David Mourão Ferreira – E por vezes as noites duram meses

Boa noite.
E por vezes as noites duram meses
David Mourão Ferreira

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.

Pintura de Tekla McInerney

Escada sem corrimão – David Mourão-Ferreira – Poesia

Boa noite.
Escada sem corrimão
David Mourão-Ferreira

É uma escada em caracol
e que não tem corrimão.
Vai a caminho do Sol
mas nunca passa do chão.
Os degraus, quanto mais altos,
mais estragados estão.
Nem sustos, nem sobressaltos
servem sequer de lição.
Quem tem medo não a sobe
Quem tem sonhos também não.
Há quem chegue a deitar fora
o lastro do coração.
Sobe-se numa corrida.
Correm-se p’rigos em vão.
Adivinhaste: é a vida
a escada sem corrimão.

Poesia,BlogdoMesquita 02

David Mourão Ferreira – Poema do amor difícil

Poema do amor difícil
David Mourão Ferreira

A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa…

Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.

Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.

E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.

Pintura de Leon Spilliaert

Poesia,BlogdoMesquita

David Mourão-Ferreira – Penépole

Penépole
David Mourão-Ferreira

Mais do que um sonho: comoção!
Sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

E recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.

Pintura de Paul Klee

Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog do Mesquita 00 B

David Mourão-Ferreira – Presídio – Poesia

Presídio
David Mourão-Ferreira

Nem todo o corpo é de carne…Não ,nem todo.
Que dizer do pescoço,às vezes mármore,
às linho,lago,tronco de árvore,
nuvem,ou ave,ao tato sempre pouco…?
e o ventre,incosistente como o lodo?…

e o morno gradeamento dos teus braços?
Não,meu amor…Nem todo o corpo é carne:
é também água ,terra,vento,fogo..
É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;

no parque da memória o fugidio
vulto da Primavera em pleno Outono…
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

Fotografia de KattyMonsmert

David Mourão-Ferreira – Versos na tarde – 20/07/2017

E por Vezes
David Mourão-Ferreira¹

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramosE por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira, in ‘Matura Idade’

¹David Mourão-Ferreira
*Lisboa, Portugal – 24 de fevereiro de 1927
+Lisboa, Portugal – 16 de junho de 1996
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David Mourão Ferreira – Versos na tarde – 16/02/2015

Soneto
David Mourão-Ferreira ¹

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

¹ David Mourão-Ferreira
* Portugal – 1927 d.C
+ Portugal – 1996 d.C


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David Mourão Ferreira – Versos na tarde – 09/05/2014

Poema
David Mourão Ferreira ¹

Mais do que um sonho: comoção!
Sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

E recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.

¹David Mourão Ferreira
* Portugal – 1927 d.C
+ Portugal – 1996 d.C


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David Mourão-Ferreira – Versos na tarde

Praia do Esquecimento
David Mourão-Ferreira ¹

Fujo da sombra; cerro os olhos: não há nada.
A minha vida nem consente
rumor de gente
na praia desolada.

Apenas decisão de esquecimento:
mas só neste momento eu a descubro
como a um fruto rubro
de que, sem já sabê-lo, me sustento.

E do Sol amarelo que há no céu
somente sei que me queimou a pele.
Juro: nem dei por ele
quando nasceu.

¹ David Mourão-Ferreira
* Portugal – 1927 d.C
+ Portugal – 1996 d.C


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David Mourão-Ferreira – Versos na tarde

Soneto do amor difícil
David Mourão-Ferreira ¹

A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa…

Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.

Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe

de súbito surgido à flor dos limos
E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.

¹ David Mourão-Ferreira
* Portugal – 1927 d.C
+ Portugal – 1996 d.C


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