Por que a covid-19 pode se tornar endêmica no Brasil, como dengue e gripe

Com controle precário e vacinação lenta, é possível que país conviva com o coronavírus por muito tempo ainda – Getty Images

Mais de um ano depois de ter começado, a pandemia de covid-19 ainda não dá sinais de que vá acabar em pouco tempo. Menos ainda no Brasil, onde seu controle é precário, com vacinação lenta, queda da adesão às medidas preventivas e omissão de agentes públicos em implementar, estimular, controlar e fiscalizar o cumprimento de normas de distanciamento social. Além disso, para piorar a situação, novas variantes do novo coronavírus vêm surgindo e se espalhando pelo país. Por isso, embora seja difícil prever, muitos especialistas acreditam que ela se estenderá pelo menos até 2022.

Mas não é só isso. Há grandes chance de a doença se tornar endêmica, como a dengue e a gripe (influenza), por exemplo.

Para o médico epidemiologista Guilherme Werneck, vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e professor do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (IMS/Uerj), as condições para o controle da epidemia no Brasil estão muito precárias, por isso ela não deverá acabar logo.

“Faltam vacina, organização e liderança e sobra irresponsabilidade dos agentes públicos”, critica. “Começando pelas ações de contrainformação do governo federal, questionando a efetividade de máscaras, vacinas e do distanciamento social, e estimulando o uso de medicamentos ineficazes para prevenção e tratamento da covid-19. É possível, embora ainda num horizonte distante, que a Organização Mundial da Saúde (OMS) declare o fim da pandemia, mas o Brasil continue tendo que lidar com níveis inaceitáveis de transmissão.”

O médico Plínio Trabasso, da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, também prevê que a epidemia de covid-19 no Brasil vai longe, principalmente porque a vacinação não está sendo feita de maneira maciça, ampla e simultânea.

Desse modo, ainda há um grande contingente de pessoas suscetíveis à doença em circulação. “Para um controle mais rápido, é necessário que mais pessoas (idealmente todos os acima de 18 anos) sejam vacinadas logo”, diz. “Isso cria uma barreira imunológica à disseminação do vírus.”

O mosquito Aedes aegypti é o principal transmissor de dengue, zika e chikungunya em regiões urbanas do Brasil – Foto Getty Images

De acordo com Trabasso, além da vacinação, é preciso testagem em massa, para identificar os potenciais transmissores e colocá-los em quarentena, e mais distanciamento social. “São as maneiras mais eficazes de conter a propagação da covid-19”, explica. “Claro que a higiene das mãos e o uso de máscara também são importantes, mas são medidas individuais, enquanto que a imunização e aplicação dos testes são ações de Estado.”

A ausência de uma vigilância epidemiológica efetiva é outro aspecto problemático e preocupante da pandemia no país. “O Brasil tem recursos financeiros e profissionais capacitados para desenvolver um processo eficiente de identificação de casos, por meio de testagem e busca ativa, e quarentena para todos os infectados, com apoio financeiro que garanta que a população não perca renda”, diz a médica sanitarista Maria de Fátima Siliansky de Andreazzi, professora de Economia Política da Saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Ela diz que na Europa, caso alguém seja identificado com covid-19 num avião, por exemplo, vai-se atrás dos que estavam próximos, testam-se e isolam-se todos os passageiros. “No Brasil, no caso de Manaus, com a nova cepa identificada, não se interromperam os voos e mais, o Ministério da Saúde levou doentes infectados para outros Estados”, critica.
De acordo com Fredi Alexander Diaz Quijano, da USP, efeito que vacinas terão na redução da transmissão é incerto, mas evidências indiretas sugerem que não eliminará totalmente covid-19

O problema é que mesmo com a vacinação, o novo coronavírus não deverá desaparecer, ao contrário do que ocorreu o Sars-Cov-1, que causou a epidemia de Sars. “Algumas vacinas estão mostrando uma excelente proteção para prevenir formas graves de covid-19 (a maioria, mais de 90%). No entanto, em algumas pessoas elas não conseguem impedir a infeção e, em muitos casos, a aparição de sintomas”, explica o médico Fredi Alexander Diaz Quijano, do Departamento de Epidemiologia, Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP).

De acordo com ele, o efeito que as vacinas terão na redução da transmissão é incerto, mas evidências indiretas sugerem que não eliminará totalmente a covid-19. Um dos motivos disso é que novas variantes podem eventualmente conseguir escapar das vacinas – e talvez precisemos nos imunizar contra o coronavírus com a mesma frequência com que nos imunizamos contra a gripe, por exemplo.

Por tudo isso, é muito provável que o vírus continue circulando. “Não causará doença grave na grande maioria das pessoas vacinadas, mas existindo grupos suscetíveis que não tenham sido imunizados (por qualquer motivo), ainda haverá risco de surtos de casos graves e mortes.”

Em outras palavras, a covid-19 poderá ser tornar endêmica, como a aids, dengue, gripe, malária e tuberculose, por exemplo. “Endemias correspondem a situações em que a incidência da doença não é tão elevada, mas que dura muito tempo, podendo sofrer variações sazonais, relacionadas às estações do ano, por exemplo”, explica o médico Marcelo de Carvalho Ramos, professor titular de Infectologia da FCM da Unicamp.


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Para entrar na célula, o vírus SARS-CoV-2 se liga a uma molécula presente na superfície da célula (seu receptor)

Mas por que algumas doenças se tornam endêmicas e outras, não?

“Uma enfermidade infecciosa endêmica é aquela que conseguiu um certo equilíbrio na sua taxa de reprodução”, responde Quijano. “Isto é, quando cada pessoa contaminada passa essa condição para (em média) uma outra. É o que se conhece como número reprodutivo efetivo (R), que é a média de novos infectados que alguém com o vírus produz diretamente. Em outras palavras, no caso das endemias o valor de R permanece próximo de 1.”

Quando esse número é superior a 1, então a doença progride rapidamente e causa surtos (ou até grandes epidemias), como é o caso da covid-9, cuja estimativa do R, no início da pandemia, era 3. “Se esse valor é muito superior a 1 (por exemplo, maior que 10) ela se espalha depressa, às vezes tão rápido que se acabam rapidamente as pessoas suscetíveis a ela”, explica. ” Por outra parte, valores de R inferiores a 1 conduzem a que o número de casos progressivamente diminua, levando eventualmente à eliminação da doença numa comunidade.”

Foi o que aconteceu com a Sars: o vírus Sars-Cov-1 não adquiriu essa capacidade de se perpetuar. O novo coronavírus já obteve esse salto evolutivo, no entanto. É por isso, que os especialistas acham que a covid-19 se tornará endêmica.

“O Sars-Cov-2 já se mostrou capaz de sofrer mutações, como demonstram as variante do Reino Unido, da África do Sul e do Amazonas”, diz Trabasso. “Algumas delas, ou outras que surgirão, podem fazer com que haja escape do vírus à imunidade adquirida, seja pelo contato com a variante ‘selvagem’ seja por meio da vacinação.”

Segundo ele, esses mutantes poderão causar microssurtos, até que nova vacina surja e novo contingente populacional desenvolva imunidade suficiente, para criar uma nova barreira imunológica. E assim por diante.

“É o que ocorre com a influenza, por exemplo”, explica Trabasso. “Todos os anos, a população tem que ser vacinada, porque podem ocorrer mutações no vírus e a imunidade adquirida pela infecção ou vacinação de anos anteriores não garante proteção contra a variante presente naquele ano. Assim deve se comportar o novo coronavírus daqui por diante.”

Sem ações de prevenção coletiva, como o uso de máscaras, distanciamento social e higiene pessoal, somente a vacina não será capaz de interromper a transmissão
Werneck acrescenta outros aspectos que podem levar a covid-19 a permanecer ainda por muito tempo entre os humanos. De acordo com ele, circulação do vírus só poderia ser interrompida com níveis altos de imunidade na população.

“Ocorre que nosso conhecimento sobre imunidade ao novo coronavírus é ainda precário, particularmente sobre a duração dela conferida pela infecção ou pela vacina”, explica. “Ao mesmo tempo, o que se sabe sobre a eficácia das vacinas disponíveis, até o momento, é que elas não fornecem proteção efetiva contra a infecção, mas sim para o desenvolvimento de formas clinicas e graves da doença.”

Ou seja, são imunizantes que protegem as pessoas, porque evitam que elas desenvolvam sintomas e formas severas da covid-19, mas não impedem que se infectem e, eventualmente transmitam a infecção.

“Além disso, as vacinas utilizadas no Brasil (até o momento, a de Oxford-AstraZeneca e CoronaVac) têm efetividade da ordem de cerca de 70% mais ou menos, ou seja, têm boa eficácia, mas não nos níveis ideais”, diz Werneck. “Assim, mesmo com cobertura vacinal alta, ainda poderemos ter transmissão.”

Isso significa que, sem ações de prevenção coletiva, como o uso de máscaras, distanciamento social e higiene pessoal, somente a vacina não será capaz de interromper a transmissão. “Junte todos esses problemas num contexto em que faltam vacinas e que uma alta cobertura vacinal da população ainda vai demorar”, acrescenta Werneck.

“Estamos, então, em condições propícias para permitir a circulação do vírus e o aparecimento de novas variantes, tudo contribuindo para a permanência da infecção entre nós de forma endêmica.”

Fatos & Fotos – 25/02/2021

Globo não noticia crimes de Moro, Deltan e Erika porque é sócia do consórcio mafioso


 


“Quando os que mandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito.” Jean-Poul de Gondi, cardeal de Retz, político francês


Pintura de Sir Lawrence Alma-Tadema
( 1836-1912 )



Bolsonaro exigiu da Pfizer condições que não pediu à AstraZeneca. Posição do presidente impediu encomendas e atrasou imunização contra Covid19


Após 2 anos de exaustivas pesquisas com o auxílio da equipe do Instituto Rubens Barrichello de Análises Políticas, Rodrigo Maia chegou a uma conclusão que pode abalar a Bolsa de Tóquio.


Deputados querem ser mais que Deus. Já têm foro privilegiado, imunidade pra qse tudo. Até bandidos cumprindo pena há no Congresso. Agora querem a PEC MasterVIP. Brasil virou país de castas – de militares, juízes, parlamentares, família Bolsonaro. Nós, o resto, somos os párias.


Gotthardt Kuehl, 1850-1911


Últimas 48h contra impunidade
– STJ anula provas contra Flávio Bolsonaro
– MPF arquiva processo contra Abraham Weintraub
– Conselho de Ética – ética? Hahaha – arquiva processo contra Eduardo Bolsonaro
– Conselho de Ética arquiva representação contra Carla Zambelli
– Câmara dos Deputados apresenta PEC que blinda os fungos, ops!, ato falho, deputados – só podem ser presos se forem pegues assassinando a mãe no plenário durante uma sessão.
– Desenho?


A melhor forma de acabar com o tráfico de drogas no Brasil é colocar o sargento Garcia na logística do tráfico. A droga nao vai chegar à lugar nenhum.


O Sinistro Ricardo Salles nomeia esposa do cancro Daniel Silveira para cargo comissionado no Jardim Botânico do Rio.
Esse fungo ministerial sapateiam na cara da gente decente, mas deixa estar, jacaré, que a lagoa há de secar.


Bo Bartlett,American, b.1955 s/d s/t


Ah!, tô nem aí porque não sou acionista da Petrobras. Pense outra vez: -Sobe o dólar e com ele a energia elétrica, combustíveis e pão, por exemplo; – Aumentou o risco Brasil. Empresas pagarão juros maiores, produzirão menos e com mais custos; – Menos investimento, emprego e renda. Bom dia. Desenho?



Foto do dia – Fotografia de Steve McCurry


Brasil tem quase 30 fábricas de vacina para gado e só 2 para humanos.


Pintura de George Shipperley- s/d s/t


Em 1964, os militares alegaram perturbação da ordem para se contrapor ao governo Jango e dar um golpe. Agora, estão ao lado de um desordeiro.


Erika Marena já foi exonerada e indiciada? Essa é a imagem que a Polícia Federal quer ter registrada em sua história? Japonês tornozelado como jeito e delegada que assina qqr coisa que a quadrilha envia? Sério isso? Nós pagamos para que uma picareta autue por inspiração criminosa?

Os fura-filas da vacinação contra a covid-19 mostram a nefasta versão 2.0 do jeitinho brasileiro

Fenômeno é reflexo da perda de valores sociais de coletividade e é potencializado, segundo especialistas, pela polarização política. Punição de infratores não deveria paralisar imunização, como em Manaus

No grande festival fura-fila que se tornou a vacinação contra a covid-19 em vários Estados brasileiros, juízes federais do Rio Grande do Sul tentam encomendar doses do imunizante Covaxin, fabricada pela empresa indiana Bharat Biontech, pelo preço de 800 reais por duas doses. Essa vacina ainda não foi aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e sua precificação é ilegal, já que não foi definida na Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). Mas esse é apenas o exemplo mais recente de como o processo de vacinação durante a pandemia escancara a crise moral que assola o país e que, segundo diferentes especialistas, é potencializada pela polarização política dos afetos.

O Ministério Público do Amazonas pediu a prisão preventiva do prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), e da secretária municipal de Saúde, Shadia Fraxe, por suposta fraude no processo de vacinação. Eles são acusados de desviar recursos de saúde para “atender a interesses particulares” e imunizar pessoas com “ligações políticas e econômico-financeiras” com Almeida. Em Pires do Rio (GO), o agora ex-secretário de Saúde Assis Silva Filho incluiu a si própria e a sua mulher na lista de vacinação antes dos grupos prioritários. Denunciado pelo Ministério Público (MP) do Estado, ele fez acordo para pagar 50.000 reais de multa e deixou o cargo.

Também é notório o caso do caso da enfermeira Nathanna Faria Ceschim, da Santa Casa de Misericórdia de Vitória (ES), que publicou nas redes sociais um vídeo questionando a eficácia da Coronavac e, dias depois, fez outra publicação dizendo que tinha se vacinado apenas para viajar. Ela foi demitida na última segunda-feira (25/01). Já na quinta-feira, uma técnica de enfermagem foi afastada após ter simulado aplicar a vacina em uma idosa de 97 anos, em Maceió. A cuidadora da nonagenária filmou o momento e denunciou a prática da profissional.

“Estamos vivendo a versão 2.0 do jeitinho brasileiro, que se aproveita do desespero dos demais para tirar vantagem”, lamenta Renato Meirelles, fundador e presidente do Instituto Locomotiva. Em junho de 2020, o Instituto publicou uma pesquisa mostrando que um terço das classes A e B usufruiu do auxílio emergencial criado para a população socioeconomicamente vulnerável. “A fraude é transversal a todas as classes econômicas, mas ela foi acentuada pelas narrativas de disputa política. Vivemos um enfrentamento entre o campo da ação civilizatória e o da barbárie”, explica. Já não se trata de uma disputa “entre direita e esquerda”, mas de uma oposição entre aqueles que sabem que a Terra é redonda e os que acreditam no terraplanismo.

“A noção deles de liberdade não é a favor, é sempre contra os outros. É a liberdade de fazer os outros morrerem”, avalia Renato Janine Ribeiro, filósofo e professor de Ética na USP (Universidade de São Paulo). Ele concorda com a chanceler alemã, Angela Merkel, que disse que a pandemia de covid-19 é o maior desafio da humanidade desde a Segunda Guerra Mundial. “E o mais grave é que a pandemia chegou em um período de racha no mundo, desde a crise de 2008, quando a extrema direita se ergueu e construiu governos antissolidários, com agendas de destruição e não de construção”, acrescenta.

E, no Brasil, como lembra Meirelles, a narrativa do que é certo ou errado depende, historicamente, das circunstâncias. “É um país onde as elites consideram o privilégio um direito adquirido e impera o lema farinha pouca, meu pirão primeiro. Não teria nenhum problema, por exemplo, as pessoas quererem comprar vacina, se têm dinheiro para isso, caso houvesse uma abundância de imunizantes, mas há uma escassez”, argumenta.

Ambos especialistas consideram que as infrações individuais no processo de imunização são espelho das falhas institucionais de um Governo que, inicialmente, negou a gravidade da pandemia, e depois recusou-se a montar estratégias para prevenir o avanço do contágio e preparar uma imunização com insumos e capilaridade suficientes. “Se a situação política fosse outra, não perderíamos tempo discutindo fatos e já teríamos entendido, como sociedade, que o uso da máscara é para proteger o outro, para proteger a vida em sociedade, um princípio que rege também a proibição de fumar em local fechado, por exemplo”, diz Meirelles.

O fundador do Instituto Locomotiva explica que o fato de o Brasil viver “uma contínua crise econômica”, que remonta a 2015, gera também uma crise de perspectiva: como os cidadãos perderam muito —financeiramente e em outros aspectos—, surge uma raiva e um sentimento antissistema que fomenta atitudes individualistas. A disputa de narrativas políticas que leva à polarização acaba provocando rupturas no tecido social. “Os atores políticos que surfaram nessa onda, entre eles [Jair] Bolsonaro, tourearam as raivas da população e foram limando um sentimento de coletividade em prol do individualismo”, argumenta.

“E a situação é agravada pelos grandes passadores de pano, que são lenientes com as atitudes do Governo Federal”, acrescenta Janine Ribeiro ao citar os mais de 60 pedidos de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro que aguardam tramitação na Câmara dos Deputados, presidida por Rodrigo Maia (DEM). O filósofo acredita, no entanto, que a sociedade brasileira ainda não chegou a um ponto de não retorno e tem chance de resgatar valores civilizatórios. Ele usa a Alemanha como exemplo ao lembrar que, décadas depois do nazismo —”que foi a pior coisa do século XX”—, o país fez um ajuste de contas com seu passado de autoritarismo e se consolidou como uma república garantista de direitos.

O desafio nesse caminho, no entanto, é que o Brasil “nunca processou sua história”, de acordo com o filósofo. “A ditadura é um exemplo disso. Cada vez que o Brasil sai de uma grande crise, ele a varre para debaixo do tapete, quando o que deveria fazer é olhá-la, fazer questionamentos, procurar os responsáveis e puni-los”, afirma.

Crime e castigo

No caso dos fura-filas da vacina contra a covid-19, o advogado Marcelo Válio, especialista em Direito Constitucional, explica que não faltam instrumentos legais para responsabilizá-los. O primeiro que cita é o Artigo 268 do Código Penal, que dispõe sobre a infração de medida sanitária preventiva. “É justamente o caso de quem passa na frente de grupos prioritários, mesmo conhecendo as determinações das autoridades de saúde”, diz. O jurista também cita a Lei 13.869 de 2019, que atribui crime de responsabilidade a prefeitos que desviem “bens [no caso, as vacinas], rendas ou serviços públicos” para benefício próprio ou de terceiros.

Válio salienta que, pelo menos nos casos citados nesta reportagem, também há corrupção passiva e ativa e que, de modo geral, não deveria existir dificuldade para a punição dos infratores. “Os Ministérios Públicos Estaduais têm competência para denunciar essas pessoas. No caso de secretários de saúde [como o que vacinou a esposa como uma declaração de amor], o MP pode entrar com uma medida cautelar de suspensão do exercício de função pública [previsto no Artigo 319 do Código de Processo Penal]”.

O epidemiologista Antonio Lima, especialista em saúde pública, considera, no entanto, que o país deve ter outras prioridades antes de voltar-se para a punição dos infratores. “Claro que eles devem ser punidos no rigor da lei, mas, para que isso seja feito, não podemos permitir que as investigações travem a campanha de vacinação, como aconteceu em Manaus”, pondera. A vacinação na capital amazonense foi suspensa no dia 22 de janeiro, após a suspeita de fraude na distribuição e aplicação das doses, e só foi retomada quatro dias depois. Na terça-feira (26/01), a juíza federal Jaiza Fraxe suspendeu a distribuição das vacinas de Oxford (produzidas em parceria com a AstraZeneca) em Manaus para garantir total transparência na programação e critérios de vacinação.

“É perigoso travar a campanha de imunização, temos é que correr, ainda mais quando não há previsão de insumos imunológicos”, afirma Lima, que defende que a vacinação de profissionais de saúde deveria ocorrer concomitantemente com a imunização de idosos entre 65 e 85 anos. Segundo o epidemiologista, a média etária de maior mortalidade por covid-19 é de 72 anos.

O pesquisador espanhol, Lluis Montoliu, também argumenta que os furas-filas devem receber a segunda dose da vacina, mesmo tendo cometido uma falha inaceitável: “Estas pessoas devem receber a segunda dose, porque é maior o bem que obtemos ao vaciná-las (protegendo a elas e ao resto da população) que o dano que elas cometeram à sociedade ao se vacinarem antes da hora, ou que o dano que causaríamos à sociedade ao interromper o protocolo de vacinação e causar risco a essas pessoas e ao seu entorno”, escreveu ele.

Lima lembra que, além da escassa quantidade de doses no país, a eficácia —muito inferior aos 95% da vacina contra a influenza, por exemplo—, é “muito boa” para evitar hospitalizações e mortes, mas exige uma cobertura grande coletiva. Ou seja, trata-se de uma vacina que tem potencial para frear a pandemia e desafogar as UTIs, principalmente do SUS (Sistema Único de Saúde). Por isso, o epidemiologista tem pressa e ecoa a dúvida urgente de milhões de brasileiros: “Quanto tempo vamos levar para colocar a vacina no braço de quem precisa?”.

Fatos & Fotos – 29/12/2020

 


As ilustrações de Tang Yau Hoong


Desemprego cresce 2,7% em um ano, enquanto aumenta a informalidade. A taxa de informalidade chegou a 38,8% da população ocupada com 32,7 milhões de trabalhadores informais no país.


Escultura de Mikhail Gubin XVIII


Uma pessoa dá uma festa de arromba de 5 dias, em plena pandemia, reunindo uma pequena multidão em sua mansão. A questão é: só dono da festa parece estar em outro planeta? E todos os envolvidos (músicos, convidados, empresas terceirizadas que dão suporte ao rega-bofe) ficam como?


Automóveis Clássicos – Desoto Hood,1946


Até Sócrates, Platão e Aristóteles vão ser vacinados e a gente não.
Grécia recebe primeiro lote da vacina da Pfizer; a vacinação começará amanhã. Além de 1,2 milhão de unidades esperadas da vacina americana, o país tem acorodo com as empresas Moderna e AstraZeneca.
Γαμώτο Μπολσονάρο.


Relatório da Polícia Federal mostrou que delação de Palocci foi inventada. Foi retirada de pesquisas na internet e notícias falsas de jornais.
E a golpista mor, Globo, divulgou 24 hs com vinheta de plantão. Serviu para gerar fato político na semana que antecedia as eleições de 2018.


Fim do auxílio emergencial.
O povo irá viver como?


Morreu Pierre Cardin. Visionário e pioneiro na moda, estilista francês tinha 98 anos


Como é, Bolsonaro? Não pode interferir na Anvisa para salvar vidas, mas na Polícia Federal e na Abin para proteger os filhos bandidos, pode?



Foto do dia Gjon Mili


Pintura de Gustav Klimt
Lady with a Fan, 1918


Estou impressionado como a vulgaridade infectou o país. Não que antes do Bolsonaro ela não existisse, mas esse governo abriu a porteira. Não  bastassem os Olavos e Saras, um site di-rei-tis-ta faz manchete que Fux “botou (aquilo) na mesa”. Não respeitam o STF ou é ele que não se dá ao respeito?


Ex-Libris Roman Nikolaevich Sustov


Motivos para o fracasso brasileiro:
1.Negacionismo
2.Troca de ministros da saúde na pandemia culminando com um que não conhece o SUS
3.Gasto de dinheiro com remédio que não funciona
4.Falta de planejamento para vacinação
5.Falta de liderança na crise
6.Descaso com a vida alheia
7.Uma vírus na rua e um verme no poder
8.Todas as acima


Quão bem posicionado está o Brasil na corrida por uma vacina?

Especialistas falam sobre as perspectivas para uma imunização contra a covid-19 e os possíveis gargalos a serem enfrentados pelo país.

 “Está muito claro que em 2021 não terá vacinação em massa no Brasil”, diz especialista

Quando foi declarada a pandemia de covid-19, começou uma corrida global sem precedentes em busca de uma vacina que pudesse resolver a crise de saúde que praticamente parou o mundo. Em pouco tempo, estimativas otimistas e promessas de autoridades passaram a ser publicadas, criando expectativas na população.

Enquanto há políticos que chegaram a anunciar o início da vacinação ainda em 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou acreditar que grande parte da população terá de aguardar até 2022 para ser vacinada.

A DW Brasil ouviu especialistas para entender a real situação do Brasil nessa corrida pelo imunizante.

“Quem marca uma data certa para iniciar vacinação, em um período como o que estamos agora, ou não entende do processo ou está de má-fé”, diz Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin de Vacinas. “No Brasil, as promessas parecem tão otimistas porque estão sendo feitas por políticos, e não por cientistas.”

“É um assunto geralmente abordado de forma cautelosa por agências de saúde e de forma populista pelos governos”, comenta Jean Pierre Shatzmann Peron, pesquisador da Plataforma Científica Pasteur e professor de imunologia da Universidade de São Paulo.

Atualmente há dez vacinas no mundo, segundo a OMS, na chamada fase 3 – a mais avançada. Destas, duas firmaram parcerias técnicas com o Brasil: a chinesa Sinovac, com o Instituto Butantan, e a inglesa AstraZeneca, com a Fundação Oswaldo Cruz.

As duas estão adiantadas, mas, como enfatiza Garrett, nada garante que “cruzarão a linha de chegada na frente ou que conseguirão cruzar a linha de chegada”. “Isso pode acontecer. O processo de uma vacina é assim, é um investimento de risco. É caro por várias razões, e uma é esta”, ressalta.

Além da vacina chinesa da Sinovac e da de Oxford, receberam autorização e inciaram testes com voluntários no Brasil imunizantes contra a covid-19 desenvolvidos pela Janssen, unidade farmacêutica da Johnson & Johnson, e pela empresa BioNTech, da Alemanha, em parceria com a Pfizer, dos Estados Unidos.

Além disso, o Brasil tornou-se signatário de uma inciativa internacional capitaneada pela OMS para acelerar o desenvolvimento de uma vacina. Para o diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, Renato Kfouri, em termos de articulação, portanto, o país está se posicionando relativamente bem. O gargalo estaria na quantidade.

“Não teremos vacina para toda a população num primeiro momento”, afirma Kfouri. “Está muito claro que em 2021 não terá vacinação em massa no Brasil [contra covid-19]. Talvez em 2022”, concorda Ricardo Gazzinelli, presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia.

A importância dos testes

Os especialistas ouvidos pela DW Brasil explicam que em casos de urgência como uma pandemia é possível aprovar uma vacina sem a conclusão da fase 3 – com acompanhamentos pré-determinados ao longo do estágio, desde que os resultados sejam altamente positivos. Mas há receio tanto de efeitos colaterais que possam surgir após alguns meses como quanto à possibilidade de a eficácia de imunização diminuir com o tempo.

“Pessoalmente, acredito que um teste clínico da fase 3 não pode ser feito em apenas quatro meses. Tem de ser com no mínimo 10, 12 meses. Porque uma eficácia pode ser de 50% a 60% em quatro meses e cair para bem abaixo disso. Mas tem pressão de alguns políticos”, aponta Gazzinelli.

“Exige-se um tempo mínimo de observação, e atualmente este tempo mínimo está sendo discutido internacionalmente”, completa Jorge Elias Kalil, diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor).

Essa pressão deve fazer até que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprove um imunizante com eficácia inferior aos 70% que são praxe. O que também, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem, pode ser um tiro no pé: em um contexto já dominado por negacionistas, a baixa eficácia pode alimentar discursos antivacina.

Há ainda o fator do efeito na população como um todo. Quando uma parcela considerável está vacinada, o vírus não consegue se disseminar. Mas quanto mais baixa a eficácia de uma vacina, maior tem de ser essa parcela. De acordo com cálculos da epidemiologista Garrett, uma vacina com 75% de eficácia precisaria ser inoculada em 66% da população para que tal resultado fosse atingido. “Isso é muito”, diz.

Produção e distribuição

Mas quando uma – ou, nos melhores cenários, mais de uma – vacina finalmente for considerada segura e eficaz, o problema passa a ser a produção, a distribuição e a aplicação em massa.

Kalil não acredita que o Brasil, em um primeiro momento, irá produzir as vacinas porque “a transferência tecnológica para a produção da mesma iria levar muito tempo”. Segundo ele, o que deve ocorrer é a compra a granel e o trabalho de instituições como o Butantan para colocar em frascos.

“Por que o Brasil não está à frente com um candidato próprio de vacina? Na verdade essa pergunta é muito importante para a gente, porque o país tem capacidade científica muito grande. O problema é que a produção [científica] ainda é pequena para o tamanho do país, e isso é assim por causa dos baixos investimentos em pesquisa”, diz Carlos Rodrigo Zárate-Bladés, diretor do Laboratório de Imunorregulação da Universidade Federal de Santa Catarina.

Assim, deve haver um gargalo na compra desses imunizantes, quando aprovados. Com uma população de 210 milhões de habitantes e considerando que as fórmulas mais avançadas preveem duas doses de vacinação, fica matematicamente difícil garantir que uma proporção considerável dos brasileiros seja imunizada de forma imediata.

Há ainda a perda natural do processo – segundo os especialistas, de 20% a 30% do total acabam perdidos nos frascos. Kalil diz que a escolha vai ter de ser “entre os que têm mais probabilidade de morrer e os que estão mais expostos à doença”, ou seja, os idosos e aqueles com comorbidades ou os médicos da linha de frente e aqueles de serviços essenciais que normalmente têm contatos com muitas pessoas – como motoristas de transporte público e agentes de segurança.

Por outro lado, o Brasil tem uma ótima experiência em campanhas de vacinação e uma rede eficiente de distribuição e aplicação em postos de saúde – estruturas essas que poderiam ser adaptadas para os trabalhos de imunização contra a covid-19. O país conta com 35 mil salas de vacinação e tem um calendário vacinal abrangente em relação a outras partes do mundo.

Fake news

Enquanto a vacina não vem, Zárate-Bladés acredita que um bom preparativo seria combater um problema adicional: a “chuva de desinformação absolutamente irresponsável e sem nenhuma base científica em relação a vacinas”.

“Em relação a duas que estão em testes no Brasil, de uma eles dizem que se trata de um intento comunista para dominar o mundo, e a outra que é uma tentativa de Bill Gates de tornar todo mundo chips andantes”, comenta. “São aberrações ditas até por autoridades. Acho que esse é o gargalo fundamental que a gente vai enfrentar e já estamos enfrentando.”