Dawisson Belém Lopes,Blog do Mesquita

“Do PSDB para o PT mudaram um pouco a receita do bolo, agora há uma ruptura drástica da política externa”

Para o professor de relações internacionais Dawisson Belém Lopes, Brasil chega ao encontro da elite financeira mundial em Davos com uma equipe de governo com discursos conflitantes

Dawisson Belém Lopes,Blog do MesquitaDawisson Belém Lopes, professor e diretor adjunto de Relações Internacionais da UFMG.ARQUIVO PESSOAL

O presidente Jair Bolsnaro desembarcou, nesta semana, na Suíça, para apresentar sua agenda liberal de reformas e privatizações no Fórum Econômico Mundial de Davos, numa edição de forte ausência de líderes internacionais. Seu aguardado discurso de abertura do evento, no entanto, foi mais curto —apenas 8 minutos— e surperficial do que o esperado por líderes e investidores. Na avaliação de Dawisson Belém Lopes, professor e diretor adjunto de Relações Internacionais da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Bolsonaro parece não ter entendido a importância do encontro da elite financeira mundial, ao ter brindado um discurso “fraco” e desconectado das dinâmicas internacionais. Nem mesmo o tema do evento, a globalização 4.0, compareceu em sua fala de estreia.

Apesar do aparente consenso entre os dirigentes políticos que acompanham o presidente no evento, o Brasil também chegou ao encontro da elite financeira mundial com uma equipe de Governo com discursos conflitantes. Ao mesmo tempo que o superministro de Economia, o liberal Paulo Guedes, prega a adoção de uma maior abertura do país, o chanceler Ernesto Araújo defende constantemente um discurso antiglobalista. Para Lopes, enquanto as falas continuarem em rota de colisão, dificilmente se terá clareza do que de fato será implementado no Governo sob o comando de Bolsonaro, uma gestão que ainda é vista com desconfiança internacionalmente. O professor aposta, no entanto, numa maior atuação do vice-presidente Hamilton Mourão e dos militares do Governo, alinhados aos anseios liberais, na política externa, segurança internacional e defesa nacional.

Pergunta. O que o senhor achou do curto discurso de Bolsonaro em Davos?

Resposta. Foi mais do mesmo. Ele parece não ter entendido a especificidade do momento, a importância do fórum. Os americanos costumam dizer que, quando em campanha, o indivíduo vai ganhando um tom presidencial, mas até hoje Bolsonaro não parece presidente, ele continua convocando as massas, usando de recursos baratos, fáceis, como, por exemplo, falar de bolivarianos e coisas inespecíficas. Minha impressão é que ele ainda precisa ganhar postura de presidente. A audiência que estava em Davos não está de brincadeira, estamos falando de um dos fóruns mais bem frequentados do mundo e se esperava mais. As pessoas sentiram uma certa decepção, elas não conheciam Jair Bolsonaro, então, algumas delas, esperavam um indivíduo mais antenado e conectado com as dinâmicas internacionais. Ao fim e ao cabo, ele não apareceu tão à vontade em Davos. Acho que é muito eloquente a respeito disso que ele tenha sido fotografado comendo isoladamente sem ter usado a ocasião para se ter encontrado com chefes do Estado, lideranças. Foi um discurso fraco, que não deixou marca e que, inclusive, deixa uma impressão negativa.

P. E como  avalia os primeiros movimentos do Governo em relação à política exterior?

R. Ela já se apresenta como algo novo. Para usar uma metáfora que escutei de um embaixador do Governo anterior, é como se na época do PT houvesse mudança nos ingredientes para fazer o bolo, mas agora alteraram a forma do bolo. Isso gera uma incompreensão profunda e uma dificuldade de articular a corporação diplomática e os demais atores —para além do Itamaraty— que também têm papéis na produção da política externa brasileira. É algo muito novidadeiro em termos conceituais, essa política externa não se apoia nos tradicionais pressupostos de apoio ao multilateralismo ou no direito internacional. Do governo do PSDB para o PT mudaram um pouquinho a receita do bolo, mas agora há uma ruptura drástica.

P. Essa nova política internacional não parece estar em sintonia com o discurso de outras alas do Governo. Enquanto o chanceler Ernesto Araújo fala em antiglobalismo, o superministro da economia, Paulo Guedes, afirma que quer abrir os mercados. Os dois estão essa semana juntos apresentando o novo Governo na cúpula de Davos…

R. O Fórum Econômico de Davos é um evento organizado e pensado exatamente por pessoas que estão sendo hostilizadas por Bolsonaro e por assessores mais próximos, como o da presidência para assuntos internacionais [Filipe Martins] e o guru do presidente, Olavo de Carvalho. Quem está a cargo do Fórum de Davos são os globalistas. Essa é a contradição mais interessante, pessoas que acreditam em uma ordem liberal. Há de fato um desencontro entre as alas do Governo, a equipe econômica está muito à vontade com o discurso de Davos, que ecoa daqueles resorts elegantes e das elites financeiras econômicas globais. Uma fala que está em sintonia com Paulo Guedes e seus colaboradores. Ao passo que o discurso de Araújo, Bolsonaro e Martins vai em rota de colisão, em direção oposta. A verdade é que ainda não há clareza sobre qual será o desenho da formulação desse Governo, o que de fato será implementado.

P. Bolsonaro fez seu debut internacional nesta semana e o vice Hamilton Mourão assumiu, pela primeira vez, a Presidência por uns dias. Qual acredita que será o papel do general da reserva?

R. Assim que foram anunciados os nomes do primeiro escalão do Bolsonaro, alguns analistas cogitaram que haveria três núcleos principais no Governo: um nacionalista religioso, onde está inserido Ernesto Araújo, um núcleo econômico, protagonizado por Paulo Guedes, e um núcleo militar, com os militares que também são nacionalistas, de alta patente e com experiência internacional, muitos deles participaram de missões da ONU. Não estamos lidando com militares xucros. São pessoas que têm rodagem e também ficam à vontade nesses salões internacionais. São cosmopolitas e, assim como os economistas, também globalistas. Entre esses três núcleos, eu diria que apenas um deles tem capacidade institucional, coerência, coesão interna e respaldo popular hoje alto: os militares. Na história do Brasil, eles têm participado de momentos críticos e capitais e mostrado capacidade de agir de forma coordenada. Tenho dúvida se o núcleo religioso, nacionalista e antiglobalista consegue se organizar e articular e produzir coisa efetivas. Também tenho dúvida sobre o núcleo econômico financeiro. Não sei se eles estão tão afinados. Os militares, por outro lado, são uma corporação. Eu tendo a achar que aquela imagem que se formou que haveria três núcleos medindo força é ilusória e aparente. A verdade é que tem apenas um núcleo duro forte com capacidade de agência que são os militares e outros são mais frágeis. O Mourão claramente tem uma agenda e desejo de implementar ações que não vão nessa onda antiglobalista. Os militares terão papel de esteio, de uma reserva, quando a coisa começar a sair um pouco do trilho, eles vão puxar o freio de mão.

P. O senhor avalia que Mourão tem mais chances de assumir as decisões no âmbito da política exterior? Diferentemente de outros vices, ele terá um papel de maior protagonismo?

R. Acho que sim, ele está em condições melhores de ação nas questões críticas. Particularmente nos assuntos de política externa, segurança internacional e defesa nacional, eu vislumbro um vice-presidente bastante atuante. O Ernesto pode fazer mil discursos, pode inventar conceitos, escrever no blog dele, mas, para as questões capitais do Estado brasileiro, entendo que Mourão, Augusto Heleno, Santos Cruz [ministro da Secretaria de Governo] e o primeiro escalão militar do Governo irão prevalecer. Mourão deve, inclusive, fazer a defesa de um papel mais protagônico para a China na política externa. O vice parece mais consciente que o país asiático é responsável por 28% do nosso mercado exterior e de que a China precisa estar mais presente do que o Bolsonaro dava a entender na campanha. O presidente usava um discurso xenofóbico. “Chinês não vai comprar terra aqui não”. A realidade, no entanto, é que hoje você não governa sem o capital chinês.

P. Bolsonaro tem tentando seguir os passos de Donald Trump em alguns temas. Um modelo “trumpista” de Governo tem alguma chance de funcionar no Brasil atual?

R. Não cabe, esse é um contrabando acrítico e fadado a dar errado. Essa aproximação de Israel, que pode ser vista como um alinhamento aos EUA, pode ser um erro… As relações de Brasil com Israel são boas historicamente, mas na tensão que se estabelece entre israelenses e a comunidade árabe, o Brasil esteve sempre mais próximo do mundo árabe, da comunidade islamizada. Agora vemos outra mudança radical de discurso: de distanciamento dos árabes e uma aproximação meio sem precedente e sem ter porquê de Israel. Se apoiam em argumentos do modelo de dessalinização, da tecnologia militar de Israel como argumento. O Mourão deixa muito claro, em entrevista à revista Época [ em janeiro], que está contrário a esta aproximação. Ele até brinca: “Agora todos vamos ter que bater palma pra Israel? Todo mundo vai ter que gostar de Israel e dos EUA?”. Essa fala aponta para um questionamento importante de por que objetivamente e estrategicamente o Brasil está fazendo isso. Acho que essa interpelação os militares vão fazer.

P. O que está em jogo nessa aproximação proposta por Bolsonaro?

R. A estimativa conservadora que é feita é de que, se o Brasil de fato mudar sua embaixada para Jerusalém, poderemos ter perdas por força de algum tipo de boicote da Liga Árabe de cerca de 15 bilhões de dólares por ano. E o Brasil não está em condições de perder essa quantia.

P. Quais as chances dessa transferência da embaixada não acontecer de fato?

R. Já não está acontecendo tão rapidamente. O general Santos Cruz [Carlos Alberto], mesmo fez uma ressalva que é necessário esperar com calma. Eu não tenho essa convicção toda que isso sairá. Se o vice-presidente se opõe publicamente para a grande imprensa é difícil acreditar que o general será atropelado nessa questão, eu não apostaria nisso não. É preciso enfatizar que essa escolha por Israel também prejudica os foros internacionais. Para essa nova política antiglobalista isso pode não significar muita coisa. Note, entretanto, que isso gera um isolamento do Brasil que já se traduziu, por exemplo, na baixa presença de chefe de Estados na posse de Bolsonaro. Quando você provoca os árabes, você está provocando um bloco de 60 países, multilateralmente isso já é muito ruim. O Brasil já sai perdendo pois ganha antipatia de 60 países num mundo de 200. São muitas coisas envolvidas, perdas econômicas, perdas do ponto de vista político-diplomático. Isso ainda não está muito dimensionado pela equipe, digamos, religiosa nacionalista de Ernesto Araújo.

P. A recusa do Brasil em sediar a Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU), a COP25, e a retirada do país do Pacto Global para Migração também impactam na imagem do Brasil internacionalmente?

R. É inevitável que o Brasil seja, no discurso internacional, associado a outros governos e regimes não liberais e isso já está acontecendo. Na mídia internacional, o país vem sendo associado a Viktor Orbán, na Hungria, a Rodrigo Duterte, nas Filipinas, ao atual presidente da Polônia… Isso não é bom, significa danos à reputação brasileira. São referências de um conjunto de líderes que são ostensivamente contrários a essa fórmula liberal, em certo sentido, de lidar com as relações internacionais. E essa é a fórmula vencedora da segunda guerra mundial. Quando os aliados venceram, EUA, Reino Unido, França, União Soviética, isso foi um símbolo, um marco muito forte de certa intolerância ao que chegasse próximo ao fascismo e o nazismo. Foi nesta época que se criou a maioria das instituições globalistas (ONU, FMI, Banco Mundial…) Na medida que Bolsonaro se associa a esse grupo de novos governantes que não têm crenças liberais tão fortes isso traz danos reputacionais para o Brasil, já que eles põe em xeque as instituições criadas no pós-guerra. O país acaba ficando para escanteio. O meio ambiente e as migrações são parte desses temas caros ao consenso liberal, e o Brasil está desafiando com uma atitude que não condiz ao que se espera dele.

P. Quais são as consequências que o senhor vislumbra para a nova postura do Brasil?

R. O Brasil vai perder voz nas instituições internacionais e atualmente ele possui uma presença forte nestes organismos. Hoje o país está entre os dez do mundo em presença nas chefias de organismo internacionais, isso evidentemente gera capacidade de moldar a ordem das relações internacionais, ele vai perder isso. De ser um ator com alguma relevância no cenário global. Isso pode também ser reverter em perdas no comércio e turismo. O Brasil não pode desprezar as dinâmicas da indústria e do mercado externo. Mas estão tratando essa atividade econômica com um certo simplismo. A nova postura do Brasil pode gerar perdas na economia. Ele pode se isolar do mundo.
ElPais

Itamaraty,Ernesto Araújo,Diplomacia,Brasil,Idade Média

Novo Chanceler e a Idade Média

Nomeação de novo chanceler faria sentido se vivêssemos na Idade Média, diz professor da UFABC

Itamaraty,Ernesto Araújo,Diplomacia,Brasil,Idade MédiaErnesto Araújo, o novo ministro das Relações Exteriores, está há 29 anos na carreira diplomática e nunca comandou uma embaixada, apesar de já ter servido em Washington
Foto:Valter Campanato/Ag. Brasil

O presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) anunciou na última quarta-feira (14/11) o diplomata Ernesto Araújo como novo ministro das Relações Exteriores. Para Igor Fuser, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC (UFABC), a nomeação do novo chanceler representa “uma ofensa ao Itamaraty” e só faria sentido se “vivêssemos na Idade Média”.

“Ernesto Araújo faz uma defesa surreal da ‘fé em Cristo‘ como elemento norteador da política, seja lá o que isso signifique na prática. Sua indicação faria sentido se ainda vivêssemos na Idade Média, e não em pleno século 21″, diz Fuser.

Segundo o professor, “asneiras desse teor, misturadas com um antiesquerdismo patológico, no nível dos torquemadas mais delirantes do macartismo, constam publicadas em seu blog” e significam “exatamente o contrário de todo o pensamento de política externa que vem sendo construído pela diplomacia brasileira há mais de um século”.

O novo chanceler

Ernesto Araújo, que está há 29 anos na carreira diplomática, nunca comandou uma embaixada, apesar de já ter servido em Washington. O novo ministro, que fez campanha abertamente a Jair Bolsonaro, ocupa o cargo de diretor do departamento de Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos do Itamaraty e assume a chancelaria no dia 1º de janeiro de 2019.

Segundo o jornal Folha de S. Paulo, o novo chanceler possui um blog onde fez campanha a favor do presidente eleito e chama o Partido dos Trabalhadores (PT) de “Partido Terrorista”.

Na página, o novo ministro afirma que quer “ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista”, a qual ele categoriza como “a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural”.

Em artigo publicado em 2017, Araújo defende “uma visão do Ocidente” proposta por Donald Trump. Segundo ele, o presidente dos EUA “propõe uma visão do Ocidente não baseada no capitalismo e na democracia liberal, mas na recuperação do passado simbólico, da história e da cultura das nações ocidentais. (…) Em seu centro, está não uma doutrina econômica e política, mas o anseio por Deus, o Deus que age na história”.

Para Fuser, “se o novo chanceler quiser tornar realidade apenas 5% das ideias delirantes que defende, ocorrerá tamanha sucessão de catástrofes na diplomacia brasileira que ele não permanecerá no cargo mais do que dois meses”.

O professor ainda questiona a capacidade diplomática de Araújo em relação ao Mercosul e negociações comerciais com a China. “Dá para imaginar um personagem que parece um recém-chegado da Idade Média negociando acordos do Brasil com a União Europeia e com o Mercosul? Dá para imaginar essa criatura sentada à mesa com os diplomatas comunistas da China? Se ele tentar colocar em prática o que tem dentro da cabeça, as elites empresariais brasileiras vão intervir para restabelecer a normalidade no Itamaraty. E Araújo seguirá para alguma embaixada, em algum país católico, com uma linda catedral e um arcebispo de extrema-direita com quem ele possa compartilhar suas ideias e preconceitos, de preferência em latim”, diz Fuser.

Ernesto Araújo, que está há 29 anos na carreira diplomática, nunca comandou uma embaixada
EUA e Venezuela

Para o advogado internacionalista Dorival Guimarães, coordenador do curso de Direito do Ibmec de Minas Gerais, as ideias de Araújo parecem concordar com temas propostos por Bolsonaro durante campanha, como a aproximação com os Estados Unidos, críticas à Venezuela e a mudança da embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém.

Guimarães afirma que “há uma preocupação muito grande com relação à posição ideológica do diplomata indicado por Bolsonaro, justamente porque poderia indicar um alinhamento muito rápido, ou automático, com a política externa norte-americana. Isso porque Ernesto Araújo, que já viveu nos Estados Unidos, já manifestou em diversas vezes um apoio à política do governo Trump”.

“Segundo Araújo, Trump seria um líder de caráter mundial que representaria o ocidente na batalha contra extremismos religiosos, fazendo referencia tanto à questão do islamismo quanto, no âmbito político, no combate às iniciativas de esquerda”, destaca o advogado.

Guimarães também argumenta que uma aproximação contundente com Washington causaria “desconfortos” entre certas nações que possuem relações comerciais importantes com o Brasil, como a China.

“Essa aproximação mais intensa com os EUA pode representar uma mudança de percepção do Brasil por parte de outros países e parceiros econômicos do nosso país podem sinalizar certo desconforto com essa mudança. A China, por exemplo, nosso maior parceiro econômico, vê com certa desconfiança”, diz.

Na América do Sul, o advogado ressalta que os países vizinhos “podem temer que isso gere uma polarização e uma mudança de viés nas relações”, e espera que “o Brasil não perca o foco com seus parceiros do sul, dos BRICs e que possa manter um posicionamento de independência”.

“Se o caminho for esse [aproximação com os EUA], o Brasil intensificará as relações norte-sul, bilaterais, que são, é claro, um excepcional mercado consumidor, mas que, por outro lado, podem fazer com que o Brasil seja alinhado com o governo Trump. Existe sim essa preocupação”, conclui.

Com relação à Venezuela, Bolsonaro e seu chanceler dão indícios de que o Brasil assumirá a posição dos EUA no conflito.

Par o professor Fuser, “com Bolsonaro e seu chanceler americanófilo, com a cumplicidade do governo de extrema-direita da Colômbia e de outros atores internacionais, o Brasil se tornará ainda mais vulnerável às pressões de Washington para derrubar o governo do presidente Nicolás Maduro”.

“Os Estados Unidos estão dispostos a derramar até a última gota de sangue colombiano para pôr fim à Revolução Bolivariana e com o sangue brasileiro sua atitude não será diferente”, afirma o especialista.

Itamaraty

Segundo matéria publicada pela Reuters, a nomeação de Araújo causou uma reação negativa no Itamaraty. Fontes ouvidas pela agência de notícias afirmaram que houve “quebra de hierarquia e desrespeito à instituição”.

“Nunca um chefe de departamento, um cargo de terceiro escalão, foi alçado a chanceler”, avalia uma das fontes destacando que o novo ministro seria um diplomata “júnior” para ocupar o cargo.

A reportagem ainda destaca a preocupação de diplomatas com os posicionamentos muito próximos aos EUA. “Aos olhos do mundo, a política externa brasileira passará a ser comandada por um discípulo do trumpismo”, afirma uma das fontes.

Para Fuser, “Ernesto Araújo é o que em inglês se chama de ‘freak’, ou seja, um sujeito extravagante, adepto de ideias bizarras, aberrantes” e sua nomeação é “uma piada de mau gosto e uma ofensa aos diplomatas do Itamaraty e à sociedade brasileira em geral”.

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Governo Bolsonaro: o que faz do plano de mudar a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém algo tão polêmico

O plano do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém representa uma guinada na política externa brasileira e coloca o Brasil ao lado de somente outros dois países – Estados Unidos e Guatemala – que adotaram medida semelhantePolítica Internacional,Brasil,Diplomacia,Israel,Embaixada,BolsonaroA mudança da embaixada brasileira representaria um reconhecimento da cidade como capital de Israel, o que pode provocar não apenas atritos com palestinos e países árabes, mas também reações da comunidade internacional, cuja posição é de que o status de Jerusalém deve ser decidido em negociações de paz.

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O entendimento é de que o reconhecimento de Jerusalém Ocidental como capital de Israel só deve ocorrer ao mesmo tempo em que Jerusalém Oriental for reconhecida como capital de um futuro Estado palestino. Por isso, os países mantêm suas embaixadas em Tel Aviv, a capital comercial de Israel.

Até agora, nos 70 anos desde a criação de Israel, a postura da diplomacia brasileira sempre foi de equilíbrio entre os dois lados.

Bolsonaro confirmou que pretendia transferir a embaixada no início de novembro. Nesta terça-feira, contudo, ele afirmou que a mudança ainda não estava definida.

“É uma guinada muito grande e mudará a maneira como o Brasil é visto no mundo diplomático como um todo, sobretudo no contexto da ONU”, disse à BBC News Brasil o cientista político Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais na Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Isolamento e exportações
Para Stuenkel, as implicações vão além da questão específica do conflito entre Israel e Palestina e podem resultar no isolamento diplomático do Brasil.

“Limita o papel do Brasil como um ator que defende o multilateralismo, sobretudo no sistema ONU, e pode reduzir sua capacidade de buscar apoio em relação a outras questões, como por exemplo a reforma do Conselho de Segurança, que com essa decisão se torna muito menos provável.”Política Internacional,Brasil,Diplomacia,Israel,Embaixada,Bolsonaro

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Depois que Bolsonaro anunciou a possibilidade de mudar a embaixada, Egito cancelou uma visita do ministro de Relações Exteriores brasileiro ao país.

Há também o temor de que, se levada adiante, a decisão possa afetar as exportações brasileiras para países árabes, que estão entre os principais importadores de carne bovina e de frango do Brasil, especialmente com o selo halal, que atesta técnica de abate conforme preceitos islâmicos.

Esses países apoiam a Palestina no conflito e poderiam reagir ao alinhamento do Brasil com Israel. Stuenkel acredita que o risco não é de boicote, mas sim de medidas que levem a menos acesso do produto brasileiro a esses mercados, como aumento de tarifas.

Poucos dias após o anúncio, o Egito cancelou uma visita do ministro de Relações Exteriores brasileiro, Aloysio Nunes Ferreira, programada para esta semana.

Disputa histórica
O status diplomático de Jerusalém é uma das questões mais polêmicas no conflito entre Israel e palestinos. Enquanto Israel a considera sua “capital eterna e indivisível”, os palestinos reivindicam uma parte da cidade (Jerusalém Oriental) como capital de seu futuro Estado independente.

A disputa pela cidade, que abriga locais sagrados para judeus, cristãos e muçulmanos, vem desde a criação do Estado de Israel. Quando, em 1947, em sessão presidida pelo brasileiro Oswaldo Aranha, a Assembleia Geral da ONU decidiu pelo plano de partilha da Palestina entre um Estado árabe e outro judeu, Jerusalém foi designada como “corpus separatum” (corpo separado), sob controle internacional.

Esse plano, porém, não chegou a ser implementado. Em 1948, foi declarada a Independência do Estado de Israel. Imediatamente após o anúncio, forças do Líbano, Síria, Iraque, Egito, Jordânia e Arábia Saudita atacaram o território, dando início à Guerra Árabe-Israelense. Ao final do conflito, Jerusalém foi dividida, com a parte ocidental sob controle de Israel e a parte oriental controlada pela Jordânia.

A fundação de Israel no que então era o protetorado britânico na Palestina reconheceu o que foi visto como um direito milenar do povo judeu de retornar à terra de onde foi expulso. Os judeus retornaram após a Segunda Guerra, quando cerca de 6 milhões de judeus foram assassinados no Holocausto.

Mas esse movimento levou também à expulsão de milhares palestinos de suas casas, transformando um povo que vivia sob domínio britânico em refugiados sem direito a um país.

Em 1967, Israel capturou a parte oriental de Jerusalém e, desde então, ocupa a cidade inteira e vem construindo assentamentos em Jerusalém Oriental. Esses assentamentos são considerados ilegais pela comunidade internacional, posição que é contestada pelo governo israelense.

No ano passado, quebrando décadas de tradição diplomática e cumprindo uma de suas promessas de campanha, o presidente americano, Donald Trump, anunciou o reconhecimento oficial de Jerusalém como capital de Israel e a transferência da embaixada americana, até então localizada em Tel Aviv, para a cidade.Política Internacional,Brasil,Diplomacia,Israel,Embaixada,Bolsonaro

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Em maio, quando a embaixada americana foi realocada para Jerusalém, protestos na Faixa de Gaza se estenderam por semanas.

Guatemala e Paraguai
Na época, Trump argumentou que a mudança não significava “nada além do reconhecimento da realidade”. Mas a medida foi recebida com críticas pela comunidade internacional pela possibilidade de comprometer a neutralidade dos EUA na mediação do conflito e colocar em risco o já frágil processo de paz entre israelenses e palestinos.

Duas semanas após o anúncio, a Assembleia Geral da ONU adotou uma resolução rejeitando o reconhecimento de Jerusalém por Washington. Ao todo, 128 países, inclusive o Brasil, aprovaram a resolução. Somente oito países apoiaram os EUA: Israel, Guatemala, Honduras, Micronésia, Palau, Nauru, Togo e Ilhas Marshall.

Em maio deste ano, quando a embaixada americana foi finalmente realocada para Jerusalém, protestos na Faixa de Gaza se estenderam por semanas e deixaram dezenas de palestinos mortos.

A decisão dos EUA foi seguida somente pela Guatemala. O Paraguai também chegou a transferir sua embaixada para Jerusalém, mas, poucos meses depois, com um novo presidente no poder, reverteu a medida.

Mas para James Phillips, especialista em Oriente Médio do centro de pesquisas conservador Heritage Foundation, a decisão dos EUA e, caso levada adiante, a do Brasil, representam um gesto simbólico para corrigir o que ele considera uma injustiça: o fato de Israel ser “o único país do mundo que não pode escolher em que cidade abrigar embaixadas”.

“E não há nada que impeça uma embaixada em um Estado palestino no futuro, inclusive em Jerusalém Oriental, se isso for negociado”, disse Phillips à BBC News Brasil. “Os EUA deixaram claro que transferir a embaixada para Jerusalém não impede também reconhecer um futuro Estado palestino, caso ambos os lados possam negociar isso.”

Eleitorado evangélico
Apesar do possível impacto nas relações externas, tanto a posição de Bolsonaro quanto a de Trump são vistas como questão de política doméstica, em um momento em que cresce a força do eleitorado evangélico em ambos os países.

“Os evangélicos, tanto nos EUA quanto no Brasil, tendem a ser muito pró-Israel”, disse à BBC News Brasil o cientista político Harold Trinkunas, da Universidade de Stanford, na Califórnia. “É uma maneira de demonstrar comprometimento com seus interesses.”

A defesa de Israel por parte da comunidade evangélica costuma ser baseada, entre outros fatores, na herança comum entre o Judaísmo e o Cristianismo e na crença de que a criação de Israel foi ordenada por Deus. O argumento é de que a Bíblia estabelece que os judeus são o povo prometido e que Jerusalém é a capital de Israel. Alguns cristãos também citam a profecia bíblica sobre o retorno de Jesus Cristo e o fim dos tempos, na qual é importante que os judeus estejam ali.

Pesquisas de opinião nos EUA indicam que 80% dos evangélicos acreditam que a criação de Israel em 1948 representou o cumprimento da profecia bíblica sobre o retorno de Cristo.Política Internacional,Brasil,Diplomacia,Israel,Embaixada,Bolsonaro

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Aproximação também é vista como aceno a eleitorado evangélico, que é pró-Israel.
O plano de Bolsonaro, confirmado ao jornal israelense Israel Hayom, em sua primeira entrevista exclusiva a um veículo de imprensa estrangeiro após a eleição, foi condenado por líderes palestinos e elogiado pelo premiê israelense, Binyamin Netanyahu, que indicou a intenção de viajar a Brasília para a posse do novo presidente, em 1º de janeiro de 2019.

Bolsonaro disse que pretende aprofundar a relação com Israel e que o país “pode contar” com o voto do Brasil na ONU. Em anos recentes, houve alguns episódios tensos nas relações entre os dois países.

Em 2014, depois de o Brasil ter chamado para consultas seu embaixador em Tel Aviv por conta do que condenou como “uso desproporcional da força por Israel na Faixa de Gaza”, o então porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel disse que o Brasil era um “anão diplomático”. Em 2015, o governo de Dilma Rousseff não aceitou as credenciais do candidato a embaixador de Israel em Brasília, Dani Dayan.

Na entrevista ao jornal israelense, Bolsonaro também cogitou remover a embaixada palestina em Brasília.

O Brasil reconhece o Estado Palestino desde 2010. Mas não há reconhecimento por parte da ONU, o que depende de aprovação do Conselho de Segurança. Desde 2012, a organização reconhece a Palestina apenas como “Estado observador”.

Riscos
Para Trinkunas, a possível transferência da embaixada brasileira é uma sinalização aos EUA de um comprometimento de alinhar a política externa brasileira à do governo Trump. “Também pode impulsionar laços e conexões com outros governos de direita que estamos vendo ao redor do mundo.”

Mas o analista vê riscos. “Pode alienar outros países, na Europa e na Ásia, que apoiam a solução dos dois Estados para Israel e Palestina. Também prejudica a capacidade do Brasil de desempenhar um papel de facilitador diplomático neutro para resolver conflitos.”

Stuenkel alerta para o custo que o país pode pagar ao seguir os passos do governo americano, já que é mais fácil para a maioria dos países se afastar do Brasil do que dos EUA, que são o maior mercado consumidor do mundo e têm alianças de defesa com várias nações do Oriente Médio.

“Acho que precisamos nos preparar, isso afetará a influência diplomática brasileira muito mais do que tem sido o caso com os EUA depois dessa guinada.”

Mas ao comentar a experiência dos EUA, Phillips ressalta que, apesar de ações simbólicas que alguns governos árabes podem tomar, muitos países do Oriente Médio parecem não estar mais tão focados no conflito entre Israel e Palestina.

“Acho que, em geral, esses países tendem a estar mais preocupados com o Irã e as terríveis guerras na Síria e no Iêmen”, afirma Phillips.

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Lider Palestina: transferir embaixada brasileira para Jerusalém seria ‘irresponsável’

Teria ‘sérias consequências’Hanan Ashrawi,Palestina,Israel,Brasil,Diplomacia,Trump,Embaixada,Comércio Internacional,EconomiaUN Photo

‘Se acontecer, haverá sérias consequências; esperamos que seja apenas retórica e que não seja implementada’, disse Hanan Ashrawi

DANIELA KRESCH
 

A integrante do comitê executivo da Organização para Libertação da Palestina (OLP) e do Conselho Legislativo Palestino, Hanan Ashrawi, considera que a decisão de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém é uma decisão “irresponsável” do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL-RJ). 

Líder do departamento de Cultura e Informação da OLP,  a ex-deputada palestina espera que a medida não se transforme em realidade. “Não seria bom testar as consequências”, afirma na entrevista exclusiva à RFI Brasil.

O que a senhora pensa sobre essa decisão do presidente eleito do Brasil de transferir a embaixada brasileira para Jerusalém?

Esperamos que isso seja apenas conversa e não se transforme em ação, porque se trata de uma decisão ilegal e muito irresponsável. Seria um passo provocativo e ilegal.

Haverá consequências no relacionamento entre Brasil e os palestinos?

Se acontecer, haverá sérias consequências. Esperamos que seja apenas retórica e que não seja implementada. Não seria bom para o Brasil.

Como assim?

Não seria bom para as relações comerciais do Brasil com o resto do mundo. Não apenas com o mundo árabe ou o mundo islâmico, mas com todo o mundo. O Brasil seria visto como um país que dá um passo ilegal e contra as exigências da paz.

Mas a transferência foi uma promessa de campanha de Jair Bolsonaro.

As pessoas dizem muitas coisas durante as campanhas. O fato de que ele prometeu não torna a promessa implementável. O [presidente norte-americano Donald] Trump prometeu muitas coisas em sua campanha, mas não implementou todas. Trump é repudiado em todo o mundo. Então, não acho que ele queira estar na companhia de Trump e de [primeiro-ministro de Israel, Benjamin] Netanyahu como violadores da lei.

O Brasil ficará isolado, caso isso aconteça?

Sim, claro. A transferência teria consequências diplomáticas e econômicas, além de outras consequências. Ainda há tempo de voltar atrás. Lembro que o Paraguai chegou a transferir a embaixada para Jerusalém e voltou atrás. Tudo é reversível.

A senhora acredita que seria uma mudança muito profunda na diplomacia brasileira no Oriente Médio?

Parece-me que o Brasil sempre teve uma posição de legalidade e moralidade e boas relações com a Palestina e com o mundo árabe, independentemente de diferenças individuais ou de quem tenha vencido eleições. Achamos que isso deveria ser uma constante e as políticas do presidente deveriam refletir essa tradição.

Há uma tentativa da liderança palestina em tentar mudar a decisão?

Estamos apenas pedindo ao Brasil para usar sabedoria e responsabilidade e não dar esse passo. Para estar do lado da justiça e não da ilegalidade. Não seria bom testar as consequências.

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Por que a primeira viagem de Bolsonaro será ao Chile

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O presidente eleito brasileiro Jair Bolsonaro (PSL) deve romper uma tradição dos últimos governos petistas e, em vez de ter a Argentina como seu primeiro destino internacional após eleito, prometeu visitar o Chile, em data ainda a ser definida.

O país de 17 milhões de habitantes, com acordos de livre comércio com mais de 60 mercados, entre eles Estados Unidos e China, deverá registrar um dos maiores índices de crescimento econômico da América Latina neste ano, atrás apenas de Bolívia, Paraguai e Peru, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Ao mesmo tempo, ainda enfrenta uma dura herança social da ditadura militar (1973-1990).

A informação sobre a primeira viagem de Bolsonaro foi dada no fim de outubro pelo futuro ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni (DEM).

“O Chile é uma grande referência latino-americana. Tem boa educação, gera tecnologia e hoje comercializa com todo mundo. Temos que ter a humildade de olhar esse exemplo com atenção”, disse Lorenzoni, chamando o Chile de “farol da América Latina”.

O presidente chileno Sebastián Piñera, um dos primeiros líderes internacionais a parabenizar Bolsonaro pela vitória no segundo turno, convidou-o via Twitter e por telefone a visitar o Chile. “Conversei longamente com o presidente eleito. O Brasil é um país continental e um sócio importante para o Chile. E entendo que sua primeira viagem internacional será ao nosso país”, afirmou Piñera.

O Mercosul, criticado por Paulo Guedes, ainda é importante para o Brasil?
Como é possível transformar um país em uma marca
Por que o Brasil continuou um só enquanto a América espanhola se dividiu em vários países?
País com população e economia muito menores que as do Brasil, o Chile foi o primeiro da América do Sul a integrar, em 2010, a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), o chamado “clube dos ricos” – e, embora ainda esteja distante social e economicamente de seus pares do grupo, lidera o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) na América Latina e tem a maior expectativa de vida da região.

“Nós (Chile) vamos bem quando nos comparamos em termos econômicos e sociais com outros países da América Latina, como na redução da pobreza, nos índices de qualidade de educação, no IDH e no aumento da renda per capita, que é de cerca de US$ 25 mil (mais que o dobro da brasileira). Mas não tāo bem quando nos comparamos com os países ricos da OCDE”, diz o professor de Ciências Políticas e de Direito da Universidade Autónoma de Chile Ricardo Israel, em entrevista à BBC News Brasil.

O futuro superministro anunciado por Bolsonaro para a Economia, Paulo Guedes, também tem laços com o Chile: morou e foi professor universitário no país nos anos 1980, durante o regime Pinochet, e é conhecido como um “Chicago boy” – estudou na Universidade de Chicago, defensora de teorias econômicas liberais e aplicadas no governo chileno.

Piñera,Negócios.Brasil,Chile,Bolsonaro,Economia,Diplomacia‘Pioneiro do neoliberalismo’

A atual história econômica do Chile começa no início dos anos 1980, quando abraçou o neoliberalismo durante a ditadura do general do Exército Augusto Pinochet (1915-2006)
A atual história econômica do Chile começa no início dos anos 1980, quando abraçou o neoliberalismo durante a ditadura do general Augusto Pinochet (1915-2006). Ele implementou a abertura da economia, o sistema de capitalização da Previdência, o sistema privado de saúde e de educação – mesmo as universidades públicas passaram a ser pagas, e muitas famílias ficaram anos endividadas com bancos para bancar os estudos dos filhos. As mudanças geraram um crescimento consistente da economia.

“O Chile foi pioneiro na adoção do neoliberalismo: os princípios de interesse individual, propriedade privada e supremacia do mercado financeiro foram implementados aqui antes mesmo do Consenso de Washington, de 1989 (quando foi formulado um “receituário” de medidas neoliberais à América Latina, como privatizações, austeridade fiscal e reformas tributárias)”, explica o professor de Ciências Econômicas e Administrativas da Universidade de Valparaíso Guillermo Holzmann.

Ao mesmo tempo, estima-se que o regime Pinochet – que chegou a ser processado internacionalmente e preso por crimes contra a humanidade – tenha deixado ao menos 40 mil vítimas, entre presos políticos, torturados e mortos. Mas o chileno não esteve na mira da Justiça apenas como resultado do regime brutal que comandou.

Após os ataques de 11 de setembro, nos Estados Unidos, uma investigação do Senado americano, que buscava informações sobre financiamento ao terrorismo, acabou se deparando com informações que mancharam a imagem de Pinochet. O relatório do Senado descobriu milhões do ex-ditador escondidos em um banco americano. Posteriormente, outras contas, muitas com pseudônimos, foram encontradas em diferentes instituições. Aos 91 anos, Pinochet morreu sem condenações. Em 2013, um juiz chileno concluiu que não era possível estabelecer a origem de 18 milhões de dólares da fortuna de Pinochet espalhada por centenas de contas no exterior e encerrou o processo.

Elogios no Brasil
O chileno chegou a ser elogiado em discursos e entrevistas por Bolsonaro, que disse que o ditador “fez o que tinha que ser feito para reconquistar o seu país” e matou “baderneiros”.

A despeito da ditadura, esse modelo econômico chileno é mantido em grande parte até hoje, quase 40 anos depois. O país foi governado 20 anos seguidos pela coalizão de centro-esquerda chamada Concertação. Nem ela e nem os governos seguintes – como os dois mandatos da ex-presidente socialista Michelle Bachelet ou os do atual presidente, de direita, Sebastián Piñera – mudaram o sistema econômico.

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O Chile segue sendo uma das economias mais abertas do mundo, não importando a linha ideológica de seu presidente. E encarou durante anos o título de um dos mais desiguais da América Latina. Hoje, com o aumento da escolaridade e a partir de medidas adotadas pelos governos democráticos, a desigualdade diminuiu e principalmente entre os jovens, explica Israel.

Desde o retorno da democracia, o país andino, banhado pelo oceano Pacifico, passou a viver uma espécie de dicotomia – respeitando a espinha dorsal do modelo econômico herdado de Pinochet, como a ampla abertura comercial, mas tentando “aperfeiçoá-lo” na área social e paulatinamente condenando os militares envolvidos em crimes cometidos durante a ditadura.

“O estilo chileno é do passo a passo, tanto nas melhorias que estão sendo feitas na herança social (deixada por Pinochet) como na área de direitos humanos”, diz o professor Ricardo Israel.

Ao mesmo tempo, a abertura econômica provocou, segundo Holzmann, uma desindustrialização do país e uma pressão maior sobre os trabalhadores.

País aberto em termos comerciais, mas fechado para outros setores, como o comportamento, o Chile foi um dos últimos países do mundo a permitir o divórcio, por exemplo. Mantém restrições ao aborto semelhantes às do Brasil e em 2015 passou a permitir a união civil homossexual.

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Sebastián Piñera presidente do Chile, foi um dos primeiros a parabenizar Bolsonaro e convidou-o a visitar seu país.
Quanto à educação, após uma onda de protestos estudantis durante a gestão Bachelet, alunos de famílias com menor renda passaram a ter ajuda do Estado para estudar nas universidades públicas e pagas.

“Mas muitas famílias continuam endividadas com os bancos para pagar o crédito que adquiriram para a educação dos filhos, que foi outra herança de Pinochet”, afirma Holzmann.

Hoje, afirmou, o governo chileno oferece uma série de ajudas sociais aos mais pobres, como crédito com juros baixos para a compra de imóveis. No caso da saúde, contou, o trabalhador chileno pode optar para pagar para ter acesso ao sistema público ou privado. Também neste caso pagando do próprio bolso, como vem dos tempos de Pinochet.

Analistas chilenos ouvidos pela BBC News Brasil mostraram-se divididos diante do fato de a primeira visita internacional de Bolsonaro ser ao Chile.

O professor Israel entende que é “uma boa surpresa”. Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff visitaram a Argentina – principal parceiro comercial do Brasil na região – em suas primeiras viagens após eleitos. Já Fernando Henrique visitou o Chile antes da Argentina, pouco depois de eleito em 1995.

“O Chile e o Brasil têm uma amizade histórica desde o século 19 e quando, também por amizade pessoal, os presidentes eram Fernando Henrique e Ricardo Lagos (anos 1990). Mas não deixa de ser uma surpresa que Bolsonaro tenha escolhido o Chile como primeira viagem”, diz Israel.

Na visão de Holzmann, “faz todo sentido” que a primeira visita internacional de Bolsonaro seja ao Chile, pelo modelo de governo que ele sugere que pretende implementar a partir de 1º de janeiro, quando tomará posse.

“Bolsonaro quer a abertura da economia. Mas um modelo neoliberal como o chileno só pode ser implementado por ditaduras”, opina.

O próprio Sebastián Piñera, opositor do período de Pinochet, tem sido alvo de críticas da esquerda chilena pela aproximação com Bolsonaro. O senador socialista Juan Pablo Letelier, por exemplo, afirmou ser necessário ter “uma visão mais integral do que significa Bolsonaro para o Brasil, a região e o mundo. Não é casual que as manchetes de todos os jornais da Europa o chamem de ultradireitista”.

Previdência Social

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Na opinião da cientista política Maria Rita Loureiro, “vai ser um desastre” e “o pior que pode acontecer” para o trabalhador se o Brasil copiar o modelo chileno de Previdência.
É possível que Bolsonaro estude também o sistema previdenciário chileno, alvo de controversas. Para a socióloga e cientista política Maria Rita Loureiro, professora de Administração Pública e Governo da FGV-SP, “vai ser um desastre” para o trabalhador se o Brasil copiar o modelo chileno de Previdência Social.

Loureiro é autora de uma pesquisa comparando os modelos de Previdência do Brasil, da Argentina e do Chile. Para ela, o sistema, implementado na ditadura de Pinochet, não foi pensado para o trabalhador, mas sim para o mercado de capitais.

“O sistema de Previdência chileno é perverso. Trata-se de uma capitalização compulsória, que deixou somente os militares no sistema estatal, prejudicou principalmente as mulheres (por exemplo, por impedi-las de continuar contribuindo durante a licença-maternidade) e favoreceu o setor privado de aposentadorias (AFPs)”, opina a professora à BBC News Brasil.

“Por ter sido implementada na ditadura, os trabalhadores não tiveram opção. A adesão ao sistema privado foi obrigatória. Se o trabalhador se afastar do mercado de trabalho, ele deixará de contribuir. Ou seja, deverá trabalhar mais para se aposentar. E vi que muitas vezes os benefícios são muito baixos pelo tempo e pelo que ele contribuiu.”

No sistema chileno, explica Israel, o trabalhador contribui à Previdência privada com 10% do seu salário mensal, recolhidos pelo empregador e transmitidos às AFPs. O empregador não contribui para a Previdência do empregado, embora Piñera tenha apresentado um projeto que altere esse mecanismo e amplie o papel do Estado no sistema previdenciário. O texto precisa ser aprovado pelo Congresso.

Segundo Loureiro, atualmente, “além de pagar pela sua Previdência com uma parte do seu salário, o trabalhador chileno ainda paga uma taxa para a administração dos seus recursos pelas AFPs. Seria melhor ele colocar o dinheiro no banco, renderia mais. Mas a ditadura não permitiu essa alternativa”.

Economia

Piñera,Negócios.Brasil,Chile,Bolsonaro,Economia,DiplomaciaDireito de imagemPARLAMENTO DO MERCOSUL

Há décadas, o Mercosul namora uma maior aproximação comercial com o Chile, para através dele chegar, mais rápido, aos mercados asiáticos.
Há décadas, o Mercosul namora esta maior aproximação comercial com o Chile, para, através dele chegar, mais rápido aos mercados asiáticos. O Chile, assim como Peru e Colômbia, são banhados pelo oceano Pacífico e formaram com o México a Aliança do Pacífico, voltada para o comércio.

O Chile também tem atraído algumas empresas do setor de tecnologia, como a Amazon, mas, segundo Holzmann, os investidores internacionais costumam olhar para a região com dois focos: o Brasil e a Argentina, que são as duas maiores economias da América do Sul.

“Quando as duas economias não estão em seus melhores dias, a do Chile também é afetada. Por exemplo, na área de obras públicas”, diz.

O modelo de mercado aberto faz com que os preços dos eletrônicos, por exemplo, costumem ser mais baratos que nos países vizinhos. Até recentemente, os argentinos lotavam aeroportos para fazer compras de eletrônicos, eletrodomésticos e roupas em Santiago.

O Chile exporta principalmente cobre (50%), sendo o maior exportador mundial do produto, e ainda alimentos e serviços, como setores tecnológicos, que ainda são tímidos em termos de volume em comparação com sua tradição de vender alimentos (frutas, peixes e vinhos, por exemplo) ao mundo.

Segundo a assessoria de imprensa da Direção Geral de Relações Econômicas Internacionais (Direcon), o Chile tem acordos de livre comércio com 64 mercados, incluindo países da região da Ásia-Pacífico, da União Europeia e da América Latina. As regiões com as quais o país não tem acordo completo de livre comércio são a África e o Oriente Médio. Ainda em termos de números, o Chile comercializa com 86,3% do PIB (Produto Interno Bruto global) e com 63% da população mundial.

Procurada pela BBC News Brasil, a assessoria de imprensa da Presidência do Chile não respondeu se a visita de Bolsonaro já foi agendada. Procurado, o Itamaraty informou que responderá pela agenda internacional de Bolsonaro depois que ele tomar posse.
Marcia Carmo/BBC

Maduro está podre.Ou enlouqueceu de vez.

Venezuela expulsa diplomata suíço após protesto contra Maduro em Genebra.

Venezuela expulsa diplomata suíço após protesto contra Maduro em Genebra
A ação foi feita de forma discreta pelo governo de Caracas (Foto: Wikipedia)
Caso remete ao protesto contra Nicolás Maduro ocorrido em novembro do ano passado, em Genebra, do lado de fora da sede da ONU.

O chefe da missão diplomática suíça em Caracas, Benedict De Cerjat, foi expulso da Venezuela no início deste mês. O diplomata atuava há cinco meses no país.

A ação, feita de forma discreta, foi revelada nesta sexta-feira, 26, pelo jornal Folha de S. Paulo.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Na época, Maduro solicitou uma visita à ONU para se defender de acusações de violações de direitos humanos cometidas por seu governo.

A visita desagradou alguns diplomatas da ONU, já que a tradição da organização é de não aceitar pedidos de discursos unilaterais feitos por chefes de Estados. O fato de a visita ocorrer três semanas antes das eleições parlamentares venezuelanas também gerou críticas.

Em sua fala, Maduro negou a existência de abusos e falou sobre os avanços sociais obtidos pelo chavismo na Venezuela.

Porém, do lado de fora do prédio, manifestantes venezuelanos protestavam contra Maduro, chamando o presidente de traidor, assassino e ditador.

O constrangimento levou a ministra das Relações Exteriores venezuelana, Delcy Rodríguez a pedir explicações a De Cerjat pelo que considerou um desrespeito a Maduro.

Na conversa, a ministra exigiu que o governo suíço tomasse providências para que o caso jamais se repetisse. Em resposta, De Cerjat afirmou que, como uma democracia plena, a Suíça garante às pessoas a liberdade de expressão.

A resposta irritou a ministra, que relatou o caso a Maduro. O diplomata, então, foi considerado persona non grata na Venezuela, o que impede o exercício de sua função.

De Cerjat passou algumas semanas na Suíça esperando que a situação se acalmasse.

Como isso não ocorreu, ele voltou para Caracas para encerrar sua missão e deixar o país.
Fonte:Opinião&Notícia

Quem diria hein? Obama de amizade com comunistas!

EUA anunciam restabelecimento de balsa entre Flórida e Cuba

Balseros
Durante décadas, cubanos buscaram refúgio nos EUA usando barcos improvisados

O governo americano aprovou o restabelecimento de serviços de transporte naval de cargas e passageiros entre os Estados Unidos e Cuba, interrompidos há mais de 50 anos em função do embargo econômico à ilha caribenha.

A decisão foi anunciada na noite de terça-feira, quatro meses depois de os dois países terem anunciado que reatariam relações diplomáticas. A decisão sobre os serviços marítimos está sendo vista por analistas como mais um passo rumo ao fim da política de isolamento de Cuba.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Diversas companhias de navegação afirmaram já ter recebido licenças para operar rotas entre o estado americano da Flórida e Cuba. A cidade americana de Miami e a capital cubana, Havana, ficam a cerca de 150 km de distância.

Leia mais: Cúpula das Américas começa com cumprimento entre Obama e Castro

Tal proximidade fez com que, durante décadas, milhares de cubanos tenham fugido ou tentado fugir do regime comunista cubano em embarcações improvisadas. Ficaram conhecidos como balseros.

Castro e Obama
Recentemente, os presidentes de Cuba e EUA anunciaram uma reaproximação

A expectativa é de que os serviços marítimos comecem a operar em setembro, embora o cronograma ainda dependa de negociações entre autoridades em Washington e Havana.

“É um grande passo à frente”, afirmou Joseph Hinson, presidente da companhia de navegação United Americas Shipping.

Nas últimas semanas, também foi anunciado um serviço de voo tipo charter entre Nova York e Havana, a ser operado pela companhia aérea JetBlue.

No entanto, a legislação americana ainda proíbe que cidadãos do país viajem para Cuba, salvo em casos excepcionais que dependem de aprovação em 12 diferentes categorias.

Estima-se que mais de 1 milhão de cubanos tenha se refugiado nos EUA desde a revolução de 1959, em que os rebeldes sob comando de Fidel Castro derrubaram o então ditador cubano Fulgêncio Batista.
BBC

Papa Francisco deve visitar Cuba em Setembro

Autoridades do Vaticano informaram na última sexta-feira que o pontífice estuda visitar Cuba no fim de setembro, antes de sua viagem aos Estados Unidos.

O papa Francisco está considerando a possibilidade de visitar Cuba durante sua próxima viagem aos Estados Unidos prevista para o fim de setembro, informou nesta sexta-feira (17) a assessoria de imprensa do Vaticano.

Em nota, o porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi, explicou que os contatos com as autoridades cubanas para a possível visita do pontífice à ilha “ainda estão em um momento muito inicial para se falar de uma decisão já tomada ou de um projeto operacional”.

O Vaticano divulgou a nota depois de o jornal americano “The Wall Street Journal” ter revelado que o Papa Francisco estava avaliando a possibilidade de visitar Cuba.

O trabalho da diplomacia vaticana foi decisivo no histórico processo de reaproximação entre as autoridades de Cuba e dos EUA.

A visita a Cuba poderia ser a primeira etapa do périplo pelos EUA, onde Francisco se tornará o primeiro papa da história a discursar no Congresso americano.

A possível viagem à ilha seria um dos temas abordados no encontro previsto com o presidente americano, Barack Obama, na Casa Branca, no dia 23 de setembro, assim como no discurso que o pontífice fará na Assembleia Geral da ONU, em Nova York.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

A viagem será encerrada na Filadélfia, onde o papa participará do Encontro Mundial das Famílias, organizado pela Igreja Católica.

Apesar de os contatos com as autoridades cubanas estarem na fase inicial, o Vaticano está se movimentando há muito tempo para viabilizar a visita de Francisco à ilha.

O secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, uma espécie de primeiro-ministro do Vaticano, participou da VII Cúpula das Américas, no Panamá, reunião que contou com a presença de Obama e do presidente cubano, Raúl Castro.

Além disso, a imprensa italiana informou que entre 22 e 28 de abril outro colaborador próximo ao papa, o prefeito da Congregação para o Clero, o cardeal Beniamino Stella, viajará a Cuba. Ele foi núncio da ilha entre 1993 e 1999.

Cuba e a Santa Sé também celebram em 2015 os 80 anos do início de suas relações diplomáticas.
O papa Bento VXI viajou a Cuba em março de 2012. Quatorze anos antes, João Paulo II tinha visitado à ilha.
Fonte:MPortal

Petróleo e Cuba ajudam EUA a retomar protagonismo na América Latina

Três meses após assumir a Presidência dos Estados Unidos, Barack Obama afirmou, em sua primeira Cúpula das Américas, em Trinidad e Tobago, que inauguraria um novo capítulo nas relações entre seu país e a América Latina.

Presidentes posam para foto na Cúpula das Américas (EPA)

Seis anos depois e encerrada no sábado a primeira edição da cúpula com a presença de Cuba, no Panamá, ele parece mais próximo de cumprir o objetivo, segundo analistas e diplomatas.

Eles afirmam que a reaproximação entre Washington e Havana, que culminou no sábado na primeira reunião entre os presidentes americano e cubano em mais de meio século, esfriou uma das principais contendas entre os Estados Unidos e nações latino-americanas.

Na mesma semana, a Casa Branca ainda consolidou acordos que fortalecem sua posição na América Central e no Caribe e, ao anunciar a visita de Dilma Rousseff a Washington em 30 de junho, afastou a crise com a segunda maior economia das Américas, o Brasil.

Embora avaliem que Obama mereça créditos pelos feitos, especialistas afirmam que seus gestos foram facilitados por mudanças no cenário econômico das Américas: enquanto o Brasil e a Venezuela enfrentam problemas na economia e reduzem suas operações na vizinhança, os Estados Unidos voltam a crescer e ganham mais tração para atuar na região.

Leia mais: Em reunião histórica, Obama e Raúl Castro trocam afagos

Efeitos em cadeia

Presidente do Inter-American Dialogue, um centro de pesquisas e debates em Washington, Michael Shifter diz que a retomada do diálogo entre Cuba e os Estados Unidos ajudará a melhorar as relações do governo americano com a maior parte da América Latina.

“Por décadas, a questão cubana foi bastante problemática, causando muito desgaste nos assuntos interamericanos”, diz Shifter, que acompanhou o evento no Panamá.

Especulava-se que Obama pudesse anunciar na cúpula a retirada de Cuba da lista americana de Estados patrocinadores do terrorismo, o que não ocorreu. Mesmo assim, os afagos trocados entre o americano e o líder cubano, Raúl Castro, ao longo do encontro sinalizam que os dois estão empenhados em aproximar seus países.

Shifter afirma, porém, que a mudança na política americana para Cuba “não significa que a relação de Washington com a região será livre de tensões e desconfiança”. “Suspeitas e ressentimentos antigos não desaparecem da noite para o dia”.

Leia mais: O que Che Guevara diria sobre a reaproximação EUA-Cuba

Na cúpula, muitos líderes esquerdistas – entre os quais Nicolás Maduro (Venezuela), Rafael Correa (Equador) e Daniel Ortega (Nicarágua) – celebraram a presença de Cuba no evento, mas fizeram duros discursos contra os Estados Unidos, destacando seu histórico de intervenções na região.

O maior alvo das críticas – endossadas inclusive por líderes mais moderados, como Dilma e Juan Manuel Santos (Colômbia) – foram as sanções que Washington aplicou no mês passado a sete autoridades venezuelanas. Segundo o governo americano, os funcionários sancionados violaram direitos humanos.

Shifter diz que criticar os Estados Unidos em eventos como esse ainda rende dividendos políticos a líderes latino-americanos, e que o tema venezuelano mostra que ainda há muitas diferenças entre Washington e a América Latina. Ele diz acreditar, no entanto, que o acerto com Cuba deve ajudar a diminuir essas diferenças.

Queda no petróleo

Analistas avaliam que os ganhos americanos na vizinhança também refletem a queda nos preços do petróleo e seus impactos na Venezuela, um dos seus maiores desafetos na região.

Dona das maiores reservas petrolíferas do mundo e valendo-se dos altos preços da matéria-prima na última década, Caracas forjou uma aliança com vizinhos caribenhos, entre os quais Cuba, baseada na venda subsidiada do bem.

Em 2013, essa aliança – batizada de Petrocaribe – se associou à Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América), bloco fundado uma década antes pelo então presidente venezuelano Hugo Chávez e que se tornara o principal bastião antiamericano da região.

A drástica queda no preço do petróleo nos últimos dez meses, porém, afetou a assistência venezuelana aos vizinhos e fragilizou a lealdade deles ao projeto político de Caracas, diz Ted Piccone, analista da Brookings Institution, em Washington.

Em artigo publicado em fevereiro, ele diz que a crise na Venezuela facilitou a reaproximação entre Cuba e Estados Unidos ao forçar Havana a buscar alternativas à sua aliança econômica com Caracas. A Venezuela vende a Cuba cerca de 100 mil barris de petróleo ao dia por preços preferenciais.

Segundo um relatório do Banco Barclays, o colapso econômico na Venezuela também tem afetado o envio de petróleo subsidiado a outras nações caribenhas.

Atentos ao cenário, os Estados Unidos mexem suas peças. Em janeiro, o vice-presidente americano recebeu líderes caribenhos em Washington para discutir segurança energética. E na véspera da cúpula no Panamá, Obama anunciou na Jamaica programas para financiar e transferir tecnologias em energia limpa e reduzir a dependência por combustíveis fósseis entre países da região.

Além de minar a “diplomacia petroleira” de Caracas, a iniciativa se alinha com uma das principais bandeiras do presidente americano: a necessidade de combater as mudanças climáticas e privilegiar fontes de energia limpa.

Leia mais: Favorita entre democratas, Hillary anuncia pré-candidatura à Presidência dos EUA

Acredita-se ainda que o fraco desempenho da economia brasileira nos últimos anos e a desaceleração na China tenha facilitado a superação das diferenças entre Brasília e Washington, causadas pelas denúncias de que Dilma fora espionada pela agência de segurança americana.

O episódio fez com que ela cancelasse uma visita que faria aos Estados Unidos em 2013, agora reagendada para o fim de junho. Entre empresários brasileiros, vinham crescendo as cobranças para que o país se voltasse aos Estados Unidos para voltar a crescer.

O governo brasileiro chegou a condicionar a remarcação da visita a um pedido de desculpas da Casa Branca, mas acabou cedendo na posição.

Mudanças demográficas

Segundo um diplomata brasileiro nos Estados Unidos, a mudança da política americana para a região reflete ainda mudanças demográficas no país.

Há 50 anos, havia poucos milhões de hispânicos ou latinos nos Estados Unidos. Por causa da imigração e de taxas de natalidade acima da média, o grupo hoje soma 57 milhões, ou 17% da população total. E o número deve continuar a crescer.

Esse movimento interno, diz o diplomata, força os Estados Unidos a olhar mais para a América Latina, apesar de preocupações mais urgentes no Oriente Médio, na China e no Chifre da África.

Outra transformação demográfica que favorece a nova postura da Casa Branca, diz ele, é o envelhecimento da geração de cubanos que migraram para os Estados Unidos e tradicionalmente defende uma linha dura contra Havana para forçar uma mudança de governo.

Essa visão, que influenciou gerações de políticos americanos, tem dado lugar às posições mais conciliatórias adotadas por cubano-americanos mais jovens e imigrantes latinos em geral.
João Fellet/BBC

Brasil não vai conceder asilo a Snowden em troca de informações

O governo brasileiro não tem interesse em investigar a NSA (Agência de Segurança Nacional) e, por isso, não pretende conceder asilo ao delator do esquema de espionagem do governo dos Estados Unidos Edward Snowden, em troca de informações para atingir este objetivo.

Folha revelou nesta terça a intenção de Snowden de colaborar com investigações sobre a NSA e, em troca, receber asilo do Brasil.

Como parte da estratégia, Snowden escreveu uma “carta aberta ao povo do Brasil”, que enviará às autoridades brasileiras.

Nela, Snowden afirma que não é possível colaborar com as investigações diante da precária situação jurídica em que se encontra, com apenas asilo temporário, concedido pela Rússia até o meio de 2014.

No Brasil, com status de asilado permanente, teria mais liberdade para isso.

Snowden toma cuidado, na carta, de não se dirigir diretamente a Dilma.

A razão é não melindrar o governo russo. Mas, de acordo com o jornalista Glenn Greenwald, para quem ele vazou os dados, Snowden quer vir para o Brasil.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Leia íntegra da carta escrita por delator ‘ao povo brasileiro’
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Lea la carta completa en español

Segundo a Folha apurou, o Ministério das Relações Exteriores destaca como “positivo” trecho da carta em que Snowden pede uma mobilização em defesa da privacidade e dos direitos humanos básicos, que estariam em risco por causa de ações como as da NSA.

Por outro lado, o Itamaraty destaca que o Brasil respeita a soberania de outros países e não pretende “dar o troco” nos Estados Unidos. Um assessor presidencial frisou que o governo brasileiro não pode entrar num jogo de troca, conceder o asilo para receber informações para investigar as ações da agência de espionagem americana.

Além disso, destacou o assessor, o Brasil não tem interesse em fazer esse tipo de ingerência na soberania de outros países. O caminho brasileiro, segundo ele, sempre foi expressado publicamente.

Oficialmente, o Palácio do Planalto ainda não se pronunciou e pode inclusive não fazê-lo porque não existe um pedido formal de asilo da parte de Snowden. A presidente Dilma Rousseff ficou surpresa com a informação e acionou o Itamaraty para definir qual posição deverá ser tomada.

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Crimes pelos quais Snowden é acusado -- O ex-técnico da NSA pode ser processado e preso se voltar aos Estados Unidos
Crimes pelos quais Snowden é acusado — O ex-técnico da NSA pode ser processado e preso se voltar aos Estados Unidos

MOBILIZAÇÃO

Quanto à mobilização defendida por Snowden, assessores do Itamaraty reforçam que o governo brasileiro já vem atuando neste sentido e conta com a ajuda dele, que sempre será bem-vinda.

O Ministério das Relações Exteriores ressalta que o Brasil, desde o início, fez questão de condenar as ações da NSA e de considerá-las “inaceitáveis”. A presidente Dilma chegou a desmarcar uma visita de Estado aos EUA em reação ao episódio.

O Itamaraty lembra ainda a iniciativa da presidente, que negociou com a Alemanha uma resolução formalizada na ONU (Organização das Nações Unidas) contra a espionagem americana. A resolução será votada nesta semana pelo plenário da assembleia geral da entidade.

O governo brasileiro informa que a carta aberta de Snowden, solicitando abrigo ao Brasil, não configura formalmente um pedido de asilo político.

Para o governo, nem mesmo o pedido feito pelo norte-americano em julho configura uma solicitação de asilo. Na ocasião, um pedido foi enviado por fax a diversas embaixadas estrangeiras na Rússia, quando Snowden estava temporariamente no aeroporto de Sheremetyevo, em Moscou.

OPOSIÇÃO

Para o líder do DEM na Câmara dos Deputados, Ronaldo Caiado (GO), não faz sentido conceder asilo político para Snowden.

“Acho que não existe nada que dignifique esse homem para o Brasil se envolver nesse momento com essa questão. Isso vai trazer muito mais desgastes ao Brasil no cenário internacional do que qualquer benefício para combater essas ações de espionagem”, disse.

“O Brasil tem que se preocupar em desenvolver um sistema próprio de tecnologia que seja capaz de se posicionar contra essas ações de espionagem que não ocorrem apenas pelos Estados Unidos”, completou Caiado.

A Polícia Federal, que investiga as denúncias de que a presidente Dilma e a Petrobras foram investigadas, já solicitou formalmente o depoimento de Snowden. O pedido foi feito via Itamaraty, responsável pelo contato com as autoridades russas. Mas os policiais nunca tiveram resposta.
Fonte: Folha de São Paulo