Cinema: A deformação estrutural da imprensa

Câmera Voigtländer 1841

Crítico de cinema também é jornalista? As avaliações, resenhas e coberturas da cerimônia do Oscar revelam algo surpreendente: a grande maioria dos que escrevem sobre cinema não se sentem jornalistas, não reagem como jornalistas e, obviamente, não foram tocados pela maravilhosa alegoria contida no premiado O artista – uma celebração da perenidade da arte quando desafiada por novas tecnologias.

Jornalismo também é arte; o que vale para o cinema, vale também para a imprensa.

O uso de venerandas linguagens abandonadas há oitenta anos foi um recurso para tornar mais contundente a motivação inovadora. A nostalgia pode ser revolucionária, essa é exatamente a mensagem do filme. Pelo menos para este observador. Seus autores pretendiam algo mais do que a história de um astro do cinema mudo que não se ajusta aos talkies.

Não se trata de um drama particular dentro de um ofício – neste caso o título seria O Ator.

A ideia era transcender a crise produzida pela introdução do som no cinema e gerar uma provocação válida para qualquer gênero artístico quando ultrapassado pelo progresso tecnológico.

Charlie Chaplin também não se adaptou àqueles tempos ditos modernos e produziu um hilariante e perturbador questionamento sobre a imposição da modernidade.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

O artista é uma convocação a todos os artistas, inclusive àqueles que não se reconhecem como tal, para servir-se da tecnologia sem convertê-la em divindade inquestionável.

Os convocados são os músicos, poetas, fotógrafos, pintores, escultores, atores, escritores e naturalmente jornalistas. É uma metáfora sobre o desafio que artes e artistas enfrentam há milênios quando a sua forma de expressão é repentinamente ameaçada ou transformada por fatores exógenos.

Película humanista

Como aqui já foi dito (ver “Dois filmes sobre filmes – A metáfora é o jornalismo”), O artista é um exercício generalizado de autoestima e devoção artística. Tal foi o empenho em sua realização que poucos escapam dos efeitos deste gostoso gostar coletivo.

O cinema é a matriz e ponto culminante do show business. Não se ilude e não ilude: é negócio, visa lucros, lucros fabulosos, e não obstante tem funcionando como um fabuloso gerador de emoções, prazeres e também ideias.

Hollywood entrou na Segunda Guerra Mundial muito antes da Casa Branca.

A crise financeira de 2008 já produziu no cinema importantes representações (ficcionais e/ou documentais) que a mídia noticiosa sequer tenta emular, atropelada pela velocidade e pela fragmentação que ela própria gerou.

A grande verdade é que a imprensa não se estima porque não se encontrou. Não se reconhece. Suas insuficiências tornam-se cada vez mais visíveis – e não apenas para os críticos de mídia.

O que era uma crise de identidade transforma-se aos poucos em deformação estrutural. Hoje, o padrão de excelência em jornalismo já não se mede pela escrita, pela coragem moral ou pela ousadia intelectual, mas pela versatilidade em usar novas tecnologias.

O artista é renascentista. Ou, se quisermos, humanista. Faz bem porque soma, incorpora o passado com suavidade e abre um sorriso para o futuro.
Alberto Dines/Observatório da Imprensa

Crônica – Ivan Lessa.

Ivan Lessa – BBC
A Taça Global já é nossa!


Folhas inglesas e brasileiras me informam que há 500 jornalistas brasileiros cobrindo a Copa do Mundo na Alemanha. Uso o verbo cobrir em seu mais amplo sentido. O mesmo não faço com a palavra “jornalista”.Pelo que depreendi, há muito tempo, jornalista cobre (novamente em seu mais amplo sentido) radialista e televisionista.
São 500 atletas das palavras se exercitando – atirando martelos, arremessando dardos, correndo os 200 metros rasos – para que 270 milhões de brasileiros possam ficar imaginando o que não deve ser um jogo de futebol entre seleções internacionais. Corrigindo-me: são 280 milhões de brasileiros. Foi só eu parar para digitar duas linhas que mais 10 milhões coroaram ou deram as caras, por assim dizer.


As mesmas folhas me dão conta que, desses 500, 160 são da Globo, o que inclui rádio e televisão, mais 16 – esses comprovadamente alfabetizados –, do jornal com uma triagem de mais de 300 mil exemplares.É bastante. Levando-se em conta que o Brasilzão, como o chamam carinhosamente essas pessoas aumentativas torcendo por jogadores diminutivos (Ronaldinho, Juninho, Robinho, Cafuinha, Didinho etc), não tem mais que 3 jornais e 1/3 que possam ser levados a sério por pessoas que fazem questão de ser sérias. Acho uma boa distribuição daquilo que poderíamos chamar, no melhor estilo PT, de “Bolsa Beabá”.

Folheio ciberneticamente o simpático jornalão soi disant carioca. Lá estão, todos os santos dias, desde que esse raio dessa copa começou, 16 jornalistas.
Dos colunistas, coitados, morro de pena, apesar de todas as mordomias, pois já exerci a profissão quando jovem, inocente, duro e cara de pau. Dia após dia, lá estão os 16 fazendo o espetáculo sem juiz, bandeirinhas, cartões amarelos ou vermelhos. É só dar uma chegada ao sítio global.

Olhai-os a zanzar pela relva verde, farta e saborosa da palavra escrita. De óculos escuros, bengalas brancas, tentando não esbarrar uns nos outros, esbarrando sempre uns nos outros, tropeçando, caindo de bunda no chão, como num pastelão clássico imitando os mestres do gênero, de Chaplin a Buster Keaton, passando por Harry Langdon e Harold Lloyd, em roteiro idealizado por Ionesco e Beckett.
Suas frases ecoam na mente como encantações ou pontos de macumba. As escritas e lidas e principalmente as imaginadas, pois não há melhor forma de elogio do que a imaginação.

O texto está pronto e tinindo, para os bons apreciadores. Como nas velhas sessões Passatempo, do Capitólio, na Cinelândia, onde também estavam Os Três Patetas e O Gordo e o Magro, o espetáculo começa quando você chega.
– É preciso escalar Robinho.
– Ich komme aus Rio.
– Comandante Lobato! Comandante Lobato!
– Ronaldinho está jogando muito na frente.
– Leitura labial é crime previsto na constituição ou não?
– Qual é o certo: Ich bin ein Berliner ou Ich bin Berliner?
– Como dizia Neném Pé de Prancha…
– Alguém aí viu o comandante Lobato?
– Der Motor ist kaputt.
– Devemos esquecer 2002 e 1998.

Dois amigos cuja opinião prezo e respeito me garantiram que a coluna do Tostão é a melhor do gênero. Por ser um fracasso na marcação, eu sempre me descuidei. Passei a acompanhar, a fazer minha cobertura. Eles estavam, estão, certos. Tostão é longe o melhor comentarista, traje esporte ou passeio.

Agora, pouco importa o resultado do jogo de sábado e o próximo, se houver, e sei que, malheuresement, haverá. Uma taça nós já erguemos: a Global de Cobertura Jornalística é nossa. Sempre mal informado, só não sei se somos penta, tetra ou hexa.