Maior índice de branqueamento de corais em 35 anos é registrado na APA Costa dos Corais

O branqueamento de colônias de corais acontece em razão da perda das algas que vivem em associação mutualística com o coral, as chamadas zooxantelas, causando a morte desses corais.

Branqueamento de coral. Foto: Pedro Pereira.

Tal fenômeno vem ocorrendo em nível global e está diretamente ligado ao aquecimento das águas dos oceanos causado pelas mudanças climáticas – e não parou por conta da pandemia.

Ao contrário. Uma recente expedição nos recifes de coral da Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais (APACC), realizada pela gestão da unidade de conservação na semana passada, constatou que o pior está acontecendo. Os pesquisadores detectaram uma grande onda de branqueamento de várias colônias de corais em zonas de preservação e de visitação da APA em Maragogi, Alagoas, famoso ponto turístico.

De acordo com Pedro Henrique C. Pereira, pesquisador do projeto Águas Marinhas e Costeiras Protegidas (GEF Mar) e membro da equipe do ICMBio Costa dos Corais, esse é o pior evento de branqueamento dos últimos 35 anos. “Esse ano ocorreu o maior aquecimento das águas da APA desde 1985. Registramos mortes de até 70% para Millepora braziliensis (coral-de-fogo) e de 40% para Mussismilia hartii (coral-cérebro), espécie ameaçada de extinção”, diz.

O monitoramento foi realizado entre os dias 20 e 24 de julho, no qual a equipe do ICMBio Costa dos Corais, com o apoio do Projeto Conservação Recifal (PCR), mergulharam na Zona de Preservação da Vida Marinha (área fechada a visitantes) e nas Zonas de Visitação aquário e nas galés da APACC em Maragogi. Pereira explicou que o monitoramento dos corais é feito há vários anos, porém o último havia sido realizado apenas em março, devido à pandemia de coronavírus.

Monitoramento dos corais. Foto: Pedro Pereira.

A mais recente expedição tinha como objetivo avaliar os efeitos do isolamento social nos ambientes coralíneos, isto é, avaliar como o ambiente se comportou com a suspensão da visitação pública. “Infelizmente, apesar do isolamento social, os efeitos do branqueamento foram implacáveis, sendo observada grande mortalidade de corais e muitos corais ainda branqueados”, lamentou Pereira.

Os pesquisadores utilizaram dados da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (National Oceanic and Atmospheric Administration – NOAA) para avaliar o aquecimento das águas oceânicas e o nível de alerta de branqueamento dos corais para 2020. “Apesar da falta de dados entre os meses de isolamento social, o monitoramento continuado dos recifes da APACC mostra que este é provavelmente o maior evento de mortalidade de corais das últimas décadas”, explicou Pereira.
Branqueamento de colônia de coral-cérebro (Mussismilia hartii). Foto: Pedro Pereira.

Questionado sobre como seria possível mitigar o fenômeno, Pereira destacou a urgente necessidade de redução dos impactos das mudanças climáticas. “A solução são os acordos internacionais de redução de poluentes. O aquecimento global só será revertido com uma demanda da sociedade em geral sobre os governantes dos países que mais poluem”.

O Brasil é o sétimo maior emissor de gases de efeito estufa do planeta, segundo o SEEG para 2018 (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima).

APA Costa dos Corais

Branqueamento da Millepora sp. (coral de fogo). Foto: Pedro Pereira.A APA

Costa dos Corais (APACC) é a maior unidade de conservação federal marinha costeira do Brasil. Possui mais de 400 mil hectares de área e cerca de 120 quilômetros de praias e mangues. Seu objetivo é a conservação ambiental e o equilíbrio entre os usos direto (pesca) e indireto (turismo e pesquisa) dos recursos naturais, garantindo-os para as gerações atuais e futuras.

Ambiente e Poluição: Corais em extinção?

Grande Barreira de Coral sofre danos sem precedentes, afirmam cientistas

Área danificada atinge 1.500 quilômetros, equivalente a dois terços; pesquisadores dizem que corais danificados por dois anos seguidos de branqueamento têm chances mínimas de recuperação.

Cerca de 1.500 quilômetros da Grande Barreira de Coral australiana – o equivalente a dois terços – estão danificados após dois anos seguidos de branqueamento, disseram cientistas australianos nesta segunda-feira (10/04).

No mês passado, os cientistas disseram que haviam detectado um intenso processo de branqueamento também em 2017, após uma ocorrência semelhante no ano anterior. A causa do fenômeno seria a elevação acima da média das temperaturas das águas do oceano.

“O impacto combinado desse branqueamento consecutivo se estende ao longo de 1.500 quilômetros, deixando apenas um terço situado ao sul ileso”, afirmou o diretor do Centro de Estudos de Corais da Universidade James Cook, Terry Hugues.

Fenômenos similares aconteceram em 1998 e 2002.

Em 2016, o branqueamento causado por um aumento acima da média nas temperaturas das águas, combinado com os efeitos do fenômeno meteorológico El Niño, afetou sobretudo a parte norte da Grande Barreira de Coral.

Este ano, principalmente a parte central está sendo afetada. “Em 2017 estamos vendo um branqueamento intenso, mesmo sem a ajuda do El Niño”, disse Hughes.

Deterioração da Grande Barreira de Coral começou na década de 1990, causada pelo aquecimento da água do mar e  pelo aumento da acidez pela maior presença de CO2 na atmosfera

“Os corais descoloridos não são necessariamente corais mortos, mas, na região central, severamente afetada, antecipamos que se registraram altos níveis de perda de corais”, afirmou o cientista James Kerry, que também participou dos estudos. Segundo ele, os corais demoram cerca de uma década para se recuperar completamente. “Branqueamentos intensos com 12 meses de intervalo oferecem uma perspectiva nula de recuperação para os corais danificados em 2016.”

A passagem do ciclone tropical Debbie, que atingiu o nordeste australiano no final de março, causou danos ainda maiores aos corais.

“Provavelmente, qualquer efeito de arrefecimento relacionado com o ciclone será insignificante em relação ao dano que ele causou, já que infelizmente atingiu uma parte do recife que havia escapado à pior parte do branqueamento”, disse Kerry.

A deterioração da Grande Barreira de Coral começou na década de 1990, ocasionada pelo duplo impacto do aquecimento da água do mar e do aumento da acidez gerado pela maior presença de dióxido de carbono na atmosfera.

Declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco, a Grande Barreira de Coral abriga cerca de 400 tipos de corais, 1.500 espécies de peixes e quatro mil variedades de moluscos.

Deutsche Welle/RC/afp/lusa