Huawei e a nova “Guerra Fria” na América Latina

“Se a Huawei conseguir a licença no Brasil para a introdução da tecnologia 5G, vai haver consequências”, disse Todd Chapman, embaixador dos Estados Unidos no Brasil, em entrevista ao jornal O Globo.

No dia anterior, o embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, anunciara em sua conta no Twitter que a gigante chinesa de tecnologia Huawei havia construído um laboratório para testes da rede 5G em Brasília, juntamente com a operadora de telefonia brasileira Telefônica Vivo.

A disputa pela 5G no Brasil revela o crescente atrito político e geoestratégico entre a China e os EUA no maior país da América Latina. O governo em Brasília está num dilema: Jair Bolsonaro segue politicamente a mesma agenda do presidente americano, Donald Trump. Mas economicamente, o país é mais dependente de Pequim do que de Washington.

Desde 2009, a China tomou a posição dos EUA como maior parceiro comercial do Brasil. Os chineses estão investindo maciçamente na expansão de infraestrutura, não apenas no Brasil, mas em toda a América Latina. Em 2019, os brasileiros exportaram 62 bilhões de dólares em mercadorias para a China. Os três principais produtos de exportação são soja, petróleo bruto e minério de ferro.

No primeiro semestre de 2020, as exportações aumentaram novamente em 30%. “Para cada dólar exportado para os EUA, o Brasil exporta três dólares para a China”, afirmou um comunicado do Ministério da Agricultura brasileiro em 24 de julho.

O Brasil não está sozinho em sua crescente dependência econômica da China. “Muitos governos da América Latina estão conscientes de que a superação da pandemia de coronavírus e da consequente crise econômica passam por Pequim”, explica o cientista político Oliver Stuenkel, da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Mas Stuenkel também teme que as crescentes tensões entre os EUA e a China possam gerar consequências negativas para a região: “Não há coordenação entre os países do Mercosul”, afirmou ao semanário argentino Perfil. Tradicionalmente, Argentina e Brasil sempre trabalharam juntos para superar crises dentro do mercado comum sul-americano, mas isso não mais ocorre.

A crise nos países do Mercosul não é apenas uma porta de entrada para a luta geoestratégica de poder entre a China e os EUA na região. “Ela pode também levar a uma divisão tecnológica”, alerta Stuenkel, aludindo ao estabelecimento de diferentes redes celulares com a nova tecnologia 5G que podem não ser compatíveis entre si.

Apesar de todas as batalhas verbais entre o embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, e Eduardo Bolsonaro, que ainda em março responsabilizou a China pelo surto da pandemia do novo coronavírus, não são más as chances da China de participar do maior leilão de tecnologia 5G do mundo no Brasil.

Isso porque o governo brasileiro já anunciou em abril que não imporia nenhuma restrição contra a Huawei, já que metade do hardware da rede móvel brasileira já é fornecido pela empresa chinesa. A operadora móvel brasileira que vencer o leilão poderá então usar a tecnologia da Huawei para construir a infraestrutura do 5G.

O jornalista argentino Leandro Dario, do semanário Perfil, parte do princípio que o presidente da Argentina, Alberto Fernández, escolherá o fornecedor mais barato da tecnologia 5G, ou seja, a Huawei. As primeiras conversas entre os representantes do Ministério das Relações Exteriores e o chefe da Huawei na Argentina, Steven Chen, ocorreram em Buenos Aires no início de julho.

“É uma questão geopolítica de sobrevivência”, escreveu Dario. “Se Argentina e Brasil não se entenderem e cooperarem um com o outro, a disputa entre a Águia e o Dragão pode ser prejudicial para ambos. Nem mesmo durante a Guerra Fria o domínio da Águia na América Latina foi tão ameaçado.”

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USA: parlamentares criticam aproximação com governo Bolsonaro

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Pompeo representou a Casa Branca na cerimônia de posse de Bolsonaro – Marcos Corrêa/PR
Em carta a secretário de Estado, parlamentares dos EUA criticam aproximação do governo com Bolsonaro

“Sugerimos fortemente que você [Pompeo] não lustre o comportamento de Bolsonaro, mas sim levante objeções em público e de forma privada contra suas ações recentes”, dizem os democratas, cobrando que o secretário “fique ao lado do povo do Brasil”

Um grupo de congressistas democratas do Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes dos EUA enviou uma carta ao secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, questionando a aproximação do governo com o presidente Jair Bolsonaro.

Em documento publicado nesta quarta-feira (09/01), o grupo liderado pelo deputado Eliot Engel afirmou que Pompeo deveria ter condenado publicamente as “recentes ações que tiveram como alvo as comunidades LGBT, indígena e afro-brasileira“.

“Observamos com grande interesse sua recente visita ao Brasil para a posse do presidente Jair Bolsonaro, que, em seus primeiros dias no cargo, adotou diversas ações que miram grupos marginalizados, particularmente LGBTs, indígenas e afro-brasileiros”, diz a carta.

Se dirigindo ao secretário de Estado, o grupo de parlamentares norte-americanos afirma que ficou perplexo “que, após o seu encontro com o presidente Bolsonaro, um comunicado do Departamento de Estado explicou que o senhor ‘reafirmava a forte parceria entre EUA e Brasil, enraizada no nosso compromisso comum com a democracia, educação, prosperidade, segurança e direitos humanos’. Não está claro que o presidente Bolsonaro compartilhe desses valores”.

O texto ainda faz menção à decisão do governo de retirar a comunidade LGBT das diretrizes do Ministério dos Direitos Humanos e de confiar a demarcação de terras indígenas e quilombolas ao Ministério da Agricultura.

“Ficou imediatamente claro que declarações preocupantes do presidente Bolsonaro sobre direitos humanos não estão mais restritas à retórica”, acrescenta a carta. “É essencial que os Estados Unidos continuem a defender a natureza universal dos direitos humanos, manifestando-se quando os direitos de qualquer grupo marginalizado sejam postos em risco”.

“Sugerimos fortemente que você [Pompeo] não lustre o comportamento de Bolsonaro, mas sim levante objeções em público e de forma privada contra suas ações recentes”, dizem os democratas, cobrando que o secretário “fique ao lado do povo do Brasil” e mantenha seu “compromisso com os direitos humanos”

Todos os membros do grupo são do Partido Democrata, que faz oposição ao presidente Donald Trump. Pompeo representou a Casa Branca na cerimônia de posse de Bolsonaro, em 1º de janeiro, e disse que os EUA querem “estreitar relações com o Brasil”.
OperaMundi

Project Veritas: Você sabe o que é?

O grupo conservador que profissionalizou a guerra de informação nos EUA

James O’Keefe durante evento em 2015.James O’Keefe durante evento em 2015. PABLO MARTINEZ MONSIVAIS AP

O mais recente alvo do ‘Project Veritas’ foi o jornal ‘The Washington Post’, que acusa a organização de criar um factoide sobre um senador republicano para deslegitimar a empresa

Nada parece conter James O’Keefe em sua aversão pelo mundo progressista. Em 2009, ele se fez passar por um cafetão em um encontro com a organização social Acorn. No ano passado, tentou simular em um telefonema ser um húngaro se colocando à disposição para colaborar com a fundação do magnata George Soros, na órbita do Partido Democrata, mas não desligou o telefone direito e acabou revelando, sem saber, o próprio golpe. Agora, tudo indica que ele está por trás da tentativa de levar o jornal The Washington Post a publicar uma informação mentirosa ao noticiar o relato de uma suposta vítima de um falso affairesexual de Roy Moore, o candidato republicano ao Senado pelo Alabama, atacado por uma onda de acusações de assédio sexual.

O’Keefe, de 33 anos, se apresenta como um “jornalista de guerrilha”. Ele encarna o princípio de que, para atacar os círculos progressistas, tudo é válido. O meio utilizado – a mentira – justifica esse fim, que ele chama de revelar a “corrupção e desonestidade”. É uma personalidade emergente no mundo da direita norte-americana sem complexos, que aposta na ruptura e na atuação antiestablishment, próxima do presidente Donald Trump. Não surpreende, portanto, o fato de que seu mentor tenha sido Andrew Breitbart, criador do site ultraconservador que leva o seu nome e que é hoje dirigido por Steve Bannon, figura de destaque na campanha eleitoral de Trump e de seus meses iniciais na Casa Branca.

Project Veritas, organização conservadora fundada por O’Keefe em 2010, promete investigações explosivas contra os grandes veículos de imprensa norte-americanos. Ele os define como “Pravda”, nome do jornal oficial da União Soviética. E promete desmascarar uma mina de supostas verdades. Além do Post, alguns de seus alvos foram a rádio NPR, a rede CNN e o jornal The New York Times.

O último objetivo era aparentemente ajudar Moore, que Trump apoiou apesar das acusações sexuais contra ele, e tirar a legitimidade do Post, que divulgou as acusações que colocaram o político contra a parede. Uma mulher contatou o jornal alegando que manteve uma relação sexual com Moore em 1992, engravidou e abortou aos 15 anos.

O jornal descobriu, no entanto, que a mulher havia mentido sobre sua identidade e, na segunda-feira, a viu entrando na sede do Project Veritas, em Nova York. Paralelamente, o Post divulgou um vídeo, feito com câmera escondida, do encontro entre essa mulher e uma repórter do jornal, que a pressionava a respeito das inconsistências de seu relato e perguntava o que a tinha levado a contar aquela história.

O’Keefe evitou confirmar se a mulher trabalhava para sua organização. E contra-atacou a aparente descoberta de sua armação divulgando outro vídeo com câmera escondida em que um repórter do Post critica a linha editorial do jornal por sua dureza contra Trump. O jornalista disse que acreditava estar falando com estudantes.

O’Keefe vive mergulhado em polêmica, sempre acusado de mentir e exagerar suas descobertas. Formado em Filosofia, ganhou fama em 2009 no caso da Acorn. Munido de uma câmera escondida, foi acompanhado de uma mulher, que disse ser uma prostituta menor de idade, a várias reuniões com a organização que ajuda pessoas de baixa renda. Ambos disseram buscar assessoria para aparentar que seria legal a prostituição de uma imigrante. E os trabalhadores lhes deram conselhos. Houve demissões e consequências políticas. A Câmara de Representantes cortou os recursos federais da Acorn, que acabou sendo dissolvida.

Entretanto, o jovem acabou se desculpando por essas gravações e teve de pagar 100.000 dólares (320.000 reais) depois de ser processado por um funcionário da Acorn, que denunciou que não tinha dado autorização para ser gravado, como requer a lei da Califórnia.

Os problemas legais se repetiram em 2010. O’Keefe foi detido por entrar com identidade falsa no gabinete de uma senadora democrata e condenado a três anos de liberdade condicional e uma multa.

As irregularidades, no entanto, não frearam o jovem direitista. Muito pelo contrário. Em 2016, o Project Veritas recebeu 4,8 milhões de dólares em doações e tinha 38 funcionários. Em uma oferta de trabalho em seu site, buscam-se jornalistas dispostos a trabalhar disfarçados. Por ser uma organização sem fins lucrativos, não é obrigado a divulgar a identidade de seus doadores. Segundo o Post, um dos doadores em 2015 foi a fundação Trump, que doou 10.000 dólares.

No ano passado, a campanha do republicano se beneficiou implicitamente do trabalho do Project Veritas. O chefe de uma organização próxima ao Partido Democrata renunciou depois que O’Keefe divulgou um vídeo em que falavam de supostos métodos para tentar incitar a violência em comícios de Trump.
Joan Faus/ElPais

O obscuro uso do Facebook e do Twitter como armas de manipulação política

As manobras nas redes se tornam uma ameaça que os governos querem controlar

A manipulação das redes sociais está afetando os processos políticos.
A manipulação das redes sociais está afetando os processos políticos.
Tudo mudou para sempre em 2 de novembro de 2010, sem que ninguém percebesse. O Facebook introduziu uma simples mensagem que surgia no feed de notícias de seus usuários. Uma janelinha que anunciava que seus amigos já tinham ido votar. Estavam em curso as eleições legislativas dos Estados Unidos e 60 milhões de eleitores vieram aquele teaser do Facebook. Cruzando dados de seus usuários com o registro eleitoral, a rede social calculou que acabaram indo votar 340.000 pessoas que teriam ficado em casa se não tivessem visto em suas páginas que seus amigos tinham passado pelas urnas. 

Dois anos depois, quando Barack Obama tentava a reeleição, os cientistas do Facebook publicaram os resultados desse experimento político na revista Nature. Era a maneira de exibir os músculos diante dos potenciais anunciantes, o único modelo de negócio da empresa de Mark Zuckerberg, e que lhe rende mais de 9 bilhões de dólares por trimestre. É fácil imaginar o quanto devem ter crescido os bíceps do Facebook desde que mandou para as ruas centenas de milhares de eleitores há sete anos, quando nem sequer havia histórias patrocinadas.

Há algumas semanas, o co-fundador do Twitter, Ev Williams, se desculpou pelo papel determinante que essa plataforma desempenhou na eleição de Donald Trump, ao ajudar a criar um “ecossistema de veículos de comunicação que se sustenta e prospera com base na atenção”. “Isso é o que nos torna mais burros e Donald Trump é um sintoma disso”, afirmou. “Citar os tuítes de Trump ou a última e mais estúpida coisa dita por qualquer candidato político ou por qualquer pessoa é uma maneira eficiente de explorar os instintos mais baixos das pessoas. E isso está contaminando o mundo inteiro”, declarou Williams.

“Citar a coisa mais estúpida que qualquer político diga é uma maneira de explorar os instintos mais baixos das pessoas. Isso está contaminando o mundo inteiro”, declarou o fundador do Twitter

Quando perguntaram a Zuckerberg se o Facebook tinha sido determinante na eleição de Trump, ele recusou a ideia dizendo ser uma “loucura” e algo “extremamente improvável”. No entanto, a própria rede social que ele dirige se vangloria de ser uma ferramenta política decisiva em seus “casos de sucesso” publicitários, atribuindo a si mesma um papel essencial nas vitórias de deputados norte-americanas ou na maioria absoluta dos conservadores britânicos em 2015.

O certo é que é a própria equipe de Trump quem reconhece que cavalgou para a Casa Branca nas costas das redes sociais, aproveitando sua enorme capacidade de alcançar usuários tremendamente específicos com mensagens quase personalizadas. Como revelou uma representante da equipe digital de Trump à BBC, o Facebook, o Twitter, o YouTube e o Google tinham funcionários com escritórios próprios no quartel-general do republicano. “Eles nos ajudaram a utilizar essas plataformas da maneira mais eficaz possível. Quando você está injetando milhões e milhões de dólares nessas plataformas sociais [entre 70 e 85 milhões de dólares no caso do Facebook], recebe tratamento preferencial, com representantes que se certificam em satisfazer todas as nossas necessidades”.

E nisso apareceram os russos

A revelação de que o Facebook permitiu que, a partir de contas falsas ligadas a Moscou, fossem comprados anúncios pró-Trump no valor de 100.000 dólares colocou sobre a mesa o lado negro da plataforma de Zuckerberg. Encurralado pela opinião pública e pelo Congresso dos Estados Unidos, a empresa reconheceu que esses anúncios tinham alcançado 10 milhões de usuários. No entanto, um especialista da Universidade de Columbia, Jonathan Albright, calculou que o número real deve ser pelo menos o dobro, fora que grande parte de sua divulgação teria sido orgânica, ou seja, viralizando de maneira natural e não só por patrocínio. A resposta do Facebook? Apagar todo o rastro. E cortar o fluxo de informações para futuras investigações. “Nunca mais ele ou qualquer outro pesquisador poderá realizar o tipo de análise que fez dias antes”, publicou o The Washington Post há uma semana. “São dados de interesse público”, queixou-se Albright ao descobrir que o Facebook tinha fechado a última fresta pela qual os pesquisadores podiam espiar a realidade do que ocorre dentro da poderosa empresa.

Esteban Moro, que também se dedica a buscar frestas entre as opacas paredes da rede social, critica a decisão da companhia de se fechar em vez de apostar na transparência para demonstrar vontade de mudar. “Por isso tentamos forçar que o Facebook nos permita ver que parte do sistema influi nos resultados problemáticos”, afirma esse pesquisador, que atualmente trabalha no Media Lab do MIT. “Não sabemos até que ponto a plataforma está projetada para reforçar esse tipo de comportamento”, afirma, em referência à divulgação de falsas informações politicamente interessadas.

“Seus algoritmos são otimizados para favorecer a difusão da publicidade. Corrigir isso para evitar a propagação de desinformação vai contra o negócio”, explica Moro

O Facebook anunciou que contará com quase 9.000 funcionários para editar conteúdos, o que muitos consideram um remendo em um problema que é estrutural. “Seus algoritmos estão otimizados para favorecer a difusão de publicidade. Corrigir isso para evitar a propagação de desinformação vai contra o negócio”, explica Moro. A publicidade, principal fonte de rendas do Facebook e do Google, demanda que passemos mais tempos conectados, interagindo e clicando. E para obter isso, essas plataformas desenvolvem algoritmos muito potentes que criaram um campo de batalha perfeito para as mentiras polícias, no qual proliferaram veículos que faturam alto viralizando falsidades e meia-verdades polariza

“É imprescindível haver um processo de supervisão desses algoritmos para mitigar seu impacto. E necessitamos de mais pesquisa para conhecer sua influência”, reivindica Gemma Galdon, especialista no impacto social da tecnologia e diretora da consultoria Eticas. Galdon destaca a coincidência temporal de muitos fenômenos, como o efeito bolha das redes (ao fazer um usuário se isolar de opiniões diferentes da sua), o mal-estar social generalizado, a escala brutal na qual atuam essas plataformas, a opacidade dos algoritmos e o desaparecimento da confiança na imprensa. Juntos, esses fatos geraram “um desastre significativo”. Moro concorda que “muitas das coisas que estão ocorrendo na sociedade têm a ver com o que ocorre nas redes”. E aponta um dado: “São o único lugar em que se informam 40% dos norte-americanos, que passam nelas três horas por dia”.

A propaganda informática é “uma das ferramentas mais poderosas contra a democracia”, segundo especialistas de Oxford, e por isso as redes “precisam se redesenhar para que a democracia sobreviva”

A diretora de operações do Facebook, Sheryl Sandberg, braço direito de Zuckerberg, defendeu a venda de anúncios como os russos, argumentando que se trata de uma questão de “liberdade de expressão”. Segundo a agência de notícias Bloomberg, o Facebook e o Google colaboraram ativamente em uma campanha xenófoba contra refugiados para que fosse vista por eleitores-chave nos estados em disputa. O Google também aceitou dinheiro russo para anúncios no YouTube e no Gmail. Não em vão, o Facebook tem pressionado há anos para que não seja afetado pela legislação que exige que a mídia tradicional seja transparente na contratação de propaganda eleitoral. Agora, o Senado pretende legislar sobre a propaganda digital contra a pressão dessas grandes plataformas tecnológicas, que defendem a autorregulação. Tanto o Twitter quanto o Facebook expressaram recentemente a intenção de serem mais transparentes nesta questão.

A responsabilidade do Twitter

Em meados deste ano, o Instituto de Internet da Universidade de Oxford publicou um relatório devastador, analisando a influência que as plataformas digitais estavam tendo sobre os processos democráticos em todo o mundo. A equipe de pesquisadores estudou o que aconteceu com milhões de publicações nos últimos dois anos em nove países (Brasil, Canadá, China, Alemanha, Polônia, Taiwan, Rússia, Ucrânia e Estados Unidos) e concluiu, entre outras coisas, que “os bots [contas automatizadas] podem influenciar processos políticos de importância mundial”.

Facebook, Twitter, YouTube e Google tinham funcionários com escritório próprio no quartel-general de Trump: “Quando você injeta tantos milhões, tem tratamento preferencial”

Nos EUA, os republicanos e a direita supremacista usaram exércitos de bots para “manipular consensos, dando a ilusão de uma popularidade on-line significativa para construir um verdadeiro apoio político” e para ampliar o alcance de sua propaganda. E concentraram seus esforços nos principais estados em disputa, que foram inundados com notícias de fontes não confiáveis. Em países como a Polônia e a Rússia, grande parte das conversas no Twitter é monopolizada por contas automatizadas. Em estados mais autoritários, as redes são usadas para controlar o debate político, silenciando a oposição e, nos mais democráticos, aparecem as cibertropas para intencionalmente contaminar as discussões. As plataformas não informam nem interferem porque colocariam “sua conta em risco”.

“Os bots utilizados para a manipulação política também são ferramentas eficazes para fortalecer a propaganda on-line e as campanhas de ódio. Uma pessoa, ou um pequeno grupo de pessoas, pode usar um exército de robôs políticos no Twitter para dar a ilusão de um consenso de grande escala”, afirma a equipe da Oxford. E concluem: “A propaganda informática é agora uma das ferramentas mais poderosas contra a democracia” e é por isso que as plataformas digitais “precisam ser significativamente redesenhadas para que a democracia sobreviva às redes sociais”.

Zuckerberg diz que é “loucura” pensar que o Facebook pode definir eleições, mas se gaba de fazer isso em seu próprio site

O Twitter também deletou conteúdo de valor potencialmente insubstituível que ajudaria a identificar a influência russa na eleição de Trump. Mais recentemente, pesquisadores da Universidade do Sul da Califórnia alertaram sobre o desenvolvimento de um mercado paralelo de bots políticos: as mesmas contas que antes apoiaram Trump, tentaram mais tarde envenenar a campanha na França a favor de Le Pen e, depois, produziram material em alemão colaborando com o partido neonazista Afd. Zuckerberg prometeu fazer o possível para “garantir a integridade” das eleições alemãs. Durante a campanha, sete das 10 notícias mais virais sobre a primeira-ministra alemã Angela Merkel no Facebook eram falsas. O portal ProPublica acaba de revelar que a rede social tolerou anúncios ilegais que espalhavam informações tóxicas contra o Partido Verde alemão.

Galdon trabalha com a Comissão Europeia, a qual considera “muito preocupada” nos últimos meses em dar uma resposta a esses fenômenos, pensando em um marco europeu de controle que, atualmente, está muito longe de ser concretizado. “Há quem aposte pela autorregulação, quem acredite que deve haver um órgão de supervisão de algoritmos como o dos medicamentos e até mesmo quem peça que os conteúdos sejam diretamente censurados”, diz a pesquisadora. Mas Galdon destaca um problema maior: “Dizemos às plataformas que precisam atuar melhor, mas não sabemos o que significa melhor. As autoridades europeias estão preocupadas, mas não sabem bem o que está acontecendo, o que mudar ou o que pedir exatamente”.

SAIR DA BOLHA

Tem sido muito discutido o verdadeiro impacto do risco das bolhas de opinião geradas pelas redes, depois do alerta do ativista Eli Pariser. “Esse filtro, que acaba reforçando nossos próprios argumentos, está sendo decisivo”, alerta Galdon. Recentemente, Sheryl Sandberg, do Facebook, disse que a bolha era menor em sua plataforma do que na mídia tradicional (embora tenha negado categoricamente que sua empresa possa ser considerada um meio de comunicação). Cerca de 23% dos amigos de um usuário do Facebook têm opiniões políticas diferentes desse amigo, de acordo com Sandberg.

“Sabemos que as dinâmicas do Facebook favorecem o reforço de opiniões, que tudo é exacerbado porque buscamos a aprovação do grupo, porque podemos silenciar pessoas das quais não gostamos, porque a ferramenta nos dá mais do que nós gostamos. E isso gera maior polaridade”, diz Esteban Moro. Um exemplo: um estudo recente do Pew Research Center mostrou que os políticos mais extremistas têm muito mais seguidores no Facebook do que os moderados. “Vivemos em regiões de redes sociais completamente fechadas, das quais é muito difícil sair”, afirma. E propõe testar o experimento de seus colegas do Media Lab, do MIT, que desenvolveram a ferramenta FlipFeed, que permite entrar na bolha de outro usuário do Twitter, vendo sua timeline: “É como se você fosse levado de helicóptero e lançado no Texas sendo eleitor de Trump. Assim você percebe o quanto vivemos em um ecossistema de pessoas que pensam exatamente como nós”.

Noam Chomsky – Estados Unidos são o país mais perigoso do mundo

Para o linguista, filósofo e intelectual norte-americano, Washington despreza todas as chances de acordo em conflitos globais explosivos. Que loucura fará o presidente Donald Trump, quando seu capital político se esgotar?Noam Chomsky: EUA estão literalmente sozinhos no mundo.

A proliferação nuclear e as mudanças climáticas são hoje motivo de preocupação aguda, levada ao extremo em razão do governo  de Donald Trump, nos EUA. Nesta entrevista exclusiva para a Truthout, o intelectual dissidente Noam Chomsky debate a cobertura da mídia sobre esses temas, ressaltando as tensões dos EUA com a Rússia, o Irã e a Coreia do Norte, bem como o recente ataque aéreo dos EUA a uma base da Força Aérea da Síria.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

 

Como você vê a angustiante falta de debate, na mídia hegemônica, sobre mudanças climáticas e proliferação nuclear?

Se você quiser aprender sobre armas nucleares e a razão pela qual esse tema não está sendo tratado, dê uma olhada na edição de 1º de março do Bulletin of the Atomic Scientists (Boletim dos Cientistas Atômicos), onde há um artigo absolutamente espetacular escrito por dois verdadeiros experts – Hans M. Kristensen e Ted Postol, do MIT (Massachussets Institute of Technology).

Eles discutem os novos sistemas de direcionamento inventados no Programa de Modernização de Obama, agora em plena escalada com Trump, e que são extremamente perigosos. Afirmam, com base em informações disponíveis, que os sistemas de mísseis dos EUA foram de tal forma aperfeiçoados que agora são capazes de aniquilar instantaneamente o efeito de dissuasão da Rússia.

É um enorme excesso, que acaba com a estabilidade nuclear – e, claro, os russos sabem disso. A implicação é que, se em algum momento os EUA sentirem-se ameaçados, serão levados a fazer um ataque preventivo – porque do contrário estão mortos, entende? E isso significa que todos estaremos mortos. Este é o fato mais importante de que se tem notícia em não sei quanto tempo.

New York Times e outras mídias mainstream mantiveram sua prática convencional de enaltecer o último ataque do Trump contra a Síria, mas continuaram lamentando-se porque essa doutrina de política exterior é improvisada. De certa forma, considerando as nomeações do seu gabinete, ele faz lembrar Bush filho, que escolheu alvos indefesos. Eles alegam estar lutando contra o terrorismo e a proliferação nuclear, mas parecem estar simplesmente piorando os problemas.

Eles com certeza não estão lutando contra a proliferação nuclear. Bem, se quiserem mesmo fazer isso, há atitudes que podem tomar. O Irã, que na verdade nunca foi um problema, poderia ter sido resolvido há anos. Há um livro interessante do ex-embaixador brasileiro Celso Amorim. Em 2010, ele realizou um esforço conjunto com a Turquia para solucionar a questão do Irã. Ninguém, além dos Estados Unidos, considera que seja realmente um problema.

Aqui nos EUA, é a pior ameaça da história da humanidade. Mas Brasil e Turquia conseguiram um acordo com o Irã em que, basicamente, o país entregaria seu urânio (pouco) enriquecido para a Turquia armazenar, e em troca as potências ocidentais (isto é, os EUA) lhe forneceriam tubos de gelo para usar em seus reatores de uso medicinal. Isso teria liquidado o assunto. Foi imediatamente rejeitado por Obama e Hillary Clinton.

E a razão principal foi que não queriam ver ninguém mais envolvido no assunto. Supostamente, os norte-americanos é que deveríamos lidar com o problema – a mas isso não foi dito. A razão ostensiva foi de que Hillary estava prestes a pressionar o Conselho de Segurança da ONU para adotar novas sanções contra o Irã, e não queria que essa iniciativa fosse minada – o que mostra uma atitude voltada para a proliferação. O mesmo está acontecendo com a Coreia do Norte. [Recentemente] anunciaram mais ações ofensivas contra a Coreia do Norte.

Misseis navais vão elevar o nível [do perigo], [mas] há uma opção diplomática? Sim, há. A Coreia do Norte e a China propuseram o que parece ser uma opção muito inteligente. A Coreia do Norte deveria acabar com o desenvolvimento de armas nucleares – manter o estoque como está, não fabricar mais – e, em troca, os EUA acabariam com essas manobras militares hostis na fronteira da Coreia do Norte – bombardeiros B52 com capacidade nuclear e por aí vai. Os EUA rejeitaram imediatamente a oferta. E a imprensa e todo o mundo disse [quase nada]…

Esse programa de modernização é um exemplo muito claro de como o que importa não é a segurança. Não há nenhum ganho em segurança, mas destruição maciça da capacidade de dissuasão do adversário. A única consequência disso é provocar o risco de um ataque preventivo. E um ataque preventivo leva a um mundo de inverno nuclear.

Sem contar que temos uma presença militar lá. Lembro que uma vez você disse algo sobre como a dissuasão não era para as armas nucleares, mas para a militarização da Coreia do Norte apontada para Seul e as Forças Armadas dos EUA.

Se os EUA atacassem a Coreia do Norte, com certeza destruiriam aquele país – mas provavelmente a Coreia do Sul também seria exterminada. Eles concentraram artilharia apontada para Seul, e não há nada que se possa fazer respeito.

Quanto às relações dos EUA com a Síria, há soluções políticas? A última vez que Medea Benjamin escreveu no Democracy Now!, ela dizia como há opções políticas que nunca foram tentadas para os EUA e a Síria.

Houve sugestões em 2012. O embaixador russo nas Nações Unidas fez algumas propostas para um acordo político no qual Hafez Assad seria lentamente removido. O Ocidente a desconsiderou imediatamente, e não sabemos se ela era real, porque não veio do Kremlin, e era informal. Mas o fato é que todas essas propostas são imediatamente refutadas. E simplesmente não se sabe se são verdadeiras.

É um pouco como o 11 de Setembro. Afinal, o Talibã sinalizou que poderia extraditar Osama bin Laden, mas os EUA não lhe deram ouvidos. Tinham de usar a força. Bem, uma das razões é que o Talibã pediu provas, e um dos problemas é que não apresentaram evidência alguma.

Como as mudanças climáticas e as ciências climáticas relacionam-se com a questão das armas nucleares e sua capacidade destrutiva?

Uma das poucas instituições preocupadas com as mudanças climáticas é o Pentágono. Eles terão problemas, por exemplo, com a Marinha – a Base Naval de Norfolk será inundada quando o nível do mar aumentar, e a elevação do nível do mar e outros sistemas climáticos perigosos irão causar enormes ondas de refugiados.

Dê uma olhada em Bangladesh. É uma planície costeira – e algumas centenas de milhões de pessoas. O que eles farão, se as coisas piorarem? Você sabe?

Com a chegada de Rex Tillerson ao posto de secretário de Estado de Trump, as coisas parecem ter se “normalizado”, no governo dos EUA. Que perigos ele representa para o planeta?

É incrível o que está acontecendo, e o mais espantoso é que ninguém fala disso. Neste momento – desde 8 de novembro – os Estados Unidos estão literalmente sozinhos no mundo – primeiro, na sua recusa em unir esforços para fazer algo a respeito do aquecimento global. Mas, pior ainda, empenhados em agravar a situação. Em toda parte, está-se tentando fazer alguma coisa. Só os Estados Unidos esforçam-se para destruir — e não só Trump, mas todo o Partido Republicano. É difícil encontrar palavras para descrever isso. Não há informações. Não há debate.

Refiro-me ao mais importante evento de 8 de novembro – do qual tenho falado algumas vezes, mas ninguém ouve. Como devem saber, havia uma conferência internacional em Marrocos, em sequência à conferência de Paris – para dar alguma substância aos acordos de Paris. Mas no dia 8 de novembro [dia da vitória de Trump], a conferência foi interrompida. A questão era, nós sobreviveremos? Não se disse uma única palavra sobre isso. Mais espantoso ainda, o mundo espera que a China venha socorrê-lo. Os EUA são a máquina destrutiva que está arruinando tudo. O mundo tem esperança de que a China irá, de alguma maneira, salvá-lo.

O que isso — o mundo esperar o apoio da China — significa em relação ao establishment norte-americano?

Significa que os Estados Unidos são com certeza o país mais perigoso do mundo.

Isso não é positivo para a democracia — ou a esperança em relação a ela.

Não tem muito a ver com democracia, porque uma democracia mal e mal funciona sob um sistema neoliberal. A maioria da população está desconectada dos temas relevantes. Há uma retórica apaixonada sobre como “não podemos cruzar os braços”, enquando o país usa armas para matar civis inocentes.

Neste momento, os Estados Unidos estão apoiando ataques militares da Arábia Saudita ao Iêmen e uma política de escassez – uma política de fome – que irá matar dezenas de milhares de pessoas; na verdade, já está matando. Mas alguém fala sobre isso? Só Gareth Porter e mais uma ou outra pessoa escrevem [sobre isso].

O que você pensa sobre a direção em que caminha o governo Trump, e como seria sua política exterior? É imprevisível, como ele? Ou segue uma trajetória?

Penso que a política externa não é uma preocupação deles, na verdade. Assim como o ataque à Síria: não significou quase nada. Alvejaram uma base aérea vazia. Um dia depois, ela estava funcionando novamente. Aviões voavam a partir dela. Foi um show para o público interno, você sabe: vejam como sou forte; não sou como Obama. E então tudo volta ao “normal” – penso que, de fato, o que acontece é o orçamento d[o presidente da Câmara], Paul Ryan e seus programas legislativos.

Tudo isso está ocorrendo sob a cobertura das extravagâncias midiáticas de Trump e seu secretário de Imprensa, Sean Spicer. Eles caras fazem uma coisa após outra para captar a atenção da mídia. E funciona. Ligue na CNN e é isso que se ouve, enquanto são feitas mudanças legislativas que destroem tudo o que o governo tem de utilidade para a maioria das pessoas. Penso que Paul Ryan é a pessoa mais perigoda desse governo. Ele sabe o que está fazendo — e é muito sistemático. Presumo que está por trás das nomeações do gabinete, e é incrível como todas elas são a escolha de alguém devotado à destruição de uma política pública — ou para garantir que não funcione. Colocou-se muito foco no EPA (Agência de Proteção Ambiental), o que já é bem ruim, mas os programas ambientais mais significativos estão no departamento de Energia — e serão propositalmente desmontados.

Quer dizer que Trump nomeia pessoas deliberadamente escolhidas para minar as políticas públicas?

Sim, todos os seus secretários: Educação, Ambiente, Trabalho – cada um é escolhido para minar todos os aspectos do governo que se relacionem a qualquer apoio à maioria das pessoas e não beneficiem os super-ricos. E isso de forma absolutamente sistemática. A pergunta que interessa é: por quando tempo o eleitorado de Trump vai entrar nesse jogo de trapaças. Eles estão levando na cara mais do que ninguém –m as ainda têm fé no seu homem. Se isso sucumbir – o que, suponho, mais cedo ou mais tarde vai acontecer – o governo Trump terá de fazer alguma coisa bem radical para tentar manter o controle.

Qual a atitude da Rússia quando ao ataque à Síria, a seu ver? Eles acham que foi um teatro?

Bem, há algumas questões interessantes aqui. Pode-se buscar a razão por que Assad teria ficado bem louco, para provocar uma intervenção dos EUA quando está vencendo a guerra. A pior coisa para ele seria atrair os Estados Unidos pra dentro do conflito. Por que iria lançar um ataque com armas químicas? Pode-se imaginar que um ditador com interesses apenas locais venha a fazer isso, pensando ter sinal verde para tanto. Mas por que os russos permitiriam? Não faz nenhum sentido. E há de fato questões sobre o que aconteceu. Algumas pessoas que merecem muita credibilidade – não tipos conspirativisas, mas gente com sólidas credenciais de inteligência — dizem que o ataque não aconteceu.

Lawrence Wilkerson afirmou que a Inteligência dos EUA localizou um avião que provavelmente atingiu um depósito da Al-Qaeda, onde estava armazenado algum tipo de arma química, que se espalhou. Eu não sei. Mas isso por certo pede ao menos uma investigação. E as pessoas [que chegaram a essa conclusão] não são insignificantes.

Agência Efe
Trump nomeou secretários com missão de minar políticas que não apoiem super-ricos, diz Chomsky

Você poderia falar sobre como a esquerda está dividida nessa questão da Síria?

A esquerda é horrível nisso. De um lado, grande parte é pró Assad. [Nesses círculos], você não pode criticar Assad, embora saiba que ele é um criminoso de guerra monstruoso. Qualquer um que o critique está aderindo aos imperialistas norte-americanos, o que é simplesmente grotesco. Seja o que pensemos sobre os fatos recentes, Assad é responsável por uma enorme massa de atrocidades. É uma história de horror.

Outros dizem que os Estados Unidos simplesmente não deveriam se envolver em outra guerra. Quer dizer, para eles a narrativa de Washington está certa, e se é verdade que a Síria usou armas químicas, não seria um grande crime enviar uma espécie de tiro de advertência para dizer: vocês não podem mais fazer isso. Não seria a melhor coisa do mundo, mas não seria também um crime capital. Penso que, no mínimo, deveria ter havido uma investigação sobre o que aconteceu. Agora, aderir simplesmente ao coro de que estamos, finalmente, reagindo aos crimes na Síria – isso é ridículo.

Não concordo com a intervenção dos EUA na Síria, mas também não sou a favor de Assad. Como pode alguém opor-se a Assad e ao mesmo tempo ser reticente quanto à intervenção dos EUA?

Algumas pessoas do campo da esquerda dizem: “veja, não podemos deixar essas atrocidades continuarem, então vamos entrar na guerra e nos livrar de Assad”. O problema é que, com isso, abre-se uma guerra nuclear com a Rússia. E a Síria será dizimada, juntamente com tudo o mais. Então, é preciso dizer: “certo, vamos acabar com os crimes; mas como, exatamente?”
Dan Falcone/Truthout-Nova York Tradução: Inês Castilho

“Misturar o verdadeiro e o falso é típico das ditaduras”

Nas páginas do The New York Times, Roger Cohen (Londres, 1955), é um dos colunistas mais influentes dos Estados Unidos. Em suas memórias, The Girl from Human Street (A garota de Human street), conta a história de sua família, que começa na Lituânia. Todos os que não fugiram foram assassinados pelos nazistas. Sua história passa pela África do Sul e pelo Reino Unido e é marcada pela tolerância e pela ideia de que somente a generosidade de outros países que abriram suas fronteiras permitiu sua existência. Uma frase do historiador britânico Simon Schama, que citou em uma de suas últimas colunas, resume seu pensamento sobre a presidência de Donald Trump: “A indiferença para com a verdade e a mentira é uma das condições prévias do fascismo. Quando a verdade morre, também cai a liberdade”. Cohen visitou Madri recentemente, convidado pela Fundação Rafael del Pino, onde deu uma conferência.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Pergunta. Seus familiares conseguiram sobreviver porque puderam se tornar refugiados. O que o senhor sente diante da política de imigração de Donald Trump?

Resposta. Venho de uma família que teve de emigrar a cada geração, da Lituânia, da África do Sul… Estou indignado, é desnecessário. Não há nenhuma evidência de que algum cidadão dos países vetados tenha cometido um ato terrorista com perda de vidas nos EUA nos últimos anos. Durante toda a campanha, vimos que Donald Trump, com Steve Bannon por trás, é antimuçulmano. Vimos isso com essa medida, estimulada por preconceitos. A forma como foi adotada provocou caos e justa indignação não só entre aqueles que não puderam entrar nos EUA, apesar de terem visto, mas em todo o mundo. É injustificável.

P. Podemos entender a história do século XX, e inclusive a do século XIX, sem a imigração em massa de milhões de pessoas em todo o mundo?

R. Os Estados Unidos são uma ideia, e uma parte importante dessa ideia é que é um país de imigrantes. Trump é um retrógrado. Todo movimento populista precisa de um mito do passado (“que a América volte a ser grande de novo”), e um inimigo, que para Trump são os mexicanos e os muçulmanos. Ele está tomando um caminho muito perigoso, o do medo. Dito isso, ele ganhou e foi capaz de intuir algo está acontecendo, captar o medo, a ansiedade em relação à precariedade econômica, o ressentimento, o sentimento de que as elites agiram com total impunidade no crash de 2008. E, como no caso do Brexit, baseou-se em mentiras, não há outra palavra para isso. Existe uma percepção de que a democracia não protege todos…

P. O senhor fez uma reportagem sobre os campos em que estão confinados os refugiados que tentam chegar à Austrália, lugares terríveis. Acredita que na crítica às medidas de Trump há alguma hipocrisia, muitos países fazem o mesmo sem o dizer?

R. Estamos diante de um problema real: vivemos o momento com mais refugiados desde 1945 e a capacidade das democracias ocidentais para absorver centenas de milhares de pessoas é limitada. A Alemanha não foi hipócrita, acolheu quase um milhão de refugiados. É necessário que as pessoas sejam tratadas com justiça e humanidade, de acordo com a Convenção sobre os Refugiados. No caso da Austrália, não é assim em absoluto. Há mais de três anos, milhares de pessoas, seres humanos, estão apodrecendo em duas ilhas remotas. Muitas delas estão doentes, outras estão traumatizadas, é algo terrível. Nos EUA, o fato de que o presidente use esse tipo de preconceito contra os muçulmanos, uma população total de 1,1 bilhão de pessoas no mundo, pode ter consequências muito graves.

P. Qual é a diferença entre a pós-verdade e as mentiras que dizem muitos presidentes e políticos de todo o mundo como, por exemplo, as mentiras de George W. Bush que deram a base para a invasão do Iraque?

R. Existe uma diferença. Trump diz coisas, como o ataque fictício na Suécia, que por um lado são ridículas, mas por outro são perigosas. A palavra do presidente dos EUA é algo que durante 75 anos ajudou a manter a segurança global, era crível, mas não é mais. É verdade que a invasão do Iraque foi baseada em mentiras. Mas agora o presidente norte-americano acusa o The New York Times e o The Washington Post, dois pilares da República, de divulgar notícias falsas, estamos entrando num mundo onde dois mais dois são cinco. Misturar o verdadeiro e o falso é um problema muito sério porque é uma característica fundamental das ditaduras. No final, a única verdade é a voz do líder, que é o que Trump se considera. Devemos ter muito cuidado com os paralelismos históricos, mas, ao mesmo tempo, não podemos ignorar o que aconteceu nos anos trinta. Temos Steve Bannon, o homem da sombra, dizendo que “a imprensa deveria fechar a boca”. Acho que os meios de comunicação têm de fazer seu trabalho: responsabilizar o poder e testemunhar os acontecimentos. Isso é mais sério, porque há um ataque premeditado e total contra a verdade. Está sendo criado um ambiente em que a verdade e a mentira são intercambiáveis.

“Existe um problema muito grande nos EUA, é um país dividido e os seguidores de Trump não se importam com o que o ‘The New York Times’ diz”

P. Em seu livro, o senhor escreve: “As verdades são muitas e em todas as guerras se luta pela memória”. Podemos chegar a esse estado? Mesmo que não haja guerra, o senhor acredita que estamos, na Europa e nos EUA, diante de partes em conflito com memórias diferentes?

R. Cobri guerras no Líbano, na Bósnia e cada lado tem sua verdade e sua memória, que é sempre fluida e manipulável pelos líderes nacionalistas. François Mitterrand costumava dizer que “o nacionalismo é a guerra”. O nacionalismo levado a certo ponto representa sempre a guerra e esse é o triunfo da UE. Uma das coisas que mais me alarmam nos dias de hoje é como a grande criação política da segunda metade do século XX, a UE, é atacada pelo presidente Trump, foi corroída pelo Brexit e está sofrendo uma extraordinária amnésia sobre suas realizações.

P. A imprensa pode ser suficiente para conter Trump?

R. Não é apenas a imprensa, também temos os tribunais. É extraordinário ver como a Constituição dos Estados Unidos, tantas décadas depois, continua a fornecer instrumentos para responsabilizar as autoridades. Há um grande problema nos EUA: é um país dividido e os seguidores de Trump não se importam com o que o The New York Times diz. Como superar essa ruptura? É uma pergunta muito importante.

P. Os populismos sempre oferecem soluções simples para problemas complexos, seja Trump, Marine Le Pen na França ou Geert Wilders na Holanda. Dizem que é suficiente tomar medidas contra os estrangeiros para que tudo se resolva. Como podemos lidar com isso?

R. A realidade irá colocá-los em seu lugar, veremos se Trump tem um coelho na cartola, se pode recuperar os postos de trabalho nas fábricas na era da robótica. A classe média norte-americana comprovará os resultados. Não vamos mudar a natureza humana, o fato de que as pessoas se sintam atraídas por um personagem autoritário como Trump, que usa o medo, que é cheio de ira, que promete soluções milagrosas. Também temos de reconhecer que fez algo extraordinário, incrível.

Trump age conforme o prometido em palanque

Trump abre caminho para deportação maciça de imigrantes irregularesDonald Trump nesta segunda-feira

Donald Trump nesta segunda-feira MIKE THEILER / POOL EFE

Governo dos EUA pretende expulsar quase todos que estejam há menos de três anos no país

Donald Trump abriu o caminho para as deportações maciças. As novas diretrizes do departamento de Segurança Nacional dos Estados Unidos, divulgadas nesta terça-feira, enterram de vez o legado de Barack Obama e amplificam a perseguição a quase todos os imigrantes irregulares (ainda sem documentos) que vivem no país.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Não se trata apenas de que os funcionários atuais ampliem as suas atribuições ou da contratação de 15.000 novos agentes. O centro da nova ofensiva migratória está na possibilidade de executar a expulsão imediata de praticamente todos os que estão há menos de três anos no país.

Trata-se de uma virada radical. O país que se tornou grande a partir da imigração agora dá as costas a 11 milhões de sem-documentos, metade deles mexicanos. Até agora, o objetivo prioritário dos agentes era deter todos aqueles que tivessem cometido algum crime grave. Com as novas diretrizes, o foco se amplia e os casos que não se enquadram nelas se reduzem a “exceções extremamente limitadas”.

“Todos que não cumprem as leis de imigração podem estar sujeitos aos novos procedimentos, incluindo a expulsão dos Estados Unidos”, afirma a nova diretriz.

Também será restringida a prática de outorgar liberdade condicional para os que forem detidos. “Esta medida será usada excepcionalmente e apenas nos casos em que, após minucioso estudo das circunstâncias, se a considere necessária por razões de ordem humanitária ou por conta um benefício público significativo”, determina a nova norma.

O objetivo, agora, é devolver os imigrantes o quanto antes aos seus países de origem. Para isso, quebram-se os entraves que havia para a realização do processo judicial de expulsão imediata. Esta modalidade era aplicada até hoje aos imigrantes que tivessem passado menos de duas semanas no país e estivessem a não mais do que 160 quilômetros da fronteira.

Com a nova diretriz, os limites geográficos são anulados e sua aplicação passa ase estender para todos aqueles que estiverem há até dois anos em território norte-americano. Ficam de fora apenas os menores de idade, os pensionistas que têm asilo e aqueles que puderem comprovar a legalidade de sua situação como imigrante.

Neste plano, o grande alvo é o México. O Governo de Trump considera prioritário garantir a sua fronteira do sul. Para isso, está realizando em caráter de urgência a busca de fundos para “projetar, construir e manter o muro”. Nessa mesma direção, ele abriu um processo para “identificar e quantificar todas as fontes diretas ou indiretas de ajuda federal e de assistência ao Governo mexicano”.

A finalidade dessa iniciativa é conhecer qual é a quantia que o país vizinho recebe de Washington e usá-la para forçar o México a pagar o muro, um dos princípios defendidos pelo presidente dos Estados Unidos.

Fica fora desses planos, segundo os textos, o programa criado por Obama para proteger os dreamers, como são chamados os menores escolarizados que entraram nos EUA sem documentos. Um sistema que permitiu a outorga de licença de trabalho para 750.000 imigrantes e com o qual o próprio Trump reconheceu, em tom melodramático, que seria complicado acabar.

“A situação desses menores é muito difícil para mim, muito… Porque eu gosto de todas essas crianças; eu mesmo tenho filhos e netos, e acho muito, muito difícil fazer nesse caso o que a lei determina. E todos sabem que a legislação é muito dura”, disse o presidente na semana passada.
Juan Martinez

O desenhista que transforma as declarações de Trump em HQ

Frases do novo presidente se misturam a personagens célebres para parodiá-lo

trump hq
Capa de ‘X-Men’ com Trump. R. SIKORYAK

Os quadrinhos já têm sua resposta ao governo de Donald Trump – e ela é muito divertida. Quem inaugurou essa tendência, poucos dias depois da vitória eleitoral do magnata, foi o espanhol Pablo Ríos, que contava dias atrás ao EL PAÍS que escreveu sua sátira de 44 páginas em apenas um mês: “Eu já sabia que ele ia ganhar”.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Mas um dos pontos de vista mais originais veio do ilustrador Robert Sikoryak, que teve a ideia de misturar personagens históricos das HQs com as declarações mais célebres e impertinentes do presidente. O que começou como uma brincadeira na Internet está a ponto de virar um contrato com uma editora.

O desenhista que transforma as declarações de Trump em HQ
R. SIKORYAK
“Precisava responder por mim mesmo a Trump. Não sabia se meus leitores gostariam, achei que talvez estivessem cansados de ouvir as declarações dele, mas precisava fazer isso. Não sei se temos a responsabilidade de responder, mas todos temos o direito”, explica Sikoryak por email, dias depois do discurso de Meryl Streep ao presidente no Globo de Ouro. A ideia deste ilustrador, especialista em adaptar histórias de literatura clássica e poesia para os quadrinhos, era simples: pegar as declarações mais famosas de Trump e colocá-las em algumas das capas mais reconhecíveis na história das HQs. “Tive a ideia antes das eleições. Trump dizia as coisas mais loucas, e queria catalogá-las. Quando virou presidente-eleito, vi que era uma necessidade.”
O desenhista que transforma as declarações de Trump em HQ
 As capas são todas paródicas, mas as palavras, por mais exageradas que pareçam, são literais. Trump luta como Magneto contra a Patrulha X: “Vamos ganhar tanto que talvez nos cansemos de ganhar, e vocês nos dirão: ‘Vocês ganham muito’”. Em outra confronta o Ligeirinho: “Quando o México manda sua gente, não são os melhores. Trazem drogas, crime e estupradores”.

É que, embora na sua boca pareçam as palavras de um tonitruante vilão, Sikoryak buscava realismo, mesmo que o projeto tivesse sido criado quase como uma brincadeira para seu tumblr pessoal. “Meu processo sempre envolve muita documentação. Recordava muitas declarações, mas procurei os documentos literais, e, de passagem, encontrei muitas outras. Só queria utilizar o que ele disse, não seus tuítes, e só o que havia dito durante as eleições. Não queria pôr nada alheio na sua boca. Então não há nada anterior a 2015. Quanto às HQs, voltei à minha própria coleção. O mais difícil era unir as frases com as capas certas. Isso foi um trabalho duro.”

Trump em ‘Iron Man’.
Trump em ‘Iron Man’.
Sikoryak, que publicou em papel de forma independente 16 das capas em preto e branco, já recebeu uma oferta de uma editora para expandir seu trabalho. Ele se considera parte de uma linhagem da paródia polícia nos EUA. “Eu me lembrava de ter visto algumas paródias anti-Obama chamadas Tea Party Comics. Não estava nada de acordo com o que diziam, mas eram chamativas e apaixonantes. Essa foi a inspiração”, reconhece o autor. “A sátira é algo que os quadrinhos fazem muito bem, e temos uma grande tradição graças a revistas como a MAD, na qual algumas das minhas ilustrações foram publicadas.”
O desenhista que transforma as declarações de Trump em HQ
 Mas Trump não é novo nos gibis. Famoso há décadas, em várias ocasiões já virou personagem de HQ, e não só em paródias. Em 1988, sua incipiente carreira política o levava a aparecer nas páginas da Iron Man 227; um ano mais tarde, a DC se inspirava na capa do seu livro mais famoso, TheArt of the Deal, para criar a biografia do vilão Lex Luthor; e em 2008 ele ameaçava denunciar Luke Cage.
Em julho de 2016, a Marvel, que em 2008 incluiu Obama como presidente no seu universo, com direito a uma capa, se atreveu a transformar Trump em um de seus vilões mais extravagantes e exagerados, o cabeçudo MODOK, enquanto a Deadpool se apropriava do seu famoso penteado numa das suas capas, e isso que o executivo-chefe da editora, o desconhecido Ike Perlmutter, foi um dos grandes doadores da campanha presidencial.

Certamente não é a última vez que o vemos assim nos próximos anos. “Estou convencido de que o que acontece agora no mundo real irá se transferir também ao mundo dos quadrinhos”, sentencia Sikoryak, recordando outras alegorias, como quando o Capitão América enfrentou uma espécie do Nixon malvado depois do Watergate.
Ruiz Jimenes/ElPais

FaceBook e notícias falsas

Snopes, FactCheck e Politifact: os sites que ajudarão o Facebook a detectar notícias falsas.

Mark Zuckerberg em Barcelona, no passado mês de fevereiro
Mark Zuckerberg em Barcelona, no passado mês de fevereiro CORDON PRESS

Iniciativa para evitar a divulgação de farsas conta com a participação de agências brasileiras

O Facebook se associou a veículos especializados na confirmação de notícias para evitar a presença de notícias falsas na rede social. O processo seguirá dois passos, como explica a revista Wired: de um lado, os usuários poderão marcar as notícias como falsas para que uma equipe do Facebook revise se estas publicações procedem de veículos reais ou de sites que tentam dar a impressão de sê-lo (por exemplo, bbc.co em vez de bbc.com).[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Caso a notícia proceda de um veículo real, mas o conteúdo seja posto em dúvida, o Facebook remeterá a informação a veículos que comprovarão se se trata ou não de uma notícia falsa. Caso pelo menos dois desses veículos duvidem da veracidade da informação, as histórias aparecerão marcadas como “questionadas”. Poderão continuar sendo compartilhadas, mas terão menor presença na página principal de cada usuário.

No momento, a empresa se associou a cinco veículos, todos membros da Poynter’s International Fact Checking Network. São eles Snopes, FactCheck.org e Politifact, além da ABC News e da agência de notícias AP. Não se descarta a incorporação de mais veículos ao projeto, o que além disso permitiria corroborar notícias publicadas em outros idiomas além do inglês. Falamos aqui dos três primeiros, nem tão conhecidos, e da rede Poynter.

O código ético da Poynter

Poynter é uma associação criada em setembro de 2015 que reúne entidades que se dedicam a comparar a veracidade de notícias e declarações. Conta com um código de princípios ao qual seus membros aderem. Este código inclui o compromisso de transparência das fontes, metodologia e organização, além da aplicação dessas comprovações independentemente do viés ideológico do protagonista ou da publicação.

Mais de 40 veículos de todo o mundo assinaram esse código. Além dos já mencionados, estão líderes como Observador, de Portugal, Full Fact, do Reino Unido, as agências brasileiras Lupa e Truco, e El Objetivo da rede espanhola de TV La Sexta.

Snopes, desmentindo farsas desde 1995

Snopes continua investigando farsas e lendas urbanas desde 1995, quando David Mikkelson abriu a página. Desde então se tornou uma referência, a ponto de, quando começou a polêmica sobre se a farsa tinha influído nas eleições norte-americanas, a revista The Atlantic já se perguntou se o Facebook deveria comprar o Snopes. Não chegaram a isso ainda. O Snopes contava em 2015 com 15 funcionários, como explicou seu fundador em uma entrevista publicada no Washington Post. Também explicou que o Facebook já usava seus desmentidos “para determinar quem não deveria ter muito alcance orgânico”. E acrescentava que os rumores têm sucesso porque “se referem a algo que as pessoas já acreditam ou confirmam algo que as pessoas querem acreditar”.

A capa do Snopes.A capa do Snopes.
Barbara Binowski, responsável pelos conteúdos do Snopes, afirmou no site Backchannel que “a maioria das notícias falsas são incrivelmente fáceis de desmentir porque, obviamente, são lixo”. É muito mais difícil corrigir informação errada de meios de comunicação tradicionais.

No momento, Snopes reúne em seu site algumas notícias divulgadas recentemente e colocadas em dúvida: Fisher Price lançou um brinquedo para crianças que é o balcão de um bar (falso), Trump disse que cortará a Seguridade Social norte-americana (falso, até o momento), uma mulher sem teto conseguiu viver de graça durante oito anos na Trump Tower (falso) e um menino doente morreu nos braços de um homem vestido de Papai Noel (sem comprovação).

Politifact, um site vencedor do Pulitzer

Politifact é um site fundado em 2007, de propriedade do jornal da Flórida Tampa Bay Times. Dedica-se a confirmar a veracidade das afirmações de políticos e analistas, medindo-as com seu Truth-O-Meter (algo como um “verdadômetro”). Também escolhe uma “mentira do ano”. A de 2016 é, exatamente, o conjunto de notícias falsas que levou o Facebook a tomar medidas (por exemplo: que Hillary Clinton estaria envolvida em uma rede de pederastia sediado em uma pizzaria). Em 2015 ganhou a campanha eleitoral de Donald Trump e em 2014, os exageros sobre o ebola.

Snopes, FactCheck e Politifact: os sites que ajudarão o Facebook a detectar notícias falsas
 Politifact levou um Prêmio Pulitzer em 2009 por sua cobertura da campanha presidencial de 2008, na qual analisou mais de 750 declarações políticas. O site conta com dez funcionários, dirigidos por Angie Drobnic Holan. Em sua home page nos deparamos com o desmentido de um tuíte de Donald Trump e a confirmação (parcial) de outras declarações do presidente eleito sobre os elevados impostos a empresas nos Estados Unidos. O site também inclui históricos de veracidade: segundo o Politifact, 69% das afirmações de Trump examinadas são falsas em sua maior parte, totalmente falsas ou embustes ridículos. Para comparar, no caso de Clinton a porcentagem é de 26%.

FactCheck.org, de comprovar campanhas de televisão a seguir as redes sociais

FactCheck.org é um projeto do centro de estudos Annenberg da Universidade da Pensilvânia. Desde 2003, o site tenta confirmar a veracidade das declarações de líderes políticos, prestando atenção especial às campanhas eleitorais. Da mesma forma, desmente notícias que se tornaram virais, como por exemplo que Hillary Clinton ganhou apenas em 57 dos 3.141 condados (ganhou em pelo menos em 487). Na capa do FactCheck.org também encontramos um artigo sobre os exageros de Trump e outro dedicado às mentiras em relação ao fracking.

O veículo conta com 8 pessoas. O diretor do site, Eugene Kiely, garantiu que “estão encantados de trabalhar com o Facebook para ajudar a combater as notícias falsas na medida do possível”, para então lembrar que “contamos com recursos limitados e nosso objetivo principal é corroborar as afirmações feitas por políticos”.

A editora, Lori Robertson, explicou em uma entrevista recente à rede de televisão CBC que não é tão fácil mudar a opinião das pessoas, mesmo que fatos contrastados sejam apresentados: “Depende se as opiniões dessas pessoas estão muito arraigadas”. Cabe lembrar que, em 2015, 29% dos norte-americanos (e 43% dos republicanos) continuavam pensado que Obama é muçulmano.

Snopes, FactCheck e Politifact: os sites que ajudarão o Facebook a detectar notícias falsas

Robertson acrescentou que “antes nos concentrávamos nos anúncios televisivos, mas fomos ampliando nosso alcance e agora falamos também do que se diz em comícios, tuítes, publicações do Facebook…”. Mas não acredita que vivamos na era da pós-verdade: “O aumento de visitas a nosso site demonstra que muita gente continua se preocupando com o que é certo”.

Quem faz o fact check dos fact-checkers?

Esses veículos também estão sujeitos a crítica. São muitos, sobretudo de origem conservadora, que os acusam de ter seus próprios vieses. Ou seja, não é que Trump minta mais do que Clinton, o que ocorre é que o Politifact investiga mais a direita.

É indiscutível que todos temos vieses. Inclusive a própria escolha de que notícias ou declarações se quer confirmar e quais não estariam influenciadas por essas preferências. Mas também é fácil aceitar que esses fact-checkers fazem seu trabalho de forma honesta: basta olhar seu arquivo para comprovar que, no mínimo, têm a intenção de tratar todos os temas sem partidarismo.

Por exemplo, continuando com o Politifact, podemos mencionar seu Obameter, que avalia se o atual presidente norte-americano cumpriu as 510 promessas que fez em sua campanha eleitoral em 2012. Cumpriu 47% das promessas e mais 27% de projetos parcialmente obtidos.

E o que é mais importante: além de sua vontade de se manter à margem de partidarismos, esses veículos explicam seus métodos e citam fontes, e por isso o leitor tem pelo menos a possibilidade de verificar se é verdade que uma notícia é falsa. Os sites superpartidários ou de farsas não podem dizer o mesmo.

De fato, assim que o acordo foi publicado, o site nacionalista e racista Breitbart publicou artigos tentando desqualificar o trabalho desses veículos. Por exemplo, afirma em sua home page que o “Facebook contratou fact-checkers de esquerda como orientação do pensamento”. Tendo em conta os conteúdos desse site, não é de se estranhar que estejam preocupados.
ElPais

Notícias falsas: Como reconhecê-las antes de partilhar

Um passo a passo de checagem para não disseminar mentiras pelas redes sociais

Ron Burgundy’ (Will Ferrell) é que dava notícias confiáveis.
Ron Burgundy’ (Will Ferrell) é que dava notícias confiáveis.

As notícias falsas não são nenhuma novidade, mas nas últimas semanas falou-se muito sobre elas. Segundo alguns veículos de comunicação, esses boatos poderiam ter influenciado os resultados das eleições norte-americanas.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Embora a afirmação seja discutível, é fato que a campanha foi muito polarizada e teve, além disso, um elevado componente emocional: poucas vezes os candidatos geraram sentimentos tão confrontados como Donald Trump e Hillary Clinton, o que teria contribuído para que as notícias fossem ainda mais comentadas e compartilhadas. As autênticas e as falsas.

Os sites que teriam criado e distribuído essas mentiras teriam agido por motivação política, mas também econômica: essas matérias chamam a nossa atenção por serem mais sensacionalistas (exemplo: Clinton vendeu armas ao Estado Islâmico) e, além disso, como a notícia é inventada, o título não precisa competir com os de outros veículos sobre o mesmo tema.

Identificar uma notícia falsa nem sempre é fácil. Em caso de dúvida, estes são seis sintomas que deveriam pelo menos nos fazer suspeitar.

1. A notícia é boa demais para ser verdade. Em abril circulou uma citação de Dom Quixote que parecia se adequar com perfeição àquilo que alguns pensam sobre o partido espanhol Podemos. Falava inclusive de marionetes e cavalgadas, como se Cervantes tivesse antevisto a polêmica do último 6 de janeiro. Obviamente, tratava-se de uma falsa citação.

Também parecia quase perfeita a história de uma caçadora que posava com um leão que havia abatido e que, em plena gravação do vídeo, era atacada por outro leão, no que parecia um ato de justiça animal. Era, na verdade, parte de um experimento.

Às vezes, estas histórias têm origem em piadas, como a frase de Fidel, também falsa, em que dizia que Cuba reataria com os Estados Unidos quando este país tivesse um presidente negro, e o Papa fosse latino-americano. E, não, Castro tampouco disse que só morreria depois de assistir à destruição dos Estados Unidos.

De fato, e numa linha muito similar, muitas vezes são levadas a sério publicações assumidamente satíricas. A intenção de veículos como Sensacionalista e The Onion não é, nem de longe, enganar ninguém, e sim parodiar a atualidade (e seu tratamento jornalístico). Mas se não conhecermos o site, ou, pior, se for difundido em outro veículo sem perceber que se trata de conteúdo humorístico, corremos o risco de nos confundir.

Em geral, é preciso desconfiar de histórias que encaixam de uma forma tão perfeita que parecem pré-fabricadas. Em geral, são mesmo.

2. Não há fontes mencionadas. O melhor do boato do Quixote é que era facilmente comprovável: bastava ir ao site gutenberg.org, procurar a edição online do texto e fazer uma busca do fragmento. Por isso, a maior parte dos boatos e notícias falsas não menciona nenhuma fonte, o que dificulta seu rastreamento.

Por exemplo, um dos boatos mais compartilhados durante as eleições norte-americanas dava conta de que o papa Francisco apoiava Donald Trump. O texto falava de “meios de comunicação”, citava um comunicado sem links e, em algumas versões, chegava inclusive a incorporar declarações de “fontes próximas ao Papa”, mas sem dar nomes.

Também é preciso desconfiar se a fonte é alguma variante do clássico “um amigo de um amigo”. Ou seja, se são citados dados vagos, como “todo mundo conhece alguém que…” ou “já vi muitos casos de gente que…”. No mínimo, é muito possível que o autor esteja extrapolando a partir de casos episódicos, ignorando qualquer outra informação que contrarie sua versão.

Às vezes, atribui-se a declaração a um veículo para lhe dar credibilidade, como ocorreu com a também falsa declaração de Trump de que “os republicanos são os eleitores mais estúpidos”. Pelo menos nesses casos, pode-se recorrer à fonte citada para confirmar ou não a informação.

Como reconhecer uma notícia falsa antes de compartilhá-la com seus amigos
 Se o possível boato for uma foto, pode-se procurar a imagem no Google Images– usando inclusive filtros por data, para evitar o ruído gerado no buscador nos dias em que esse material é notícia. Às vezes, trata-se de fotos publicadas previamente e que nada têm a ver com a suposta notícia. Essa busca também pode ajudar a identificar montagens.

No caso de notícias sobre virais, como vídeos, fotos e outros, é importante que o veículo tenha conversado com o autor da publicação original. Às vezes, trata-se de conteúdo humorístico ou de montagens que podem ser levadas a sério quando tomadas fora de contexto.

3. O resto do site tampouco parece confiável. Se a notícia continua parecendo suspeita, outras três coisas podem ser comprovadas muito facilmente sem sair do site que a publicou:

  • O veículo. Obviamente, os veículos de comunicação convencionais também publicam notícias falsas, mas por engano e ocasionalmente, não de forma sistemática e porque seja parte do seu modelo de negócio, como ocorre em outros casos. Agora, é verdade também que, quando um veículo respeitado comete um erro desse tipo, as consequências são piores, porque em geral se confia mais nessa publicação.
  • Se não conhecemos o veículo, frequentemente basta dar uma olhada na capa para saber se o resto das suas notícias parecem confiáveis, ou se estamos diante de uma publicação satírica ou fanaticamente partidária. Segundo uma reportagem do Buzzfeed, essa última categoria difunde entre 19,1% e 37,7% de notícias falsas, enquanto nos veículos tradicionais analisados (CNN, ABC e Politico) o percentual não chegava a 1%.
  • A URL. Muitas notícias falsas sobre as eleições foram divulgadas por meio de sites que imitavam os endereços de veículos de comunicação, mas que não eram autênticos, como bbc.co em vez de bbc.com. Além disso, nas redes sociais, as contas podem ser identificadas: se aparece o selo azul ao lado do nome no Twitter e no Facebook, pelo menos sabemos que se trata da página oficial da publicação.

4. Não foi publicada em outros veículos. Se uma informação apareceu em outros veículos de comunicação, é menos provável que seja falsa. Obviamente, pode se tratar de uma notícia exclusiva, mas, mesmo nesses casos, é provável que outros veículos a repercutam. Por outro lado, não se pode descartar que o boato se reproduza sem que ninguém tenha tomado o cuidado de tentar confirmar sua veracidade.

No caso de informação política, uma boa ideia pode ser buscá-la também em veículos que tenham uma outra linha editorial. Mas a distorção não é necessariamente apenas da parte do veículo: muitas vezes, nós acreditamos naquilo em que queremos acreditar. É muito fácil questionar os boatos que contradigam as nossas ideias, mas não vemos nenhum inconveniente em dar como certos aqueles que as reforçam.

5. Lembra alguma coisa. Muitas dessas notícias seguem um esquema que já foi utilizado em outras ocasiões. Frequentemente, é possível até mesmo rastrear a origem dessas notícias falsas em lendas urbanas clássicas, como a história de Ricky Martin e a geleia, cuja primeira versão aparece em um relato humorístico dos anos 50.

Podemos lembrar, também, a carta falsa do prefeito de Zaragoza explicando que não proibiria a carne de porco nos restaurantes das escolas a pesar dos pedidos dos muçulmanos, um boato que já havia circulado na França e na Bélgica. Algo semelhante aconteceu com as histórias que diziam que o Facebook passaria a ser pago, assim como as correntes que ameaçavam com o fechamento do Messenger e do Hotmail. Em outras histórias, como a da suposta “camisinha armadilha”, encontramos analogias com mitos de várias culturas (a vagina dentada).

6. O Snopes a desmentiu antes. Este conselho aparece no final, mas bem poderia ser a primeira coisa a fazer. Este site é a principal ferramenta na hora de confirmar ou desmentir um boato, pelo menos em língua inglesa. Para mencionar alguns exemplos recentes, a origem do Black Friday não está na venda de escravos e Donald Trump não ganhou no voto popular, apesar do que disseram algumas notícias falsas. Há também alguns casos clássicos, como o das galinhas de quatro coxas da Kentucky Fried Chicken. O site também contém um banco de dados com os veículos que divulgam notícias falsas.

Logicamente, uma notícia pode ser autêntica e também engraçada. Ou pode seguir um esquema que lembre o de outras grandes histórias. Ou pode ser publicada em um veículo do qual não sabemos nada. Por vezes acontece de a realidade acabar imitando as lendas urbanas. Muitas boas atraem a atenção justamente por esses motivos. Mas quando vários desses indicadores aparecem juntos, convém no mínimo desconfiar.