Pandemia de neoliberalismo: a ortodoxia nunca desafiada

O tecnoautoritarismo vai além do controle de dados gerados pelas tecnologias. Sua raiz está na ideia da automatização do governo, para ser guiado apenas pelas vontades do mercado. Negar papel da opções políticas é negar a democracia.

Por Rafael Evangelista, na CTS em foco nº 1

Passados mais de seis meses desde a decretação pela Organização Mundial da Saúde (OMS) da pandemia do novo coronavírus, o novo normal brasileiro na verdade continua um ciclo iniciado entre 2015 e 2016, e que parece longe de acabar. Tratou-se de fato de uma ruptura radical com a ideia de que cabe às instituições democráticas e seus representantes organizar a vida social e o uso dos recursos materiais tendo em vista a sobrevivência e o bem-estar geral da população. Uso a palavra “cabe” aqui tanto no sentido do que é possível como entendendo que há uma responsabilidade, uma obrigação de ação. Muitos entenderam que a pandemia, embora trágica, seria uma oportunidade para rever certas omissões, para pactuar nacionalmente uma organização social que nos oferecesse, enquanto sociedade, uma maior capacidade de sobreviver a tragédias e imprevistos. Em lugar disso ganhamos um “e daí?”, repetido em diversas situações.

Para além do contexto político específico, há antecedentes históricos, culturais e de legitimação global de certas ideias “científicas” que, combinados com a história política do Brasil em sua especificidade e em sua inserção periférica no mundo, nos ajudam a entender os impasses em que nos encontramos. Nem a pandemia foi capaz de modificar a ideia avassaladora de que a melhor saída seria liberar as forças do mercado para que “regulem” o social e, como uma mão invisível, instituam um tipo de justiça transcendental.

Laymert Garcia dos Santos (2014) aponta que, desde os anos 1970, vivemos uma “virada cibernética”, em que a informação (e sua contraparte, os “dados”) ganha centralidade em todos os setores da atividade humana. A cibernética, enquanto ramo interdisciplinar, emerge nos anos 1950, quando aparece como resposta integradora para diversos ramos científicos, da biologia à matemática, da antropologia às telecomunicações, da física aos estudos balísticos. Sob a égide da informação e da comunicação, pretende oferecer respostas cosmológicas a um mundo traumatizado após duas Grandes Guerras (Breton, 1994; Chiodi, 2017). Os fluxos de comunicação seriam a base integradora de máquinas e organismos vivos, de diferentes espécies e grupos étnicos (Evangelista, 2018).

Após uma efervescência filosófica inicial, a cibernética teve sua derivação principal em aplicações mais práticas nas ciências da computação. Mas a influência intelectual, direta ou indireta, se desdobra em outros campos e impacta a cultura e o imaginário de modo geral. Em verdade, do ponto de vista estrutural, a partir dos anos 1970 são os sistemas telemáticos feitos sob inspiração da cibernética que vão construir a base para a financeirização dos mercados e da economia, esta que vai explodir nas décadas seguintes e redefinir o sistema produtivo mundial e a divisão de trabalho global. O neoliberalismo deixava de ser um projeto na cabeça de alguns homens brancos em Chicago para se tornar uma força centrípeda internacional.

Desse casamento entre as apropriações da cibernética e as teses em favor de um liberalismo econômico se estrutura uma percepção de que a melhor maneira de se gerenciar sistemas, de uma maneira geral, inclusive sistemas sociais, não se dá pela organização, planejamento e comando, mas pela aceleração de ciclos comunicacionais de feedback entre pontos de uma rede, de modo que emerja um tipo de auto-organização. Vai se tornando socialmente pervasiva a ideia de que essa não é somente a melhor, mas a única maneira de ser lidar com sistemas com eficiência e mesmo eficácia. Friedrich Hayek, autor fundamental do neoliberalismo, admitia os estudos interdisciplinares de sistemas de comunicação serem uma melhor referência para se entender as trocas e os mercados do que a própria econometria (Soares, 2019, p. 4). Os mercados seriam processadores de informação mais poderosos e eficazes do que os planejadores humanos (Mirowski, 2019, p. 6).

O simplismo dessa ideia é praticado, por excelência, na periferia global. É no Chile que o ditador Pinochet vai abrir os primeiros espaços para que os Chicago Boys façam seus experimentos sociais mais radicais. Embora políticas neoliberais tenham sido praticadas também por Ronald Reagan e Margareth Thatcher, a condição de partida era uma realidade de Estado de bem-estar social, com um acumulado de ganhos históricos a favor dos trabalhadores. Quando estes países assumem o discurso e as políticas de liberalização, boa parte da rede de proteção é ainda mantida em função dos interesses locais, enquanto nas negociações multilaterais se fala em desregulamentação em setores desfavoráveis aos países menos desenvolvidos. Pode-se dizer que o discurso liberalizante é, em parte, uma farsa, pois vale, e se agudiza, somente para um lado da balança.

Nos “Suis” do mundo, a situação de constante emergência sempre serviu de justificativa para medidas de exceção (que, na verdade, são norma). O remédio deveria ser mais amargo, os direitos deveriam ser mais relativizados, as tais reformas tinham que ser ainda mais profundas, a liberalização mais intensa para que haja um “choque” de capitalismo. O estado de exceção do Sul funciona como justificativa para experimentos sociais e tecnológicos.

Não foi muito diferente com a pandemia. Logo as medidas de preservação da vida, de apoio aos trabalhadores, adotadas por vários países, foram transformadas em “luxo” ao qual a população brasileira não poderia ter acesso. Acompanhamos de longe os auxílios governamentais serem concedidos em países ricos, enquanto aqui uma ajuda mínima, e cheia de falhas em sua focalização, teve que ser conseguida a fórceps. Mais importante, como que esperando algum tipo de autorregulação mágica do mercado, governantes incentivaram ativamente que a parte mais pobre da população (os tais que “não podem” ficar em casa) saísse à rua e enfrentasse o vírus com sua vida. Metáforas de guerra e sacrifício foram mobilizadas enquanto se aguardava uma improvável imunidade de rebanho. Quando um contingente suficiente de pessoas descartáveis já tiver corrido o risco, parecem esperar os líderes, o país será seguro para o restante.

Desde logo se estabeleceu uma falsa dicotomia entre vidas e economia. Mesmo que os países ricos já venham dando exemplos, pelo menos desde 2008 (Graeber, 2019), de que descuido fiscal e expansão monetária não levam automaticamente a crise econômica e inflação, esse argumento continuou sendo usado para empurrar o lema “a economia não pode parar”, que na verdade significou “o trabalho não pode parar”.

Desde a eclosão da pandemia, diversos especialistas em tecnopolítica ao redor do mundo vêm apontando os riscos implicados no solucionismo tecnológico para as garantias democráticas. Aplicativos de rastreamento de contato, monitoramento de deslocamentos a partir de dados de telefonia, além da invasão da vigilância nos espaços domésticos por meio dos aplicativos de teletrabalho, entraram no debate público internacional. O mimetismo automático a essa reação levou alguns a manchetarem que o Brasil estaria escorregando para um tecnoautoritarismo (Kemeny, 2020).

A percepção é, sim, verdadeira, mas vai além da adoção de certas tecnologias de rastreamento ou dispositivos de controle. O tecnoautoritarismo brasileiro tem na economia a sua pedra fundamental, passando ainda pelo esvaziamento da política. Se orienta pela ideia neoliberal de que nada se pode fazer além de se submeter à vontade dos mercados internacionais e abdicar cada vez mais de intervenções e planejamentos praticados por governos, para que – como que por encanto – as forças do mercado façam emergir o crescimento e uma justiça social com sabor de necropolítica.

O mesmo “e daí?” que informa a fala do presidente frente às mortes da pandemia pauta o ministro Paulo Guedes, incensado pela imprensa de mercado como racional e técnico. Enquanto o primeiro dá a entender nas declarações um darwinismo de pé quebrado que naturaliza e acelera as mortes de idosos, pessoas com doenças crônicas e todos “sem histórico de atleta”, o segundo se arvora em uma ortodoxia econômica mofada para declarar que não há nada a se fazer a não ser cumprir metas ficais, teto de gastos e a cartilha da não-gestão automatizada, enquanto se espera de uma sala refrigerada a autorregulação. O problema é que esta significa uma disparada de preços em matérias-primas, exportadas em dólar, e itens de alimentação sem estoques reguladores. Negar a capacidade de ação, planejamento e invenção da humanidade, relegando essas atividades às trocas informacionais do mercado (Mirowski, 2019), é a mais profunda negação da democracia.

Os objetos técnicos são só a parte mais aparente e instrumental das ameaças à democracia. Vigilância, rastreamento, violação de privacidade, são a parte operacional de uma ideologia neoliberal que rejeita a capacidade humana de decidir seu próprio destino e a submete a um joguete baseado em competição, ganância e egoísmo. A pandemia, um momento tão dramático, poderia ser uma oportunidade de revisão desse tipo de dogma, que reduz a organização do sistema produtivo, do uso de recursos naturais e da sobrevivência da humanidade a um “livre” mercado. Mas a ortodoxia econômica resolveu dobrar a aposta, colocando em jogo vidas que trata como externalidades – e os números mostram que as maiores vítimas foram os pobres e negros.

Referências

BRETON, Philippe. A utopia da comunicacaçâo. [s.l.]: Instituto Piaget, 1994.

CHIODI, Vitor França Netto. O singularismo como ideologia e a reconstrução da relação centro-periferia no capitalismo informacional. [s.n.], 2017. Disponível em: <http://repositorio.unicamp.br/jspui/handle/REPOSIP/322242>. Acesso em: 6 out. 2020.

EVANGELISTA, Rafael. Para além das máquinas de adorável graça: Cultura hacker, cibernética e democracia. [s.l.]: Edições Sesc, 2018.

GRAEBER, David. Against Economics. 2019. Disponível em: <https://www.nybooks.com/articles/2019/12/05/against-economics/>. Acesso em: 2 out. 2020.

KEMENY, Richard. Brazil is sliding into techno-authoritarianism. MIT Technology Review. Disponível em: <https://www.technologyreview.com/2020/08/19/1007094/brazil-bolsonaro-data-privacy-cadastro-base/>. Acesso em: 2 out. 2020.

MIROWSKI, Philip. Hell Is Truth Seen Too Late. boundary 2, v. 46, n. 1, p. 1–53, 2019.

SANTOS, Laymert Garcia dos. Informação bio e arte latino-americana – Uma provocação | Laymert Garcia dos Santos. Disponível em: <https://www.laymert.com.br/chapman/>. Acesso em: 6 out. 2020.

SOARES, Tiago Chagas. Make it New: Hayek, Modernismo e a invenção do Neoliberalismo (1920-1950). Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo, 2019. Disponível em: <https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8137/tde-16122019-183100/>. Acesso em: 6 out. 2020.S

Biden recebe dossiê recomendando suspensão de acordos entre EUA e governo Bolsonaro

POOL/GETTY IMAGES

O documento surge em momento de intensa expectativa sobre os próximos passos da relação entre Brasil e Estados Unidos sob o governo de Biden e da vice-presidente Kamala Harris

Quatro meses depois de fazer críticas públicas contra o desmatamento no Brasil, o presidente Joe Biden e membros do alto escalão do novo governo dos EUA receberam nesta semana um longo dossiê que pede o congelamento de acordos, negociações e alianças políticas com o Brasil enquanto Jair Bolsonaro estiver na Presidência.

O documento de 31 páginas, ao qual a BBC News Brasil teve acesso, condena a aproximação entre os dois países nos últimos dois anos e aponta que a aliança entre Donald Trump e seu par brasileiro teria colocado em xeque o papel de “Washington como um parceiro confiável na luta pela proteção e expansão da democracia”.

“A relação especialmente próxima entre os dois presidentes foi um fator central na legitimação de Bolsonaro e suas tendências autoritárias”, diz o texto, que recomenda que Biden restrinja importações de madeira, soja e carne do Brasil, “a menos que se possa confirmar que as importações não estão vinculadas ao desmatamento ou abusos dos direitos humanos”, por meio de ordem executiva ou via Congresso.

A mudança de ares na Casa Branca é o combustível para o dossiê, escrito por professores de dez universidades (9 delas nos EUA), além de diretores de ONGs internacionais como Greenpeace EUA e Amazon Watch.

Consultado pela BBC News Brasil, o Palácio do Planalto informou, via Secretaria de Comunicação, que não comentará o dossiê.

Autogolpe de Trump fracassou por não ter apoio militar, diz Steven Levitsky, autor de Como as Democracias Morrem

Um acontecimento que não se via nos Estados Unidos desde o século 19.

Um grupo de apoiadores do presidente americano, Donald Trump, invadiu e depredou a sede do Congresso dos EUA, em Washington, após ultrapassarem as barreiras montadas por agentes de segurança, em meio a confrontos isolados.

O ato violento no Capitólio na quarta-feira (6/1) ocorreu logo depois que Trump discursou para uma multidão em frente à Casa Branca, a quase 3 km dali, repetindo acusações sem prova e rejeitadas por diversos juízes do país de que houve fraude na eleição em que perdeu para Joe Biden.

O que se viu no Capitólio foram cenas de caos, com congressistas deitados no chão, sendo evacuados e colocando máscaras antigás.
Para o professor de governabilidade da Universidade Harvard, Steve Levitsky, a invasão do Congresso foi uma resposta a “quatro anos de descrédito e deslegitimação da democracia” por parte do Partido Republicano e de Trump.

A cidade de Washington impôs um toque de recolher nesta quarta-feira a partir das seis da tarde.

Levitsky é coautor do livro Como as Democracias Morrem, de 2018, no qual expõe “os sinais alarmantes que põem em risco a democracia liberal dos EUA”.

Estudioso também dos processos democráticos e presidenciais da América Latina, Levitsky descreveu a invasão do Capitólio por apoiadores de Trump como uma “tentativa de autogolpe”, em entrevista à BBC News Mundo, serviço da BBC em espanhol.

Para ele, “a grande diferença entre esse autogolpe e os autogolpes na América Latina é que Trump foi completamente incapaz de obter o apoio dos militares” e “um presidente que tenta permanecer no poder ilegalmente sem o apoio dos militares tem poucas chances de sucesso”.

Apoiadores de Trump invadiram o Capitol enquanto as sessões eram realizadas para certificar votos para Joe Biden.

Segundo sua análise, “a democracia sobreviverá a este dia”, mas o que se coloca para o futuro do país é um período de crise bastante incerto.

BBC – Que interpretação o senhor dá para a insurgência de apoiadores de Trump no Capitólio dos Estados Unidos?

Levistky – Pode-se presumir que isso iria acontecer. Donald Trump e muitos, muitos líderes republicanos têm incitado, têm mentido para sua base que os democratas estão arruinando o país e subvertendo a democracia. Eles vêm dizendo isso há cinco anos.

E então, depois de perder a eleição, não só Trump mas também líderes do Partido Republicano estavam lá no Congresso, repetindo a mentira e desacreditando a legitimidade da democracia e das instituições. Depois de anos mobilizando sua base com uma linguagem que incluía termos como socialismo ou traição, pode realmente surpreender que isso esteja acontecendo depois que você perdeu a eleição?

Na história da América Latina, quando os líderes incitam seus seguidores em um ambiente altamente polarizado, as pessoas agem. Palavras têm significado, elas têm poder.

O que me surpreende nisso é como a polícia estava mal preparada.

A Polícia do Capitólio, fortemente armada, deteve alguns manifestantes

BBC – Como o senhor interpreta as reações de alguns membros do Partido Republicano e do próprio presidente Trump, que em um tuíte nesta quarta-feira (6/1) pediu a seus apoiadores que não fossem violentos?

Levistky – O presidente já foi radicalmente violento antes e, se não queria que isso acontecesse, precisava agir mais rápido e se mobilizar para evitar. Ele provavelmente não deveria ter sugerido que marchassem até o Congresso. Trump os enviou para lá, ele os incitou a se mobilizarem para o Congresso. O fato de que os líderes republicanos agora estão rompendo com Trump é hipócrita, depois de o apoiarem por anos, mas é importante e positivo. Parece-me positivo ter visto discursos como o de Mitch McConnell (líder da maioria do Partido Republicano no Senado).

BBC – Estamos diante de uma revolução, de um golpe de Estado, de uma insurreição?

Levitsky – É uma variante do que na América Latina chamaríamos de autogolpe. É um presidente mobilizando seus apoiadores para permanecer no poder ilegalmente. Será um autogolpe fracassado, mas é uma insurreição do poder para tentar subverter os resultados da eleição e permanecer no poder ilegalmente. Eu diria que foi uma tentativa de autogolpe.

BBC – Na América Latina, esse tipo de situações que o senhor descreve são prejudiciais à democracia. O senhor diria que este é um momento perigoso na história americana? Diria que a democracia permanecerá forte, e o presidente eleito Joe Biden será empossado em 20 de janeiro?

Levistky -Tenho esperado com terror por este dia na democracia americana nos últimos quatro anos. Todos os dias durante quatro anos. Nossa democracia está em grave crise e este é o ponto culminante dela. Mas não é que tenha saído do nada. Nossa democracia está em crise há vários anos e acho que vai continuar assim.

Este autogolpe vai fracassar. Aqueles que protestarem em algum momento serão retirados do Capitólio e em algum momento a eleição de Biden também será certificada, e Trump será removido da Presidência. Agora, não está claro como isso vai acontecer. Mas Trump vai fracassar, e a democracia americana sobreviverá aos eventos de hoje.

Mas isso não significa que está tudo bem. São acontecimentos aterrorizantes e prejudiciais como na América Latina. A grande diferença entre esse autogolpe e os autogolpes na América Latina é que Trump foi completamente incapaz de obter o apoio dos militares. Um presidente que tenta permanecer no poder ilegalmente sem o apoio dos militares tem muito poucas chances de sucesso.

BBC – O senhor fala com segurança que a democracia sobreviverá e que esta será uma tentativa fracassada.

Levistky – Hoje. Acredito que, no médio prazo, estamos nos aproximando de um período de crise. Eu digo que esta tentativa de hoje irá falhar, porque a correlação de forças não existe para apoiar Trump. Não tem apoio militar. A democracia sobreviverá quando acordarmos amanhã, mas não posso garantir o que acontecerá daqui a cinco anos. A democracia americana é um desastre.

BBC – O presidente eleito Joe Biden mencionou que a democracia estava “sob um ataque sem precedentes” com os acontecimentos desta quarta-feira. Esta situação é extraordinária no contexto da história americana moderna?

Levistky – É extraordinário e sem precedentes no contexto da história americana moderna. No século 19, o país passou por uma era de violência, especificamente nos anos anteriores à Guerra Civil, e também vivenciou violência, especificamente em nível estadual, durante anos após a Guerra Civil. Portanto, em meados do século 19, os EUA experimentaram crises ainda mais graves do que as que vemos hoje. Mas não sofremos algo assim no século 20.

Isso não tem precedentes na história democrática moderna.

Trump discursou para seus apoiadores em Washington na quarta-feira antes de invadirem o Capitólio

BBC – E quais são os mecanismos dos poderes constituídos para lidar com essa crise? Na Constituição ou nas legislaturas?

Levistky – Formalmente, existem dois mecanismos, mas nenhum deles foi usado até agora. Um é o impeachment ou o impeachment que leva à remoção. Nos EUA, ocorreram julgamentos políticos de presidentes, mas não resultaram em sua destituição do poder. É um processo bastante longo, a menos que o façamos à maneira peruana, de retirar o presidente durante a noite. É improvável que isso aconteça.

E há outro mecanismo, a emenda nº 25 à Constituição, que é mais recente porque foi aprovada em meados do século 20, e também não foi usado até agora.

Nenhum desses mecanismos foi adotado.

A América Latina tem muito mais experiência em provocar a destituição de presidentes que abusam do poder do que os EUA. A grande maioria das democracias presidencialistas está na América, mas nunca usamos o mecanismo americano para remover um presidente nos termos constitucionais.

Acho que a melhor saída seria Trump renunciar, seria que aqueles de seu próprio partido pressionassem Trump a renunciar. Ele não vai, mas deveria.

BBC – Mas ele está dizendo que não vai. Então, se ele nunca o fizer, se ele nunca ceder, o que acontece?

Levitsky – Durante o mês de novembro, esperei que sua filha e seu genro o fizessem entender, e há reportagens que indicam que ele sabe que perdeu e que deve ir embora. Uma característica de Trump é que ele não antecipa as consequências do que diz e faz. Então, eu não acho que ele previu o que acabou acontecendo hoje no Capitólio, embora ele o tenha instigado.

Acho que Trump sabe que tem que sair e acho que o cenário mais provável, apesar deste terrível golpe fracassado, é que os americanos virem a página e deixem Trump passar suas últimas duas semanas no cargo. Tudo é possível neste momento, mas parece improvável que ele tente se recusar a sair em 20 de janeiro.

Não teremos mais uma transição pacífica de poder, mas será, mais ou menos, uma transferência de poder habitual.

BBC – O senhor disse que a invasão do Capitólio é o ponto culminante de cinco anos de um intenso jogo político entre o presidente Trump e o Partido Republicano. O que o senhor acha que acontecerá no contexto de uma nova Presidência democrata de Joe Biden?

Levitsky – Eu acho que é muito incerto. Decerto não há tantas pessoas nas ruas; obviamente estão fazendo muito barulho, mas em comparação com a marcha das mulheres depois que Trump foi eleito, esta é uma festa no jardim. Não é que as massas estejam tomando as ruas, isso não é uma revolução. Esta não é a Argentina em outubro de 1945.

Então, o que eu acho, dependendo do que Trump faz, é que em algum momento ele terá que desistir. E se ele desistir e voltar para a Flórida, acho que isso vai ficar mais fraco. Ainda haverá uma direita radicalizada e mobilizada, mas não acho que Biden esteja enfrentando uma crise de governança.

Na verdade, acho que talvez isso o fortaleça. Porque agora os republicanos estão à beira de uma divisão severa. Portanto, acho que há várias coisas que podem acontecer: Uma, que o Partido Republicano finalmente se reunirá e derrubará Trump, de modo que ele acabe isolado, junto com seus aliados como (Rudy) Giuliani e as pessoas a quem perdoou. E que Mitch McConnell, Marco Rubio e até Ted Cruz acabam abandonando Trump.

Ou a outra coisa que pode acontecer é que o Partido Republicano se divida, quebre, como parecia que ia acontecer nesta quarta-feira. Não estou falando de uma divisão formal, mas de uma composição na qual há uma ala do partido que ainda está fortemente alinhada com Trump e outra ala que está tentando ir além de Trump. E se os republicanos estão divididos, isso vai fortalecer Biden.

Fatos & Fotos – 01/12/2020

Ach so! Um pouco de jazz no idioma de Goethe: Max Raabe e a Palast Orchester e Namika interpretam “Küssen kann man nicht alleine”


Jair Bolsonaro e a Vacina para a Covid
por Miguel Paiva


Tango para encantar el mediodía del martes

 


Pintura de Frank Benson,1895


Na versão moderna do autoritarismo – na qual os governantes não rasgam a Constituições nem dão Golpes de Estado Clássicos -, não é necessário censurar a internet (às claras, mas economicamente).

Nas democracias “liberais” – que incongruência a combinação de democracia com liberalismo – segundo à verborragia caudilhesca do primeiro-ministro Viktor Orbán, basta inundar as redes sociais e os grupos de WhatsApp com a versão dos fatos que se quer emplacar, para que ela se torne verdade – e abafe as outras narrativas, inclusive e sobretudo as reais.
A massa foi engolida pelo Whatsapp e as crenças #religiosas de todos os credos.
Se deixarmos os dois continuarem a definir a pauta sociopolítica, o atoleiro só aumentará.
Só combatendo fakenews com fakenews, golpes baixos com golpes mais baixos ainda, e sendo tão canalhas quanto, poderemos combater em condições iguais. Caso contrário, a tragédia se repetirá em 2022, pois o jogo jogado é sujo. Ou então, que saiamos da luta e nos conformemos de vez com a vassalagem. A métrica da moral e da ética não existe em Southern Banânia.


A Cerâmica de Jeremy Randall



O “Olho do Grande Irmão!” Orwell foi um profeta. Relatório do governo(?) separa em grupos 81 jornalistas e influenciadores.

George Orwell,Literatura1984,Blog do mesquita

Abwehr Stasi DI G2 Gestapo BND SIS Mussolini Pinochet Chávez Maduro Filinto Müller Hitler FidelCastro MaoTseTung Stalin CIA KGB Mossad NSA NRO NGA MI5 MI6 Deuxième Bureau Shin Bet Pinkerton Kroll Control Risks Montax Serasa Experian Equifax Serinews Dun & Bradstreet S.B.I.P. SVR FSB Sfici SNI GSI DGSE GRU SVR não dão nem pro começo com o governo(?) do Furúnculo de South Banânia.

Relatório do governo separa em grupos 81 jornalistas e influenciadores.Produzido por agência contratada pelo governo federal, “mapa” classifica influenciadores como “detratores”, “neutros informativos” e “favoráveis”. E isso é o que se sabe.


As ilustrações luminosas de Tang Yau Hoong


Cockpit do Concorde


Foto do dia
Fotografia de Roberto Pazzi


Não falha nunca.

Sempre antes da bomba estourar, os Bolsonaros jogam aquela cortina de fumaça pra desviar a pauta principal. Agora foi uma treta totalmente aleatória com a China, provavelmente pra desviar dessa notícia que o Queiroz “abriu o bico” sobre os roubos de dinheiro público – peculato, vergonhosamente tratado pela mídia como “rachadinha” – pelo Flávio Bolsonaro.


Racismo não é opinião.

Na Alemanha, homem insulta colega negro com sons de macaco e é demitido. Ele vai à Justiça contra a demissão por entender que está coberto pela liberdade de expressão. Perdeu em todas as instâncias, inclusive na última, o Tribunal Constitucional Federal – o STF alemão.


O Cramunhão psicopata não quer saber do sofrimento alheio, não se compadece com problemas que não sejam seus. Não está nem aí para gente em situação de rua, queimada na Amazônia, tartaruga engasgada com petróleo ou criança que morre de bala perdida.]


Da série:”15 razões para preferir jogar golfe”


A massa foi engolida pelo Whatsapp e as crenças religiosas de todos os credos.
Se deixarmos os dois continuarem a definir a pauta sociopolítica, o atoleiro só aumentará.
Só combatendo fakenews com fake news, golpes baixos com golpes mais baixos ainda, e sendo tão canalhas quanto, poderemos combater em condições iguais. Caso contrário, a tragédia se repetirá em 2022, pois o jogo jogado é sujo. Ou então, que saiamos da luta e nos conformemos de vez com a vassalagem. A métrica da moral e da ética não existe em Southern Banânia.


Ode à Melancolia
Yeats

I

Não, não vás ao Letes, nem retorças as raízes
Em feixes do acônito para forjar o vinho venenoso;
Nem deixes tua pálida fronte ser beijada
Pela beladona, uva, rubi de Prosérpina;
Não faças teu rosário com as bagas dos teixos,
Nem deixes o besouro, ou a mariposa da morte
Ser tua lúgubre Psique, nem a coruja de penas macias
Ser parceira dos mistérios da tua dor;
Sombra a sombra letárgica virá,
E afogará a angústia desperta da alma.

II

Mas quando o ataque da melancolia cair
Súbito do céu qual nuvem em pranto,
Que revigora as flores cabisbaixas,
E vela a verde colina na mortalha de Abril;
Farta então a dor na rosa da manhã,
Ou no arco-íris da onda salgada na areia,
Ou na abundância das peônias globulares;
Ou se tua amada demonstrar ira intensa,
Ata-lhe a mão suave, e a deixa delirar,
E nutra-te fundo, fundo nos teus olhos ímpares

III

Ela mora com a Beleza – Beleza que fenecerá;
E com a Alegria, cuja mão nos lábios sempre
Se despede; junto ao doloroso prazer,
Virando Veneno enquanto a boca-abelha sorve.
Sim, e no próprio templo do deleite
A velada melancolia tem seu santuário supremo,
Embora apenas o vislumbre aquele cuja língua audaz
Estala no céu da boca a uva da Alegria;
Sua alma provará a tristeza de teu poder,
E penderá em meio a seus nebulosos trofeus.

Libertários,Política Internacional,América Latina

Na Ásia Central, a ilusão de um novo mundo

A maioria dos países da Ásia Central conhece apenas um governante há várias décadas.

Após a saída desses autocratas, seus sucessores tentam manter o controle das transições políticas de alto risco. Diante da pressão de sociedades jovens e desiguais, eles temem cenários comparáveis ​​à “Primavera Árabe”. E hesite entre a abertura e a continuidade.

Regimes autoritários geralmente não gostam de transferências de poder. Em particular, quando, à frente deles, está um governante todo-poderoso forçado a ceder por causa de sua idade ou … sua morte. Formados por instituições políticas frágeis ou considerados ilegítimos pela população, a maioria dos regimes da Ásia Central viveu esse tipo de situação delicada nos últimos anos.

Muitas vezes passado de secretário-geral do Partido Comunista local ao primeiro presidente do país após a independência conquistada em 1991, os homens no cargo, após terem ocupado os cargos mais altos por várias décadas, por sua vez, deixaram seus cargos: Saparmourad Niazov no Turcomenistão e no Islã, Karimov no Uzbequistão, respectivamente, morreu em 2006 e 2016; O presidente Nursultan Nazarbayev, do Cazaquistão, deixou a presidência aos 78 anos em março de 2019; até mesmo Emomali Rakhmon, 67, está começando a pensar sobre sua sucessão à chefia do Tajiquistão após 28 anos de governo.

O Quirguistão é uma exceção. A alternância política ocorre ali por meio de uma combinação de eleições democráticas e revoluções populares orquestradas por elites divididas em facções políticas que se opõem por seus interesses econômicos e por sua lealdade de clã (Norte contra Sul).

Dois governos foram derrubados ali, em 2005 e depois em 2010. O atual regime do presidente Sooronbay Jeenbekov, eleito em 2017, está longe de incorporar um modelo de pluralismo, mas, em comparação com seus vizinhos, continua mais democrático, com um oposição menos hostilizada e uma sociedade civil ainda ativa.

Desde meados dos anos 2000, vários modelos de sucessão foram testados. No Turcomenistão e no Uzbequistão, os “pais da nação” se juntaram ao túmulo sem nomear o herdeiro, pelo menos publicamente. Mas seus substitutos, respectivamente o ex-ministro da Saúde Gourbangouly Berdymoukhammedov e o ex-primeiro-ministro Chavkat Mirziyoyev, já membros do serralho, souberam estabelecer seu poder, derrubando

Como a ditadura monitorou ativistas pró-anistia na abertura política

Documentos inéditos revelam monitoramento intenso de opositores durante a “abertura democrática”. Historiadores contestam ideia de repressão mais branda no período e apontam tentativa de garantir impunidade de militares.

Quando chegou ao Teatro da Universidade Católica de São Paulo, o Tuca, onde um show seu estava programado, a cantora Joan Baez descobriu que não poderia cantar. Naquela noite de 23 de maio de 1981, a artista americana descobriu que a apresentação havia sido censurada.

A explicação chegou por meio de um ofício assinado por Dráuzio Selmann Dornellas Coelho, chefe do Serviço de Censura de Diversões Públicas (SCDP) da Polícia Federal em São Paulo. “A cantora alienígena Joan Baez”, dizia o texto, havia descumprido a exigência de submeter a programação do espetáculo previamente à apreciação do órgão.

Com a proibição, o Brasil se juntou ao seleto grupo de países que proibiram Baez de se apresentar, composto por Argentina e União Soviética. Sentada na primeira fila da plateia, a cantora entoou, à capela, Blowing in the wind, de Bob Dylan, e Pra não dizer que não falei das flores, de Geraldo Vandré.

O fardo de comunicar o cancelamento do show ao público de 1.500 pessoas que lotava o Tuca coube ao então deputado estadual Eduardo Suplicy, hoje vereador de São Paulo pelo PT. Ele havia conhecido Baez nos Estados Unidos, onde cursou mestrado e doutorado em Economia na Universidade de Michigan, e tinha ido a shows da cantora no país.

Em São Paulo, ele fora procurado pela equipe da artista para organizar um encontro com Luiz Inácio Lula da Silva, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. À época, Baez presidia a Sociedade Humanitas Internacional, entidade sindical dos EUA. O grupo almoçou em São Bernardo no dia do show proibido.

Abertura democrática sob vigília

O apoio à cantora é um dos fatos descritos em um relatório de 24 páginas sobre as atividades de Suplicy, produzido pelo Serviço Nacional de Informações (SNI) em 1983, período de “abertura democrática” do regime militar. No texto, ele é apontado como “militante de esquerda radical”, em trecho que aborda sua participação num congresso de mulheres no mesmo Tuca.

“Que atividade tão perigosa, posicionar-me a favor da liberdade de Joan Baez”, ironiza Suplicy, questionado hoje sobre o teor do documento. Mas não se tratou de um monitoramento exclusivo ao então jovem deputado. Documentos inéditos localizados no Arquivo Nacional ­revelam um monitoramento intenso de ativistas e organizações que defendiam a bandeira da anistia política nos anos 1970 ­– mesmo após a aprovação da Lei da Anistia, em 1979, que completa 41 anos nesta sexta-feira (28/08).

Os arquivos mostram que a ditadura militar acompanhou de perto congressos, reuniões e até cultos ecumênicos com a participação de ativistas do Comitê Brasileiro de Anistia (CBA) e do Movimento Feminino pela Anistia (MFPA). O monitoramento se estendeu aos exilados políticos que organizavam atos em favor da anistia no Brasil em outros países.

Na segunda metade dos anos 1970, havia um tensionamento entre os projetos de abertura política do regime, no poder desde o golpe de 1964. Enquanto os militares pregavam a abertura “lenta, gradual e segura”, o CBA assumiu o protagonismo da luta nacional pela anistia “ampla, geral e irrestrita”.

“A luta pela anistia rompeu com o medo da ditadura”, afirma o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, fundador e ex-presidente do CBA. “As pessoas começaram a ir para as ruas, enfrentar de fato o regime militar. O movimento reuniu diferentes setores democráticos, da Igreja Católica e da sociedade civil num grito de basta contra a tortura, o desaparecimento e o arbítrio”, avalia.

Impunidade dos militares

Apesar da pressão exercida pelos movimentos sociais, o governo conseguiu aprovar a sua versão da Lei da Anistia no Congresso, por quatro votos de diferença. Alvo de questionamentos até os dias de hoje, inclusive em ações no STF, o texto equiparou os atos cometidos por presos políticos com os crimes de Estado perpretados pelos agentes da ditadura.

Dessa forma, a Lei da Anistia libertou os presos políticos, mas garantiu a impunidade sobre as violações de direitos humanos praticadas no período. Diferentemente da luta armada, a mobilização em torno da anistia era pacífica, e justamente por essa razão conseguiu aglutinar diferentes camadas da sociedade civil organizada.

Mesmo assim, um relatório produzido pelo SNI em 26 de setembro de 1979 – menos de um mês após a aprovação da Lei da Anistia – caracteriza os movimentos como defensores de “terroristas” e “subversivos”.

“As referidas ‘bandeiras’, entretanto, se identificam com a doutrina das organizações de frente do Movimento Comunista Internacional (MCI), respectivamente a ‘Anistia Internacional’ e o ‘Tribunal Bertrand Russell'”, diz o texto, que vincula a ONG e a corte de direitos humanos ao “comunismo”.

A abordagem chamou atenção do historiador Lucas Pedretti, enquanto estudava os documentos em sua pesquisa de doutorado. Ex-assessor da Comissão Estadual da Verdade e pesquisador do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp/Uerj), Pedretti vê um paralelo claro entre a preocupação da ditadura em deslegitimar os movimentos pela anistia e a posição adotada pelos militares após o fim do regime a respeito das políticas de memória e reparação.

“Todas as vezes em que houve qualquer tipo de avanço nas políticas de memória e reparação no Brasil, havia um conteúdo fundamental do qual os militares não abriam mão de jeito nenhum: a garantia da manutenção da lei da anistia como manto de impunidade para os torturadores”, afirma.

Em dezembro de 2014, a família do general Leo Etchegoyen emitiu uma nota contra a inclusão de seu nome na lista de 377 nomes de militares considerados responsáveis por crimes durante a ditadura no relatório final da Comissão Nacional da Verdade.

Entre os signatários da nota, estava o general da ativa Sergio Etchegoyen, ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) no governo Michel Temer. Em junho deste ano, o TRF-4 negou um pedido da família para que o nome do general fosse retirado da lista.

Período brando?

Autora do livro Os vigilantes da ordem, resultado de seu trabalho de mestrado pela Universidade de São Paulo (USP), a historiadora Pâmela de Almeida Resende destaca como a vigilância intensa sobre ativistas e organizações em prol da anistia confronta a visão de que os últimos anos da ditadura teriam sido “brandos” no campo da repressão política.

“Houve uma cristalização na opinião pública de uma imagem dos presidentes da abertura como moderados, responsáveis pela distensão do Brasil para o mundo democrático. Esse tipo de visão cai em uma periodização demarcada da violência, restrita aos ‘anos de chumbo'”, avalia a historiadora.

Almeida Resende recorda que, ao longo dos anos 1970, e sobretudo após a posse do presidente Ernesto Geisel em 1975, os números oficiais de mortos caem progressivamente, enquanto aumentam os de desaparecidos.

“É um jeito sofisticado de abordar a repressão, que causa menos impacto do que falar em mortes. A violência acontece de maneira diferente ao longo dos 21 anos de ditadura, mas não deixa de acontecer. Outro presidente apontado como moderado é o Castelo Branco, responsável por atos institucionais que cassaram mandatos e direitos políticos”, lembra.

Proibições de fala e cultura do cancelamento ameaçam a democracia

Enquanto uns gritam “fake news!”, o outro lado responde “cancelando” o adversário. Em clima de populismo, intolerância e demagogia, as regras do discurso entram em colapso. Mas há uma solução, opina Alexander Görlach.

Sejam liberais versus republicanos nos Estados Unidos, pró-Brexit versus anti-Brexit no Reino Unido: quando, apesar de todos os esforços, não é possível evitar um confronto, a coisa lembra um encontro imediato de terceiro grau. Um lado acusa o outro de disseminar fake news, ao que este responde “cancelando” seus atacantes.

“Fake news!”, bradam os que alegam que uma elite de esquerda, cosmopolitas e a mídia estão reconfigurando a sociedade. Entre os que repetem esse canto de guerra, estão os seguidores do presidente americano, Donald Trump, ao afirmar que a pandemia de covid-19 não passaria de uma fraude dos democratas, não sendo, portanto, genuína, e sim “falsa”.

Os assim difamados, por sua vez, traçam uma nítida linha divisória entre si e os outros. Definem-se com rigor palavras, seu significado e os contextos em que podem ser ditas, de forma que qualquer dissidente é punido com um banimento que lembra as excomunhões proferidas pela Igreja Católica na Idade Média.

Em 2015, o Nobel de Medicina inglês Tim Hunt teve um gostinho disso, depois de meter os pés pelas mãos com um comentário. Numa conferência, ele afirmou que as (mulheres) cientistas “se apaixonam por você, e quando você as critica, elas choram”. Foram inúteis todas as suas desculpas por essa declaração imbecil, ele teve que devolver diversas distinções e perdeu o título de professor honorário. Bastou um lapso para Hunt e o conjunto de sua obra serem “cancelados”.Censura,Liberdade,Blog do Mesquita 05

Em tal clima de tensão social, não espanta que, mesmo num país como os Estados Unidos, conhecido por sua veneração extrema da livre expressão, não se tenha mais paciência para essa briga.

Um estudo de 2018 mostrou que os membros da ala republicana estavam cansados das proibições de fala que sentiam ser-lhes impostas, as percebiam como ataque à própria identidade e não estavam mais dispostos a aceitá-las. No espectro esquerdista, liberal, os consultados admitiram não dar mais conta de aprender e empregar todos os novos termos politicamente corretos com que seus colegas apareciam a cada dia.

Recentemente, intelectuais de prestígio mundial, como os autores Salman Rushdie, Margaret Atwood e J.K. Rowling, ou o linguista Noam Chomsky, assinaram uma carta aberta criticando duramente a ala liberal e seu gosto de “cancelar”.

O escrito veio em reação à saída da comentarista conservadora Bari Weiss do The New York Times. Ela fora expressamente contratada após a eleição de Trump para assegurar que opiniões consideradas controversas pelo espectro liberal seguissem sendo publicadas no jornal, mas jogou a toalha depois de três anos, por ser impedida de cumprir exatamente essa função.

Uma sociedade em que proibições de fala abrangentes dominam, e o medo governa as línguas, acabará deixando de ser uma democracia. Mas, como reencontrar o caminho do debate construtivo nos EUA, Reino Unido, Alemanha e outros?Blog do Mesquita,Censura,Constituição Federal (3)

Em primeiro lugar, é preciso definir novamente o que são fatos. Desde a Antiguidade Clássica, distinguimos doxa, opinião, de episteme, conhecimento. Fatos, a base do saber, geram opiniões diversas. Uma opinião, contudo, não leva a conhecimento fundamentado.

Por outro lado, fatos empíricos, sozinhos, não resolvem problemas. Toda pesquisa de ciências sociais, por maior que seja a precisão metodológica ao realizá-la, termina com a pergunta: o que significam os dados assim compilados?

Aqui sempre houve diferentes abordagens e pontos de vista – e é preciso que haja. Para reconhecê-los, é preciso a autoavaliação saudável – nossos ancestrais chamavam isso “humildade” – de que nunca se pode saber tudo, e que por isso é também preciso escutar opiniões alheias.

Discurso é a mediação entre as diferentes interpretações possíveis dos fatos. E como fatos não são opinião, essas possibilidades têm limites. Quem se move além desses limites não está mais jogando segundo as regras do discurso. É certo que cada um tem direito à própria opinião, mas isso não implica que toda opinião assim expressa seja automaticamente verdadeira.

Quem valida a verdade de uma opinião não é quem a expressa, mas sim o poder lógico e verbal com que os fatos são apresentados, interpretados e avaliados.

Nos últimos 15 anos, despontaram, por todo o mundo democrático, protagonistas que gradualmente deslocaram os limites entre interpretação legítima e mera sensação visceral. Para que sua vitória parcial não culmine num triunfo, que ao mesmo tempo seria o fim da democracia, é preciso que, num grande esforço conjunto, os indivíduos de boa vontade, no espectro de esquerda, verde, liberal e conservador, reassumam o controle dos fatos. Uma vez que estes sejam arrancados das mãos dos populistas e demagogos, pode recomeçar uma luta justa e construtiva pelo melhor caminho para a sociedade democrática.

Alexander Görlach vive em Nova York e é membro sênior do Carnegie Council para Ética e Assuntos Internacionais e pesquisador sênior associado da Universidade de Cambridge, junto ao Instituto para Religião e Estudos Internacionais. Com doutorado em linguística e teologia, foi também bolsista e acadêmico visitante na Universidade de Harvard de 2014 a 2017 e acadêmico visitante na Universidade Nacional de Taiwan e na Universidade da Cidade de Hong Kong de 2017 a 2018.

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ONU denuncia “violações graves dos direitos humanos” durante protestos no Chile

Alto Comissariado para os Direitos Humanos, chefiado pela ex-presidenta Michelle Bachelet, recebeu relatos de execuções simuladas

Policiais prendem manifestante durante um protesto contra o Governo do Chile em Santiago, dia 14 de novembro.
Policiais prendem manifestante durante um protesto contra o Governo do Chile em Santiago, dia 14 de novembro. GORAN 
  • Manifestantes suben al monumento al general Baquedano durante el octavo día de protestas contra el gobierno del presidente Sebastián Piñera el 25 de octubre de 2019 en Santiago, Chile.
  • Protestas en Santiago de Chile contra la política de Sebastián Piñera, el martes, 29 de octubre.
  • Una protesta en Santiago de Chile.

Por outro lado, o relatório reconhece que o Governo chileno cooperou, sustentou um “diálogo franco” e entregou “amplas informações”, facilitando o “acesso rápido e sem entraves” aos locais de detenção. No entanto, o ACNUDH denunciou que tanto os Carabineiros (polícia), como o Exército não aderiram às normas e padrões internacionais sobre o uso da força. O relatório afirma que das 26 investigações do Ministério Público por mortes ocorridas no contexto das manifestações no Chile, quatro casos se devem a ações que envolvem agentes estatais. Romario Veloz Cortés pertence a esse grupo: cidadão equatoriano de 26 anos, faleceu em La Serena, cerca de 500 quilômetros ao norte do Santiago, devido a disparos com munição letal feitos por pessoal militar, um fato que está sendo investigado. “Busco justiça… justiça para todos os que morreram”, afirmou sua mãe, segundo o relatório do ACNUDH.

As Nações Unidas apontam a grande quantidade de pessoas lesionadas durante os protestos, incluindo os feridos nos olhos pelo uso de balas de borracha. “O ACNUDH considera que o número alarmantemente alto de pessoas com lesões nos olhos ou no rosto (aproximadamente 350) mostra que há razões fundadas para acreditar que as armas menos letais foram usadas de maneira indiscriminada”, afirma o Alto Comissariado, acrescentando que, embora o uso das balas de borracha estivesse suspenso enquanto sua composição exata é determinada – elas continham apenas 20% de borracha, segundo dois estudos acadêmicos –, “esta ordem não foi completamente implementada”.

O organismo internacional menciona o caso de Gustavo Gatica, o estudante de 21 anos que em 8 de novembro foi ferido em ambos os olhos por disparos dos Carabineiros e perdeu totalmente a visão. “As autoridades tinham informação sobre o alcance das lesões causadas neste contexto desde em 22 de outubro. Entretanto, as medidas tomadas não foram imediatas e efetivas”, afirma o departamento liderado por Bachelet – que foi também a primeira mulher a ocupar o ministério da Defesa no Chile, durante o mandato de Ricardo Lagos (2000-2006).

Torturas e maus tratos

O ACNUDH dedica um espaço do seu relatório de 35 páginas à “tortura e maus tratos”, dos quais afirma ter reunido 133 casos. Em 28 de novembro, o Ministério Público tinha iniciado 44 investigações nesta linha. Na maioria, diz o escritório da ONU, “os supostos autores são membros de Carabineiros”. O relatório enumera as formas mais comuns que teriam sido empregadas: socos fortes, chutes, coronhadas e golpes de cassetete, frequentemente realizados por vários agentes ao mesmo tempo. “O ACNUDH também recebeu informação sobre vários casos de pessoas atropeladas por veículos e motocicletas das forças de segurança” e detalha relatos que denunciam “tortura psicológica como ameaças de morte, ameaças de fazer a pessoa ‘desaparecer’, ameaças de estupro, surras em familiares e amigos na frente da pessoa e ameaças de agressão contra os familiares”.

O organismo liderado por Bachelet recebeu “relatos isolados” de execuções simuladas por parte dos Carabineros e das forças militares, como a descrita por um chileno de 28 anos. “O Exército me jogou no chão, senti golpes com a coronha de uma arma na minha cabeça e na coluna vertebral. Quando entramos no veículo militar, eles continuavam nos batendo e disseram: ‘Levemos [os detidos] ao quartel e vejamos o quanto eles aguentam com a eletricidade’. Suplicamos que nos deixassem ir embora. Nos tiraram [do veículo] na escuridão, e pude reconhecer que estávamos na parte de trás do cemitério. Havia uns 12 soldados atrás de nós, que carregaram suas armas. Nos fizeram gritar ‘perdoe-me, Chile’. Nesse momento, pensei que atirariam em nós. Choramos, demos as mãos e nos despedimos.”

Sobre violência sexual – reportada antes pelo HRW –, o ACNUDH reuniu 24 casos, que incluem “estupro, ameaças de estupro, tratamento degradante (como ser obrigado a se despir), comentários homofóbicos ou misóginos, golpes e atos que causam dor nos genitais e manuseios”.

As Nações Unidas incluem o relato de Carla, de 16 anos: “Foi detida pelos Carabineros em Viña del Mar com seu pai em 5 de novembro. No momento da detenção, seu pai avisou os Carabineros que ela tinha uma deficiência psicossocial. Ela disse ter sido forçada a mostrar os seios, ter sido assediada fisicamente com um bastão/cassetete e ter sido ameaçada de que seria desaparecida.”

Com base nos dados do Ministério da Justiça, o ACNUDH estima que, entre 19 de outubro e 6 de dezembro, houve 28.210 pessoas detidas, das quais 1.615 permanecem em prisão preventiva. Ao se referir a casos de detenções ilegais ou arbitrárias, o organismo detalha o relato de Jacinto, de 20 anos: “Informou ter sido detido por uma camionete vermelha às 5:00 da manhã; colocaram um capuz em sua cabeça e o levaram a um edifício onde teria sido interrogado, ameaçado e torturado. Segundo os relatos, inseriram agulhas debaixo de suas unhas e lhe pediram que dissesse ‘tudo o que sabia sobre os protestos’.”

O ACNUDH mencionou a destruição da infraestrutura pública e privada no contexto da explosão social e entrevistou policiais feridos durante os protestos, que, de acordo com o Ministério do Interior, chegam a 2.705 efetivos. Também fez 21 recomendações ao Estado chileno, incluindo uma série de medidas relativas aos Carabineros, como “estabelecer um mecanismo para coletar, sistematizar e difundir as informações sobre violações dos direitos humanos” e assegurar que o processo de elaboração de uma nova Constituição seja inclusivo, participativo e transparente, “inclusive garantindo a paridade de gênero – 50% homens e 50% mulheres – durante o processo e a participação de povos indígenas”. “Os direitos humanos devem estar no centro deste debate nacional”, concluiu o organismo liderado por Bachelet em Genebra.

A grande batalha, agora, é entre autoritarismo e democracia

Esquerda e direita já não nos servem. O mundo e seus medos estão revolucionando a linguagem da política

Manifestantes contrários e favoráveis ao Impeachment da presidenta Dilma Rousseff se reúnem para assistir no telão à votação do processo, em 17 de abril de 2016.
Manifestantes contrários e favoráveis ao Impeachment da presidenta Dilma Rousseff se reúnem para assistir no telão à votação do processo, em 17 de abril de 2016.FÁBIO RODRIGUES POZZEBOM

A linguística se tornou estreita para analisar as convulsões políticas que sacodem o mundo. Os velhos termos “esquerda” e “direita” não nos servem mais. Agora, o debate é entre autoritarismo e democracia. Essa é a grande batalha. Aqui no Brasil e em todo o planeta. Tanto não servem mais os velhos clichês da esquerda e da direita que criamos os termos “extrema esquerda” e “extrema direita”. Dizer que Bolsonaro, Putin ou Trump, por exemplo, são de direita significaria, na prática, fazer-lhes um elogio.

O mundo se dilacera hoje mais entre autoritarismo e democracia. Entre aqueles que lutam para cercear as liberdades individuais e coletivas e a democracia cada vez mais desprezada e ameaçada por nostalgias ditatoriais.

É de esquerda ou de direita o presidente Jair Bolsonaro, que em seus 28 anos como deputado federal quase sempre votou com o Partido dos Trabalhadores, o PT? É nacionalista ou ecumênico? E Lula é de esquerda? Era quando, em seu segundo mandato, quis impor o que chamou de “controle social” dos meios de comunicação com uma cartilha em que uma comissão de fora da mídia deveria atribuir pontos de boa ou má conduta aos jornalistas? É agora que, livre da prisão, busca de novo na sombra conexões com a direita e o centro enquanto o PT sangra?

Bolsonaro é de direita quando ataca o jornal Folha de S.Paulo, ao qual ameaça com sanções? Por que a direita tem que ser contra a liberdade de expressão? Não, Bolsonaro não é de direita ― se fosse, isso não seria um pecado. Ele é um autoritário com nostalgias de velhas ditaduras, paixão pela violência e a tortura e contrário a tudo o que cheire a direitos humanos e liberdades individuais.

Os termos direita e esquerda sempre foram ambíguos, até mesmo na religião. Na Bíblia se diz que Deus colocará “à sua direita” os justos e “à esquerda”, os condenados. Deus é de direita ou de esquerda? Na linguagem popular, quando tudo dá errado dizemos que “levantamos com o pé esquerdo”.

Não, os velhos rótulos do passado não nos servem mais. Hoje, a grande batalha mundial se dá entre o autoritarismo e o respeito à liberdade de expressão e à cultura. Entre o canibalismo político que se nutre de corrupções e privilégios vergonhosos, seja na direita ou na esquerda, e os valores da democracia cada vez mais ameaçada pelas velhas nostalgias nazifascistas.

O mundo hoje está dividido entre a fidelidade aos valores da liberdade, de todas as liberdades que nos permitam viver sem as correntes do autoritarismo que nos sufoca, e os valores que fizeram a humanidade viver em paz. A guerra e suas ditaduras são o autoritarismo em estado puro. É o ápice da tirania incensada no altar das falsas liberdades.

Que os termos direita e esquerda não nos servem mais para definir políticas concretas está cada vez mais evidente no mundo. Hoje, uma onda de autoritarismo, de negação dos direitos fundamentais, de obsessão contra as liberdades humanas que distinguem o ser racional, atravessa o planeta. Os analistas internacionais quebram a cabeça para tentar entender esse novo fenômeno que percorre o planeta e convulsiona até a velha e moderna Europa, sede dos esplendores do Renascimento.

Talvez seja preciso voltar a Freud, que analisou como poucos a necessidade que o ser humano, frágil e com medo de suas pulsões de morte, tem de segurança e de ordem. O pai da psicanálise nos explicou que a insegurança do ser humano e seus medos ancestrais fazem com que em tempos de turbulência e perda de identidade, como os que estamos vivendo, recorramos à figura paterna e autoritária, que nos oferece segurança.

Todas as grandes neuroses pessoais ou coletivas, as depressões em massa que sacodem todos os continentes, os medos da liberdade e dos diferentes derivam dessa insegurança inata do Homo sapiens, que se debate entre a nostalgia da liberdade perdida no paraíso e o medo da solidão radical, algo que projetamos diante de todos os diferentes, vistos como inimigos.

Mais que entre direita e esquerda, que já pouco significam, o mundo hoje se divide entre os anseios de liberdade, que são a essência da vida pessoal e coletiva, e os medos do autoritarismo castrador que nos corta as asas e nos impede de respirar o ar da liberdade.

Hoje o mundo está cada vez mais dividido de norte a sul e de leste a oeste entre os que, garroteados pelo medo, tentam erguer muros que nos separem, e os que, em nome da liberdade, que é o cerne da existência, preferem eliminar fronteiras.

Parece que estamos diante das velhas guerras ideológicas entre liberdade e escravidão, entre os que preferem viver em liberdade, embora ameaçados, do que em uma escravidão que nos oferece a miragem da segurança. Quem vencerá a batalha entre o autoritarismo que se impõe como um novo dogma e a democracia, que é o espelho dos anseios mais profundos do ser humano criado para cuidar do mundo e não para prostituí-lo?