Pedofilia: pai se passa por filho para flagrar pedófilo

Homem conta ao G1 a estratégia para defender o filho de 13 anos.

Suposto aliciador foi preso.

Quando chegar a uma audiência ma justiça, o pai de dois meninos e uma menina vai encarar uma história que resultou na detenção de um suspeito de aliciamento de menores. O homem, que prefere ser identificado somente como F., embarcou nessa história ao descobrir que seu filho mais velho — que completa 14 anos nesta terça — recebia na internet propostas sexuais de um suspeito de pedofilia com 32 anos. A partir daí, a rotina da família mudou completamente: houve ameaças de morte, flagrante e também mudanças na rotina para se proteger de um desconhecido que, segundo o pai do garoto, sabia o telefone e endereço da família.

“Minha vida virou de cabeça para baixo”, resume o pai, que relatou sua história ao G1. A emboscada que ele montou acabou não dando certo. Mas dois dias depois, com a ação de um outro pai que também contou ter o filho ameaçado, o suposto aliciador foi preso.

A reportagem tentou entrar em contato com Ronaldo José dos Santos, advogado do suspeito, diversas vezes por telefone, na sexta-feira (23), segunda-feira (26) e terça-feira (27), mas não obteve sucesso. No entanto, nesta terça, a reportagem do G1 encontrou o advogado no local onde será realizada a audiência. Ele afirmou que havia acabado de pegar o processo e, por isso, não teve tempo de chamar testemunhas de defesa.

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A suspeita

O pai começou a suspeitar de algo errado em julho, quando seu filho, então com 13 anos, passou a falar sobre assuntos que não faziam parte de sua realidade. “Eram uns papos estranhos, de que ele compraria uma moto e também participaria de programas na TV. Meu filho sempre gostou de moto, mas ainda não tem idade para tirar carteira e não teria como comprar uma”, contou o homem, que vive com a família no Estado do Rio de Janeiro.

Desconfiados das conversas estranhas, pai e mãe do jovem decidiram conferir, no computador da casa, o histórico de mensagens enviadas e recebidas em um comunicador instantâneo.

Foi quando descobriram as conversas virtuais entre o adolescente e um homem que insistia para que o menor tivesse relações sexuais em troca de dinheiro. Depois de muita resistência, o jovem acabou concordando em se encontrar com o adulto se ganhasse uma moto. As participações em programas de TV também seriam ideia do homem, que dizia ser produtor cultural antes de ser preso.

“Comecei a suspeitar de algo errado quando meu filho começou com uns papos estranhos, de que compraria uma moto e participaria de programas de TV.”

O encontro não chegou a acontecer. No dia combinado, o garoto teve febre alta e não pôde sair de casa. Segundo F., o relacionamento entre os dois começou em julho, na rua, quando o homem parou para pedir informações ao adolescente. Na mesma ocasião, ele ofereceu R$ 100 em troca de um programa sexual e o garoto negou. O homem então conseguiu o endereço do comunicador instantâneo do jovem com alguém das redondezas e usou o ambiente virtual para insistir na proposta.

Uma pesquisa realizada pela empresa de segurança Trend Micro indica que na internet os pedófilos seguem um padrão de comportamento. “Eles adotam estratégias de manipulação para ultrapassar a barreira das más intenções. Esse é o processo pelo qual convencem os jovens a saírem do relacionamento on-line para um encontro off-line”, explica Hernán Armbruster, gerente da companhia. Na maioria das vezes, continua o estudo, isso envolve bajulação, simpatia, presentes, dinheiro e até mesmo trabalhos como modelo.

“Sempre alertamos [nosso filho] a ter cuidado e não falar com estranhos. Mas, quando se sentiu seguro e começou a acreditar nessa pessoa, ele forneceu informações pessoais, como o telefone de casa e até nosso endereço.”

Liberdade vigiada

Após a descoberta, o pai decidiu ter uma conversa séria com o filho, revelou ter visto as mensagens, mas o jovem não admitiu conversar com o estranho. “Fiquei bastante assustado, pois temos um relacionamento muito aberto. Se ele negou as informações para mim, fico imaginando outros pais que não têm um contato tão estreito com o filho.”

Mesmo sem a confissão do adolescente, F. foi até a delegacia mais próxima. As autoridades o instruíram a limitar a liberdade de seu filho, e foi o que ele fez. “Sempre o alertamos a ter cuidado e não falar com estranhos. Mas, quando se sentiu seguro e começou a acreditar nessa pessoa, ele forneceu informações pessoais, como o telefone de casa e até nosso endereço.”

Por isso, o adolescente que ia para a escola de ônibus passou a andar de perua escolar e todos os seus passeios — mesmo uma simples ida à locadora – ganharam a companhia de um adulto. No ambiente virtual, os pais bloquearam comunicador instantâneo e limitaram a navegação do jovem. “Passamos a viver um inferno, e meu filho perdeu toda a liberdade que tinha”, resume F. A rotina da família foi essa de julho a setembro, quando o homem que havia sido bloqueado na internet resolveu se manifestar no mundo off-line.

Ameaça de morte

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