Fatos & Fotos – O olhar de fora da bolha Coluna atualizada durante o dia todo e durante todo dia.


Trump cita Brasil e diz que, ‘se tivéssemos agido assim’, EUA teriam 2,5 milhões de mortes a mais glo.bo/2A5qQmr


#Trump já pode ser incluído na lista de “marginais, terroristas,desocupados e maconheiros”? Além, claro, de estar a serviço do #comunismo internacional?


Escultura de Marc Perez


Embalando o almoço desta sexta-feira com Arcangelo Corelli – Sonate da Camera a tre, Op. 2 Rome, 1685


Léon Spilliaert; pinturas escuras,
mas animadoras I

O artista belga sofria de insônia e muitas vezes passeava pelas ruas sozinho. Suas pinturas encontraram beleza e luz da escuridão, escreve Cath Pound.
As obras misteriosas e enigmáticas de Léon Spilliaert habitam um mundo subterrâneo crepuscular entre a realidade e o sonho. Era um reino que ele conjurou após os passeios ao luar que tomou para acalmar sua inquietação induzida por insônia.

Na calada da noite, ele refletia sobre as questões filosóficas que o preocupavam: a criação do mundo, as relações entre os sexos e o destino final do homem. Seus pensamentos seriam transformados em retratos fantasmagóricos de sua cidade natal, Oostende, naturezas-mortas nas quais os objetos têm uma vida misteriosa e uma série de autorretratos extraordinários nos quais o artista belga se metia profundamente em sua própria alma.


Porque estamos vendo a história diante dos nossos olhos, através de todas as capas, depois de todos os mortos que não verão o novo normal. Aliás, não tem nada de normal, e provavelmente nem de novo.


Lucie Schreiner


A ignorância no Beasil é um vírus mutante em velocidade exponecial.O Governo,na velociade do Usain Bolt corre para entrar na segunda onda da Covid-19,quando ainda está atolado na primeira onda da epidemia.Um presidente negacionista e sem Ministro da Saúde. Genocídio.


Embalando esta manhã de sexta-feira com Choro das 3
Ave Maria no Morro


Em 2006, Hugo Chávez defendeu armar
1 milhão de venezuelanos


Henri Lebasque 1865/1937
Jeune femme au châle


Amanheci hoje muito Chico;
“Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa”
Pintura de #Oswaldo #Guayasamin

 


George Laurence Nelson – American 1887/1978


Design Gráfico


Goro acusa #PGRdoB de politizar #inquérito.
Hahaha. Ironia poética.


Da série:”Ao fim e ao cabo não irá sobrar nada.
Nem a ira nem o choro”.

#MeioAmbiente #Ecologia #Desmatamento #AquecimentoGlobal #EfeitoEstufa #CO² #Florestas #Poluição #MudançasClimáticas


Da série: Monalisas XXVI

Amazônia,Brasil,Blog do Mesquita

Brasil foi responsável por um terço da perda de florestas virgens no mundo em 2019, diz relatório

Perdas de floresta virgem contabilizadas por relatório podem ser, em muitos casos, a degradação, momento inicial de um processo de desmatamento.

De janeiro a dezembro de 2019, o Brasil perdeu cerca de 1.361.000 hectares (13.610 km²) de floresta tropical virgem — um terço do que foi perdido em todo o planeta, segundo um relatório do Global Forest Watch, organização que mantém uma plataforma online de monitoramento global de florestas.

As florestas primárias, ou virgens, são aquelas que se encontram em seu estado original — não afetadas, ou afetadas o mínimo possível, pela ação humana. Por serem mais antigas, elas têm mais diversidade de espécies, armazenam mais carbono e são consideradas essenciais no combate à mudança climática.

Em 2019, segundo o novo relatório da Global Forest Watch, o mundo perdeu 3,8 milhões de hectares de florestas primárias tropicais — uma área quase do tamanho da Suíça, ou o equivalente a um campo de futebol a cada 6 segundos.

No Brasil, 95% da perda ocorreu na Amazônia, de acordo com a organização, que utiliza dados do monitoramento por satélite feito pela Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, em parceria com o Google, a Nasa e o Serviço Geológico dos Estados Unidos.

Analistas do Global Forest Watch apontaram, como principais razões da perda, para o desmatamento por ação humana (criação de pastos, especulação de terra) e incêndios.

Em segundo e terceiro lugar, a República Democrática do Congo e a Indonésia tiveram pequenas reduções na área de floresta virgem que perderam no ano passado.

E a Bolívia chegou ao quarto lugar da lista, por causa dos incêndios que devastaram áreas de alta biodiversidade no país em agosto de 2019.

Incêndios foram ‘sintoma’ de desmatamento
As florestas tropicais virgens costumam ter espécies muito antigas de árvores, que armazenam mais carbono.

Segundo especialistas, elas podem levar centenas de anos para se recuperar. Isso se forem deixadas intocadas após processos de desmatamento ou de degradação — resultantes de eventos climáticos, como secas, ou da ação humana, como queimadas e corte de árvores — que podem deixar a floresta gradualmente mais vulnerável e incapaz de funcionar.

No entanto, ao contrário do que ocorreu na Bolívia, os incêndios no Brasil em 2019 não tiveram uma grande contribuição na perda de floresta virgem, segundo a analista da Global Forest Watch Mikaela Weisse.

“A maior parte dos incêndios que vimos no Brasil no ano passado não aconteceu nas florestas virgens, mas, sim, em áreas que já estavam desmatadas e que fazendeiros estavam preparando para o pasto e para a agricultura”.

‘A grande mentira verde’: como a destruição da Amazônia vai além do desmatamento
Segundo o órgão, as queimadas que chamaram a atenção do mundo a partir de agosto de 2019, “parecem ter sido um sintoma da perda de florestas primárias, mais do que uma causa direta”.

“Na Amazônia, só 20% dos incêndios que observamos ocorreu em florestas ainda virgens, 30% ocorreu em áreas onde já havia acontecido perda de mata e os outros 50% aconteceram em áreas que já não tinham florestas ou onde a floresta era secundária (em processo de recuperação).”

As perdas brasileiras sinalizam uma expansão das fronteiras do desmatamento, que estão de acordo com o que cientistas do Brasil também estão observando, especialmente próximo a áreas de conservação e territórios indígenas.

“Desde 2013 vemos um aumento do ritmo da abertura da mata virgem. E nos últimos anos, especialmente, isso se acelerou”, disse o especialista em sensoriamento remoto Cláudio Almeida, coordenador do programa de monitoramento da Amazônia do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

“Mas também houve uma mudança. Lá na década de 80 o sujeito passava o correntão, derrubava as árvores e pronto. Nos últimos 10 anos ele vai degradando a área. Começa a tirar madeira em um ano, queima um pouco em outro. Só no final faz um corte raso e, por fim, queima tudo.”

Na segunda metade de 2019, segundo Almeida, um cruzamento de dados feito por analistas do Inpe mostrou que entre os dez municípios com o maior número de queimadas, nove tinham também o maior número de alertas de desmatamento contabilizados no sistema Deter.

“Isso mostra que existe uma relação forte entre um e outro. O incêndio era o ponto final do processo de desmatamento. No período seco, a pessoa derruba a área, ela fica secando e em agosto, setembro, aquela biomassa é queimada.”

Diferenças na medição

O monitoramento de perda de floresta primária da Global Forest Watch detecta perturbações em trechos de mata maiores que 0,09 hectares (0,0009 km²), com vegetação a partir de 5 metros de altura, com causas que vão desde o corte seletivo de madeira até o fogo rasteiro.

Não há diferenciação entre os processos de desmatamento, que é como se considera o corte raso de um trecho de floresta, e de degradação.

Por isso, os números divulgados pelo órgão costumam ser diferentes dos dados obtidos pelo sistema Prodes, do Inpe, no Brasil.

Ambas as medições, no entanto, podem ser consideradas importantes, e até mesmo complementares, segundo Cláudio Almeida, do Inpe.

“O Prodes é um sistema bastante preciso, mas só mede o final do processo, o desmatamento total de um trecho de floresta primária. Ao longo desse processo ocorrem vários estágios de degradação. Enquanto existe algum tipo cobertura florestal, o Prodes não pega”, explica.

Isso significa que, em muitos casos, a perda de floresta virgem apontada pelo Global Forest Watch é ainda o início de um processo de desmatamento que o sistema brasileiro só vai contabilizar mais adiante.

O Prodes detecta, por imagens de satélite, áreas maiores que 6,25 hectares (0,0625 km²) em que houve desmatamento por corte raso. Os dados são contabilizados entre julho de um ano e agosto do ano seguinte. Já a Global Forest Watch contabiliza a perda de florestas entre janeiro e dezembro de um determinado ano.

Uma destas diferenças entre os dois sistemas pode ser observada nos dados de 2016 e 2017. A Global Forest Watch registra uma perda recorde de florestas virgens no Brasil, causada principalmente por incêndios em larga escala.

“Nesse caso, no entanto, eles eram de fogo rasteiro, que queima por debaixo das árvores e, muitas vezes, é menos visível para os satélites. E estavam mais relacionados à seca provocada pelo El Niño de 2015, uma das piores já registradas. E causaram degradação nas florestas”, disse à BBC News Brasil o botânico Jos Barlow, professor da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, e pesquisador da Rede Amazônia Sustentável (RAS).

O Prodes também mostra aumento do desmatamento nestes anos, mas não um pico tão grande. Em parte, por causa da diferença no período analisado e também porque nem todos aqueles trechos de floresta virgem que sofreram incêndios terminaram por ser completamente desmatados.

Desmatamento continua em tendência de aumento

Os dados do Prodes mostram que, entre agosto de 2018 e julho de 2019, o Brasil perdeu 1,01 milhão de hectares (10,1 mil km²) de Amazônia, o maior volume dos últimos 11 anos.

Ainda não há números consolidados para o período seguinte, mas o Sistema de Detecção do Desmatamento na Amazônia Legal em Tempo Real (Deter), que emite os alertas de desmatamento e orienta as ações de fiscalização, mostra que entre agosto de 2019 e março de 2020, 507 mil hectares (5 mil km²) foram desmatados — quase o dobro do mesmo período no ano anterior.

Ambientalistas atribuem o aumento às políticas do presidente Jair Bolsonaro, que afirmou em algumas ocasiões que atividades como agricultura e mineração, inclusive em áreas protegidas e territórios indígenas, poderiam tirar a região da pobreza.

Em resposta a críticas dentro e fora do país após os incêndios em 2019, Bolsonaro autorizou o envio das Forças Armadas para combater os incêndios florestais na região, e criou o Conselho da Amazônia, coordenado pelo vice-presidente, general Hamilton Mourão.

Direito de imagemAFP

Dados preliminares do Inpe mostram que desmatamento continuou crescendo no primeiro semestre de 2020.
No entanto, um decreto recente do governo foi criticado por colocar as rédeas das ações de fiscalização e combate ao desmatamento nas mãos das Forças Armadas — tirando-as do Ibama, que passou a ser subordinado aos militares.

“Mandar o Exército parece contraintuitivo se você está deixando de financiar as agências ambientais que faziam bem o trabalho há tantos anos. Mandar o Exército parece uma medida de curto prazo pra ter impacto na mídia internacional, mas não parece algo que vá resolver o problema da degradação e do desmatamento na Amazônia”, diz Jos Barlow, da Universidade de Lancaster.

O governo anunciou que, até o dia 21/05, “26 pessoas foram presas por delitos ambientais e outros crimes durante as ações do Exército, e que foram aplicadas multas no valor de R$ 8,7 milhões”. Além disso, foram apreendidos motosserras, tratores, caminhões e embarcações.

O Exército, no entanto, descartou a destruição do equipamento apreendido, que críticos dizem ser uma sinalização de que o governo não estaria realmente disposto a combater as atividades ilegais.

Segundo o engenheiro agrônomo André Guimarães, diretor-executivo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), os dados indicam que o desmatamento deste ano vai superar o do ano anterior, mesmo com as ações do governo.

“No ano passado o governo começou a agir em outubro, no fim do ciclo de desmatamento. Esse ano, parece que começou a agir mais cedo, vamos ver se terá resultado”, disse à BBC News Brasil.

“No ano passado, por conta da comoção com os incêndios, viu-se alguma ação de comando e controle que ajudou a baixar a taxa de desmatamento em outubro e novembro. Mas você precisa criar as condições para incentivar quem quer produzir sustentavelmente. Colocar o Exército na floresta ajuda, mas não é suficiente.”

Negacionismo que nada; o negócio é afirmar o pasto da boiada

O negacionismo climático refere-se à descrença no aquecimento global ou da relação deste com as atividades humanas.

Alguém falou em boiada? Foto: Marcio Isensee e Sá.

Portanto, seus defensores ignoram a quase totalidade de evidências científicas produzidas em todo o planeta que afirmam o nexo de causalidade entre as ações antrópicas e o câmbio climático, a ponto, inclusive, de estarmos na Era do Antropoceno.

Atualmente, um dos mais atuantes políticos negacionistas climáticos é o presidente dos EUA. Por aqui, o presidente da República e seu ministro do Meio Ambiente têm atuado fortemente à revelia das evidências científicas produzidas na área. É recorrente, desde o período eleitoral, o discurso de que a política ambiental é um empecilho ao desenvolvimento brasileiro, especificamente, ao agronegócio.

Sua rejeição à pauta ambiental e climática, inclusive, causou embaraço internacional quando decidiu por não sediar a COP-25 – a Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. A COP-25, presidida pelo Chile, mas realizada na Espanha, em razão das manifestações sociais em Santiago de 2019, colocou o Brasil ao lado dos EUA, tradicional adversário dos esforços mundiais diante da emergência climática. A questão climática discute dois grandes blocos de ações antrópicas: queima de combustíveis fósseis e desmatamento.
Sinistro Ricardo Salles.
O algoz da natureza no Brasil. O “passador de Boiada”

Os EUA preocupados com o lado econômico e sua inserção na geopolítica mundial do petróleo e o Brasil, agora mais do que nunca, voltado para o desmatamento. O ponto de convergência entre esses dois líderes parece, portanto, menos o negacionismo e mais a mera defesa de setores econômicos específicos.

A título de contextualização da realidade brasileira, levantamos 10 eventos nos 18 meses que transcorreram da escolha do atual Ministro do Meio Ambiente até este maio de 2020 – momento em meio à pandemia da COVID-19, doença que, até 26 de maio, contabilizava 391.222 casos confirmados e 24.512 óbitos no Brasil:

Nomeação de Ricardo Salles – dezembro de 2018: sem trajetória na área ambiental, foi uma opção política, definida no bojo das negociações com o agronegócio para manter a existência institucional do Ministério do Meio Ambiental, pasta que o recém-eleito Presidente da República anunciara que seria extinta, tamanho seu desprezo pela questão ambiental;
Reforma administrativa – janeiro de 2019: a política ambiental foi desfigurada; foram retiradas pautas fundamentais como o combate ao desmatamento e às mudanças climáticas. Além disso, a Agência Nacional de Águas foi transferida para o Ministério do Desenvolvimento Regional, e o Serviço Florestal Brasileiro foi movido para o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Obstáculos à fiscalização

Em 24 de maio de 2019 o IBAMA, pela primeira vez, anunciou antecipadamente a realização de operação contra o desmatamento ilegal na região da Floresta Nacional do Jamanxim, expondo a segurança da operação e dos agentes envolvidos; vale ressaltar que a Floresta Nacional do Jamanxim foi a terceira unidade de conservação em área desmatada no ano de 2019, com um total de 10.099hectares desmatados;

Decreto n° 9760, de 11 de abril de 2019 (Presidência da República): cria a conciliação nos processos administrativos federais de apuração de infrações por condutas e atividades lesivas ao meio ambiente; na prática, milhares de multas emitidas desde outubro de 2019 (contra desmatamento e garimpo ilegal, por exemplo) estão sem surtir efeitos, pois aguardam audiência de conciliação; o número exato não é conhecido devido à falta de atualização – reconhecida pelo IBAMA – dos dados referentes às multas.

Exploração e produção de petróleo em Abrolhos – março de 2019: o Presidente do Ibama – fruto de indicação política e não técnica – contrariou parecer dos servidores técnicos do órgão ambiental e autorizou a inclusão de blocos de petróleo localizados próximos a Abrolhos na 16ª rodada de licitações da Agência Nacional de Petróleo; a mobilização interna e atuação de diversas instituições surtiram efeito e contribuíram para que não houvessem ofertas na licitação e, por enquanto, Abrolhos está seguro da obtusa visão de mundo do atual governo e do apetite das transnacionais do petróleo a medida beneficia diretamente a JS Manipulação de Pescados, empresa de Jorge Seif, pai do Secretário de Aquicultura e Pesca.

Blog do Mesquita,Agrotóxicos,Alimentos,Meio AmbienteLiberação de agrotóxicos em 2019: o ano registrou um recorde de agrotóxicos autorizados para comercialização no Brasil, com 503 registros, entre os quais 26 novos pesticidas, abrindo ainda mais o mercado nacional para as empresas internacionais do setor.

Relatório Anual do Desmatamento no Brasil – lançado em 26 de maio de 2020: o relatório é um produto do MapBiomas plataforma de dados mantida por universidades, ONGs e empresas de tecnologia. Os dados de 2019 revelam que foram desmatados 1.218.708 hectares ou 12.187 km² de vegetação nativa, dos quais 60% ou 770.000hectares estão na Amazônia brasileira.Em relação às unidades de conservação, também na Amazônia houve a maior concentração de unidades atingidas (12%) e de área desmatada (13%)

Censura no IBAMA – fevereiro e maio de 2020: por meio da Portaria 560/2020 e da Nota Técnica 1/2020 foi instituída uma Lei da Mordaça aos servidores do órgão, definindo condutas passíveis de sanção, com destaque para manifestações contra políticos, projetos do Executivo e decisões do Ibama, inclusive em suas redes sociais pessoais.

Destacamos que nossa lista (construída com enorme esforço de síntese, visto a variedade e multiplicidade de ofensivas contra a proteção ambiental nesse período) limitou-se aos atos materializados (e considerados principais para nossa argumentação) no âmbito do Executivo federal e não incluiu os ataques aos direitos indígenas e de comunidades tradicionais em razão da objetividade buscada nessa análise para tratar da pauta ambiental-climática.

Dos eventos listados podemos compreender que a pauta nacionalista é uma falácia, uma vez que não se sustenta diante da defesa dos interesses de um agronegócio exportador e socioambientalmente predatório e da exploração de petróleo e outros minerais (do litoral ao interior da Amazônia), que também produzem seus princípios benefícios econômicos no mercado internacional e deixam um legado de exploração de trabalhadores e de devastação ambiental.

O Brasil do atual governo, assim, segue acima de todas as evidências científicas sobre os efeitos danosos causados por agrotóxicos à saúde e ao meio ambiente, os impactos do desmatamento sobre os equilíbrios ecológico e climático, os riscos das mudanças climáticas sobre a população em geral, os danos reais e potenciais da atividade petrolífera…

O anticientificismo do governo Bolsonaro procura, assim, garantir o descrédito da política ambiental, mantendo-a no lugar de empecilho ou obstáculo ao ‘seu’ Brasil, e promover sua obtusa (mas intencional e interessada) visão de mundo.

Visão, diga-se nada particular ou nova, na qual o Brasil transfere seu patrimônio natural para grandes grupos transnacionais, em benefício da pequena elite nacional que sustenta seu governo, socializa a precarização das condições de trabalho e de vida da população e promove a destruição das condições ambientais que sustentam a vida da população brasileira.

O ataque ao conhecimento, pesquisadores e instituições não é negacionismo, mas uma estratégia organizada pautada em discursos populistas, uso e aparelhamento dos órgãos públicos, disseminação de notícias falsas, desinformação, ameaças e violência, voltada para desqualificar as evidências científicas e coagir pesquisadores/as e, assim, elaborar e implementar políticas públicas sem qualquer embasamento científico. A visão de mundo do atual governo, portanto, está bem definida, é afirmativa ao setor econômico e reativa ao conhecimento científico e as saberes tradicionais.

Contudo, a resistência tem crescido em mobilização de diversos sujeitos e instituições em defesa da ciência e o fortalecimento de bases de dados e veículos como ((o))eco e tantos outros esforços multi-setoriais-institucionais, como os indicados na lista acima. Essas diversas plataformas críticas e de resistência são fundamentais para a democracia, a informação científica e o engajamento cívico. O momento atual pode contribuir para a disseminação de informações e experiências, o fortalecimento de ações e iniciativas em defesa da ciência e da sociobiodiversidade brasileira. Onde a ciência cria raízes, a boiada não consegue pastar.

Meio Ambiente; Amazônia rumo à extinção

Total da área desmatada na Amazônia em 2020 já é maior que cidade de São Paulo

Desmatamento acumulado na Amazônia apenas nos primeiros 4 meses do ano já é superior à cidade de São Paulo. Foto: Bernardo Câmara

Em abril, o desmatamento na Amazônia teve um aumento de 171% em relação ao mesmo período de 2019. Os dados são do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD), do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), que registrou 529 km² de área desmatada no bioma no mês de abril, contra 195 km² no mesmo mês do ano passado. O acumulado dos primeiros quatro meses de 2020, de acordo com o SAD, já é de 1.703 km², uma área maior que a cidade de São Paulo (1.521 km²) e um número 133% maior que o mesmo período em 2019, quando o sistema registrou o desmatamento de 460 km².

Segundo as informações do SAD, divulgadas nesta segunda-feira (18), o estado que liderou o desmatamento em abril foi o Pará, com 171 km², o equivalente a 32% do total desmatado. Em seguida aparecem Mato Grosso, com 135 km² (26%); Rondônia, com 98 km² (19%); Amazonas, com 96 km² (18%); Roraima, com 20 km² (4%); e o Acre, com 6 km² (1%). Tocantins e Amapá tiveram 2 km² e 1 km² desmatados, respectivamente, e juntos somaram 0,5% do total desmatado na Amazônia no mês.

O Pará foi o estado com o maior crescimento do desmatamento para o mês de abril quando comparado com o mesmo mês em 2019, quando registrou 32 km², um aumento de 434% para 2020. Os dois municípios com os maiores índices de desmatamento também são paraenses, Altamira e São Félix do Xingu, com 72 km² e 44 km² desmatados, respectivamente. Juntos, apenas estes dois municípios respondem por 67,8% do desmatamento em todo o estado e 21,9% do total desmatado na Amazônia.

As cidades de Porto Velho e Candeias do Jamari, em Rondônia, também aparecem entre os municípios que mais desmataram segundo o SAD, com 31 km² e 14 km², respectivamente. Ambos os municípios integram o território da Floresta Nacional do Jacundá, unidade de conservação onde foi realizada a primeira ação da Operação Verde Brasil 2, de acordo com informações divulgadas pelo vice-presidente General Hamilton Mourão. Apesar de Mourão ter comentado em coletiva cedida à imprensa na última semana de que a operação havia sido um sucesso, ainda não foram divulgados dados oficiais sobre os resultados da operação coordenada pelas Forças Armadas.

O relatório produzido pelo Imazon indica ainda que 60% do desmatamento registrado ocorreu em áreas privadas ou sob diversos estágios de posse, 22% em unidades de conservação, 15% em assentamentos e 3% em Terras Indígenas.

Fonte: Relatório Imazon
Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD)

O mês de abril foi marcado pela expectativa da votação da Medida Provisória 910, que foi pauta na Câmara dos Deputados apenas em maio e não obteve consenso entre os parlamentares para prosseguir com a votação. A MP, que perde a validade nesta terça (19), ficou conhecida como a MP da Grilagem, pois especialistas apontaram que o texto incentivava a invasão de terras ao anistiar as invasões ocorridas até 2018. O tema da regularização fundiária, entretanto, volta ao Congresso como o Projeto de Lei nº 2633/2020 e pode ser votado já nesta quarta-feira (20), caso haja pedido de tramitação em regime de urgência .

A MP 910 tinha o apoio de representantes do governo, como do vice-presidente Mourão, que também coordena o Conselho da Amazônia, e o próprio Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Ambos defendem que a regularização fundiária e o zoneamento econômico-ecológico na região amazônico são passos fundamentais para combater o desmatamento no longo prazo e que a MP seria um instrumento para isso.

De acordo com a pesquisadora do Imazon, Brenda Brito, o ponto crucial não é a regularização fundiária e sim o ordenamento territorial na região. “Existem áreas públicas não destinadas que estão sendo ocupadas, muitas delas desmatadas, e você precisa ordenar isso territorialmente. Precisa definir se aquela é uma área que pertence à comunidade, à povos indígenas, à agricultura familiar ou à conservação. E com as áreas que sobrarem decidir se será feita a privatização ou não daquele território. Esse deveria ser o raciocínio do ponto de vista da legislação”.

“O que a gente ouve nessas coletivas é esse argumento de que você precisa regularizar e titular quem está na área, para poder saber quem é e punir. Isso não faz o menor sentido do ponto de vista da legislação ambiental. Não existe nenhum ponto na legislação que diga que você só pode punir quem é dono de uma área. Você pune quem pratica o crime ambiental”.

A pesquisadora, especialista em gestão fundiária, acredita que a mensagem passada pelo próprio governo ao encaminhar uma proposta como a MP 910 é a de impunidade às infrações ambientais. “Na prática a mensagem é: continue invadindo e desmatando que que lá na frente vocês serão beneficiados. Esta é uma história que a gente está vendo ocorrer na Amazônia, vimos ela acontecer há três anos quando a lei foi modificada e aumentou o prazo de quem poderia receber o título [até 2011] e agora estão querendo fazer isso de novo. Infelizmente o recado é o contrário do que o governo deveria fazer”, opina.

Sessão na Câmara sobre a MP 910 não chegou em consenso sobre a votação da medida, que deve voltar com novo texto em PL.
Foto: Najara Araujo/Câmara dos Deputados

Além disso, Brenda ressalta que mesmo sem a legislação de fato, somente o discurso adotado pelo governo de Bolsonaro já é um dos grandes motores para o aumento do desmatamento na Amazônia. “Honestamente, o que adianta você fazer uma mega operação, se você está estimulando o desmatamento, impedindo a fiscalização do órgão ambiental, retirando os fiscais que estão trabalhando, estimulando o garimpo ilegal dizendo que vai legalizar e impedindo a destruição de máquinas? É uma contradição você colocar o Exército para combater algo que está sendo também estimulado pelas próprias declarações de quem representa os órgãos. É uma conta que não vai fechar” analisa a pesquisadora.

Em abril deste ano, o até então Diretor de Proteção Ambiental do IBAMA, Olivaldi Azevedo, foi exonerado por Salles e substituído pelo Policial Militar de São Paulo, coronel Olímpio Ferreira Magalhães. A exoneração de Olivaldi ocorreu logo após uma mega operação do IBAMA contra o garimpo ilegal em Terras Indígenas no Pará, noticiada pela Rede Globo no Fantástico. Além de Olivaldi, dois coordenadores de fiscalização do órgão envolvidos na ação foram exonerados logo em seguida.

“Você não precisa reinventar a roda, as ações já existem e foram feitas no passado, o que você precisa é aplicar com consistência e coordenação, porque se não tiver não adianta, você pode colocar todo o Exército lá que o desmatamento vai continuar”, resume Brenda Brito.

A pesquisadora lembra a queda histórica no desmatamento de 2004 a 2012, quando o total desmatado caiu de 27.772 km² para 4.571 km² (Fonte: PRODES/INPE) em 8 anos. No período, o governo federal combateu o desmatamento com medidas com o Sistema de monitoramento DETER, feito pelo INPE, que fornece alertas quase em tempo real de desmatamentos, aumentando a eficácia das operações de fiscalização do IBAMA; e o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm); ambos criados em 2004.

O biólogo especialista em políticas públicas ambientais, André Aroeira, reforça que um dos principais trunfos para um combate efetivo ao desmatamento é a coordenação conjunta entre ministérios e órgãos. “Tem vários instrumentos que estão sendo subutilizados no atual governo, como o PPCDAm que foi crucial durante aquela fase [2004 – 2012] em que o combate ao desmatamento foi bem-sucedido.

O Plano perdeu muita força já no governo Dilma, quando saiu da Casa Civil e foi pro Ministério do Meio Ambiente e hoje está desmobilizado, perdeu a coordenação que havia entre os vários ministérios e órgãos, todos trabalhando em conjunto no combate ao desmatamento. Quando você perde essa coordenação, o combate fica muito mais fraco. Não é só o Ministério mandando equipe para campo, tem que ter as imagens do INPE, tem que ter Polícia Federal fazendo investigações em cima das cadeias criminosas, tem que ter Ministério Público, a Polícia Rodoviária Federal. Todo mundo tem que estar junto para ser um esforço bem-sucedido”.

Operações do IBAMA são cruciais para combater o desmatamento de forma efetiva. Foto: Marcio Isensee

Aroeira ressalta também que fortalecer o IBAMA, órgão responsável pela fiscalização ambiental no país, é crucial. “Com o DETER, a partir de 2004, o IBAMA conseguiu pegar os desmatamento enquanto eles estavam ocorrendo e não só depois do estrago feito, quando só chegava para embargar e multar. O uso das imagens com inteligência para planejar as ações em campo foi muito eficiente. E nessa época o IBAMA era muito mais forte. O órgão começou a perder força no governo Dilma, perdeu escritórios regionais, perdeu gente, e no governo Bolsonaro isso se intensificou. O último concurso do IBAMA foi há 20 anos e nesse meio-tempo muitas pessoas se aposentaram ou saíram, e o quadro não foi reposto. Hoje nós temos um IBAMA com muito menos gente, muito menos dinheiro e muito mais preso nas capitais, com menos penetração nos territórios”, analisa o biólogo.

Outro mecanismo importante de acordo com Aroeira é a criação de áreas protegidas, tanto unidades de conservação quanto Territórios Indígenas. Desde sua campanha, Bolsonaro adotou um discurso contrário a essas áreas, chegou a dizer que “no que depender de mim, não tem mais demarcação de Terra Indígena” e lamentou não poder alterar os limites ou mesmo extinguir unidades de conservação diretamente com decretos presidenciais.

“Até 2008, o Brasil era o país que mais criava áreas protegidas no mundo, que são territórios que tendem a conter o desmatamento. Nós temos verdadeiras barreiras de áreas protegidas e o Arco Desmatamento está batendo agora nessas barreiras. É uma política muito efetiva, porque além de serem territórios legalmente protegidos, eles também não tem infraestrutura como uma estrada que facilite o acesso e a prática dos crimes ambientais”, explica Aroeira.

Desmatamento nas unidades de conservação e Terras Indígenas

De acordo com o Imazon, em abril de 2020, cerca de 116 km² foram desmatados dentro de unidades de conservação, 22% do total; e aproximadamente 16 km ² em Terras Indígenas, o equivalente a 3% do acumulado no mês.

Entre as unidades de conservação (UCs), o desmatamento é encabeçado pela Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu, no Pará, com 46 km² desmatados; seguida pela Floresta Extrativista Rio Preto-Jacundá, em Rondônia, com 37 km². A Reserva Extrativista Jaci-Paraná (RO) com 8 km², a Floresta Nacional do Jamanxim (PA) com 6 km² e a Reserva Extrativista Guariba-Roosevelt com 4 km² desmatados – todas categorias de UCs de uso sustentável, onde a exploração dos recursos naturais é permitida de forma manejada.

Na lista, chama atenção a presença de uma reserva biológica (Rebio), unidade de proteção integral e de caráter mais restritivo, entre as UCs com maior índice de desmatamento. Em oitavo lugar no ranking, a Rebio Nascente da Serra do Cachimbo, localizada no sul do Pará, teve 4 km² desmatados apenas no mês de abril, o equivalente a 400 campos de futebol.

Com relação às Terras Indígenas, de acordo com o SAD, as duas que mais registraram desmatamento foram a Terra Indígena Mundurucu, no Pará, ocupada pelos povos Apiaká, Isolados do Alto Tapajós e Munduruku, onde houve 4 km² desmatados; e a Terra Indígena Yanomami, na fronteira entre Roraima e Amazonas, onde vivem os povos Isolados da Serra da Estrutura, Isolados do Amajari, Isolados do Auaris/Fronteira, Isolados do Baixo Rio Cauaburis, Isolados Parawa u, Isolados Surucucu/Kataroa, Yanomami e Ye’kwana, registrou 2 km² de desmatamento.

Pespectivas para 2020

De acordo com o monitoramento feito pelo PRODES, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), desde 2015, a área desmatada anualmente na Amazônia se mantém acima dos 6 mil km². Ano passado, o total desmatado somou 9.762 km², um crescimento de 30% em relação a 2018.

“Tem várias análises que indicam que, no rumo que estamos indo, podemos ter uma taxa de desmatamento superior a do ano passado, que já foi alta em relação aos anos anteriores. E infelizmente eu não vejo nenhum comprometimento que indique que iremos mudar essa trajetória. Não existe um plano real de combate ao desmatamento. Ano passado os estados se articularam no combate ao desmatamento, mas infelizmente esse ano estamos numa situação muito complicada na Amazônia com a pandemia do coronavírus e colapso dos sistemas de saúde estaduais. Como a gente pode esperar que os governos estaduais possam lidar com todas essas crises ao mesmo tempo sem o apoio consistente do governo federal?”, analisa Brenda Brito, do Imazon.Desmatamento,Amazônia,Ambiente,Blog do Mesquita 03

Aroeira também não acredita que o ritmo do desmatamento vá desacelerar tão cedo. “É complexo avaliar, mas a tendência de crescimento, na minha opinião, é irreversível. Nós tivemos quase 10.000 km² desmatados ano passado, e esse ano os alertas do DETER já estão indicando um aumento de 90% de agosto até agora, e nós estamos entrando no período mais crítico agora e a resposta do governo é bem fraca, porque essa GLO [Garantia da Lei e Ordem na Amazônia Legal] ela não passa muita segurança de que é para valer. Ela é muito menos eficiente do que um IBAMA forte, por exemplo”, diz o biólogo. “Acho difícil conseguirmos reverter essa tendência de crescimento tanto nesse ano quanto no próximo, porque esse combate ao desmatamento passa por políticas estruturantes e uma mensagem clara do governo, e essas coisas você não consegue no curto prazo”.

Em 2019, cerca de 170 mil brasileiros entraram para a linha da pobreza extrema.

O fenômeno já havia se iniciado antes, em 2015, mas tem se acelerado nos últimos anos.

O grupo que vive em pobreza extrema no Brasil é constituído de pessoas que ganham menos de 1,9 dólar por dia.

Mais de 170 mil novos integrantes entraram no grupo, em 2019, totalizando 13,8 milhões de pessoas, o equivalente a 6,7% da população do país, informa o DW.

O primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro foi pior para quem mais precisa de assistência: as pessoas em situação de vulnerabilidade social. Com a chegada da pandemia da Covid-19 no Brasil, as condições de vida desse grupo foram drasticamente afetadas, ainda que muitos estejam recebendo o auxílio emergencial do governo federal no valor de R$ 600.

Desde a chamada crise de 2015, o Brasil veio se recuperando de cima para baixo: os ricos ampliaram a sua renda e diminuíram as suas “perdas”, enquanto os mais pobres se viram mais empobrecidos.

Já a classe média teve, em 2019, uma avanço médio de renda, de acordo com o PNAD, que não avalia os ganhos financeiros e não capta a evolução da renda do 1% mais rico da população – o que, provavelmente, revelaria uma desigualdade ainda mais brutal na sociedade brasileira.

O sociólogo Rogério Barbosa, pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole da Universidade de São Paulo (USP), analisa que estamos passando por um período de “recessão duradoura”: dúvida, entra para a conta do avanço da desigualdade social no Brasil a paralisia no programa Bolsa Família, que retraiu desde o início da gestão Bolsonaro.

O Bolsa Família, no ano passado, chegou a ter uma fila de mais de 1 milhão de famílias aptas a receber o benefício que não foram incluídas como beneficiárias pelo governo. No nordeste, a situação é ainda mais agravante, por concentrar 36,8% das famílias em pobreza ou pobreza extrema na fila de espera, informa o UOL. Para 2020, o quadro tampouco é animador, visto que o novo coronavírus está provocando uma desaceleração econômica no mundo todo.

Ciências,Educação,Brasil,Matemática,Blog do Mesquita 02 01

Educação: Quarentena e apartheid tecnológico: Brasil não fez da Internet objeto de política pública

O isolamento social durante a pandemia da Covid-19 impôs uma dependência da Internet com a aplicação do trabalho em home office. No entanto, problemas sociais crônicos do Brasil têm transformado a tecnologia em um obstáculo em áreas-chave como a Educação.Tecnologia,Computadores,Blog do Mesquita

Educação a distância é uma das principais preocupações da sociedade brasileira neste momento de isolamento social. A Internet tem sido em muitos aspectos o único canal de comunicação entre a casa das pessoas e o resto do mundo. No entanto, apesar de ser cada vez mais essencial para o funcionamento de diversos setores da sociedade, a pandemia da Covid-19 mostra como as condições de acessibilidade no Brasil carregam as marcas da profunda desigualdade social do país.

A especialista na área de Internet e telecomunicações e coordenadora executiva da organização de comunicação social Intervozes, Marina Pita, lembra que a Internet é “um serviço essencial para o exercício da cidadania, nos termos do Marco Civil da Internet, Lei 12.965/2014 e deveria estar acessível a todos”.

De acordo com ela, diferente de alguns países que adotaram medidas para um acesso mais democrático à Internet, o Brasil não traduz a questão da acessibilidade em políticas públicas, o que aprofunda a desigualdade social no país.

“Veja que o Chile fez um investimento importante em redes de fibra óptica. O Uruguai também investiu no acesso nas áreas rurais e conectou todas as escolas. A opção do Brasil de relevar ao mercado a oferta do serviço de acesso à Internet leva ao aprofundamento das desigualdades”, afirmou.

“Para ter garantida uma série de direitos hoje se depende de Internet. Este quadro é exacerbado em uma situação de distanciamento social, em que pessoas que tinham acesso à Internet em cafés, bares, no emprego, na casa onde fazia faxina, já não têm acesso, ou têm um acesso ainda mais limitado”, acrescentou Marina Pita.

De acordo com os dados levantados pelo coletivo de comunicação social Intervozes, o telefone celular é o único meio de acesso à Internet sobretudo nas classes C (61%), e DE (85%). “Ocorre que nessas classes, o uso da Internet se dá basicamente através da contratação de planos de acesso limitados nos quais o provedor disponibiliza uma franquia de dados”, diz a entidade em nota

Tecnologia a serviço da desigualdade

Uma das áreas que concentrou sua funcionalidade na Internet neste período de isolamento foi a Educação. E é a rede pública de ensino que parece demonstrar um dos retratos mais fiéis da desigualdade social diante da necessidade do uso da tecnologia.

Em 30 de março, o governo do estado do Rio de Janeiro, por exemplo, anunciou uma plataforma on-line para dar continuidade às aulas durante o período da pandemia. No entanto, os alunos que não têm acesso à Internet estão até hoje sem aulas.

Educação a distância é uma das principais preocupações da sociedade brasileira neste momento de isolamento social.

O professor de História e Filosofia da Rede Pública Estadual, Luiz Antônio Andrade, disse à Sputnik Brasil que no Brasil “não existe nenhuma legislação que regule o ensino à distância no ensino básico”. De acordo com ele, a dependência da tecnologia revela uma assimetria entre as condições que as redes pública e privada têm para se adaptar ao ensino remoto.

“A gente nunca pode comparar o ensino público com o ensino privado. O ensino privado é mercado e o perfil do alunado do ensino privado é muito regular. São pessoas de classe média, que têm acesso à Internet e que têm o capital cultural de saber lidar com os programas”, destaca.

“Vários alunos estão com dificuldade de acesso, estão perdidos por que não têm nenhum procedimento uniforme por parte da Seduc [Secretaria de Educação], não existe uma comunicação, nem da direção, nem dos professores. Os próprios professores, muitos que não têm muita habilidade com esse mundo da tecnologia estão sentindo dificuldade e se sentindo desamparados”, acrescenta o professor Luiz Antônio.

Em Minas Gerais, 700 mil alunos devem ficar sem acessar aulas remotas.

Deputada Estadual Laura Serrano (NOVO) defende em artigo que Ensino à Distância durante a pandemia seria “igualdade de oportunidades”. NÃO! Teleaulas do Zema vão excluir 700 mil estudantes, 42% do total. Sinal da Rede Minas chega a apenas 22% das cidades

O coletivo de comunicação social Intervozes também destacou os desafios pedagógicos que a dependência tecnológica impõe aos profissionais.

“Educação vai muito além de disponibilização de conteúdo, ela se faz através da interrelação entre educador e educando, em um processo de apropriação de cultura, construído em conjunto entre esses sujeitos. Isso se faz impossível em meio virtual”, afirma a organização.

Ao comentar sobre as medidas do governo brasileiro em relação a um esforço de garantir uma maior acessibilidade e melhoria dos serviços de conexão, a diretora executiva da Intervozes observou que a Justiça havia decidido manter os serviços de acesso à Internet mesmo em situação de inadimplência pelo período da pandemia. No entanto, a Anatel e governo se posicionaram contrários e derrubaram a liminar na Justiça.

“Além de uma carta genérica assinada entre o setor de telecomunicações e o Ministério da Ciência e Tecnologia, desconheço alguma medida para garantir a conexão dos brasileiros neste momento de pandemia”, completou Marina Pita.

Como ancestrais indígenas se preveniam de epidemias

Utilizado para conter pandemia de coronavírus, isolamento social é empregado há séculos por indígenas brasileiros frente a doenças por eles desconhecidas, com preocupação com coletivo justificando sacrifício individual.

Historicamente vítimas de doenças trazidas pelo “homem branco”, povos indígenas brasileiros podem mirar no passado para sobreviver à pandemia da covid-19, em um momento em que a Amazônia é um dos epicentros da doença. Desde os primeiros contatos com europeus, muitos povos indígenas recorreram ao isolamento social para se proteger de epidemias – justamente a estratégia hoje adotada mundialmente como a mais eficaz para o combate ao novo coronavírus.

“Diante daquelas epidemias do passado, os nossos especialistas de proteção e cura de doenças não tinham muito a fazer. Meus avós benzedores diziam que, diante das epidemias, se sentiam impotentes, pois não sabiam as raízes das doenças, não sabiam que tipos de seres causavam essas doenças”, conta à DW Brasil o padre Justino Sarmento Rezende, indígena do povo Tuyuka, morador do município de Santa Isabel do Rio Negro, no Amazonas. “Por isso, eles se retiravam das comunidades para viver em lugares mais afastados até que passasse a epidemia.”

Ou seja: na falta de medicamentos adequados, a regra era o isolamento. Rezende se recorda de que, quando era criança, no início dos anos 1960, houve uma epidemia de coqueluche que matou muitas crianças na região. “Minha irmã mais velha morreu. Eu consegui escapar. As famílias iam para acampamentos mais distantes para se proteger”, lembra.

“Penso que no atual quadro de pandemia, nós, indígenas, podemos oferecer inspiração por resistirmos há mais de 500 anos de doenças, genocídios, etnocídios e ecocídios sem desistirmos de nossos sonhos na busca pelos territórios ancestrais e por alteridade”, diz à DW Brasil o historiador Carlos José Santos, também chamado de Casé Angatu Xucuru Tupinambá (em alusão a suas raízes indígenas), professor da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), na Bahia.

Pesquisador de etnologia indígena e professor da Universidade de São Paulo (USP), o antropólogo Pedro de Niemeyer Cesarino ressalta à reportagem que, “ainda que não tivessem como evitar a mortandade”, os povos indígenas “sempre tiveram suas estratégias de proteção”. “Em geral, elas consistem em tentar escapar de centros de contágio, quando havia a percepção de que isso era possível. O isolamento em áreas de difícil acesso da floresta, por exemplo, era e é uma opção praticada ainda nos dias de hoje”, exemplifica.

Os xamãs sempre tentaram compreender o que eram essas novas doenças, a fim de tratá-las a partir de suas técnicas e conhecimentos, mas, com o tempo, entretanto, muitos começaram a perceber que as “doenças dos brancos” eram distintas e demandavam cuidados diferentes daqueles que podiam ser realizados com seus conhecimentos, aponta o antropólogo.

“O que chamamos de isolamento social não foi praticado apenas no passado. Ele é uma estratégia ainda hoje corrente, que está sendo utilizada agora na proteção à covid-19, a doença causada pelo novo coronavírus. No entanto, não se trata exatamente de um isolamento social, mas de uma evitação da vida em comunidades situadas nas margens de rios navegáveis e de contato mais fácil com cidades”, afirma.

“Muitas vezes, famílias inteiras sobem para a direção das cabeceiras de rios e reformulam os seus modos de existência. Passam a viver de maneira similar à de seus antepassados, o que implica também a produção de novos corpos que sejam mais fortes e, ao mesmo tempo, mais sábios para lidar com os desafios provocados pela iminência do genocídio.”

Para a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação da USP, os saberes herdados das populações indígenas brasileiras devem ser preservados como “vestígios de uma cultura secular, única, um instrumento importante de combate as epidemias”. “Seus conhecimentos sobre a flora e fauna curam doenças do corpo e da alma, nem sempre valorizados pelos homens da ciência”, diz.

Tulio Chaves Novaes, promotor de Justiça, professor e pesquisador da Universidade Federal do Oeste do Pará, considera que é preciso humildade para “efetivar esse aprendizado” com o os povos indígenas. “Penso que o aprendizado mais relevante, ensinado atemporalmente por esses povos, massacrados pela ganância e pelo poder de uma razão instrumental ocidental soberana, encontra-se na ética”, pontua.

“A atitude do indígena aponta sempre para o bem-estar e para a preservação do grupo, para sua relevância frente ao indivíduo. Visto como um todo, desta maneira, na lógica do grupo, o destino de um é o destino do outro. A preocupação com o coletivo, ao ponto de justificar o sacrifício individual, talvez enseje outro parâmetro educativo ético que precisamos resgatar com a história desses povos. Se tivéssemos em mão hoje esse patrimônio moral, sem dúvida, seria mais fácil fazer frente aos inimigos comuns, como o atual coronavírus”, considera.Indígenas em barco no pôr do sol
Em meio à pandemia atual, indígenas vêm evitando a vida em comunidades situadas nas margens de rios navegáveis e de contato mais fácil com cidades.

Doenças que varreram vidas

Segundo o pesquisador Paulo Rezzutti, membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, padres jesuítas relataram que entre 1554 e 1584 morreram mais de 60 mil indígenas em decorrência de epidemias trazidas pelo “homem branco”. “Eram principalmente sarampo e varíola as doenças”, aponta ele à DW Brasil. “E já havia um colapso funerário. Algumas tribos chegaram a ter 20 mortos por dia.”

Se no passado varíola e sarampo eram as principais vilãs, na era contemporânea, muito antes do novo coronavírus, os indígenas já sofriam com malária e hepatite. “São duas das maiores responsáveis por óbitos em sociedades indígenas”, aponta Cesarino. “Eu mencionaria também a desnutrição e o diabetes que, no caso de algumas comunidades, também precisam ser consideradas como doenças impostas pela sociedade envolvente.”

De acordo com os antropólogos Marta Rosa Amoroso e Rafael Pacheco, respectivamente coordenadora científica e pesquisador do Centro de Estudos Ameríndios da USP, “sarampo, varicela, varíola, malária, coqueluche, gripes, desnutrição, diabetes, pressão alta e diarreia estão entre as doenças que mais acometem os povos indígenas, histórica e atualmente”.

À DW Brasil, Pacheco pontuou que “os casos de depopulação e extermínio massivos ocorridos nessas circunstâncias são emblemáticos na história do Brasil republicano, e seguem até hoje sem uma reparação minimamente adequada”.

Ele recorda registros históricos, como “o relato perplexo” do padre jesuíta José de Anchieta (1534-1597) “diante da amplitude e rapidez da mortandade de milhares de tupis na Baía de Todos os Santos”. “Varíola e sarampo, nesse período [século 16], varriam vidas em diversas regiões”, afirma. E o cenário prosseguiu.

Mais tarde, no século 17, com as entradas bandeirantes, “os grupos tupi-guarani da região de Guaíra foram assolados por contaminações”, aponta o antropólogo. “Isso segue pelos século 18, 19 e atravessa o século 20. No começo da década de 1970, a mortalidade infantil ainda no primeiro ano de vida no Parque Indígena do Xingu chegava a 10%.”

“Lembro alguns casos, por exemplo, ocorrências durante a construção da rodovia Transamazônica, quando após o contato, em 1981, os indígenas foram abatidos por uma epidemia de gripe, provocando a morte coletiva e a dizimação dos grupos”, completa Tucci Carneiro. “Deve ser também contabilizada a omissão do Estado que não prestou socorro.”

A covid-19 é um desafio novo e complexo, que pode ter amplitude local, em uma etnia ou mais ampla, abrangendo complexos socioterritoriais e regiões.

“O município indígena de São Gabriel da Cachoeira no Amazonas, por exemplo, neste momento luta pela instalação de um hospital de campanha equipado que possa atender a população indígena. No momento os indígenas são deslocados para os hospitais em Manaus, cidade cujo sistema único de saúde já se encontra em colapso. A previsão pessimista é que a situação se espalhe diante de uma falta de ação”, diz Pacheco. “Relatos de lideranças e pesquisadores indígenas e indigenistas, de diferentes regiões, têm destacado que o isolamento social vem sendo praticado para impedir a entrada do vírus nos territórios indígenas.”

Ensino a distância na quarentena esbarra na realidade de alunos e professores da rede pública

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Para os estudantes, dificuldades vão de acesso precário à internet a problemas familiares. Desde que a quarentena teve início no Estado de São Paulo, um cenário de incertezas pairou sobre pais, alunos e professores.

Com as aulas suspensas por tempo indeterminado, afinal, como ficaria o ano letivo? Inicialmente, a saída cogitada foi a antecipação das férias escolares. No entanto, após um mês, uma nova realidade se desenhava: a do ensino à distância. A iniciativa, porém, esbarra em uma dura realidade: dificuldades dos alunos, seja pela falta de internet ou estrutura familiar, e a falta de preparo dos professores para lidar com a plataforma e todas as mudanças na forma de ensinar.

Correndo contra o tempo, a Secretaria de Estado da Educação (SEE) conseguiu colocar no ar uma plataforma gigantesca, que permite conectar alunos e professores.

“Para os professores, que estão na ponta do processo, está claro que esse modelo não funciona. Ele não é inclusivo e aumenta ainda mais as desigualdades”, diz Maria Izabel Noronha, presidente da Apeoesp (Sindicato dos Professores da Educação Oficial do Estado de São Paulo) e deputada estadual pelo PT, partido de oposição ao governador João Doria (PSDB).

Para ela, não se trata apenas de um posicionamento corporativista, que defende o ensino em sala de aula, mas da falta de um melhor planejamento para o uso das ferramentas.

Demanda sufocante
Segundo a professora, todos os dias, quase 24 horas por dia, os professores da rede são bombardeados com mensagens que chegam pelas vias digitais – seja o WhatsApp, seja pelos chats da Central de Mídias.

“Os professores se queixam que não conseguem dar conta da demanda e isso é angustiante para eles”, diz Noronha, compartilhando com a reportagem mensagens da rede WhatsApp recebidas de alunos, pais e professores se queixando de dificuldades para acessar o novo sistema.

“A cada dia, recebemos mais e mais relatos de professores que estão extremamente estressados e exaustos. A principal queixa deles é que não estão conseguindo ministrar o ensino a distância por várias questões: acesso à tecnologia, falhas na programação, falta de recursos, seja internet ou celular para dar conta das atividades”, explica Neuza Ribeiro, coordenadora a Subsede da Apeoesp em Araraquara.

Segundo Neuza, há uma grande pressão por parte da SEE e das diretorias de ensino para que o processo dê certo, sem levar em conta a realidade dos professores e alunos.

“Além da pressão do dia a dia para dar conta do processo, que é novo e trabalhoso, os professores ainda sofrem com ameaças de faltas e até processos administrativos caso não consigam trabalhar o conteúdo programado”, diz. “Toda essa pressão é para tampar o sol com a peneira. Temos visto que isso não funciona nem mesmo na rede particular”, completa.

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Professor Rodrigo Baglini prepara vídeo aula: ‘Essa pandemia nos obrigou a apresentar para o mundo um novo modelo de ensino, que deveria ser implantado num processo progressivo’

‘Construção conjunta’
Para o secretário de Estado da Educação, Rossieli Soares da Silva, mesmo com os relatos sobre problemas de acesso à plataforma, o programa tem tido sucesso entre alunos e professores.

“Temos uma clareza que não será um acesso de 100%. Mas mesmo que o aluno não se conecte no aplicativo, temos dois canais abertos com os conteúdos disponíveis. Isso ajuda resolver bastante a questão da conectividade”, diz. “Estamos adaptando o conteúdo, sabemos que esse processo é novo e é difícil.”

Rossieli diz que há lives quase diárias com professores para dirimir as dúvidas e dificuldades. “Temos tido conversas muito transparentes. E estamos todos tentando correr atrás. É o momento de solidariedade”.

Para o secretário, é normal que alguns professores se sintam desconfortáveis com essa nova modalidade num primeiro momento.

“É lógico que dá medo. Eles têm que sair da zona de conforto”, avalia. Segundo ele, na primeira semana, foram 1,5 milhão de alunos conectados às aulas – um pouco menos da metade dos 3,5 milhões inscritos na rede estadual.

Com relação aos problemas de conectividade, o secretário ressalta que uma parceria com as operadoras de telefonia proporciona aos alunos e professores o uso de dados patrocinados pelo Estado. “Esse patrocínio de dados é feito via aplicativo”, diz.

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Professores na rede estadual se queixam do excesso de cobranças – para eles, burocracia criada para o acompanhamento das aulas faz com que ultrapassem as jornadas diariamente.

Dificuldades na forma e no conteúdo
Além das questões técnicas de acesso ao Centro de Mídia criado pela SEE, muitos professores se queixam da qualidade do conteúdo das aulas apresentadas aos alunos e apontam uma desconexão entre esse conteúdo e o currículo.

“Já vi, por exemplo, que teve a mesma aula para três séries diferentes. Parece até que estão gravando aulas com temas aleatórios, então usam a mesma aula para séries diferentes. Nem a grade curricular do Estado está sendo respeitada”, diz a professora Mariana (nome fictício), 38 anos, de Araraquara.

Docente há 16 anos, ela discorda da forma como o processo vem acontecendo. Quando veio a notícia das aulas online, os professores ficaram preocupados com possibilidade de terem, eles mesmos, que gravar as aulas. Mas esse, no entanto não foi o caminho do projeto. O que trouxe alívio, mas também preocupação.

“Perdemos nossa autonomia em sala de aula. Não é nosso planejamento pedagógico que está sendo passado. E, pior, as aulas, genéricas, não levam em consideração as diferenças entre as cidades, as escolas”, diz Mariana.

“O professor faz um diagnóstico para planejar as suas aulas. Essa forma não respeita o ritmo dos alunos, da turma. Acaba, também, sendo uma aula superficial para o aluno, o que não é suficiente para fazê-lo entender”, avalia.

Para a professora Marisa Borges, coordenadora pedagógica em Sorocaba, o fato de tudo ser um processo novo pesa bastante, mas é preciso ter paciência. “Os professores estão tentando se adaptar a essa realidade. Nós estamos aprendendo a mexer com todas as ferramentas”, explica.

Apesar das dificuldades, alguns professores têm se dado bem com o processo.

É o caso de Rodrigo Ferrari Baglini, 32 anos, docente há 10 anos na capital. Ele concorda com a professora Marisa sobre a necessidade de paciência. “Essa pandemia nos obrigou a apresentar para o mundo um novo modelo de ensino, que deveria ser implantado num processo progressivo. As crianças estão no mundo digital, mas não têm a cultura digital do aprendizado. E isso é um processo que precisa de tempo”, diz.

Cobranças excessivas para que o EaD emplaque

Os professores na rede estadual também vêm se queixando do excesso de cobranças na implantação do EaD. Para eles, a burocracia criada para o acompanhamento das aulas faz com que ultrapassem as jornadas diariamente.

“Temos sido obrigados a fazer um monte de relatórios para provar que o professor está, de fato trabalhando”, diz a professora Mariana. “Eu fiquei sem recursos para fazer as aulas online, porque a fonte do meu computador queimou. Faz duas semanas que estou falando isso e que não tenho como fazer. E a resposta da coordenação é dizer que então vou ficar com falta.”

O professor Samuel Augusto Alves Lima, 39 anos, docente da rede estadual há seis anos, também vem enfrentando problemas parecidos. “Temos dispendido de recursos próprios. De equipamentos, de internet. Mas isso às vezes não é suficiente. A equipe gestora pressiona para que façamos as atividades e há uma série de confusões sobre as orientações do planejamento”, conta.

Segundo Samuel, apesar de a Secretaria anunciar o patrocínio de dados para o acesso ao aplicativo, essa não é a única ferramenta usada pelos professores que acabam, sim, dependendo do uso de dados próprios para acesso à internet.

Para o professor, outro entrave está relacionado a uma grande quantidade de informações desencontradas. “Cada escola tem dado as suas orientações sobre como isso deve acontecer. E há muitas idas e vindas, dificultando ainda mais a vida dos professores”, diz.

Ensino a distância x educação presencial

A realidade da implantação de EaD na rede estadual de ensino levanta a discussão sobre as possibilidades de substituição da educação presencial pelo ensino a distância no ensino fundamental.

Mas mesmo quem defende o processo remoto é taxativo em dizer que o modelo atual não funciona de forma definitiva.

Para o secretário de Educação, durante as conversas com professores da rede, muitos colocaram essa questão. “No início, o maior receio era que o EaD fosse substituir os professores. Mas não é disso que se trata. E não temos como fazer com que a EaD substituía a educação presencial na educação básica. O que estamos fazendo agora é um esforço de tentar conectar as pessoas com a educação”, diz. Segundo ele, ao colocar em prática o EaD, a Secretaria tenta manter o vínculo educacional dos estudantes.

Para Fabio Fonseca, Diretor Acadêmico da Faculdade FAEL, uma das pioneiras no processo de EaD no país, o ensino a distância é uma ferramenta valiosa, mas é preciso tempo e organização para que os professores possam aprender a usar essa ferramenta.

“Viemos de um modelo presencial, numa mudança abrupta. Mas certamente é uma mudança sem volta. O processo online veio para ser uma ferramenta importante” ele conta. Para auxiliar nesse processo, a FAEL disponibilizou para os docentes um curso gratuito sobre ensino a distância.

Desmatamento avança, enquanto Brasil enfrenta coronavírus

O país, epicentro sul-americano da pandemia, vê crescer o número de casos e mortes por covid-19, e pouca atenção sobra para a perda da mata amazônica, que já avançou 55% a mais do que no mesmo período de 2019.

Mata devastada por fogo em Rondônia, agosto de 2019

Imagens recentes de satélite mostram que o desmatamento na Amazônia está crescendo em 2020: cerca de 1.202 quilômetros quadrados de floresta foram destruídos entre janeiro e abril, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).
As cifras, divulgadas nesta sexta-feira (08/05), representam um acréscimo de mais de 55% em relação ao mesmo período do ano anterior, além de serem as mais altas para os quatro primeiros meses do ano, desde 2015. O fato é especialmente preocupante porque nesse período do ano, de chuvas abundantes, as perdas ambientais são normalmente menores.

Drive-thru contra covid-19 em Manaus

A devastação é causada tanto por incêndios florestais quanto por atividades destrutivas ilegais. “Infelizmente, parece que devemos esperar para este ano mais quebras de recordes de incêndios e desflorestamento”, antecipa o ativista do Greenpeace Romulo Batista.

O estado do Amazonas tem sido um dos mais atingidos pela covid-19. Num país que se tornou o epicentro da pandemia na América do Sul, computando quase 150 mil casos e mais de 10 mil mortes, grande parte dos recursos nacionais tem ido para o combate ao vírus, o que, segundo os ativistas, implica dar-se menos atenção à deflorestação predatória.

O presidente Jair Bolsonaro tem sido alvo de críticas por seus parcos esforços em defesa de um dos ecossistemas mais diversificados do mundo. No início de maio, ele enviou o Exército para coibir a extração de madeira, agricultura e mineração ilegais, embora ambientalistas insistam que seria mais eficaz apoiar as agências ambientais brasileiras, as quais têm sofrido duros cortes desde o começo do mandato do político populista.

Em 2019, primeiro ano do negacionista da mudança climática na presidência, 10 mil quilômetros quadrados de mata sucumbiram a incêndios e desflorestamento ilegal, a grande maioria dos quais ocorridos entre maio e outubro. Ativistas do clima afirmam que o pior para o meio ambiente no Brasil ainda está por vir.