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O retrato de uma cidade para onde nenhum médico brasileiro quer ir

Sem conseguir atrair médicos para substituir cubanos, Guaribas, no Piauí, encaminha pacientes, que enfrentam viagem e estrada de terra para conseguir atendimentoMais Médicos,Piauí,Brasil,Medicina,Saúde,Blog do MesquitaEm Guaribas, 62% dos moradores dependem diretamente do Bolsa Família U. DETTMAR AGÊNCIA
O retrato de uma cidade para onde nenhum médico brasileiro quer ir A apreensão de cidades com a saída de cubanos

A “Diplomacia branca” com médicos rende 42 bilhões de reais a Cuba por ano.

Uma única estrada chega até a cidade de Guaribas, no extremo sul do Piauí. Pelo menos 50 quilômetros de terra batida separam o município — que estreou o Bolsa Família há 15 anos por ser na época o mais pobre do país — da vizinha Caracol. Com a dificuldade de acesso e a frágil economia interna comum às pequenas cidades do sertão nordestino, as poucas possibilidades de trabalho ali se resumem aos cerca de 400 cargos da prefeitura, ao modesto comércio local e à agricultura de subsistência. É significativa a importância do serviço público de saúde nesta comunidade onde 62% dos moradores dependem diretamente da média de 282 reais que o Governo federal transfere todo mês para cada família cadastrada no Bolsa Família.

Até duas semanas atrás, dois médicos cubanos se revezavam entre os três postos de saúde da cidade para garantir o atendimento a uma população de 4.401 habitantes. Junto com enfermeiros, técnicos e agentes de saúde, eles conseguiram assistir a 82% das 876 famílias que necessitam de acompanhamento periódico pelo Governo por terem crianças de até sete anos ou gestantes, um desempenho considerado “muito bom” no relatório publicado em outubro pelo Ministério do Desenvolvimento Social.

Os dados são positivos, mas a cidade ainda enfrenta uma série de desafios na atenção básica. A taxa de mortalidade infantil média na cidade — de 17 óbitos para 1.000 nascidos vivos — é superior à média nacional (14). Além disso, apenas um terço das casas tem esgotamento sanitário adequado, uma estrutura fundamental para evitar doenças como diarreia, hepatite A e verminoses, geralmente tratadas e prevenidas justamente com a ajuda dos profissionais da atenção básica.

O fim da cooperação de Cuba no programa Mais Médicos em novembro deixou a cidade, que dependia exclusivamente dos médicos cubanos, desassistida. Guaribas é um dos 31 municípios que não despertou o interesse dos profissionais brasileiros. Uma médica ainda chegou a ser selecionada para uma das vagas, mas informou a desistência à prefeitura dias depois da inscrição. A segunda vaga sequer chegou a ser cogitada por outro candidato. Catalogado na condição de extrema pobreza e 650 quilômetros distante da capital Teresina, o município segue com suas duas vagas no primeiro edital do programa, cujas inscrições se encerraram nesta sexta-feira. As condições urbanísticas da cidade não ajudam a atrair os profissionais: segundo o IBGE, as vias públicas não têm estrutura de urbanização mínima adequada, com a presença de bueiro, calçada, pavimentação e meio-fio.

“Aqui não tem mais médico, só enfermeiro. Tiraram os médicos. Por que fizeram isso? Aqui já é tudo tão difícil, aí ainda tiram o pouco que a gente tem”, se queixa a aposentada Amélia Alves Rocha, de 67 anos. Ela diz que nas últimas semanas acompanhou o marido Nilho Alves Rocha, de 75 anos, no posto para conseguir o remédio que ele toma para controlar a hipertensão, mas sem médico para dar a receita, não conseguiu a medicação gratuitamente.

O casal criou sete filhos graças ao Bolsa Família e hoje vive da aposentadoria e da mandioca que plantam na roça. Com a seca que historicamente assola a região — Guaribas é um dos municípios que decretaram estado de emergência por esse motivo neste mês — nunca houve muita expectativa de melhorar de vida. “Antes ninguém tinha nada aqui, aí Deus preparou esse Bolsa Família. O cartãozinho salvou a gente que tinha muito filho porque a vida aqui sempre foi muito complicada. As coisas são caras, ainda hoje a gente tem que completar o aposento com o pouco que planta na roça”, conta.

Amélia conta que a ausência de médicos na cidade é um problema, mas demonstra resiliência ao argumentar tempo pior era aquele em que a família dormia nos colchões que eles mesmos faziam com plásticos recheados do capim colhido na serra. “Perdi uma filha de seis anos e uma neta porque elas brincando tocaram fogo num colchão desses. Morreram as duas queimadas. Ruim mesmo era naquele tempo que a gente tinha que sair por aí no lombo de um jumento atrás de socorro nas outras cidades. Hoje tem até transporte pra levar”, conta.

Enquanto as vagas do Mais Médicos não são substituídas, enfermeiros e agentes de saúde das duas equipes de atenção básica prestam um atendimento mínimo à população. “A gente se vira como pode. Tem muita coisa que só o medico pode fazer, mas a gente segue acompanhando as crianças e as gestantes que fazem pré-natal, por exemplo. Nossa sorte é que temos aqui um serviço bem estruturado, então os prejuízos até diminuem, mas é complicado”, diz o enfermeiro que coordena a Atenção Básica no município, Francisco Júnior.

Três horas de viagem por um atendimento
Quando esses profissionais identificam serviço de urgência ou situações que não podem solucionar sem a presença do médico, os pacientes são encaminhados para a cidade que é referência para os 20 municípios da região da Serra da Capivara. Eles enfrentam quase três horas de viagem e percorrem mais de 100 quilômetros (a metade deles de estrada carroçal) até chegar ao Hospital Regional ou à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de São Raimundo Nonato. “A situação é a seguinte: a gente já é acostumado. Médico é bom porque a gente se consulta, mas se não tem o jeito é ir pra São Raimundo quando o problema piora. É muito complicado, mas dá pra gente ir vivendo”, se conforma Amélia.

Outra opção, dizem moradores de Guaribas, é tentar atendimento em Caracol, cidade mais próxima, a 50 quilômetros do município. No entanto, moradores dizem que a situação lá também não está fácil. “Na região toda a situação tá horrível. Caracol perdeu três médicos, uma cubana e dois brasileiros que se inscreveram no programa e foram pra outras cidades”, conta o agricultor Raimundo Ribeiro. O EL PAÍS tentou confirmar os números com a Prefeitura de Caracol, mas não obteve resposta.

O fato é que a dificuldade de preencher as vagas deixadas pelos médicos cubanos e mesmo a migração de profissionais que já atuavam na atenção básica sob um regime de contrato com as prefeituras para outros municípios do programa Mais Médicos já repercute na UPA e no Hospital Regional de São Raimundo Nonato. “A demanda tem aumentado muito com essa dificuldade na atenção básica. Temos recebido muitos casos de gripe e febre que seriam facilmente resolvidos no posto de saúde”, afirma a diretora do hospital, Nilvania Nascimento. Na atenção básica, a cidade polo também sofre com a crise do Mais Médicos: teve seis vagas abertas no primeiro edital.

Economia; O ano de privações de dona Idalina

Nem Dilma nem Temer: Moradora da Zona Sul de São Paulo sustenta seis filhos, cinco netos e um bisneto com Bolsa Família

Bolsa Família

Idalinda Gomes, 58 anos, com três netos que cria em um barraco no Jardim Monte Verde, Zona Sul de São Paulo FERNANDO CAVALCANTI

Idalina Gomes acorda cedo, no Jardim Monte Verde, Zona Sul de São Paulo, para alimentar quase 50 galinhas que cria na beirada da represa Billings. Um ano depois do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, a mulher de 58 anos reage com indiferença ao ser questionada sobre o que achou da mudança de presidente. Nos últimos 12 meses, um filho de Idalina foi demitido e outro só conseguiu trabalho de madrugada. Ela se vira para sustentar seis filhos, cinco netos e um bisneto com um benefício do programa Bolsa Família de 706 reais por mês.

“Não tenho nada pra falar da Dilma nem do Temer. Pra mim, tanto faz como tanto fez. Se ele está lá, ele ganhou. Tem que cumprir o mandato, cumprir o que falou, porque se sair de lá, ninguém mais vai colocar de novo”, diz dona Idalina, um ano depois do impeachment de Dilma.

Pelos critérios do Ministério do Desenvolvimento Social, a família de Idalina está em situação de extrema pobreza, porque possui renda per capita inferior a 85 reais. O Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) calculava que 3.810,36 reais era o salário necessário para sustentar dois adultos e duas crianças na capital de São Paulo em julho deste ano. De acordo com levantamento da Geofusion, empresa de tecnologia e informações de mercado, a renda média familiar no entorno da casa de dona Idalina era de 2.181,09 reais no fim do ano passado, bem abaixo da média nacional (3.847,66 reais) e paulistana (6.797,32 reais).

O último ano de dona Idalina passou longe das traficâncias na Praça dos Três Poderes. A narrativa do governo Temer, que propagandeia o controle da inflação, se esvanece antes de sua realidade. Tampouco se sustenta a narrativa petista, onde parte da ascensão dos mais pobres à classe média é atribuída ao Bolsa Família. A família de Idalina depende do programa de complementação da renda há 11 anos. Dos nove filhos, nenhum conseguiu terminar o ensino médio. Sem reajuste no Bolsa Família neste ano, Idalina não experimentou nenhum alívio nos preços de mercadorias e serviços, apesar da inflação mais baixa propagandeada pelo governo.

“Aumentou o preço de tudo. Comprava frango a 5 reais, agora já é 7 reais. Só como carne vermelha graças à vizinha, que é quase minha mãe e me dá. Feijão a gente só compra quando está em promoção. Como sou mineira, não consigo comer nada sem alho, mas já é 2 reais uma cabeça de alho”, diz dona Idalina.

Idalinda cria quase 50 galinhas em um galinheiro improvisado na beira da represa Billings, no Jardim Monte Verde, Zona Sul de São Paulo.
Idalinda cria quase 50 galinhas em um galinheiro improvisado na beira da represa Billings, no Jardim Monte Verde, Zona Sul de São Paulo. “ FERNANDO CAVALCANTI
Nascida na zona rural de Minas Novas, no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, Idalina se instalou com a família no Jardim Monte Verde quando a água da represa Billings era “limpinha”,há quase 30 anos. “Limpava as fraldas de pano dos meus filhos. Tinha peixes na água”, lembra. Separou-se do primeiro marido, casou de novo com outro companheiro e se separou novamente há cinco anos.

Alguns filhos formaram família e saíram de casa, mas se desquitaram e voltaram a morar com a mãe. Dormem quatro pessoas em uma cama de casal, duas crianças e um adulto em um colchonete no chão — o resto da família se divide entre um beliche de duas camas e outras três camas de solteiro. Em uma parede, o retrato do filho caçula lembra que ele abandonou os estudos para trabalhar, na véspera de concluir o ensino médio. Três televisões pequenas estão espalhadas pela casa. A moradia improvisada tem geladeira, fogão, mas a concessionária de energia elétrica não oferece ponto de luz no domicílio.  Mesmo ao lado da represa Billings, e sem racionamento oficial, a Sabesp corta a água da região depois das 18h. Faltam armários. Alimentos não perecíveis são armazenados em um cestão de plástico. Roupas são guardadas em sacos de lixo. No entanto, as privações não impedem Idalina de sonhar com um futuro melhor para os filhos e netos.“Meu sonho é ter meus filhos trabalhando, para viverem a vida deles, terem as casas deles. Queria que não faltasse nada pros meus filhos”, diz.

Ela fazia faxinas para complementar a renda até três anos atrás, mas, diagnosticada com osteoporose, parou de trabalhar depois que as dores nos joelhos ficaram insuportáveis. No posto de saúde mais próximo, a cinco km de sua casa, já não consegue remédio para tratamento da doença óssea há um ano. “O médico falou que só um medicamento servia, mas que não ia me receitar porque eu não tinha condição de comprar”, afirma.

Passou a sofrer esquecimentos e tenta há meses agendar uma consulta para tratar o problema, sem sucesso. Toda semana a rua de Idalina recebe a visita de dois médicos da família, mantidos pelo programa Saúde da Família do governo federal. Mas não adianta. Enquanto não consegue cuidar da própria saúde, Idalina cuida do galinheiro que mantém. Não somem as lembranças dos pais, trabalhadores rurais, com quem aprendeu a criar galinhas na infância. “Quando eu estou lá com as galinhas, minha cabeça fica boa”, diz. Nada é para consumo. O galinheiro só aumenta. Idalina dá os pintinhos para os netos brincarem na porta de casa.

Nove filhos e três netos foram criados por Idalina. Agora, cuida da neta mais nova, de um ano e dois meses, negligenciada por uma filha que sofre as intempéries do vício em drogas. O irmão da bebê, de seis anos, também é criado pela avó. O menino se distrai com um spinner, o brinquedo do momento, enquanto se alegra com os primeiros passos da neném. “Ela já deu três passinhos”, comemora. Ele e a irmã de oito anos, também criada por Idalina, vão ao colégio, enquanto o bisneto vai à creche. Também passou a faltar leite para as crianças nos últimos meses, porque a escola pública deixou de fornecer.

Privações nos serviços públicos revoltam Idalina. Ela atribui esses desfalques aos rombos deixados por esquemas de corrupção. Mas não se engana com prisões de políticos corruptos. “Prisão para esses políticos grandões não vai valer nada. Eles que têm de sentir o que fizeram com a população. Enquanto estavam na boa, pessoas que estavam precisando ficaram sem remédios”, critica.

Nenhum político passou pela região nos últimos anos, lembra ela. Idalina conclui a argumentação e diz que “só Deus dá misericórdia”. Volta a falar dos seus sonhos: “Não quero passar problemas pros meus filhos. Já estou com quase 60 anos, no final da vida, mas queria que eu partisse dessa vida e deixasse alguma coisa para minhas netas”.
Daniel Haiddar/RT

Auxílio Moradia x Bolsa Família

Brasil da série: “É impressionante o dano que uma pessoa munida só com a burrice pode causar”
Auxílio Moradia:
Para Juízes R$ 4.377,73
Para Senadores R$ 5.500,00
Para Deputados Federais R$ 4.253,00
Bolsa Família
Bolsa Família Básico R$ 85,00
Bolsa Família Variável à Gestante R$ 39,00
Bolsa Família Variável de 0 a 15 Anos R$ 39,00 por criança ou adolescente.
Fotos. Pela Ordem
-“Mansão” de um vagabundo recebedor do Bolsa Família
-“Modesta habitação do Senador Collor de MeloBolsa Família,Brasil,Miséria,Nepotismo,Políticos

Viagem ao Brasil mais pobre, o que sempre vota no PT

Belágua é a cidade mais miserável do país e a de maior apoio eleitoral a Dilma

Brasil mais pobre, que vota no PT
António José do Nascimento, em casa. Foto: ALBANI RAMOS
Antonio Jiménez BarcaANTONIO JIMÉNEZ BARCA – Belágua (Maranhão) 

Um dia, faz um mês, deixaram de construir a casa de Antônio José do Nascimento em Belágua, no Estado do Maranhão.

Os operários lhe explicaram que havia acabado o dinheiro do programa do Governo do Estado, e foram embora, com tudo pela metade: um esqueleto de casa sem serventia e um monte de tijolos que tostam sob o violento sol da uma da tarde destas latitudes quase equatoriais.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Alguns meses antes, esses mesmos operários haviam contado a Nascimento, de 37 anos, com dois filhos, de 14 e 15 anos, e a mulher doente, que o Estado ia substituir seu velho casebre de barro e teto de palmeira, aqui chamado de taipa, por uma casa de tijolos e cimento, como parte de um programa que incluía outras cinquenta famílias miseráveis da cidade.

Belágua (uma rua asfaltada, um conjunto de casas e casebres dispersos, estradas de terra, ninguém entre uma e quatro da tarde, jegues presos com cordas às portas das casas, porcos e galinhas pelo caminho) é a cidade mais pobre do Brasil.

Com 7.000 habitantes, situada a 200 quilômetros da capital do Estado, São Luís, a localidade tem uma renda per capita média de 240 reais por mês, segundo o último censo, elaborado em 2010. A taxa de analfabetismo supera os 40%. Nascimento é um desses analfabetos. Sua mulher, derrubada na cama agora pela artrose, é outra.

Belágua (lojas diminutas que vivem indiretamente do Bolsa Família, crianças que lavam mandioca no rio) ostenta outro recorde nacional: a maior porcentagem de apoio eleitoral para Dilma Rousseff na última eleição.

Uma estranha unanimidade de 95%. Nascimento também se encaixa aí: votou no Partido dos Trabalhadores (PT) de Rousseff precisamente por causa da subvenção do Bolsa Família, instaurado pelo Governo Lula.

“Graças a isso seguimos em frente. Agora sei que tiraram Dilma do poder. Contaram-me, porque minha televisão queimou. Não sei o que vai acontecer conosco”, diz. Nascimento se refere não ao futuro do país em abstrato, mas ao futuro desses 381 reais por mês, vitais para sua família.

O Governo do presidente interino, Michel Temer, garantiu que vai respeitar certos programas sociais, incluindo esse, mas Nascimento, desconfiado e acostumado a que as coisas se saiam mal, olha de soslaio o projeto inacabado de sua casa inútil de tijolos sem data de término e seu rosto se enruga.

A secretaria de Estado das Cidades e Desenvolvimento Urbano do Governo do Maranhão, do Partido Comunista do Brasil (PC do B), reconhece, por meio de um comunicado, certos problemas com os materiais, mas diz que já deu ordens para que as casas sejam concluídas e os prazos sejam cumpridos.

Belágua é um exemplo fiel do Nordeste brasileiro, atrasado, pobre e resignado à sua sorte, que aceita a ajuda estatal um dia e com o mesmo fatalismo aceita no dia seguinte que a tirem.

Também um expoente da desigualdade descomunal que aflige o país: enquanto nos bairros nobres de São Paulo há quem suba em um helicóptero para contornar o congestionamento da tarde de sexta-feira, no abafado casebre de Nascimento, sem torneiras, a água é armazenada em um pote de barro tampado com um paninho de crochê.

Um casal com seu bebê no rio, a única fonte de água.
Um casal com seu filho banha-se no rio em Belágua. Foto: ALBANI RAMOS

Às vezes é até pior: seu vizinho Aderaldo Ferreira, de 36 anos –também em um casebre de barro e palha, também, na porta, com o absurdo monte de tijolos inúteis da casa prometida– nem sequer conta com os reais do Bolsa Família.

Aderaldo tem três filhos pequenos, um deles já na escola, mas, por um enrosco burocrático, a ajuda lhe foi negada, sem que ele saiba bem porquê. Mostra a carteira de identidade ao jornalista, como se isso servisse para demonstrar algo.

Também é analfabeto, também vive da mandioca que arranca todos os dias. Sua mulher, grávida, amamenta o filho pequeno sem dizer nem uma única palavra, muda e ausente, como se tanta desgraça junta não fosse com ela.

Perto, em outro casebre, Joana dos Santos, de 35 anos, tece tiras de folhas de palmeiras para pagar uma dívida, contraída dois anos atrás para arcar com um exame médico que custou 280 reais para uma filha acometida de uma estranha paralisia. Acabará de pagar em dezembro. “Se Deus quiser”, acrescenta. Três de suas filhas se postam ao lado. Tem oito. E três filhos. Uma faz a lição de casa. Outra, de 12 anos, olha o jornalista com curiosidade.

-Você vai à escola?

– Sim

– O que quer ser quando crescer?

– O que Deus me der.

– Você gosta da escola?

– Mais quando dão merenda.

Às quatro ou cinco da tarde, quando o sol deixa de torturar a rua, chegará o pai com a mandioca do dia: a velha mandioca que se transforma em farinha depois de triturada e tostada, como já faziam os índios antes de os portugueses chegarem.

Do Bolsa Família, Joana recebe por mês 562 reais. “Não é só o dinheiro. É que o dono da venda faz fiado porque sabe que vai receber. Quando não tínhamos [o dinheiro], não era assim: não me venderam um peixe porque me faltavam 50 centavos. Por isso, sempre votarei em Dilma e Lula.”

Aderaldo Ferreira da Silva e sua família.
Aderaldo Ferreira e sua família, em sua choça. Foto: ALBANI RAMOS

Na mesma Belágua há quem escape do círculo fechado da miséria, ignorância e mandioca. No outro extremo da localidade, Raimundo dos Santos, conhecido como Seu Cota (52 anos, 14 filhos, 14 netos) mantém e explora uma horta.

E vende alfaces, pepinos, tomates, batatas… Obteve no mês passado 1.500 reais por mês, uma soma que vai aumentar no mês que vem.

Conseguiu uma bomba d’água graças a uma subvenção do Maranhão, e alguns técnicos também do Estado o ensinaram a plantar e colher. Sua casa tem chão de lajota, uma televisão velha, mas que funciona, e sua mulher e filhos estão vestidos e sorriem.

Aderaldo Ferreira, o da mulher sem palavras, o da choça sem nada, o que mostra a carteira de identidade como o documento essencial, diz que ouviu falar desse Seu Cota, que irá visitá-lo uma tarde, que lhe perguntará como fez, como faz, e aponta para o outro lado da cidade, como se fosse o outro lado do mundo.
ElPais

Juiz popular e trabalhador faminto são manifestações de um Brasil arcaico

Ética Justiça Blog do MesquitaNum instante em que a política se eterniza como um conto do vigário em que o país não se cansa de cair, dois brasileiros nos ajudam a compreender melhor a vocação nacional para o fracasso: o eletricista faminto e o juiz popstar.

Unidos no noticiário dos últimos dias, Mário Ferreira Lima e Sérgio Moro ilustram as duas margens do retrato nacional. Num extremo, a pobreza que furta para comer.

Noutro, a Justiça que mastiga corruptos e corruptores.

Ao fundo, as crises que expõem a amplitude da vista curta que impele o Brasil a fazer o pior o melhor que pode.

Mário Lima, que estrela o vídeo acima, é um pobre de mostruário. Desempregado, sustenta um filho de 12 anos com os R$ 70 que recebe mensalmente do Bolsa Família. Entrou num mercado imaginando que o benefício fora depositado em sua conta. Ao ser informado pelo caixa de que não dispunha de saldo, tentou furtar uma peça de carne para dar de comer ao filho. No desespero, esqueceu que, no Brasil, a cadeia é o habitat natural dos ladrões de galinha.

Sérgio Moro, que protagoniza o vídeo abaixo, é um ponto fora da curva na magistratura de primeiro grau. Titular de uma Vara periférica de Curitiba, tocava seus processos distraído quando esbarrou no petrolão. Ao receber da Polícia Federal e da Procuradoria a confirmação dos indícios de que a Petrobras era assaltada, mandou enjaular corruptos e corruptores. No entusiasmo, deu de ombros para a máxima segundo a qual, no Brasil, ladrão de colarinho branco não vai em cana. Virou uma celebridade instantânea.[ad name=”Retangulos – Direita”]

Furtar alguns quilos de carne exige planejamento. O ladrão precisa escolher o mercado. Depois, tem de definir o método. Onde acondicionar a carne para a fuga? Como escapar das câmeras, se existirem? Uma vez diante da mercadoria, como evitar que atendentes, seguranças e os outros clientes percebam a supressão? Sem formação superior, mal alimentado e sem vocação para o crime, Mário Lima foi flagrado. Levaram-no para a delegacia.

Assaltar a Petrobras é bem mais simples. É como no futebol. Tem toda uma estrutura anterior para preparar o gol. O presidente da República delega aos partidos a escalação do time. As legendas acomodam funcionários gananciosos no meio de campo. Esses funcionários armam todas as jogadas. E o cartel de empreiteiras entra em campo apenas para fazer o gol —ou cometer o crime. Ao final, divide-se a bolada. Os salteadores da Petrobras tiveram o azar de cair nas mãos do juiz Moro, um estudioso aplicado da italiana Operação Mãos Limpas.

Ao comparecer ao lançamento de um livro em São Paulo, Moro foi tratado como um astro. Por quê? Simplesmente porque ousou injetar uma dose de anormalidade na vida normal do Brasil. O juiz cumpriu a lei. Espanto! Ele autorizou a devassa nos negócios dos criminosos limpinhos. Pasmo!! Ele manteve na carceragem da PF por cinco meses a nata do baronato das empreiteiras. Estupefação!!! O STF já livrou a turma da construção pesada do xilindró. Mas ainda não teve a coragem de devolver os suspeitos às ruas. Mandou-os para a prisão domiciliar.

A plateia estava acostumada com aquele outro Brasil em que só iam para a cadeia pobres-diabos como o eletricista Mário Lima. Mas esse país já não é o mesmo. Noutros tempos, não convinha conversar com um policial a não ser em legítima defesa. Hoje, já se encontram agentes como os que prenderam o “ladrão” famélico.

Os policiais tiveram paciência para ouvir o drama de Mário Lima. Uma policial pagou-lhe a fiança. Desautorizou a divulgação do seu nome. Cristã, ajuda o próximo sem interesse pela publicidade. Outros, policiais cotizaram-se para encher a geladeira do desempregado. Decidiram levar os lábios ao trombone por acreditar que a exposição do caso poderia render um emprego para Mário Lima. Sim, ele quer trabalhar.

Retorne-se, por oportuno, ao início do texto: num instante em que a política se eterniza como um conto do vigário em que o país não se cansa de cair, o eletricista desesperado e o juiz desassombrado ajudam a entender o país. Enquanto esses dois personagens forem tratados como excentricidades, o Brasil não terá jeito.

No dia em que Sérgio Moro deixar de ser uma exceção, a corrupção graúda talvez não coma todo o queijo. E o Estado talvez pare de distribuir para gente como Mário Lima apenas os buracos. Até lá, juiz popular e trabalhador faminto não serão senão manifestações de um Brasil arcaico.
Josias de Souza

Relatório do Banco Mundial afirma que Brasil praticamente conseguiu erradicar a extrema pobreza

“De 1990 a 2009, cerca de 60% dos brasileiros passaram a um nível de renda maior. Ao todo, 25 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema ou moderada”, afirma o documento.
Mobilidade, Brasil,Banco Mundial,Blog do Mesquita

Em 20 anos, cerca de 60% dos brasileiros passaram a ter um nível de renda maior.

“Quando eu era jovem, os pobres não tinham nenhuma oportunidade. Hoje, acho que o Brasil está menos desigual.

Dois dos meus netos, por exemplo, conseguiram fazer faculdade e agora estão formados”, conta a empregada doméstica aposentada Maria de Souza Moreira, 80 anos, enquanto espera um ônibus na rodoviária de Brasília, a apenas 3km do palácio presidencial.

A impressão é comprovada em números e análises em um novo relatório do Banco Mundial.  “Prosperidade Compartilhada e Erradicação da Pobreza na América Latina e Caribe” mostra que o Brasil conseguiu praticamente erradicar a extrema pobreza, e o fez mais rápido que os países vizinhos. Para completar, o país acabou puxando para cima o desempenho da região como um todo.

“Entre 2001 e 2013, o percentual da população vivendo em extrema pobreza caiu de 10% para 4%”, informa o estudo. “De 1990 a 2009, cerca de 60% dos brasileiros passaram a um nível de renda maior.

Ao todo, 25 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema ou moderada. Isso representa uma em cada duas pessoas que saíram da pobreza na América Latina e no Caribe durante o período.”[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Os autores lembram que, até 1999, os índices de extrema pobreza no país e no resto da região eram parecidos, em torno de 26%. Foi em 2012 que se observou uma redução maior no percentual brasileiro: 9,6%, ante os 12% regionais.

Também chamam a atenção os indicadores de mobilidade social nesse período. Atualmente, os do Brasil ficam em terceiro lugar na região, atrás do Chile e da Costa Rica.

O bom desempenho brasileiro se explica por três motivos. Primeiro, pelo crescimento econômico a partir de 2001, bem mais estável que o registrado nas duas décadas anteriores. Segundo, pelas políticas públicas com foco na erradicação da pobreza, como Bolsa Família e Brasil sem Miséria.

Terceiro, pelo mercado de trabalho nacional: no período da pesquisa, aumentaram as taxas de emprego e o percentual de empregos formais (60% em 2012). O relatório ainda aponta a evolução do salário mínimo, que fortaleceu o poder de compra dos brasileiros.

Saiba mais sobre o relatório clicando aqui.

Eleições 2014: Aécio Neves e o bolsa família

Política Justo Veríssimo Chico Anysio Blog do MesquitaAno eleitoral é ano de “milagres”!

A Comissão de Assuntos Sociais (CAS), aprovou o projeto PLS 458/2013, de autoria do tucano Aécio Neves (MG), que altera a Lei 10.836/2004, que criou o Programa Bolsa Família.

De acordo com a proposta, o beneficiário que conseguir emprego poderá permanecer no programa por ainda mais seis meses.

Explica o Sr. Aécio Neves, defendendo seu (dele) projeto:
“A proposta que nós aprovamos significa que um cidadão que conseguir o emprego, sendo ele beneficiário do Bolsa Família, por seis meses, poderá continuar recebendo concomitantemente com o seu salário, formalizado em carteira, também o Bolsa Família”.

PS.
Pergunto eu: mas desde criancinha o PSDB inteiro não era contra o programa?

Não é fato registrado – tem dezenas de vídeos no Youtube – que líderes do partido foram inúmeras vezes à tribuna do Congresso nos últimos anos, condenado o programa como assistencialista, eleitoreiro e responsável pela escassez da mão de obra no campo?
Como diz o dito popular: “se sei não cresço”!


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Bolsa Família: Como não ou sim?

Mídia Manipulação Pinochio Blog do MesquitaTodos os que são anti-PT descem o malho no programa desde o nascedouro.

Ou então estive delirando nos últimos 10 anos. As demais soluções, educação, saúde, etc., desde Cabral são mais que sabidas. O programa em si é do que trato.

De Álvaro Dias a José Agripino. De Miriam Leitão ao Reinaldo Azevedo. Do Merval Pereira ao Sardenberg. Do Ronaldo Caiado ao Bolsonaro. Do Tasso Jereissati ao ACM. Do Heráclito Fortes ao Demóstenes Torres. Do Marconi Perillo ao Eduardo Azeredo. A lista é enorme.

Na campanha da eleição de D. Dilma há uma fala do Aécio na TV durante a propaganda eleitoral condenando o programa. O Serra então nunca poupou marretadas no programa.

Há centenas de artigos de jornais e milhares de posts nas redes sociais bradando contra o programa como moeda de compra de votos.

Manifestos e mais manifestos de associações, como os do Clube Militar estão disponíveis para consulta.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Que essa massa de miseráveis troca o dinheiro pra beber cachaça, que pessoas com carros e casa recebem o bolsa, que foram esses votos que elegeram D. Dilma, e blá, blá, blá… Há cartas do PSDB/DEM de princípios condenando o programa.

Centenas de discursos de parlamentares da oposição estão disponíveis nos anais do congresso. Ou é benéfico e as críticas devem ser recolhidas e as desculpas oferecidas, ou é maléfico, eleitoreiro e deve ser extinto. Agora próximo às eleições começa o “vasilinamento”.

Assim aguardo que o próximo presidente venda o aero Lula – outro alvo implacável de condenações – e passe a voar de TAM e Gol.

Aguardo candidato da oposição subir em palanque, e coerente com discurso dos últimos anos, pronunciados ao milhares das tribunas dos parlamentos, e verbalizados em milhares de entrevistas, afirmar taxativamente que irá extinguir o bolsa família. Pago pra ver.

Aguardo com ansiedade que o Sr. Aécio Neves tenha a coragem e decência programática, e anuncie em alto e bom som, e com todas as letras, em palanques, propaganda eleitoral na TV e em entrevistas que irá extinguir o bolsa família. É o mínimo de coerência com o discurso feito pelas oposições ao longo dos últimos anos.

Ps. Não sou filiado à porcaria de partido nenhum, nem nunca fiz campanha para porcaria de nenhum político.

Eleições 2014,médicos cubanos e bolsa família

Demagogia Blog do MesquitaQuero ver, por coerência, qualquer candidato, qualquer um, de qualquer partido – principalmente aqueles cujos parlamentares esbravejam nas tribunas contra o programa – subir em palanque e dizer que vai acabar com o bolsa família, e despachar de volta aos países de origem os médicos estrangeiros.

Du-vi-dê-ó-dó.


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Metade dos gastos de Dilma vai para programas sociais

Com o impulso do reajuste do salário mínimo e da reformulação do Bolsa Família, os programas sociais de transferência de renda alcançaram peso inédito no gasto público e na economia do país.

Recursos pagos diretamente a famílias representaram mais da metade –exatos 50,4%– das despesas do governo federal no ano passado, excluídos da conta os encargos da dívida pública.

Dados recém-apurados da execução orçamentária mostram que o montante chegou a R$ 405,2 bilhões, distribuídos entre o regime geral de previdência, o amparo ao trabalhador e a assistência.

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[ad#Retangulo – Anuncios – Esquerda]Trata-se de 9,2% do Produto Interno Bruto, ou seja, de todos os valores recebidos pela população e pelas empresas instaladas no país.

São proporções sem paralelo entre países emergentes, o que ajuda a explicar a também anômala carga de impostos brasileira, na casa de 35% da renda nacional.

Na maior parte das economias latino-americanas e asiáticas, a arrecadação dos governos varia entre 20% e 25% do PIB –apenas recentemente, a Argentina chegou aos patamares do Brasil.

A carga tributária dos dois sul-americanos é similar à média de 34 países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, que reúne, na sua maior parte, nações desenvolvidas.

O aparato de seguridade social no Brasil é encabeçado pela previdência social urbana, cuja clientela cresce ano a ano em linha com o aumento da expectativa de vida da população.

As despesas recordes do ano passado foram alimentadas pelo aumento do salário mínimo de 7,5% acima da inflação, o maior desde o ano eleitoral de 2006.

Além das aposentadorias e pensões, os benefícios trabalhistas e assistenciais de caráter universal –direitos de todos os que preencherem os requisitos da legislação– também têm o piso salarial como referência.

Estão nessa lista o seguro-desemprego, o abono salarial e a assistência obrigatória a idosos e deficientes de baixa renda, todos com aumento de transferências em 2012.

O abono salarial cresce ainda com a formalização da mão de obra, uma vez que trabalhadores sem carteira não têm direito ao benefício.

Na quinta-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou taxa de desemprego de 5,5% em 2012, a menor da série histórica anual iniciada em 2003.

Já no caso do seguro-desemprego, foi editado decreto destinado a conter o aumento de gastos, com a exigência de curso profissionalizante para os trabalhadores que ingressam pela terceira vez no programa.

Bolsa Família

A expansão mais aguda de despesas se dá no Bolsa Família, que paga benefícios não vinculados ao salário mínimo a uma clientela cadastrada pelo governo entre famílias pobres e miseráveis.

Principal marca da administração petista, o programa passou, na gestão de Dilma Rousseff, pela maior reformulação desde que foi criado há quase uma década.

Os benefícios foram reajustados e passaram a ser calculados para que as famílias com filhos possam ultrapassar a linha da miséria, fixada em R$ 70 mensais por pessoa.

Em consequência, a despesa com a clientela de 13,9 milhões de famílias saltou de R$ 13,6 bilhões, no fim do governo Lula, para R$ 20,5 bilhões no ano passado.

Editoria de Arte/Folhapress

Gustavo Patu, de Brasília/Folha de S.Paulo
Colaborou Gitânio Fortes, de São Paulo