Eike Batista e a mídia

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Reportagem do O Estado de S. Paulo de domingo (7/7), assinada por Irany Tereza e Mariana Durão, prestou bom serviço aos mostrar que “Bolha da OGX foi inflada por 55 anúncios de descobertas de petróleo”.

Levantamento feito pelo jornal constatou que a petroleira de Eike Batista fez 105 comunicados ao mercado em dois anos e meio, grande parte deles anunciando descobertas em um mesmo poço; CVM vai investigar ‘conjunto da obra’ e o efeito no preço das ações’.”

De outubro de 2009 a maio de 2012, contabilizaram as repórteres, “a OGX protagonizou (…) 55 anúncios de descoberta de petróleo ou declarações de comercialidade (jargão que indica, no setor de petróleo, que uma área pesquisada vai virar um campo produtor).

A cada comunicado promissor, o mercado reagia imediatamente e a empresa acompanhava os saltos no gráfico de suas ações”.

Esse caso recentíssimo é uma ilustração contundente da maneira como tantos assuntos são processados pelo “embromódromo” oficial brasileiro (ver “Fatos levaram multidões às ruas”).

Na mesma página doEstadão, Sérgio Torres analisa a linguagem “da elogiosa autobiografia O X da Questão”, de Eike Batista.

E pinça esta pérola: “A OGX tem no seu DNA algo especial que herdou de mim: a vontade de encantar e surpreender”. Sabrina Valle, em outra matéria, diz que “Reguladores, BNDES e grandes bancos privados não viram problemas nas promessas das empresas de Eike”.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Alguma coisa por nada

Essa pequena amostra do que os jornais deram desde a queda do valor de ações de empresas X não depõe contra Eike e sua turma de comunicação. Depõe contra a própria imprensa.

E, ao mesmo tempo, contra os leitores que se deixaram embair pela melodia tão atraente. Fizeram-no porque o quiseram.

No livro Tudo faz sentido (It All Adds Up, traduzido em 2001 no Brasil), Saul Bellow relata entrevista que fez com o trambiqueiro-mor de Chicago, Yellow Kid. É uma conversa muito engraçada.

A horas tantas, Bellow pergunta a Kid (nascido Joseph Weill; viveu 100 anos): você não tem remorso por ter dado golpe em tanta gente? (Tratava-se de uma operação que prometia retornos espetaculares mediante quantias modestas; o vigarista tinha alugado uma loja com grande visibilidade e contratado recepcionistas muito atraentes.)

Kid respondeu: “Não. Eles queriam levar alguma coisa por nada. Eu dava nada por alguma coisa”.
Por Mauro Malin/Observatório da Imprensa

Leia também => Ascensão e queda – M.M.

Daniel Dantas, Cacciola e um monte de perguntas

Brasil: da série “perguntar não ofende”.

Mais perguntas do que respostas
Do blog da Lucia Hippolito

Continuo cheia de dúvidas a respeito deste caso Daniel Dantas.

Se eu preencher um cheque de mais de R$1.000,00, tenho que dizer para quem é o cheque, assinar atrás. E recebo um telefonema da minha gerente me perguntando se o cheque é meu mesmo.

Isto acontece comigo, com você e com todos os correntistas de bancos sérios.

Entretanto, há mais de uma semana, o noticiário diz que um dos maiores bancos do país não prestou informações sobre uma movimentação financeira de dezenas de milhões de reais, e de um de seus proprietários.

Independentemente do devido processo judicial, o que aconteceu na esfera administrativa? O que as autoridades responsáveis pela regulação têm a dizer?

A resposta a esta denúncia é muito simples e demora no máximo dois dias: o Opportunity entregou ou não entregou as informações? Se não entregou, quais foram as sanções aplicadas? Como o banco continua funcionando?

Os responsáveis deveriam ter sido sumariamente afastados até o final do processo, ou mesmo presos.

Só o Opportunity deixou de enviar informações ou outros bancos também escolhem o que informar e o que não informar, ao mesmo tempo em que exigem que seus clientes prestem as informações?

O fato é que alguém falhou gravemente neste caso. Ou a Polícia Federal está equivocada ou autoridades do governo federal devem prestar contas à sociedade: Coaf, Banco Central, CVM, entre outros órgãos reguladores do sistema financeiro. Todos falharam gravemente e continuam devendo explicações.

Finalmente, uma dúvida sobre Salvatore Cacciola, que acaba de desembarcar no Brasil. Há outros condenados junto com ele no mesmo processo.

Mas enquanto não se chega à última instância, os “colegas” de Cacciola aguardam em liberdade, trabalhando livremente. Por que só Cacciola deve ir preso, se foi o único até agora que passou algum tempo na cadeia — dez meses em Mônaco?

Enquanto isso, peço a atenção de vocês para algumas questões que estão me intrigando:

1. por que um delegado que estava no comando da mais importante investigação de crimes financeiros (com evidentes ramificações políticas) já ocorrida no país pede afastamento sem ter terminado o trabalho para… freqüentar um curso de aperfeiçoamento??!!!

2. por que ainda não se conhece o conteúdo dos CINCO HDs encontrados um nicho escondido em uma parede falsa na residência do banqueiro Daniel Dantas? Afinal, este material foi recolhido há dias.

3. existe alguma conexão entre o que se espera (ou se teme) encontrar nos HDs e o súbito e irresistível desejo do delegado Protógenes Queirós de prosseguir seu aprimoramento funcional e intelectual num cursinho de aperfeiçoamento, que não pode esperar o final das investigações?

Muitas perguntas e, até agora, pouquíssimas respostas.