Uma breve introdução a Caravaggio, o mestre da luz

Como muitos grandes artistas, a sorte de Michelangelo Merisi da Caravaggio aumentou e caiu dramaticamente. Após sua morte, possivelmente de sífilis ou assassinato, sua influência se espalhou pelo continente à medida que seguidores chamados Caravaggisti usavam o claro-escuro no exterior.

Ele influenciou Rubens, Rembrandt e Velázquez – na verdade, todo o período barroco na história da arte europeia provavelmente nunca teria acontecido sem ele. “Com exceção de Michelangelo”, escreveu o historiador da arte Bernard Berenson, “nenhum outro pintor italiano exerceu uma influência tão grande”.

Mas os críticos posteriores atacaram violentamente seu realismo hiper-dramático e de alto contraste. Seu estilo, chamado de “tenebrismo” pelo uso de escuridão profunda em pinturas como A Chamada de São Mateus, é chocante em comparação com o maneirismo fantasioso que veio antes. No vídeo acima, Evan Puschak, o Nerdwriter, explica o que torna o trabalho de Caravaggio tão estranhamente hiperreal.

Ele “preferia pintar seus temas como os olhos os vêem”, escreve a Fundação Caravaggio, “com todas as suas falhas e defeitos naturais, em vez de como criações idealizadas. Essa mudança da prática padrão e do idealismo clássico de Michelangelo foi muito controversa na época…. Seu realismo foi visto por alguns como inaceitavelmente vulgar. ”

Também polêmico foi o próprio Caravaggio. Sua vida selvagem se tornou um tema ideal para o filme biográfico de arte de Derek Jarman de 1986, estrelado por Tilda Swinton. Famoso por brigas, “as transcrições de seus registros policiais e processos de julgamento ocupam várias páginas”. Ele nunca se casou ou se estabeleceu e o erotismo masculino em suas pinturas levou muitos a sugerir que ele era gay.

(O filme de Jarman torna isso uma parte explícita de sua biografia.) É provável, pensam os historiadores da arte, que o pintor teve muitos relacionamentos tumultuosos, sexual ou não, com homens e mulheres antes de sua morte prematura aos 38 anos.

Apesar de sua vida profana, as pinturas de Caravaggio evidenciam uma “espiritualidade notável” e ilustram, como observa Puschak, exatamente o tipo de intensidade apaixonada que a Igreja Católica contra-Reformada queria usar para estimular os fiéis. A popularidade de Caravaggio significou encomendas de patrocinadores ricos e, por um tempo, ele foi o pintor mais famoso de Roma, bem como um dos personagens mais famosos da cidade. Caravaggio pintou da vida, encenando seus arranjos intrincados com modelos reais que seguravam as poses enquanto ele trabalhava.

Suas figuras eram pessoas comuns que poderiam ser encontradas nas ruas da cidade do século 17. E o próprio Caravaggio, apesar de seu enorme talento, também era uma pessoa comum, deixando de lado os estereótipos de gênios trágicos e torturados. Ele era profundamente falho, é verdade, mas impulsionado por um desejo incrível de se tornar algo maior.

Caravaggio – Pro dia nascer melhor – 09/01/2017

Quinzena Caravaggio
Michelangelo Merisi da Caravaggio
Auto Retrato Como Baco, 1595
Óleo sobre tela ,95x85cm,Uffizi,Florença

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Mensalão, STF e a fogueira das vaidades

Narciso, detalhe – Michelangelo Caravaggio

A ética e a compostura se escondem, envergonhadas, sob o tapete luxuoso da corte suprema.

A vaidade, paixão mais da alma que do corpo, fazendo esse escravo daquela, e de onde emerge o ceticismo dos que observam o embate que tem derrotado, ao longo da história, seus mais fanáticos cultores.

O que muitas vezes alega superioridade geralmente finda habitante ao rés do chão da mediocridade.

José Mesquita – Editor
“É mais difícil ferir a nossa vaidade justamente quando foi ferido o nosso orgulho.” Friedrich Nietzsche


Suprema vaidade
por Leonardo Attuch

Dias atrás, o deputado André Vargas (PT-PR) ousou proclamar uma daquelas verdades inconvenientes.

Disse que a transmissão ao vivo de um julgamento como o do mensalão traz um “risco para a democracia” e o mundo desabou.

Vargas foi taxado de totalitário e liberticida, mas o fato concreto é que tinha 100% de razão. Diante de uma câmera de televisão, o ser humano se transforma.

E os ministros do Supremo Tribunal Federal – compostos de carne, osso e vaidade – não são diferentes do comum dos mortais.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

O teorema de André Vargas foi demonstrado no último bate-boca entre Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski, quando o relator insinuou que o revisor competia com ele pelo tempo de exposição na “novela” – como se, nessa trama, só houvesse espaço para um protagonista.

Barbosa foi ainda mais explícito ao sugerir que Lewandowski deveria distribuir seu voto para “prestar contas à sociedade”.

Por essa lógica, a competência de um ministro do STF não deveria mais ser medida pelo saber jurídico ou pelo rigor de seus votos, mas, sim, pela quantidade de aplausos do público no Bar Bracarense.

Como se sabe, juiz de verdade é aquele que não se curva à opinião pública nem à opinião publicada. Um bom magistrado presta contas à sociedade quando toma decisões ancoradas apenas na lei e na sua consciência – e não nos índices de ibope ou nas supostas expectativas da sociedade.

Fosse diferente, bastaria substituir o STF por um serviço de 0800. Algo como um “você decide” sobre quem vai ou não para a cadeia. E é inegável que a transmissão ao vivo de um julgamento influi no seu resultado.

Em meio ao festival de vaidades, Barbosa deu também demonstrações de total descontrole emocional. Num dos piores momentos da história do STF, disse um “faça-o corretamente”, quando Lewandowski afirmou que concluiria seu voto.

Agiu como se fosse juiz não apenas dos réus, mas também dos próprios colegas, no que foi imediatamente repreendido por Marco Aurélio Mello.

Barbosa, no entanto, não é o único a se deixar levar pela vaidade. Outros ministros têm antecipado seus votos a órgãos de imprensa e também testado a acolhida popular a alguns balões de ensaio, como o eventual perdão judicial ao ex-deputado Roberto Jefferson.

Comportam-se como diretores de novela que testam diferentes finais para os vilões e mocinhos da trama. E, no fim, darão ao público o que o público supostamente espera.

Nesse enredo, a preocupação dos ministros já não parece ser a de fazer justiça ou não aos réus. Quando um julgamento se transforma em espetáculo midiático, a motivação dos juízes passa a ser uma só: a própria imagem.

Resumindo, qual será a quantidade de aplausos que cada um deles receberá no Bracarense.