Cassiano Ricardo – Versos na tarde – 11/01/2017

Fuga em azul menor
Cassiano Ricardo¹

O meu rosto de terra
ficará aqui mesmo
no mar ou no horizonte.

Ficará defronte
à casa onde morei.

Mas o meu rosto azul,
O meu rosto de viagem,
esse, irá pra onde irei.

Todo o mundo físico
que gorjeia lá fora
não me procure agora.

Embarquei numa nuvem
por um vão de janela
dos meus cinco sentidos.

E que adianta a alegria
dizer que estou presente
com o meu rosto de terra
se não estou em casa?

Inútil insistência.
Cortei em mim a cauda
das formas e das cores.

(A abstração é uma forma
de se inventar a ausência)
e estou longe de mim
nesta viagem abstrata
sem horizonte e fim.

Um dia voltarei
qual pássaro marítimo,
numa tarde bem mansa
à hora do sol posto.

Então, loura criança,
Ouvirás o meu ritmo
e me perguntarás:
quem és tu, pobre ser?
Mas, eu vim de tão longe
e tão azul de rosto
que não me podes ver.

A graça de quem mora
no país da ausência
certo consiste nisto:
ficar azul de rosto
pra não poder ser visto.

¹Cassiano Ricardo Leite
* São José dos Campos, SP. – 26 de Julho de 1895
+ Rio de Janeiro, RJ. – 14 de Janeiro de 1974
Jornalista, poeta e ensaísta brasileiro.
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Representante do modernismo de tendências nacionalistas.
Pertenceu às academias paulista e brasileira de letras e fez parte dos grupos Verde-Amarelo, Anta, e foi o fundador do grupo da Bandeira.
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Cassiano Ricardo – Versos na tarde

Canção para poder viver
Cassiano Ricardo ¹

Dou-lhe tudo do que como,
e ela me exige o último gomo.

Dou-lhe a roupa com que me visto
e ela me interroga: só isto?

Se ela se fere num espinho,
O meu sangue é que é o seu vinho.

Se ela tem sede eu é que choro,
no deserto, para lhe dar água:

E ela mata a sua sede,
já no copo de minha mágoa.

Dou-lhe o meu canto louco;
faço um pouco mais do que ser louco.

E ela me exige bis, “ao palco”!

¹ Cassiano Ricardo Leite
* São José dos Campos, SP. – 26 de Julho de 1895
+ Rio de Janeiro, RJ. – 14 de Janeiro de 1974


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Cassiano Ricardo – Versos na tarde

Pecado original
Cassiano Ricardo ¹

O dia nos espia… novamente.
Mas, ó incrível morena de olhar verde,
fecha os teus olhos pra fingir que é noite.
E teremos a noite, duas, três vezes,
quantas vezes fecharmos nossos olhos
na quentura de um beijo. Porque a noite
é uma pequena invenção de nós dois…
Há um momento de treva em cada beijo
e uma risada matinal depois,
do dia, debruçado na janela,
que nos espia, e quer saber de tudo
o que se passa agora entre nós dois.
Fecha os olhos de novo, e eu te darei
a noite que ainda mora atrás do dia…

¹ Cassiano Ricardo Leite
* São José dos Campos, SP. – 26 de Julho de 1895 d.C
+ Rio de Janeiro, RJ. – 14 de Janeiro de 1974 d.C


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Cassiano Ricardo – Versos na tarde

A rua
Cassiano Ricardo ¹

Bem sei que, muitas vezes,
O único remédio
É adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
A dívida, o divertimento,
O pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
De contínuo adiamento.

Sei que é preciso prestigiar a esperança,
Numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,
Esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.
A esperança
Nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera.
Nunca é figura de mulher
Do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.

¹ Cassiano Ricardo Leite
* São José dos Campos, SP. – 26 de Julho de 1895
+ Rio de Janeiro, RJ. – 14 de Janeiro de 1974


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Cassiano Ricardo – Versos na tarde

Amor imperfeito
Cassiano Ricardo ¹

A perfeição
é um momento,
por demais claro.
Como repeti-la,
sem enfaro?
A perfeição,
se possuída
a todo instante
se faz rainha
suicida.
Quem já mediu
o perfeito,
rosa de prata,
mas em sua
medida exata?
Nada existe
sem o defeito
que lhe dá graça.
Só amo a graça
do imperfeito.
O perfeito
quando existe
tem o defeito
de ser triste.

¹ Cassiano Ricardo Leite
* São José dos Campos, SP. – 26 de Julho de 1895
+ Rio de Janeiro, RJ. – 14 de Janeiro de 1974


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Cassiano Ricardo – Versos na tarde

Fuga em Azul Menor
Cassiano Ricardo ¹

O meu rosto de terra
ficará aqui mesmo
no mar ou no horizonte.

Ficará defronte
à casa onde morei.

Mas o meu rosto azul,
O meu rosto de viagem,
esse, irá pra onde irei.

Todo o mundo físico
que gorjeia lá fora
não me procure agora.

Embarquei numa nuvem
por um vão de janela
dos meus cinco sentidos.

E que adianta a alegria
dizer que estou presente
com o meu rosto de terra
se não estou em casa?

Inútil insistência.
Cortei em mim a cauda
das formas e das cores.

(A abstração é uma forma
de se inventar a ausência)
e estou longe de mim
nesta viagem abstrata
sem horizonte e fim.

Um dia voltarei
qual pássaro marítimo,
numa tarde bem mansa
à hora do sol posto.

Então, loura criança,
Ouvirás o meu ritmo
e me perguntarás:
quem és tu, pobre ser?
Mas, eu vim de tão longe
e tão azul de rosto
que não me podes ver.

A graça de quem mora
no país da ausência
certo consiste nisto:
ficar azul de rosto

¹ Cassiano Ricardo Leite
* São José dos Campos, SP. – 26 de Julho de 1895
+ Rio de Janeiro, RJ. – 14 de Janeiro de 1974