De desastres naturais a terrorismo: os 5 grandes riscos globais em 2017, segundo Fórum Econômico Mundial

Imagem da Terra vista do espaçoDireito de imagemESA/NASA

O documento, intitulado Global Risks Report (Relatório de Riscos Globais, em tradução livre), avalia tendências e serve de bússola para a formulação de políticas e estratégias de governos e empresas.

Ele foi divulgado uma semana antes do início da reunião anual do Fórum em Davos, na Suíça, que conta sempre com a presença de acadêmicos e líderes empresariais e políticos do mundo inteiro.

Confira quais são as cinco maiores ameaças para o mundo em 2017, segundo a “bola de cristal” do WEF:

1) Eventos climáticos extremos

O relatório lembra que 2016 foi o ano mais quente da história, com temperatura global 1,14ºC acima da observada antes da Revolução Industrial.

Sugere que as mudanças climáticas trazem consequências sociais graves, como imigração – segundo o estudo, 21,5 milhões de pessoas tiveram que emigrar desde 2008 por eventos relacionados ao clima.

A entidade defende o cumprimento do Acordo de Paris, fechado em 2015 e que pressupõe a participação de todas as nações – não apenas países ricos – no combate ao aquecimento global.

Urso polar
Geleiras do Ártico tiveram derretimento recorde em 2016; mudanças climáticas devem causar mais consequências neste ano – Direito de imagemAP

“Muitos riscos causados por não se fazer nada a respeito do clima irão transbordar para ameaças sociais e geopolíticas. Veremos crescente imigração por riscos ambientais”, afirmou Margareta Drzeniek-Hanouz, chefe do setor de Competitividade Global e Riscos do WEF.

2) Imigração em larga escala

Motivadas por catástrofes naturais e também por conflitos violentos, as ondas migratórias deverão se exacerbar em 2017, aponta o Fórum de Davos.

O relatório identifica ainda o risco de essa tendência ser explorada por políticos populistas, em busca de votos e aprovação popular.

“A imigração se mostrou ser um assunto político extremamente bem-sucedido entre os populistas anti-establishment, gerando uma ameaça eleitoral em vários países”, afirma o texto, que enumera desafios decorrentes do avanço de “tensões culturais”.

“A imigração cria tensões culturais: há necessidade de dar espaço para a tolerância religiosa sem abrir a porta para o extremismo. Há a necessidade de encorajar a diversidade que traz inovação sem alimentar ressentimento”, aponta.

Imigrantes em campo de refugiados na Europa
Ondas migratórias devem aumentar neste ano por conta de mudanças climáticas e conflitos – Direito de imagemREUTERS

A organização reconhece que, assim como ocorre com a globalização, há setores da sociedade que não experimentam os benefícios gerais à economia proporcionados pela imigração.

“Os desafios humanitários continuarão a criar ondas de pessoas – e nos países onde há baixos índices de fertilidade e número de aposentados crescendo a imigração será necessária para trazer novos trabalhadores.”

3) Grandes desastres naturais

Desastres naturais de grande escala são uma ameaça real à infraestrutura produtiva global, aponta o Fórum de Davos.

O relatório cita um estudo da Universidade de Oxford (Inglaterra) que simulou o impacto destrutivo de uma enchente na região costeira da China, que concentra produção para exportação.

Mais de 130 milhões de pessoas seriam afetadas em um eventual desastre, comprometendo a cadeia internacional de comércio.

Escombros deixados pelo tufão Haiyan, nas Filipinas, em 2013
Escombros deixados pelo tufão Haiyan, nas Filipinas, em 2013; desastres naturais de grande escala ameaçam infraestrutura produtiva global, aponta texto.
Direito de imagemAP

“Interdependência entre diferentes redes de infraestrutura está aumentando o escopo de falhas sistêmicas (…) que podem se acumular e afetar a sociedade de formas imprevisíveis”, prevê o relatório.

4) Terrorismo e vigilância

Ataques terroristas têm motivado um reforço na vigilância estatal sobre cidadãos, mas tais ferramentas muitas vezes são usadas com fins políticos, alerta o relatório, que diz ver a tendência com “preocupação”.

“Em alguns casos, problemas de segurança e protecionismo (…) têm sido usados como razão para reduzir dissidências. Em outros casos, restrições às liberdades são efeitos colaterais de um pacote de segurança bem intencionado, (mas) essas tendências preocupantes estão aparecendo até mesmo em democracias.”

O Fórum de Davos projeta uma “situação potencialmente explosiva” em países que coíbem a liberdade de expressão em nome do combate ao terrorismo.

“Ferramentas tecnológicas estão sendo utilizadas para aumentar a vigilância e o controle sobre cidadãos e erradicar críticas (aos governos). Restringir novas oportunidade a formas democráticas de expressão e mobilização e, por consequência, toda uma gama de direitos, gera uma situação potencialmente explosiva.”

Homenagem a vítimas de atentado terrorista em mercado de Natal de Berlim
Homenagem a vítimas de atentado em mercado de Berlim; ações terroristas no Ocidente não devem diminuir neste ano, prevê relatório
Direito de imagemEPA

5) Fraudes eletrônicas e roubo de dados

Outra ameaça citada pelo Fórum de Davos são as fraudes cibernéticas, que podem avançar diante de legislações frágeis e falta de ações conjuntas entre governos e setor privado.

Em entrevista à BBC Brasil, o presidente da empresa de análise de risco Marsh, John Drzik, que atuou na elaboração do relatório, diz que criminosos estão cada vez mais próximos das vítimas, pois aparelhos eletroeletrônicos domésticos estão sendo conectados à internet.

“A introdução de novas tecnologias deixará isso potencialmente ainda mais perigoso. Será possível invadir aparelhos domésticos como termômetros eletrônicos” exemplificou.

Drzik citou ainda a ameaça de ataques patrocinados por governos e orientados por interesses comerciais.

“Precisaremos de coordenação entre países na esfera internacional e entre governo e iniciativa privada para desenvolver respostas de governança”, afirmou.

Cartões de crédito
Golpes com cartão de crédito são recorrentes no Brasil; fraudes e invasão de dados serão problemas em 2017 – Direito de imagemMARTIN KEENE/PA WIRE

Propostas de ação

O relatório também sugere ações para enfrentar as ameaças à economia global, concentradas em quatro frentes:

Reformas econômicas

Entre 1900 e 1980, a desigualdade social recuou nos países ricos, mas entre 2009 e 2012 a renda dos 1% mais ricos nos Estados Unidos, por exemplo, cresceu mais de 31%, lembra o relatório.

O documento defende a adoção de mecanismos de distribuição de benefícios econômicos, e cita o Bolsa Família, iniciativa federal de transferência de renda no Brasil, como medida eficiente na mitigação da desigualdade social.

Pontes culturais

Décadas de mudanças econômicas e sociais rápidas aumentaram o fosso entre as gerações e amplificaram conflitos de identidade pelo mundo, aponta o WEF.

O desafio diante de um cenário muitas vezes agravado pelo debate desinformado e pautado por emoções, aponta a entidade, é construir pontes que conectem diferenças culturais e preservem direitos individuais.

Gestão de mudanças tecnológicas

A automação da mão de obra respondeu por cerca de 86% dos empregos perdidos na indústria nos EUA entre 1997 e 2007, aponta o documento, que procura isentar a integração dos mercados globais pelo problema.

“Movimentos populistas tendem a focar a culpa pela perda de empregos na globalização (…) embora a evidência aponte a tecnologia como principal fator. As manufaturas nos Estados Unidos não regrediram. O país está produzindo mais do que nunca, apenas emprega menos trabalhadores”, afirma o relatório.

Diante de transformações na natureza do trabalho, conclui o documento, novos empregos colaborativos precisam ser criados para minimizar a desocupação humana.

Cooperação global

O Fórum defende a importância de se resgatar a relevância de organismos de governança global, como as Nações Unidas e entidades de promoção do comércio internacional.

A tendência de valorização nacional e desvalorização internacional enfraquece os laços de confiança entre povos e nações, aponta o órgão.

A cooperação internacional também é fundamental, diz o WEF, para manter o aquecimento global dentro do limite de dois graus centígrados, cortando as emissões de carbono em 40-70% até 2050 e eliminando-as completamente em 2100.
Marina Wentzel/BBC

Twitter é o primeiro a medir os estragos das grandes catástrofes

O Twitter serve para importunar e assediar, mostrando a cara ou escondido atrás do avatar. Pode ser a mais banal das distrações, mas também ajuda a saber, em meio ao caos posterior a uma catástrofe natural, quais áreas afetadas foram mais danificadas e medir os estragos com precisão. Além disso, consegue detectá-los antes da chegada das equipes de reconhecimento.

Destruição após o furacão Sandy nos EUA, em 2012. REUTERS LIVE

Atrás do barulho das conversas na rede social se esconde um termômetro preciso e prático. Quanto maior a gravidade de um desastre em uma região concreta (um bairro de uma cidade, por exemplo) cada tuiteiro que vive nela publica mais mensagens na rede. A relação direta, confirmada por um estudo publicado na sexta-feira na revista Science Advances, também pode ser vista do outro lado: se o Twitter mostra certos sinais de agitação entre os afetados por um desastre logo após este ocorrer, é possível saber quais lugares foram mais atingidos e, desta forma, permite realizar estimativas do custo econômico dos estragos em pouco tempo.

O Twitter emite um alerta sobre as regiões mais afetadas pelo furacão, mas é preciso saber visualizá-lo.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

“A rede social é um dos primeiros veículos de comunicação utilizado pelos afetados nos países mais desenvolvidos para comunicar que algo mais grave está acontecendo”, diz Esteban Moro, matemático especializado em sistemas complexos da Universidade Carlos III de Madri, que participou da pesquisa.

“O bom das redes sociais é que nós [os cientistas] contamos com sensores do lado de fora [seus usuários] que dão informação a todo momento: mensagens, fotos, vídeos. Saber como utilizar esses sensores para extrair informação em tempo real é valioso, mas podemos até mesmo nos antecipar a alguns problemas prevendo o que vai acontecer graças a essa informação”. Os pesquisadores, entretanto, se mostram cautelosos e afirmam que seu método é somente “uma ajuda a mais” a quem também avalia catástrofes.

O fenômeno pesquisado pelo estudo é o furacão Sandy, que devastou a Costa Leste dos Estados Unidos e o Canadá em 2012, ceifou a vida de 219 pessoas e causou 50 bilhões de dólares (180 bilhões de reais) em perdas. “Vimos que, depois da chegada do Sandy em Nova York, foram publicados mais tuítes por pessoa nas áreas que, mais tarde, foram comprovadamente as mais afetadas”, diz Manuel Cebrián, outro autor do estudo, de seu laboratório de Dinâmicas Humanas em Melbourne (Austrália).

Ele ressalta que essa correlação não aparece dois ou três dias depois, “quando outras fontes já tiveram tempo de realizar o cálculo dos estragos”, e sim com um intervalo de “três ou quatro horas”.

O Twitter emite um alerta sobre as áreas que mais precisam de ajuda, mas é preciso saber visualizá-lo. Os pesquisadores analisaram centenas de milhões de tuítes em 50 áreas metropolitanas dos Estados Unidos. Sabiam que existia uma relação entre a rota do furacão e o aumento da atividade da rede social dos habitantes da região.

Mas ficaram surpresos com a força da relação com seu impacto de uma variável “pouco convencional” como o tipo de sentimentos (de muito negativos a muito positivos) e outras mais quantitativas (o número de tuítes por pessoa e os tuítes totais). Os pesquisadores confrontaram esses dados com os das seguradoras que mais tarde visitaram as áreas e fixaram em dólar o impacto dos estragos.

“A novidade do estudo é que, a partir da opinião subjetiva das pessoas, é possível antecipar o estrago objetivo causado”

Usar os dados não foi tarefa fácil: “Se naturalmente já existe ruído e confusão no Twitter, imagine os criados em uma situação como a que nós estudamos, com pessoas atingidas por uma catástrofe e que tuítam em meio a ela”, comenta Manuel Cebrián. Por isso, primeiro precisaram identificar no caudal do Twitter as mensagens que se referiam a essa circunstância e delas, as que vinham dos afetados.

Depois, resgataram as que se dirigiam à Administração para pedir ajuda. Por último, homogeneizaram os dados de milhares de relatórios de peritos, que fixavam as indenizações. “São três realidades que agora sabemos que estão diretamente relacionadas: o que as pessoas acreditam que está acontecendo, o que realmente está acontecendo, e o que o Twitter captura”, frisa o pesquisador, que trabalha para o principal órgão de pesquisa da Austrália, o CSIRO. “A novidade do estudo é que, a partir da opinião subjetiva das pessoas, podemos antecipar o estrago objetivo causado”, afirma com convicção.

Estragos (em dólares per capita) em cada distrito.
Estragos (em dólares per capita) em cada distrito. Y. Kryvasheyeu / E. Moro / M. Cebrián
Número de tuitadas enviadas por cada 100.000 habitantes em cada distrito.
Número de tuitadas enviadas por cada 100.000 habitantes em cada distrito. Y. Kryvasheyeu / E. Moro / M. Cebrián

Distrito a distrito

O estudo, além disso, permite o desenho de mapas muito detalhados, chegando até mesmo ao nível dos códigos postais. Acertar a resolução desse mapa foi uma das tarefas mais difíceis enfrentadas pela equipe de pesquisadores. Reconhecem que não inventaram nenhum método estatístico novo (os cálculos necessários já existiam muito antes do Twitter), mas precisaram aperfeiçoá-los. “Tentamos extrair dados e relações na escala de códigos postais, mas é preciso tomar cuidado, por verificar tão detalhadamente cada pequena área, podemos não obter dela dados suficientes para tirarmos conclusões sólidas”, diz Manuel Cebrián. Para a sorte do estudo, o Twitter lança “um volume enorme” de dados de regiões como as atingidas pelo Sandy, onde a rede social está tão implantada.

Mesmo assim, a equipe levou “meses” para comprovar qual era o nível máximo de detalhes que poderiam se permitir: a região, a cidade e o bairro. E não em uma só cidade, mas nas 50 dos Estados Unidos analisadas pelo estudo e comparadas entre si pelos pesquisadores para demonstrar que o termômetro é eficaz em qualquer lugar em que for aplicado. Também estenderam a análise do furacão a outros fenômenos (inundações, tornados, terremotos e até mesmo um movimento de terra), mas sempre em território norte-americano. “A geografia dos EUA é muito variada, mas podemos inferir que nossa medição funcionar em diversos lugares e para diferentes desastres”, confirma Cebrián.

Uma vez criado o método, o passo seguinte é aplicá-lo em outros pacientes. Os pesquisadores se atrevem a generalizar seu uso para qualquer região com uma geografia, demografia e nível econômico semelhantes aos Estados Unidos; “como a Europa e talvez a Austrália”, diz Manuel Cebrián. Para outras regiões do planeta, o pesquisador se mostra cauteloso porque, em sua opinião, não basta saber que o nível de penetração do Twitter é alto em uma área para se ter a certeza de que é possível aplicar o termômetro quando ela sofrer um desastre.

A REDE SOCIAL QUE ANTECIPA O DESEMPREGO

Manuel Cebrián e Esteban Moro já utilizaram o Twitter para antecipar a evolução do emprego em cada província espanhola e agora colaboram com a UNICEF para modificar o modelo e aplicá-lo no sudeste asiático.

Pode causar surpresa o fato de que em lugares tão castigados pela pobreza e com pouca penetração social das redes é possível utilizar um método baseado no Twitter, mas Manuel Cebrián pede para que seja visto de outra forma: “Justamente porque existem menos medidores padrão nesses países, como as estatísticas e as pesquisas de desemprego da Espanha, os dados não convencionais como os das redes podem ocupar seu espaço e suprir em parte essa carência”
El País

Dilma comparece ao local da tragédia no Rio de Janeiro

A par da tragédia e da presença solidária e obrigatória de governantes aos locais de tragédias como essa acontecida na região serrana do Rio de Janeiro, fica claro que sem a responsabilização civil, administrativa e penal dos Prefeitos, Governadores e Presidente da República, pela não implementação de políticas definitivas para planos diretores, nada ira mudar.

Por outro lado, ano após ano a mídia credita somente ao governo federal a culpa de todas essas tragédias. É preciso esclarecer ao povo que por trás das críticas feitas a Dilma, Cabral, Alckmin, etc., existem estados e municípios, com burocracias mastodônticas.

Dona Dilma fez o que se espera de um governante nessas horas difíceis: a manifestação “in locum” de solidariedade às vítimas. Ao contrário de Lula, que evitava ter a imagem associada a qualquer ocorrência trágica, a presidente Dilma em 15 dias já deu mostra de que não é um poste lulista.

Lamentavelmente, no texto abaixo, o articulista vê na presença da Presidente nos locais da tragédia, somente um motivo para desfiar picuinhas críticas. No geral, a mídia brasileira, conservadora e comprometida, politiza qualquer tragédia, exercitando um tipo de jornalismo que nada acrescenta, e que passa ao largo da solidariedade. Assim, a chuva em São Paulo é obra de Deus, no Rio é culpa do Lula!

Entre outras inúmeras demandas, um pacto ético é urgente para colocar o Brasil no rumo da civilização.

O Editor


A reação dos governantes às tragédias pode arruinar uma biografia. Assediada por um flagelo no alvorecer de sua gestão, Dilma Rousseff não deu chance ao azar.

Menos de 24 horas depois do início da contagem dos corpos da região serrana do Rio, Dilma sobrevoou a área. Sujou os sapatos na lama de uma das cidades castigadas pelas águas.

Depois, deu uma entrevista improvisada. Soou inespecífica quanto às providências práticas. Enfiou na tragédia elogios inadequados a Lula. Porém…

Porém, teve a delicadeza de encerrar a conversa com uma manifestação de solidariedade às famílias dos mortos.

Ao levar o rosto ao cenário do drama, Dilma diferenciou-se de Lula, que não teve a mesma agilidade em crises análogas.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Portou-se, de resto, como uma espécie de anti-Bush. No dia 29 de agosto de 2005, uma segunda-feira útil, o furacão Katrina devastou a cidade de Nova Orleans.

No instante em que feneciam dezenas de vítimas, George Bush, então presidente dos EUA, encontrava-se no Arizona, num compromisso inútil.

Posava para fotógrafos segurando um bolo de aniversário. Os mortos avolumavam-se nas manchetes.

E Bush festejava os 69 anos de vida de um senador republicano.

Nas semanas seguintes, Bush lidou com a tragédia com a agilidade de uma tartaruga manca. Com isso, plantou em sua biogragia uma nódoa definitiva.

Um pedaço da opinião pública americana atribuiu a lerdeza de Bush a um não-declarado preconceito racial.

Líderes religiosos, políticos e artistas levaram ao noticiário a tese de que Bush demorou a prover socorro aos desabrigados porque a maioria era negra.

No mês passado, em entrevista à apresentadora Oprah Winfrey, Bush foi instado revolver o passado omisso.

Refutou a acusação de racismo.

Mais de cinco anos depois do ocorrido, Bush revelou-se refém de sua própria omissão.

Ao voar de Brasília para o Rio, Dilma fugiu desse figurino.

Sua visita não devolveu as vidas ceifadas. Tampouco atenuou a aflição dos desabrigados. Mas salvou a biografia da presidente da pecha da omissão.

Pouco? Talvez. Mas já é alguma coisa. Uma presidência também é feita de gestos. Eles são preferíveis à inação.

blog Josias de Souza

O Morro do Bumba, o Conde D’Eu e O Cortiço de Aluísio de Azevedo

O cortiço
David Coimbra

Ao caminhar por entre as artérias do Monumento ao Holocausto, no coração de Berlim, a cada passo aumentava minha admiração pelos alemães. Ali estava um povo que não se esquivava de suas culpas. Ao contrário, as purgava em público e em voz alta.

Os mesmos passos me faziam pensar nos brasileiros. Nós aqui, ao que parece, não nos aflige culpa alguma. Do que o brasileiro se envergonha, afora a derrota na Copa de 50? Pois é. Mas nós temos do que nos envergonhar. Temos também o nosso nazismo. O nosso holocausto.

Chama-se escravidão.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]O Brasil foi o último país do mundo a abolir a escravidão, mas nem ao aboli-la lavou-se de sua desonra. Agora mesmo, no Rio de Janeiro flagelado, lateja essa dor. Pois quem são esses que morrem sufocados pela terra que se desprende dos morros cariocas? Descendentes de escravos e ex-escravos expulsos do Centro quando o Rio se transformou no que hoje é.

Você leu O Cortiço, de Aluísio Azevedo? Bom livro. Não devia ser obrigatório nas escolas, devia ser tratado como romance para iniciados. O Cortiço conta a história de um imigrante português que, como se dizia então, “amasiou-se” com uma escrava para somar suas economias às dela. Juntos, os dois e seus dinheiros, melhoraram a bodega dele e investiram em quartos de aluguel. Montaram um cortiço aos moldes de tantos que havia no Rio do século 19, o mais célebre deles chamado Cabeça de Porco, de propriedade do Conde D’Eu, ilustre marido da Princesa Isabel. O que não deixa de ser irônico – entre os 4 mil moradores do cortiço do marido, havia inúmeros ex-escravos libertados pela esposa.

Essa gente não teve mais onde morar a partir do começo do século 20, quando a prefeitura do Rio botou abaixo os cortiços. O prefeito Pereira Passos, inspirado nas reformas feitas em Paris décadas antes, rasgou avenidas, abriu largos arejados, mudou a face da cidade. Os moradores dos cortiços, muitos deles, foram para a zona norte. Outros, que precisavam morar perto do Centro, onde trabalhavam para os senhores brancos e bem alimentados, esses ficaram por perto: subiram os morros do entorno, construíram casebres com as sobras das demolições protagonizadas por Pereira Passos, formaram as favelas como as conhecemos.

Essa gente pingente das favelas não foi libertada da escravidão; foi atirada à liberdade. Para eles, nunca houve planejamento, muito menos investimento. Hoje, Lula dá certa atenção a esses desgraçados. Não é o ideal, claro que não. Porque não é uma ajuda estratégica; é uma ajuda tática. Mas, ao menos, é algo. Para quem não tinha nada, talvez seja muito. Por isso, Lula foi amassado pela vaia do Maracanã, na abertura do Pan em 2007. Vaiaram-lhe os brancos e bem alimentados, os moradores da planície, que olham para o alto, para o morro, com medo.

Hoje, os brancos e bem alimentados da planície olham de novo para o morro. Aquela gente parda, aquela gente que passa os dias de bermuda e sem camisa, que mora em barracos construídos com pedaços de qualquer coisa, aquela gente teima em chamar a atenção. Às vezes roubando, às vezes matando e às vezes, como agora, morrendo. Inconvenientes, é o que são. Vivem a nos lembrar que em nós, também, pode haver culpa.

Fonte: http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2866966.xml&template=3916.dwt&edition=14457&section=70

Exclusão social e as tragédias dos desabamentos no Rio

Enquanto houver exclusão e indiferença, não haverá solução para as tragédias dos desabamentos.
Jorge Rubem Folena ¹

(…)após mais uma noite de fortes chuvas em nosso Estado do Rio de Janeiro, e particularmente pela tragédia que recaiu sobre os moradores de área pobre de Niterói.

Pelo que estou lendo, assistindo e ouvindo, quem tem culpa de tudo, definitivamente, é a população pobre, que construiu suas casas onde não deveria. É o que fica evidente nos pronunciamentos das autoridades constituídas.

Os administradores públicos, conscientes ou não, governam para uma sociedade fundamentada na exclusão, na diferença e na indiferença. Nunca valorizarão o trabalho, base de tudo, porque eles enxergam nos homens e mulheres dos bairros dos subúrbios e das favelas apenas uma fonte de mão-de-obra barata a ser explorada diariamente e um manancial de votos para a confirmação da ordem política.

A letra da lei é bonita e só vale no papel, como todos sabem. É fácil, na tragédia, transferir a responsabilidade para a população, incriminando-a como sempre fizeram ao longo da História. Porém, é negado aos pobres e aos miseráveis o direito de habitar com o mínimo de dignidade e em condições salubres, apesar de estar consignado na Constituição (artigo 6º).

Não podemos perdoar estes políticos, pois o problema não é a falta de dinheiro, tecnologia e áreas em condições de construir residências dignas para todos. Não fazem porque não querem, e por ser próprio do regime em que vivemos a manutenção da desigualdade, apesar de ser apregoado, por todos os cantos, que constituímos uma sociedade livre e democrática.

Enquanto houver a exploração de homens e mulheres, os idosos não forem amparados e as crianças viverem sem esperança de futuro, tudo estará na mais perfeita ordem natural das coisas, com chuva ou qualquer outra forma de tragédia que recaia sobre nós.

Manifesto minha tristeza por tudo isso, que não é novo e infelizmente se repetirá amanhã ou depois de amanhã, na medida em que não existe interesse de acabar com esta lamentável situação. O duro é ver governantes na televisão com charme de tristeza e cara de choro diante de famílias que jamais protegeram ou protegerão.

Jorge Rubem Folena ¹
Presidente da Comissão de Estudos Constitucionais
do Instituto dos Advogados Brasileiros
Tribuna da Imprensa

Sowetização à paulista

Zé Alagão (leia-se José Serra – o Nosferatu do Cone Sul) pensou que tinha sowetizado a pobreza. A chuva jogou a pobreza na cara da elite

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Conversa com um amigo navegante ilustre:

– Por que só agora, com a chuva, o pobre de São Paulo apareceu ?

– Porque o pobre de São Paulo foi sowetizado.

– Como assim ?

– A elite se fechou para dentro e jogou a favela na periferia, num conjunto de sowetos: Heliópolis, Paraisópolis, Jardim Romano, São Miguel Paulista.

– Mas isso sempre existiu.

– Existiu, mas a elite não via.

– Por que não via ?

– Porque era possível você trabalhar na Faria Lima e morar no Morumbi e passar 20 anos sem ver um pobre. Não é como na Zona Sul do Rio, em que a favela entra pela tua janela adentro.

– O resultado disso ?

– Você acaba como os quatrocentões, que pensam que moram em Nova York, Milão, Veneza. Ou numa combinação das três..

– E por que isso acabou com a chuva ?

– Porque a chuva expulsou os pobres para as ruas, para a tela da tevê.

– Não tinha como evitar que os pobres fossem expulsos para as telas da tevê ?

– Não, porque há 15 anos os tucanos governam como se as sowetos de São Paulo não existissem. Um dia o copo tinha que derramar.

– Mas, e os tucanos, não fizeram nada pelos pobres ?

– Praticamente nada. Não há um único programa social dos tucanos, de assistência maciça aos pobres de São Paulo. Os tucanos fazem de conta que São Paulo é uma cidade do Primeiro Mundo, porque os pobres ficam escondidos nos sowetos.

– Qual vai ser a consequência política dessa chuva, em 2010 ?

– Os moradores dos sowetos são na maioria nordestinos e a maioria não vota em São Paulo. E, por isso, os tucanos não ligam para eles. Mas, como dizem os teus internautas, o Serra pode até “não ter noção”. Mas muito paulista e muito brasileiro passou a “ter noção” de que São Paulo tem pobre e é mal tratado.

Paulo Henrique Amorim
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Terremoto do Haiti: ajuda humanitária converteu-se em projeto de poder

Reginaldo Nasser: professor de relações internacionais da PUC-SP: Auxílio internacional como o que está em ação no Haiti é cada vez mais ‘militarizado’ e estratégico, diz professor

Por trás do sincero discurso de ajuda às vítimas da tragédia haitiana, há um jogo de interesses nacionais cada vez mais explícito, afirma ao Estado o professor de relações internacionais da PUC-SP Reginaldo Nasser. Foi assim na ajuda aos países afetados pelo tsunami de 2004 ou pelo furacão Mitch, de 1998. “Com a ajuda humanitária, vem o direcionamento político”, argumenta.

A tragédia no Haiti desencadeou uma avalanche de ajuda humanitária de vários países. Certamente há uma preocupação real com o povo haitiano. Mas quais são suas implicações geopolíticas?

[ad#Retangulos – Esquerda]Tem crescido muito o número de estudos sobre a relação entre ajuda humanitária e interesse nacional. Em casos como o Haiti existe um sentimento solidário, do qual as pessoas são tomadas – e Estados dão vazão a ele. Trata-se de um fenômeno antigo. A novidade é que, com o fim da Guerra Fria, o volume de ajuda cresceu exponencialmente. O Banco Mundial, por exemplo, aumentou em 800% o envio de recursos sob a rubrica “ajuda humanitária” desde o início dos anos 90. Hoje, o mesmo tema é responsável por 30% do orçamento do Pentágono. A ajuda humanitária transformou-se em um projeto político.

Há exemplos concretos sobre essa projeção de poder?

Um exemplo é o tsunami de 2004. Logo depois da tragédia, os EUA enviaram tropas de ajuda ao leste da Ásia, sabendo que o Congresso americano vetava a cooperação militar com a Indonésia por causa da herança da ditadura de Suharto. Sob o argumento da ação humanitária, houve uma reaproximação militar e, ao final, a Casa Branca reverteu o bloqueio do Legislativo. Também com esse tsunami, houve uma aproximação de Washington com o Sri Lanka, que tentava exterminar a guerrilha tâmil. Enfim, por causa do tsunami, os EUA fizeram um grande investimento militar na região.

Imagino que essa reaproximação não se limite à dimensão militar.

Há um aspecto econômico fundamental. Quando houve o furacão Mitch na América Central, em 1998, o Banco Mundial e o FMI ofereceram uma ajuda significativa, mas condicionaram o envio a reformas econômicas. Honduras foi pressionada a privatizar seus portos, aeroportos e sistemas de comunicação. Na ajuda configurou-se um direcionamento do rumo de política econômica que o país devia tomar.

Os EUA parecem ter visto na tragédia do Haiti uma chance de reforçar sua imagem de “potência benevolente”.

Sem dúvida, mas isso sempre existiu. Os EUA têm um sentido missionário, o velho discurso de estender a mão aos povos independentemente de fronteiras. Mas isso ocorria também na Guerra Fria. Na tragédia, americanos são os primeiros a se manifestar.

Por quê?

Por duas razões: além da ideológica, os EUA são a única potência com meios para agir de imediato. Washington tem bases, soldados, navios e aviões no mundo todo. É interessante também notar que a preparação para a guerra tornou-se a mesma que para a ajuda humanitária. Há uma militarização da ajuda humanitária.

Roberto Simon/Estadão

Haiti e a presença do Brasil no Caribe

Apesar das críticas iniciais, à época, das oposições, Lula acertou quando, atendendo a mandato da ONU, enviou tropas brasileiras ao Haiti. Agora, quando do catastrófico terremoto, a presença das Forças Armadas do Brasil representa o que de melhor os brasileiros somos capazes.
O editor


[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Ninguém poderia ter previsto com precisão o terrível terremoto no Haiti, ainda que especialistas tenham advertido para a possibilidade. E seria também intelectualmente tortuoso tentar usar fatos pouco previsíveis de agora para justificar uma decisão tomada lá atrás.

Mas algo é inegável: é ótimo que o Brasil e suas Forças Armadas estejam hoje bem instalados em terras haitianas. É a partir da posição brasileira ali que a comunidade internacional poderá intervir para evitar o caos absoluto.

Houve algumas resistências internas quando o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, com mandato da Organização das Nações Unidas, decidiu mandar tropas para a nação mais miserável das Américas, na esteira de uma conturbação política.

Uns acusaram o Brasil de oferecer braços para manter a dominação colonial. Outros recorreram a uma crítica mais habitual. Por que gastar lá fora um dinheiro que poderia ser bem empregado aqui dentro, para coisas supostamente mais importantes?

O destino, com seus critérios obscuros, e neste caso trágicos, acabou transformando a empreitada haitiana num dos mais importantes investimentos desta administração no campo das relações internacionais.

O Brasil é agora o jogador-chave no cenário da tragédia. E não era automático que fosse assim. A América Central não é área de influência natural nossa.

Se há hoje ali uma disputa, é mais entre os Estados Unidos e a Venezuela, ainda que esta tenha perdido impulso depois do revés hondurenho. Sem falar nas dificuldades econômicas que atravessa o país de Hugo Chávez.

O Haiti é um lugar onde o governo brasileiro vem fazendo tudo certo (outro, após tropeços iniciais, é a Bolívia). Metemo-nos ali depois de chamados, e com amplo respaldo internacional.

Quando decidimos entrar, foi para valer, mas com jeito. Teve até jogo da seleção brasileira em Porto Príncipe. E nossas tropas têm executado a missão com profissionalismo, sem os incidentes comuns em situações como essa, de quase ocupação.

Há um imenso espaço a preencher nas Américas, desde que os Estados Unidos estão mobilizados por outros vetores, como a guerra contra o terrorismo. É a hora do Brasil.

Claro que sempre haverá tensões e divergências na relação do dia a dia com a superpotência, o que é normal. Parceria não é submissão. Mas é uma oportunidade de ouro que a situação tenha conduzido a isto: a consolidação da liderança regional, e ampliada, do Brasil interessa também, e muito, à Casa Branca.

E com a vantagem de o presidente americano ser Barack Obama. Sempre será mais fácil defender a legitimidade de uma cooperação com ele do que seria com outro qualquer.

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