As surpreendentes semelhanças entre o coronavírus e a peste bubônica

Novas pesquisas da Universidade de Barcelona analisam os paralelos entre a atual pandemia e a doença que varreu o Império Bizantino, há 1.500 anos

A pandemia se originou em uma terra estrangeira e se estendeu rapidamente por todos os portos onde os passageiros infectados chegaram – assintomáticos ou não. Não havia cura médica disponível para detê-lo, todos os moradores estavam confinados em suas casas para evitar contágio, a economia parou, o exército foi colocado nas ruas, os médicos exaustos se esforçaram até os ossos e havia milhares de vítimas cujos corpos ficaram sem enterro “por dias a fio, porque escavadores não podiam trabalhar rápido o suficiente …”

Este não é um relato da pandemia de coronavírus de 2020. É a crônica fornecida pelo historiador Procópio de Cesareia sobre o surto de peste bubônica que ocorreu no mundo conhecido entre 541 e 544, sob o imperador bizantino Justiniano I. A doença varreu vasto território, da China às cidades portuárias da Hispânia, como os romanos chamavam de Península Ibérica.

PROCÓPIO HISTÓRIADOR DE CAESAREA
Um novo estudo chamado La Plaga de Justinià, Segons el Testimoni de Procopi (ou A praga de Justiniano segundo o testemunho de Procópio), de Jordina Sales Carbonell, pesquisadora da Universidade de Barcelona, ​​acrescenta nova relevância a esse conto antigo escrito 1.500 anos atrás.

“A partir de 1º de abril de 2020, certas semelhanças e paralelos observados no comportamento humano em relação a um vírus e suas conseqüências parecem tão familiares e contemporâneas que, apesar da tragédia que todos estamos enfrentando pessoalmente, permanece uma fonte de espanto como a história se repete. , Escreve este arqueólogo e historiador Sales Carbonell, que trabalha no Instituto de Pesquisa de Cultura Medieval da universidade.

No ano de 541, sob o governo bizantino Justiniano, houve um surto de peste bubônica no império. “O alarme soou no Egito, de onde a infecção se expandiu rápida e letalmente.” Procópio refletiu isso em seu livro History of the Wars, onde contou as campanhas militares de Justiniano na Itália, norte da África e Hispânia, e como os soldados espalharam a doença pelos portos em que pararam – fundamentalmente na Europa, norte da África, Império Sasaniano (Pérsia). ) e de lá até a China.

Como consultor jurídico de Belisarius, principal comandante militar de Justiniano, Procópio acompanhou as campanhas deste último e, assim, tornou-se uma “testemunha privilegiada” dos efeitos de uma pandemia que passou a ser conhecida como a Praga de Justiniano.

Continua sendo uma fonte de espanto como a história se repete.

“Surgiu uma epidemia que quase aniquilou toda a raça humana e é impossível encontrar uma explicação com palavras, nem mesmo com pensamentos, exceto para atribuí-la à vontade de Deus”, escreveu Procópio. “Essa epidemia não afetou uma porção limitada da Terra, nem um conjunto específico de homens, nem foi reduzida a uma estação específica do ano […], mas se espalhou e atacou toda a vida humana, não importa quão diferente os indivíduos podem ser, sem levar em conta a natureza ou a idade. ” A doença atingiu “todos os cantos do mundo, como se tivesse medo de perder um lugar”.

Um ano após a primeira detecção, a praga atingiu a capital do império, Bizâncio (atual Istambul), devastando-a por quatro meses. “Houve confinamento e isolamento completos”, escreve Sales Carbonell em seu estudo. “Era absolutamente obrigatório para pessoas doentes. Mas havia também um tipo de autocontrole espontâneo e intuitivamente voluntário, amplamente motivado pelas circunstâncias. ”

“Não foi nada fácil ver alguém em espaços públicos, pelo menos em Bizâncio; em vez disso, todos que estavam saudáveis ​​estavam em casa, cuidando dos doentes ou chorando por seus mortos ”, escreveu Procópio.

Enquanto isso, a economia estava em queda livre. “As atividades cessaram e os artesãos abandonaram todo o trabalho que estavam fazendo.” Ao contrário de hoje, no entanto, as autoridades não conseguiram garantir o fornecimento de serviços essenciais. “Parecia muito difícil obter pão ou qualquer outro tipo de alimento, de modo que, no caso de alguns pacientes, o fim de sua vida foi sem dúvida prematuro devido à falta de itens essenciais”, escreveu Procópio em History of the Wars.

“Muitos morreram porque não tinham ninguém para cuidar deles”, acrescentou. Os cuidadores da época “caíram de exaustão porque não conseguiam descansar e estavam sofrendo constantemente. Por causa disso, todos sentiram mais pena deles do que dos doentes.”

Patrulhas nas ruas

À luz da situação desesperadora, o imperador enviou grupos de guardas do palácio para patrulhar as ruas e os corpos de pessoas que morreram sozinhos foram enterrados às custas dos cofres imperiais, escreveu o historiador. Até o próprio Justiniano foi vítima da peste, mas a superou e continuou a reinar por mais de uma década.

Os picos de mortalidade aumentaram de 5.000 para 10.000 vítimas por dia e mais, de modo que, “embora, a princípio, todos cuidassem de seus mortos em casa, o caos se tornou inevitável e cadáveres também foram jogados dentro dos túmulos de outros, furtivamente ou usando violência. ” Com o tempo, os corpos começaram a se acumular dentro das torres e não havia serviços funerários para eles.

Quando a pandemia finalmente terminou, uma coisa positiva surgiu.

“Os que apoiaram as várias facções políticas abandonaram as acusações mútuas. Mesmo aqueles que haviam sido dados anteriormente a atos baixos e maus abandonaram todo o mal em suas vidas cotidianas, porque necessidades imperiosas os fizeram aprender sobre a honestidade ”, escreveu Procópio.

“Esse elemento da poesia oferece um pouco de esperança de que talvez possamos superar isso e não tropeçar novamente na mesma pedra”, diz Sales Carbonell, parecendo mais esperançoso do que certo de si mesma.

Clima,Meio Ambiente,Blog do Mesquita

“Se você não se preocupa com as plantas, é possível que não saiba cuidar de outro ser humano”

A cada ano, 2.100 espécies vegetais fascinam as 250.000 pessoas que visitam o jardim botânico da Universidade Harvard, em Boston. Seu diretor admite que ele próprio não deixa de se surpreender com elas

O biólogo Wiiliam Friedman, em uma recente visita a San Sebastián, na Espanha.
O biólogo Wiiliam Friedman, em uma recente visita a San Sebastián, na Espanha. ADELINE MARCOS (SINC)

Milhares de crianças visitam anualmente o Arnold Arboretum, o jardim botânico da Universidade Harvard, em Boston (EUA), onde há uma norma: todos são capazes de ensinar, dos universitários aos cientistas, passando pelos funcionários.

Um deles é o biólogo William Friedman, que esteve recentemente na Espanha para participar do festival científico Passion for Knowledge (P4K), em San Sebastián. Apaixonado pelas plantas, Friedman é professor de Biologia Evolutiva e dos Organismos na Universidade de Harvard e dedicou toda sua carreira ao estudo da diversificação evolutiva das plantas.

Pergunta. Você demonstrou que as plantas têm relações especiais e se ajudam mutuamente. Nesse sentido, são melhores que nós?

Resposta. Do ponto de vista de um biólogo evolutivo, entre as plantas ocorre uma grande quantidade de mortes prematuras. Por cada pássaro que você vê pela janela, 199 morreram. Por cada planta que você vê, quantas sementes caíram ou cresceram um pouco e não conseguiram ir além? As plantas fazem coisas maravilhosas ao cooperar entre elas, mas às vezes têm um lado sombrio.

P. Que aspecto das plantas mais o surpreendeu ao longo de sua carreira?

R. Tive surpresas incríveis ao longo de minha vida, sobretudo com o estudo da origem evolutiva das plantas de flor, que são um grupo muito recente, o mais jovem. Como é possível então que estejam por toda parte? Estudei o tecido interior das sementes onde as mães põem seu alimento, e que depois vai para o embrião. É algo que domesticamos para comer, o chamado endoesperma. Comemos um grão de arroz ou de milho porque está cheio de nutrientes. Descobri muitas coisas sobre este processo.

P. Como o quê?

R. Que mães e pais diferem quanto à contribuição nutritiva desse tecido, e podemos ver isso com análises genéticas. Quando observo uma semente, posso ver os genes da mãe e os do pai, como estes debatem sobre quanto alimento deveria haver. Estou há vinte anos me perguntando se pais e mães discutem sobre como alimentar a seu broto, e nos cinco últimos anos descobrimos…

P. E quem ganha?

R. Ah [risos], pois a verdade é que depende. Essa é a questão. Em geral, os pais são doadores de esperma, e as mães do óvulo, mas além disso eles têm que alimentar. Alguém se envolve mais que o outro, que só fornece os seus genes. Isto ocorre com os animais, mas também com as plantas.

P. Então, o que quer um pai quando dá seus genes a uma semente da mãe?

R. Que essa semente tenha todo o alimento possível. As mães têm muitas sementes, mas selecionam e rejeitam as que acreditam que não são boas, porque têm recursos limitados e precisam decidir onde investem seu alimento.

P. E ao analisar essas sementes, que mais se pode ver?

R. Nos estudos de genética molecular se pode ver inclusive como tudo isto ocorre. Como fazem diferentes investimentos, os pais são egoístas, e as mães tentam tomar decisões universais. Se uma mãe com 100 sementes só tem comida para 50, em quais vai investir? Ela vai se perguntar quais são as melhores. As fêmeas reconhecem as sementes que podem estar aparentadas geneticamente e fecham a chegada do pólen de maneira bioquímica. Estão continuamente filtrando os pais. É uma das grandes histórias das plantas, e não creio que muita gente a conheça.

P. Quando rejeitam um pai, podem escolher outro?

R. No caso dos pinheiros, que polinizam por meio do vento, a mãe recebe o esperma de muitos pais, e assim pode escolher. Se insetos entrarem em jogo, a cada flor chegam pais de diferentes origens, e as mães faz que compitam entre si.

P. Mas como sabem se são bons pais?

R. Conhecem os atributos genéticos do pai, é incrível. Em alguns casos, saberão se o pai é um parente direto; em outros saberão se não é um bom partido, e então as mães interromperão a fertilização. E inclusive quando a fertilização já começou elas podem abortar as sementes. Durante muitos anos me diverti entendendo que as plantas, como os humanos e outros animais, têm conversas entre progenitores e tomam decisões.

P. Quando começou a se interessar pelas plantas?

R. Cresci no campo, mas foi nas aulas de Biologia do colégio onde me interessei mais. Não era bom, mas eu gostava tanto… Uma manhã, estávamos no laboratório e tínhamos um porco peludo morto em formol, que tínhamos que dissecar. Não gostei nada. Não tinha nem ideia de como os animais funcionavam. Então pensei que talvez não devesse ser biólogo [risos]. Mas de repente apareceram as plantas, e senti com elas uma conexão instintiva e profunda. Tive muita sorte em experimentar essa sensação com as plantas e seguir em frente.

P. Então na verdade foram as plantas que o escolheram…

R. A verdade é que sim, e me sinto muito afortunado de ter descoberto seu mundo [risos].

P. De todas as características das plantas, qual delas foi para você inimaginável quando começou a estudá-las?

R. As plantas fazem muitas coisas estranhas. Conhece o ginkgo? É uma árvore muito antiga, presente nas cidades. Tem dois sexos (os que fazem o pólen, os machos, e os que fazem as sementes, as fêmeas), mas você não vai vê-las juntas em Madri. Não verá nenhuma semente pela cidade, e a razão é que têm um cheiro muito forte, então só os machos são plantados. No jardim botânico de Harvard temos fêmeas, e cheiram a vômito por causa do ácido butírico do seu interior. As sementes estão dispersas pelo chão, e cheira como se todo mundo na cidade tivesse vomitado ali. É muito forte.

P. E que sentido tem que as fêmeas façam isto?

R. Algum animal extinto achou que cheiravam muito bem e começou a comer as sementes para dispersá-las. A planta ficou com esse código, que cheira péssimo para nós, mas você pode ver todo tipo de moscas, que dispersam sementes, voando ao redor.

P. Foi sua maneira de se adaptar e sobreviver, mas em geral as plantas enfrentam muitas ameaças…

R. Sim, como os patógenos invasores que se deslocam em pallets de madeira transportados em navios. Como movimentamos coisas pelo mundo todo e às vezes não tomamos cuidado, continuamos introduzindo ameaças que poderiam aniquilar toda uma espécie. Podem ser insetos, cogumelos ou bactérias nos lugares mais insuspeitos, como as solas dos meus sapatos.

P. Todo isso piorará com a crise climática.

R. Claro. A mudança climática agrava a situação. Posso lhe dar um exemplo. No jardim botânico temos magníficas faias que padecem de uma enfermidade causada por um cogumelo invasor. As árvores podem lutar contra a epidemia, como você e eu fazemos se estivermos saudáveis, mas o que acontece se estivermos estressados, se formos mais velhos ou nos alimentarmos mal? Neste sentido, as plantas são exatamente iguais aos humanos. Há três anos tivemos a pior seca da região. Durante dois meses sofremos condições de aridez, e nos dois anos posteriores as árvores doentes terminaram por perecer. A doença ganhou. As faias estavam tão estressadas por causa da seca que não puderam lutar. Tivemos que abater árvores de três metros de largura que tinham morrido. E isto está sendo visto com insetos e aves por todo o mundo. A questão é se nos preocupa ou não. Acredito que à maioria sim, mas não aos que têm o poder para tomar decisões.

P. Por que se preocupar com as plantas, perguntarão muitos?

R. Claro, não somos nós. Os pássaros não somos nós, os insetos não somos nós. Se você não consegue se preocupar com uma planta, é possível que não consiga cuidar de outro ser humano. Dizem que devemos nos preocupar com a natureza porque, se não, perderemos a capacidade de alimentar o mundo, mas não acredito que seja a principal razão.

P. E qual seria?

R. Pensar que todos estes organismos são nossa comida e dependem de nossa exploração é ser míope. Há um valor mais profundo. Devemos nos preocupar porque compartilhamos a Terra com eles.

P. As plantas estão há milhões de anos se adaptando, mas continuam mantendo essa capacidade agora?

R. As plantas podem se adaptar, sim. Podem se adaptar rapidamente? Sim. Podem se adaptar à velocidade com que estamos mudando o planeta? Veremos. Há 20.000 anos, em Boston, não havia nem plantas nem árvores, havia uma geleira, e agora a cidade está repleta de vegetação. As plantas se movem, mudam, crescem e se adaptam. Entretanto, as mudanças que estamos introduzindo agora são tão rápidas que certos ecossistemas tombarão.

P. O que acontecerá? Não poderemos voltar ao ponto de partida?

R. Se afinal der errado, sem dúvida será nossa culpa. Não poderemos voltar. Será um novo futuro.

P. E como será esse futuro?

R. Não sei… Talvez seja sem humanos. Mas de uma coisa estou certo: que esse futuro será muito rico graças à evolução. O mais incrível da vida é que é resistente. O equilíbrio pode voltar. Talvez nós não sejamos suficientemente resistentes, mas em milhões de anos é possível que o planeta continue sendo verde e continue tendo animais. Se quisermos continuar sendo parte disso, temos que ser mais cuidadosos.

P. Pode ser que atualmente estejamos começando a mudar. Não notou?

R. Sim, há cada vez mais consciência ambiental. Há 40 anos, quando comecei meus estudos, os cientistas não falavam com o público, achavam não ser parte do seu trabalho. Nos últimos 20 anos, o jornalismo científico virou uma maneira muito poderosa de ajudar os cientistas — que não eram bons explicando coisas — a se conectarem com as pessoas. Ser cientista não é só fazer ciência. Somos cidadãos encarregados de conscientizar os outros.

P. Algum dia saberemos tudo das plantas?

R. Não acredito… Há um poema de Alfred Tennyson chamado Flower in the Crannied Wall, de 1863, que é a resposta a sua pergunta. Se eu pudesse conhecer totalmente cada uma das plantas, conheceria todo o universo. Mas não podemos. Cada planta é tão complicada que acaba sendo impossível. É isso que torna a natureza seja tão maravilhosa.

Agricultura, sementes e genética: mundo melhor?

As sementes geneticamente modificadas e o decálogo para um mundo melhor.

A atuação das grandes empresas de industrialização de produtos de alimentação nos Estados Unidos é o tema do documentário Food, Inc., de Robert Kenner, baseado no livro Fast Food Nation, do jornalista, Eric Schlosser.

[ad name=”Retangulo – Anuncios – Esquerda”]A organização que apoiou a realização do filme tem uma grande atuação na campanha pela saúde alimentar dos americanos. Sua campanha está sintetizada numa petição que afirma: “Acreditamos que os programas de nutrição financiados pelo governo federal deverão prover todas as crianças com a alimentação saudável que merece.

Isto inclui diariamente, de maneira segura, leite com baixa gordura, frutas frescas, vegetais e cereais integrais. As escolas deveriam ser zonas livre de refrigerantes e comida de baixa qualidade e servir alimentos que complemente e reforce os esforços dos pais para alimentar seus filhos saudavelmente”.

O documentário Food, Inc. além de mostrar como a indústria de alimentos manipula o conceito de alimentação saudável, ele descreve, através de depoimentos de fazendeiros, o modus operandi da empresa multinacional Monsanto, no uso de todas as medidas para legais contra os agricultores que não aceitem usar a sua semente geneticamente modificada. A semente da Monsanto está associado ao uso de um poderoso herbicida, vendido sob a marca Roundup.

Desde que a corte suprema americana autorizou o registro de patentes de sementes geneticamente modificadas, nos EUA, a Monsanto registrou a patente desta semente e submete os fazendeiros a um contrato leonino que os prende para sempre aos interesses da companhia. Para se ter uma ideia, em 1996, quando a Monsanto começou a vender a semente de soja resistente ao Roundap, somente 2% da soja nos EUA, continham seu gene patenteado. Em 2008, mais de 90% da soja nos EUA contém o gene patenteado pela Monsanto.

O fazendeiro não tem chances de se defender diante da poderosa força de advogados e lobista que a Monsanto mantém. Assim, tal como a Microsoft, a Monsanto explora os direitos patrimoniais de suas sementes geneticamente modificadas e com isso submete os agricultores à uma espécie de escravidão consentida. Se a Monsanto descobrir que um fazendeiro tem sua produção contaminada com os genes da semente geneticamente modificado ele tem que provar que ele não violou a patente, mesmo que esta contaminação tenha ocorrido pelo fato de que seus vizinhos terem usado a semente da Monsanto.

O poder da Monsanto e das corporações multinacionais como a Sodexo e outras assemelhadas, no campo da produção de alimentos, é ainda desconhecido no Brasil, mas no EUA eles provocaram o quase desaparecimento das sementes públicas, aquelas produzidas pelos institutos de pesquisas públicas e que eram disponibilizadas para os agricultores. No Brasil, já se tem notícias de que a Monsanto tem ampliado o seu poder junto à agroindústria e mais recentemente com um acordo de cooperação com a USP, onde algumas cláusulas são consideradas secretas. É também conhecido o fato de a ANP – Agência Nacional do Petróleo ter contratado a Halliburth, a famosa companhia dos Bush, para gerenciar o seu banco de dados.

O filme Food, Inc. é uma narrativa exemplar de como é possível mobilizar corações e mentes para cumprir a proclamação de Danny Glover, “nós estamos nos movendo para promover algumas mudanças reais e positivas”. E você, caro leitor, o que está fazendo para mudar a qualidade da sua alimentação.

Para auxiliar na sua reflexão, os autores do documentário prepararam um decálogo que você pode seguir, no seu cotidiano. As palavras marcadas são links para artigos e notícias relacionados com o tema, na realidade brasileira:

DECÁLOGO PARA UM MUNDO MELHOR

1. Ação: Parar de beber refrigerantes ou outras bebidas adoçadas artificialmente.

–> Razão: Se você substituir 600 ml. de refrigerantes por dia por bebidas não calóricas (de preferência água), você poderá ter uma vida mais saudável.

2. Ação: Fazer suas refeições em casa, não comer fora!

–> Razão: As crianças consomem quase o dobro de calorias quando comem comidas feitas fora de casa.

3. Ação: Apoiar a aprovação de leis locais e estaduais que exijam das cadeias de restaurantes e lanchonetes para mencionar informação sobre as quantidades de calorias nos seus menus e nos cardápios de mesa.

–> Razão: Metade das grandes cadeias de restaurantes e lanchonetes não fornece nenhuma informação nutricional para os consumidores.

4. Ação: Pressionar as escolas para encerrar a venda de refrigerantes, comida industrializada e bebidas energéticas.

–> Razão: Nas últimas duas décadas, o índice de obesidade triplicou em crianças e adolescentes com idade entre 6 e 19 anos.

5. Ação: Segunda Sem Carne… Passe, pelo menos um dia, sem comer carne!

–> Razão: Cerca de 70% dos antibióticos vendidos nos Estados Unidos, são dadas aos animais de criação para abate.

6. Ação: Compre comida orgânica e sustentável com baixo uso ou nenhum pesticida.

–> Razão: De acordo com as agência de fiscalização americanas, mais de 500 toneladas de pesticidas são usadas, em cada ano, na agricultura dos Estados Unidos.Você sabe quantas toneladas de pesticidas são usadas, em cada ano, no Brasil?

7. Ação: Proteja a agricultura familiar, visite os mercados dos produtores locais.

–> Razão: Os mercados de produtores locais permitem que estes produtores forneçam produtos mais baratos, com até 80% de economia para o consumidor.

8. Ação: Faça questão de saber de onde vem a sua comida – LEIA AS ETIQUETAS.

–>Razão: De modo geral as comidas viajam, em média, 2.500 km. do produtor ao consumidor.

9. Ação: Pressione o Congresso Nacional para que ele reconheça que a comida saudável é importante para você.

–> Razão: A cada ano, comida contaminada é a causa de milhões de doenças e centenas de mortes.

10. Ação: Exija proteção para os trabalhadores rurais e para os trabalhadores em empresas processadoras de alimentos.

–> Razão: A pobreza entre os trabalhadores rurais é quase o dobro da média dos salários dos demais trabalhadores.

Como aplicar este decálogo no Brasil? Temos agências de fiscalização que realmente atuem na defesa do consumidor? Temos organizações civis que representem um forte movimento de pressão dos consumidores para garantir alimentação saudável?

Releia o decálogo, reflita e se mova para tornar possível as mudanças que tragam um mundo cada vez mais saudável para nós e para as futuras gerações!

O debate sobre a questão a produção e venda de alimentos saudáveis abre um novo vetor. Agora a atenção para com os animais assume um lugar importante na legislação e regulação deste mercado.

Para os interessados no assunto, acrescento as informações contidas neste link: http://sociedad.elpais.com/sociedad/2012/12/17/actualidad/1355773295_316559.html

Fonte: http://reberbel.com/page/2/

Engenharia genética criará uma raça superior?

“A edição genética poderia criar uma classe social superior”

O oncologista indo-americano Siddhartha MukherjeeO oncologista indo-americano Siddhartha Mukherjee MIRIAM LÁZARO

Oncologista que ganhou Pulitzer reflete sobre como genética vai acabar com o mundo que conhecemos

O que acontece quando uma máquina aprende a ler e escrever seu próprio manual de instruções? Esta é a pergunta que Siddhartha Mukherjee (Nova Délhi, Índia, 1970), vencedor do prêmio Pulitzer em 2010 por sua biografia do câncer: O imperador de todos os males (Companhia das Letras) quer responder com seu último livro.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Em O gene: uma história íntima (Companhia das Letras), este oncologista entrelaça três narrativas como em uma tripla hélice: uma pessoal, em torno de sua própria família, afetada por doenças mentais hereditárias; uma história que acompanha os cientistas e as experiências que deram origem à genética moderna; e uma chamada de atenção sobre como as tecnologias derivadas desse conhecimento podem mudar a sociedade, e a discussão necessária para que não tenhamos de nos arrepender do que aprendemos.

No início deste mês, no maior congresso de câncer do mundo, em Chicago, Mukherjee propunha em uma conferência diante de milhares de médicos um exemplo concreto da relevância dessa discussão. Os testes genéticos permitiram descobrir mutações que podem predispor a sofrer um tumor e em muitos casos melhorou o prognóstico. No entanto, também corre-se o risco de transformar o câncer em uma instituição total na qual o paciente é “constantemente vigiado” e a quem se recorda com frequência demais a ameaça da morte. É um caso em que o conhecimento do genoma pode condicionar a forma de viver nossa vida.

Pergunta. Os nazistas utilizaram a poderosa ideia da genética para justificar seus delírios de limpeza racial e os soviéticos a rechaçaram, negando toda evidência científica, porque a consideravam uma ideia burguesa. Você reconhece agora o uso dessa ideia científica como justificativa para determinadas ideologias?

Resposta. A eugenia privatizada não é diferente da imposta pelo Estado. Só mudam os atores. Um dos últimos desenhos no livro [em que aparece uma família chinesa que só tem filhos homens] mostra o que acontece às populações humanas quando se privatiza a capacidade das pessoas de tomar decisões sobre as características genéticas de seus filhos. Que tenhamos desmantelado a eugenia estatal não significa que não sejamos capazes de propor as mesmas escolhas individualmente, e é igualmente perigoso.

P. Se conseguimos desenvolver uma tecnologia para melhorar os humanos, tornando-os mais inteligentes ou mais bonitos, é possível evitar que as pessoas façam isso com seus filhos?

Dizer que um conhecimento é perigoso incita a buscá-lo.

R. Acho que estamos rumando lentamente para uma nova era. Há três meses, a Academia Nacional de Medicina dos EUA tomou uma decisão muito interessante e muito importante. Estava-se debatendo se as alterações genéticas podiam ser permitidas em espermatozoides, óvulos e embriões humanos. Até agora, no Ocidente, decidimos que a engenharia genética é aceitável em células humanas desde que não mude permanentemente o genoma humano. Se em seu corpo você muda as células do sangue ou os neurônios ou as células do câncer, tudo isso não faz com que as mudanças se tornem parte permanente do genoma humano.

Com Crispr [uma nova ferramenta de edição do genoma] e outras tecnologias estamos chegando ao ponto em que podemos nos perguntar se deveríamos editar o genoma humano de forma permanente. E a academia decidiu permitir isso. Mas há algumas limitações. A primeira, a de que deveria haver uma relação causal entre o gene e o objetivo que tentamos alcançar. A maioria dos traços humanos têm sua origem em vários genes, efeitos ambientais, o acaso… Mas alguns são muito autônomos e para essas doenças em que há uma causa direta entre gene e a doença poderíamos tornar essas mudanças permanentes.

A segunda limitação é mais complicada. Diz que se permitiria realizar essas mudanças se houver um sofrimento extraordinário que se quer evitar. Mas sofrimento extraordinário segundo quem? Quem vai estabelecer os limites? É um sofrimento extraordinário ser mulher em uma sociedade em que se pode enfrentar uma discriminação pavorosa? Definiríamos o sofrimento extraordinário segundo uma doença? Ou perguntando às pessoas se estão sofrendo, se querem continuar vivendo assim? É uma decisão muito complicada e no fim tem a ver com quem somos, com como nos definimos.

P. No livro, você fala dos problemas mentais hereditários que sofreu em sua família. Se tivesse a possibilidade de eliminar esse problema com edição genética, o faria?

R. Não tenho nenhuma dúvida de que no futuro será possível encontrar uma relação entre doenças como a esquizofrenia ou o transtorno bipolar e talvez 10 ou 20 variantes de genes que, combinados, podem predizer que o risco de alguém sofrer essas doenças se multiplica por 10 ou 20. Uma vez que começarmos a conhecer essas combinações, o que vamos fazer?

A eugenia privatizada não é diferente da imposta pelo Estado

Imagine um experimento no qual sequenciamos 10 ou 15 milhões de genomas humanos e, depois, para cada um desses 15 milhões, registramos as vidas dessas pessoas. Em seguida utilizamos técnicas de computação para cruzar essas informações e começamos a entender bem como essas combinações de genes – ou até mesmo a combinação desses genes com fatores ambientais – aumentam ou diminuem o risco de sofrer determinadas doenças. No final, você pode imaginar como em uma família como a minha 10 variantes genéticas em combinação multiplicam por 10 o risco de uma doença terrível. Você sequenciaria o genoma de seus filhos para ver qual carrega esse risco?

P. Se eu puder fazer algo a respeito, seguramente sim. Se não, preferiria não saber. Já fazemos isso com a síndrome de Down, mas poderíamos começar a descartar particularidades genéticas muito mais sutis.

R. Depende do que você considere poder fazer algo a respeito ou mudar algo. Uma das possibilidades, que teremos à disposição logo, pode ser algo como selecionar embriões e só implantar aqueles que não têm determinadas combinações de genes.

P. Mas já fazemos isso. Quase não nascem mais pessoas com síndrome de Down.

R. Verdade. Já fazemos isso com as trissomias [presença de três cromossomos e não dois como seria o normal], mas poderíamos fazer com particularidade genéticas muito mais sutis. Acho que só veremos isso daqui a 10 ou 15 anos.

Já o fazemos com a síndrome de Down, mas poderíamos começar a descartar particularidades genéticas bem mais sutis

P. E você concorda com isso?

R. Não estou seguro de que tenhamos nem a compreensão científica nem humanística do que vai acontecer uma vez que comecemos a adotar essas tecnologias. Acredito que o público crê que os genes produzem características, que são iguais a características, e claramente esse não é o caso. Agora sabemos que para a maioria das características humanas o normal é que vários genes ajam em conjunto e que o ambiente desempenhe um papel muito importante. Tampouco creio que tenhamos uma compreensão humanística sobre o tipo de mundo em que viveremos uma vez que começarmos a levar a cabo esse tipo de manipulação. O que aconteceria se essas tecnologias só estivessem disponíveis para os ricos? Teríamos uma sociedade que não só estaria dividida por uma brecha econômica como também as novas tecnologias criariam uma subclasse genética. Me parece que o perigo é enorme. Não sou pessimista sobre o poder de utilizar essas tecnologias genéticas tão potentes para curar doenças, mas também creio que todos nós deveríamos parar para pensar antes de avançar com demasiada rapidez em direção a esse futuro.

P. Quando se fala de edição genética, parece aceitável empregá-la para curar uma doença, mas há mais dúvidas se a intenção é melhorar alguém que já está bem.

R. O que você está perguntando é onde está a fronteira entre a doença e a normalidade. Essa linha mudou durante nossa própria vida. A homossexualidadeera considerada uma doença até pouco tempo atrás. Vinte anos depois, no ocidente, percebemos que é fundamentalmente uma variação humana. Em muitas sociedades ainda é considerada uma doença e você pode ser morto por causa disso. As linhas entre a normalidade e a doença são flexíveis. A pergunta é como começaremos a saber o que significa um sofrimento extraordinário para você. Quem pode definir isso? O Estado vai fazer uma lista. As linhas são flexíveis. Quem vai delimitá-las?

Não conheço as respostas mas sei que não cabe aos cientistas responder a essas perguntas sozinhos. Estamos capacitados para desenvolver uma tecnologia, para explorar a natureza e criar novas tecnologias. Mas não estamos preparados para compreender as imensas implicações dessas tecnologias, particularmente do genoma humano, que é o que mais temos de humano. Nossa decisão para intervir nisso não pode ser tomada apenas por cientistas. Tem que ser um processo político muito mais amplo. E para fazer isso precisamos do vocabulário, dos antecedentes, da história, e precisamos compreender as limitações e pensar sobre o futuro. É disso que o livro fala.

P. Jennifer Doudna, uma das criadoras do sistema de edição Crispr, disse ser uma sorte o fato de não conhecermos em detalhes a origem genética de traços complexos como a inteligência, porque isso tornaria impossível um programa de melhoria humana. Há conhecimentos que é melhor não obtermos?

R. Eu também tenho um conflito com essa pergunta. Acho que dizer que certo conhecimento é perigoso leva imediatamente alguém a buscá-lo e disseminá-lo, o que o torna mais sedutor. Por outro lado, creio que há ideias que são fundamentalmente perigosas, e precisamos de uma compreensão profundamente humanística dessas ideias antes de começarmos a explorá-las como se fosse algo sem maior relevância.

As linhas entre a normalidade e a doença são flexíveis. Quem as vai delimitar?

Um exemplo: a inteligência é um conceito popular com uma longa história, que em parte também é depreciável. Depreciável porque uma das capacidades que os nazistas queriam medir e melhorar era justamente essa. Mas agora é um conceito popular, o utilizamos em conversas informais. Quando os cientistas utilizam a palavra inteligência, têm que pegar esse conceito e fazer um código e convertê-lo em algo que se possa definir e medir. No momento em que dissermos que a inteligência é algo sobre o que não se pode falar, alguns cientistas dirão: ‘Não, vou estudar justamente esse problema’.

O que quero fazer com esse livro é dar um passo atrás e pensar na linhagem desse conceito popular do gene, de onde ele vem, como se utilizava no passado, se estamos utilizando com precisão quando um cientista transforma esse conceito popular em uma medida.

Minha ideia não é restringir o conhecimento, não acredito nisso. Minha ideia é explorar desde o fundamental como obtemos o conhecimento, o que significam as palavras. Para que quando comecemos a utilizar palavras como inteligência, reconheçamos que há uma história por trás do uso dessa palavra na ciência, e que se vamos ter um debate público pediria que paremos um segundo e falemos sobre a transformação de um conceito popular em uma medida científica. Porque se não reconhecermos essa transição, cometeremos muitos erros horríveis. Não quero restringir o conhecimento, mas sim reconhecer a anatomia do conhecimento.

Meio Ambiente – Larva que degrada plástico

Descoberta feita por uma bióloga espanhola pode ser solução para os dejetos plásticos.

Raupe frisst Plastik (Paolo Bombelli)Larvas abrem seu caminho através do plástico. Larvas da traça-grande-da-cera comem e digerem sacos de polietileno em ritmo acelerado.

Cientistas descobrem larva que degrada plástico

Federica Bertocchini tem uma profissão interessante e um hobby apaixonante: a bióloga evolutiva é pesquisadora no Instituto de Biomedicina e Biotecnologia da cidade espanhola de Cantabria e apicultora nas horas vagas.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Por mero acaso ela pôde unir sua paixão por abelhas ao seu trabalho de pesquisa. E disso poderá sair uma solução para o problema dos resíduos plásticos.

A equipe de pesquisadores liderada por Bertocchini publicou os resultados de sua pesquisa nesta terça-feira (24/04) na revista especializada Current Biology.

Não é só Bertocchini que ama suas colmeias. A larva da traça Galleria mellonella também tem uma predileção por elas – mais especificamente pelos favos de mel. É neles que as traças depositam seus ovos, que se transformam em larvas, precisando de seis a sete semanas no estágio de pupa até virarem mariposas.

Um dia, a apicultora amadora retirou as indesejadas larvas parasitárias de uma colmeia e as embrulhou num saco plástico de polietileno para jogá-las fora. No entanto, em pouco tempo, as larvas abriram uma saída através da sacola.

Isso não é necessariamente uma novidade. Já se sabe há bastante tempo que as larvas da traça-grande-da-cera podem abrir caminho através de sacos plásticos.

Em fóruns de proprietários de terrários ou de apicultores encontram-se diversos relatos sobre o assunto. Essas larvas são um alimento popular para répteis e também são usadas como iscas por pescadores.

Só come ou também digere?

Mas até agora não estava claro se as larvas dessa traça simplesmente comem o plástico, para mais tarde excretá-lo como microplástico, ou se elas são capazes de digeri-lo e realmente degradá-lo.

Por exemplo, sabe-se que, além da lã, as traças-das-roupas também gostam de comer vestimentas de tecido misto, mas digerem apenas os componentes de lã do tecido. Nesse processo, elas excretam as fibras de plástico como microplástico.

Bertocchini quis entender melhor esse processo. Por meio da análise espectroscópica, ela pôde constatar que a traça de guarda-roupa difere da traça-grande-da-cera, que, aparentemente, não expele nenhum microplástico, transformando quimicamente o polietileno em etilenoglicol. Trata-se de uma pequena molécula, um monômero, ou seja, não é plástico, que consiste de polímeros.

Em cooperação com os colegas Paolo Bombelli e Christopher Howe, Bertocchini realizou, em seguida, experimentos em laboratórios bioquímicos da Universidade de Cambridge. Os pesquisadores colocaram cerca de cem larvas de traça-grande-da-cera em sacolas plásticas comuns de supermercado no Reino Unido.

Já depois de 40 minutos, perceberam-se furos nos sacos. Após 12 horas, as larvas haviam digerido 92 miligramas do polímero. Segundo Bertocchini, essa é uma taxa de degradação extremamente alta.

Larvas comendo plásticoEm poucas horas, lavas fazem furos no plástico

Descobrir a enzima responsável

A pesquisadora acredita que as traças-grandes-da-cera possuem uma enzima que quebra ligações químicas presentes tanto na cera de abelha quanto no plástico. “A cera é um polímero, quase um ‘plástico natural’, e possui uma estrutura que se assemelha a do polietileno”, explicou a pesquisadora.

As ligações químicas semelhantes da cera e do polietileno foram demonstradas por outro experimento: os pesquisadores esmagaram algumas das larvas da traça-grande-da-cera e colocaram a massa resultante diretamente sobre o saco plástico. Também aí surgiram buracos na sacola.

Agora, os cientistas trabalham para identificar essa enzima. Se ela puder ser reproduzida em escala industrial, poderá ser usada para o descarte ecológico de sacos plásticos ou para degradá-los em aterros existentes por meio da aplicação direta da enzima.

Observação semelhante foi feita há alguns anos por cientistas chineses com a larva da traça da farinha. Conhecidas por bicho-da-farinha, essas larvas também abrem o seu caminho através do plástico, digerindo o “indestrutível” polietileno, mas com a ajuda de bactérias. E esse processo parece demorar muitos mais do que no caso das traças-grandes-da-cera, vorazes comedoras de plástico que aparentemente utilizam uma enzima. Agora resta descobrir que enzima é essa.

Agricultura, arqueologia e cerveja

Em livro, Karin Bojs faz uma retrospectiva dos últimos 55.000 anos de pré-história na Europa, do sexo com os neandertais até a chegada da agricultura

A jornalista Karin Bojs.
A jornalista Karin Bojs. BERNARDO PEREZ

DANIEL MEDIAVILLA/ElPais

A pré-história europeia escrita por a jornalista científica Karin Bojs (Lundby, Suécia, 1959) começa com um estupro. Um esbarrão sexual entre duas espécies humanas diferentes ocorrido há 55.000 anos na região hoje ocupada por Israel.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

O caráter consentido ou não da relação pode ser objeto de especulação, mas o sexo entre neandertais e Homo sapiens já foi comprovado cientificamente graças ao trabalho do geneticista sueco Svante Pääbo. Esse pioneiro da análise de DNA antigo conseguiu sequenciar o genoma completo da espécie extinta e agora sabemos que 2% de nossos genes são fruto daquele cruzamento.

Em seu livro Min Europeiska Familj (“minha família europeia”, ainda inédito no Brasil), Bojs reúne a informação mais atualizada sobre a vida dos habitantes do continente antes do surgimento da escrita. Os dados acumulados por diferentes métodos de pesquisa, da arqueologia mais clássica às inovações científicas introduzidas por profissionais como Pääbo, sugerem que os europeus de hoje são fruto de três ondas migratórias.

A primeira, pouco depois do encontro com os neandertais no Oriente Médio, trouxe os caçadores e, provavelmente, acarretou a extinção daquela que até então era a espécie humana da Europa. Uma segunda onda trouxe os agricultores do que hoje é Síria e, com eles, seu conhecimento do cultivo das plantas. Por último, há 5.000 anos, partindo do sul do que hoje é a Rússia, chegou um povo de pastores que trouxe consigo as línguas indo-europeias atualmente faladas na Europa, os cavalos e uma sociedade patriarcal e estratificada.

Pergunta. Antes do conhecimento que o sequenciamento do DNA antigo proporcionou, acreditava-se que a agricultura foi inventada em muitos lugares ao mesmo tempo.

“A agricultura foi inventada uma vez e chegou à Europa com os povos que a haviam inventado”

Resposta. Sim, era como uma espécie de dogma. A teoria segundo a qual a agricultura veio da Síria com a migração dos próprios agricultores que a haviam inventado, que agora parece a correta, era chamada de “migracionismo” com um tom pejorativo. Os filhos da geração de 68 viveram uma reação ao nazismo. Antes da Segunda Guerra Mundial, a arqueologia e a história estiveram muito influenciadas pelos nazistas, e, quando chegou a reação, foi um pouco exagerada. Rejeitou-se tudo, negou-se que houvesse influência das migrações ou dos genes, tudo era cultura e sociologia, e afirmavam que os caçadores se reeducaram e decidiram que não queriam mais ser caçadores e passaram a ser agricultores. Se você pratica a agricultura, sabe que é muito difícil. São necessários muitos anos para aprender a cultivar. Havia uma minoria de arqueólogos que queria explicar a aparição da agricultura na Europa através da migração, e o DNA provou que esta minoria estava certa.

P. Mas parece que a agricultura apareceu em muitos lugares separados sem contato aparente, como na América e na Índia.

R. Isso foi um pouco depois, e de fato não podemos ter certeza. O que sim sabemos pelos dados da Europa é que a agricultura chegou acompanhada dos humanos que a conheciam e que migraram com ela através de grandes distâncias.

P. Em seu livro, você também fala da hipótese que propõe que a agricultura foi inventada, entre outras coisas, para produzir bebidas alcoólicas.

R. Arqueólogos alemães encontraram em um lugar chamado Göbekli Tepe, na parte leste da atual Turquia, taças e grandes baldes do tamanho de uma banheira onde viram enzimas que seriam restos da fabricação de cerveja. Eles estão convencidos de que havia um culto neste local erguido por culturas tardias de caçadores. As pessoas vinham de muito longe, até centenas de quilômetros, a fim de se reunir ali para celebrações. Esses arqueólogos acreditam que o consumo de cerveja era uma parte importante dessas celebrações, e isso faz sentido. Não acredito que comer purê fosse um impulso suficientemente importante para começar uma nova cultura e um novo estilo de vida.

“As pessoas vinham de muito longe a fim de se reunir ali para celebrações. Não acredito que comer purê fosse um impulso suficientemente importante para começar novo estilo de vida”

Os grãos já eram parte da dieta durante muitos anos antes da aparição da agricultura. Coletavam trigo e cevada, isso era parte do processo, mas se de repente você precisa de grandes quantidades de grão para produzir cerveja, acredito que seja um incentivo interessante. A agricultura obviamente foi um processo muito complicado, e também tem a ver com a mudança climática. Houve uma mudança climática muito brusca quando acabou a última glaciação e o Oriente Médio se tornou mais úmido e facilitou o cultivo. Se você havia tentado cultivar algumas plantas, estava no lado ganhador quando se produziu essa mudança de condições.

P. Alguns cientistas propõem que adotar a agricultura foi o pior erro da humanidade, que piorou suas condições de vida. Você discorda.

R. Não gosto dessa ideia. Acho que há vários divulgadores científicos que também insistem em que a agricultura foi uma catástrofe e que os caçadores viviam em um estado feliz e natural, e que a agricultura e o gado foram uma catástrofe. Acredito que seja uma forma muito simplista de analisar a mudança. Se você olha para a pré-história, há altos e baixos no nível de vida, no período dos caçadores e nos períodos da agricultura. Como outras invenções, não é algo que surgiu de uma decisão premeditada. Tratava-se de ir resolvendo pequenos problemas na vida daquelas pessoas. Por exemplo, a cerveja pode ter surgido assim. Sabemos que você pode ficar um pouco alterado se ingere uma substância, e os agricultores fizeram isso. E então pensaram em produzir mais disso que gostavam, e para fazê-lo precisavam cultivar. E assim se acumularam muitas soluções para pequenos problemas práticos que acabaram por produzir uma grande transformação.

P. Em seu livro, você considera provável que nossa espécie tivesse um papel importante na extinção dos neandertais, mas fala de uma convivência pacífica entre a primeira onda de caçadores que chegou à Europa e a dos agricultores.

R. Como a arqueologia só nos oferece alguns vestígios, não se pode saber com certeza, mas não há achados que indiquem que havia grandes enfrentamentos. Faz sentido, porque, se você for um caçador, precisa de animais para matar ou de peixes para comer. Se for um agricultor, precisa de um bom solo. Parece que eles conviveram bem. Ao cabo de um tempo, houve uma fusão. Os caçadores e os agricultores se encontraram e tiveram filhos. E isso pode ser visto muito claramente na Espanha.

Na Espanha vivia uma população de caçadores e depois chegaram os agricultores. Chegaram de barco através do Mediterrâneo, há 7.000 anos, e se pode ver que depois de certo tempo se fundem. A população basca da Espanha, e isso se vê também em seu DNA, são ainda os netos desta fusão, da primeira onda, dos caçadores, e da segunda, dos agricultores, mas não da terceira onda, a que trouxe as línguas indo-europeias. Eles falam basco, que não é uma língua indo-europeia. Talvez o basco seja como um vestígio de uma antiga língua dos agricultores.

Vacina cubana contra HIV apresenta resultados positivos em testes com seres humanos

Não foram registrados casos de efeitos colaterais ou de toxicidade; há indícios positivos de eficácia, que ainda precisam ser confirmados em um grupo maior de indivíduos.

Uma vacina desenvolvida em Cuba com o objetivo de reduzir a carga viral de portadores do HIV e que se encontra em fase de testes clínicos na ilha caribenha tem demonstrado eficácia, afirmou Yayri Caridad Prieto Correa, uma das responsáveis pelo estudo.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

A vacina Teravac-VIH tem potencializando a resposta imunológica dos nove pacientes que a tomaram e que estão sendo acompanhados pelos pesquisadores cubanos.

 

A pesquisadora do CIGB (sigla em espanhol para Centro de Engenharia e Biotecnologia) de Havana apresentou os resultados preliminares dos testes com humanos durante o primeiro congresso BioProcess Cuba 2017, realizado em na cidade cubana de Camaguey na última semana.

Segundo Correa, os nove pacientes soropositivos que tomaram a vacina não apresentaram efeitos adversos nem de toxicidade, o que era o principal objetivo desta fase de testes, que certifica a segurança do medicamento.

Assim como nos estudos pré-clínicos em animais, o teste com humanos demonstrou que a vacina potencializa a resposta imunológica do organismo infectado por HIV, vírus causador da Aids (síndrome da imunodeficiência adquirida).

Vacina cubana está sendo testada em nove pacientes no momento e tem demonstrado eficácia, disse pesquisadora

A pesquisadora, porém, alertou para que não se criem falsas expectativas sobre a vacina, que ainda deve passar por testes com mais pessoas soropositivas para se estabelecer sua eficácia em larga escala, o que deve levar mais alguns anos. A atual fase de testes, por exemplo, foi anunciada em março de 2012.

Correa também ressaltou que a vacina não sana a infecção por HIV, mas diminui a taxa de vírus no sangue, melhorando assim a qualidade de vida das pessoas soropositivas.

Ela afirmou que a busca de vacinas contra o vírus segue sendo uma das prioridades das instituições médicas e científicas cubanas, mas que a prevenção segue sendo o principal método para evitar o contágio.

O objetivo dos especialistas cubanos é substituir a atual terapia contra o HIV, que consiste na combinação de vários inibidores retrovirais que bloqueiam a expansão do vírus.

Embora tal terapia se mostre majoritariamente eficiente, em alguns casos pode causar danos colaterais aos pacientes.

A vacina Teravac-HIV é administrada simultaneamente por via mucosa, por spray e administração intramuscular. Ela foi desenvolvida a partir de uma “proteína recombinante” – através de técnicas de engenharia genética – e busca induzir uma resposta celular contra o vírus.

Segundo os resultados preliminares, a vacina diminuiu a carga viral nos linfócitos T citotóxicos (CD8) dos pacientes.

Segundo o portal Infomed, da rede de saúde de Cuba, o primeiro caso de HIV foi diagnosticado na ilha há 31 anos.

Em 2015, o país se tornou o primeiro no mundo a erradicar a transmissão do HIV de mãe para filho, como afirmou a OMS (Organização Mundial da Saúde). A transmissão sexual é a forma predominante de infecção por HIV em Cuba, responsável por mais de 99% dos casos.

Com dados do OperaMundi

A pegada da agricultura orgânica

Jornalista comenta polêmica após reportagem “Deixe de comprar comida orgânica se quiser salvar o planeta”

Feira na cidade Síria de Idlib.Feira na cidade Síria de Idlib. OMAR HAJ KADOUR AFP

O EL PAÍS publicou no sábado passado, em sua edição impressa, um artigo — “Deixe de comprar comida orgânica se quiser salvar o planeta”, escrito por Kristin Suleng — no qual se acusava esse tipo de tipo cultivo de representar uma ameaça muito maior para a conservação do planeta do que a agricultura convencional. O artigo foi reproduzido no site do jornal em espanhol e traduzido ao português para ser publicado, na última segunda-feira, na edição online brasileira, onde provocou um grande rebuliço. Algumas reclamações de leitores brasileiros chegaram por email à minha caixa de entrada, e muitas outras à redação de São Paulo.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”] 

Henrique Kugler, jornalista, especialista em ciências ambientais e leitor da edição brasileira do EL PAÍS, me enviou uma longa mensagem que vou resumir: “A principal fonte que embasa o texto [de Kristin Suleng] é o engenheiro agrônomo Marco Antonio Oltra […], fundador do Orcelis Grupo, nada menos que uma empresa atuante no setor de tecnologia agrícola. Leia-se, agronegócio. Basta checar o currículo dele no LinkedIn. É um conflito de interesse flagrante.” Esse leitor expressa uma dúvida quanto à “ingenuidade” ou “incompetência” da autora do texto e lhe recomenda a leitura de um artigo publicado no início de 2016 na revista Nature Plants que sustenta teses diferentes das do artigo de Suleng. “Publicar um artigo assim é como cuspir na cara de seus leitores”, acrescenta Kugler.

Outro leitor brasileiro, Juliano Hojah, se refere nos seguintes termos ao artigo que leu no site do jornal: “Como uma jornalista do EL PAÍS pode dizer que deixemos de comprar alimentos orgânicos se quisermos salvar o planeta!? É uma loucura!!!! […] No Brasil, já houve muita repercussão negativa nos grupos dos quais participo…. Como podem permitir que artigos como este sejam publicados no EL PAÍS?”.

Kristin Suleng, colaboradora regular do jornal, defende seu artigo e responde o seguinte aos leitores:

“Entre os especialistas consultados, esta jornalista selecionou como fonte de informação o senhor Marco Antonio Oltra Cámara como especialista na área de agricultura, com experiência em ambos os tipos de agroprodução (orgânica e convencional), a fim de fornecer avaliações baseadas na experiência profissional de alguém considerado uma referência no assunto. Oltra é doutor em engenharia agronômica, com mais de 20 anos de experiência em agricultura. Pioneiro no cálculo da pegada hídrica e na agricultura via satélite, é professor-associado de biologia vegetal na Universidade de Alicante, cujo cargo corresponde ao de um reconhecido profissional cujo trabalho principal é realizado fora do âmbito universitário. É fundador da empresa Orcelis Grupo, como consta em seu perfil público do LinkedIn, dedicada ao desenvolvimento de um sistema de apoio na tomada de decisões agrícolas por meio da Orcelis Fitocontrol, da qual a empresa recebe 100% das receitas. Oltra afirma não defender qualquer interesse particular a favor ou contra qualquer tipo de agricultura. A Orcelis Fitocontrol acompanha a tomada de decisões tanto na agricultura convencional quanto na orgânica, já que entre seus clientes estão empresas de produção orgânica, algo que, reconhece Oltra, não é incompatível com sua opinião científica sobre a questão abordada no artigo.

“Como alerta outro dos especialistas consultados, o bioquímico José Miguel Mulet, professor e pesquisador do Instituto de Biologia Molecular e Celular de Plantas (IBMCP), centro misto subordinado ao CSIC [Conselho Superior de Pesquisas Científicas da Espanha] e à Universidade Politécnica de Valência, não se comete nenhuma falha ao entrevistar um especialista em agricultura para falar de um tema agrícola, já que seria prepotente, além de faltar com a realidade da atividade agrícola, dar a entender que os únicos autorizados a expressar suas avaliações na imprensa procedam exclusivamente do mundo acadêmico.

“As afirmações expostas no artigo se sustentam em pesquisas baseadas no método científico. Não se trata de opiniões, e sim de dados, provas e resultados, como contribuem os estudos da Nature e da Universidade Cornell. Como aponta Emilio Montesinos, catedrático de Patologia Vegetal na Universidade de Girona, o artigo citado pelo leitor se contrapõe a uma robusta meta-análise na Nature, com aparência mais de artigo de opinião do que de uma análise rigorosa dos dados. Montesinos deseja manifestar a este jornal que sua pesquisa se desenvolve inteiramente na Universidade, no campo dos ‘biopraguicidas e biofertilizantes’, cujo currículo de publicações pode ser consultado no ResearchGate. Ele é o inventor de várias patentes que são propriedade da Universidade de Girona e participa de uma spin-off da mesma universidade sobre biopraguicidas, como uma das atividades que hoje são valorizadas no currículo do professor universitário, sempre dentro do marco legal.”

Agradeço a Suleng por sua detalhada exposição. Da minha parte, devo fazer algumas considerações em relação ao artigo.

Em primeiro lugar, considero extremamente infeliz o título: “Deixe de comprar comida orgânica se quiser salvar o planeta”. Longe de refletir as nuances que caracterizam um assunto tão polêmico, para entender quais são as vantagens e os inconvenientes desse tipo de cultivo, o título é peremptório e produz uma incômoda sensação coercitiva.

Independentemente dos méritos profissionais do senhor Marco Antonio Oltra Cámara, citado profusamente no artigo, considero um equívoco que não constasse sua condição de fundador e principal diretor do Orcelis Grupo. Sem isso, se dá fundamento à acusação de “conflito de interesses” formulado pelo supracitado leitor. E se a empresa dele “acompanha a tomada de decisões tanto na agricultura convencional como na orgânica”, conforme aponta Suleng, há aí mais uma razão para que isso constasse no artigo.

Comenta a autora, baseando-se nos especialistas e na documentação consultada, que um dos graves problemas da agricultura orgânica é a sua menor produtividade, razão pela qual esta exige extensões de terra muito maiores para a obtenção de colheitas suficientes para alimentar a crescente população mundial, com o consequente desmatamento. Entretanto, há abundante literatura sobre o tema em que se destaca que a produtividade de determinados cultivos orgânicos é praticamente idêntica à de seus homólogos da agricultura convencional. Aparentemente, são muitos os fatores que interferem (tipo de terra, clima, cultivos, rotações) no comportamento dos cultivos orgânicos, e, embora globalmente sua produtividade seja inferior, os avanços nesse terreno permitem antever uma equiparação entre ambos os tipos de agricultura neste aspecto. Num mundo em constante avanço, é preciso levar em conta não só as realidades presentes, mas também as tendências que despontam no horizonte. Teria sido útil, talvez, mencionar as perspectivas da agricultura ecológica nesse sentido.

Pesquisadores usam espinafre como detector de explosivos

Com ajuda da nanotecnologia, cientistas americanos inserem nanotubos de carbono em plantas de espinafre, possibilitando que componentes químicos usados na fabricação de explosivos sejam detectados.

Espinafre

Um estudo Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, revelou que os espinafres podem se transformar em detectores de explosivos e transmitir informação para um aparelho parecido com um smartphone, graças à nanotecnologia.
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O estudo publicado nesta segunda-feira (31/10) na revista Nature Materials é uma das primeiras demonstrações do que os pesquisadores denominam “plantas nanobiônicas”, às quais podem ser aplicados sistemas de engenharia eletrônica.

“O objetivo da nanobiônica vegetal é introduzir em uma planta nanopartículas que lhe conferem capacidades que não lhe são próprias”, explicou, em comunicado, o autor do experimento e professor de Engenharia Mecânica no MIT, Michael Strano.

No caso dos espinafres, os especialistas do MIT integraram nanotubos de carbono que possibilitam a detecção de explosivos. Assim, as plantas foram desenvolvidas para detectar componentes químicos chamados nitroaromáticos, que costumam ser utilizados na fabricação de minas terrestres e outros explosivos.

Quando um desses compostos químicos aparece na água subterrânea, os nanotubos de carbono inseridos nas folhas dos espinafres emitem um sinal fluorescente que pode ser lido com uma câmera infravermelha. Esta pode ser conectada a um pequeno computador, similar a um telefone, que envia um e-mail ao usuário.

Poder das plantas

De acordo com Strano, o experimento é uma nova demonstração da necessidade de superação da barreira de comunicação planta/humano. O pesquisador acredita que o poder das plantas poderia ser aproveitado para alertar sobre a presença de poluentes e de algumas condições ambientais como as secas, algo que elas sentem muito rapidamente.

A primeira demonstração de nanobiônica vegetal do MIT ocorreu há dois anos, num projeto a cargo de Strano e do estudante de pós-doutorado Juan Pablo Giraldo. Ambos utilizaram nanopartículas para aumentar a capacidade de fotossíntese das plantas, convertendo-as em sensores para detectar óxido nítrico, um dos poluentes produzidos pela combustão.

Segundo Strano, as plantas estão adaptadas para monitorar o meio ambiente, já que absorvem muita informação de seu entorno e são muito boas em análises químicas. Isso ocorre graças à extensa rede formada por suas raízes, que absorvem a água subterrânea e a transportam para suas folhas.

Os nanotubos de carbono fabricados pelo MIT podem ser usados como sensores para detectar um amplo leque de moléculas e, quando a molécula-alvo se une a um polímero que envolve o nanotubo, este altera sua fluorescência. Neste estudo, os pesquisadores introduziram sensores na parte posterior das folhas de espinafre para detectar os nitroaromáticos.

Strano assinalou que esse tipo de tecnologia pode ser aplicada a qualquer planta. Também pode ajudar os botânicos a saber mais sobre os processos internos das plantas, monitorar sua saúde e aumentar o rendimento dos compostos sintetizados por algumas delas e que são utilizadas na medicina.
CN/efe/ots

Medicina:Remédios biológicos são tão bons quanto os seus ‘genéricos’

A eficácia e a qualidade dos biossimilares são equivalentes às dos medicamentos originais.O primeiro medicamento biossimilar aprovado na Europa, em 2006, era para tratar de problemas de crescimento de crianças.

O primeiro medicamento biossimilar aprovado na Europa, em 2006, era para tratar de problemas de crescimento de crianças.

A guerra dos genéricos ocorrida no final de século passado será vista como uma brincadeira de crianças perto daquela que se prepara com os medicamentos de última geração, os chamados remédios biológicos.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Muito mais complexos, difíceis de fabricar e caros, os medicamentos biológicos também possuem os seus genéricos, conhecidos como biossimilares. Agora, uma análise feita a partir de vinte estudos mostra que os originais são tão bons quanto as suas cópias.

Para entender aquilo que se aproxima, é preciso olhar um pouco para o passado. A primeira coisa é diferenciar os remédios tradicionais dos biológicos. Os primeiros possuem uma base química, razão pela qual, utilizando o mesmo princípio ativo, a mesma fórmula e os mesmos meios de fabricação, um medicamento genérico pode ser tão eficaz (terapêutico), seguro (efeitos colaterais) e ter a mesma ação (farmacocinética) que o original.

No caso dos biológicos, a coisa se complica. Como as vacinas ou a insulina, eles se baseiam em um ser vivo, seja uma bactéria, um fungo ou alguma célula modificada por meio da biotecnologia. Isso faz com que uma cópia perfeita seja impossível de se produzir. Por isso, os genéricos dos remédios biológicos são chamados de biossimilares e não bioidênticos.

O outro item a ser considerado é o preço. Os custos de desenvolvimento de um remédio biológico são muito elevados e não diminuem proporcionalmente quando, uma vez obtida a sua fórmula mágica, se passa a produzi-los em massa. Isso faz com que esses medicamentos sejam muito caros.

Eles tornaram possível uma revolução no tratamento do câncer, da artrite ou de doenças inflamatórias do intestino, mas provocaram uma grande elevação nos custos do sistema de saúde. Para os fabricantes, foi um grande negócio. Em comparação com os milhares de remédios químicos, os biológicos são apenas algumas dezenas, mas, em 2017, deverão representar 20% do 1,04 bilhão de euros (cerca de 4 bilhões de reais) utilizados no consumo de remédios no mundo, segundo um relatório do IMS Health.

Os remédios biológicos já abrangem 20% do consumo mundial de medicamentos

“Há muita coisa em jogo”, afirma Caleb Alexander, professor da Escola Bloomberg de Saúde Pública da Universidade Johns Hopkins (EUA), em conversa por e-mail. É enorme o fluxo de dinheiro que se dirige para as contas dos laboratórios farmacêuticos que desenvolveram os primeiros biológicos.

A quebra da patente de muitos deles, porém, já está estimulando a produção de biossimilares, que aliviariam relativamente os custos para a saúde pública. Nos EUA, já foram aprovados dois biossimilares. Na Europa, que nesse caso está bem à frente, a Agência Europeia de Medicamentos já liberou 21 biossimilares.

Com um grupo de colegas, Alexander fez uma compilação de todos os estudos comparativos entre remédios biossimilares e os originais usados no tratamento de artrite reumatoide, psoríase e doenças inflamatórias intestinais como a doença de Crohn ou a colite ulcerosa.

Trata-se de medicamentos baseados em inibidores de uma proteína decisiva para o sistema imunológico conhecida como fator de necrose tumoral. Entre esses trabalhos, há ensaios clínicos em fase I (para determinar sua segurança) e em fase III, prévios à sua comercialização. Há também estudos que fazem um acompanhamento dos medicamentos aplicados a pacientes tratados inicialmente com originais e depois com biossimilares.

“As patentes preservam o bem particular, enquanto o acesso aos medicamentos a um preço razoável preserva o bem público”

Em texto publicado nos Annals of Internal Medicine, o grupo afirma que, em todos os ensaios clínicos analisados, tanto da fase I quanto da fase III, os biossimilares registraram uma margem de equivalência entre 80% e 125% em relação aos medicamentos originais de referência. Embora não se possa inferir diretamente desses percentuais que em alguns casos o biossimilar até mesmo supera o original, “essa margem de equivalência se refere ao mínimo que um produto rende em relação ao qual ele é comparado”, lembra Alexander.

“O mesmo debate que aconteceu por ocasião da chegada dos genéricos, bem menos complicados, se repete novamente, agora com muito mais em jogo, com maiores possibilidades de erros, mas com um potencial também maior de redução de custos para o sistema de saúde”, comenta Alexander, que também integra a diretoria do Centro Johns Hopkins para a Segurança e Eficácia de Medicamentos. “Com base nas provas disponíveis, podemos concluir que os produtos estudados são comparáveis e, com toda segurança, serão mais baratos”, acrescenta.

Embora a análise feita tenha focado apenas um tipo de remédio biossimilar, deixando de fora outros já existentes, como os que se baseiam em anticorpos monoclonais para a psoríase e vários tipos de câncer, os pesquisadores acreditam que seus resultados devem diminuir a exigências estabelecidas para que os biossimilares possam competir com seus originais à medida que as patentes se expirem.

“A verdadeira guerra se dará no mercado dos biossimilares”, comenta Miguel del Fresno, professor da UNED que pesquisa há muitos anos as estratégias adotadas para conter a chegada dos genéricos e, agora, a dos biossimilares. E, nessa guerra, ele vê a existência de várias frentes de batalha, desde a definição clara do que é um biossimilar até a definição de quem pode receita-lo, passando pela escolha a partir da marca ou do princípio ativo, como ocorre no caso dos genéricos.

Para Del Fresno, “a chave estará em que os responsáveis políticos pelo sistema de saúde saibam distinguir o bem público do bem privado”, e acrescenta: “as patentes preservam o bem privado, enquanto o acesso aos medicamentos a um custo razoável preserva o bem público”.
ElPaís