Cecília Meireles – Discurso

Discurso
Cecília Meireles

E aqui estou, cantando.

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.

Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando.

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?

Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?

Poesia,BlogdoMesquita 02

Cecília Meireles – Atitude – Poesia

Atitude
Cecília Meireles

Minha esperança perdeu seu nome…
Fechei meu sonho, para chamá-la.
A tristeza transfigurou-me
como o luar que entra numa sala.

O último passo do destino
parará sem forma funesta,
e a noite oscilará como um dourado sino
derramando flores de festa.

Meus olhos estarão sobre espelhos, pensando
nos caminhos que existem dentro das coisas transparentes.
E um campo de estrelas irá brotando
atrás das lembranças ardentes.

Andrew Wyeth – Têmpera s/t

Poesia,BlogdoMesquita 03

Cecília Meireles – O que amamos está sempre longe de nós

O que amamos está sempre longe de nós
Cecília MeirelesMałgorzata Lazarek,Arte,ArtesPLásticas,Pinturas,Paints,ContemporaryArt,FineArt,BlogdoMesquita

O que amamos está sempre longe de nós:
e longe mesmo do que amamos – que não sabe
de onde vem, aonde vai nosso impulso de amor.

O que amamos está como a flor na semente,
entendido com medo e inquietude, talvez
só para em nossa morte estar durando sempre.

Como as ervas do chão, como as ondas do mar,
os acasos se vão cumprindo e vão cessando.
Mas, sem acaso, o amor límpido e exato jaz.

Não necessita nada o que em si tudo ordena:
cuja tristeza unicamente pode ser
o equívoco do tempo, os jogos da cegueira

com setas negras na escuridão.

Pintura de Małgorzata Lazarek

Cecília Meireles,Literatura

Cecília Meireles – Literatura

“Escolha o seu sonho”Cecília Meireles,Literatura

Devíamos poder preparar os nossos sonhos como os artistas, as suas composições. Com a matéria sutil da noite e da nossa alma, devíamos poder construir essas pequenas obras-primas incomunicáveis, que, ainda menos que a rosa, duram apenas o instante em que vão sendo sonhadas, e logo se apagam sem outro vestígio que a nossa memória.

Como quem resolve uma viagem, devíamos poder escolher essas explicações sem veículos nem companhia – por mares, grutas, neves, montanhas e até pelos astros, onde moram desde sempre heróis e deuses de todas as mitologias, e os fabulosos animais do Zodíaco.

Devíamos, à vontade, passear pelas margens do Paraíba, lá onde suas espumas crespas correm com o luar por entre as pedras, ao mesmo tempo cantando e chorando. – Ou habitar uma tarde prateada de Florença, e ir sorrindo para cada estátua dos palácios e das ruas, como quem saúda muitas famílias de mármore… – Ou contemplar nos Açores hortênsias da altura de uma casa, lagos, de duas cores e cestos de vime nascendo entre fontes, com águas frias de um lado e, do outro, quentes… – Ou chegar a Ouro Preto e continuar a ouvir aquela menina que estuda piano há duzentos anos, hesitante e invisível – enquanto o cavalo branco escolhe, de olhos baixos, o trevo de quatro folhas que vai comer.

Quantos lugares, meu Deus, para essas excursões! Lugares recordados ou apenas imaginados. Campos orientais atravessados por nuvens de pavões. Ruas amarelas de pó, amarelas de sol, onde os camelos de perfil de gôndola estacionam, com seus carros. Avenidas cor-de-rosa, por onde cavalinhos emplumados, de rosa na testa e colar ao pescoço, conduzem leves e elegantes coches policromos …

… E lugares inventados, feitos ao nosso gosto; jardins no meio do usar; pianos brancos que tocam sozinhos; livros que se desarmam, transformados em música. […]

Devíamos poder sonhar com as criaturas que nunca vimos e gostaríamos de ter visto: Alexandre, o Grande; São João Batista; o Rei Davi a cantar; o Príncipe Gautama…

E sonhar com os que amamos e conhecemos, e estão perto ou longe, vivos ou mortos… Sonhar com eles no seu melhor momento, quando foram mais merecedores de amor imortal…

Ah!… – (que gostaria você de sonhar esta noite?)

* Crônica extraída do Livro “Escolha o seu sonho” de Cecília Meireles. 4ª ed., Rio de Janeiro: Global Editora, 2016.

Cecília Meireles – Versos na tarde – 26/12/2017

Desenho
Cecília Meireles

Traça a reta e a curva,
a quebrada e a sinuosa
Tudo é preciso.
De tudo viverás.

Cuida com exatidão da perpendicular
e das paralelas perfeitas.
Com apurado rigor.
Sem esquadro, sem nível, sem fio de prumo,
traçarás perspectivas, projetarás estruturas.
Número, ritmo, distância, dimensão.
Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua memória.

Construirás os labirintos impermanentes
que sucessivamente habitarás.

Todos os dias estarás refazendo o teu desenho.
Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida.
E nem para o teu sepulcro terás a medida certa.

Somos sempre um pouco menos do que pensávamos.
Raramente, um pouco mais.

Cecília Meireles – Versos na tarde – 11/12/2016

Dái-me algumas palavras
Cecília Meireles¹

Dai-me algumas palavras,
– porém, somente algumas! –
que às vezes apetece,
pelos jardins de areia,

colher flores de espuma.
Deixai, deixai,secreto,
às portas da minha alma,

guardando os labirintos
e as esfinges enormes.
(O silêncio caído
com seus firmes oceanos

– onde não há mais nada
dos litorais do mundo
nem do périplo humano!)silêncio que dorme.

¹Cecília Benevides de Carvalho Meireles
* Rio de Janeiro,Brasil – 7 Novembro 1901 d.C.
+ Rio de Janeiro,Brasil – 9 Novembro 1964 d.C.

Órfã de pai e mãe desde os três anos de idade, foi criada pela avó materna.
Em 1917 formou-se na Escola Normal do Rio, dedicando-se ao magistério primário. Estreou em livro com Espectros (1919). A partir da década de 30, lecionou Literatura Brasileira em várias universidades.

Continue lendo

Cecília Meireles – Versos na tarde – 07/11/2016

Pássaro
Cecília Meireles¹

Aquilo que ontem cantava
já não canta.
Morreu de uma flor na boca:
não do espinho na garganta.

Ele amava a água sem sede,
e, em verdade,
tendo asas, fitava o tempo,
livre de necessidade.

Não foi desejo ou imprudência:
não foi nada.
E o dia toca em silêncio
a desventura causada.

Se acaso isso é desventura:
ir-se a vida
sobre uma rosa tão bela,
por uma tênue ferida.

¹ Cecília Benevides de Carvalho Meireles
* Rio de Janeiro,RJ. – 07 de novembro 1901
+ Rio de Janeiro,RJ. – 9 de novembro de 1964
[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Cecília Meireles – Versos na tarde – 11/05/2016

Homenagem ao traidor – Romanceiro da inconfidência
Cecília Meireles¹

Melhor negócio que Judas
fazes tu, Joaquim Silvério:
que ele traiu Jesus Cristo,
tu trais um simples Alferes.
Recebeu trinta dinheiros…
— e tu muitas coisas pedes:
pensão para toda a vida,
perdão para quanto deves,
comenda para o pescoço,
honras, glória, privilégios.
E andas tão bem na cobrança
que quase tudo recebes!
Melhor negócio que Judas
fazes tu, Joaquim Silvério!
Pois ele encontra remorso,
coisa que não te acomete.
Ele topa uma figueira,
tu calmamente envelheces,
orgulhoso impenitente,
com teus sombrios mistérios.
(Pelos caminhos do mundo,
nenhum destino se perde:
há os grandes sonhos dos homens,
e a surda força dos vermes.)

¹ Cecília Benevides de Carvalho Meireles
* Rio de Janeiro, RJ. – 7 de novembro de 1901 d.C
+ Rio de Janeiro, RJ. – 9 de novembro de 1964 d.C


[ad#Retangulo – Anuncios – Duplo]

Cecília Meireles – Versos na tarde – 27/04/2016

Extrato do Romanceiro da Inconfidência
Cecília Meireles¹

Melhor negócio que Judas
fazes tu, Joaquim Silvério!
Pois ele encontra remorso,
coisa que não te acomete.
Ele topa uma figueira,
tu calmamente envelheces,
orgulhoso e impenitente
com teus sombrios mistérios.
(Pelos caminhos do mundo,
nenhum destino se perde:
há os grandes sonhos dos homens,
e a surda força dos vermes.)

¹Cecília Benevides de Carvalho Meireles
* Rio de Janeiro,Brasil – 7 Novembro 1901 d.C
+ Rio de Janeiro,Brasil – 9 Novembro 1964 d.C


[ad#Retangulo – Anuncios – Duplo]