Protestos,Blog do Mesquita 01

O “milagre chileno” se choca com a realidade

Custo de vida, salários, previdência e os sistemas privados de saúde e educação se sobrepõem à melhora da renda no imaginário coletivo do país sul-americano.

Manifestante segura cartaz onde se lê: “Viver no Chile custa o olho da cara”.
Manifestante segura cartaz onde se lê: “Viver no Chile custa o olho da cara”.

Eat the rich, coma os ricos. Poucas pichações são tão eloquentes sobre o momento que atravessa um país como a que apareceu recentemente na fachada de um hotel em Santiago. Uma mensagem direta, em inglês —para que ninguém, nem dentro nem fora, pudesse alegar a barreira idiomática— e com dois claros destinatários: as classes acomodadas de uma nação que arde em protestos há três semanas, e os turistas e homens de negócios que visitam a capital chilena num de seus períodos mais conturbados em muitos anos.

O Chile quer justiça social e a quer já, depois de décadas de promessas descumpridas e de, nas palavras da economista do desenvolvimento Nora Lustig, “um modelo privatizador dos serviços públicos que deixou muita gente de fora”. O ano de 2019, como dizia outra das muitas pichações políticas que se multiplicam nas ruas da cidade, será recordado como o momento em que “o Chile acordou”.

As receitas econômicas aplicadas nas últimas quatro décadas resultaram em uma onda de elogios dos principais organismos internacionais, consagrando o Chile com a bitola do “milagre econômico” da região por antonomásia, por suas saudáveis taxas de crescimento econômico e por ter obtido, em tempo recorde, uma das maiores rendas per capita da América Latina – posição eternamente em disputa com o Panamá. Mas o caso chileno é paradigmático de uma máxima que nunca convém esquecer na economia: que a renda per capita – que levou um bom número de economistas a compará-lo à Coreia do Sul, talvez o grande caso de sucesso contemporâneo em escala global, não é suficiente como termômetro do bem-estar real e da fragmentação socioeconômica de um território.

A era dourada do crescimento chileno descansou sobre dois pilares: o cobre – é o maior produtor global, uma bênção da qual, entretanto, não conseguiu se diversificar com sucesso – e uma fé inabalável no livre mercado: lidera os rankings latino-americanos em facilidade para fazer negócios, e a ideologia do laissez faire –marca da casa da escola de Chicago, que, como constata Lisa North, professora emérita de Ciência Política na Universidade de York (Toronto), encontrou no Chile dAugusto Pinochet um terreno especialmente fértil para sua entrada na região. “Houve, sobretudo no exterior, uma supervalorização do modelo chileno: se o processo liberalizante tivesse sido acompanhado de uma maior concorrência econômica, o bem-estar resultante teria sido muito maior. Aqui, porém, ocorreu uma alta concentração, de modo que a riqueza ficou em poucas mãos”, critica Gonzalo Martner, ex-embaixador e ex-presidente do Partido Socialista.

Longe dos padrões da OCDE – “com os quais deveria se comparar o Chile de hoje”, acrescenta Lustig, professora na Universidade Tulane (Nova Orleans, EUA) –, mas acima de outros grandes países americanos onde a desigualdade campeia, como o México e os EUA – a disparidade de renda tem caído, mas permanece em níveis “inaceitáveis”. A isso se soma uma classe média (ao menos de acordo com os dados) cada vez mais descontente. “Com o modelo liberal e o Estado apenas como subsidiário, que só intervém quando a pessoa não tem praticamente nada, há um grupo que não é nem pobre nem rico, que quase não tem acesso a serviços públicos”, observa o consultor independente de administrações públicas Andras Uthoff. Os cartões-postais do mal-estar surgem assim que se desce à rua:

Emprego, custo da vida e educação

O caso de Raquel Sotomayor, de 30 anos e moradores de Puerto Montt – mais de 1.000 quilômetros ao sul de Santiago –, e seu marido é paradigmático de três facetas do problema social chileno: emprego, custo da vida e educação. Formada há dois anos num curso profissionalizante de assistente social, tem dois filhos pequenos, de um e dois anos, e não encontra trabalho. Seu marido, Jonathan (31 anos), ganha 420.000 pesos chilenos (pouco menos de 2.200 reais, compatível com a média da população, cerca de 2.250 reais, segundo os dados reunidos pela Fundação Sol) como professor de Educação Física. Para poder estudar em uma universidade pública, fez um financiamento bancário com aval do Estado, uma prática comum entre os estudantes chilenos. “Nasceu nossa menina, atrasamos uma mensalidade, aí a mensalidade dobrou. Somando os juros, ficou impossível pagarmos”, conta Sotomayor. Sua dívida hoje ultrapassa os 11 milhões de pesos (57.300 reais) e cresce a cada dia por causa dos juros. Em abril do ano que vem, será ela que terá que começar a pagar o seu financiamento, sem nem sequer ter um trabalho.

O encarecimento generalizado da vida agrava sua precariedade. Na falta de estatísticas detalhadas, vale o método empírico: um passeio por Santiago e outro pela Cidade do México bastam para perceber uma importante disparidade em alguns dos principais produtos básicos, com preços mais semelhantes com os de uma capital europeia que os de uma cidade latino-americana. Santiago é, segundo a consultoria Mercer, a terceira metrópole latino-americana mais cara para viver, depois de Montevidéu e San Juan (Porto Rico).

Três coordenadas temporais sobre a origem dos problemas de emprego e educação: em 1979, a ditadura de Pinochet – sob a batuta de José Piñera, ministro naquela época e irmão do hoje presidente – aprova uma completa reformulação das regras trabalhistas, com forte redução da proteção aos trabalhadores, às organizações sindicais e à negociação coletiva; em 1980, abrem-se as portas à criação de universidades privadas sem fins lucrativos, sem maiores exigências sobre qualidade nem preço. “A liberalização do mercado da educação superior fez aumentar muitíssimo os preços e concentrar a oferta na capital”, observa a pesquisadora Claudia Sanhueza; em 1990, na véspera de entregar o poder, o regime de Pinochet dá prevalência à liberdade de educação escolar sobre o direito dos estudantes a obtê-la, permitindo sem maiores restrições a entrada de entes privados na administração de colégios com recursos públicos, sem garantias de qualidade. A educação vira um bom negócio.

Aposentadorias

Norma Ojeda é professora aposentada, tem 76 anos e vive em San Bernardo, no sul da capital chilena, com seu marido doente. Trabalhou ininterruptamente durante 38 anos na educação municipal, e seu último salário, em 2005, foi de 680.000 pesos (3.450 reais). Quando recebeu sua primeira pensão, lhe saltaram as lágrimas: era menos de um terço da sua remuneração da ativa. “Mas depois não chorei mais: a dignidade acima de tudo”, conclui. Sua realidade não é de forma alguma uma exceção: desde a conversão do sistema de pensões a um de capitalização individual – em 1981, obra também de José Piñera – cada pessoa faz um esforço individual de economia e, ao terminar sua vida profissional, recebe uma pensão em função do dinheiro que conseguiu acumular e da perícia das administradoras privadas. O resultado da reforma foi uma queda sucessiva no valor das pensões, muito longe dos níveis prometidos há 40 anos. Apesar das reformas introduzidas já na democracia, os pensionistas continuam sofrendo os rigores de uma reviravolta radical no sistema que está na origem do descontentamento de amplas camadas da sociedade.

Saúde

Nas concentrações de protesto iniciadas em outubro, tornaram-se habituais os cartazes que aludem à má qualidade da saúde pública. “Por você, mamãe… que foi chamada para a cirurgia quando a velávamos” lia-se na cartolina erguida por uma moça. Um paradoxo para o país que fundou o primeiro sistema nacional de saúde da América Latina, na década de 1950. Entretanto, um quarto de século depois de sua entrada em vigor, o regime militar o desmontou, desconcentrando-o em 27 serviços independentes: foi “um golpe sobre a linha de comando institucional”, nas palavras de Álvaro Erazo, o primeiro ministro da Saúde de Michelle Bachelet. Em 1981 viria a estocada final, e dupla: com a criação das instituições de saúde preventiva, que aliviavam o Estado de certas funções e que funcionam sob preceitos de livre concorrência, e que, na prática, representam a privatização da seguridade social; e com a transferência dos centros de atendimento primário para os municípios, desmembrando toda a malha sanitária nacional. “Foi um golpe duro a uma experiência que tinha tido grandes resultados sanitários e que era admirada por sanitaristas de todo o mundo”, critica Erazo.

A diretora-executiva da Fundação GIST, Piga Fernández, devolve a discussão à atualidade. “A desigualdade [na saúde] é tremenda: se você tiver os recursos, saúde privada e acesso a seguros complementares, não tem problema em conseguir os medicamentos dos quais necessita. Mas o filme é diferente para as pessoas que estamos no sistema público de saúde: se você tiver dinheiro vive; se não, morre.”

Economia,Blog-do-Mesquita,Bancos,Finanças 02

E viva a farofa do capitalismo anárquico.

marxadam-smithblog-do-mesquitaEu só não concordo 100% é com essa estória de direita X esquerda

Esse paradigma, posto e martelado diuturnamente pela “grande mídia” da dicotomia conservadores X liberais, esquerda X direita, já está ultrapassado de há muito.

Os libertários não são liberais. Os libertários defendem os direitos individuais, e a liberdade individual (liberty); e defedem os princípios pregados pelos pais fundadores dos EUA, que criaram a Constituição americana que é toda baseada nas liberdades individuais. Já os globalistas, a maioria sem o saber, defendem essas politicas globalistas que irão culminar com um governo global totalitário. Esse é o objetivo final: uma ditadura global tecnocrata.

O Trumpete, por exemplo, não é direita. E ele nem é republicano também, apesar de ter sido eleito pelo partido.

Ele é libertário (libertarian). A maior parte do eleitorado dele se intitula libertário e patriotas. Libertário é diferente de liberal.

Na verdade, toda a cúpula do partido republicano boicotou a candidatura do Trumpete. Ele se candidadou na marra mesmo contra tudo e contra todos.

Por exemplo; o partido republicano gastou zero dólares no financiamento de ‘advertisement’ na camapanha do Trumpete; e foi a primeira vez que isso aconteceu.

Deem uma olhada no ‘feed’ no Twitter do Paul Watson Eu sempre entro no ‘feed” dele no Twitter. Ele trabalha pro site infowars (ponto com) e tem um site também, o prisonplanet (ponto com).

O cara tem mais de 600mil seguidores no Twitter. Tem mais de 20 milhões de visualizações no Twitter dele por mês. O cara tem mais audiência do que a CNN, ABC, NBC e CBS somados. Hahahaha.

E tem mais; há um punhado de garotos que também estão ganhando popularidade, mas que têm trabalhado nas redes sociais desde os anos 2000. São os “youtubers”.

Agora eles explodiram e tomaram toda a audiência, porque o público está faminto pela verdade, e essa mídia alternativa é que mostra as notícias que realmente importam.

Por isso que eu sempre escrevo que a mídia tradicional morreu, e a audiência está toda na mídia alternativa: zerohedge, infowars, prisonplanet, breitbart, milo yiannopoulos, etc, etc, etc.

Há o Milo que é o editor do breitbart. E ele é homosexual, e ai não dá nem pros esquerdopatas o chamarem de homofóbico.

Há uma entrevista recente dele para a BBC que ele destruiu o entrevistador.

O Paul Joseph Watson foi convidado também para uma entrevista na BBC, porque ele teve uma influência enorme nas eleições, mas ele rejeitou.
Disse que não iria e mandou a BBC &%*$&/#.

Economia,Blog do Mesquita

A crise do milagre chileno

O modelo adotado pela economia mais próspera da América do Sul tem um paradoxo: cada vez que a pobreza diminuía, a desigualdade aumentava. E uma população mais culta e com capacidade de expressão não aguentou.    

Chile Santiago Proteste gegen Regierung (picture-alliance/AP Photo/R. Abd)

Nos últimos 30 anos, o Chile construiu uma imagem internacional que o credenciou como um dos países mais estáveis da América Latina. Sua economia é, entre outros aspectos, reconhecida por uma destacada indústria vitivinícola, agrícola, pesqueira e mineira – o país é o maior exportador de cobre do mundo. As realizações em termos de redução significativa da pobreza e de desenvolvimento econômico foram vistas como um modelo exemplar para a região.

Nos últimos meses, o presidente do Chile, Sebastián Piñera, adquiriu maior relevância internacional e midiática depois de participar de várias cúpulas internacionais com autoridades como Emmanuel Macron, Angela Merkel e Theresa May, e até foi premiado por sua “liderança na luta contra a mudança climática”. Nesse cenário, a Conferência sobre Mudança Climática (COP25) e o Fórum de Cooperação Ásia-Pacífico (APEC), que foram cancelados, teriam sido duas grandes oportunidades para continuar propagando de alguma forma a imagem positiva do país em nível global.

O parodoxo

O retorno à democracia em 1990 permitiu que o país fizesse transformações que o levaram a reduzir consideravelmente as taxas de pobreza (de 40% para 8,6%, de acordo com a Pesquisa Casen 2017). De fato, na região, o Chile é o país com maior mobilidade social da OCDE e um dos países com maior PIB da América Latina. Isso é inquestionável entre especialistas.

“O Chile provou ser um país com estabilidade macroeconômica significativa. Os investidores estrangeiros podem vir a investir com regras claras do jogo, quando esse investimento é respeitado como tal. Basicamente, é uma economia que, embora pequena, tem uma boa porta de entrada para as economias latino-americanas”, diz Juan Pablo Swett, economista e presidente da Associação de Empresários Latino-Americanos (ASELA).

Carlos Ruiz, sociólogo e acadêmico da Universidade do Chile, explica que houve um ciclo muito forte de exportação de matérias-primas, o que produziu um grande crescimento, gerando um milagre chileno que começou no final da década de 1980. Isso, diz o especialista, levou a uma redução significativa da pobreza. “O paradoxo é que cada vez que a pobreza era reduzida, a desigualdade aumentava”, comenta.

Jatos d'água contra manifestantes: protestos tomaram por semanas as ruas Jatos d’água contra manifestantes: protestos tomaram por semanas as ruas

O outro lado da moeda é que, de acordo com os indicadores do Banco Mundial, o Chile é um dos dez países mais desiguais do planeta. A grande convulsão social pela qual o país está passando expôs as deficiências do sistema político-econômico chileno, afetando subitamente a imagem do país no exterior.

“A suspensão da COP25 e da APEC se deve às circunstâncias difíceis que nosso país viveu e que todos os chilenos viveram nas últimas semanas”, segundo as palavras do presidente chileno, implicando que o país não tem as condições necessárias para proteger a segurança dos visitantes.

“Nos últimos dias, o país passou por uma grande mudança interna que teve repercussões na imagem internacional. Embora o padrão econômico dos chilenos tenha aumentado, há um sentimento de profunda desigualdade, que é a única questão da qual o Chile não se encarregou: a distribuição econômica. Mais do que questionar o modelo econômico chileno: é o abuso, a concentração da riqueza. É uma revolução social, não uma revolução econômica”, comenta o economista Swett.

Carlos Ruiz, por sua vez, assegura que “não houve um verdadeiro milagre”, mas sim um milagre monopolizado por poucos. “Ele deixou um pouco de renda fluir para alguns lados, mas o grosso ficou com muito poucos, e diante disso explodiu uma sociedade, que agora é muito mais culta, com capacidade de expressão e organização”, explica.

Confiança abalada

Empresários e investidores lamentam a situação social do Chile. A solução para eles é uma: resolver problemas sociais para recuperar a confiança.

Darwin Alvarado, economista e diretor executivo da Ubicuo Comunicaciones, diz: “Quem decidir investir no país neste momento vai pensar sobre isso, porque primeiro é preciso cumprir as condições para a mudança”.

Para ele, são necessárias estabilidade e regras claras, porque é disso que os investidores estão sempre à procura: “Isso permite que eles tomem decisões de investimento para ter retornos esperados. Entre agora e março deve ficar claro qual o caminho que o Chile vai seguir, o que lhe permitirá voltar a gerar confiança nos investidores e ver o Chile como um bom país para investir.”

Swett, por sua vez, acredita que “o Chile continuará a crescer, as oportunidades seguirão e as regras macroeconômicas serão bastante sólidas”. Ele afirma que “o que o mundo quer ver do Chile para restabelecer a confiança é um maior Estado de direito, sem violações dos direitos humanos.” Estas são, segundo o economista, as imagens que o mundo está à espera para recuperar a confiança no Chile.

Palhaço,Tristeza,Blog do Mesquita

Brasil – Só dói quando eu rio

Miguel Paiva,Blog do Mesquita,Constituição

Art.7º,IV – salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim;

Economia,Capitalismo,Blog do Mesquita 01

A poderosa ‘távola redonda’ de megaempresas que quer redefinir a regras do capitalismo americano

Direito de imagem GETTY IMAGES
Jamie Dimon, chefe da Business Roundatble e CEO do banco JP Morgan Chase, diz que mudança levará ao sucesso empresarial no longo prazo

Ela é a nata do capitalismo americano e agora quer mudar a maneira de fazer negócios naquele país.

A organização Business Roundtable reúne os presidentes executivos de 181 das maiores corporações dos Estados Unidos – da Amazon à Xerox, passando pelas maiores empresas de varejo (Walmart), tecnologia (Apple), energia (Exxon Mobil), telecomunicações (AT&T), automóveis (Ford), finanças (JP Morgan Chase), entre muitas outras áreas.

Juntas, as companhias têm mais de 15 milhões de funcionários e faturamento anual superior a US$ 7 trilhões.

Na segunda-feira passada (19/8), os líderes dessas empresas divulgaram comunicado em que anunciam uma mudança radical de visão sobre o propósito de suas corporações, rompendo com a política mantida há mais de 20 anos, que privilegiava a maximização dos lucros dos acionistas acima de tudo.

A partir de agora, diz o comunicado, o propósito dessas empresas será ampliado com o objetivo de favorecer também seus funcionários, clientes e as comunidades em que atuam.

Mas a que se deve essa mudança?

Além do lucro

Desde 1978, a Business Roundtable publica declarações sobre os princípios de governança corporativa e, em todos os documentos divulgados desde 1997, respalda o conceito da “primazia do acionista”.

Essa visão se tornou popular na década de 1970, alimentada em grande parte pela doutrina elaborada pelo renomado e controverso economista Milton Friedman, da Universidade de Chicago, que publicou um artigo no jornal americano The New York Times afirmando que “a responsabilidade social de uma empresa é gerar lucro”.

Milton FriedmanDireito de imagem GETTY IMAGES
O economista Milton Friedman dizia que ‘a responsabilidade social da empresa está em gerar lucro’

“Em um sistema de livre comércio e propriedade privada, um executivo corporativo é um funcionário dos donos da empresa. Ele tem uma responsabilidade direta com seus empregadores.”

“Essa responsabilidade significa fazer negócios de acordo com seus desejos, que geralmente se resumem a fazer o máximo de dinheiro possível, respeitando as normas básicas da sociedade, tanto aquelas incorporadas nas leis quanto as entremeadas nos costumes éticos”, escreveu Friedman.

A proposta do economista surgiu em um momento em que as empresas americanas ofereciam planos de aposentadoria generosos aos funcionários e faziam doações importantes para as comunidades, mas os gestores eram criticados por trabalhar mais em benefício próprio do que a favor dos acionistas.

Foi então que houve a guinada que levou à era da “primazia dos acionistas”, na qual a política corporativa se concentra em maximizar os lucros às custas da redução dos benefícios dos empregados, assim como de quaisquer outras “despesas improdutivas”.

Para garantir que essas mudanças ocorressem, as empresas também criaram programas de incentivo, em que o bônus de seus principais executivos depende dos dividendos produzidos pela empresa no curto prazo.

Mas, se os lucros das grandes empresas aumentaram, também reforçaram uma imagem pública negativa.

Protesto contra grandes empresasDireito de imagem GETTY IMAGES
O repúdio às grandes corporações atingiu níveis muito altos após a crise financeira de 2008

“A desconfiança em relação às empresas americanas cresceu a tal ponto que a própria ideia de capitalismo está sendo debatida na cena política”,escreveu Andrew Ross Sorkin, colunista do New York Times, sobre a mudança proposta pela Business Roundtable. “O populismo está sendo acolhido nos dois extremos do espectro político, quer se trate do protecionismo comercial de Donald Trump ou da supremacia da rede de proteção social do senador (e pré-candidato à Presidência dos EUA) Bernie Sanders.”

Ao mesmo tempo, Sorkin destaca suas dúvidas em relação à proposta do Business Roundtable, afirmando que mudar a “supremacia do acionista” é por enquanto apenas uma possibilidade, e não uma certeza.

Aposta no longo prazo

No novo posicionamento sobre o objetivo de suas corporações, a Business Roundtable se compromete com cinco pontos específicos:

– Entregar serviços ou bens de valor aos clientes.

– Investir nos funcionários e recompensá-los de maneira justa.

– Negociar de forma justa e ética com os fornecedores.

– Apoiar as comunidades em que as empresas estão inseridas.

– Gerar rentabilidade de longo prazo para os acionistas.

Jamie Dimon, chefe da Business Roundatble e CEO do banco JP Morgan Chase, destacou que essa guinada está vinculada a uma visão de sustentabilidade no longo prazo.

“O sonho americano está vivo, mas está se desgastando. Os grandes empregadores estão investindo em seus funcionários e em suas comunidades porque sabem que esse é o único caminho para serem bem-sucedidos no longo prazo”.

Mulher ao lado de morador de rua pedindo esmolaDireito de imagem GETTY IMAGES
Apesar de ser uma das grandes potências mundiais, os EUA têm um alto nível de desigualdade

“Esses princípios modernizados refletem o compromisso firme da comunidade empresarial de continuar a impulsionar uma economia que sirva a todos os americanos”, acrescentou por meio de um comunicado à imprensa.

Tricia Griffith, presidente-executiva da seguradora Progressive Corporation, disse que, embora os gestores trabalhem para gerar receita e oferecer lucro aos acionistas, as melhores empresas vão mais além.

“Elas colocam os clientes em primeiro lugar e investem em seus funcionários e comunidades. No fim das contas, essa é a via mais promissora de construir valor no longo prazo”, afirmou.

Promessas ou ações?

A Business Roundtable foi criada em 1972 pela fusão de três diferentes organizações que compartilhavam a crença de que o setor empresarial deveria desempenhar um papel ativo no desenvolvimento de políticas públicas.

Desde então, teve uma participação importante na aprovação e veto de uma série de propostas legislativas.

Em 1975, por exemplo, suas atividades de lobby foram consideradas fundamentais para derrubar uma proposta que buscava reformar as regras antimonopólio para permitir aos procuradores-gerais dos 50 Estados americanos processar empresas em nome dos cidadãos.

Campanha Nafta na década de 1990Direito de imagem GETTY IMAGES
Nos anos 1990, a Business Roundtable fez lobby para a aprovação do acordo de livre comércio com México e Canadá

Em 1982, o grupo se opôs às metas de déficit fiscal propostas pelo governo do então presidente Ronald Reagan. Nos anos 1990, se mobilizou para fazer com que que o governo de George H.W. Bush promovesse o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) com o México e o Canadá.

Nos últimos tempos, a Business Roundtable tem defendido uma reforma migratória que abra as portas e facilite a entrada e permanência não só de mão de obra qualificada, mas também de trabalhadores agrícolas nos Estados Unidos.

A mudança de visão do grupo em relação ao propósito de suas corporações, anunciada nesta semana, foi recebida com certo ceticismo.

“Não acreditamos que seja por benevolência que os CEOs (presidentes-executivos) da Business Roundtable finalmente reconheceram que precisam defender mais do que os interesses dos acionistas”, escreveu Kenneth Roth, diretor-executivo da ONG Human Rights Watch, no Twitter. “Ignorar questões como a cumplicidade a abusos de direitos humanos é um convite a um desastre em termos de relações públicas.”

Outros críticos destacaram que o anúncio é mais uma declaração de intenções do que um plano de ação, por isso é razoável que haja dúvidas em relação a sua real aplicação.

“Não se enganem, não foi a democracia dos acionistas que deu origem a este novo momento de iluminação. A indignação pública levou a isso.”

“Os acionistas – com algumas exceções – não se deixaram convencer até que não tiveram escolha, a não ser entender que essas forças poderiam ter um impacto sobre seus investimentos”, escreveu Ross Sorkin no jornal The New York Times.

Assim, essa mudança na visão dos propósitos corporativos das grandes empresas dos EUA é, por enquanto, uma semente, cujo cultivo não parece garantido.

Mineral brasileiro segue enriquecendo países

Wikipédia Commons

Ouro que te quero ouro: mineral brasileiro segue enriquecendo países “desenvolvidos”

Como em nosso passado colonial, reservas auríferas brasileiras são exploradas por empresas estrangeiras e riqueza escoa facilmente via contrabando

A história do roubo do ouro, no aeroporto internacional de São Paulo é realmente fascinante e nos provocou procurar saber o que é que está acontecendo com nosso ouro. Afinal, aquilo não foi um assalto qualquer, pois levaram mais de cem quilos de ouro em barra, o que significa ouro 24 quilates, ou seja, 999,99 de pureza, ou 99,99% de AU, cotado em US$ 2,5 milhões.

É coisa de gente grande e muito bem informada.

Primeira reação: uma chuva de perguntas. Pra onde vai esse ouro? Quem comprou? Quem vendeu? Quem extraiu? Quem fundiu?

Pra onde ia é fácil saber, pois tinha endereço de entrega: parte iria para o Canadá e a outra parte para a Suíça, dois entre os grandes compradores de ouro brasileiro. No Canadá, ao que parece, o destino era o Banco Central; já na Suíça, paraíso dos lavadores de dinheiro, é bom ter um pé atrás. Sabe-se que o guardião do ouro era a Transportadora Brink, mas ela não abre os donos. E os donos abrirão a origem?

O ouro no Brasil tem duas fontes: a cata manual — garimpo — e a extração industrial — subterrânea ou a céu aberto — praticadas por grandes empresas.

O Brasil poderia ter a maior reserva de ouro do mundo. Imaginem o que foi o chamado Ciclo do Ouro na história do Brasil colonial. Toda economia girava em torno da extração e fundição. Esta já é uma outra história.

O ouro levado para Portugal criou no Brasil uma plutocracia de governança local. Lá, enriqueceu os membros da corte e financiou a Revolução industrial na Inglaterra. Era a Inglaterra quem controlava os bancos e os fluxos financeiros.

Na época, a exploração era do ouro de aluvião, catado facilmente nos leitos dos rios. Milhões de quilos. Há quem diga que foram tiradas mais de mil toneladas por ano e tivemos quase 150 anos de exploração contínua. Terá sido somente isso? E o que levaram em diamantes e outras pedras preciosas? Esta também é outra história.

Vila Rica, em Minas Gerais, e Potosí, na Bolívia, são fruto dessa exploração de ouro e prata, respectivamente. Cidades que, no século 18, tinham uma população maior do que qualquer capital da Europa. Nos Estados Unidos, o ciclo do ouro corroborou a expansão territorial e o extermínio da população nativa. Lá, como aqui, a mesma índole genocida.

A Corte se fixou no Rio de Janeiro para poder melhor controlar o fluxo do ouro, grande parte contrabandeado. O povo brasileiro, índios e negros que produziam essa riqueza, só sofreram castigos. Terminado o ciclo, começou a era do café e nada mudou para o povo.

O Brasil do neoliberalismo vai em sentido contrário. Despreza suas riquezas naturais.

Um novo ciclo do ouro a partir dos anos 1980

Na década de 1980, o Brasil viveu algo parecido com um novo ciclo do ouro com a descoberta das jazidas de Serra Pelada, distrito de Curionópolis, no Sudeste do Pará, que em 1984 produziu 100 quilos de ouro por ano, tendo chegado a mais de 45 toneladas retiradas, a maioria, logicamente, contrabandeada. A corrida ao ouro atraiu 100 mil pessoas. Em 1986, o fotógrafo Sebastião Salgado esteve lá. Suas fotos revelam cenas dantescas, de um inferno de violência, prostituição e degradação humana.

Em meados de 2014, Serra Pelada provocou uma nova corrida ao ouro, desta vez em local abandonado pela mineradora canadense Colossus. Outra empresa canadense, Annapurna, realizou parcerias para voltar a prospectar na região.

A saga do ouro e outros minerais preciosos tem sido contínua.

Os maiores produtores de ouro são: a China, em primeiro lugar, com 345 toneladas, 14% do total mundial; Austrália, com 9,3%; África do Sul e Estados unidos, com 9% cada um. Brasil aparece em 12º lugar, com 58 toneladas. A Venezuela tenta obter a certificação internacional, que pode posicioná-la como dona da segunda maior reserva do mundo.

Os maiores compradores do ouro brasileiro são: Reino Unido, Emirados Árabes, Suíça, Estados Unidos e Canadá.

Na última década, em função da debilidade do dólar e do crescente abandono da moeda estadunidense como padrão das transações internacionais, muitos Bancos Centrais estão comprando ouro para reforçar suas reservas para prevenir futuras crises. Uma medida inteligente.

Brasil despreza suas riquezas minerais

O Brasil do neoliberalismo vai em sentido contrário. Despreza suas riquezas naturais.

O nosso ouro, em lugar de financiar o desenvolvimento ou fazer reservas para lastrear nossa moeda e, assim, livrá-la da dependência do dólar, simplesmente abandona o minério nas mão de estrangeiros e especuladores.

Não há hoje no Brasil uma só empresa nacional dedicada à extração do ouro. Todas são estrangeiras. Nacional só o garimpo, assim mesmo ilegal.

O governo de ocupação já anunciou o desejo de entregar à exploração das estrangeiras os demais minerais raros e caros como urânio, nióbio titânio, vanádio, lítio, cromo, alumínio, cobre, manganês, molibdênio, gálio, índio, tungstênio, tântalo. Além disso há pelo menos uns 39 minerais raros descobertos no Brasil, dos quais 33 foram descritos por estrangeiros. As terras raras também compõem a lista de minerais raros e caros.

O Brasil contém 98% das reservas mundiais de nióbio, considerado o metal mais valioso do mundo. O ferro-nióbio brasileiro tem 66% de nióbio e 30% de ferro, alto grau que eleva a cobiça das mineradoras estrangeiras.

Onde está o nosso ouro

Roraima, no extremo Noroeste brasileiro, sem possuir uma única mina, exportou 194 quilos de ouro para a Índia por US$ 6,5 milhões, conforme notícia da BBC. A Índia é o quarto maior importador do ouro brasileiro e grande produtor de joias.

O estado é importante porque está na mídia em função do conflito criado com a demarcação das terras Yanomami. Como não há minas e nem mesmo garimpo e só uma empresa mineradora — Art Minas — registrada legalmente em Roraima, que diz que ainda não extraiu uma grama, todo esse ouro é proveniente de garimpo ilegal, invasão e poluição dos rios em área protegida.

O governo de ocupação diz com todas as letras que quer abrir essa e demais áreas protegidas para a mineração. Para lucro de quem, cara pálida?

Só mesmo neste país de malucos seria possível um Estado avalizar a exportação de ouro ilegal. E, convenhamos, essa é a quantidade revelada pelos intermediários. E as quantidades não reveladas? quantos quilos ou toneladas estarão roubando do Brasil diariamente?

Quanto de ouro sai com o ferro de Carajás? Há um comércio paralelo difícil de ser contabilizado.

O garimpo é ilegal, a fundição é ilegal (clandestina) e o sujeito que quer investir em ouro, compra de um corretor ou direto da fundição. A Bolsa de Mercadorias (BM&F) divulga cotação diária oficial e vc pode comprar por metade do preço ou até menos. Se depois for vendido pelo preço oficial, tem um lucro razoável de 100%.

Com a desconfiança crescente com relação ao dólar estadunidense, bancos centrais de todo o mundo viraram grandes compradores de ouro. Segundo a Parmetal, especializada em negociar ouro como ativo financeiro, no primeiro semestre de 2019 foram compradas 375 toneladas, podendo chegar até o fim do ano ao valor recorde de mais de 700 toneladas. Quando consultamos o site, a barra estava cotada em R$ 174,21 pra compra e R$ 178,22 pra venda.

Quem está levando nosso ouro?

Em 2018, a venda de mineral acarretou um superávit recorde de US$ 23,4 bilhões, puxado pela exportação de 389,8 milhões de toneladas de ferro, US$ 20,2, (80%) , seguido do ouro US$ 2 bilhões e nióbio US$ 2,8 bilhões.

Os maiores produtores, segundo o Relatório do Departamento Nacional de Produção Mineral, em 2017, foram:

Kinross Brasil Mineração S.A. MG    22,34
Anglogold Ashanti Córrego do Sítio Mineração S.A. MG    19,27
Salobo Metais S.A. PA    759
Beadell Brasil Ltda. GO    7,00
Mineração Serra Grande S.A. AP    6,24
Jacobina Mineração e Comércio Ltda. BA    5,54
Pilar de Goiás Desenvolvimento Mineral S.A. GO    4,06
Fazenda Brasileiro Desenvolvimento Mineral Ltda. PA    3,42
Mineração Turmalina Ltda BA    3,02
Vale S.A. MT    2,64(¹)

Participação percentual da empresa no valor total da comercialização da produção mineral da substância a partir de duas usinas produtoras. A produção bruta desse ano foi de 149 toneladas.

O jornal paracatu.Net registrou documentário da jornalista da TV estatal da França, Zinedine Boudaoud, intitulado “Ouro a qualquer preço”, sobre a atividade empresa mineradora do grupo canadense Kinross Gold Corporation em Paracatu, Minas Gerais . Tomamos a liberdade de copiar um trecho:

Esta mina de 110 km² parece um enorme monstro que devora a cada dia um pouco mais a cidade e seus moradores afetados por muitas doenças. Paracatu é uma cidade brasileira de 84 mil habitantes, localizada no estado de Minas Gerais. Ela é apelidada de “Cidade do Ouro”, mas deve, antes, ser chamada de “a cidade de arsênio”. O número de casos de câncer e outras doenças graves estão crescendo de forma anormal. As doenças listadas são graves: câncer de todos os tipos, condições neurológicas graves acompanhadas de paralisia, síndrome de Guillain-Barré, deficiência auditiva, acuidade visual reduzida, entre outros.

Essa é considerada a maior mina de ouro em céu aberto do mundo e, desde 1987, a população local está exporta à intoxicação maciça sem que as autoridades tomem providências.

Todas as mineradoras são estrangeiras 

A AngloGold Ashanti é uma empresa sul-africana que veio para o Brasil ainda no tempo em que o apartheid separava, oficialmente, a população africana e negra dos brancos colonizadores. Hoje, opera em mais de 10 países e produz milhões de onças de ouro, equivalentes a 10% da produção mundial. No Brasil, ela assumiu o lugar da inglesa Saint John del Rey Mining Co, que explorava a mina do Morro Velho, em São João del Rei, Minas Gerais.

Em 2004, houve a fusão entre a Anglo Gold e a Ashanti Goldfields, dando origem à Anglo Gold Ashanti, cuja mina Cuiabá, a mais de mil metros de profundidade, produziu o recorde de 7 milhões de onças. Em 2018, assumiu o controle da Mineração São Bento, em 2012 da Mineração Serra Grande (4 milhões de onças), em Goiás. Este ano (2019) o grupo está investindo US$ 120 milhões no Brasil.

  • A Salobo Metais era da inglesa Anglo American Brasil Ltda, produz cobre e ouro, foi comprada pela transnacional Vale, antiga estatal Vale do Rio Doce, maior mineradora do mundo, vendida escandalosamente, a preço de banana, no governo de Fernando Henrique Cardoso. A Salobo tem reservas de 784 milhões de toneladas de minério, com teor de cobre de 0,96 e 0,6 gramas de ouro por tonelada.

  • A australiana Beadell Resources descobriu o ouro no Amapá foi comprada pela Great Panther, que explora minas de prata no México e no Peru. Um bom negócio que em um ano lhe proporcionou aumento de 165% em sua receita com a produção de 107.448 onças de ouro só nos primeiros meses de 2018.

  • Yamana Gold – Jacobina Mineração e Comércio Ltda é empresa canadense que explora minas de ouro da Argentina, Brasil, Chile e México. Está há 15 anos no Brasil. A produção total da empresa, em 2018, foi de 1.041.350 onças equivalentes, incluindo 940.619 onças de ouro e 8,02 milhões de onças de prata. Em setembro desse mesmo ano, o Ministério Público da Bahia exigiu uma audiência pública pra avaliar o impacto ambiental na mina de Jacobina, que corre risco de desabamento igual ao ocorrido em Brumadinho, Minas Gerais.

Vale registrar que em outubro de 2016, um bando de 15 homens assaltaram a Mineradora Jacobina e levaram três sacos de ouro no valor, segundo a empresa, de US$ 2,6 milhões.

  • Pilar de Goiás Desenvolvimento Mineral S.A, instalada em 2015 em Pilar, Goiás, para extrair metais preciosos, controlada pela Brio Gold, hoje associada a Ledgold, ambas canadenses. Além da mina em Pilar, explora a Fazenda Brasileiro, na Bahia e RDM, em Minas Gerais. A expectativa da Brio Gold é que a produção de ouro chegue a 400 mil onças em 2019. Mas a campeã é a Jaguar Mining, segundo o site da empresa:

Reservas Provadas e Prováveis: 0,97 milhões de toneladas com teor de 3,99 g/t, contendo 125.000 onças de ouro.

Recursos Medidos e Indicados: 3,79 milhões de toneladas com teor de 4,37 g/t, contendo 532.000 onças de ouro.

Recursos Inferidos: 2,38 milhões de toneladas com teor de 5,69 g/t, contendo 433.000 onças de ouro.

  • Fazenda Brasileiro Desenvolvimento Mineral Ltda, em Barrocas, Bahia é uma empresa da Leagold que explora ouro e prata e comprou essa mina da Brio Gold, que antes comprara da Yamana. Essa mina subterrânea processa mais de mil toneladas por ano.

Em 1º de março de 2019, uma explosão na mina feriu cinco trabalhadores, dos quais dois morreram no hospital. O Sindicato dos Trabalhadores nas Minas fez uma greve contra a MAP, empresa terceirizada para realizar a extração do minério.

Vale anotar neste primeiro decênio do século 21 a Bahia se destaca como uma nova grande província mineral, atraindo mineradoras do mundo inteiro. Ouro e tálio, de grande valor, níquel, bauxita e ferro. É o maior produtor de urânio, cromo e outros minerais raros.

  • A Mina de Ouro Turmalina, na região ferrífera a 130 Km de Belo Horizonte onde já foi grande produtora de ouro em séculos passados, e até 1983 foi responsável por 40% da produção nacional de ouro. Agora é propriedade da Jaguar Mining Inc, com sede em Toronto, Canadá. Além desta, a Jaguar explora nas minas de Pilar, Roça Grande, Paciência e Pedra Grande.

  • Fazenda Holdings BV e Brazil Holdings Cooperatie U.A ambas com sede em Amsterdam, Holanda reúnem empresas não financeiras, dedicadas à mineração de ouro.

  • G44 Brasil SA é uma holding empresarial que faz gestão de empresas de Mineração e com criptomoedas. Fundada por Saleem Ahmed Zaheer, um paquistanês que se fez trading em Portugal, atuou na Nova Zelândia, Suíça, Paquistão, antes de chegar ao Brasil. Está na lista restrita do Bitcoin por gestão fraudulenta.  Explora ouro no distrito de Lourenço e Calçoena, no Amapá, com capacidade de processar 640 toneladas dia.

Controla a Mineração G44 Brasil na cidade de Campos Verdes, Goiás, com o maior beneficiamento de esmeraldas do país. Tem como parceiro o Banco Rodobens Brasil.

Colonialismo de novo tipo

Como se vê, o ouro continua servindo para enriquecer os países mais desenvolvidos através de uma relação, senão colonial, neocolonial, de dominação imperialista. Passa o tempo, muda o nome, a rapinagem é a mesma.

O Brasil sequer alcançou a soberania sobre as riquezas naturais, mesmo depois de mais de 500 anos do início da ocupação europeia.

Mostramos o que acontece com o ouro, por ser um metal emblemático. Paradigmático também, porque é o que está ocorrendo com todas as riquezas minerais brasileiras. Um regime de ocupação que não cessa ao longo da história.

Ser colonizado parece ter forte enraizamento cultural. Se assim for, a libertação tem que começar com uma revolução cultural, que liberte os intelectuais da servidão intelectual, e que as escolas assumam o papel de desenvolver o espírito crítico e criativo da cidadania, com conhecimento dos direitos assegurados pela Constituição.

Soberania sobre todo o território e as riquezas nele contida, a começar do povo, a principal riqueza de qualquer nação. Mas para manter o povo saudável, só com soberania e pleno emprego e domínio sobre os centros de decisão.

Mais um argumento para unir nosso povo em torno de uma Frente de Salvação Nacional, que comece com a recuperação da soberania.

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Facebook e sua moeda, a Libra, põem em xeque a soberania monetária

A criptomoeda da rede social dispara o alarme nos bancos centrais do mundo todo.

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Faz tempo que o Facebook perdeu a confiança do mundo. Faz tempo que quer ser um país. A empresa de Mark Zuckerberg tenta conectar dois vértices que se repelem como cargas magnéticas de sinais opostos. Mas o que a física nega é substituído pela ambição, que é tão grande quanto um oceano sem margem.

A rede social pretende se transformar em uma nação rica, superpovoada, com cerca de 2,4 bilhões de usuários (somando WhatsApp, Instagram e Facebook Messenger) habitando seu território digital. Uma geografia conectada 24 horas por dia, que transforme uma torrente de trilhões de dados em rios de dinheiro; uma nova superpotência nascida da tecnologia, não da geopolítica do ser humano.

Zuckerberg acordou há 18 meses com esse sonho. Desde então, na sede central da empresa em Menlo Park, Califórnia, uma equipe trabalha em segredo para recriar a identidade econômica e social de um país: sua moeda. O resultado é a libra. Uma criptomoeda que a rede social planeja lançar em 2020 com o apoio de 27 empresas, entre elas Visa, MasterCard e Uber, e que pode ser um cavalo de Troia geoestratégico e financeiro. Se (porque esta história deve ser escrita no condicional) os 2,4 bilhões de usuários da plataforma utilizassem essa ciberdivisa para comprar e enviar dinheiro (como se faz no PayPal e no WeChat), ela poderia se tornar a maior entidade financeira do planeta.

Se cada poupador ocidental destinasse um décimo de seus recursos à libra, ela valeria 2 trilhões de dólares (7,5 trilhões de reais). O alvorecer de um colosso − e seu potencial desestabilizador − no mercado de títulos. “Esta moeda tem muito impacto e é preciso agir com grande cautela”, alerta Emilio Ontiveros, presidente da empresa espanhola de consultoria Analistas Financieros Internacionales (AFI). “É como se um Estado novo, e poderoso, emitisse uma moeda que estivesse entre as dez mais importantes do mundo.” Uma moeda que, além disso, tem a capacidade de afetar a soberania monetária de países frágeis.

A criptomoeda do Facebook e seus parceiros oculta dentro dela um “tique-taque” que ultrapassa os limites da economia. Porque, até agora, a forma como o dinheiro e os pagamentos são estruturados era função exclusiva das instituições democráticas, não das grandes empresas de tecnologia. Agora, os reguladores se perguntam se as velhas ferramentas de política econômica servirão para controlar esses gigantes. Usurpadas as funções, acendem-se os alertas vermelhos.

“Todos os bancos centrais do mundo vão se opor à libra, e Mark Zuckerberg, que tem um patrimônio líquido de 73,6 bilhões de dólares [275 bilhões de reais], pode correr o risco de fazer isso. No entanto, tem grandes possibilidades de sair perdendo”, reflete Guillermo de la Dehesa, presidente honorário do Centre for Economic Policy Research (CEPR) de Londres. Por enquanto, aumenta a cautela recomendada por Ontiveros.

O Bundesbank alerta para o “retorno ao Velho Oeste dentro do sistema monetário” e o Banco da Inglaterra encara o assunto “com a mente aberta, mas não com a porta aberta”. Uma desconfiança que atinge os próprios donos da plataforma. “Temo que a libra faça à indústria financeira o que o Facebook fez à privacidade e ao debate público”, alerta Jonas Kron, vice-presidente sênior da firma de investimentos Trillium Asset Management, que tem 53.000 ações da rede social.

Mais uma vez a tecnologia no século XXI é parte do problema, não da solução; mais uma vez o Facebook precisará dar explicações ao Congresso dos EUA. Na próxima quarta-feira, a pedido da democrata Maxine Waters, presidenta do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara dos Representantes, o diretor-executivo da libra, David Marcus, fará provavelmente um relato que pode ser assim:

— Por que criaram a libra? − talvez pergunte Waters.

— Queremos empoderar 1,7 bilhão de adultos no mundo que não têm acesso a serviços bancários — responderá a empresa.

— Por que devemos confiar no Facebook? Recordo-lhe o escândalo da Cambridge Analytica.

— Reforçamos os controles e a criptomoeda é respaldada por meios de pagamento (PayPal, Visa, MasterCard) com décadas de experiência em segurança digital.

Esse poderia ser o início do interrogatório. Mas a aceitação da moeda será uma batalha. E o Facebook sabia disso. Eis as pistas: em janeiro, a empresa contratou o ex-vice-primeiro-ministro do Reino Unido Nick Clegg como responsável por Assuntos Globais e Comunicação e, segundo o Financial Times, em setembro Edward Bowles, do banco inglês Standard Chartered, vai se unir a ela para cuidar dos problemas regulatórios na Europa.

Zuckerberg previa a tempestade. Mas principalmente a fragilidade que a tecnologia provocou em muitas instituições financeiras. “O que as grandes plataformas, como Facebook, Google e Amazon, pretendem é tirar negócios dos bancos, assim como o Alibaba na China. A libra é o primeiro ataque”, afirma Kenneth Rogoff, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional.

Volatilidade
Isso porque a moeda de Zuckerberg − o “Mark”, como Steve Forbes, editor da Forbes Media, propõe ironicamente que seja chamada − está bem cunhada. Não é um bitcoin. É o que se chama de stablecoin (“moeda estável”). É respaldada por uma cesta de moedas “tradicionais” e por títulos. Com essa arquitetura, evita-se a volatilidade das criptomoedas. E, ao ser de código aberto, qualquer um (pensemos na Amazon) pode criar aplicativos baseados nela.

Tudo com um só anseio: controlar os dois trilhões de dólares movimentados pelas transferências no planeta. O Facebook quer enviar dinheiro ao custo de um WhatsApp. “Provavelmente começará cobrando pequenas taxas das empresas pelas transações”, prevê Joaquín Robles, analista da corretora XTB. Inicialmente, os consumidores poderiam economizar 25 bilhões de dólares (93,5 bilhões de reais) em comissões. Em troca, isso sim, de entregar mais dados e confiar em uma empresa que já mostrou muitas vezes não ser digna de confiança. Nem Fausto concordaria em queimar assim no inferno.

Se os 2,4 bilhões de usuários da plataforma utilizassem essa ciberdivisa para comprar e enviar dinheiro, ela poderia se tornar a maior entidade financeira do planeta.

“A libra precisa convencer de que não invadirá os bancos centrais do mundo, de que não está aperfeiçoando ainda mais sua captura em massa de dados, de que não é um novo canal para a lavagem de dinheiro”, afirma Kevin Werbach, professor da escola de negócios Wharton e referência em tecnologia digital. É claro que se a plataforma quiser recuperar a confiança (essência dos serviços bancários, do comércio e das relações humanas) da sociedade lançando a libra, terá de justificar seus contrassensos.

“As promessas do Facebook de dar as boas-vindas à responsabilidade e à regulação soam vazias. Basta pensar na decisão de estabelecer a sede da criptomoeda [a Libera Association] na Suíça: a pior jurisdição secreta do mundo. Em termos de transparência, é o mesmo que abrir um café vegano dentro de um matadouro”, compara Alex Cobham, diretor-executivo da Tax Justice Network, uma organização ativista especializada em assuntos fiscais.

A desconfiança é a verdadeira moeda que o Facebook controla. Entre seus 27 parceiros não há nenhum banco. Por quê? A plataforma se aproximou, conta o The New York Times, de grandes empresas de investimento, incluindo Goldman Sachs, JP Morgan Chase e Fidelity, mas elas se negaram a participar, em parte pelos problemas regulatórios e talvez porque a aventura anda muito concorrida. “A JP Morgan está preparando sua própria moeda e 13 dos maiores bancos do mundo lançarão suas stablecoins no próximo ano. Confiaremos mais no Facebook do que nos bancos?”, pergunta Giles Alston, analista da firma de consultoria britânica Oxford Analytica.

A viagem de Zuckerberg atravessará densos bancos de nevoeiro. Evasão fiscal, lavagem de dinheiro, privacidade, preocupações regulatórias e a possibilidade de que − aponta a Standard & Poor’s − a libra seja vista como um pseudodepósito bancário. Inclusive o tempo lhe volta as costas. Até o tempo lhe vira as costas. O consórcio global Swift, líder mundial de serviços seguros de mensagens financeiras, “demorou mais de 40 anos para construir uma rede de 11.000 bancos que adotassem sua solução”, lembra Meng Liu, especialista da Forrester Research.

Mas o Facebook não tem a virtude da paciência. Seu antigo lema, “Move fast and break things” (“mova-se rápido e quebre coisas”), revela sua relação com a sociedade e as horas. Castigado por seus erros, muito poucos defenderão “o ator mais terrivelmente irresponsável do panorama tecnológico”, afirma Enrique Dans, professor da IE Business School. Então, o que restará depois de tanta porcelana quebrada? Os reguladores provavelmente frearão a entrada da libra nos créditos hipotecários, nos empréstimos e na compra e venda de ações.

“No entanto, a ameaça para o negócio das transferências já está aí”, aponta Ontiveros. Um perigo que testa suas fronteiras. “A moeda funciona bem como meio de pagamento, mas não é um risco para o dólar, porque por trás dele estão o peso do contribuinte americano e o maior poderio militar do mundo”, diz Miguel Otero Iglesias, pesquisador principal do Real Instituto Elcano. Uma batalha que nem Zuckerberg ousaria travar.

A real face do trabalho infantil no Brasil

País tem 2 milhões de menores exercendo atividades muitas vezes degradantes e que lhes negam direitos garantidos por lei. Realidade está essencialmente ligada à pobreza e à herança escravocrata, dizem especialistas.    

Crianças jogam bola no Morro da Piedade, no Espírito SantoTrabalho infantil gera evasão escolar e afasta as crianças do lazer e do descanso, direitos garantidos por lei

Mais de 2 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos trabalham em todo o país. Mas chega a 20 milhões o número daqueles que exercem, em casa, afazeres domésticos ou cuidados de pessoas, o que representa mais da metade das crianças brasileiras.

Muitos dos menores ocupados trabalham em atividades perigosas que podem levar a acidentes graves e até à morte. Além disso, o trabalho infantil provoca evasão escolar e afasta as crianças do lazer e do descanso, direitos garantidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que completa 29 anos.

A realidade do trabalho infantil no Brasil revela, assim, uma experiência sensivelmente antagônica à descrita pelo presidente Jair Bolsonaro em declarações recentes. Em transmissão ao vivo pelo Facebook, ele afirmou que não foi “prejudicado em nada” por ter trabalhado “com nove, dez anos na fazenda”. “O trabalho não atrapalha a vida de ninguém”, acrescentou.

Outros políticos se manifestaram sobre suas próprias experiências, como a deputada federal Bia Kicis (PSL-DF). No Twitter, ela escreveu: “Aos 12 anos de idade, eu fazia brigadeiros para vender na minha escola. E o mais interessante era que eu não precisava, mas eu sentia uma enorme satisfação de pagar as minhas aulas de tênis com esse dinheiro. Eu me sentia criativa e produtiva.”

M.N.J., hoje com 11 anos, não pode dizer o mesmo sobre as tarefas domésticas forçadas que executou a mando da mãe e do padrasto, que estão presos desde 2016 após terem sido condenados por tortura, lesão corporal e redução à condição análoga à escravidão.

A menina, então com 9 anos, era obrigada a limpar a casa, cozinhar e cuidar dos irmãos mais novos, sem direito à comida ou cama para dormir. Frequentemente tinha os pés e mãos amarrados para que dormisse em pé. Em certa ocasião, a mãe cortou sua língua e depois a costurou com linha e agulha, forçando a criança a limpar o próprio sangue. A menina ainda foi proibida de frequentar a escola para que ninguém visse as marcas da tortura.

“É um caso que exemplifica a barbárie que pode se configurar em casos de trabalho infantil e que não podem ser romantizados e tratados como algo positivo”, alerta o advogado Ariel Castro Alves, conselheiro do Conselho Estadual de Direitos da Pessoa Humana de São Paulo (Condepe) e ex-conselheiro do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda).

“Alguns enaltecem o trabalho infantil dizendo que trabalharam com os pais no comércio, na empresa ou no escritório da família, mas foi certamente em situações que não as privaram dos estudos, de cursos, do lazer e de brincadeiras”, diz Alves. “É muito diferente das crianças que são exploradas nas ruas, nas carvoarias, na colheita de cana-de-açúcar, em marcenarias, entre outras situações, sendo sujeitas a acidentes que geram até mortes.”

O que é trabalho infantil

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) descreve trabalho infantil como “causa e efeito da pobreza e da ausência de oportunidades para desenvolver capacidades”, impedindo as crianças de frequentar a escola regularmente ou forçando-as a abandoná-la de forma prematura. É o tipo de trabalho “que priva as crianças de sua infância, seu potencial e sua dignidade, e que é prejudicial ao seu desenvolvimento físico e mental”.

Duas convenções da OIT ratificadas pelo Brasil descrevem as chamadas “piores formas de trabalho infantil”, que incluem a escravidão, o tráfico de pessoas, o trabalho forçado, a exploração sexual, o tráfico de drogas e o envolvimento da criança em conflitos armados. No Brasil, o trabalho infantil doméstico se enquadra nessa categoria.

A Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança e do Adolescente, ratificada por todas as nações do mundo, com exceção dos Estados Unidos, estabelece que cada país deve reconhecer “o direito da criança de ser protegida contra a exploração econômica e contra a realização de qualquer trabalho que possa ser perigoso ou interferir em sua educação” (artigo 32).

No Brasil, a Constituição de 1988 passou a garantir a proteção integral da criança e do adolescente, colocando-os “a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão” (artigo 227).

Segundo a Carta Magna, cabe à família, ao Estado e à sociedade assegurar os direitos de crianças e adolescentes. O texto estabelece que qualquer tipo de trabalho é proibido para menores de 16 anos de idade, com exceção da condição de aprendiz, e garante que ninguém com menos de 18 anos poderá exercer “trabalho noturno, perigoso ou insalubre”.

Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), os menores têm direito à educação, saúde, integridade física e psicológica, lazer, esportes e cultura, ficando protegidos de exploração, crueldade e opressão.

As condições de atuação profissional entre os 14 e 17 anos estão definidas na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Para trabalhar como aprendizes, adolescentes precisam receber formação técnico-profissional adequada com garantia de acesso ao ensino fundamental e horário especial para a execução das atividades de forma a assegurar a frequência à escola. Segundo o ECA, aprendizes têm seus direitos trabalhistas e previdenciários garantidos.

Situação atual no Brasil

As informações mais abrangentes sobre trabalho infantil no Brasil são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Segundo dados de 2015, 2,7 milhões de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos trabalham em todo o país, sendo 59% deles meninos. Isso pode indicar uma subnotificação do trabalho infantil entre meninas. Elas representam a imensa maioria nos casos de trabalho infantil doméstico (94%, segundo a Pnad 2015).

A Pnad 2016 mostra que o trabalho infantil doméstico atinge cinco em cada dez crianças ou adolescentes dos cinco aos 17 anos. Entre os mais velhos, de 14 a 17 anos, a principal atividade é o comércio e serviços de reparação, como serviços mecânicos.

A maior parte dos casos de trabalho infantil está concentrada no Sudeste (854 mil) e Nordeste (852 mil). Em todo o mundo, são 152 milhões de crianças e adolescentes nessa situação, de acordo com um relatório global da OIT.

“A cara do trabalho infantil no Brasil reflete as desigualdades regionais e varia conforme a região, as atividades econômicas de cada estado, a faixa etária e recortes raciais e de gênero. Norte e Nordeste concentram a situação de trabalho infantil no meio rural, também muito presente no Rio Grande do Sul”, afirma Felipe Tau, gestor do projeto Rede Peteca – Chega de Trabalho Infantil, da Cidade Escola Aprendiz.

Tau explica que, entre as crianças, predomina o trabalho no campo, normalmente na agricultura familiar; entre os adolescentes, predomina o trabalho em meio urbano, especialmente no setor de comércio e serviços. “Vale destacar também que atividades de difícil identificação, como o trabalho doméstico, o trabalho no tráfico e a exploração sexual, são muito comuns e preocupantes.”

Em 2017, o IBGE apresentou dados atualizados com base em uma nova metodologia da Pnad que excluiu o número de crianças e adolescentes trabalhando em atividades permitidas pela legislação para o sustento próprio. Segundo especialistas, o novo número apresentado, de 1,8 milhão de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, mascara a realidade.

Incluindo a categoria “produção para o próprio consumo”, 2,3 milhões de crianças e adolescentes estavam no mercado de trabalho, segundo a Pnad 2016, o que representa uma taxa de trabalho infantil de 5,96%. No entanto, não é possível dizer que houve uma redução em relação a 2015 (2,7 milhões), porque o rompimento da série histórica com a alteração de metodologia impossibilita a comparação com anos anteriores.  A OIT ainda usa dados da Pnad 2015 como referência.

Raiz na pobreza

O trabalho infantil está essencialmente ligado à pobreza, explica Felipe Tau. “Um traço comum é que ele acomete os mais pobres e cujos pais têm menos escolaridade, perpetuando nas famílias brasileiras um ciclo de pobreza. Embora possa representar renda significativa para famílias durante curto período, acaba trazendo como consequência, além da violação dos direitos das crianças e adolescentes, um comprometimento muito sério em seu desenvolvimento: emocional, físico e intelectual”, afirma.

Além de ser um fator de risco para acidentes, o trabalho infantil está fortemente associado à evasão escolar, “levando a criança e o adolescente a se colocar de maneira precária no mercado quando adulto: na informalidade, no subemprego e em postos de baixa remuneração”, acrescenta Tau.

A procuradora do Ministério Público do Trabalho de São Paulo (MPT-SP) Elisiane dos Santos explica que a herança escravocrata da história brasileira se perpetua “tanto em relação à naturalização do trabalho infantil quanto em relação aos dados da realidade”.

“A maior parte do trabalho nas ruas é feito por meninos negros e, no trabalho doméstico, as meninas negras são as mais afetadas. Falamos de 70% desse trabalho infantil. Isso significa dizer que o não acesso da população negra à educação e ao trabalho digno se perpetua até os dias de hoje e atinge fortemente as crianças e adolescentes”, observa.

“Isso traz estigmas e efeitos perversos, fazendo com que a sociedade veja como algo normal e até defenda o trabalho infantil (das crianças pobres e negras), quando deveria estar lutando por educação de qualidade para todos, acesso à universidade e igualdade de oportunidades no trabalho”, complementa.

O menino Ítalo, de 10 anos, que trabalhava como engraxate no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, teve sua trajetória interrompida. Ele passou ao menos seis vezes pelos conselhos tutelares de São Paulo por situações de abandono e trabalho infantil, conta o advogado Ariel Castro Alves.

No “trabalho”, ele conheceu outra criança, um menino de 11 anos, com quem furtou um veículo num condomínio no bairro do Morumbi. Durante a perseguição policial, ele foi morto com um tiro na cabeça, em 2016.

“Já conheci muitas adolescentes que começaram trabalhando nas ruas vendendo balas ou pedindo em faróis e que foram atraídas depois para a exploração sexual infantil. E muitos meninos que começaram trabalhando nas ruas e acabaram aliciados para o tráfico de drogas ou para a prática de outros crimes”, pontua Alves.

“A maior autoridade do país desconhece ou despreza essa realidade. Ao defender o trabalho infantil, Bolsonaro também está defendendo a exploração de crianças e adolescentes no tráfico de drogas e a exploração sexual infantil, que são algumas das piores e mais perversas formas de trabalho infantil. Chegamos aos 29 anos do ECA com um processo de desmonte do sistema de proteção criado pela lei.”
DW

Ambiente,Política Ambiental,Meio Ambiente,Recursos Naturais,Exploração,Capitalismo

Quem são os inimigos dos ambientalistas?

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Este veio de crenças e sua diligente tradução em práticas de “negócios sustentáveis” se configurou nas primeiras duas décadas deste século, ainda em curso. O mote principal dos sustentabilistas é mainstreamming the ecology (colocar a ecologia no coração da economia capitalista).

Portanto não venham com esse papo de que somos marxistas e anticapitalistas ferrenhos. Há os que discordam do status-quo. São antes anti-establishment. E representam hoje grupos minoritários.

Vamos aprofundar isto. E vou precisar de dois posts para o mesmo assunto. Um texto muito grande ninguém lê e aqui é um embate público, não acadêmico.

Quando eu estava na faculdade um professor que estudara a formação da classe industrial paulista e a formação das novas fortunas originadas na commodity da época – o café – se espantava com os alunos da pós graduação que só tinham apetite para falar dos movimentos sociais, dos pobres e oprimidos. Inclusive eu que naquele momento desenvolvia meu mestrado estudando os integristas católicos envolvidos no Golpe de 64.

Vocês devem estudar os ricos, o poder econômico por eles constituído pois a opressão e a pobreza estão aí como resultado, dizia nosso professor de estudos agrários.

Essas reminiscências me vêm à mente quando vejo diariamente as cotações do dólar dar taquicardia e os colunistas políticos e econômicos se referirem ao Deus MERCADO. O mercado pensa assim, o mercado pensa assado.

Olho para o voo solo e torpedeado de Thomas Piketty, o economista francês – que se utilizando de base de dados sistemáticas e séries históricas, longitudinais, nos mostrou didaticamente como ao longo de séculos – e mesmo enfrentando grandes guerras, as fortunas se mantém nas mãos de algumas poucas famílias. Também explica como a ciranda financeira torna novas pessoas tidas como empreendedores exemplares, tipo Bill Gates e Slim o magnata mexicano muito, muito ricas.

Ao final do século XX vimos dois fenômenos intimamente ligados ocorrer: a expansão do capitalismo (territorial e culturalmente falando) e a concentração brutal da riqueza. Como substrato, massa de pobres e mesmo bolsões de miséria em países tidos como desenvolvidos da Europa e nos Estados Unidos.

Pena, diz Mia Couto filósofo e escritor moçambicano, que em vez de riqueza estamos produzindo ricos, riqueza esta que só é distribuída com escândalo. Basta ver os debates em torno da “renda minima”, não só no Brasil. Faz-se brutais mudanças tecnológicas que destroem milhões de empregos e mesmo as migalhas que serão distribuídas aos que “sobram” desta transição são alvo de controvérsia.

A pergunta que não quer calar é: de onde vêm as fortunas do Brasil?

Respondo que se você quer saber quem são os inimigos dos ambientalistas, siga o dinheiro. Para abrir o apetite para o próximo post, eu adianto:

A riqueza no Brasil tem base fundiária, rentista e imobiliária. Extração de madeira, mineração e comércio do solo urbano. O industrialismo sempre contou com proteção de mercado e as commodities com largos subsídios. O avanço sobre terras públicas, o desmatamento, as Serras Peladas, o avanço do boi e da soja. Sacaram?

Samyra Crespo é cientista social, ambientalista e pesquisadora sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins e coordenou durante 20 anos o estudo ” O que os Brasileiros pensam do Meio Ambiente”.