na mesma época do ano passado, quando o governo russo finalmente teve que enviar aviões militares para combater grandes incêndios. A escala dos atuais incêndios florestais – com altas nuvens de fumaça visíveis por milhares de quilômetros em imagens de satélite – sugere que este verão poderia ser pior. Por causa da pandemia de coronavírus, eles também serão mais complicados de combater.

No final de maio, quando o sol parou de cair no horizonte, o calor continuou. Na cidade de Khatanga, ao norte do Círculo Polar Ártico, a temperatura atingiu setenta e oito graus Fahrenheit, ou quarenta e seis graus acima do normal, superando o recorde anterior em vinte e quatro graus. O calor e os incêndios também estão acelerando a dissolução do permafrost da Sibéria, terra eternamente congelada que, quando descongelada, libera mais gases de efeito estufa e desestabiliza dramaticamente a terra, com graves conseqüências. Em 29 de maio, fora de Norilsk, a cidade mais setentrional do mundo, o degelo se deteriorou, causando um colapso do tanque de armazenamento de petróleo e vomitando mais de cento e cinquenta mil barris, ou vinte e um mil toneladas de diesel. Rio Ambarnaya. O derramamento foi o maior que já ocorreu no Ártico russo.

Norilsk, que foi construído na década de 1930 pelos prisioneiros de um campo Gulag nas proximidades, Norillag, já era um dos lugares mais poluídos do mundo. A maioria dos seus cento e setenta e sete mil residentes trabalha na Norilsk Nickel, a empresa proprietária do tanque de óleo em colapso. Somente seu complexo maciço de mineração e metalurgia vale dois por cento do PIB da Rússia. A cidade contribui com um quinto do suprimento global de níquel e quase metade do paládio do mundo, um metal usado na fabricação de conversores catalíticos. As fábricas ondulam incessantemente nuvens de dióxido de enxofre, e a chuva ácida resultante transformou a cidade e seus arredores em um terreno baldio industrial, sem espaços verdes ou parques, apenas terra e árvores mortas. A expectativa de vida em Norilsk é vinte anos mais curta do que nos Estados Unidos. A última vez que a cidade divulgou as notícias, antes do derramamento de óleo, foi há exatamente um ano, quando um urso polar emaciado, refugiado de sua casa em decomposição, foi fotografado vasculhando o depósito de lixo da cidade.

Os executivos da Norilsk Nickel tentaram contornar a responsabilidade pelo derramamento de óleo, culpando o degelo permafrost – ou, como um comunicado à imprensa afirmou, “um afundamento repentino dos pilares do tanque de armazenamento, que funcionou sem acidentes por mais de trinta anos”. Mas o degelo não aconteceu inesperadamente, do nada. Os edifícios em Norilsk entraram em colapso por causa do terreno caído. Especialistas russos e internacionais estão cientes dos riscos que o degelo rápido do permafrost representa há mais de uma década. Um relatório de 2017 de um grupo de trabalho do Conselho do Ártico disse que “as comunidades e a infraestrutura construídas em solos congelados são significativamente afetadas pelo degelo do permafrost, um dos impactos mais econômicos das mudanças climáticas no Ártico”. Eles descobriram que o degelo do permafrost pode contaminar a água doce, quando os resíduos industriais e municipais congelados anteriormente são liberados, e que a capacidade de sustentação das fundações das construções diminuiu de quarenta a cinquenta por cento em alguns assentamentos siberianos desde os anos noventa e sessenta. Eles também observaram que “o vasto campo de gás de Bovanenkovo ​​no oeste da Sibéria registrou um aumento recente de deslizamentos de terra relacionados ao degelo do permafrost”. Os autores de um artigo de 2018, publicado na Nature Communications, descobriram que “45% dos campos de extração de hidrocarbonetos no Ártico russo estão em regiões onde a instabilidade do solo relacionada ao degelo pode causar danos graves ao ambiente construído”. O documento continuou: “De maneira alarmante, esses números não são reduzidos substancialmente, mesmo que os objetivos de mudança climática do Acordo de Paris sejam alcançados”

No início de junho, o presidente Vladimir Putin declarou uma emergência nacional e censurou as autoridades locais por sua lenta resposta ao derramamento. O Kremlin supostamente descobriu o vazamento dois dias após o fato, a partir de fotos de um rio vermelho postado nas mídias sociais. Embora o Ministério Público russo tenha concordado, em uma conclusão preliminar, que o degelo permafrost foi um fator que contribuiu para o derramamento, os investigadores também disseram que o tanque de armazenamento de combustível precisava de reparos desde 2018. Eles prenderam quatro funcionários da usina sob acusações violar os regulamentos ambientais. Norilsk Nickel negou as acusações, mas disse que a empresa está cooperando com as agências policiais e lançou “uma investigação completa e completa”. “Aceitamos totalmente nossa responsabilidade pelo evento”, disse a empresa em comunicado ao Guardian.

Vladimir Potanin, presidente da Norilsk Nickel e o homem mais rico da Rússia, disse que a empresa pagará o custo total do desastre, que ele calculou em dez bilhões de rublos, ou cento e quarenta e seis milhões de dólares. (Um órgão ambiental russo, Rosprirodnadzor, pagou o custo em cerca de um bilhão e meio de dólares.) Putin, enquanto isso, criticou publicamente Potanin pelo desastre, enfatizando que foi a negligência de sua empresa que levou ao derramamento. “Se você os substituísse a tempo”, disse Putin, em uma vídeo chamada no início de junho, referindo-se ao tanque de armazenamento de petróleo em envelhecimento, “não haveria danos ao meio ambiente e sua empresa não precisaria carregar esses custos “.

Os esforços de resposta inicial da empresa – barreiras flutuantes para conter o vazamento – falharam amplamente. Em 9 de junho, o petróleo havia entrado no lago Pyasino, com 68 quilômetros de extensão, que faz fronteira com uma reserva natural e deságua no rio Pyasino. “Uma vez que entra no sistema fluvial, ele não pode mais ser parado”, disse Rob Huebert, especialista do Ártico da Universidade de Calgary. “O petróleo poderia então chegar ao Oceano Ártico.” Em 11 de junho, o comitê de investigação da Rússia acusou o prefeito de Norilsk de negligência criminal por sua resposta frustrada ao desastre. Na sexta-feira passada, em outra vídeo chamada, o ministro de emergências de Putin relatou que as equipes de resposta coletaram 3,6 milhões de pés cúbicos de solo poluído e 1,1 milhão de pés cúbicos de água contaminada. A empresa construirá um oleoduto para bombear a lama contaminada para locais de descarte não especificados. Mas a região continuará sendo tóxica. O óleo diesel penetra nas margens do rio. Mesmo se o óleo estiver contido no lago, a contaminação nunca poderá ser totalmente removida. Algumas delas passarão pela cadeia alimentar. A vida selvagem – peixes, pássaros, renas – pode sofrer por décadas. “Você nunca pode realmente limpar um vazamento”, disse Huebert. Putin, na chamada, enfatizou que o trabalho deve continuar até que o dano seja sanado. “Obviamente, o desastre trouxe conseqüências terríveis para o meio ambiente e impactou severamente a biodiversidade nos corpos d’água”, disse ele. “Vai levar

O elo entre desmatamento e epidemias investigado pela ciência

A região com a maior floresta tropical do mundo também é considerada um provável polo de epidemias, como mostrou uma análise feita por uma equipe liderada por Simon Anthony, da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Só de coronavírus que circulam em morcegos também no Brasil, o levantamento contabilizou pelo menos 3.204 tipos.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

Faz pelo menos duas décadas que cientistas repetem o alerta: à medida que populações avançam sobre as florestas, aumenta o risco de micro-organismos – até então em equilíbrio – migrarem para o cotidiano humano e fazerem vítimas.

Cientistas alertam há décadas para o risco de novas doenças como consequência da destruição de florestas. Assim como a Ásia, origem do novo coronavírus, a Amazônia é vista como possível polo de enfermidades.

Foi por isso que a notícia sobre a propagação do novo coronavírus, detectado pela primeira vez na China em dezembro passado e que se espalhou pelo mundo, não pegou Ana Lúcia Tourinho de surpresa. Doutora em Ecologia, ela estuda como o desequilíbrio ambiental faz com que a floresta e sociedade fiquem doentes.

“Quando um vírus que não fez parte da nossa história evolutiva sai do seu hospedeiro natural e entra no nosso corpo é o caos. Está aí o novo coronavírus esfregando isso na nossa cara”, argumenta Tourinho, pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

No caso do novo coronavírus, batizado de Sars-CoV-2, muito antes de infectar os primeiros humanos e viajar a partir da China, abrigado no corpo de viajantes, para outras partes do mundo, ele habitava outros hospedeiros num ambiente selvagem – morcegos, provavelmente.

Isolados e em equilíbrio em seu habitat, como florestas fechadas, vírus como esse não ameaçariam os humanos. O problema é quando esse reservatório natural começa a ser recortado, destruído e ocupado.

Estudos científicos publicados anos antes da atual pandemia já mostravam a conexão entre perda florestal, proliferação de morcegos nas áreas degradadas e coronavírus. Análises assinadas por Aneta Afelt, pesquisadora da Universidade de Varsóvia, na Polônia, descrevem como os altos índices de destruição florestal nos últimos 40 anos na Ásia eram um indicativo de que a próxima doença infecciosa grave poderia sair dali.

Para chegar a essa conclusão, Afelt seguiu o rastro de pandemias prévias provocadas por outros coronavírus, como a da Sars, em 2002 e 2003, com taxa de mortalidade de 10%, e a Mers, em 2012, que matou 38% das vítimas infectadas.

“Por ser uma das regiões do mundo onde o crescimento populacional é mais intenso, onde as condições sanitárias permanecem ruins e onde a taxa de desmatamento é mais alta, o Sudeste Asiático atende a todas as condições para se tornar o local de emergência ou reemergência de doenças infecciosas”, afirmou Afelt num artigo de 2018.

Tais condições não se aplicam apenas a essa parte do mundo. Na Amazônia, onde em 2019 o desmatamento bateu o recorde desta década, com 9.762 km² destruídos, e os alertas de desmatamento aumentaram 51,4% entre janeiro e março de 2020 em relação ao período anterior, o cenário é parecido.

O risco que vem da Amazônia

Tourinho não gosta nem de pensar sobre o impacto na saúde pública se a destruição da Floresta Amazônica seguir o ritmo acelerado. “Se a Amazônia virar uma grande savana, não dá nem para imaginar o que pode sair de lá em termos de doenças. É imprevisível”, diz a pesquisadora. “Além de ser importante para nós por causa do clima, da fauna, ela é importante para nossa saúde.”

Estudos feitos no país já traçaram a relação direta entre o corte da Amazônia e o aumento de doenças. Em 2015, por exemplo, uma equipe do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) constatou que, para cada 1% de floresta derrubada por ano, os casos de malária aumentavam 23%.

A pesquisa foi feita com dados de 773 cidades no Projeto de Monitoramento de Desmatamento da Amazônia, de 2004 a 2012. Além da malária, a incidência de leishmaniose também se mostrou diretamente relacionada ao desmatamento.

“A floresta fechada é como um escudo para que comunidades externas entrem em contato com animais que são hospedeiros de micro-organismos que causam doenças. E quando a gente fragmenta a floresta, começa a fazer vias de entrada no seu seio, isso é uma bomba-relógio”, conclui Tourinho, mencionando ainda o perigo trazido por grandes empreendimentos, como hidrelétricas na Amazônia.

O entra e sai da floresta fragmentada para tirar madeira, colocar gado, abrir garimpo também é apontado como um perigo para a saúde. “As pessoas que entram nessas áreas podem ter contato com esses vírus e levar dentro delas o problema para centros urbanos”, exemplifica Tourinho.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita

Nesse cenário, indígenas conseguem ser mais resistentes devido ao convívio por séculos com a floresta intocada, pontua a pesquisadora.

“Quando esses vírus chegam às cidades, a disseminação é muito rápida, justamente por toda a facilidade de deslocamento nesses centros, possibilidade de deslocamentos internacionais. As cidades repetem o mesmo estilo de confinamento que a gente faz com os animais e são gatilhos para proliferação de doenças contagiosas”, acrescenta a bióloga.

Uma dessas rotas pode explicar a origem da pandemia do Sars-Cov-2. A covid-19, doença respiratória provocada pelo coronavírus, infectou mais de 2 milhões de pessoas e matou mais de 128 mil no mundo, segundo dados atualizados pela Universidade Johns Hopkins.

Covid-19; Isolamento reforça importância dos parques para a saúde

O objetivo maior de uma unidade de conservação é a proteção da natureza, mas por debaixo dessa missão há na verdade uma troca, na qual a própria sociedade é protegida e beneficiada pela presença da área preservada.Amazônia,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Brasil,Meio Ambiente,Queimadas,Ecocologia,Fauna,Flora,Pecuária,Biodiversidade,Crimes Ambientais.Blog do Mesquita (6)

A quarentena pode ser um convite para repensar nossas conexões com a natureza e a importância das áreas protegidas.

Dentre os benefícios que a natureza nos presta, também conhecidos como serviços ambientais ou ecossistêmicos, está a saúde promovida tanto diretamente pelo contato com a natureza, quanto indiretamente, por nos proteger contra doenças, como a febre amarela, a malária e, especula-se, o próprio coronavírus.

A lista de serviços ecossistêmicos prestados por uma área de natureza preservada é maior do que imaginamos. “A natureza nos presta serviços pelos quais a gente não paga nada: nascentes de água, regulação de clima, solo fértil… E há também o efeito de diluição. A biodiversidade tem a capacidade de diluir o processo de transmissão de agentes infecciosos e manter esses agentes numa proporção muito baixa dentro de uma área com grande biodiversidade. Esse é um serviço da natureza que a gente nunca fala”, ressalta a coordenadora do Centro de Informação em Saúde Silvestre da Fiocruz, Marcia Chame.

“Para quê que serve uma unidade de conservação? Serve para água, pra gente passear, pra ficar perto da natureza, desestressar, para tudo isso, mas também serve para diluir o processo de transmissão dos agentes infecciosos. A gente precisa fazer as pessoas entenderem o quanto as unidades de conservação nos protegem”, aponta Chame.

A pesquisadora lembra que essa rica biodiversidade também é fonte para remédios e princípios ativos de vacinas. “Quando você tem uma unidade de conservação grande, bem conservada, o que a gente tem ali dentro? Uma diversidade de espécies grandes também. É desse conjunto biológico que o homem se aproveita para produzir várias coisas, entre elas remédios. Mais de 75% dos remédios utilizados são baseados em compostos naturais, a maior parte de plantas. E o que não é produzido a partir dessas moléculas da natureza, é inspirado nessas moléculas. Quando você perde biodiversidade, você perde esse potencial todo de produção de remédio e de inspiração”.

Dentre as unidades de conservação, parques são a categoria que mais se aproximam da sociedade e que têm a missão de ser “a janela do sistema”, em referência ao SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação). Apesar dessa vocação ao público, ainda há um grande gargalo no Brasil para consolidar essa conexão entre parque e sociedade.

O voluntariado pode ser uma oportunidade para engajar as pessoas na conservação da natureza. Foto: Duda Menegassi.

De acordo com o diretor-presidente do Instituto Semeia, Fernando Pieroni, uma das dimensões mais importantes para construir essa cultura de parques entre os brasileiros começa no imaginário. “Os parques são um patrimônio da sociedade. Parte desse processo inclui trazer os parques para o imaginário coletivo, inclui explicar para sociedade a conexão que os parques têm com saúde pública, com bem-estar, e com mais do que normalmente associamos à função de conservação ambiental do parque”, analisa Pieroni.

A publicação “Parques do Brasil: Percepções da População”, produzida e divulgada pelo Semeia em março deste ano, ajuda a mapear as percepções dos brasileiros sobre os parques e a entender como traduzir o papel deles para sociedade, tanto os naturais quanto os urbanos. “Há uma complementaridade. O parque urbano normalmente é o primeiro contato e que depois tende a te levar para um parque natural. Normalmente a experiência de imersão na natureza é diferente nos dois, assim como o tipo de atividade. O parque natural é visto como oportunidade de contato com a natureza, enquanto o parque urbano está mais relacionado com aquele esporte corriqueiro, passear, encontrar amigos”, descreve Pieroni baseado nos levantamentos do estudo.

O diretor acredita que os parques terão um papel importante na hora do fim do isolamento e pós-crise do coronavírus. “Tem muita gente sofrendo com esse confinamento em casa e se os parques já tinham um papel importante antes, na hora que as pessoas voltarem a sair de casa e quiserem se reconectar com espaços públicos e naturais, os parques terão um papel de descompressão emocional fundamental – principalmente os urbanos, que são mais acessíveis”.

O vice-presidente da Comissão Mundial de Áreas Protegidas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), Cláudio Maretti, acredita que o fim da quarentena será uma oportunidade para quem trabalha com áreas protegidas. “Acho que as pessoas que gostam da natureza e de estar ao ar livre vão sentir a necessidade de retomar esse contato o mais rápido possível, mesmo que seja em parques urbanos e mais antropizados. Principalmente as pessoas que estão confinadas em apartamentos nas grandes cidades”, analisa. “Isso seria uma oportunidade. Existe uma intenção manifesta, reprimida por causa do distanciamento social”.

Abrir a porta dos parques e colocar o tapete de bem-vindos, entretanto, não será suficiente para ganhar novos aliados da conservação. “Eu acho que vai ter essa corrida no início, e eu espero que ela seja ampla e duradoura, mas os outros estímulos, como cinemas e shoppings, vão continuar competindo. E competir com a indústria do entretenimento, com o consumismo, vai ser igualmente difícil. Cabe a nós, profissionais das áreas protegidas, abrir mais oportunidades com a oferta de atividades, mais áreas para visitação e a criação de programas de engajamento, como o voluntariado”, pondera o especialista em conservação.

Enquanto a quarentena não acaba e a fruição dos parques e de outras áreas protegidas fica comprometida, cabe buscar formas alternativas de manter o contato com a natureza – uma conexão que, inclusive, faz muito bem para saúde. Maretti, que em janeiro publicou em ((o)) eco uma coluna sobre a relação de áreas protegidas e saúde, pontua a quantidade de artigos científicos da área médica que indicam como o contato com a natureza contribui com o bem-estar, ajuda no combate ao estresse e até na recuperação de doenças.Ambiente,Amazônia,Brasi,Desmatamento,Grilagem,Floresta,Meio Ambiente,Queimadas,Ecologia,Fauna,Flora,Pecuária,Pesticidas,Agrotóxicos,Biodiversidade,CrimesAmbientais,Sustentabilidade,VidaSelvagem,AquecimentoGlobal,Água,Alimentos,Clima,Agricultura

“Tem uma gradação que vai desde você ver uma foto, até você ter uma janela pro verde urbano, até você morar numa parte da cidade que é mais arborizada, ou numa área próxima a parques. É o que eu faço aqui em casa, vou para sacada ver o verde para me sentir melhor. Isso está nas pesquisas científicas. Há teorias que dizem que esse sentimento é uma herança do tempo em que a gente vivia no mato, uma convivência que perdemos com a vida urbana. Da mesma forma que você olha a foto de um ente querido e isso pode te fazer bem, faz bem olhar a natureza, mesmo que por uma imagem ou pela janela”, explica Maretti.

Clima, coragem e a ambição de que precisamos agora

Enquanto formuladores de políticas e ativistas de todo o mundo se reúnem para a Semana do Clima na cidade de Nova York, Lynn Scarlett explica por que precisamos de compromissos mais ousados ​​- mas por que é nos detalhes diabólicos da ação que o progresso acontece.

Ser um defensor de longa data da ação climática às vezes parece ser Cassandra do mito grego – amaldiçoada por ver o futuro, mas nunca acreditar.

Este é talvez o aspecto mais assustador das mudanças climáticas. Conhecemos os terríveis impactos. Sabemos o que precisamos fazer para evitar uma catástrofe global. Mas ficamos muito aquém de tomar ações na escala necessária.

É de se perguntar o que Cassandra teria pensado se estivesse presente na assinatura do Acordo de Paris em 2015, sabendo que esse compromisso internacional sem precedentes seria seguido por mais quatro anos de aumento nas emissões, temperaturas e níveis do mar.

Ainda assim, não me desespero pelo futuro. Não me sinto como Cassandra – agora as vozes da ação climática estão sendo ouvidas de maneira mais ampla. Poderíamos estar à beira de uma oportunidade sem precedentes de ação climática corajosa.

Mexa-se agora
Convide os líderes mundiais a serem corajosos em relação às mudanças climáticas.

Um novo momento de conscientização
Quando o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) divulgou seu relatório de 1,5 graus em outubro passado, a reação do público foi alarmante – e isso é promissor. De repente, a mensagem se espalhou – de maneira ampla e com ressonância – quando as pessoas viram o que os Cassandras haviam visto há muito tempo.

Este ano traz mais dois relatórios do IPCC – um relatório sobre uso da terra e clima foi lançado em agosto, e outro focado no oceano e na criosfera chegará no final deste mês. Esses relatórios também não contêm boas notícias, mesmo que não estejam inspirando o mesmo choque que o relatório de meta de 1,5 grau. Mas vale a pena prestar atenção, porque os problemas específicos que eles colocam podem nos indicar soluções específicas.

É provável que o relatório das terras de agosto enfatize ainda mais o que já sabemos – que o uso extensivo da humanidade pelas terras da terra é um dos principais impulsionadores das mudanças climáticas. De fato, o setor de uso da terra é atualmente responsável por um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa, bem como pela degradação do solo, desmatamento e perda de biodiversidade.

Mas isso também significa que mudar nossas ações pode beneficiar o futuro do planeta. A maneira como comunidades, proprietários de terras e empresas utilizam, protegem e desenvolvem a terra e a natureza é essencial para esse empreendimento. Pesquisa liderada pela The Nature Conservancy (TNC) mostra que soluções climáticas naturais – estratégias para proteger, restaurar e gerenciar terras para reduzir as emissões e melhorar o armazenamento de carbono – poderiam, em conceito, fornecer mais de um terço das reduções de emissões necessárias até 2030 para manter níveis de aquecimento abaixo de 2 graus Celsius.

As soluções terrestres capturam pouca atenção ou financiamento, pelo menos por enquanto, mas com mais investimento, elas podem ser um complemento poderoso para a transição contínua para a energia limpa. Natureza e tecnologia juntas fornecem a maioria das ferramentas necessárias para limitar as mudanças climáticas. A questão é se temos coragem de usá-los – e usá-los em breve.

As vozes da ação climática estão sendo ouvidas agora de forma mais ampla. Poderíamos estar à beira de uma oportunidade sem precedentes de ação climática corajosa.

Coragem significa ambição – e ambição significa detalhes.
O que quero dizer com coragem? Sim, é corajoso quando os países estabelecem e escalam compromissos de redução de emissões ou quando as empresas trabalham em direção a 100% de fontes de energia limpa ou cadeias de suprimento de desmatamento zero.

Tais compromissos são positivos, passos críticos; Estou animado em ver mais deles. Mas a verdadeira coragem climática não se resume apenas a anúncios grandiosos – ela é encontrada nas profundezas da execução. Requer ambição, mas também detalhes diabólicos – de como, quando, onde e quem – para transformar essas declarações em ações concretas.

Considere: sabemos que precisamos acelerar a transição para a energia limpa – mas também precisamos pensar em como fazemos essa transição e onde colocamos essa nova infraestrutura. A localização mais inteligente é necessária não apenas para proteger as terras naturais da conversão – sequestrando mais carbono naturalmente e protegendo a biodiversidade – mas também para eliminar alguns dos riscos financeiros que impedem a expansão da energia limpa.

Portanto, precisamos de políticas, planejamento e incentivos que direcionem desenvolvedores e investidores para a localização inteligente de infraestrutura de energia – é assim que atraímos investimentos de nível institucional em energia limpa, localizamos bem e garantimos a proteção de terras naturais. Foi exatamente isso que o estado norte-americano de Nevada fez – por meio de um foco de “mineração solar”, o estado está facilitando a localização da energia solar em áreas degradadas de minas. Se olharmos para a escala global, temos terras degradadas suficientes disponíveis para localização para atender às metas de energia limpa do mundo 17 vezes.

Da mesma forma, não basta simplesmente “proteger florestas”. Grande parte das terras florestais intactas do mundo é gerenciada por comunidades indígenas, muitas das quais são líderes em desenvolvimento sustentável de baixo carbono – e, no entanto, muitas delas não têm ou têm direitos tênues a essas terras. Portanto, os países precisam garantir que os povos indígenas garantam seus direitos e posse da terra.

Percorremos um longo caminho em um tempo relativamente curto para entender uma nova realidade climática. O que antes seriam promessas ousadas agora é quase comum. Mas ainda estamos muito aquém do avanço dos mecanismos pelos quais essas promessas são cumpridas – governança, política financeira, estruturas de incentivos e impostos e posse da terra, para citar alguns.

Esses processos raramente atraem a atenção do público, mas são um trabalho duro e corajoso – o tipo necessário para converter a coragem em ação climática tangível.

Nós somos os protagonistas. A única coisa que nos impede de enfrentar as mudanças climáticas é nossa lentidão para agir de maneira proporcional à escala dos desafios.
É necessário um trabalho árduo e corajoso para converter a coragem em ação climática tangível.

“Um drama épico”
Comecei por esse caminho pensando em coragem e figuras míticas como Cassandra depois de ouvir o autor David Wallace-Wells falar recentemente para uma audiência de conservacionistas comprometidos.

A luta atual da humanidade com as mudanças climáticas, disse David, “é um drama épico, do tipo que costumávamos ver apenas na mitologia ou na teologia, mas estamos vivendo em tempo real e como protagonistas – porque o clima futuro do planeta será escrito pelo que fazemos.”

Nós somos os protagonistas. A única coisa que nos impede de enfrentar as mudanças climáticas é nossa lentidão para agir de maneira proporcional à escala dos desafios.
Estranhamente, esse é um pensamento encorajador – porque ainda temos escolhas. E isso me faz pensar em outro termo para protagonista: herói.

Esse momento é revigorante: os alunos estão saindo das escolas; os líderes indígenas estão reivindicando seu lugar de direito nas negociações internacionais; Estados como Nova York e cidades de Nairóbi a Brasília estão estabelecendo planos de mitigação mais detalhados e ambiciosos do que qualquer governo nacional. Agora é hora de mais heróis nacionais e internacionais também.

Aqueles que se adiantam para realizar o trabalho árduo dessa jornada enfrentam incerteza – sobre as conseqüências de suas ações, intencionais e não intencionais; sobre se o resto do mundo seguirá o exemplo deles; sobre quais detalhes diabólicos da ação realmente produzirão grandes resultados; e sobre o tipo de impacto que experimentaremos, mesmo no melhor cenário.

É por isso que requer coragem. Mas a alternativa não é uma opção viável.