Como a classe média alta brasileira é escrava do “alto padrão” dos supérfluos

No ano passado, meus pais (profissionais ultra-bem-sucedidos que decidiram reduzir o ritmo em tempo de aproveitar a vida com alegria e saúde) tomaram uma decisão surpreendente para um casal – muito enxuto, diga-se – de mais de 60 anos: alugaram o apartamento em um bairro nobre de São Paulo a um parente, enfiaram algumas peças de roupa na mala e embarcaram para Barcelona, onde meu irmão e eu moramos, para uma espécie de ano sabático.
Por Adriana Setti/Época

Aqui na capital catalã, os dois alugaram um apartamento agradabilíssimo no bairro modernista do Eixample (mas com um terço do tamanho e um vigésimo do conforto do de São Paulo), com direito a limpeza de apenas algumas horas, uma vez por semana. Como nunca cozinharam para si mesmos, saíam todos os dias para almoçar e/ou jantar. Com tempo de sobra, devoraram o calendário cultural da cidade: shows, peças de teatro, cinema e ópera quase diariamente. Também viajaram um pouco pela Espanha e a Europa. E tudo isso, muitas vezes, na companhia de filhos, genro, nora e amigos, a quem proporcionaram incontáveis jantares regados a vinhos.

Com o passar de alguns meses, meus pais fizeram uma constatação que beirava o inacreditável: estavam gastando muito menos mensalmente para viver aqui do que gastavam no Brasil. Sendo que em São Paulo saíam para comer fora ou para algum programa cultural só de vez em quando (por causa do trânsito, dos problemas de segurança, etc), moravam em apartamento próprio e quase nunca viajavam.

Milagre? Não. O que acontece é que, ao contrário do que fazem a maioria dos pais, eles resolveram experimentar o modelo de vida dos filhos em benefício próprio. “Quero uma vida mais simples como a sua”, me disse um dia a minha mãe. Isso, nesse caso, significou deixar de lado o altíssimo padrão de vida de classe média alta paulistana para adotar, como “estagiários”, o padrão de vida – mais austero e justo – da classe média europeia, da qual eu e meu irmão fazemos parte hoje em dia (eu há dez anos e ele, quatro). O dinheiro que “sobrou” aplicaram em coisas prazerosas e gratificantes.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Do outro lado do Atlântico, a coisa é bem diferente. A classe média europeia não está acostumada com a moleza. Toda pessoa normal que se preze esfria a barriga no tanque e a esquenta no fogão, caminha até a padaria para comprar o seu próprio pão e enche o tanque de gasolina com as próprias mãos. É o preço que se paga por conviver com algo totalmente desconhecido no nosso país: a ausência do absurdo abismo social e, portanto, da mão de obra barata e disponível para qualquer necessidade do dia a dia.

Traduzindo essa teoria na experiência vivida por meus pais, eles reaprenderam (uma vez que nenhum deles vem de família rica, muito pelo contrário) a dar uma limpada na casa nos intervalos do dia da faxina, a usar o transporte público e as próprias pernas, a lavar a própria roupa, a não ter carro (e manobrista, e garagem, e seguro), enfim, a levar uma vida mais “sustentável”. Não doeu nada.

Uma vez de volta ao Brasil, eles simplificaram a estrutura que os cercava, cortaram uma lista enorme de itens supérfluos, reduziram assim os custos fixos e, mais leves,  tornaram-se mais portáteis (este ano, por exemplo, passaram mais três meses por aqui, num apê ainda mais simples).

Por que estou contando isso a vocês? Porque o resultado desse experimento quase científico feito pelos pais é a prova concreta de uma teoria que defendo em muitas conversas com amigos brasileiros: o nababesco padrão de vida almejado por parte da classe média alta brasileira (que um europeu relutaria em adotar até por uma questão de princípios) acaba gerando stress, amarras e muita complicação como efeitos colaterais. E isso sem falar na questão moral e social da coisa.

Babás, empregadas, carro extra em São Paulo para o dia do rodízio (essa é de lascar!), casa na praia, móveis caríssimos e roupas de marca podem ser o sonho de qualquer um, claro (não é o meu, mas quem sou eu para discutir?). Só que, mesmo em quem se delicia com essas coisas, a obrigação auto-imposta de manter tudo isso – e administrar essa estrutura que acaba se tornando cada vez maior e complexa – acaba fazendo com que o conforto se transforme em escravidão sem que a “vítima” se dê conta disso. E tem muita gente que aceita qualquer contingência num emprego malfadado, apenas para não perder as mordomias da vida.

Alguns amigos paulistanos não se conformam com a quantidade de viagens que faço por ano (no último ano foram quatro meses – graças também, é claro, à minha vida de freelancer). “Você está milionária?”, me perguntam eles, que têm sofás (em L, óbvio) comprados na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, TV LED último modelo e o carro do ano (enquanto mal têm tempo de usufruir tudo isso, de tanto que ralam para manter o padrão).

É muito mais simples do que parece. Limpo o meu próprio banheiro, não estou nem aí para roupas de marca e tenho algumas manchas no meu sofá baratex. Antes isso do que a escravidão de um padrão de vida que não traz felicidade. Ou, pelo menos, não a minha. Essa foi a maior lição que aprendi com os europeus — que viajam mais do que ninguém, são mestres na arte do savoir vivre e sabem muito bem como pilotar um fogão e uma vassoura.

PS: Não estou pregando a morte das empregadas domésticas – que precisam do emprego no Brasil –, a queima dos sofás em L e nem achando que o “modelo frugal europeu” funciona para todo mundo como receita de felicidade. Antes que alguém me acuse de tomar o comportamento de uma parcela da classe média alta paulistana como uma generalização sobre a sociedade brasileira, digo logo que, sim, esse texto se aplica ao pé da letra para um público bem específico. Também entendo perfeitamente que a vida não é tão “boa” para todos no Brasil, e que o “problema” que levanto aqui pode até soar ridículo para alguns – por ser menor. Minha intenção, com esse texto, é apenas tentar mostrar que a vida sempre pode ser menos complicada e mais racional do que imaginam as elites mal-acostumadas no Brasil.

Economia: Classe C troca geladeira por TV a cabo e poupança

Pode ser que seja mesmo um ranzinza e esteja sempre na contramão do oba-oba. Mas não me parece compatível com o que estudei de economia e sociologia, chamar de classe média o assalariado que ganha a porcaria de um salário mínimo e meio por mês.
Esse ‘novo’ consumidor, acredito, em breve estará trocando as delícias do consumo pelo inferno do Serasa.
José Mesquita – Editor


Após sucessivos estímulos do governo para baratear o preço de geladeiras, fogões, máquinas de lavar roupas – a chamada linha branca – e aumentar o consumo, esses produtos vêm deixando a lista de prioridades da nova classe média, mais disposta a poupar ou gastar com TV a cabo, telefonia e educação.

A renovação da redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) foi uma das primeiras medidas anunciadas para tentar impulsionar a indústria e melhorar o desempenho da economia, considerado fraco neste ano.

Como esse instrumento vem sendo usado pelo governo desde 2009, sua eficácia começa a ser questionada.

Apesar de afirmarem que ainda há espaço para o consumo, especialistas creem que o ritmo de crescimento das vendas tende a ser menor, mesmo com incentivo fiscal.

Levantamentos do Data Popular, instituto com foco na nova classe média, público-alvo da medida, mostram que serviços – o que inclui o conserto de eletrodomésticos – representam a maior parte dos gastos das famílias.

O item “serviços”, que representava 49,5% dos gastos efetuados em 2002 por esse público, já responde por 65%, segundo a pesquisa do Data Popular, de setembro de 2011.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]O trabalho, que indica também que as despesas com a compra de produtos caíram de 50,5% para 34,8% no período, é baseado em projeções feitas a partir do cruzamento de dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) e da POF (Pesquisa de Orçamentos Familiares), ambas do IBGE.

Para especialistas, não há dúvidas de que a nova classe média continua consumindo, mas o perfil está gradualmente mudando, pois a prioridade mudou. “Quem comprou uma TV nova quer TV a cabo; a máquina precisa de manutenção”, diz Renato Meirelles, dono do Data Popular.

Para o professor Luiz Alberto Machado, do Conselho Federal de Economia, o impacto inicial da redução do IPI foi absorvido e o nível elevado do emprego está garantindo renda para consumir.

“Ainda há espaço a ser explorado, mas o crescimento marginal desse consumo tende a ser cada vez menor.”

Professor de economia da UnB (Universidade de Brasília), João Carlos de Oliveira diz que a redução do IPI não terá impacto “para a vida toda”. Ele argumenta que o sucesso da medida também depende da oferta de crédito.

POUPANÇA

Recebendo R$ 800 mensais como diarista, Neide Batista de Moraes, 32, de Águas Lindas de Goiás, comprou um micro-ondas e uma TV nova recentemente.

Ainda quer trocar a geladeira, “que está bem velha, soltando os pedaços”. Mas, se recebesse dinheiro extra, diz que pouparia para comprar à vista.

“As lojas falam em redução de imposto, mas nem sempre vejo isso”, diz. “Anunciam a geladeira como se estivesse com preço menor, mas acompanho e o preço não mudou.

Com dinheiro na mão, tenho como negociar melhor.”
SHEILA D’AMORIM/FLÁVIA FOREQUE/Folha.com

Brasil. Economia: a consolidação da classe média

Uma economia impulsionada principalmente pelo consumo da classe média, um país dispondo da maior força de trabalho de sua história, mas também um país com uma população mais velha, mais rica e mais exigente, que consumirá novos produtos e serviços, de melhor qualidade, e demandará maior assistência do sistema de seguridade social.

Este deverá ser o Brasil em 2020, de acordo com projeções baseadas na mudança dos padrões demográficos observada nos últimos anos e na evolução das condições sociais e econômicas da população constatadas por diferentes estudos e estatísticas oficiais.

Será um país com oportunidades mais amplas para as famílias e para as empresas, mas que exigirá do Estado decisões e soluções mais rápidas e eficazes para problemas que já causam preocupação e que poderão se tornar mais prementes, como o financiamento do sistema de previdência social.

Este Brasil do futuro próximo foi desenhado pelo estudo A evolução da classe média e o seu impacto no varejo, elaborado pela equipe técnica da Federação do Comércio de Bens e Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomércio), com base em trabalhos do IBGE como a Pesquisa de Orçamentos Familiares, a Pesquisa Anual do Comércio, o Censo Demográfico e a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio.

[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]A consolidação de uma classe média numerosa, pujante e com maior nível de renda e mais acesso ao crédito é uma das grandes transformações socioeconômicas do País nos últimos anos – contrastando nitidamente com a tendência de redução desse segmento social do início da década de 1980 até meados da década seguinte – e que deverá, segundo o estudo da Fecomércio, se manter daqui para a frente, para moldar um novo mercado interno, estabelecer novos padrões de gosto e de qualidade para os bens e serviços e, por seu alto poder de consumo, determinar o ritmo do progresso do País.

Os próximos dez anos constituirão um período de mudanças estruturais significativas na sociedade brasileira, em razão de um novo padrão demográfico que já se vislumbra e da manutenção dos avanços sociais e econômicos registrados no passado recente.

A expectativa de vida do brasileiro, que era de 70,48 anos em 2000, alcançou 73,17 anos em 2009, e continuará a aumentar. Por isso, a Fecomércio projeta que os brasileiros com mais de 60 anos, que eram 18 milhões em 2010, serão 22 milhões em 2015 e 26 milhões em 2020. O envelhecimento da população afeta diretamente as contas da previdência e, por isso, o estudo adverte que “temos de chegar a um denominador comum que seja funcional e viável”, para atender ao aumento mais rápido do número de aposentados do que o de trabalhadores da ativa.

Do ponto de vista da renda, o estudo prevê que, em 2020, as classes A (renda familiar mensal acima de R$ 11 mil), B (renda entre R$ 7 mil e R$ 11 mil) e C (renda de R$ 1,4 mil a R$ 7 mil), que hoje representam 49% das famílias, serão 61% do total. Isso tornará o Brasil um dos maiores mercados de consumo e uma das maiores economias do mundo. O consumidor brasileiro, diz a Fecomércio, “que já evolui do consumo básico para um patamar mais sofisticado, vai demandar cada vez mais serviços e produtos de qualidade”.

E que bens e serviços esse consumidor desejará adquirir? Entre os bens de consumo, a Fecomércio supõe que a demanda será por artigos de grande valor agregado, como equipamentos para o lar, automóveis e acessórios pessoais. Entre os serviços, os novos gostos serão determinados pela rápida evolução da tecnologia, que permitirá maior fluxo de dados e imagens pela internet e a ampliação da cobertura de serviços como de telefonia e televisão por cabo e fibras ópticas.

Se o País – governantes, empreendedores e a sociedade em geral – souber se preparar adequadamente para essas transformações, que continuarão intensas, mas são previsíveis, elas não gerarão tantas surpresas quanto geraram as mudanças ocorridas no passado recente.
O Estado de S.Paulo

Economia e impostos – Por que a classe média virou alvo dos fiscalistas

A história é impassível testemunha do papel exercido pela classe média no equilíbrio – tanto na micro, como na macro economia – de habitar os dois extremos da dualidade pobreza/riqueza.

No fim e ao cabo, é a classe média o “remédio” usado, sempre, para manter a sanidade da economia, sendo ocasionalmente agraciada com um mínimo de “benesses”, e majoritariamente servindo de saco de pancadas para absorver os choques e as pressões oriundas da tentativa de salvar o moribundo capitalismo, e manter o apetite pantagruélico do Estado burguês.

A classe média termina como o miolo do sanduíche. É quem sempre finda por “pagar o pato”.

No histórico diálogo reproduzido abaixo, tem-se a constatação de que nada mudou. De Adam Smith a Locke, passando por Mills, a farsa do Estado Liberal continua capaz de fazer de Molière um aprendiz de bufão.

O Editor

Cândido Portinari (Brodowski, SP. – 29 de dezembro de 1903 – Rio de Janeiro, RJ. – 6 de fevereiro de 1962)
Retirantes – óleo sobre tela – 1944 – 190 x 180cm


Diálogo entre Colbert e Mazarino durante o reinado de Luís XIV

Jean Baptiste Colbert – ministro de estado de Luis XIV
* Reims, França – 29 de Agosto de 1619 d.C
+ Paris, França – 06 de Setembro de 1683 d.C

Jules Mazarino – foi cardeal e primeiro ministro da França
* Pescina, França – 14 de julho de 1602 d.C
+ Pescina, França – 9 de março de 1661 d.C

Colbert: Para encontrar dinheiro, há um momento em que enganar (o contribuinte) já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é que é possível continuar a gastar quando já se está endividado até o pescoço…

Mazarino: Se se é um simples mortal, claro está, quando se está coberto de dívidas, vai-se parar à prisão. Mas o Estado… o Estado, esse, é diferente!!! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se…todos os Estados o fazem!

Colbert: Ah, sim? O Senhor acha isso mesmo? Contudo, precisamos de dinheiro. E como é que havemos de o obter se já criámos todos os impostos imagináveis?

Mazarino: Criam-se outros.

Colbert: Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.

Mazarino: Sim, é impossível.

Colbert: E, então … os ricos?

Mazarino: Os ricos também não. Eles não gastariam mais. Um rico que gasta faz viver centenas de pobres.

Colbert: Então, como havemos de fazer?

Mazarino: Colbert! Tu pensas como um queijo, como um penico de um doente! Há uma quantidade enorme de gente situada entre os ricos e os pobres: os que trabalham sonhando em vir a enriquecer e temendo ficarem pobres. É a esses que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Esses, quanto mais lhes tirarmos mais eles trabalharão para compensarem o que lhes tiramos. É um reservatório inesgotável!

Extraído de “Diálogos de Estado”


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New York Times: No Brasil babás chegam à classe média

Babás brasileiras vivem um momento de ascensão, em que estão quebrando o estereótipo de trabalhadoras que cobram pouco e se dedicam muito, segundo reportagem do “The New York Times”.

O jornal aponta que conforme aumentam as expectativas de melhora na qualidade de vida dessas profissionais, mais ela buscam trabalhar para as classes sociais mais abastadas e se tornam menos acessíveis para as famílias de classe média.

De acordo com o “Times”, a mudança tem causado um problema em uma sociedade em que cada vez mais mulheres ingressam no mercado de trabalho sem que haja um sistema de creches elaborado, como ocorrem em nações industrializadas.

O jornal aponta ainda que os rendimentos dos trabalhadores domésticos no Brasil (babás e empregadas domésticas) subiram 34% entre 2003 e 2009, mais do que o dobro do aumento médio de todos os profissionais no país.

Ao mesmo tempo, as horas de trabalho caíram 5%, para 36,2 horas semanais.

O “Times” relata que está terminando o tempo em que babás aceitavam trabalhar por um salário baixo com apenas dois dias de folga a cada 15 dias.

Folha de S.Paulo

A revolução das babás brasileiras

Com salários de até R$ 5 mil, reflexo da ascensão social da classe média, elas viraram notícia no diário americano ‘The New York Times’.

Uma reportagem publicada ontem pelo diário americano The New York Times relata o que chama de “revolução das babás” no Brasil, com o aumento dos salários e da mobilidade social na profissão.

Intitulada “Babás ascendentes chegam à classe média brasileira”, a reportagem diz que essa revolução “está destruindo o estereótipo colonial da ajuda doméstica barata, mas dedicada, na América Latina”.

Para o jornal, a situação vem criando tensões sociais num país em que mais mulheres vêm entrando no mercado de trabalho sem ter o acesso aos desenvolvidos sistemas de creches que existem em algumas nações industrializadas.

“Estão se apagando rapidamente os dias em que babás vestidas de branco trabalhavam por um salário humilhante, com apenas dois dias de folga a cada 15 dias.

Babás mais qualificadas estão se recusando a trabalhar nos fins de semana e exigindo salários que são de duas a quatro vezes maiores do que ganhavam há apenas cinco anos”, diz o texto.

Apartamento
A reportagem cita o economista Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), segundo quem os salários médios das babás subiram 34% em termos reais entre 2003 e 2009 – mais que o dobro da média geral dos trabalhadores brasileiros -, enquanto a carga de trabalho caiu 5%, para 36,2 horas por semana.

Segundo o economista da FGV, a situação reflete a ascensão da classe média brasileira, que cresceu de 37% da população, em 2003, para 55% em 2010.

A reportagem cita exemplos como o da babá Andreia Soares, de 39 anos, que com um salário de cerca de R$ 5 mil mensais trabalhando para uma família de classe alta de São Paulo conseguiu ganhar dinheiro suficiente na profissão para comprar um apartamento de dois quartos, uma casa para a mãe e um terreno para o irmão e já planeja a compra de um carro que custa mais de R$ 60 mil.

Apesar do progresso, o jornal observa que alguns economistas estão céticos sobre quanto tempo mais a revolução pode durar.

Neri lembra que os brasileiros ainda têm um nível educacional baixo, e Rodrigo Constantino, economista da consultoria Graphus Capital, disse que a falta de investimentos em educação no Brasil deve impedir que muitos trabalhadores domésticos encontrem outros trabalhos mais bem remunerados.

Ele adverte ainda que os incessantes pedidos de aumentos salariais podem alimentar a inflação.

BBC Brasil/O Estado de S.Paulo


Brasil: Pai pedreiro, filho vendedor, neto doutor

O bom momento da economia brasileira, que apresentou, nos últimos anos, um crescimento robusto e sustentado, começa a aparecer através dos números.

Essa população emergente, com seu desejo de continuar a consumir e seu foco no progresso pessoal, é um sintoma
de que o Brasil está melhorando

O Editor


Diploma e emprego formal são principais símbolos da transformação da chamada ”nova classe média” segundo Marcelo Neri, da FGV.

Os pais são empregados domésticos, pedreiros, cozinheiros. Os filhos, vendedores de lojas, operadores de telemarketing, recepcionistas.

O raio X das principais atividades profissionais exercidas nas famílias da classe C dá uma ideia de como a educação tem impactado a vida e a renda da nova classe média brasileira.

De modo geral, essas casas são comandadas por uma geração que exerce trabalhos braçais, com pouca qualificação; os jovens já estão seguindo outro rumo.

Um levantamento da consultoria Data Popular indica que 68% deles estudaram mais que seus pais. Nas classes A e B, não passa de 10%.

O baiano Edmundo Nunes, de 57 anos, mudou-se para São Paulo no fim da década de 70 para trabalhar. Quando chegou à cidade, ele conta, só sabia o “abecedário”.

Fez o ensino fundamental e não quis mais saber de estudar. A trajetória do filho, Erasmo Ramos, de 28 anos, é outra. Ele chegou a iniciar uma faculdade de Educação Física, mas parou no terceiro ano quando a filhinha, Maria Eduarda, nasceu.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Enquanto não consegue voltar à universidade, Erasmo trabalha como vendedor numa loja de móveis. Com o salário dele e da mulher, também vendedora, já conseguiu comprar e reformar um apartamento num conjunto habitacional. Tem carro, computador, dois celulares e duas TVs, uma delas no quarto da filha de dois anos.

“Meu pai me projetou para um trabalho operário. Queria que eu desse um passo a mais que ele, mas eu corri muito à frente”, diz o vendedor. “Com dez anos de carteira assinada já tenho um patrimônio maior do que o que ele conseguiu acumular a vida inteira.” Para Maria Eduarda, Erasmo projeta uma “maratona”. “Ela vai ser doutora.”

Não só baseado em números, mas também em histórias como essa, Marcelo Neri, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas, costuma dizer que o símbolo da nova classe média brasileira não é o consumo, e sim o diploma e a carteira de trabalho. “Subir na vida para essas pessoas é ter educação e estar empregado.”

A classe C que o País conhece hoje começou a se desenhar nos anos 90, quando o Brasil praticamente completou o acesso de crianças de 7 a 14 anos ao ensino básico. Depois, com a expansão do Financiamento Estudantil e a criação do Programa Universidade para Todos (ProUni), o ensino superior abriu suas portas para uma parte da população que estava excluída desse nível de escolaridade. Hoje, 44% dos jovens que fazem curso superior pertencem à classe C.

O gasto das famílias da nova classe média com mensalidades e material escolar, em universidades e escolas particulares, movimenta cerca de R$ 15,7 bilhões por ano. Em 2002, não passava de R$ 1,8 bilhão – um crescimento de oito vezes no período. “Esse segmento populacional passou a investir em formação e qualificação profissional para se adequar às demandas de contínua atualização no mercado de trabalho”, diz Paulo Carbucci, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “O interessante é que vira um ciclo virtuoso.”

A relação entre educação e renda é facilmente constatada nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): numa família em que todos os membros têm no máximo o ensino médio, a renda mensal está em R$ 1.659,99. Quando alguém conquista o diploma de graduação o valor vai para R$ 4.296,05.

“Como estão mais qualificados, é menor o número de jovens que se interessa por trabalhos braçais”, diz Cláudio Salvadori Dedecca, professor do Instituto de Economia da Unicamp. “Por isso, já sofremos com a falta de mão de obra em certos ofícios.”

Naiana Oscar/O Estado de S.Paulo

32 milhões de brasileiros ascenderam para a classe média

FGV: sob Lula, 32 milhões subiram para classe média

A Fundação Getúlio Vargas trouxe à luz novos números para compor a vitrine social da era Lula. São dois os dados mais vistosos:

Entre 2003 e 2008, algo como 32 milhões de brasileiros ascenderam à classe média no Brasil (classes A, B e C).

O estudo da FGV está escorado em da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do IBGE.

Marcelo Neri, coordenador do Centro de Políicas Sociais da FGV, diz: “A Pnad coroa um ciclo de cinco anos de melhorias nos indicadores sociais…”

“…A meta do milênio tem como objetivo reduzir a pobreza em 50%, durante 25 anos. O Brasil fez quase isso em cinco anos”.

Logo que concluir o seu penúltimo périplo internacional, Lula vai reunir os seus ministros da área social.

Decidido a descer à enciclopépia com cara de neo-Getúlio, o presidente quer pôr de pé a sua CLS (Consolidação das Leis Sociais).

blog Josias de Souza