Não sabia de nada? Lagarde será julgada em escândalo na França

Diretora-gerente do FMI deverá responder sobre sua participação no pagamento de uma indenização milionária a um empresário apoiador de Sarkozy na época em que ela era ministra da Finanças no governo do então presidente.

Christine Lagarde

A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, será julgada pela Justiça francesa no âmbito do caso Bernard Tapie, determinou o tribunal de cassação da França ao rejeitar um recurso contrário nesta sexta-feira (22/07). A data para início do processo ainda não está marcada.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Lagarde, que era ministra das Finanças na época do escândalo, em 2008, é acusada de negligência com dinheiro público. No centro da acusação está o pagamento de uma indenização de 403 milhões de euros ao empresário Bernard Tapie para encerrar o litígio dele com o banco Crédit Lyonnais, referente à venda da empresa de material esportivo Adidas.

A decisão que resultou no pagamento da indenização foi anulada pela Justiça francesa em dezembro de 2015, e a corte de cassação confirmou o veredicto no fim de junho passado. Agora, negou um recurso de Lagarde, que deverá se apresentar à Corte de Justiça da República (CJR), instância competente para julgar ministros.

Logo após o anúncio de que Lagarde sentará no banco dos réus, o conselho de administração do FMI divulgou nota na qual expressa sua confiança na capacidade de Lagarde de conduzir de forma eficiente suas tarefas na instituição.

A Justiça francesa quer saber se Tapie recebeu tratamento privilegiado. Ele havia se sentido prejudicado na venda da Adidas, da qual era acionista majoritário, pelo banco Crédit Lyonnais, em 1993.

Tapie havia confiado a venda da empresa ao banco. Quando este a revendeu pelo dobro do preço, o empresário se sentiu lesado e exigiu uma indenização do Estado, principal acionista do Crédit Lyonnais.

Após vários anos de litígio em tribunal, Lagarde, então ministra das Finanças do governo do presidente Nicolas Sarkozy – cargo que exerceu entre 2007 e 2011, antes de ter sido nomeada diretora-gerente do FMI – decidiu que o valor da indenização a Tapie fosse determinado por um tribunal arbitral.

O fato levou à abertura de investigação judicial. Suspeita-se que Tapie, que apoiou Sarkozy em 2007, tenha recebido um tratamento privilegiado por o caso ter sido decidido por um tribunal arbitral e por o governo não ter recorrido da decisão.
AS/afp/rtr/lusa

G20: Saída da Grã-Bretanha da UE geraria ‘choque global’

Os ministros das Finanças do grupo que reúne as maiores economias do mundo – o G20 – fizeram um alerta de que a saída da Grã-Bretanha da União Europeia (UE) poderia representar um “choque” para a economia global.

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Os britânicos devem definir em referendo no dia 23 de junho se saem ou ficam no bloco europeu.

O alerta do G20 foi incluído na declaração conjunta divulgada neste sábado após um encontro de dois dias na China, na qual o ministro da Fazenda brasileiro, Nelson Barbosa, esteve presente.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O ministro das Finanças britânico, George Osborne, ressaltou em entrevista à BBC durante o evento, que a questão do referendo é de “extrema gravidade”.

“Os líderes financeiros das maiores economias do mundo deram seu veredito unânime dizendo que a saída da Grã-Bretanha seria um choque para a economia global. E se seria um choque para a economia global, imagina o que seria para a Grã-Bretanha”, disse. “Seria uma jornada aventureira pelo desconhecido (…). Isso é extremamente grave”.

Osborne negou que o governo britânico tenha pedido para o G20 incluir a questão do referendo em seu comunicado oficial.

“Há países na mesa (de negociações), como os Estados Unidos (…) e a China que francamente não fazem o que qualquer um pede para eles fazerem”, disse.

Segundo uma autoridade ligada a comitiva britânica, a questão teria sido levantada no encontro do G20 justamente pelos americanos e chineses, além de Christine Lagarde, presidente do Fundo Monetário Internacional (FMI).

CAmeron (Getty)O premiê britânico David Cameron é a favor da permanência na UE
Image copyright Getty

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, do Partido Conservador, apoia a permanência do país na UE.

Há, porém, outros líderes do mesmo partido que são a favor de uma saída do bloco, como o prefeito de Londres, Boris Johnson

Para o ex-ministro das Finanças Nigel Lawson, o alerta do G20 não faz sentido porque 15 de seus membros nem sequer fazem parte da UE. “Os britânicos não vão gostar que o G20 diga o que eles devem fazer. E essa ideia de que a saída da Grã-Bretanha da UE pode causar um choque econômico é absurda”, disse.

“Quinze membros do G20 estão fora da UE e isso não causou choque econômico. Na realidade, a maior parte deles está indo melhor economicamente do que muitos membros da UE.”

Para o líder do Partido Independente do Reino Unido (Ukip), Nigel Farage, que também defende a saída do bloco europeu, o anúncio do G20 “não foi uma surpresa”.

“São camaradas se ajudando”, diz ele. “Isso não impressiona os eleitores.”
BBC

El País comenta a visita de Dilma aos EUA

No próximo dia 30 de junho, a presidenta Dilma estará em Washington, em visita oficial a Barack Obama.O colunista do El País, Juan de Onis, fez algumas observaçõespertinentes a este encontro. Como Onis não é diretamente ligado às nossas futricas domésticas, achei interessante recortar e reproduzir aqui trechos de seu texto.

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Chaves para a histórica visita de Dilma aos EUA

A viagem da presidenta a Washington pode ser boa não só para o Brasil, mas para toda a América Latina, incluindo Cuba

(…) O mundo financeiro norte-americano, que tem investimentos no valor de 60 bilhões de dólares no Brasil (cerca de 190 bilhões de reais), não quer nem ouvir falar de impeachment. O que deseja é uma recuperação econômica rápida. Obama, certamente, oferecerá seu apoio às medidas de ajuste fiscal das deterioradas finanças brasileiras, que Dilma está conduzindo com uma nova equipe econômica liderada pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

(…)
Há consenso em Washington que o programa de ajuste fiscal depende da recuperação da confiança na economia brasileira. Isso ficou claro durante a visita ao Brasil em maio de Christine Lagarde, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI). Depois de elogiar a redução da pobreza e da desigualdade graças aos programas sociais do Brasil, Lagarde apoiou incondicionalmente o programa econômico de Dilma: “Avaliei com satisfação o ambicioso plano de ajuste fiscal do Governo.

Este irá ajudar a estabilizar a dívida pública e, posteriormente, reduzi-la. Isso é acompanhado de uma política monetária disciplinada, destinada a impedir o aumento da inflação”.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

(…) O Brasil continua sendo um mercado importante para os bens e serviços tecnológicos importados dos EUA, embora pudesse substituir muitas dessas importações com produção doméstica nacional se melhorasse sua eficiência e competitividade. O aumento das exportações brasileiras também depende dessas reformas internas.

(…) E a China escolheu o Brasil como seu parceiro estratégico na América Latina, com um plano de investimentos de mais de 50 bilhões de dólares em infraestrutura e tecnologia. Durante sua viagem em maio ao Brasil, Colômbia, Peru e Chile, o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, deixou claro que o grande projeto de Pequim é aumentar a influência chinesa na região, através da construção de ferrovias, portos e infraestrutura de telecomunicações que integrem a logística continental, um antigo desejo sul-americano que nunca se concretizou.

Esse movimento da China no xadrez geopolítico global não é visto com indiferença pelos Estados Unidos e abre novos horizontes econômicos em uma região tradicionalmente mais próxima dos investimentos norte-americanos. A China não vai jogar os EUA para escanteio na região, mas será um novo ator com grande peso financeiro. Haverá colaboração suficiente entre os dois para promover o desenvolvimento latino-americano? É sobre isso — e especificamente sobre o Brasil — que Dilma e Obama vão discutir em 30 de junho.

(…) Ao eliminar Cuba de sua lista de países que praticam o terrorismo, os EUA estão preparando o terreno para novos investimentos privados na ilha. Outros países, como Espanha e Canadá, já estão aproveitando as oportunidades de turismo e comércio com Cuba. Mas o Brasil ultrapassou os EUA com um financiamento de 400 milhões de dólares para a construção de um grande porto no Mariel, na costa norte de Cuba.

(…) Além da grande indústria agrícola, o Brasil conduziu uma política bem desenvolvida de apoio à agricultura familiar, com mais de três milhões de pequenos proprietários rurais que recebem empréstimos subsidiados e assistência técnica para produzir alimentos.

(…) Esta é uma grande oportunidade para que Brasil e Estados Unidos colaborem para impulsionar a economia cubana, oferecendo financiamento e tecnologias que Cuba necessita. Seria um exemplo de que a aproximação vai além de apertos de mão e fotos sorridentes de Obama com Raúl Castro. Cuba precisa de acesso ao mercado vizinho dos EUA para sair do fundo do poço, mas para isso também necessita produzir mais e exportar mais de forma competitiva. É outra questão que Dilma poderia discutir com Obama, se houver uma vontade real de cooperar.

***
Por Miguel do Rosário/Tijolaço

Eu destaquei em itálico um trecho em que o colunista, sem querer, fez um alerta: há, obviamente, conflitos de interesses entre Brasil e EUA, ou mesmo entre Brasil e China. Interessa a esses gigantes que nós continuemos importando produtos tecnológicos, então esse é um cuidado que devemos ter: precisamos jogar o jogo da geopolítica sem comprometer o investimento interno em novas tecnologias, para não ficarmos para trás.

Por outro lado, a visita de Dilma à Obama pode representar um importante trunfo político do governo. Novos acordos comerciais e políticos com a maior potência mundial corresponderiam ao fim de alguns barulhos golpistas aqui dentro, porque o grande capital exigiria um mínimo de estabilidade para obter retorno de seus investimentos.

O colunista enfatiza que os investidores americanos “não querem nem ouvir falar de impeachment no Brasil”, porque entendem (pelo jeito, mais do que a nossa mídia irresponsável) que isso corresponderia a um longo período de instabilidades e caos, gerando prejuízos incalculáveis para todos que têm dinheiro investido em negócios aqui, e os americanos têm, segundo o colunista, quase R$ 200 bilhões investidos aqui dentro.

Essa informação nos ajuda a entender o recuo do PSDB. O Tio Sam deve ter puxado a orelha de alguns tucanos, alertando que impeachment é coisa de república de banana. Diante da magnitude dos investimentos feitos por empresas norte-americanas no Brasil nos últimos anos, uma aventura irresponsável desse porte não encontraria suporte político nem da comunidade de investidores, nem do governo dos Estados Unidos.

A teoria confirma o que eu vinha observando desde que o presidente do BID, Luis Alberto Moreno, fez elogios ao governo Dilma. O mundo encheu o saco do pessimismo golpista da nossa mídia. O Brasil tem uma grande economia, repleta de anticorpos para todo o tipo de dificuldade, e o país voltará a crescer em breve.

Não interessa a ninguém, nem aos EUA, nem à China, nem sobretudo aos brasileiros, essas campanhas golpistas de desestabilização.

Contas secretas, Suíça e imprensa

Por que merece palmas o editor grego que ousou publicar a lista das pessoas com conta secreta na Suíça

O Diário saúda a transparência, uma de nossas crenças fundamentais. E aplaude, em nome dela, o jornalista grego Costas Vaxenanis, editor de uma revista semanal chamada Hot Doc.

Por que merece palmas o editor grego que ousou publicar a lista das pessoas com conta secreta na Suíça
Vaxemanis faz falta no Brasil…

Vaxenanis publicou uma lista com 2 000 pessoas da elite grega política e econômica que têm contas secretas na Suíça e são suspeitos de sonegar impostos.

Ele chegou a ser detido pela polícia, mas a justiça decidiu que não será processado.

A lista foi passada à diretora executiva do FMI Christine Lagarde quando ela era ministra de Economia da França, em 2010. O vazamento, aparentemente, foi feito por um funcionário do HSBC.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Christine encaminhou a lista às autoridades gregas. E nada aconteceu.

Até que, afinal, os nomes chegaram a Vaxenanis. E ele tomou a melhor decisão: publicou.

A jeito grego de lidar com impostos se espalhou pelo mundo – com resultados catastróficos para o interesse público em todas as partes.

Basicamente, trata-se de não pagar impostos, mediante expedientes de toda natureza.

A Grécia quebrou com isso, e os países que seguiram seu caminho vão tendo o mesmo destino.

Economia nenhuma funciona quando grandes empresas e milionários escapolem, ainda que por vias legais, da carga justa de tributos.

Uma hora simplesmente falta dinheiro para o Estado cumprir suas obrigações – e então a conta tem sido passada para a sociedade, entendidos aí pensionistas, viúvas, deficientes físicos etc.

Governos pedem austeridade – renúncia a direitos, para sermos mais claros – ao povo enquanto uma pequena elite acumula cada vez mais dinheiro ao fugir dos impostos.

Os protestos que se espalham pelo mundo derivam exatamente disso.

Na Grécia, na Espanha, em Portugal, nos Estados Unidos, na Inglaterra, para ficar em alguns casos apenas, os manifestantes estão dizendo mais ou menos o seguinte: “Chega de bater minha carteira.”

O editor grego Vaxenanis deu voz e argumentos aos seus conterrâneos agrupados nos chamados “99%” da população – aquela porção da sociedade de quem o “1%” gostaria que se dispusesse a ser voluntariamente esfolada.

Me pergunto, aqui, por que nenhuma lista dessa natureza surgiu ainda no Brasil.

Também me pergunto por que há tão pouca transparência, no país, em relação aos impostos. E finalmente fico na dúvida sobre o que a mídia tradicional brasileira faria caso alguém vazasse uma coisa dessas.

O que Vaxinanis fez se chama jornalismo.
Com maiúsculas. Com exclamação. Clap, clap, clap, portanto, para ele.
De pé.
Paulo Nogueira (Diário do Centro do Mundo)/Tribuna da Imprensa 

G8: a reunião surrealista

Espetáculo surrealista

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, abriu com grande pompa a Cúpula do G-8, as oito nações mais ricas do planeta, em Deauville, belo e elegante balneário turístico na costa da Normandia.

Há dois séculos, Napoleão III adorava frequentá-lo, e sua mulher, Eugénie de Montijo, ali se banhava de maiô guarnecido de grandes saias.

Sarkozy tem motivos para se rejubilar.

Normalmente, um outro francês estaria presente nessa cúpula do G-8, Dominique Strauss-Kahn (DSK), o ex-diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), cuja presença teria com certeza eclipsado a de Sarkozy.

Mas DSK, depois de uma vertigem inexplicável, teve a ideia, há 10 dias, de violentar uma jovem negra em sua suíte no Hotel Sofitel em Nova York.

Num instante, DSK caiu na sarjeta como um boneco desengonçado.

Ele desapareceu das telas. E Sarkozy reina sozinho, grandioso e eterno sobre a cúpula do G-8, sobre o “planeta dos ricos”.

Esse “planeta dos ricos” tem uma aparência curiosa.

Entre os oito ricos, há seis pobres, depois de excluídos a Rússia e o Canadá.

Examinemos esses pobres: a dívida pública do Japão é de 200% de seu Produto Interno Bruto (PIB), belo desempenho, e seu déficit orçamentário de 10% do PIB.

Os Estados Unidos, comprovado colosso, tem uma dívida interna da ordem de 90% do seu PIB e um déficit orçamentário de 9%.

Para a Alemanha, essas cifras são de 83% e 3,3%.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Para a Inglaterra, 80% e 10%. Na Itália, a dívida pública se avizinha de 119% do PIB e o déficit orçamentário de 4,6%.

Na França, as duas cifras são 82% e 7%.

Desastre, portanto.

E ainda mais surpreendente quando se comparam esses balanços ridículos com os de países que não fazem parte do clube dos ricos, aqueles chamados de “emergentes” (China, Índia, Brasil, África do Sul) cujas finanças estão mais sadias que as dos países do Norte.

Um exemplo: as reservas cambiais da China somam US$ 3 trilhões. Esses US$ 3 trilhões estão investidos, aliás, em grande parte, em bônus do Tesouro americano.

Deauville é, portanto, um espetáculo surrealista.

À mesa dos oito ricos se banqueteiam e peroram oito “mendigos”, enquanto no serviço, no subterrâneo, estão os verdadeiros ricos, a China e países do Sul, que não têm acesso ao banquete.

Estamos num mundo da ilusão, do discurso, da mentira.

Os “ricos” fazem como se estivessem no ano de 1920 ou de 1950 quando o resto do planeta morria de fome.

Os oito países de Deauville lembram aristocratas decaídos que continuam a viajar nos carros suntuosos do Orient Express quando, na realidade, mal têm com que pagar uma velha charrete puxada por um burro cambaio.

Mas os países ricos não perderam a pose.

Eles seguem em frente com seu número de prestidigitação. Eles são tão bons oradores que os outros, os dito “pobres”, ainda os escutam.

O caso do Fundo Monetário Internacional é, desse ponto de vista, notável.

Eis um organismo internacional criado em 1954 e confiado em seguida aos “ricos” que são tão mais inteligentes, para manter o equilíbrio financeiro mundial e ajudar os “países pobres” – os países do Sul – a fecharem suas contas orçamentárias, a pagarem suas dívidas, etc.

Hoje, porém, que os “ricos” estão “pobres”, seria lógico que a direção do FMI não coubesse aos europeus, como ocorre há 60 anos em nome de uma tradição não escrita, mas aos novos países ricos, aos emergentes.

E o que acreditam que ocorrerá? Acham que o FMI vai para um indiano, um mexicano, um ruictro?

Absolutamente. Ele retornará a um europeu (quase certamente à ministra das Finanças da França, Christine Lagarde). Por quê? Como vou saber?

Tradução de Celso Paciornik

Gilles Lapouge/O Estado de S.Paulo