Entenda o esquema que pode ter ‘comprado’ o futebol sul-americano

A cobertura jornalística internacional sobre o escândalo de corrupção na Fifa concentrou-se nas denúncias de suborno envolvendo altos executivos da entidade e personagens mais publicamente polêmicos, como Jack Warner, de Trinidad e Tobago, e o americano Chuck Blazer.

Nicolas Leoz
O ex-presidente da Conmebol, Nicolas Leoz, é acusado de ser um dos principais beneficiários do esquema.

No entanto, a maioria das prisões de dirigentes efetuadas durante o congresso da Fifa, em Zurique (Suíça), a pedido da Polícia Federal americana (FBI), esteve ligada aos meandros da batalha pelo controle comercial dos jogos de seleções no continente americano, em especial o mais importante torneio da região, a Copa América.

Leia mais: Escândalo sobre sede olímpica de 2002 traz lições à Fifa

Enquanto Warner, por exemplo, é acusado de receber uma propina de US$ 10 milhões para votar na candidatura da África do Sul à Copa do Mundo de 2010, um outro vice-presidente da Fifa, o paraguaio Eugenio Figueredo, é alvo de denúncias que envolvem dez vezes esse valor.

Suborno

Figueredo é um de pelo menos 11 dirigentes da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) que, segundo suspeitas, teriam recebido vultosos pagamentos para garantir à empresa de marketing esportivo Traffic Sports os direitos comerciais sobre quatro edições da Copa América, incluindo a que teve início na quinta-feira, no Chile. Um grupo que inclui o ex-presidente da CBF, José Maria Marin.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

A Copa América (na qual o Brasil estreia neste domingo contra o Peru) é um dos mais assistidos torneios de futebol do mundo e, em 2011, estima-se que audiência cumulativa do torneio tenha sido de 5 bilhões de pessoas.

Presos
Leoz e os outros dirigentes que são alvo da investigação do FBI

Um torneio especial para celebrar o centenário de realização da primeira edição da Copa América, que será disputado nos EUA no ano que vem, representou um injeção extra de caixa de US$ 112,5 milhões para a Conmebol e a US Soccer.

Desde 1986, os direitos comerciais estiveram sob controle da Traffic Sports. A empresa ainda tem o nome de quando vendia publicidade estática em pontos de ônibus mas evoluiu para uma das principais agências de marketing esportivo das Américas.

Apenas para a Copa América de 2007, de acordo com informações averiguadas pelo FBI, a Traffic arrecadou cerca de US$ 75 milhões com a venda dos direitos de transmissão e marketing do torneio, com um lucro de quase US$ 30 milhões.

E o mandado de prisão expedido pelas autoridades americanas acusa a companhia de, durante 30 anos, ter usado propinas para convencer os oficiais da Conmebol.

Alega-se que os executivos da Traffic e outras companhias subornaram dois presidentes da Conmebol e presidentes de noves associações nacionais, incluindo Brasil e Argentina.

Marin
O ex-presidente da CBF, José Maria Marin, foi preso na Suíça a pedido das autoridades americanas

Segundo denúncias, o caso mais antigo de pagamento de propina data de 1991, quando o paraguaio Nicolas Leoz, o então mandatária da Conmebol, pediu dinheiro ao fundador da Traffic, o brasileiro José Hawilla, para negociar os direitos comerciais.

Hawilla é réu confesso no caso e colabora com as investigações do FBI desde 2013.

Extrajudicial

De acordo com a investigação do FBI, Leoz a partir daí pediu pagamentos adicionais a cada torneio. Estima-se que até 2011, quando deixou a Conmebol, Leoz tenha recebido US$ 1 milhão por Copa América. Detalhe: entre 1989 e 2007, o torneio foi disputado de dois em dois anos.

Outros dirigentes também teriam se interessado e, durante os preparativos para a Copa América de 2007, disputada na Venezuela, o então presidente da federação de futebol do país, Rafael Esquivel, pediu US$ 1,7 milhão à Traffic. A agência pagou, segundo o FBI, usando esquemas de lavagem de dinheiro para não despertar suspeitas.

José Hawilla
O fundador e dono da Traffic, José Hawilla

Em 2010, no entanto, a agência parecia derrotada: seis presidentes de federações tentaram levar os direitos comerciais para uma empresa de marketing rival, a Full Play.

A resposta da Traffic foi levar a Conmebol e a Full Play à Justiça nos Estados Unidos, alegando que seu contrato com a entidade ia até a Copa América de 2015.

O caso nunca chegou aos tribunais: a Traffic e a Full Play fizeram um acordo extrajudicial e se juntaram a uma terceira companhia, a Torneos y Competencias, para criar uma nova companhia (Datisa) e dividir as receitas comerciais.

A partir daí, a investigação das autoridades americanas indica que a corrupção teria aumentado de forma significativa: os US$ 100 milhões que garantiram à Datisa os direitos até a Copa América de 2023 teriam sido divididos entre os presidentes das nove confederações sul-americanas (US$ 3 milhões para Brasil e Argentina e US$ 1,5 milhão para o restante a cada torneio, por exemplo).

O total de propinas teria correspondido a um terço do que a Datisa pagou oficialmente pelos direitos oficiais da Copa América (317,5 milhões).

Equivale a dizer que, em média, a Datisa pagou US$ 1 milhão por cada jogo, inclusive os da atual competição no Chile.
Paul Sargeant/BBC News

Juca Kfouri: negócios da TV no futebol podem ser piores que os de empreiteiras

Juca Kfouri, que se restabelece de um problema sério de saúde justamente em meio ao caldeirão que se tornou o futebol – mundial e brasileiro – nestes dias, publica hoje um texto de “memórias”  sobre os personagens brasileiros deste “Fifalão”.
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Lembranças que terminam com uma frase demolidora: ” o mundo das transmissões esportivas pode ser mais sujo e pesado que o das empreiteiras”

É impossível separar os muitos milhões que elas custam dos muito mais milhões que geram e dos vários milhões que, para consegui-las, se distribuem das gavetas para gavetas.

Por mais que seja cultivada entre nós – sobretudo os que amam o jornalismo esportivo, onde comecei, como estagiário, minha vida profissional –  a esperança de que tudo se modifique, sabemos que o dinheiro é um Moloch e pode estar em curso – qualquer semelhança é mera coincidência, apenas uma mudança donos mundiais  do futebol.

Preciosas, mesmo, são as gavetas da memória de Juca, das quais saem histórias do passado que ajudam a entender o presente. E a temer, sem que isso faça senão encorajar a luta destemida, pelo futuro.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Jogar o jogo

Juca Kfouri, na Folha

Já contei as três histórias aqui, separadamente.

José Maria Marin, então presidente da FPF, em 1985, depois de ter sido governador biônico de São Paulo, me garantiu, num voo para Assunção, que era impossível sair pobre do Palácio dos Bandeirantes.

Íamos ambos a um jogo da seleção brasileira contra a paraguaia pelas eliminatórias da Copa de 1986.

Dizia ele que independentemente da vontade do político, tudo que se fazia no Estado separava 10% ao governador e não seria ele a mudar tal estado de coisas.

Nunca antes eu estivera com Marin.

Dez anos depois, recebi a visita de J.Hawilla em meu escritório, pois eu acabara de iniciar minha carreira solo depois de 25 anos de Editora Abril. Roberto Civita me pedira para parar de criticar Ricardo Teixeira, porque eu inviabilizava que a TVA fizesse contratos com a CBF.

Hawilla dizia não aguentar mais ter de acordar antes dos filhos para pegar aFolha, e esconder deles, caso tivesse alguma coluna minha contando seus malfeitos.

Jurou que não era sócio de Ricardo Teixeira e garantiu que adoraria viver num mundo em que não fosse necessário comprar cartolas, mas que ele jogava o jogo.

Tínhamos até pouco tempo antes deste encontro uma boa relação. E ele me propôs ser sócio da Traffic.

Finalmente, em 1992, eu havia sido convidado para almoçar com o engenheiro Norberto Odebrecht.

Então, além da “Placar”, eu dirigia a “Playboy”, que fizera reveladora reportagem sobre as empreiteiras brasileiras, de autoria do repórter Fernando Valeika de Barros.

Era demolidora. Como ilustração, um muro de ouro, lama e sangue.

O fundador de uma das maiores construtoras do país foi direto ao ponto, após elogiar a exatidão do que havia lido: “Você acha que eu gosto de ter de pagar para bandido liberar o que os governos me devem?”

Antes de responder, me lembrei da conversa com Marin.

Ao responder, com a arrogância que caracteriza a nós, jornalistas, primeiramente agradeci o elogio feito à reportagem. E em vez de responder, fiz nova pergunta: “Mas por que alguém tão poderoso como o senhor não denuncia os bandidos?”.

“Porque eles acabam comigo e com milhares de empregos que mantenho no Brasil e no exterior.”

Não me restou outra saída que não a de dizer que por essas e por outras é que sou jornalista, não empreendedor.

Diga-se, a bem da verdade, que em nenhum momento da realização da matéria houve qualquer pressão por parte da Odebrecht, diferentemente do que fez a CBF para negociar direitos de TV com a Abril.

Tudo isso para contar que o mundo das transmissões esportivas pode ser mais sujo e pesado que o das empreiteiras.

Além de ter um charme, um glamour, ainda maior, uma gente esperta que, de repente, vai a Suíça e fica. Presa.

E também para insistir que ou se criam novos métodos de governança ou tudo seguirá na mesma porque o Homem, como se sabe, é um projeto que não deu certo.

Só nisso, Juca, faço-te um “meio reparo”. Ainda não deu certo, mas há de dar.
Fonte: Tijolaço

Fifa, trabalho voluntário, a lei e o “eu quero é que o país se exploda.”

Voluntario da Copa de Futebol de 2014,Fifa,EsportesA Taba Tapuia é mesmo um lupanar.

A mafiosa Fifa determinou aos bananas que dirigem essa pocilga o que bem quis para autorizar a realização da nefanda Copa do Mundo de Futebol.

Leis foram modificadas, violadas e jogadas à sarjeta, e outras leis foram feitas para facilitar ação da turma de Mr. Blatter.

E o número de abestados que a tudo isso assiste passivamente é impressionante.

Alguns mais parciais que os panfletinhos de circulação semanal – torcedores que diuturnamente criticam, com razão, os gastos e roubalheiras do governo, não necessariamente nessa ordem, mas que gostam do chamado rude esporte bretão pelos locutores de rádio d’antanho – não reclamam dessa imoralidade, nem tampouco irão deixar de comparecer aos jogos nos estádios superfaturados. Interessam assistir aos canelas de paus, e que hospitais e escolas se danem.

Pois bem; entre as aberrações jurídicas promovidas pelos mafiosos está a descarada violação da legislação trabalhista em vigor no Brasil.

Ouvi no noticiário um dos prepostos da entidade futebolística, que ainda existem vagas para os que queiram trabalhar como voluntários no biliardário evento. Isso mesmo.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Trabalho voluntário.

Mas – tem sempre um mas, essa incômoda conjunção coordenativa, para atrapalhar – determina a Lei n. 9.608/98 – que dispõe sobre o serviço voluntário e dá outras providências – em seu Art.1º “Considera-se serviço voluntário, para fins desta Lei, a atividade não remunerada, prestada por pessoa física a entidade pública de qualquer natureza, ou a instituição privada de fins não lucrativos, que tenha objetivos cívicos, culturais, educacionais, científicos, recreativos ou de assistência social, inclusive mutualidade.”

A “famiglia” que “toma de conta” do futebol mundial não é nem uma entidade pública, e muito menos uma entidade sem fins lucrativos. Em março de 2014 a FIFA já anunciou que em 2013 obteve o maior lucro de sua história! E isso antes da copa. Imaginemos o depois!

“Pois pois” diriam espantados os correligionários de Eça.

Copa do Mundo e saúde pública

Por favor: não peça que seja aplicado na saúde o que foi aplicado na Copa.

Em sete anos foram aplicados nos estádios, ops, arenas, desculpe viu Dom Blatter (?), 38 bilhões de reais – esses valores não são confiáveis, nem nunca os Tapuias saberão “a baba” que as empreiteiras embolsaram – mas estão inclusos aí além do custo dos estádios, as demais obras correlatas externas às arenas.

Nesses mesmos sete anos foram aplicados na saúde cerca de R$ 570 bilhões. Mesmo assim uma merreca.

Assim quando você porta um cartaz com essa reivindicação, está pedindo, sem prestar atenção, que os investimentos em saúde sejam reduzidos.


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