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Entrevista – Bernie Sanders, Senador e candidato à Presidência dos Estados Unidos

A mídia “alternativa” tem medo, resiste a apoiar Sanders.

A despeito disso, e contra tudo e contra todas as probalidades, a campanha é um sucesso.

Democratas são uma espécie de “republicanos esclarecidos”, mas são também corporativos, são elite capitalista dos Estados Unidos.
Excelente momento para Sanders; porém, mesmo que ganhe, ainda terá a enfrentar o establishment político, além do econômico; sem contar a mídia corporativista! Será que os americanos acordam?

1. Uso da força


Os presidentes de ambas as partes adotaram uma visão abrangente de seus poderes como comandante em chefe, destacando tropas e ordenando ataques aéreos sem aprovação explícita do congresso e, às vezes, sem uma ameaça iminente. Os candidatos democratas frequentemente criticam tais ações, mas foram menos claros nas circunstâncias em que considerariam justificável a força militar.

Além de responder a um ataque aos Estados Unidos ou a um aliado do tratado, quais são as condições sob as quais você consideraria o uso da força militar americana?
A primeira prioridade de Bernie é proteger o povo americano. A força militar às vezes é necessária, mas sempre – sempre – como último recurso. E ameaças ofensivas da força muitas vezes podem indicar fraquezas e forças, diminuindo a dissuasão, a credibilidade e a segurança dos EUA no processo. Quando Bernie for presidente, garantiremos que os Estados Unidos busquem a diplomacia sobre o militarismo para obter resoluções pacíficas e negociadas para conflitos em todo o mundo. Se for necessária força militar, Bernie garantirá que ele atue com a devida autorização do congresso e somente quando determinar que os benefícios da ação militar superam os riscos e custos.

Você consideraria a força militar para uma intervenção humanitária?
Sim.

Você consideraria a força militar a antecipação de um teste nuclear ou míssil iraniano ou norte-coreano?
Sim.

Você consideraria a força militar para proteger o suprimento de petróleo?
Não.

Você consideraria a força militar para proteger o suprimento de petróleo?
Não.

Existe alguma situação em que você possa se ver usando tropas americanas ou ações secretas em um esforço de mudança de regime? Se sim, em que circunstâncias você estaria disposto a fazer isso?
Não.

É apropriado que os Estados Unidos ofereçam apoio não militar aos esforços de mudança de regime, como fez o governo Trump na Venezuela?
Não.

2. Irã

Em 2015, o governo Obama assinou um acordo com o Irã que suspendeu as sanções em troca de limites significativos ao programa nuclear iraniano. Muitos republicanos se opuseram ferozmente ao acordo, dizendo que não era suficientemente difícil e, em 2018, o presidente Trump o abandonou e restabeleceu as sanções. Mas o Irã manteve o fim do acordo até o mês passado, quando Trump ordenou a morte de um general iraniano, Qassim Suleimani. O assassinato do general Suleimani levou os Estados Unidos à beira da guerra com o Irã, que retaliou atacando duas bases militares que as forças americanas estavam usando no Iraque.

O que você faria com o acordo nuclear iraniano agora abandonado, como negociado em 2015?
Eu entraria novamente no acordo sem novas condições, desde que o Irã também cumprisse seus compromissos. Eu prosseguiria em negociações mais amplas para resolver questões de mísseis balísticos, apoio a grupos terroristas e direitos humanos.

Você acredita que o presidente Trump agiu dentro de sua autoridade legal ao dar a ordem para matar Qassim Suleimani? O assassinato era justificável? Foi sábio?
Não. Os EUA não estão em guerra com o Irã e o Congresso não autorizou nenhuma ação militar contra o Irã. Claramente, há evidências de que Suleimani esteve envolvido em atos de terror. Ele também apoiou ataques às tropas americanas no Iraque. Mas a pergunta certa não é “esse cara era mau”, mas sim “assassiná-lo torna os americanos mais seguros?” A resposta é claramente não. Nossas forças estão em alerta mais alto por causa disso. Enviamos ainda mais tropas para a região para lidar com a ameaça aumentada. E o Parlamento iraquiano votou em expulsar nossas tropas, depois que gastamos trilhões de dólares e perdemos 4.500 soldados corajosos lá.

Em relação a uma possível ação militar futura contra o Irã, existe algum tipo de resposta que está fora de questão para você?
Eu trabalharia com nossos aliados europeus para diminuir as tensões com o Irã e me envolveria em uma diplomacia agressiva que salvaguardaria a segurança dos EUA e de nossos parceiros, evitando uma guerra desastrosa com o Irã.

3. Coreia do Norte

O desmantelamento do programa nuclear da Coréia do Norte tem sido uma prioridade americana, e o Presidente Trump tentou fazê-lo por meios incomuns: diplomacia direta com o líder do Norte, Kim Jong-un. Tudo começou em Cingapura em 2018, mas começou a desmoronar em fevereiro passado, quando Trump e Kim saíram de uma reunião de cúpula no Vietnã de mãos vazias. Enquanto isso, as sanções permanecem, o arsenal de armas e mísseis do Norte tem se expandido constantemente, e Kim ameaçou recentemente retomar os testes com mísseis.

Você continuaria a diplomacia pessoal que o presidente Trump começou com Kim Jong-un?
Sim.

Você reforçaria as sanções até a Coréia do Norte desistir de todos os seus programas nucleares e de mísseis?
Não.

Você gradualmente levantaria as sanções em troca de um congelamento no desenvolvimento de material físsil, como o presidente Clinton tentou?
Sim.

Você insistiria em desarmamento substancial antes de liberar qualquer sanção?
Não.

Você concordaria em começar a retirar tropas americanas da península coreana?
Não, não imediatamente. Trabalharíamos em estreita colaboração com nossos parceiros sul-coreanos para avançar em direção à paz na península coreana, que é a única maneira de finalmente lidarmos com a questão nuclear norte-coreana.

Descreva sua estratégia para a Coréia do Norte.
Cada passo que tomamos para reduzir a força nuclear da Coréia do Norte, abri-la para inspeções, terminar a Guerra da Coréia de 70 anos e incentivar relações pacíficas entre as Coréias e os Estados Unidos aumenta as chances de desnuclearização completa da península. A paz e o desarmamento nuclear devem prosseguir em paralelo, em estreita consulta com nosso aliado sul-coreano. Trabalharei para negociar um processo passo a passo para reverter o programa nuclear da Coréia do Norte, construir um novo regime de paz e segurança na península e trabalhar para a eventual eliminação de todas as armas nucleares norte-coreanas.

4. Afeganistão

A guerra no Afeganistão, iniciada após os ataques de 11 de setembro, é a guerra mais longa da história dos Estados Unidos, e os documentos divulgados em dezembro revelaram que três administrações presidenciais sucessivas enganaram o povo americano sobre o progresso – ou a falta dele – em andamento. . Que os Estados Unidos devam se retirar tornou-se um raro ponto de acordo entre o presidente Trump e os democratas. Mas ainda existem divergências significativas sobre quando e em que condições essa retirada deve ocorrer.

As tropas americanas estariam no Afeganistão no final do seu primeiro mandato? Nesse caso, você limitaria a missão dessas tropas ao combate ao terrorismo e à coleta de informações?
Não.

A presença americana no Afeganistão dependeria de outras nações contribuindo com tropas no terreno?
Não.

Quanto tempo você vê tropas americanas sendo exigidas, em qualquer número, no Afeganistão?
Como presidente, eu retiraria as forças militares dos EUA do Afeganistão o mais rápido possível. Eu também pretendo tirar as forças americanas do Afeganistão até o final de meu primeiro mandato. Nossos militares estão no Afeganistão há quase 18 anos. Em breve, teremos tropas no Afeganistão que nem nasceram em 11 de setembro de 2001. É hora de encerrar nossa intervenção e trazer nossas tropas para casa, de maneira planejada e coordenada, combinada com uma séria estratégia diplomática e política que ajudará a entregar ajuda humanitária necessária. A retirada de tropas não significa retirar todo o envolvimento, e meu governo permaneceria politicamente engajado nesses países e faria o possível para ajudá-los a desenvolver sua economia e fortalecer um governo que é responsável pelo seu povo.

5. Israel

Em Israel, uma solução de dois estados – há muito vista como o único fim viável do conflito entre israelenses e palestinos – parece mais distante do que nunca depois que o presidente Trump e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu adotaram um plano que parecia inclinar o resultado a favor de Israel. A decisão de Trump em 2018 de transferir a Embaixada dos Estados Unidos de Tel Aviv para Jerusalém foi profundamente polarizadora. Assim é o B.D.S. Movimento (Boicote, Desinvestimento e Sanções), que se tornou cada vez mais proeminente e que a Câmara condenou em uma resolução bipartidária no ano passado.

Os Estados Unidos devem manter seu atual nível de ajuda militar a Israel? Caso contrário, como deve mudar o nível da ajuda?
Sim, mas essa ajuda pode estar condicionada a Israel tomar medidas para acabar com a ocupação e avançar para um acordo de paz. Bernie acredita que a ajuda dos EUA deve estar condicionada a uma série de preocupações com direitos humanos. Os contribuintes americanos não devem apoiar políticas que comprometam nossos valores e interesses, em Israel ou em qualquer outro lugar.

Você apoia o B.D.S. movimento? Caso contrário, o presidente e / ou o Congresso devem agir para impedir isso?
Não. Embora eu não seja um defensor da B.D.S. movimento, eu acredito que os americanos têm o direito constitucional de participar de protestos não-violentos.

A Embaixada dos Estados Unidos em Israel deve ser transferida de Jerusalém para Tel Aviv?
Não como um primeiro passo. Mas estaria em discussão se Israel continuar a tomar medidas, como expansão de assentamentos, expulsões e demolições de casas, que minam as chances de um acordo de paz.

Todos os refugiados palestinos e seus descendentes devem ter o direito de retornar a Israel?
O direito dos refugiados de voltarem para suas casas após a cessação das hostilidades é um direito internacionalmente reconhecido, mas essa questão será negociada entre israelenses e palestinos como parte de um acordo de paz.

Você apóia o estabelecimento de um estado palestino que inclua terras na Cisjordânia demarcadas pelas fronteiras anteriores a 1967, exceto em assentamentos israelenses de longa data?
Sim, se a questão do acordo for negociada entre israelenses e palestinos.

Se você respondeu sim à última pergunta, o que você fará para conseguir isso onde as administrações anteriores falharam? Se você respondeu não, que solução você vê para o conflito israelense-palestino?
Quando se trata do processo de paz entre israelenses e palestinos, é necessária uma liderança credível dos Estados Unidos. Sou um forte defensor do direito de Israel de existir na independência, paz e segurança. Mas também acredito que os Estados Unidos precisam adotar uma abordagem imparcial em relação a esse conflito de longa data, que resulta no fim da ocupação israelense e permite que o povo palestino tenha independência e autodeterminação em um estado soberano, independente e economicamente viável. por conta própria. Em minha opinião, esse resultado final seria do melhor interesse de Israel, do povo palestino, dos Estados Unidos e de toda a região.

6. RussiaInternet,Virus,GuerraCibernética,Armas,Espionagem,Tecnologia,Hackers,Blog do Mesquita 01

A Rússia tem sido uma força profundamente desestabilizadora no cenário mundial há vários anos, inclusive através da anexação da Crimeia da Ucrânia em 2014 e sua intromissão nas eleições presidenciais dos Estados Unidos em 2016. Depois de anexar a Crimeia, foi suspenso do bloco dos oito países industrializados do Grupo dos Oito (agora, na ausência da Rússia, o Grupo dos Sete). Mas o presidente Trump se esforçou para readmitir a Rússia no G-7 e realizou várias reuniões com o presidente Vladimir Putin, cujo conteúdo não foi divulgado.

Se a Rússia continuar em seu curso atual na Ucrânia e em outros ex-estados soviéticos, os Estados Unidos devem considerá-lo um adversário ou mesmo um inimigo?
Sim.

A Rússia deve ser obrigada a devolver a Criméia à Ucrânia antes que ela seja permitida de volta ao G-7?
Sim.

7. ChinaGuerras,Tecnologia,Primeira Guerra,Mundial,Armas 3

O governo chinês tem perseguido sistematicamente as minorias muçulmanas: separando famílias, submetendo uigures e cazaques a trabalhos forçados e operando campos de internação. Também está envolvido em uma crise política em Hong Kong, uma região administrativa especial da China. Ao mesmo tempo, o presidente Trump adotou uma linha dura no comércio com a China, impondo tarifas economicamente prejudiciais. No mês passado, Estados Unidos e China assinaram um acordo comercial inicial.

O respeito pela independência política de Hong Kong, nos termos do acordo de entrega com a Grã-Bretanha, deve ser um pré-requisito para as relações normais e o comércio com a China?
Sim.

As relações e o comércio normais deveriam depender do fechamento da China de seus campos de internação para uigures e outros grupos minoritários muçulmanos?
Sim.

8. OTAN

A Organização do Tratado do Atlântico Norte, uma aliança militar entre 29 países da América do Norte e da Europa, tem sido a peça central da política externa dos Estados Unidos há décadas. Mas o presidente Trump muitas vezes criticou a aliança, argumentando que os Estados Unidos dão demais e recebem muito pouco dela. Durante sua campanha de 2016, ele se recusou a se comprometer com o compromisso central da OTAN – defender outros membros se eles forem atacados – se os membros em questão não tivessem cumprido seus compromissos de gastos, e assessores dizem que, em 2018, ele sugeriu repetidamente a retirada. No ano passado, a OTAN concordou em reduzir a contribuição dos Estados Unidos e aumentar a da Alemanha.

Os países da OTAN deveriam pagar mais pela defesa do que seu compromisso atual de pelo menos 2% do PIB.
Não.

Os países que não cumprirem seu compromisso de financiamento da OTAN ainda receberão uma garantia da ajuda dos Estados Unidos se forem atacados?
Sim.

9. Política de Segurança Cibernética

O armamento cibernético surgiu como a principal maneira pela qual as nações competem entre si e se enfraquecem em conflitos de curta guerra. No entanto, existem poucas regras internacionais que governam as batalhas diárias – ou impedem a escalada. À medida que uma guerra sombria surge no ciberespaço, o presidente Trump deu muito mais poderes ao Comando Cibernético dos Estados Unidos e à Agência de Segurança Nacional.

Uma ordem presidencial deve ser obrigar um ataque cibernético contra outro país, assim como é necessário para lançar um ataque nuclear?
Sim.

A nova estratégia do Comando Cibernético dos Estados Unidos é “envolvimento persistente”, o que significa que os EUA se aprofundam em redes de computadores estrangeiras para se envolver constantemente com adversários e dissuadir greves nos Estados Unidos. Você continuaria com esta política?
Eu realizaria uma revisão abrangente da estratégia cibernética dos EUA e trabalharia para reunir países em torno de convenções internacionais para controlar o uso dessas armas perigosas.

Você respondeu à última pergunta, você insistiria que outras nações que buscam “engajamento persistente” não poderiam estar dentro das redes de energia americanas e outras infraestruturas críticas?
Não seria aplicável nesses casos.

10. Estratégia de Segurança NacionalBlog do Mesquita,guerra,Economia,Emprego,Adam Smith

Na era pós-Guerra Fria – e especialmente após os ataques de 11 de setembro – o ponto focal da política externa americana mudou-se para o contraterrorismo, o Oriente Médio e o Afeganistão. O presidente Trump, pelo menos no papel, defendeu a mudança da política externa americana de volta para enfrentar as “potências revisionistas” da Rússia e da China.

A estratégia de segurança nacional do presidente Trump exige que o foco da política externa americana se afaste do Oriente Médio e do Afeganistão e volte ao que se refere às superpotências “revisionistas”, Rússia e China. Você concorda? Por que ou por que não?
Apesar de sua estratégia declarada, o governo Trump nunca seguiu uma estratégia coerente de segurança nacional. De fato, Trump aumentou as tensões no Oriente Médio e nos colocou à beira da guerra com o Irã, recusou-se a responsabilizar a Rússia por sua interferência em nossas eleições e violações de direitos humanos, não fez nada para resolver nosso acordo comercial injusto com a China que só beneficia empresas ricas e ignorou o internamento em massa de uigures na China e sua repressão brutal a manifestantes em Hong Kong. Claramente, Trump não é um presidente do qual devemos tomar notas.

Como a nação mais rica e poderosa do mundo, precisamos ajudar a liderar a luta para defender e expandir uma ordem internacional baseada em regras na qual a lei, e não a força, faz o que é certo. Quando for presidente, alavancaremos nossa posição como potência mundial para combater a ascensão do eixo autoritário internacional e trabalharemos para construir uma coalizão que se mobilize por trás de uma visão de prosperidade, segurança e dignidade compartilhadas para todas as pessoas.

11. Prioridade Diplomática

O próximo presidente será confrontado com uma série de desafios de política externa, desde o programa nuclear da Coréia do Norte até os esforços internacionais para combater as mudanças climáticas. Não será possível abordar todos eles de uma vez. Isso torna essencial entender não apenas as políticas dos candidatos, mas também suas prioridades.

Qual seria a sua principal prioridade para o seu secretário de Estado?
Acredito há muito tempo que os EUA devem liderar o mundo na melhoria da cooperação internacional para enfrentar desafios compartilhados. É por isso que, juntamente com meu secretário de Estado, implementarei uma política externa focada na democracia, direitos humanos, justiça ambiental e justiça econômica. Liderar um esforço internacional contra a ameaça urgente das mudanças climáticas será uma prioridade.

Quando for presidente, reverteremos o ataque de Trump à diplomacia. Por exemplo, enquanto a China expande sua presença diplomática em todo o mundo, os EUA estão encolhendo. Mais de 25% das posições-chave do Departamento de Estado permanecem vagas. Tornaremos o recrutamento para o Departamento de Estado e a reconstrução de nosso corpo diplomático profissional uma prioridade. Investir mais em diplomacia, desenvolvimento e prevenção de conflitos a montante pode impedir a necessidade de intervenção militar a jusante. Agora, a falta de diplomacia e a ajuda externa resultarão em maiores necessidades de defesa militar.
Com dados do New York Times

Kim Jong-Un,Consumo,Economia,Capitalismo,Ditaduras,Coreia do Norte

Falso Adidas e Hello Kitty: um gosto do consumismo para a elite da Coréia do Norte

Kim Jong-Un está silenciosamente permitindo que poucos bem-sucedidos controlados em Pyongyang tenham acesso a imitações de estilistas, smartphones e até mesmo uma versão do Amazon.Kim Jong-Un,Consumo,Economia,Capitalismo,Ditaduras,Coreia do Norte

NA fábrica de sapatos Ryuwon, em Pyongyang, os treinadores da Adidas brilham em um suporte ao lado da linha de produção, um presente pessoal do ditador Kim Jong-un para inspirar os trabalhadores que produzem imitações para os fiéis norte-coreanos.

“O Grande Marechal enviou sapatos de outros países para que os trabalhadores possam vê-los e tocá-los”, disse o guia da fábrica. As sugestões de estilo de Kim foram adotadas. O showroom de fábrica possui cópias virtuais de marcas ocidentais da Puma à Nike, juntamente com híbridos mais experimentais, incluindo padrões da Asics em sola de vadio.

O design de calçados pode parecer uma preocupação incongruente para um homem mais famoso por construir seu arsenal nuclear , assassinar parentes e jogar jogos diplomáticos de alto risco com o presidente dos EUA, Donald Trump. Mas Kim tem administrado uma espécie de transição para sua nação eremita.

Sua visão de mudança não é política. Kim manteve firme o culto da personalidade dinástica, o brutal estado policial apoiado por uma rede gulag e a ideologia oficial de auto-suficiência isolacionista transmitida por seu pai e seu avô.

Kim Jong-Un,Consumo,Economia,Capitalismo,Ditaduras,Coreia do NorteKim manteve firme o culto da personalidade dinástica herdada de seu pai e avô.
Foto: Ekaterina Ochagavia para o The Guardian.

Em vez disso, ele aparentemente decidiu que a vida deveria se tornar um pouco mais agradável para a minúscula e rigidamente controlada elite – um pouco mais parecida com a visão da sociedade de consumo ocidentalizada que entra no país através de filmes estrangeiros estritamente proibidos, mas avidamente consumidos. mostra.

A natureza opaca da sociedade norte-coreana significa que não houve reconhecimento oficial do surgimento dessa versão cuidadosamente gerenciada da sociedade de consumo, muito menos qualquer percepção de por que Kim permitiu que ela florescessem em seu relógio. Mas na semana passada uma explicação possível veio de Oh Chong Song, um soldado que fez uma corrida dramática pela fronteira em uma chuva de balas no ano passado.

Em sua primeira entrevista desde a deserção extraordinária, Oh, que parece ter pertencido a esse mundo dourado, Kim disse que enfrentava a falta de lealdade de seus colegas, mesmo que eles devessem falar em público para a dinastia.

Luxo importado oferece a Kim uma maneira de cooptar sua elite – ou pelo menos distraí-los
“Pessoas da minha idade, cerca de 80% delas são indiferentes” , disse ele ao jornal japonês Sankei Shimbun . “Não ser capaz de alimentar as pessoas adequadamente, mas a sucessão hereditária continua – isso resulta em indiferença e sem lealdade”.

Filho de um grande general, Oh descreveu-se como “classe alta” e disse que a maioria dos membros da elite norte-coreana tinha um gosto bem desenvolvido pelos prazeres importados, apesar da doutrina formal de autoconfiança .

“O povo norte-coreano condena o Japão na política, mas respeita o Japão em economia”, disse ele, citando os utilitários esportivos da Patrulha da Nissan usados ​​exclusivamente por oficiais militares como um exemplo do gosto pelos produtos japoneses.

Durante décadas, uma indulgência limitada à dinastia Kim e seu círculo íntimo, esse tipo de luxo importado hoje oferece a Kim uma maneira de cooptar sua elite – ou pelo menos distraí-los. Facebook Twitter Pinterest

Kim Jong-Un,Consumo,Economia,Capitalismo,Ditaduras,Coreia do NorteOs táxis – cujas tarifas mais baixas são o equivalente a um mês de salário para muitos trabalhadores – esperam do lado de fora de uma loja que vende alimentos importados caros.
Foto: Ekaterina Ochagavia para o The Guardian

Em supermercados estatais na capital, Pyongyang – onde a maioria dos clusters de elite – jornalistas em uma turnê oficial no início deste ano, viu compradores de prateleiras de Pumas e Nikes falsificados, pasta de dente Colgate e fraldas Pampers, uísque japonês e até mesmo latas de californiano La Tourangelle óleo de noz, à venda por cerca de US $ 30 (£ 23).

Táxis esperavam do lado de fora para levar os poucos afortunados ao redor das vastas estradas vazias da cidade. A tarifa para uma única viagem começa em torno de 16.000 won, o equivalente a pouco menos de 2 dólares na taxa de câmbio do mercado negro usada pelos norte-coreanos, mas em torno de um mês de salário para muitos trabalhadores na capital.

Kim Jong-Un,Consumo,Economia,Capitalismo,Ditaduras,Coreia do Norte (4)Em parques e monumentos, as famílias desfrutam de um dia tirando fotos em smartphones, como fazem ao redor do mundo, e nos passageiros do metrô, olhando para as telas, digitando mensagens e folheando as fotos. Foto: Ekaterina Ochagavia para o The Guardian

A crescente presença de smartphones e o afrouxamento de restrições não oficiais ao redor de roupas e joias são marcas de mudança – para a elite, pelo menos.

A comunicação com o mundo além da Coréia do Norte é estritamente proibida, mas há uma rede interna com dados, além de chamadas, e até mesmo uma resposta norte-coreana à Amazon, vendendo de tudo, desde cabos de conexão até roupas.

Os visitantes do país, incluindo jornalistas, só podem participar de tours rigorosamente controlados, onde eles são constantemente monitorados por guardas do governo e devem seguir um itinerário rigoroso. Isso sugeria que as autoridades norte-coreanas queriam que os jornalistas vissem algo dessa sociedade de consumo em expansão, e sua inclinação para o individualismo.

Está muito longe das imagens de frugalidade, uniformidade e coordenação de massa ao estilo militar – sintetizadas em desfiles de armas e “ jogos de massa ” – que o país tradicionalmente apresenta ao mundo.

Kim Jong-Un,Consumo,Economia,Capitalismo,Ditaduras,Coreia do Norte (5)“Eu acho que ele (Kim) realmente quer esse estilo de vida; ele não é fã de austeridade, ele cresceu na cultura do consumo do Ocidente e vê isso como normal e bom ”, disse o professor Andrei Lankov, da Universidade Kookmin, em Seul. Hello Kitty e outros personagens aparecem agora em roupas e acessórios da elite – símbolos de um mundo capitalista que os norte-coreanos denunciaram há muito tempo. Foto: Ekaterina Ochagavia para o The Guardian

“É assim que a elite, o velho apparatchik e a nova burguesia estão vivendo agora. Eles querem consumo, prazeres materiais e uma medida de escolha do consumidor, e estão conseguindo. ”

O afrouxamento dos controles é apenas para poucos afortunados. A maioria dos norte-coreanos ainda enfrenta uma rotina diária de pobreza e privação. Uma em cada cinco crianças do país é raquítica, um indicador de desnutrição, de acordo com Unicef, e 40% dos adultos são subnutridos.

As estatísticas são difíceis de encontrar em Pyongyang, mas analistas que seguem a Coréia do Norte pensam que talvez 10% dos 25 milhões de habitantes pertençam ao que efetivamente é uma nova classe média.

Em um prédio alto de casas modelo, o abastecimento de água é intermitente, embora ninguém se queixe. Apenas uma pequena fração dessa elite pode viajar pela capital em táxis comprando imitações de estilistas, e mesmo os mais luxuosos benefícios fornecidos pelo Estado podem parecer relativamente modestos para os padrões ocidentais.

Num prédio alto de casas modelo, os moradores tinham todos os móveis e móveis atribuídos pelo estado, e mantinham o banho e os baldes de reserva cheios de água, porque o fornecimento é intermitente, embora ninguém se queixe.

“A água é fornecida três vezes ao dia”, explicou a dona de casa Ro Kyong Ae, cujo marido é um proeminente professor de ciências. “Eu amo este apartamento.”

O jovem líder, que tinha seu próprio tio expurgado e, provavelmente, ordenou o dramático assassinato de seu próprio irmão , não demonstrou nenhum interesse pela democracia nem afrouxou os controles que reforçam seu governo. Em vez disso, são provavelmente o resultado de cálculos cuidadosos.

No entanto, mesmo uma vida um pouco mais confortável dá a uma fatia da sociedade norte-coreana mais interesse na sobrevivência do regime e menos razão para considerar a deserção ou a oposição.

Kim Jong-Un,Consumo,Economia,Capitalismo,Ditaduras,Coreia do Norte (6)Kim pode, em parte, estar abraçando as realidades econômicas de seu país, em um mundo onde nenhum país patrocinará provisões estatais como a União Soviética. O comércio informal e semi-legal tornou-se vital para alimentar a Coreia do Norte, e o mercado negro canaliza dinheiro para a Coreia do Norte, incluindo propinas que alimentam o estado.

Usando turnês cuidadosamente gerenciadas para estrangeiros e um pouco de liberdade para uma classe de elite, a Coréia do Norte parece estar tentando diluir a imagem de seu povo como autômatos virtuais. Foto: Ekaterina Ochagavia para o The Guardian.

“Provavelmente não é apenas uma questão de política, eu também não acho que, mesmo que ele queira pará-lo, ele pode, porque há limites sobre o que ele pode controlar e também a Coréia do Norte precisa de dinheiro”, disse Lankov.

“Ele é o líder mais pragmático que a Coreia do Norte teve em décadas. Ele sabe que se ele começar a fechar as oportunidades de ganhar dinheiro, eles perderão o desejo de trabalhar. Se as pessoas não têm coisas para comprar, por que elas vão tentar ganhar dinheiro? ”

Outra consideração pode ser relações públicas. Para um país que vive constantemente em busca de ajuda internacional e combate as sanções impostas sobre armas nucleares e outros programas, a visão do mundo sobre o seu governo é extremamente importante.

Ele transformou a face que a Coreia do Norte mostra para estrangeiros com viagens curadas cuidadosamente, a maioria das turnês tem projetos de prestígio incluindo um novo parque aquático, um amplo museu da ciência, apartamentos altos e novas feiras.

Alguns foram iniciados sob seu pai, mas juntos eles se tornaram emblemas de um país que quer diluir a imagem de seu povo como autômatos virtuais, projetando o máximo de proficiência em construir armas nucleares do que as montanhas-russas do estilo “super-homem” .

O projeto Pyonghattan: como a capital da Coréia do Norte está se transformando em uma “terra das fadas socialista”

As mulheres usam brindes mais sutis de mudança em suas orelhas e em torno de seus pescoços. Durante décadas, distintivos com retratos da dinastia Kim eram o único adorno permitido na Coreia do Norte – sob um código de vestimenta não oficial que também proibia calças e cores brilhantes para mulheres jovens.

Agora, calças, colares e um ocasional toque de cor ou conjunto de brincos podem ser vistos nas jovens mulheres mais elegantes de Pyongyang, possivelmente inspiradas pela esposa de Kim Jong-un, Ri Sol Ju . O casal rompeu décadas de precedentes ao aparecer juntos em público, com Ri muitas vezes usando jóias e carregando bolsas de grife.

Para crianças da elite, imagens de Hello Kitty e Winnie the Pooh são pintadas em bolsas e guarda-chuvas – símbolos duradouros de um mundo capitalista que os norte-coreanos há tempos são ensinados a denunciar. E assim como as fronteiras da moda foram estabelecidas pelo primeiro casal, fica claro que uma diretiva para gastar – para os poucos que têm dinheiro – vem direto do topo.

O lugar de destaque na fábrica de bolsas Pyongyang é uma foto do tamanho de um mural de Kim Jong-un radiante em uma mochila infantil com um animado desenho de coelho estampado na frente, aparentemente tomado pelo desejo de gastar.

“Quando o líder supremo Kim Jong-un estava aqui, ele estava realmente satisfeito com a bolsa com o coelho”, explicou o guia da fábrica. “Ele até disse que teve a sensação de que quer comprá-lo.”

Noam Chomsky – Estados Unidos são o país mais perigoso do mundo

Para o linguista, filósofo e intelectual norte-americano, Washington despreza todas as chances de acordo em conflitos globais explosivos. Que loucura fará o presidente Donald Trump, quando seu capital político se esgotar?Noam Chomsky: EUA estão literalmente sozinhos no mundo.

A proliferação nuclear e as mudanças climáticas são hoje motivo de preocupação aguda, levada ao extremo em razão do governo  de Donald Trump, nos EUA. Nesta entrevista exclusiva para a Truthout, o intelectual dissidente Noam Chomsky debate a cobertura da mídia sobre esses temas, ressaltando as tensões dos EUA com a Rússia, o Irã e a Coreia do Norte, bem como o recente ataque aéreo dos EUA a uma base da Força Aérea da Síria.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

 

Como você vê a angustiante falta de debate, na mídia hegemônica, sobre mudanças climáticas e proliferação nuclear?

Se você quiser aprender sobre armas nucleares e a razão pela qual esse tema não está sendo tratado, dê uma olhada na edição de 1º de março do Bulletin of the Atomic Scientists (Boletim dos Cientistas Atômicos), onde há um artigo absolutamente espetacular escrito por dois verdadeiros experts – Hans M. Kristensen e Ted Postol, do MIT (Massachussets Institute of Technology).

Eles discutem os novos sistemas de direcionamento inventados no Programa de Modernização de Obama, agora em plena escalada com Trump, e que são extremamente perigosos. Afirmam, com base em informações disponíveis, que os sistemas de mísseis dos EUA foram de tal forma aperfeiçoados que agora são capazes de aniquilar instantaneamente o efeito de dissuasão da Rússia.

É um enorme excesso, que acaba com a estabilidade nuclear – e, claro, os russos sabem disso. A implicação é que, se em algum momento os EUA sentirem-se ameaçados, serão levados a fazer um ataque preventivo – porque do contrário estão mortos, entende? E isso significa que todos estaremos mortos. Este é o fato mais importante de que se tem notícia em não sei quanto tempo.

New York Times e outras mídias mainstream mantiveram sua prática convencional de enaltecer o último ataque do Trump contra a Síria, mas continuaram lamentando-se porque essa doutrina de política exterior é improvisada. De certa forma, considerando as nomeações do seu gabinete, ele faz lembrar Bush filho, que escolheu alvos indefesos. Eles alegam estar lutando contra o terrorismo e a proliferação nuclear, mas parecem estar simplesmente piorando os problemas.

Eles com certeza não estão lutando contra a proliferação nuclear. Bem, se quiserem mesmo fazer isso, há atitudes que podem tomar. O Irã, que na verdade nunca foi um problema, poderia ter sido resolvido há anos. Há um livro interessante do ex-embaixador brasileiro Celso Amorim. Em 2010, ele realizou um esforço conjunto com a Turquia para solucionar a questão do Irã. Ninguém, além dos Estados Unidos, considera que seja realmente um problema.

Aqui nos EUA, é a pior ameaça da história da humanidade. Mas Brasil e Turquia conseguiram um acordo com o Irã em que, basicamente, o país entregaria seu urânio (pouco) enriquecido para a Turquia armazenar, e em troca as potências ocidentais (isto é, os EUA) lhe forneceriam tubos de gelo para usar em seus reatores de uso medicinal. Isso teria liquidado o assunto. Foi imediatamente rejeitado por Obama e Hillary Clinton.

E a razão principal foi que não queriam ver ninguém mais envolvido no assunto. Supostamente, os norte-americanos é que deveríamos lidar com o problema – a mas isso não foi dito. A razão ostensiva foi de que Hillary estava prestes a pressionar o Conselho de Segurança da ONU para adotar novas sanções contra o Irã, e não queria que essa iniciativa fosse minada – o que mostra uma atitude voltada para a proliferação. O mesmo está acontecendo com a Coreia do Norte. [Recentemente] anunciaram mais ações ofensivas contra a Coreia do Norte.

Misseis navais vão elevar o nível [do perigo], [mas] há uma opção diplomática? Sim, há. A Coreia do Norte e a China propuseram o que parece ser uma opção muito inteligente. A Coreia do Norte deveria acabar com o desenvolvimento de armas nucleares – manter o estoque como está, não fabricar mais – e, em troca, os EUA acabariam com essas manobras militares hostis na fronteira da Coreia do Norte – bombardeiros B52 com capacidade nuclear e por aí vai. Os EUA rejeitaram imediatamente a oferta. E a imprensa e todo o mundo disse [quase nada]…

Esse programa de modernização é um exemplo muito claro de como o que importa não é a segurança. Não há nenhum ganho em segurança, mas destruição maciça da capacidade de dissuasão do adversário. A única consequência disso é provocar o risco de um ataque preventivo. E um ataque preventivo leva a um mundo de inverno nuclear.

Sem contar que temos uma presença militar lá. Lembro que uma vez você disse algo sobre como a dissuasão não era para as armas nucleares, mas para a militarização da Coreia do Norte apontada para Seul e as Forças Armadas dos EUA.

Se os EUA atacassem a Coreia do Norte, com certeza destruiriam aquele país – mas provavelmente a Coreia do Sul também seria exterminada. Eles concentraram artilharia apontada para Seul, e não há nada que se possa fazer respeito.

Quanto às relações dos EUA com a Síria, há soluções políticas? A última vez que Medea Benjamin escreveu no Democracy Now!, ela dizia como há opções políticas que nunca foram tentadas para os EUA e a Síria.

Houve sugestões em 2012. O embaixador russo nas Nações Unidas fez algumas propostas para um acordo político no qual Hafez Assad seria lentamente removido. O Ocidente a desconsiderou imediatamente, e não sabemos se ela era real, porque não veio do Kremlin, e era informal. Mas o fato é que todas essas propostas são imediatamente refutadas. E simplesmente não se sabe se são verdadeiras.

É um pouco como o 11 de Setembro. Afinal, o Talibã sinalizou que poderia extraditar Osama bin Laden, mas os EUA não lhe deram ouvidos. Tinham de usar a força. Bem, uma das razões é que o Talibã pediu provas, e um dos problemas é que não apresentaram evidência alguma.

Como as mudanças climáticas e as ciências climáticas relacionam-se com a questão das armas nucleares e sua capacidade destrutiva?

Uma das poucas instituições preocupadas com as mudanças climáticas é o Pentágono. Eles terão problemas, por exemplo, com a Marinha – a Base Naval de Norfolk será inundada quando o nível do mar aumentar, e a elevação do nível do mar e outros sistemas climáticos perigosos irão causar enormes ondas de refugiados.

Dê uma olhada em Bangladesh. É uma planície costeira – e algumas centenas de milhões de pessoas. O que eles farão, se as coisas piorarem? Você sabe?

Com a chegada de Rex Tillerson ao posto de secretário de Estado de Trump, as coisas parecem ter se “normalizado”, no governo dos EUA. Que perigos ele representa para o planeta?

É incrível o que está acontecendo, e o mais espantoso é que ninguém fala disso. Neste momento – desde 8 de novembro – os Estados Unidos estão literalmente sozinhos no mundo – primeiro, na sua recusa em unir esforços para fazer algo a respeito do aquecimento global. Mas, pior ainda, empenhados em agravar a situação. Em toda parte, está-se tentando fazer alguma coisa. Só os Estados Unidos esforçam-se para destruir — e não só Trump, mas todo o Partido Republicano. É difícil encontrar palavras para descrever isso. Não há informações. Não há debate.

Refiro-me ao mais importante evento de 8 de novembro – do qual tenho falado algumas vezes, mas ninguém ouve. Como devem saber, havia uma conferência internacional em Marrocos, em sequência à conferência de Paris – para dar alguma substância aos acordos de Paris. Mas no dia 8 de novembro [dia da vitória de Trump], a conferência foi interrompida. A questão era, nós sobreviveremos? Não se disse uma única palavra sobre isso. Mais espantoso ainda, o mundo espera que a China venha socorrê-lo. Os EUA são a máquina destrutiva que está arruinando tudo. O mundo tem esperança de que a China irá, de alguma maneira, salvá-lo.

O que isso — o mundo esperar o apoio da China — significa em relação ao establishment norte-americano?

Significa que os Estados Unidos são com certeza o país mais perigoso do mundo.

Isso não é positivo para a democracia — ou a esperança em relação a ela.

Não tem muito a ver com democracia, porque uma democracia mal e mal funciona sob um sistema neoliberal. A maioria da população está desconectada dos temas relevantes. Há uma retórica apaixonada sobre como “não podemos cruzar os braços”, enquando o país usa armas para matar civis inocentes.

Neste momento, os Estados Unidos estão apoiando ataques militares da Arábia Saudita ao Iêmen e uma política de escassez – uma política de fome – que irá matar dezenas de milhares de pessoas; na verdade, já está matando. Mas alguém fala sobre isso? Só Gareth Porter e mais uma ou outra pessoa escrevem [sobre isso].

O que você pensa sobre a direção em que caminha o governo Trump, e como seria sua política exterior? É imprevisível, como ele? Ou segue uma trajetória?

Penso que a política externa não é uma preocupação deles, na verdade. Assim como o ataque à Síria: não significou quase nada. Alvejaram uma base aérea vazia. Um dia depois, ela estava funcionando novamente. Aviões voavam a partir dela. Foi um show para o público interno, você sabe: vejam como sou forte; não sou como Obama. E então tudo volta ao “normal” – penso que, de fato, o que acontece é o orçamento d[o presidente da Câmara], Paul Ryan e seus programas legislativos.

Tudo isso está ocorrendo sob a cobertura das extravagâncias midiáticas de Trump e seu secretário de Imprensa, Sean Spicer. Eles caras fazem uma coisa após outra para captar a atenção da mídia. E funciona. Ligue na CNN e é isso que se ouve, enquanto são feitas mudanças legislativas que destroem tudo o que o governo tem de utilidade para a maioria das pessoas. Penso que Paul Ryan é a pessoa mais perigoda desse governo. Ele sabe o que está fazendo — e é muito sistemático. Presumo que está por trás das nomeações do gabinete, e é incrível como todas elas são a escolha de alguém devotado à destruição de uma política pública — ou para garantir que não funcione. Colocou-se muito foco no EPA (Agência de Proteção Ambiental), o que já é bem ruim, mas os programas ambientais mais significativos estão no departamento de Energia — e serão propositalmente desmontados.

Quer dizer que Trump nomeia pessoas deliberadamente escolhidas para minar as políticas públicas?

Sim, todos os seus secretários: Educação, Ambiente, Trabalho – cada um é escolhido para minar todos os aspectos do governo que se relacionem a qualquer apoio à maioria das pessoas e não beneficiem os super-ricos. E isso de forma absolutamente sistemática. A pergunta que interessa é: por quando tempo o eleitorado de Trump vai entrar nesse jogo de trapaças. Eles estão levando na cara mais do que ninguém –m as ainda têm fé no seu homem. Se isso sucumbir – o que, suponho, mais cedo ou mais tarde vai acontecer – o governo Trump terá de fazer alguma coisa bem radical para tentar manter o controle.

Qual a atitude da Rússia quando ao ataque à Síria, a seu ver? Eles acham que foi um teatro?

Bem, há algumas questões interessantes aqui. Pode-se buscar a razão por que Assad teria ficado bem louco, para provocar uma intervenção dos EUA quando está vencendo a guerra. A pior coisa para ele seria atrair os Estados Unidos pra dentro do conflito. Por que iria lançar um ataque com armas químicas? Pode-se imaginar que um ditador com interesses apenas locais venha a fazer isso, pensando ter sinal verde para tanto. Mas por que os russos permitiriam? Não faz nenhum sentido. E há de fato questões sobre o que aconteceu. Algumas pessoas que merecem muita credibilidade – não tipos conspirativisas, mas gente com sólidas credenciais de inteligência — dizem que o ataque não aconteceu.

Lawrence Wilkerson afirmou que a Inteligência dos EUA localizou um avião que provavelmente atingiu um depósito da Al-Qaeda, onde estava armazenado algum tipo de arma química, que se espalhou. Eu não sei. Mas isso por certo pede ao menos uma investigação. E as pessoas [que chegaram a essa conclusão] não são insignificantes.

Agência Efe
Trump nomeou secretários com missão de minar políticas que não apoiem super-ricos, diz Chomsky

Você poderia falar sobre como a esquerda está dividida nessa questão da Síria?

A esquerda é horrível nisso. De um lado, grande parte é pró Assad. [Nesses círculos], você não pode criticar Assad, embora saiba que ele é um criminoso de guerra monstruoso. Qualquer um que o critique está aderindo aos imperialistas norte-americanos, o que é simplesmente grotesco. Seja o que pensemos sobre os fatos recentes, Assad é responsável por uma enorme massa de atrocidades. É uma história de horror.

Outros dizem que os Estados Unidos simplesmente não deveriam se envolver em outra guerra. Quer dizer, para eles a narrativa de Washington está certa, e se é verdade que a Síria usou armas químicas, não seria um grande crime enviar uma espécie de tiro de advertência para dizer: vocês não podem mais fazer isso. Não seria a melhor coisa do mundo, mas não seria também um crime capital. Penso que, no mínimo, deveria ter havido uma investigação sobre o que aconteceu. Agora, aderir simplesmente ao coro de que estamos, finalmente, reagindo aos crimes na Síria – isso é ridículo.

Não concordo com a intervenção dos EUA na Síria, mas também não sou a favor de Assad. Como pode alguém opor-se a Assad e ao mesmo tempo ser reticente quanto à intervenção dos EUA?

Algumas pessoas do campo da esquerda dizem: “veja, não podemos deixar essas atrocidades continuarem, então vamos entrar na guerra e nos livrar de Assad”. O problema é que, com isso, abre-se uma guerra nuclear com a Rússia. E a Síria será dizimada, juntamente com tudo o mais. Então, é preciso dizer: “certo, vamos acabar com os crimes; mas como, exatamente?”
Dan Falcone/Truthout-Nova York Tradução: Inês Castilho

Tecnologia: Coreia do Sul treina hackers em batalha contra o Norte

Hackers: Coreias permanecem em um estado técnico de guerra desde que a Guerra da Coreia

Hackers

Da REUTERS

Seul  – Em uma graduação da Korea University, instituição de elite em Seul, os cursos são conhecidos somente pelo número e os estudantes mantém suas identidades em sigilo.

O currículo de ciberdefesa, fundado pelo ministério da Defesa, treina jovens “guerreiros dos teclados” que podem estudar gratuitamente em troca do compromisso de servirem como oficiais, por sete anos, na unidade de guerra cibernética do exército – e no conflito em andamento com a Coreia do Norte.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

As Coreias permanecem em um estado técnico de guerra desde que a Guerra da Coreia (1950-53) terminou em trégua armada. Além dos programas nuclear e de foguetes de Pyongyang, a Coreia do sul diz que o Norte tem um forte exército cibernético, o qual tem culpado por uma série de ataques nos últimos três anos.

A Coreia do Sul, importante aliada dos EUA, é um dos países mais avançados tecnologicamente do mundo. Isto significa que suas redes controlam tudo, desde redes de energia até o sistema bancário, são vulneráveis contra um inimigo que é relativamente primitivo em infraestrutura e, portanto, há menos alvos contra os quais o Sul pode retaliar.

Ano passado, a Coreia do Sul estimou que o ciberexército do Norte dobrou de tamanho ao longo de dois anos, para 6 mil soldados, e o Sul tem lutado para acelerar sua habilidade de atingir o que considera uma ameaça crescente.

Além do curso na Korea University, a polícia nacional tem expandido suas habilidades de ciberdefesas, enquanto o Ministério de Ciências começou um programa com duração de um ano, em 2012, para treinar os chamados “hackers éticos”.

Como a Coreia do Norte paga por seu sofisticado programa militar?

O “isolado reino” da Coreia do Norte é um caldeirão de contradições.

ReutersGoverno norte-coreano vem intensificando embates políticos com potências ocidentais – Image copyright Reuters

O país é vizinho de várias das economias mais dinâmicas do mundo, incluindo a próspera Coreia do Sul, mas sua população sofre com toda sorte de privações.

Em meados do século 20, a Coreia do Norte era um dos países mais industrializados da Ásia. Mas, hoje, é visto como um desastre econômico.

E, enquanto as condições de vida de seus cidadãos são precárias, o governo anuncia programas de desenvolvimento de sofisticados sistemas de armamento, inclusive de foguetes de longo alcance e bombas atômicas.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

A Coreia do Norte reforça que o recente lançamento de um foguete é parte de um programa de exploração espacial, enquanto as potências ocidentais alegam se tratar de uma tentativa de desenvolver mísseis capazes de atingir alvos distantes.

De qualquer forma, são poucas as nações da Terra capazes de conceber tecnologias avançadas e tão caras.

Mas como a Coreia do Norte financia essas atividades?

Exportação e investimento

Em primeiro lugar, são necessárias divisas internacionais. Muitos estão de acordo que a Coreia do Norte fez importantes aquisições de tecnologia no exterior, em certos casos com fins militares.

E, apesar de ser um dos últimos países do mundo a manter uma economia centralmente planificada, ao modo stalinista, Pyongyang ainda consegue desenvolver um setor exportador.

Em sua página na internet, a CIA, a agência de inteligência americana, estima o tamanho da economia norte-coreana em torno de US$ 40 bilhões (R$ 160 bilhões), similar ao PIB de Honduras ou do Estado brasileiro de Goiás.

As exportações da Coreia do Norte somam, por outro lado, US$ 3,834 bilhões (R$ 15 bilhões), o equivalente às vendas externas de Moçambique ou das do minúsculo Estado europeu de San Marino, encravado na Itália.

Entre os produtos destinados ao exterior, estão minério e itens manufaturados, entre eles armamentos e artigos têxteis, além de produtos agrícolas e pesqueiros.

Mas como um país com uma economia de tamanho equiparável à de alguns dos países mais pobres da América Latina pode pagar por um programa nuclear?

Passando fome

APCoreia do Norte detém um significativo poderio militar. Image copyright AP

A resposta parece estar na natureza autoritária e centralizada do governo, que destina os escassos recursos do país a fins militares, nem que para isso seus cidadãos passem fome.

O PIB per capita da Coreia do Norte, ajustado pelo seu poder de compra, chega a US$ 1,8 mil (R$ 7,2 mil), fazendo com que o país asiático ocupe a 208ª posição entre 230 nações, nível comparável ao de Ruanda, na África, ou do Haiti, na América Central.

Na década de 1990, o país enfrentou a ameaça de uma escassez generalizada de produtos alimentícios básicos, e sua economia levou um longo tempo para recuperar-se do desastre.

Foi um processo tão traumático que, até 2009, a Coreia do Norte recebeu uma substancial ajuda alimentar da comunidade internacional. Hoje, acredita-se que sua produção agrícola interna tenha melhorado.

Os clientes

E quem são os clientes dos produtos norte-coreanos?

O aliado político mais importante do país é a China, que compra 54% de sua produção. Em um inesperado segundo lugar, vem a Argélia, que é o destino de 30% das vendas do país. E, para a Coreia do Sul, vão 16% de suas exportações.

Apesar da Coreia do Norte e a nação vizinha viverem um dos conflitos militares mais longos de que se tem notícia na história, em curso desde o fim da 2ª Guerra Mundial, os dois países vêm fortalecendo os vínculos econômicos.

Alguns investimentos sul-coreanos se concentram em determinadas partes do pais, oferecendo ao governo norte-coreano outra valiosa fonte de divisas.ReutersSob o comando de Kim Jong-un, o país realizou testes de foguetes controversos.
Image copyright Reuters

O núcleo mais importante deles é o complexo industrial de Kaesong, que está diante de um futuro incerto depois de o governo de Seul anunciar a suspensão de sua participação na iniciativa, devido às crescentes tensões políticas entre ambas as nações por conta dos testes nucleares realizados pela Coreia do Norte.

A Coreia do Sul diz não querer que os recursos gerados pela zona industrial sejam usados no programa militar norte-coreano. E as sanções econômicas impostas por vários países, inclusive as mais recentes aplicadas pelo Japão, devem continuar debilitando a economia norte-coreana.

No entanto, enquanto o governo do líder norte-coreano, Kim Jong-un, seguir disposto a impôr sacrifícios substanciais a seus habitantes, pode-se esperar que a Coreia do Norte continue a desenvolver seu poderio militar muito além do que seria possível esperar de uma nação com sua frágil condição econômica.
BBC

Ataque é causa mais provável para ‘blecaute digital’ na Coreia do Norte

Para empresas, um país ser autor do ataque não é plausível; veja hipóteses.
Faz mais sentido ser obra de “garoto com máscara de Guy Fawkes”, dizem.

Manifestantes seguram suas máscaras de Guy Fawkes na Ponte da Liberdade, durante uma manifestação de apoiantes do movimento Anonymous, em Budapeste, na Hungria (Foto:  Bernadett Szabo/Reuters)Manifestantes seguram suas máscaras de Guy Fawkes na Ponte da Liberdade,  na Hungria (Foto: Bernadett Szabo/Reuters)

O “apagão cibernético” enfrentado pela Coreia do Norte nesta segunda-feira (22) e que teve uma reedição nesta terça-feira (23), dias após o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, prometer responder “proporcionalmente” à invasão aos sistemas da Sony, atribuído a Pyongyang, pode ter sido provocado por um ataque cibernético, afirmam especialistas ouvidos pelo G1.

Essa é hipótese mais plausível, dizem eles, mas os responsáveis pela ação não são consenso. A infraestrutura de rede norte-coreana é pequena e frágil, o que não faz da suspensão da internet norte-coreana uma missão tão árdua e passível de ter sido causada até por um “garoto usando a máscara de Guy Fawkes”.

Matthew Prince, cofundador da CloudFlare, e James Cowie, cientista-chefe da Dyn Research, enumeraram as possíveis causas da instabilidade seguida da completa interrupção da conexão na Coreia do Norte.

A primeira é uma empresa que costuma fornecer segurança contra ataques cibernéticos e a segunda monitora instabilidades na rede mundial de computadores. Veja abaixo os vários cenários traçados por eles:[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Saída de fininho
Após a Coreia do Norte ter declarado no domingo (21) que estava pronta para um embate com os Estados Unidos, o próprio governo poderia ter “desligado” a internet a fim de evitar a maior exposição de seus sistemas. “Nós já vimos isso antes quando outros países com baixos níveis de conectividade e governos com alto grau de poder sobre telecomunicações cessaram a conexão à internet”, afirmou Prince, citando a Síria. A rede norte-coreana de fato é controlada pelo governo, que tem autonomia para tomar esse tipo de decisão, mas parece improvável que Kim Jong-un, o ditador norte-coreano, autorizaria um “blecaute digital”, o que enfraqueceria ainda mais sua imagem perante a comunidade internacional.

Derrubada chinesa
Outra possibilidade é a China ter interrompido a conexão do país vizinho. Isso poderia acontecer porque a China Unicorn, empresa estatal das telecomunicações chinesa, é a gestora das quatro únicas redes de internet que a Coreia do Norte dispõe. Nesta segunda (22), durante uma reunião do Conselho de Segurança da ONU, a China evitou fazer volume às críticas contra a possível ligação de Pyongyang ao ataque à Sony. O país, membro permanente do grupo, preferiu defender um diálogo entre EUA e Coreia do Norte sobre o ocorrido. Para Prince, caso a “saída de fininho” ou a “derrubada chinesa” tenham sido as causas da interrupção, é impossível definir a diferença entre uma e outra.

Fios cortados
O “blecaute” pode ter sido causado ainda pelo rompimento de cabos. “É improvável que a Coreia do Norte tenha um contrato com a Cisco de suporte constante e uma fonte crítica de energia pode ter falha por razões diversas”, afirmou Prince. Cowie também aponta essa como uma das possíveis causas, mas afirma que é muito improvável já que antes da suspensão total da conexão houve instabilidade. “O padrão de longa instabilidade, seguida de suspensão, torna menos provável que seja o resultado de um simples corte de cabo de fibra ótica.”

Ataque de negação
A aposta mais plausível, dizem os especialistas, é de um ataque de negação, ou DDoS. “Enquanto nós não sabemos quanto é a capacidade [de tráfego de dados] entrando na Coreia do Norte e saindo dela, é improvável que seja mais do que dezenas de gigabits por segundo. Dado que os maiores ataques DDoS são de uma magnitude muito maior do que isso, é concebível que um ataque tenha saturado a conexão e deixado o site offline”, diz Prince.

Apesar de coicidentemente o “apagão” ter ocorrido alguns dias após a ameaça dos Estados Unidos, a rede norte-coreana é tão frágil que não precisaria de um esforço governamental para derrubá-la.  “Se foi mesmo um ataque, eu ficaria bem mais surpreso se um governo tivesse lançado esse ataque do que se fosse obra de um garoto usando máscara de Guy Fawkes”, afirmou.

Outra evidência é a restauração da conexão, ainda que a Coreia do Norte tenha enfrentado uma segunda queda da internet nesta terça-feira. “Eu acredito que é uma boa evidência de que a interrupção não foi causada por um ataque patrocinado por um estado, caso contrário a internet ainda estaria fora do ar.”
Helton Simões Gomes/G1

Estúdio exige que imprensa não divulgue dados roubados

Segurança Privacidade Digital Internet Blog do Mesquita 02A Sony Pictures Entertainment advertiu organizações jornalísticas americanas para que não mais divulguem os dados corporativos vazados por crackers que invadiram seus sistemas.

Em uma carta enviada a diversos órgãos de imprensa, incluindo o New York Times, o advogado da companhia, David Boies, caracterizou os documentos como “informação roubada” e pediu que todo o material que chegasse à imprensa e agências de notícias fosse destruído.

“Caso o pedido não seja respeitado”, dizia um trecho da carta, “a Sony não terá escolha senão responsabilizá-lo por quaisquer danos ou perdas resultantes do uso ou divulgação de dados”.

A ação da Sony chega 20 dias depois que os primeiros crackers invadiram seus sistemas e divulgaram uma série de dados confidenciais, incluindo informações sobre salários pagos a atores, negociações comerciais e trocas de e-mails entre diretores, produtores e estrelas de Hollywood, como George Clooney.

Muitos veículos publicaram as mensagens, incluindo os sites Gawker, Mashable, BuzzFeed e Daily Beast, a revista New York, o jornal New York Post e até mesmo o canal de TV CNN. (Obviamente, o conteúdo foi replicado em diversos países, inclusive em grandes veículos brasileiros).

Suposta retaliação 

Suspeita-se que a invasão tenha sido encomendada pelo governo da Coréia do Norte em retaliação à comédia A Entrevista, cuja trama envolve uma tentativa de assassinar o líder norte-coreano Kim Jong-un. O governo, no entanto, nega qualquer participação no roubo de documentos.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Os crackers, que pertencem a um grupo que se identifica como “Guardiões da Paz”, prometeram expor mais dados caso a Sony mantenha o lançamento do filme em pauta e chegaram a fazer ameaças com referências aos ataques de 11 de setembro de 2001.

Mordaça

O advogado Kurt Opsahl, da ONG Electronic Frontier Foundation, declarou duvidar que os veículos de comunicação possam ser obrigados a não publicar o material da Sony, ainda que o mesmo tenha sido obtido de forma ilegal. “É lamentável que o sistema da Sony tenha sido invadido e que o controle sobre sua informação interna tenha sido perdido”, afirmou Opsahl. “Mas a solução não é amordaçar a imprensa”.

Curiosamente, a Sony é a única grande companhia ligada a estúdios de cinema que não possui um braço no nicho dos noticiários (como é o caso da Warner com o TMZ e da Disney com a ABC).

A Sony também buscou o apoio de outros estúdios, mas não obteve o resultado esperado. Muitos se recusam a comentar o assunto até mesmo por temer estar fazendo publicidade indireta para a concorrente. De fato, poucos figurões da indústria apoiaram a Sony abertamente; foram eles: Douglas Wick (ex-produtor dos estúdios Sony); Judd Apatow (produtor de comédias como O virgem de 40 anos); Seth Grahame-Smith (roteirista e autor do livro Orgulho e preconceito e zumbis); Philip Lord (diretor do filme Uma aventura Lego); e Aaron Sorkin (roteirista de séries como The West Wing).

Questão ética

Jacob Weisberg, presidente e editor-chefe do grupo Slate, publicou um artigo comentando a delicada posição da Sony. Weisberg diz que a decisão de não publicar o material crackeado deveria ser baseada na ética e no respeito do direito de livre expressão, e não em pressão legal. Ele crê que agências de notícias devem, sim, cobrir a invasão aos sistemas da Sony, mas que o foco deveria ser no porquê dos acontecimentos e na fonte dos ataques, não na exploração do conteúdo do material confidencial.

Weisberg também fez um paralelo ao episódio do WikiLeaks e às divulgações feitas por Edward Snowden. “A diferença [entre um caso e outro] é o assunto de interesse público. No caso Snowden, os e-mails roubados revelaram abusos de poder. As divulgações expuseram práticas que até mesmo o presidente Obama admitiu como deploráveis uma vez que o assunto veio à tona.

E, neste caso, os jornalistas do Guardian, do New York Times e do Washington Post levaram a sério a obrigação de equilibrar o interesse público com o potencial das informações de provocar danos às pessoas e risco à segurança nacional”, escreveu. “Já na situação da Sony, é difícil enxergar qualquer interesse público.

Os e-mails roubados são mais comparáveis às fotos nuas de Jennifer Lawrence. É claro que as pessoas queriam ver as fotos. Mas, nesse caso, até mesmo a imprensa-marrom reconheceu que não havia justificativa para a violação maciça de privacidade que o episódio implicava”, concluiu.

Entenda o ataque virtual à Sony

O ataque virtual à Sony ─ creditado à Coreia do Norte, que nega a acusação ─ tem todos os ingredientes de uma megaprodução de Hollywood, especialmente depois de a multinacional japonesa cancelar a estreia do filme “A Entrevista”, uma paródia do regime comunista.

Crédito: AP
Sony cancelou estreia de filme ‘A Entrevista’ após ameaças terroristas

A decisão foi tomada após redes de cinema norte-americanos se recusarem a exibir a comédia por medo de ameaças feitas por um grupo de hackers, chamado Os Guardiões da Paz (GOP, em inglês). De acordo com serviços de inteligência americanos, o GOP está ligado à capital norte-coreana, Pyongyang.

Ainda não se sabe, contudo, quem está por trás do ataque. Neste sábado, a Coreia do Norte, que nega envolvimento no episódio, ofereceu ajuda aos Estados Unidos para descobrir os responsáveis por invadir os computadores da Sony e acessar informações confidenciais, incluindo conversas de altos executivos da companhia.

Confira abaixo o que já foi desvendado sobre o caso.

O que já se sabe

Há uma única certeza em meio a tantas dúvidas sobre o ataque virtual à Sony: o sistema interno de computadores da companhia foi alvo de hackers em novembro.

O grupo responsável pelo ataque se autodenomina The Guardians of Peace (Os Guardiões da Paz, em tradução livre) e ameaçou vazar dados secretos da multinacional japonesa “ao mundo” caso suas demandas não fossem atendidas.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Ironicamente, no entanto, essas demandas nunca foram divulgadas.

Os hackers disponibilizaram em sites de download filmes da Sony que ainda não haviam estreado. “A Entrevista”, uma comédia sobre um complô para assassinar o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, com previsão de estreia no Brasil no final de janeiro, não era um deles.

Os autores do ataque também divulgaram o salário e os números de previdência social de milhares de empregados da Sony – incluindo celebridades.

Como o grupo fez ameaças terroristas a cinemas que exibissem o filme, a Sony optou por cancelar sua estreia.

Leia mais: Coreia do Norte oferece ajuda aos EUA para investigar ataque virtual à Sony

Quem são os principais suspeitos?

  • Um país, muito provavelmente a Coreia do Norte
  • Apoiadores do regime da Coreia do Norte baseados na China
  • Hackers em busca de chantagem
  • Hackers ou um único indivíduo com outra motivação, como vingança

Por que a Coreia do Norte é a principal suspeita?

Crédito: Reuters
Coreia do Norte continua como principal suspeita pelo ataque a computadores da Sony

De acordo com serviços de inteligência americanos, a Coreia do Norte é a principal suspeita pelo ataque. O país tem motivos de sobra para estar por trás do episódio e um histórico de ataques virtuais.

Além disso, o governo norte-coreano não disfarça a irritação por causa do lançamento do filme, que classificou como “um ato de terrorismo”.

Para especialistas, as suspeitas recaem sobre a chamada Unidade 121, a unidade de elite de hackers do governo norte-coreano. O departamento faz parte do Escritório Geral de Reconhecimento (RGB, em inglês) da Coreia do Norte, responsável por operações clandestinas.

Pouco tempo depois da decisão da Sony de cancelar a estreia do filme, o jornal americano The New York Times publicou uma reportagem na qual uma fonte não identificada do governo americano dizia acreditar que o ataque havia sido patrocinado pelo governo norte-coreano.

Por que a Coreia do Norte pode não estar envolvida no ataque?

A Coreia do Norte negou estar por trás do ataque virtual à Sony, alegando, por outro lado, que o incidente foi obra de alguém simpático à sua causa.

Pesa a favor do governo norte-coreano o fato de que poucas vezes o regime comunista se prestou a negar acusações deste tipo.

Além disso, embora a Coreia do Norte já tenha sido responsável por uma série de ataques virtuais, especialistas dizem que esse incidente específico não faz parte do seu modus operandi.

Seu alvo principal é a vizinha Coreia do Sul, onde ataques como o lançado em março de 2013 derrubou as redes internas do país.

O blogueiro americano Marc Rogers diz que o código do ataque remete a um computador com IP da Coreia. Porém, a linguagem torna menos provável que a fonte tenha sido a Coreia do Norte.

Ele ressalva que os norte-coreanos não falam o coreano tradicional, e sim, um dialeto próprio, já que o coreano tradicional é proibido no país.

“Também não podemos esquecer que é comum mudar a linguagem/local de um computador antes de compilar o código”, disse ele, em seu blog.

Rogers destaca ainda que os hackers responsáveis pelo ataque conhecem a fundo os meandros da Internet e das redes sociais. “Isso e a sofisticação da operação não correspondem ao perfil da Coreia do Norte”.

Mas talvez a evidência mais forte seja a de que os hackers só se interessaram pelo filme “A Entrevista” quando a imprensa sugeriu que a Coreia do Norte poderia estar ligada ao ataque.

Leia mais: FBI culpa Coreia do Norte por ataque de hackers; Obama promete ‘resposta à altura’

Se não foi a Coreia do Norte, quem foi?

Crédito: Thinkstock
Hackers chineses podem ter sido recrutados por Coreia do Norte, acreditam especialistas

Em seu blog, Rogers sugere que a China poderia estar por trás do ataque. “Acho muito mais plausível”, pondera.

Alguns especialistas concordam. Eles dizem acreditar que o ataque possa ter partido de hackers chineses possivelmente recrutados pela Coreia do Norte.

Outros sugerem que hackers podem ter invadido os computadores da Sony com o intuito de extorquir a companhia.

Quando o ataque foi noticiado, havia poucos indícios de que o ataque fosse tivesse motivação financeira. No entanto, hackers enviaram e-mails a cinco executivos da Sony em 21 de novembro, dias antes do vazamento dos arquivos confidenciais, pedindo dinheiro.

Sean Sullivan, executivo da empresa de segurança F-Secure, diz acreditar que a extorsão possa ter motivado o ataque.

“Uma motivação financeira é muito mais crível do que um ataque coordenado por um país”, diz ele à BBC.

Para Sullivan, é preciso aguardar o próximo passo dos hackers.

Ele diz que se o objetivo deles tiver sido apenas o cancelamento do filme, a meta já foi alcançada e nada mais deve acontecer. Mas, se, por outro lado, houver mais vazamentos, é provável que a Coreia do Norte não seja a principal suspeita pelo ataque.

Como Rogers, Sullivan não descarta o envolvimento de hackers chineses na invasão de computadores da Sony.

“É muito mais provável que a Coreia do Norte tenha recrutado hackers chineses que buscam ganhar dinheiro fácil e, ao mesmo tempo, desestabilizar a Sony”.

Existe também a possibilidade de que o ataque tenha sido motivado por vingança.

Para entender essa hipótese, é necessário relembrar o passado da Sony e os ataques virtuais que a multinacional japonesa já sofreu.

O convívio conflituoso entre os hackers e a Sony começou em 2005, quando a divisão de música da companhia instalou um software que modificou os sistemas operacionais dos computadores, impedindo que CDs fossem copiados.

A guerra ganhou novo capítulo em 2010, quando a Sony processou o hacker adolescente George Hotz, responsável por “quebrar” o código do Playstation 3, divulgando-o na rede.

Mas o maior ataque sofrido pela companhia aconteceu em abril de 2011 quando o grupo Anonymous lançou uma campanha para derrubar a rede do Playstation. Os hackers obtiveram acesso a informações pessoais de mais de 77 milhões de usuários. A invasão custou à Sony pelo menos US$ 171 milhões (R$ 455 milhões).

Em entrevista ao site Gizmodo, Chester Wisniewski, executivo da empresa de segurança Sophos, afirmou que a Sony “vem provocando a ira dos hackers há muitos anos, portanto não surpreende que a companhia seja um alvo provável”.

Para Roberts, o suspeito mais óbvio pode estar mais perto do que muita gente pensa.

“Aposto minhas fichas em um provável ex-funcionário da Sony”, diz ele.

O caso pode chegar aos tribunais?

Ainda não é certo que os responsáveis pelo ataque serão levados à Justiça. O governo dos Estados Unidos disse que, se os hackers não forem norte-coreanos, “será muito difícil processá-los”.

E enquanto muitos especulam sobre outros suspeitos, faltam provas.

“A Coreia do Norte é potencialmente suspeita. Mas para condená-la são necessárias mais evidências”, afirmou Alan Woodward, especialista de segurança da Universidade de Surrey, na Inglaterra.

Em meio a tantas dúvidas, há um consenso de que os efeitos do ataque serão sentidos por muito tempo.

Em primeiro lugar, levará algum tempo para que a Sony recupere sua reputação e ganhe de volta a confiança de Hollywood.

Outro ponto é por que os cinemas cederam às ameaças, cancelando a exibição do filme com medo de ataques terroristas, uma iniciativa que não coaduna com o perfil dos Estados Unidos.

Além disso, o ataque lança luz sobre as deficiências de segurança das grandes corporações do país.

Para Sullivan, a invasão representa um momento ideal para que os Estados Unidos revisem “os seus padrões de segurança”.
Jane Wakefield/BBC

Gigante de vendas online desiste de verificação com letras distorcidas

A maior empresa de vendas de ingressos pela internet – a Ticketmaster – está desistindo de usar a tecnologia “captcha” no seu site.

Captcha
Tecnologia ‘captcha’ costuma irritar internautas ao pedir que eles identifiquem letras distorcidas

Esse tipo de tecnologia faz com que os internautas tenham que identificar letras distorcidas e digitá-las.

Isso é feito para verificar que quem está navegando no site é uma pessoa – e não uma outra máquina.

O objetivo é aumentar a segurança do site e protegê-lo de hackers.

Esta edição traz também os novos mapas do Google com detalhes da Coreia do Norte, uma polêmica envolvendo a Microsoft e investimentos pesados sendo feitos na Europa.
BBC


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