Copa 2014: A ideologia do fracasso

Imprensa ManipulaçãoManchete da Folha de S.Paulo de domingo (29/6), após a vitória brasileira nos pênaltis contra o Chile: “Júlio César e trave salvam Brasil de vexame em casa”.

Há muito tempo – mas cada vez mais – os maiores veículos de comunicação do país têm feito escolhas editoriais que procuram menosprezar os avanços sociais e criar um sentimento de derrota, em todas as áreas.

Tentaram de tudo para transformar a Copa do Mundo num pesadelo nacional e não pouparam más notícias. Algumas catastróficas (caos aéreo, imobilidade urbana, violência etc.).

A Copa não foi um primor de organização, mas está longe de comprometer o espetáculo. Pelo contrário: os estádios estão cheios, os turistas e torcedores – exceções à parte – só têm elogios para o clima de alegria e fraternidade. Os imprevistos são aqueles comuns a qualquer grande evento em qualquer lugar do mundo. Os gastos com estádios, que pareciam fora da realidade, revelaram-se bem menos exorbitantes do que a imprensa tentou incutir entre os brasileiros. Segundo a própria Folha, o equivalente a uma semana do que se investe em educação no país. E parte do dinheiro investido é empréstimo e retornará aos cofres públicos.

Quase nenhuma reportagem abordou as vantagens de sediar a Copa, os empregos gerados, os investimentos realizados na infraestrutura, que irão permanecer. E mais do que tudo: quanto vale uma imagem positiva do país, como esta que parece que os turistas e as seleções que aqui estiveram estão levando a seus países? Quanto vale ser o centro da atenção do mundo por 30 dias? Quanto vale mexer com a autoestima de um país? E, aqui, não me refiro ao desempenho da seleção, mas à alegria de receber elogios à nossa hospitalidade, às belezas do país, às virtudes de nosso povo.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Resquícios de uma nação colonizada

Vale muito. E é por isso que a Folha – aqui apenas como exemplo, pois representa o pensamento de boa parte da nossa mídia – exagera e tenta criar na população brasileira, em contraponto à autoestima que vive neste momento, um clima de menosprezo ao seu país.

Perder um jogo, ainda mais em Copa do Mundo, desde que não seja por um placar elástico, nunca foi nem nunca será um vexame. Temos a mania de achar que, sobretudo no futebol, qualquer adversário é fácil de ser batido. Mais do que isso: não basta vencer, é preciso dar show, é preciso dar olé. Nas derrotas, dificilmente o brasileiro reconhece as qualidades do time adversário, preferindo encontrar culpados: o treinador, o goleiro, um ou mais jogadores.

Nesta Copa, o último campeão – a Espanha – não passou da primeira fase e foi fragorosamente derrotado por 5 a 1 na estreia. Depois de vencer a Copa de 1998, no mundial seguinte, a França também não passou da primeira fase, perdendo dois jogos e empatando um. Saiu do mundial sem ter feito um único gol. Imaginem se fosse o Brasil! A seleção brasileira não tem a obrigação de vencer a Copa porque joga em casa. É apenas um dos favoritos. Das 19 Copas já realizadas, em apenas seis o campeão foi o país sede: Uruguai em 1930, Itália em 1934, Inglaterra em 1966, Alemanha Ocidental em 1974, Argentina em 1978 e França em 1998. Ou seja, ganhar em casa é exceção.

A disseminação do espírito “vira-lata”, como bem o definiu o escritor Nelson Rodrigues, do país que nunca faz nada certo, o exagerado endeusamento de outros países, resquícios de uma nação que foi colonizada, tudo isso ganha amplitude em boa parte da mídia brasileira. A crítica é fundamental, mas a manipulação de fatos com interesses políticos e econômicos torna-se evidente, em milhares de exemplos no cotidiano de boa parte de nossas emissoras de rádio e TV, revistas e jornais – agora também em portais mantidos pelos principais veículos de comunicação.

O apadrinhamento das relações

Temos grandes problemas a resolver no país, entre eles a necessidade de democratizar os meios de comunicação – o que tendenciosamente a mídia traduz por censura, omitindo que vários países democráticos impedem tamanha concentração da propriedade dos meios de comunicação e impõem regras que levam em consideração muito mais o interesse da população do que o dos donos desses veículos.

A ideologia do fracasso, do “vira-latismo” – já quase uma ciência! – gera na população a falsa ideia de que tudo de pior que acontece no mundo ocorre com mais intensidade no Brasil. No entanto, não somos o país mais corrupto, embora sejamos um dos mais desiguais. Segundo a ONG Transparência Internacional, o Brasil ocupa a 72ª posição entre 177 países. Apesar de ser a sétima economia do planeta, é o 12º com maior desigualdade – o quarto na América Latina. E quando se instituem programas como o Bolsa Família, elogiado pela ONU como exemplo no combate à miséria, a desinformação e a omissão da mídia levam boa parte da população a considerá-lo apenas um programa eleitoreiro ou um gasto desnecessário e sem resultado.

Embora não se diga, setores poderosos da economia e da política brasileira, da nossa elite, têm muito a ganhar com a corrupção. A honestidade tem um custo que nem todos estão dispostos a pagar. Gostamos de alardear a meritocracia num país que se notabiliza pelo apadrinhamento das relações, já amplamente estudado por vários sociólogos e intelectuais.

Sem ufanismo e sem catastrofismo

Por vias tortas, o Brasil vive um momento peculiar da sua história, marcada até aqui principalmente por um passado colonialista, escravocrata e ditatorial. Vivemos o mais longo período democrático e estamos aprendendo a enxergar o que de fato impede a criação de um país mais justo e com melhor qualidade de vida. Durante séculos, tentaram culpar o povo – miscigenado, analfabeto, ignorante, malandro – pelo “atraso”. Hoje, está mais claro que nos falta uma elite disposta a empoderar o povo, libertá-lo da opressão e da exclusão em que vive, derrubar privilégios entre os mais ricos e dividir a riqueza para que alcancemos o desejado patamar de um país com mais justiça social, melhores serviços públicos, mais qualidade de vida e menos violência (sem esquecer que a desigualdade social é a maior de todas as violências).

Contra a ideologia do fracasso, das frases feitas do tipo “aqui nada dá certo”, “o Brasil é assim mesmo”, “o governo não faz nada”, “o brasileiro não trabalha”, “o povo não sabe votar” e outros chavões, há que se disseminar um sentimento de construção, de valorização do que temos de melhor, de crítica ao que precisamos mudar, mas, sobretudo, de responsabilidade pelo país que somos.

Sem ufanismo, mas também sem catastrofismo. Para isso, ajuda muito um bom jornalismo.
Celso Vicenzi/Observatório da Imprensa

Copa 2014: Por que não vaiamos Angela Merkel?

Logomarca Marco Civil na InternetNesta primeira fase da Copa do Mundo no Brasil, a mídia demonstrou que nem só de craques, dribles ou gols vive uma cobertura futebolística.

A presença de representantes governamentais e da realeza mundial nas primeiras partidas comprova a importância da união entre popularidade e visibilidade que só o futebol parece conseguir.

Mas, em uma tentativa de conter os temas dentro das quatro linhas, a mídia brasileira perdeu uma boa oportunidade de pautar um outro gol canarinho: o Marco Civil da Internet.

Na busca por ser um modelo para uma rede aberta e livre, ainda inédito em outros países, tal formato sobre os direitos digitais criou laços entre Brasil e a Alemanha de Angela Merkel para além do megaevento esportivo.

Porém, sobrepujada por dribles assertivos da mídia brasileira, que optou por relacionar a visita da chanceler alemã ao futebol, quase nada se ouviu sobre seu compromisso diplomático. Nem sobre sua política, tida como austera, que derrotou de goleada os portugueses antes mesmo das equipes entrarem em campo. Ao contrário do que ocorreu com Dilma, para Angela nada de vaias, somente alguns aplausos que ecoaram bem mais alto nas notícias do que no estádio.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Assim, quando em campo, a grande mídia mostrou que se deixa atravessar – em todas as editorias – por um protocolo próprio do jornalismo esportivo contemporâneo, no qual os critérios de noticiabilidade assumem uma tendência a valorizar o banal e ignorar o essencial. Exalta-se o espetáculo e suplanta-se o fato.

Um importante tópico

Seguindo esse modelo, a visita da chanceler alemã ao Brasil a convite da presidente Dilma assumiu tons de férias em solo baiano. Alçada ao posto de celebridade, as matérias sobre ela não se esforçaram em ultrapassar os flagrantes comportamentais do contato de Angela com a cultura brasileira.

Conhecida pela rigidez, os relatos que pipocaram na mídia seguiram uma descrição quase etnográfica desse encontro de culturas. Tom que marcou a narrativa de textos e imagens, como a notícia publicado na página de esportes do site de O Globo [“Angela Merkel acompanha a estreia da Alemanha na Copa”] que se esmerou em divulgar: “Logo que chegou, [Merkel] bebeu água de coco e pareceu gostar muito.”

Ao priorizar a “Merkel torcedora”, a mídia brasileira não focou na sua parceria com o Brasil, gerando somente “mídia espontânea” para a equipe alemã. Contudo, de acordo com o portal de notícias Deutsche Welle, o encontro entre Dilma e Merkel versou sobre diversos interesses comuns, como o comércio entre os dois países – a Alemanha é o parceiro comercial europeu número 1 do Brasil – e os empenhos mútuos sobre livre comércio entre Mercosul e União Europeia.

Para além dos temas comerciais, perdemos a chance de debater um importante tópico da pauta das duas governantes: a busca por uma política global da internet. Parceiros no embate à espionagem norte-americana realizada pela Agência de Segurança Nacional (NSA) – da qual foram alvos –, os governos de Dilma e Angela foram protagonistas ao propor à ONU, em 2013, um projeto de resolução sobre o direito à privacidade digital, que parece estar só no início.

Meras peças publicitárias

Com a recente aprovação do Marco Civil da Internet – uma ação pioneira que se caracteriza por ser um instrumento normativo que assegura direitos e deveres pautados na cidadania no “caos” da rede –, a mídia brasileira perdeu o timing. E deixou passar em branco um bom momento para se instaurar um debate público sobre a questão que une duas importantes lideranças mundiais e diz respeito a todos.

A discussão sobre o Marco Civil leva a repensar o direito à comunicação e ao acesso à informação, bem como todo um modelo de cidadania – dentro ou fora da rede. Assim, é preciso levar em consideração que, com a ampliação e promoção de uma internet aberta e livre, o que se pretende não é só um maior contato com os diversos conteúdos ali diariamente incluídos, mas promover um acesso amplo à cultura e à educação por meio de um canal de comunicação que acata a pluralidade e a livre expressão responsável.

Com esse movimento, é de se esperar que tal acesso gere uma demanda que atinja diretamente os grandes monopólios da comunicação brasileira, que logo terão que rever não só seu modus operandi como todo seu modelo econômico e de negócios. Padrão este cunhado em um período tão conservador quanto autoritário, no qual ao mesmo tempo em que era incentivado o “salve a seleção”, abafava-se, de forma violenta, o grito por liberdade.

Nessa “batalha” por um modelo de internet livre e aberta, o que se percebe é que a aclamada liberdade de expressão não se separa da democratização mais ampla dos meios de comunicação como um todo. Para tanto, será preciso enfrentar a mobilidade de termos seminais para a comunicação social, como democracia e liberdade. Conceitos que não admitem simplificações e que, por isso mesmo, parecem nunca assumir, por parte da mídia brasileira, uma nítida conotação. Na dúvida, a mídia vai tateando de acordo com seus interesses. Por um lado, generaliza a presença da governante europeia em tchauzinhos amistosos e visitas caridosas e, por outro, localiza a presidente brasileira, e todo o seu governo, no aviltamento das vaias e xingamentos.

Em comum, um esforço midiático que acaba por desfazer as condições imprescindíveis de acesso à informação – capaz de promover a participação, o debate e a gestão pública e democrática de forma qualificada –, dentro e fora dos estádios, em prol de fazer de tais episódios, apenas, peças publicitárias.

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Por: Lyana Thédiga de Miranda é jornalista, publicitária e doutoranda em Educação

Copa 2014: O Brasil já ganhou a Copa

Copa 2014,Futebol,Esportes,Blog do MesquitaEm maio último, uma portuguesa que vive na francesa Lyon, ao me identificar como brasileiro, perguntou-me, espantada: “Como o Brasil vai fazer a Copa, porque a situação lá está pior do que no Afeganistão?” Fiquei chocado com a comparação.

Desde então, aumentaram meus pesadelos com reportagens as mais negativas e terríveis sobre o Brasil nas mídias internacionais durante a Copa do Mundo. Confesso que estava preocupado com o ritmo da preparação do Brasil para sediar o maior evento esportivo do planeta.

Evitava engrossar o time daqueles que previam um desastre, com estádios inacabados, cidades paradas por manifestações e pelo trânsito caótico, aeroportos em colapso. Mas temia os atrasos.

Ainda estamos nas oitavas de final, mas já ganhamos a Copa. Os estádios ficaram prontos e são belas obras de engenharia. Especialmente, estão lotados de gente alegre, colorida, animada.

Brasileiros e estrangeiros educados (com exceção, é claro, daqueles que dirigiram palavras impublicáveis para a presidente da República e a Fifa no jogo de abertura, no Itaquerão).

Até agora se assistiu a um recorde de gols nos jogos disputados pelas 32 seleções nas 12 cidades-sede. É mesmo uma grande Copa do Mundo!

Os aeroportos estão funcionando bem, apesar das obras incompletas.

A infraestrutura do país vem dando conta do recado. A mobilidade urbana, com os sistemas emergenciais adotados nas cidades-sede, tem sido garantida, quase sem transtorno, para os que festejam em praças e bares e para os que seguem aos estádios.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Resultado? A imagem do Brasil nas mídias internacionais mudou da água para o vinho, com a chegada de 600 mil turistas vindos de 186 países, que reservaram 340 mil diárias em hotéis até 13 de junho.

E com o início de 1 milhão e 500 mil minutos de transmissão dos 64 jogos nas TVs de mais de 200 países, que atingem 3,6 bilhões de espectadores, quase a metade da população mundial. Isso sem computar as repetições das imagens ao longo do dia, as notícias veiculadas por jornais e imprensa especializada, espalhada por sites noticiosos e amplificada nas redes sociais.

Se o Brasil fosse investir em publicidade durante um mês com tal intensidade, veicularia três milhões de comerciais de 30 segundos, ao custo inimaginável de trilhões de reais.

Perto de 19 mil profissionais de imprensa foram credenciados para cobrir os eventos ligados ao torneio. Profissionais que levaram os britânicos “The Guardian” e BBC, para citar dois dos principais meios de comunicação europeus, a reverem seus prognósticos de Copa de confusões e caos.

A BBC já fala que “a Copa das Copas prometida pelos governantes brasileiros está acontecendo mesmo dentro das quatro linhas”. E se rende aos brasileiros, ao revelar que, quando perguntam aos turistas estrangeiros o que pensam do nosso povo, ouvem sempre mesma resposta: “Fantastic people!”

O Brasil está superando a resistência da mídia e da opinião pública. E aparece bem, de Manaus a Porto Alegre, de Fortaleza a Natal, de Recife a Salvador. De Brasília a Cuiabá e Curitiba. De Belo Horizonte a São Paulo e Rio de Janeiro.

O país, até agora, lidera a Copa da imagem e da reputação. Torcemos para que vença também em campo. Apesar do retorno da arrogância do Felipão nas entrevistas coletivas. Mas esta é outra história…
Francisco Soares Brandão/Blog do Noblat/O Globo
Francisco Soares Brandão é empresário.

Copa 2014 e protestos testam investimento de quase R$ 2 bi em segurança

Protesto no RIo (Reuters)

Protestos nas ruas têm sido menores mas, muitos deles, são marcados pela violência

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Não é para menos. Além das 32 seleções e chefes de Estado, cerca de 600 mil turistas estrangeiros deverão chegar ao país para acompanhar a Copa.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Por aqui, mais de 3 milhões de brasileiros viajarão entre as 12 cidades-sede – várias delas entre as mais violentas do país – para ver as partidas.

E, claro, as autoridades terão que lidar com os protestos. Eles se tornaram frequentes em todo o país desde junho do ano passado, quando milhões de pessoas tomaram as ruas reivindicando melhores serviços públicos, educação e saúde, além de criticarem os gastos para a realização da Copa.

Manifestações têm ocorrido recentemente em diversas cidades e, apesar de menores, várias têm sido marcadas pela violência.

Mesmo assim, a polícia teme que atos violentos possam manchar a festa.

“Obviamente, hoje, nossa principal preocupação são essas manifestações que geram bloqueios de vias e impedem o fluxo de pessoas e até das seleções”, disse à BBC Brasil o delegado Guilherme Almeida, coordenador da Comissão Estadual de Segurança de Grandes Eventos de São Paulo.

Ele é responsável pelo centro de comando da segurança de São Paulo.

Todas as cidades-sede terão instalações semelhantes, que receberão informações de diversos órgãos – polícia, bombeiros, trânsito – e de câmeras e equipes espalhadas pelas cidades.

“Estamos preparados para superar quaisquer problemas”, disse Almeida.

O governo diz que as novas tecnologias e a integração entre os órgãos serão os maiores legados do evento.

Só em São Paulo, serão monitoradas imagens de 500 câmeras, 30 delas instaladas ao redor da Arena Corinthians, que receberá o jogo de abertura entre Brasil e Croácia no dia 12.

Uma câmera especial em um helicóptero da polícia conseguirá ler as placas de carros que estiverem nas ruas, por exemplo.

‘Me dá medo’

A expectativa entre autoridades é de que protestos serão realizados durante o Mundial.

Os motivos variam e poderão ser desvinculados do evento, como economia ou violência urbana.

“O governo não tem nenhuma intenção de conter os protestos. O que nós vamos fazer é evitar a violência”, disse à BBC Brasil uma fonte do governo a par dos planos de segurança, em abril.

As imagens capturadas pelas câmeras em São Paulo, por exemplo, serão armazenadas e poderão ser usadas para identificar suspeitos de crimes, incluindo manifestantes ligados a atos violentos, e em eventuais investigações criminais.

Copa

Críticas aos gastos para a realização da Copa cresceram entre brasileiros desde o ano passado

Mas para alguns, o alto investimento se traduzirá em repressão.

“Me dá medo. Como cidadão, me dá medo de ir para as ruas porque a gente tem o direito de protestar e saber que eles estão investindo tanto assim para bater na população”, disse o fotógrafo André Solnik, de 27 anos.

“Realmente me deixa inseguro. Muita gente que gostaria de protestar não vai para as ruas justamente por isso”, disse ele.

Cerca de 150 mil oficiais patrulharão ruas, aeroportos, hospitais e fronteiras. Além disso, 20 mil seguranças privados farão a proteção de estádios e hotéis onde as seleções estarão hospedadas.

Protestos na Copa?

Os protestos se tornaram uma das principais questões da Copa.

O apoio aos atos têm caído e a população se diz contrária à realização de manifestações durante o torneio, segundo pesquisas recentes, num momento em que a atenção do mundo estará no Brasil.

Apesar de, pelo que indicam levantamentos, cada vez menos brasileiros se dizerem favoráveis à realização do torneio no país, há sinais que apontam para uma mudança de humor quanto à Copa.

A “febre” das figurinhas do torneio, a corrida por ingressos e cenas cada vez mais frequentes de torcida, como bandeiras nos carros e ruas pintadas com os cores do Brasil, mostram entusiasmo, mesmo que limitado, com o evento.

Especialistas dizem, ainda, que o desempenho do Brasil nos gramados poderá ser um dos fatores determinantes no tamanho de protestos – e os eventuais impactos que terão na segurança do país.

Protesto (BBC)

Manifestantes prometem que sairão às ruas durante a Copa, mesmo com a segurança reforçada

Manifestação

Protestos no país têm sido frequentes desde manifestações de junho de 2013

Atos poderiam atrair mais pessoas no caso de uma eliminação precoce da seleção. Por outro lado, no caso do Brasil avançar e brigar pelo título, manifestações poderiam se esvaziar.

Apesar de tudo ainda ser especulação, muitos dão como certa a realização de protestos.

“É certeza que vai ter manifestação, mas violência creio eu que não, porque a presidente (Dilma Rousseff) já está cuidando disso, muito bem por sinal”, disse o estudante Davi Alves Pereira, de 23 anos.

“Mas violência diferente do que é não vai ter”.

‘Vai ser como sempre’

Os jogos da Copa serão realizados em cidades com altos índices de criminalidade, como Rio de Janeiro, Salvador e Recife.

As Forças Armadas também estarão à disposição dos Estados para emergências.

O investimento envolve ainda reforço da defesa em fronteiras, ar e mar e segurança cibernética, diante da ameaça da hackers de realizar ataques virtuais.

Policiais (Reuters)

Presença da polícia foi reforçada nos últimos protestos e a segurança na Copa será grande

Mas nem todos estão convencidos de que os esforços serão infalíveis.

“Vai ser como tudo como é no Brasil. Não tem segurança nenhuma. As pessoas não vão poder sair nas ruas. As pessoas que moram aqui, porque as pessoas de fora, pode ter certeza, vão ter toda a segurança do mundo”, disse a empresária Leila de Souza Maia, de 34 anos.

“Os oportunistas, as pessoas que gostam de se aproveitar da situação, que são os vândalos, vão se aproveitar com certeza”, disse ela.
Hugo Bachega/Da BBC Brasil em São Paulo

Copa do Mundo 2014: Otimismo num país que atrasa obra de saneamento é maluquice ou alienação

De todas as crises brasileiras, a mais grave é a crise de semântica. Diz-se à larga que o Brasil está melhorando. Antes de tirar qualquer conclusão é preciso combinar o que é “melhorar”.

A melhoria se mede em número de estádios reformados ou em número de privadas conectadas à rede de esgoto? Falar a mesma língua é a primeira condição para chegar a algum acordo.

Nesta semana, quando se imaginava que tudo caminhava bem —a família Scolari concentrada, a Dilma feliz com o último Ibope, o Aécio achando que vai dar segundo turno, os mensaleiros eufóricos com a aposentadoria do Barbosa…—, vem o institutoTratabrasil e diz que 58% das obras de esgoto do PAC estão atrasadas.

[ad name=”Retangulo – Anuncios – Esquerda”]Veja bem: mais da metade das obras de esgoto incluídas no PAC 1 e 2 estão fora do cronograma —23% encontram-se paralisadas, 22% atrasaram e 13% nem foram iniciadas. Pense nisso sem pensar no resto. Esqueça o PIB-anão de 0,2% do primeiro trimestre. Pense só no esgoto.

Experimente colocar o atraso das obras do esgoto nas suas exatas circunstâncias, sem atenuantes. Aí mesmo é que a coisa fica abjeta. Em 2011, primeiro ano da presidência de Dilma Rousseff, o IBGE divulgou uma publicação chamada ‘Atlas do Saneamento’.

Compilando dados que recolhera em 2008, o órgão oficial de estatísticas informou: em 2.495 municípios brasileiros —ou 44,8% do total de cidades do país— não há rede de coleta de esgoto. As disparidades regionais são gritantes. Numa ponta, 95% das cidades da região Sudeste dispõe de sistema de esgoto. Noutro extremo, apenas 13% dos municípios do Norte do país têm o serviço.

Relatório divulgado em 2010 pela Organização Mundial da Saúde e pelo Unicef trouxe um ranking que classificou os países segundo o número de banheiros de que dispõem. Na lista dos piores, o Brasil ficou em 9º lugar no ranking, com 13 milhões de habitantes sem banheiro em casa. Repetindo: no ano em que Dilma elegeu-se presidente, os sem-privada eram contados em 13 milhões.

É nesse contexto que o país ficou sabendo que 58% das obras de esgoto do PAC atrasaram. Em nota oficial, o Ministério das Cidades, chefiado pelo partido de Paulo Maluf, informou: embora a verba seja federal, a responsabilidade constitucional pela execução das obras de saneamento é dos municípios.

Pelas contas do ministério, 60,2% dos empreendimentos de esgoto estão dentro do cronograma. Por que há atrasos? As causas são “múltiplas e complexas”. Heimmm?!? A principal delas “continua sendo a [má] qualidade dos projetos de engenharia contratados pelos executores das obras.” Ou seja: como cabe ao município executar, o governo federal não tem nada a ver com coisa nenhuma.

No país dos sem-privada, as obras de esgoto atrasaram e a Dilma, mãe do PAC, não disse uma mísera palavra. O tucano Aécio Neves não abriu o bico. O Eduardo Campos nem tchum. De duas, uma: ou é crueldade ou é insensibilidade.

Os presidenciáveis brasileiros deveriam desperdiçar um pedaço de suas agendas para ler o livro “The Year 1000″, dos ingleses Robert Lacey e Danny Danziger. Foi publicado no Brasil pela Editora Campus, sob o título “O Ano 1000 – A Vida no Início do Primeiro Milênio”. 
Traz um retrato do cotidiano da Inglaterra numa época em que garfo era coisa por inventar e chifre de animal era usado como copo.

Essa Inglaterra remota, com pouco mais de um milhão de habitantes, se parece muito com certos pedaços do mapa do Brasil de hoje. O grosso das pessoas vivia em casas modestas, contam os autores de ‘O Ano 1000’. Estrutura de madeira, teto de junco, chão de terra batida, paredes de pau-a-pique.

Uma mistura de argila, palha e esterco de vaca dava coesão ao entrelaçado de galhos. 
A latrina ficava próxima à porta dos fundos. Era curta a distância percorrida pelas moscas desde as dejeções até os alimentos. A ausência de assepsia transformava corpos em hospedarias de parasitas, a solitária entre eles.

Submetidas a um cotidiano assim, rude, as pessoas se apegavam aos santos. Atribuíam a eles poderes curativos. Tratavam as doenças com terapias que combinavam remédios populares e fé extremada.

Contra as perturbações do intestino, por exemplo, recomendava-se: “procurar uma sarça [planta da família das rosáceas], escolher a raiz mais nova, cortar nove lascas com a mão esquerda; entoar três vezes o salmo 56 e nove vezes o padre-nosso; pegar a artemísia e a perpétua [arbustos da família das compostas] e ferver em leite, junto com a sarça; beber uma tigela com a mistura; jejuar à noite; se necessário, repetir a operação por até duas vezes”.

Corta para o Brasil dos dias que correm. Algo como 215 mil trabalhadores são afastados de suas atividades todos os anos por problemas gastrointestinais ligados à falta de saneamento. Perdem, em média, 17 horas de trabalho.

Pesquisa feita a partir de informações coletadas em 2009 no Datasus revelou coisas assim: 462 mil pessoas foram internadas em hospitais públicos ou conveniados com infecções gastrointestinais. Desse total, 2.101 desceram à cova. Em dinheiro da época, o custo médio de cada internação foi de R$ 350,00.

Retorne-se à pergunta do início do texto: como medir a suposta melhoria do Brasil, pelo número de estádios reformados ou pela quantidade de privadas? Se você consegue ser otimista apesar do atraso nas obras de esgoto, cuidado: ou está maluco ou precisa se informar.
Blog Josias de Sousa

Às vésperas da Copa, Fortaleza fecha os olhos para prostituição ao lado do Castelão

Garotas de programa chegam à Avenida Juscelino Kubitschek praticamente ao mesmo tempo em que os operários pegam suas enxadas nas obras do entorno do Castelão.ós sofrer constrangimento em 2013, transexual comemora uso de nome social no Enem deste ano

Os programas são feitos à luz do dia, com mulheres de todas as idades (FOTO: Marcella Ruchett/Tribuna do Ceará)

Elas chegam ao local de trabalho praticamente ao mesmo tempo em que os operários pegam suas ferramentas nas obras do entorno do Castelão, palco da Copa do Mundo em Fortaleza. A diferença é que o material de trabalho dessas mulheres é o próprio corpo. Às 9h, em plena luz do dia, já estão encostadas em postes e muros, que servem de vitrine da prostituição na avenida pela qual milhares de estrangeiros passarão para assistir ao Mundial.

A menos de 1 quilômetro da Arena Castelão, na Avenida Juscelino Kubitschek (antiga Avenida Padaria Espiritual), no Bairro Passaré, diversas meninas com o corpo ainda em formação são abordadas, em toda a extensão da via, por homens em carros e em motocicletas. As roupas são curtas e apertadas. Dia após dia, a rotina é a mesma: ter de lidar com os diversos tipos de pessoas e se “entregar”, mesmo sem vontade. Faltando um mês para o megaevento esportivo, a cidade mostra que ainda não superou a fragilidade quanto à exploração sexual.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Há oito anos, a mulher de corpo farto, cabelos pretos, pele morena e unhas postiças amarelas sai de casa para se prostituir. Para apurar um bom dinheiro, a jovem de 28 anos trabalha quase 9 horas por dia, de segunda a sábado. É mais barato “comprar” uma mulher que assistir, da arquibancada mais em conta, a um jogo de Copa do Mundo no Castelão, ali próximo. A média é de apenas R$ 50, mas algumas vezes cobra mais, “dependendo do cliente”, explica Valéria.

Cerca de 65 mil estrangeiros devem visitar a capital cearense durante o evento, conforme dados do Ministério do Turismo. Mas, especificamente naquela avenida, o movimento será menor, de acordo com a ex-doméstica. A via será interditada, impedindo o acesso de carros e facilitando apenas a passagem de pedestres. “A Copa tá vindo pra cá e acabou com a gente. Eu creio que vá ficar bom só em agosto. A polícia vai fechar os dois lados da avenida. Se a gente não sair, eles ‘coisa’ (sic). Não vou debater com a polícia não. Tem policial ruim, né? Tem policial cruel”.

Veja os principais pontos de prostituição:

(ARTE: Tiago Leite)

Segundo Valéria, na Copa das Confederações o movimento foi fraco, devido à presença da Cavalaria e do Batalhão de Choque. “Eles não aceitam prostituição durante o evento, por uma parte eles estão até certos, porque aqui realmente tem muita menina que rouba. Tem certas meninas que usam ‘Boa Noite, Cinderela’ quando tem gente de fora, mas eu não uso nada disso não, prefiro trabalhar honestamente. É por isso que a polícia vai tirar a gente daqui, tá entendendo? Quando tiver jogo no Castelão, não pode ficar aqui”, explica.

Fora do período do Mundial, a polícia, entretanto, passa com pouca frequência pelo local. E, quando passa, parece ignorar a presença das garotas. De acordo com a jovem, “eles respeitam e não dizem nada”. Nenhum responsável por órgão da prefeitura tenta reprimir o trabalho das meninas. “Só quem perturba são os evangélicos. Eles reclamam, e todo mundo sai de perto, porque ninguém tá nessa vida pra pedir ajuda a Jesus”, diz.

Valéria está há tanto tempo no local que aparece inclusive no Google Maps (serviço de pesquisa e visualização de mapas e imagens de satélites). Ela começou se prostituir por iniciativa própria, quando tinha 18 anos. Os pais foram morar em São Luís, e a garota resolveu continuar em Fortaleza e entrar na ‘difícil vida fácil’. “Eu queria conseguir as coisas e nada tinha quando era empregada doméstica. Eu pensei: ‘quer saber de uma coisa? Vou sair dessa vida’. Aí comecei a me prostituir e veio tudo muito fácil. Na vida de prostituição as coisas é fácil (sic)”.

Mas há disputa por território. Ela não passou por esse problema, porque é antiga no local. Agora, se chegar uma pessoa nova no ponto, “a gente bota pra correr mesmo”, enfatiza. “Mês passado, chegou uma menina de 11 anos, que não tinha nem peito, aquela menina não tinha nada, mas ela tava totalmente drogada. Aí eu peguei pelos cabelos, arrodeei a avenida com ela e mandei ir embora”, revela.

Mesmo conseguindo juntar, em média, R$ 300 por dia, Valéria não economiza o dinheiro apurado. “Dinheiro de prostituição não é abençoado”, como ela própria afirma. Dá para pagar o aluguel, as contas e comprar roupas, para manter a aparência que a sustenta. A esperança está em algum cliente que porventura apareça e queira lhe dar mais que o valor do programa. “Eu já me sinto cansada, sei que um dia vou ter que parar. Quem sabe apareça um homem bom e me tire dessa vida”. Os clientes, em sua maioria, são mais velhos. Empresários ou advogados. Dificilmente atende estrangeiros.

A alguns quarteirões dali, Rebeca se maquia à espera de um cliente. Quando o carro diminui a velocidade, ela exibe o corpo e se aproxima. A travesti prefere não se identificar por medo de ser descoberta. “Tenho um caso, e ele não sabe que estou aqui”. Só a mãe aceita a escolha.

Com vestido de estampa de oncinha colado, batom vermelho e salto altíssimo, a jovem, de 25 anos, se prostitui há 9 e consegue por dia R$ 200. A falta de dinheiro em casa levou a jovem a sair da escola e ficar na rua. Começou ainda menor de idade, após abandonar os estudos. Com a infância interrompida, perdeu a expectativa de futuro. Não se sente bem fazendo programas, só faz para sobreviver porque não tem outra profissão.

A Copa do Mundo afetará diretamente o trabalho de Rebeca, assim como o de Valéria, em razão da interdição da avenida. “Piora o movimento. Eu vou ficar em casa vendo o jogo. Só quem vai trabalhar serão as viciadas”.

Medo de descobrirem

Casada e com quatro filhos, Tatiana, de 32 anos, tenta manter segredo quanto ao trabalho, iniciado há quatro meses como tentativa de apurar dinheiro extra. Ganha menos de um salário-mínimo na profissão de costureira. A situação é cruel, mas é a única solução encontrada por ela para sustentar a casa. A escolha da avenida para fazer programas deu-se pelo fato de ser conhecida por quem deseja usufruir do trabalho das garotas. “Se você perguntar onde faz programa, todo mundo fala dessa avenida. Aqui é melhor do que a Beira-Mar”, lembra Tatiana, referindo-se a um dos cartões-postais da capital.

Durante a Copa, ela pretende ficar com a família, para aproveitar o tempo livre ‘perdido’ durante os meses de trabalho. “Ainda não conheço ninguém por nome. Eu até me sinto bem, por causa do dinheiro, mas, por outro lado, é ruim por causa dos meus filhos e do meu marido”, se entristece. “O meu medo é que a minha filha mais velha, que tem 16 anos, descubra e queira fazer a mesma coisa. Aí quem vai ser eu para julgar?”.

Mesmo tendo começado há pouco tempo, Tatiana já consegue mais de R$ 400 por dia, na rua. O começo, segundo disse, não foi difícil. Apenas chegou ao local, ficou no ponto e esperou os clientes. “Não tive nenhum problema, e tenho clientes fixos. Atendo médicos, advogados e promotores. Não tem um dia que eu não faça nenhum programa, sempre faço mais de três”, comemora.

A Copa não será cancelada, como elas desejam. Durante o evento, todas sumirão da avenida. Quando o Mundial for embora, entretanto, o cenário de prostituição e tristeza voltará a imperar, a poucos metros do palco que o mundo viu brilhar.

Durante a apuração, o Tribuna do Ceará flagrou menores de idade fazendo ponto na Avenida Juscelino Kubitschek. Desconfiada, uma delas se recusou a falar, afirmando que não trabalhava no local. A outra não foi entrevistada, porque entrou em um carro para fazer um programa no momento em que a reportagem se aproximava.

O que fazer?

É fácil ver o problema no entorno do Castelão. Para Magnólia Said, do Comitê Popular da Copa em Fortaleza, a situação é super visível e faz parte de um pacote para servir ao turista. “Meninas disponíveis estão nesse pacote, de forma até escancarada, e o Poder Público fecha os olhos para isso”, afirma.

Segundo ela, as garotas saem do interior em busca do príncipe encantado que esperam encontrar durante a competição. Por trás disso, há sonho de melhores oportunidades. “Como vem muito turista, a Copa é um convite para as mulheres solteiras de 12 a 30 anos. É nesse momento que ela espera encontrar o príncipe”, destaca.

Magnólia revela que não há nenhuma campanha de fato contra a exploração sexual ou o tráfico de mulheres. Em uma ida ao Aeroporto Internacional Pinto Martins, na capital cearense, a integrante do Comitê teve dificuldade de encontrar algum folheto explicativo de combate às práticas. “Consegui encontrar um serviço de apoio ao imigrante, no fim do aeroporto, abri uma porta, tive um acesso a um corredor, e só depois de perguntar, consegui um material em português, que estava estocado. Ou seja, não tinha material em inglês, em alemão ou espanhol. O foco era mostrar aos brasileiros como se comportar lá fora”.

A sugestão é que o Poder Público e a sociedade trabalhem juntos para combater a exploração. A ideia seria criar campanhas televisivas, que não fossem veiculadas apenas durante o Carnaval, mas sim em todo o ano; aumentar o número de conselhos tutelares, de seis para 25; e ampliar o atendimento da Delegacia da Criança e do Adolescente para os domingos e feriados. “Se o governo quisesse, daria tempo de minimizar o problema ainda antes da Copa”, enfatiza. “As casas de prostituição vão ferver agora. E a violência doméstica também”, completa.

De acordo com a presidente da Fundação Municipal da Criança, Tânia Gurgel, haverá uma central de atendimento específica para denúncias durante os 30 dias de competição. Serão 120 educadores nas ruas para conversar com turistas e moradores, como parte do plano de ação de combate à exploração sexual. “Existem parceiros fundamentais e que precisam compreender isso. Taxistas, vendedores do Centro e da Beira-Mar, esse pessoal todo precisa ser motivado a defender essa questão”, diz Tânia.

Obras em andamento no entorno do Castelão:

O Código Penal diz claramente: pagar para fazer sexo ou praticar ato libidinoso com menores de 18 anos é crime de favorecimento à prostituição de vulnerável. A pena, prevista no artigo 218-B, vai de quatro a dez anos de prisão.

Já era assim desde 1990, quando foi aprovado o Estatuto da Criança e do Adolescente. Mas divergências jurídicas sobre o texto levaram o Congresso a mexer no Código Penal em 2009, explicitando que a punição vale para cafetões, clientes e donos de motéis. Em Fortaleza, porém, cenas de prostituição infanto-juvenil continuam se repetindo.

Para denunciar casos de violência sexual contra crianças e adolescentes, é preciso ligar para o Disque 100 – Central de Atendimento da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência.

As favelas se levantam contra a violência policial

Não é notícia que no Rio do Janeiro os principais indicadores de segurança tenham piorado de forma alarmante no último ano.

Quatro ônibus foram incendiados neste sábado em Niterói. / AGÊNCIA O GLOBO

Mas é notícia que os moradores das favelas, cansados de pagarem a conta das intervenções policiais indiscriminadas contra as quadrilhas de traficantes e das tristemente populares balas perdidas, tenham decidido romper o silêncio e encarar um Estado que historicamente os trata como cidadãos de segunda. Uma imagem que vem sendo habitual nos últimos meses é a de grupos de moradores de diferentes favelas cariocas interrompendo o tráfego de ruas e avenidas, incendiando ônibus e veículos públicos, montando barricadas ou recebendo a polícia a pedradas. As fotos são muito claras: nelas se observam mulheres e homens de idade avançada, mães e jovens sem armas de fogo que, estimulados pelas permanentes manifestações que se estendem pelo Brasil, lançam agora um grito de cansaço desesperado, contido durante décadas.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Nas imediações da favela do Caramujo, em Niterói, os moradores interromperam uma rodovia nesta sexta-feira e atearam fogo a quatro ônibus e três carros em resposta a duas mortes registradas nas últimas horas na mesma região. Pouco depois de deixar a igreja de Nossa Senhora de Nazaré, Anderson Santos Silva, de 21 anos, se viu encurralado em um fogo cruzado entre narcotraficantes e policiais que pretendiam reprimir um baile funk que acontecia naquela noite na favela. Ao tentar proteger a seus familiares do tiroteio, Anderson recebeu um disparo e morreu horas depois. Sua irmã também ficou ferida. O jovem Emanoel Gomes circulava de moto pelo mesmo subúrbio quando foi atropelado por um blindado do Batalhão de Choque da Polícia Militar. Ambas as mortes levaram um nutrido grupo de moradores a tomar a justiça nas próprias mãos, incendiando ônibus e carros e interrompendo o trânsito. Protestavam contra uma polícia que parece retornar aos velhos hábitos de perseguição e destruição dos traficantes, geralmente agindo sem muitos melindres com a população local.

ONG Rio de Paz resumiu as estatísticas publicadas durante os últimos oito anos (2007-2014) pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio do Janeiro. E os números são alarmantes: no Estado de Rio, foram registados neste período 35.879 homicídios dolosos, 285 lesões corporais seguidas de morte, 1.169 roubos seguidos de morte, 5.677 mortes derivadas de intervenções policiais, 155 policiais militares e civis mortos em ato de serviço. Total: 43.165 falecidos. Ou seja, mais de 500 mortes por mês provocadas por uma violência desmedida. Esses números não levam em conta os mais de 38.000 desaparecidos nem as mais de 31.000 tentativas de homicídio.

No Complexo da Maré, recém-ocupado pelo Exército brasileiro, também foram registrados nos últimos dias duas mortes de civis suspeitos de trabalharem para o narcotráfico. O fato gerou uma onda de indignação entre os moradores do complexo, que não entendem como uma ocupação militar com fins pacificadores pode começar causando vítimas mortais desde o primeiro momento. Claudia Silva Ferreira, a mulher de 38 anos que no último dia 16 de março morreu vítima de balas perdidas numa favela da zona norte do Rio e que, para maior escárnio, foi arrastada ao longo de 250 metros por um veículo da Polícia Militar que a levava para ser atendida em um hospital, se tornou outro dos ícones dos últimos tempos contra a violência policial. A morte de Claudia também desatou a ira dos moradores e uma enxurrada de críticas à polícia nas redes sociais.

No começo de abril, um grupo de moradores da favela do Cantagalo, no rico bairro de Ipanema, desceu do morro, interrompeu as ruas e incendiou caçambas de lixo depois que dois dos seus moradores ficaram feridos a tiros. Nas imediações da favela de Vila Kennedy, outro grupo de cidadãos interrompeu no fim de fevereiro a movimentada Avenida Brasil. A morte de um morador em um confronto armado entre policiais e narcotraficantes foi igualmente o estopim da fúria coletiva. Dias depois, o Batalhão de Operações Especiais ocupava a mesma comunidade para sua futura pacificação.

Mas o caso que mais rios de tinta e mais protestos gerou foi o do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, torturado até a morte e desaparecido por um grupo de policiais pacificadores na favela da Rocinha. A pressão gerada pelos constantes protestos e mobilizações organizados pelos moradores da maior favela do Rio conseguiu algo inédito até hoje: que os responsáveis tenham sido identificados e estejam respondendo perante a Justiça. Enquanto isso, as operações policiais continuam ocorrendo nas favelas do Rio, a menos de dois meses do início da Copa do Mundo. Nelas, registram-se mortos e feridos, mas raramente a polícia se responsabiliza por eles.
FRANCHO BARÓN/Rio de Janeiro para El País

Copa 2014: a taça da roubalheira é nossa

A saga da construção do estádio mais caro da Copa do Mundo

O Estádio Mané Garrincha, em Brasília, é um exemplo de como as obras públicas no Brasil são delirantes, demoradas e absurdamente caras

Em ÉPOCA desta semana, duas reportagens abordam nossa cultura de atrasos em obras públicas. Uma relata por que a construção do Estádio Mané Garrincha, em Brasília, é uma das empreitadas mais delirantes já feitas com dinheiro público no Brasil. Outra investiga as principais causas do não cumprimento de prazos nos projetos públicos no país.

Leia abaixo um trecho da reportagem sobre o Estádio Mané Garrincha:   

CAPÍTULO 1
O projeto 

Em dezembro de 2006, o arquiteto Eduardo de Castro Mello descobriu pela TV que o Brasil seria candidato à sede da Copa de 2014. “A candidatura do Brasil é legítima e tem o apoio de todas as Federações da América do Sul”, disse Ricardo Teixeira, então presidente daConfederação Brasileira de Futebol, a CBF. “O presidente Lula já deu repetidas vezes prova de que será um agente fundamental para a realização da Copa do Mundo. E a iniciativa privada dará a resposta, que, tenho certeza, será positiva.” O plano inicial de Teixeira, como vendido ao público, desenhava o melhor dos mundos para o Brasil: o país, se escolhido sede da Copa, receberia um dos maiores eventos esportivos do planeta – e não pagaria nada por isso. “Não vai ter dinheiro público”, disse Teixeira.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

>>Terrorismo: pode acontecer na Copa?

Dias depois, Castro Mello ligou para o recém-eleito governador do Distrito Federal e companheiro de outras empreitadas, José Roberto Arruda. Eles se conheciam desde a construção do antigo Estádio Mané Garrincha, nos tempos em que Arruda era fiscal da Novacap, a empresa de obras do governo de Brasília. “José Roberto, é hora de retomarmos o projeto do estádio, que está parado no tempo”, disse Castro Mello. O Mané Garrincha nascera da megalomania do regime militar. As obras do “Brasil Grande” do general Emílio Garrastazu Médici, então presidente do país e um apaixonado por futebol, erguiam-se em Brasília também. O Mané Garrincha, um estádio olímpico para 140 mil pessoas, viria a integrar o complexo esportivo Médici, no centro de Brasília, que incluiria ainda um ginásio e um autódromo. Todas obras superlativas, pagas com dinheiro público – e para lá de questionáveis em termos estéticos, financeiros ou urbanísticos. O projeto do estádio coube ao escritório da família de Castro Mello, cujo pai, Ícaro, tinha experiência na construção de estádios em São Paulo. Em 1974, após um ano de obras aceleradas, o estádio foi inaugurado às pressas. Somente uma parte do anel superior ficara pronta. Isso conferia ao estádio um aspecto banguela – daí a observação de Castro Mello de que o Mané estava “parado no tempo”.

>>Ex-governador José Roberto Arruda é condenado a cinco anos de prisão

NÚMEROS O estádio Mané Garrincha, em Brasília, na semana passada. Ele será inaugurado com cinco meses de atraso – e com o dobro do custo previsto no orçamento  (Foto: Celso Junior/ÉPOCA)

Cabiam no banguela 42 mil pessoas, capacidade mais que suficiente para atender o público de clássicos como Planalto e Jaguar ou do time da gráfica do Senado contra o Coenge, um combinado dos servidores do governo de Brasília. A capital federal sempre viveu o futebol pela TV, torcendo pelos times grandes do Rio de Janeiro e de São Paulo. “Recentemente, Brasília contribuiu para a menor renda mundial verificada num campeonato, quando apenas um torcedor compareceu para assistir a uma partida final de um torneio local (Grêmio Brasiliense 2 x 1 Coenge)”, disse o então presidente da Federação Desportiva de Brasília, Wilson de Andrade, pouco antes da construção do Mané Garrincha. Ele afirmou que havia estádios inacabados na capital e que os poucos times locais não tinham torcedores nem sequer dinheiro para pagar a conta de luz. Esse estado de coisas lastimável não mudaria com o novo estádio. Logo se quebrou a promessa, feita pelo governo de Brasília, de continuar a construção dos demais anéis. Quebrou-se também a promessa, feita pela CBD, antigo nome da CBF, de promover no novo estádio jogos dos grandes times do país. Com os anos, o Mané Garrincha e suas linhas interrompidas tornaram-se apenas um elemento fora do lugar no desenho curvo da paisagem de Brasília.

>>Joseph Blatter: “Copa das Confederações é mais do que apenas um ensaio para a Copa do Mundo”

O tempo voltou a andar para o Mané no começo de janeiro de 2007, quando Arruda recebeu, em seu gabinete no Palácio do Buriti, o arquiteto Castro Mello. Do Buriti, Arruda e Castro Mello avistavam, pela janela, a silhueta do inacabado Mané, a menos de 1 quilômetro. “Apresentei um pré-estudo, e, depois de 20 minutos de reunião, ele anunciou que Brasília seria a sede da Copa, e eu o autor do novo Mané Garrincha”, disse Castro Mello numa tarde de março deste ano, ao lado do filho, Vicente, também arquiteto, terceira geração da família a desenhar o Mané. Eles estavam numa sala de reuniões no pequeno prédio que abriga a administração do novo Mané, rebatizado mais uma vez. (De Estádio Hélio Prates da Silveira, passara a se chamar Mané Garrincha em 1983, logo após a morte do jogador.) Agora, passaria a se chamar Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha. Na antessala, acarpetada de verde-grama do chão ao teto, uma maquete de 4 metros quadrados materializava o projeto do novo estádio. Um vídeo institucional repetia na tela LCD os números grandiosos da obra. Faltava um número especial: R$ 1,5 bilhão – o custo, até aquele momento, do estádio mais caro da Copa (o orçamento inicial era de aproximadamente R$ 697 milhões). “Não interessa se é o mais caro, é o melhor”, disse Castro Mello. Ele assegurava que o novo Mané “colocará Brasília no mapa”. “Tem de quebrar o ovo para fazer a omelete.” Atrás da sala onde perorava, erguia-se, quase pronta, a colossal omelete de 1 quilômetro de diâmetro, cercada por 288 pilares de 36 metros de altura.

Qualquer aspecto do estádio envolve números hiperbólicos. Em sua construção, trabalharam cerca de 6 mil pessoas. Empregaram-se 177.000 metros cúbicos de concreto na obra – mais do que nas Petronas Towers, as torres gêmeas de Kuala Lumpur, na Indonésia, que estão entre os prédios mais altos do mundo. A cobertura é um espetáculo de tecnologia: 9.100 placas captam energia solar para transformá-la em 2,4 megawatts de energia, suficientes para abastecer o estádio e mais 2 mil casas da cidade. Haverá 8.420 vagas de estacionamento, 22 elevadores, 50 rampas e 12 vestiários.

Naquele momento, em março, a omelete já estava bem atrasada. Tudo atrasou na construção do Mané, como atrasou, ressalte-se, nos demais estádios da Copa. A licitação atrasou. O início das obras atrasou. O estádio deveria ficar pronto em dezembro do ano passado. Não ficou. O novo prazo da Fifa encerrava-se em abril. O governador de Brasília, Agnelo Queiroz, marcou a inauguração para o aniversário da capital, em 21 de abril. Parecia um prazo impossível de cumprir. Chove muito em Brasília nesse período. Agnelo desafiou as previsões pessimistas – e perdeu. Seis dias antes do prazo, Agnelo adiou a inauguração para 18 de maio, menos de um mês antes da abertura da Copa das Confederações, quando o Mané receberá o jogo do Brasil contra o Japão. O governo de Brasília argumenta que as obras não estão atrasadas. “Estamos oito meses adiantados”, afirma Cláudio Monteiro, secretário da Copa do Distrito Federal. O calendário de Monteiro é peculiar: estabelece que o estádio só deveria ficar pronto em dezembro, para ser usado na Copa do Mundo.

Portanto, se não houver mais um adiamento, no próximo sábado – quatro décadas após o inesquecível clássico de um só espectador entre Grêmio Brasiliense e Coenge –, o novo Mané, aquele estádio que parara no tempo, será finalmente reaberto. A ocasião é especial: final do Candangão, como é conhecido o campeonato brasiliense de futebol. Em campo, em vez de Grêmio Brasiliense e Coenge, Brasília contra Brasiliense.
Flávia Tavares/Época

Eleições 2014: Dilma Rousseff, acertos e oposição desacertada

A presidente Dilma Rousseff, caso deseje a reeleição, terá o pré-sal, o minha casa minha vida, crescimento do PIP de 5%/ano e a copa do mundo, entre outros trunfos, para turbinar a campanha. Ah, sem esquecer a turma que não deseja a volta do “cara”.

A oposição, se é que se pode assim chamar a “meia dúzia de 3 ou 4”, tem somente a lembrar os feitos de FHC – plano real – e martelar nos mal feitos do mensalão, maracutaia que contamina todos os partidos, e que a população nem mais lembra.

Não esquecer o “espírito agregador” de José Serra, o mais emplumado tucano: “Eu posso não ser presidente em 2.014, mas o Aécio também não será”.

Para alguns observadores mais argutos da cena política brasileira, o PSDB teve a chance de jogar o PT pras calendas com o Mensalão e não deixar que se iniciasse uma “era Lula”. Contudo, preferiu fazer um “acordão” Serra/Lula em 2006.

O Editor
PS 1. Vocês não acham que 100 dias é pouco tempo para se determinar acertos e desacertos?

PS 2. E ainda tem que acredite que DEM, PSDB e PT são diferentes. Juro!


Oposição enxerga acertos em Dilma e se desnorteia

Três meses de Dilma Rousseff foi tempo bastante para que Fernando Henrique Cardoso alterasse o conceito que fazia dela.

Presidente de honra do PSDB e principal ideólogo da oposição, FHC pespegara em Dilma, durante a campanha de 2010, a pecha de “boneca de ventríloquo”.

Insinuara que, eleita, quem daria as cartas seria Lula, não ela. Hoje, em diálogos privados, FHC reconhece que Dilma o “surpreendeu”. Positivamente.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

A avaliação de FHC se espraia por toda a oposição. Alastra-se pelo PSDB e também pelo DEM, seu parceiro de oposição.

Tornou-se consensual entre os adversários do governo a percepção de que, a menos que ocorram tropeços, não será fácil se opor a Dilma.

Avalia-se que a presidente revelou-se dona de personalidade própria. Distancia-se de Lula nos pontos que alimentavam as fornalhas da oposição.

Substituiu a histrionia pela parcimônia verbal. Trocou a ideologia pelo pragmatismo. Distanciou-se do Irã. Reachegou-se aos EUA. Anunciou cortes orçamentários.

Como se fosse pouco, revelou-se capaz de gestos como o convite a FHC para o almoço oferecido ao visitante Barack Obama.

Um gesto que, tonificado pela ausência de Lula, forçou FHC a derramar-se elogios sobre os microfones.

Afora a ausência de discurso, a oposição debate-se consigo mesma. PSDB e DEM são, hoje, os principais adversários do PSDB e do DEM.

O tucanato, agremiação de amigos 100% feita de inimigos, revolve suas divisões. Divisões internas e eternas.

No centro de todas as trincas está José Serra, o candidato que a ex-boneca abateu com a ajuda do ex-ventríloquo.

Serra mede forças com Aécio Neves por 2014. Digladia-se com Sérgio Guerra pela presidência do partido. Disputa com Geraldo Alckmin a hegemonia em São Paulo.

O DEM, depois de engolfado pela “onda Lula”, luta para que a lipoaspiração congressual não evolua para um raquitismo patológico.

Os ‘demos’ que não aderiram ao projeto de novo partido do prefeito Gilberto Kassab dividem-se em dois grupos.

Uma ala olha para o futuro com grandes dúvidas. A outra já não tem a menor dúvida: o futuro é uma fusão com o PSDB, uma espécie de inexorável à espera do melhor momento para acontecer.

Assim, dividida, dilacerada e sem norte, a oposição enxerga nos acertos da Dilma um entrave adicional para pôr em pé um discurso alternativo.

Vai-se buscar munição nos detalhes. O DEM faz um inventário das promessas de campanha de Dilma. Acha que não há como cumpri-las. E esboça a cobrança.

O PSDB fará do recrudescimento da inflação o seu principal cavalo de batalha. Enxerga na eletrificação do índice a oportunidade para reacencer a pauta antigastança.

Parte-se do pressuposto de que Dilma não conseguirá entregar o corte orçamentário de mais de R$ 50 bilhões que prometeu.

Vai-se atacar a inificiência do Estado “aparelhado” e realçar a herança tóxica deixada por um Lula que tinha em Dilma sua principal gerente.

À sua maneira, Aécio Neves, o grão-duque do tucanato de Minas, esgrimiu esses tópicos no discurso inaugural que pronunciou no Senado.

“Vemos, infelizmente, renascer, da farra da gastança descontrolada dos últimos anos, em especial do ano eleitoral, a crônica e grave doença da inflação”, disse Aécio.

“Era o discurso que faltava”, festejou Sérgio Guerra, o ainda presidente do PSDB.

A despeito dos anseios de Serra, Aécio tornou-se o nome preferencial de tucanos e agregados para o próximo embate sucessório.

Com isso, guinda-se ao posto de principal líder da oposição um personagem que se definiu no celebrado discurso como “um construtor de pontes”.

Para Aécio, o êxito de seu projeto passa por duas variáveis: os eventuais erros de Dilma e a capacidade da oposição de beliscar pedaços do atual condomínio governista.

Assim, além de aprumar um discurso e torcer pelos tropeços da sucessora de Lula, a oposição teria de seduzir legendas como PSB, PDT, PP

Tudo isso contra um pano de fundo marcado pela crise do “de repente”. Numa Era pós-revolucionária, o brasileiro afeiçoou-se à evolução econômica e sociail lenta.

Ao reconhecer os méritos de Lula, Aécio realçou dois: a manutenção dos pilares econômicos erigidos nas gestões Itamar e FHC e o viés social.

O problema é que o cidadão tende a associar os benefícios resultantes da combinação ao mandatário de plantão, não aos gestores do passado.

Significa dizer que, se conseguir debelar o surto inflacionário e manter a cozinha relativamente em ordem, Dilma vai a ante-sala de 2014 bem posta.

Foi-se o tempo em que o eleitor acreditava em salvadores e em milagres. Já não há o “antes” e o “depois”. Só há o “processo”, vocábulo caro ao PSDB.

Escolado, o dono do voto agarra-se à força das continuidades. Olha para a mudança com ceticismo. De novo: vive-se uma crise do “de repente”.

Sem vocação para fazer uma oposição ao estilo do ex-PT, PSDB e DEM foram como que condenados à tocaia. Rezam baixinho por um tsunami que destrua a perspectiva de poder longevo que Dilma passou a representar.

Até a torcida exige comedimento. Uma arquibancada barulhenta poderia soar impatriótica.

blog Josias de Souza