Ministério da Saúde pressiona Manaus a usar cloroquina contra COVID-19

Método chamado de ‘tratamento precoce’ não é recomendado pela Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI)

Medicamentos sem comprovação científica, como ivermectina cloroquina, estão sendo indicados pelo Ministério da Saúde para o chamado “tratamento precoce” contra o novo coronavírus, mesmo com a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) contestando esse tipo de tratamento. A Prefeitura de Manaus, capital do Amazonas, foi quem recebeu a “indicação”.

A informação é da Folha de São Paulo. A pasta ainda pediu autorização para fiscalizar as Unidades Básicas de Saúde como forma de “encorajar” esse tipo de tratamento.

A ideia da visita, que seria iniciada nesta segunda-feira (12/01), é de “que seja difundido e adotado o tratamento precoce como forma de diminuir o número de internamentos e óbitos decorrentes da doença”.
“Aproveitamos a oportunidade para ressaltar a comprovação científica sobre o papel das medicações antivirais orientadas pelo Ministério da Saúde, tornando, dessa forma, inadmissível, diante da gravidade da situação de saúde em Manaus a não adoção da referida orientação”, continua documento enviado à Prefeitura de Manaus, mesmo sem comprovação de autoridades científicas.
Segundo dados divulgados nessa segunda-feira (11/01) pelo Ministério da Saúde, o Brasil tem 8,13 milhões de casos de COVID-19, com 203,5 mil mortes.

Coronavírus na Antártica: base de pesquisa chilena relata 36 casos de covid-19

O coronavírus atingiu o continente Antártico, que até agora estava livre do covid-19.

O exército chileno registrou 36 casos na segunda-feira em sua estação de pesquisa Bernardo O’Higgins, na Península Antártica.

Os 36, dos quais 26 são militares e 10 trabalhadores da manutenção, foram evacuados para o Chile.

A notícia significa que agora todos os continentes registraram casos de covid-19.

O anúncio vem poucos dias depois que a Marinha do Chile confirmou três casos no navio Sargento Aldea, que havia levado suprimentos e pessoal para a estação de pesquisas.

O navio chegou à estação de pesquisa em 27 de novembro e navegou de volta ao Chile em 10 de dezembro.

Os três tripulantes deram positivo no retorno à base naval chilena em Talcahuano, no sul do país.
A Marinha do Chile disse que todos os que embarcaram na viagem à Antártica fizeram testes moleculares e que todos os resultados foram negativos.

Sexto país mais afetado

A estação de pesquisa Bernardo O’Higgins é uma das quatro bases permanentes que o Chile tem na Antártica e é operada pelo exército.

A representação chilena na Antártica toma medidas de prevenção do coronavírus desde março, como distanciamento social, uso de máscaras e suspensão das atividades.
Além disso, no final daquele mês, o pessoal que trabalhava temporariamente nas bases saiu.
Até esta terça-feira, o Chile era o sexto país da América Latina mais afetado pelo covid-19, com mais de 589.000 casos confirmados de coronavírus.

O Serviço Antártico Britânico anunciou em agosto que estava reduzindo sua investigação no pólo sul devido ao coronavírus.

Vacina Sputnik V é eficaz contra nova mutação do coronavírus na Europa, diz RFPI

Frascos da vacina Sputnik VCredit…Sputnik / RFPI

Dmitriev fez a declaração nesta segunda (21), durante assinatura de memorando entre o RFPI e outras organizações ligadas com a produção de vacinas no combate à covid-19:

“Também confirmamos que, de acordo com nossas informações, a Sputnik V é altamente eficaz contra a nova mutação do vírus encontrada na Europa. É tão eficaz contra ela quanto contra as cepas existentes”, disse ele enquanto assinava um memorando de intenções entre o Centro Nacional de Pesquisa de Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya, as farmacêuticas R-Farm e AstraZeneca para cooperar no desenvolvimento de uma vacina contra o coronavírus.

Parceria com o Ocidente

O diretor-geral também sublinhou a disposição da Rússia de cooperar com outros países para melhor combater a pandemia:
“Estamos também prontos a cooperar, em particular com os países ocidentais, para fornecer a Sputnik V, por exemplo, àquelas categorias de cidadãos que têm alergias graves e que, como resultado de novas informações de que uma série de outras vacinas causam reações alérgicas graves, não podem usá-las. Estamos prontos para fornecer a Sputnik V aos países ocidentais, inclusive para esta categoria de pessoas.”

(com agência Sputnik Brasil)

Argentina aprova imposto sobre grandes fortunas para financiar a luta contra o coronavírus

Iniciativa oficial impõe alíquota de até 3,5% a fortunas declaradas equivalentes a mais de 13 milhões de reais

A Argentina cobrará um imposto extraordinário sobre grandes fortunas para financiar a luta contra a pandemia. Depois de um acirrado debate, os senadores que se alinham com o Governo aprovaram por 42 votos a 26 uma lei que tributa uma única vez patrimônios de mais de 200 milhões de pesos (cerca de 13 milhões de reais). O percentual de taxação varia entre 2% e 3,5%, quando a fortuna declarada ao Tesouro ultrapassar 35 milhões de dólares (181 milhões de reais). O Executivo espera arrecadar cerca de 3,5 bilhões de dólares que prometeu destinar a planos produtivos e de saúde. A oposição considerou o imposto “confiscatório” e alertou que isso desestimularia os investimentos.

Governo argentino acelera agenda legislativa com projeto de lei sobre o aborto e imposto sobre grandes fortunas.

O imposto passou por um áspero debate na Câmara dos Deputados, onde o kirchnerismo o apresentou como um ato de justiça diante de uma das piores crises econômicas. A última previsão da OCDE é de queda de 12,9% no PIB argentino, a maior para um país do G20. O último relatório de pobreza elaborado pela Universidade Católica Argentina, que costuma antecipar os dados oficiais, constatou que 44,2% dos argentinos, o equivalente a 18 milhões de pessoas, não obtêm o suficiente para viver com dignidade. A cifra pressupõe que dois milhões de pessoas entraram na pobreza desde o início da pandemia, um número que poderia ter sido maior sem a ajuda do Governo. A Argentina é o nono país com o maior número de casos de coronavírus, com 1,5 milhão de infecções e quase 40.000 mortes.

A nova lei, que as autoridades chamaram de Aporte Solidário e Extraordinário, alcançará cerca de 12 mil pessoas, segundo cálculos provisórios da AFIP, a agência de arrecadação do Estado. Desse total, 380 pessoas estão no topo da escala de contribuição, com ativos declarados de mais de 35 milhões de dólares. O dinheiro que pagarem ao Fisco representará 55% do total arrecadado pelo novo imposto.

A lei aprofundou o fosso político que separa o kirchnerismo da oposição de direita. Em sua apresentação ao Senado, o governista Carlos Caserío disse que o imposto é “único, para uma única vez, em uma situação trágica que o mundo vive e, evidentemente, em uma situação excepcional”. “É uma contribuição que pedimos aos altos e grandes patrimônios do país. Se considerarmos as pessoas alcançadas, teremos que os que têm que pagar são 0,02%. Para que as pessoas não se deixem enganar, porque parece que estamos perseguindo os ricos, 99,98% dos argentinos não precisam dar essa contribuição”, afirmou.

Para a oposição, que votou contra, o imposto vai contra os investimentos, é confiscatório e vai gerar um aumento irracional à já altíssima carga tributária da Argentina”, segundo o senador de San Juan, Roberto Basualdo. O senador Esteban Bullrich, ex-ministro da Educação de Mauricio Macri, acrescentou que o problema subjacente é que “o sistema tributário argentino deveria ser progressivo e não regressivo”. “Acreditamos que este Governo enfrentou muitos problemas e que a pandemia trouxe mais, mas a verdade é que mostrou uma grande falta de criatividade diante desses problemas”, disse. Um dos promotores da iniciativa foi o deputado Máximo Kirchner, filho da vice-presidenta Cristina Fernández de Kirchner.

Brasil patina no plano para vacina contra covid-19

Não foi surpresa, mas um constrangimento.

Apenas um dia depois do segundo turno das eleições municipais e dos discursos de Bruno Covas (PSDB) de que a pandemia era estável na cidade, o governador de São Paulo, João Doria, recuou no plano de retomada das atividades econômicas e sociais e determinou que todo o Estado retorne para a fase amarela de contenção contra a covid-19, incluindo a capital. A decisão de impor mais restrições é motivada pela piora nos indicadores do novo coronavírus no Estado, com a elevação de 12% nos óbitos e de 7% nas internações.

Enquanto mais cidades brasileiras se preparam para a segunda onda da covid-19, as esperanças se voltam para a vacina. Nesta segunda, o laboratório Moderna pediu autorização para vender a sua, após anunciar a eficácia de 100% contra a covid-19 grave. O problema é que o Brasil pode perder mais esse bonde. Reportagem de Beatriz Jucá mostra como o país está atrasado na formulação de uma estratégia de imunização nacional. Nesta terça-feira está prevista uma reunião para discutir uma primeira versão de um plano de vacinação para a covid-19. “O Ministério da Saúde está devendo esse planejamento. Espero que estejam planejando e só não tenham comunicado ainda à população. Pensar que não há um plano é desastroso”, afirma a microbiologista Natalia Pasternak.

Um dia após o desfecho nas urnas das eleições municipais, o mundo político faz seu balanço eleitoral de olho em 2022. Ao EL PAÍS o cientista político Fernando Abrucio diz que a pandemia “pegou Jair Bolsonaro de calças curtas” e evidenciou a necessidade de pautas concretas como emprego, saúde e educação, muito além dos discursos sobre costumes, que são a base do bolsonarismo, ou da aposta na polarização política.

“É uma onda muito forte essa. À direita e à esquerda, quem quiser ir bem nas eleições vai ter que modular o discurso e as ações de acordo com essa conjuntura toda que é uma novidade”, disse ele, que se fia na análise de entrevistas em profundidade feitas com eleitores. Também nesta edição, reportagem analisa o encolhimento do PT nas urnas, o pior desempenho desde a democratização.

Em São Paulo, o Beco do Batman, ponto turístico da Vila Madalena famoso por seus grafites coloridos, foi tingido de preto para protestar contra o assassinato do artista NegoVila no último sábado no bairro. O artista negro foi morto a tiros por um policial à paisana, que está preso. Artistas como OsGêmeos e Lino & Guru também prestaram suas homenagens.

Coronavírus: ‘país de maricas’ e outras 8 frases de Bolsonaro sobre pandemia que matou 162 mil pessoas no Brasil

Em novembro, em um espaço de dois dias, Bolsonaro comemorou a suspensão dos estudos envolvendo uma vacina a ser fabricada pelo Instituto Butantan, de São Paulo, e afirmou que o Brasil deveria “deixar de ser um país de maricas” por causa da pandemia.
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O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, tem mantido a média mensal de uma declaração amplamente controversa ou anticientífica sobre a pandemia de coronavírus, que já matou pelo menos 162 mil pessoas no Brasil — ou até mais de 250 mil, segundo estimativas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

No mês anterior, se voltou contra a obrigatoriedade da vacina, o que pode alimentar grupos antivacinas e ser inconstitucional, dizem médicos e juristas entrevistados pela BBC News Brasil.

Desde janeiro, Bolsonaro já defendeu distribuição de remédio sem comprovação científica, afirmou que não compraria vacinas de fabricantes chinesas ou negociadas com o governador paulista João Doria, classificou a covid-19 de “gripezinha” e resumiu sua visão sobre o avanço da pandemia em uma frase: “E daí?”

‘País de maricas’

“Não adianta fugir disso, fugir da realidade. Tem que deixar de ser um país de maricas. Olha que prato cheio para a imprensa. Prato cheio para a urubuzada que está ali atrás. Temos que enfrentar de peito aberto, lutar. Que geração é essa nossa?”, afirmou Bolsonaro durante uma cerimônia de lançamento de um programa federal de turismo em novembro.

Segundo o presidente, “tudo agora é pandemia, tem que acabar esse negócio, pô”.

Para ele, todo mundo vai morrer, e tentar conter o espalhamento do vírus não parece ser um motivo forte o suficiente para fechar a atividade econômica. Mas Bolsonaro se mostrou preocupado com o impacto do fim do auxílio emergencial federal em dezembro. “Como ficam esses quase 40 milhões de invisíveis? Perderam tudo agora.”

‘Mais uma que Jair Bolsonaro ganha’

Bolsonaro tem se colocado há meses contra a vacina da fabricante chinesa Sinovac, que será produzida pelo Butantan caso tenham segurança e eficácia asseguradas pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Em outubro, cancelou um acordo de cerca de R$ 2 bilhões do Ministério da Saúde para aquisição das doses. “Da China nós não compraremos. É decisão minha. Eu não acredito que ela transmita segurança suficiente

No mês seguinte, os testes envolvendo essa vacina foram interrompidos para que as autoridades investigassem a relação entre o imunizante e a morte de um voluntário que a recebeu — o Butantan nega qualquer ligação entre os dois.

Em seu perfil oficial do Facebook, o presidente celebrou essa interrupção. “Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Dória queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la. O Presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”, dizia a mensagem publicada pelo presidente, em resposta a um usuário que perguntou se o Brasil iria comprar essa vacina se ela fosse considerada segura pelas autoridades.

‘Vacina obrigatória só aqui no (cachorro) Faísca’

Desde agosto, Bolsonaro vem se posicionando contra a obrigatoriedade da vacinação contra a covid-19. Naquele mês, afirmou a apoiadores que “ninguém pode ser obrigado a tomar a vacina”.

Se por um lado a fala de Bolsonaro pode incentivar ainda mais o crescimento do movimento antivacina, dizem médicos, por outro ela está equivocada e seria inconstitucional, segundo constitucionalistas ouvidos pela BBC News Brasil.

E uma lei criada neste ano pelo próprio governo federal e sancionada por Bolsonaro dá poder aos Estados e municípios para aplicar uma vacinação compulsória contra a covid-19.

Em 24 de outubro, decidiu fazer piada com o tema. “Vacina obrigatória só aqui no Faísca”, disse em selfie com seu cachorro em uma postagem em redes sociais.

‘Não precisa entrar em pânico’

Em julho, ao confirmar que contraiu covid-19, o presidente afirmou que sente “mal-estar, cansaço, um pouco de dor muscular”.

“Quanto a repouso, isso é particular meu. Eu não sei ficar parado. Vou ficar despachando por vídeo conferência”, afirmou o presidente, que diz estar se sentindo “impaciente”. “Eu estou impaciente, mas vou seguir os protocolos. O cuidado mais importante é com seus entes queridos, os mais idosos. Os outros também, mas não precisa entrar em pânico. A vida continua”, disse.

‘Cobre do seu governador’

No dia 10 de junho, enquanto conversava com apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada, Bolsonaro mandou uma mulher que o questionava sobre o número de brasileiros mortos pela pandemia de covid-19 “cobrar do seu governador”.

Dois dias, pelo Twitter, ele havia dito: ”lembro à Nação que, por decisão do STF, as ações de combate à pandemia (fechamento do comércio e quarentena, p.ex.) ficaram sob total responsabilidade dos Governadores e dos Prefeitos”.

‘E daí?’

No final de abril, o presidente foi perguntado por um repórter o que ele tinha a dizer sobre o recorde diário de mortes notificadas naquele dia. Ao que o presidente respondeu:

“E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre”, disse, em referência ao seu nome, Jair Messias Bolsonaro.

Em seguida, o presidente perguntou se alguém gravava a entrevista ao vivo. Quando soube que sim, se direcionou a essa pessoa e disse que lamentava as mortes. “Lamento a situação que nós atravessamos com o vírus. Nos solidarizamos com as famílias que perderam seus entes queridos, que a grande parte eram pessoas idosas. Mas é a vida. Amanhã vou eu”, disse ele.

‘Vamos todos morrer um dia’

Bolsonaro se posiciona contra o isolamento social e dizia, nos primeiros meses da pandemia, que era preciso isolar apenas pessoas de saúde frágil.

No final de março, após um passeio que provocou aglomeração, o presidente disse: “Essa é uma realidade, o vírus tá aí. Vamos ter que enfrentá-lo, mas enfrentar como homem, porra. Não como um moleque. Vamos enfrentar o vírus com a realidade. É a vida. Tomos nós iremos morrer um dia.”

‘Gripezinha’

Alguns dias depois, em um pronunciamento veiculado na televisão, no dia 24 de março, quando o país já registrava mais de 10 mortes pelo vírus, o presidente criticou o fechamento de escolas e comércios. Ele ainda comparou a contaminação por coronavírus a uma “gripezinha” ou “resfriadinho” e disse que, se ficasse doente, não sofreria.

“Pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria acometido, quando muito, de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico, daquela conhecida televisão”, afirmou.

Brasileiros de ao menos seis capitais protestaram com panelaços no dia desta polêmica frase na televisão e nos dias seguintes.

‘Superdimensionado’

Em um de seus primeiros comentários públicos sobre a doença, o presidente disse que a imprensa exagerava sobre sua gravidade. “Tem a questão do coronavírus também que, no meu entender, está superdimensionado, o poder destruidor desse vírus”, disse o presidente em evento em Miami no dia 9 de março.

Alguns dias depois, havia mais de 20 autoridades infectadas na cúpula do governo federal. Parte dessas autoridades estava na comitiva do presidente que viajara aos Estados Unidos.

Maior jornal do mundo desmascara Trump e Bolsonaro

Foto: AFP

Uma reportagem do jornal The New York Times publicada hoje traça as semelhanças entre o presidente Jair Bolsonaro e o americano Donald Trump na condução da crise causada pelo novo coronavírus, destacando que ambos têm um “desprezo compartilhado pelo vírus” e construíram “uma campanha ideológica que minou a capacidade da América Latina de responder à covid-19”.

A América Latina tem um terço das mortes no mundo e sofreu mais com a covid-19 do que qualquer outra região no planeta. Os EUA são o país mais afetado em número de mortes, com 225.739, seguidos pelo Brasil, com 157.397, até agora.

O “NYT” destaca que sistemas de saúde pouco estruturados e cidades superlotadas tornaram a América Latina mais vulnerável à pandemia, mas “ao expulsar médicos, bloquear a assistência e promover falsas curas, Trump e Bolsonaro pioraram a situação, desmantelando as defesas”.

A reportagem afirma que os dois líderes são nacionalistas que desafiam a ciência e colocaram o crescimento econômico e as políticas de curto prazo à frente das advertências de saúde pública. Também lembra que ambos fizeram com que 10 mil médicos e enfermeiras cubanos de áreas pobres de nações como Brasil, Equador, Bolívia e El Salvador fossem mandados de volta para Cuba. Muitos partiram sem serem substituídos meses antes da chegada da pandemia, o que fragilizou a já deficiente estrutura de saúde.

“Em seguida, os dois líderes atacaram a agência internacional mais capaz de combater o vírus – a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) – citando seu envolvimento com o programa médico cubano. Com a ajuda de Bolsonaro, Trump quase levou a agência à falência ao reter o financiamento prometido no auge do surto”, afirma trecho da matéria.

O texto ainda lembra que Trump e Bolsonaro tentaram fazer da hidroxicloroquina a peça central da resposta à pandemia, apesar do consenso médico de que o remédio é ineficaz e pode até ser perigoso. A agência americana Food and Drug Administration desencorajou, em abril, o uso da hidroxicloroquina para tratar a covid-19. “Um mês depois, Trump anunciou que os EUA enviariam ao Brasil dois milhões de doses”.

“Em seu zelo para se livrar dos médicos cubanos, o governo Trump puniu todos os países do hemisfério e, sem dúvida, isso significou mais casos de covid e mais mortes”, disse Mark L. Schneider, ex-chefe de estratégia planejamento para a Organização Pan-Americana da Saúde, que foi funcionário do Departamento de Estado no governo Clinton.

“Ninguém da Organização Pan-Americana da Saúde estava aqui e sentimos sua ausência”, lamentou Washington Alemán, especialista sênior em doenças infecciosas e ex-vice-ministro da saúde do Equador, que diagnosticou o primeiro caso confirmado de covid no país. “O suporte não foi como nos anos anteriores”.

A Revolta da Vacina

Em meados de 1904, chegava a 1.800 o número de internações devido à varíola no Hospital São Sebastião. Mesmo assim, as camadas populares rejeitavam a vacina, que consistia no líquido de pústulas de vacas doentes. Afinal, era esquisita a idéia de ser inoculado com esse líquido. E ainda corria o boato de que quem se vacinava ficava com feições bovinas.

No Brasil, o uso de vacina contra a varíola foi declarado obrigatório para crianças em 1837 e para adultos em 1846. Mas essa resolução não era cumprida, até porque a produção da vacina em escala industrial no Rio só começou em 1884. Então, em junho de 1904, Oswaldo Cruz motivou o governo a enviar ao Congresso um projeto para reinstaurar a obrigatoriedade da vacinação em todo o território nacional. Apenas os indivíduos que comprovassem ser vacinados conseguiriam contratos de trabalho, matrículas em escolas, certidões de casamento, autorização para viagens etc.

Após intenso bate-boca no Congresso, a nova lei foi aprovada em 31 de outubro e regulamentada em 9 de novembro. Isso serviu de catalisador para um episódio conhecido como Revolta da Vacina. O povo, já tão oprimido, não aceitava ver sua casa invadida e ter que tomar uma injeção contra a vontade: ele foi às ruas da capital da República protestar. Mas a revolta não se resumiu a esse movimento popular.

Toda a confusão em torno da vacina também serviu de pretexto para a ação de forças políticas que queriam depor Rodrigues Alves – típico representante da oligarquia cafeeira. “Uniram-se na oposição monarquistas que se reorganizavam, militares, republicanos mais radicais e operários. Era uma coalizão estranha e explosiva”, diz o historiador Jaime Benchimol.

Em 5 de novembro, foi criada a Liga Contra a Vacinação Obrigatória. Cinco dias depois, estudantes aos gritos foram reprimidos pela polícia. No dia 11, já era possível escutar troca de tiros. No dia 12, havia muito mais gente nas ruas e, no dia 13, o caos estava instalado no Rio. “Houve de tudo ontem. Tiros, gritos, vaias, interrupção de trânsito, estabelecimentos e casas de espetáculos fechadas, bondes assaltados e bondes queimados, lampiões quebrados à pedrada, árvores derrubadas, edifícios públicos e particulares deteriorados”, dizia a edição de 14 de novembro de 1904 da Gazeta de Notícias.

Tanto tumulto incluía uma rebelião militar. Cadetes da Escola Militar da Praia Vermelha enfrentaram tropas governamentais na rua da Passagem. O conflito terminou com a fuga dos combatentes de ambas as partes. Do lado popular, os revoltosos que mais resistiram aos batalhões federais ficavam no bairro da Saúde. Eram mais de 2 mil pessoas, mas foram vencidas pela dura repressão do Exército.

Após um saldo total de 945 prisões, 461 deportados, 110 feridos e 30 mortos em menos de duas semanas de conflitos, Rodrigues Alves se viu obrigado a desistir da vacinação obrigatória. “Todos saíram perdendo. Os revoltosos foram castigados pelo governo e pela varíola. A vacinação vinha crescendo e despencou, depois da tentativa de torná-la obrigatória. A ação do governo foi desastrada e desastrosa, porque interrompeu um movimento ascendente de adesão à vacina”, explica Benchimol. Mais tarde, em 1908, quando o Rio foi atingido pela mais violenta epidemia de varíola de sua história, o povo correu para ser vacinado, em um episódio avesso à Revolta da Vacina.

Fonte: Agência Fiocruz de Notícias.

Alemanha teme propagação descontrolada da covid-19

Autoridades Alemãs em alerta pela possibilidade de um recrudescimento da epidemia da Covid-19. Temem uma segunda onda da pandemia.

País registra mais de 4 mil infecções em 24 horas, número mais alto desde abril. Governo alerta que rastreamento de cadeias de contágio pode ser impossibilitado com explosão de casos.

Em Colônia, passageiros saem de trem com e sem máscara
Apesar de obrigatoriedade, nem todos respeitam regra do uso de máscara no transporte público na Alemanha – Foto Reprodução DW

O aumento rasante de casos de covid-19 e a dificuldade de rastrear a propagação do vírus preocupam o governo da Alemanha. Nesta quinta-feira (08/10), foram registradas 4.058 novas infecções, segundo dados do Instituto Robert Koch (RKI), agência governamental de controle e prevenção de doenças infecciosas. Esse foi o maior número diário contabilizado desde o início de abril.

Em relação aos registros de quarta-feira, foram 1.230 casos a mais nesta quinta. Segundo o RKI, desde o início da pandemia o país soma 310.144 infecções e 9.578 mortes em decorrência da covid-19.

Diante do novo aumento de casos, o ministro alemão da Saúde, Jens Spahn, pediu à população que seja cuidadosa e reiterou que o avanço do número de infectados é preocupante. Cada vez mais jovens estão contraindo o coronavírus e muitos deles se acham invulneráveis, mas “não o são”, disse o ministro, durante a apresentação do balanço diário nesta quinta-feira.

Spahn elogiou ainda as novas medidas adotadas por Berlim para tentar conter a expansão da epidemia na cidade e afirmou que houve na capital alemã “um comportamento despreocupado e ignorante” por parte de alguns. Berlim registrou bares lotados e festas clandestinas em parques nos últimos meses, e agora enfrenta uma explosão de casos em diversos bairros.

O presidente do RKI, Lothar Wieler, alertou contra a expansão descontrolada do coronavírus na Alemanha. “É possível que tenhamos mais de 10 mil novos casos por dia e que o vírus se espalhe sem controle. A atual situação me preocupa muito, e não está claro como ela evoluirá nas próximas semanas”, destacou.

O governo alemão admitiu também estar preocupado com uma perda na rastreabilidade das infecções. “Temos visto números crescentes, especialmente em algumas grandes cidades, incluindo a capital”, afirmou o porta-voz do governo, Steffen Seibert. Ele disse que os casos não podem mais ser atribuídos a surtos únicos, o que levanta o temor de que “o vírus possa continuar a se espalhar difusamente”.

Seibert ressaltou que as autoridades sanitárias precisam ter condições de rastrear as cadeias de contágio para interromper rapidamente a circulação do vírus. “Com o aumento de casos, é fácil temer que as autoridades sanitárias cheguem à beira do abismo ou além de suas capacidades.” O porta-voz destacou que a única maneira de conter a pandemia é “identificar e quebrar as cadeias de infecção”.

Novas restrições de viagem

Como reação ao aumento dos casos no país, a maioria dos estados alemães decidiu que turistas vindos de regiões de risco de dentro da própria Alemanha só podem ser aceitos em hotéis e outros tipos de alojamento se apresentarem um resultado negativo de covid-19 realizado em no máximo 48 horas antes. Essa medida se aplica a viajantes de áreas que registraram mais de 50 novas infecções por 100 mil habitantes num período de sete dias.

Cinco estados contestaram inicialmente a decisão. A Turíngia afirmou que não pretende impor essa restrição. Já Berlim aguardará um pouco mais para decidir se adotará a medida. Baixa Saxônia e Bremen ainda estão avaliando, e Mecklenburgo-Pomerânia Ocidental quer regras mais rígidas de quarentena.

CN/dw

Quão bem posicionado está o Brasil na corrida por uma vacina?

Especialistas falam sobre as perspectivas para uma imunização contra a covid-19 e os possíveis gargalos a serem enfrentados pelo país.

 “Está muito claro que em 2021 não terá vacinação em massa no Brasil”, diz especialista

Quando foi declarada a pandemia de covid-19, começou uma corrida global sem precedentes em busca de uma vacina que pudesse resolver a crise de saúde que praticamente parou o mundo. Em pouco tempo, estimativas otimistas e promessas de autoridades passaram a ser publicadas, criando expectativas na população.

Enquanto há políticos que chegaram a anunciar o início da vacinação ainda em 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou acreditar que grande parte da população terá de aguardar até 2022 para ser vacinada.

A DW Brasil ouviu especialistas para entender a real situação do Brasil nessa corrida pelo imunizante.

“Quem marca uma data certa para iniciar vacinação, em um período como o que estamos agora, ou não entende do processo ou está de má-fé”, diz Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin de Vacinas. “No Brasil, as promessas parecem tão otimistas porque estão sendo feitas por políticos, e não por cientistas.”

“É um assunto geralmente abordado de forma cautelosa por agências de saúde e de forma populista pelos governos”, comenta Jean Pierre Shatzmann Peron, pesquisador da Plataforma Científica Pasteur e professor de imunologia da Universidade de São Paulo.

Atualmente há dez vacinas no mundo, segundo a OMS, na chamada fase 3 – a mais avançada. Destas, duas firmaram parcerias técnicas com o Brasil: a chinesa Sinovac, com o Instituto Butantan, e a inglesa AstraZeneca, com a Fundação Oswaldo Cruz.

As duas estão adiantadas, mas, como enfatiza Garrett, nada garante que “cruzarão a linha de chegada na frente ou que conseguirão cruzar a linha de chegada”. “Isso pode acontecer. O processo de uma vacina é assim, é um investimento de risco. É caro por várias razões, e uma é esta”, ressalta.

Além da vacina chinesa da Sinovac e da de Oxford, receberam autorização e inciaram testes com voluntários no Brasil imunizantes contra a covid-19 desenvolvidos pela Janssen, unidade farmacêutica da Johnson & Johnson, e pela empresa BioNTech, da Alemanha, em parceria com a Pfizer, dos Estados Unidos.

Além disso, o Brasil tornou-se signatário de uma inciativa internacional capitaneada pela OMS para acelerar o desenvolvimento de uma vacina. Para o diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, Renato Kfouri, em termos de articulação, portanto, o país está se posicionando relativamente bem. O gargalo estaria na quantidade.

“Não teremos vacina para toda a população num primeiro momento”, afirma Kfouri. “Está muito claro que em 2021 não terá vacinação em massa no Brasil [contra covid-19]. Talvez em 2022”, concorda Ricardo Gazzinelli, presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia.

A importância dos testes

Os especialistas ouvidos pela DW Brasil explicam que em casos de urgência como uma pandemia é possível aprovar uma vacina sem a conclusão da fase 3 – com acompanhamentos pré-determinados ao longo do estágio, desde que os resultados sejam altamente positivos. Mas há receio tanto de efeitos colaterais que possam surgir após alguns meses como quanto à possibilidade de a eficácia de imunização diminuir com o tempo.

“Pessoalmente, acredito que um teste clínico da fase 3 não pode ser feito em apenas quatro meses. Tem de ser com no mínimo 10, 12 meses. Porque uma eficácia pode ser de 50% a 60% em quatro meses e cair para bem abaixo disso. Mas tem pressão de alguns políticos”, aponta Gazzinelli.

“Exige-se um tempo mínimo de observação, e atualmente este tempo mínimo está sendo discutido internacionalmente”, completa Jorge Elias Kalil, diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor).

Essa pressão deve fazer até que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprove um imunizante com eficácia inferior aos 70% que são praxe. O que também, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem, pode ser um tiro no pé: em um contexto já dominado por negacionistas, a baixa eficácia pode alimentar discursos antivacina.

Há ainda o fator do efeito na população como um todo. Quando uma parcela considerável está vacinada, o vírus não consegue se disseminar. Mas quanto mais baixa a eficácia de uma vacina, maior tem de ser essa parcela. De acordo com cálculos da epidemiologista Garrett, uma vacina com 75% de eficácia precisaria ser inoculada em 66% da população para que tal resultado fosse atingido. “Isso é muito”, diz.

Produção e distribuição

Mas quando uma – ou, nos melhores cenários, mais de uma – vacina finalmente for considerada segura e eficaz, o problema passa a ser a produção, a distribuição e a aplicação em massa.

Kalil não acredita que o Brasil, em um primeiro momento, irá produzir as vacinas porque “a transferência tecnológica para a produção da mesma iria levar muito tempo”. Segundo ele, o que deve ocorrer é a compra a granel e o trabalho de instituições como o Butantan para colocar em frascos.

“Por que o Brasil não está à frente com um candidato próprio de vacina? Na verdade essa pergunta é muito importante para a gente, porque o país tem capacidade científica muito grande. O problema é que a produção [científica] ainda é pequena para o tamanho do país, e isso é assim por causa dos baixos investimentos em pesquisa”, diz Carlos Rodrigo Zárate-Bladés, diretor do Laboratório de Imunorregulação da Universidade Federal de Santa Catarina.

Assim, deve haver um gargalo na compra desses imunizantes, quando aprovados. Com uma população de 210 milhões de habitantes e considerando que as fórmulas mais avançadas preveem duas doses de vacinação, fica matematicamente difícil garantir que uma proporção considerável dos brasileiros seja imunizada de forma imediata.

Há ainda a perda natural do processo – segundo os especialistas, de 20% a 30% do total acabam perdidos nos frascos. Kalil diz que a escolha vai ter de ser “entre os que têm mais probabilidade de morrer e os que estão mais expostos à doença”, ou seja, os idosos e aqueles com comorbidades ou os médicos da linha de frente e aqueles de serviços essenciais que normalmente têm contatos com muitas pessoas – como motoristas de transporte público e agentes de segurança.

Por outro lado, o Brasil tem uma ótima experiência em campanhas de vacinação e uma rede eficiente de distribuição e aplicação em postos de saúde – estruturas essas que poderiam ser adaptadas para os trabalhos de imunização contra a covid-19. O país conta com 35 mil salas de vacinação e tem um calendário vacinal abrangente em relação a outras partes do mundo.

Fake news

Enquanto a vacina não vem, Zárate-Bladés acredita que um bom preparativo seria combater um problema adicional: a “chuva de desinformação absolutamente irresponsável e sem nenhuma base científica em relação a vacinas”.

“Em relação a duas que estão em testes no Brasil, de uma eles dizem que se trata de um intento comunista para dominar o mundo, e a outra que é uma tentativa de Bill Gates de tornar todo mundo chips andantes”, comenta. “São aberrações ditas até por autoridades. Acho que esse é o gargalo fundamental que a gente vai enfrentar e já estamos enfrentando.”