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Leonardo Boff – A ternura: a seiva da amor

Aprenda para que não pensem por você.
A ternura: a seiva da amorJardin Japonêns,Pedras,Blog do Mesquita
 
Mesmo no coração da atual crise social não podemos esquecer da ternura que subjaz a todos os empreendimentos que envolvem valores e afetam o coração humano.
 
São misteriosos os caminhos que vão do coração de um homem na direção do coração da mulher e do coração da mulher na direção do coração homem. Igualmente misteriosas são as travessias do coração de dois homens e respectivamente de duas mulheres que se encontram e declaram seus mútuos afetos. Desse ir e vir nasce o enamoramento, o amor e por fim o casamento ou a união estável. Como temos a ver com liberdades, os parceiros se encontram inevitavelmente expostos a eventos imponderáveis.
 
A própria existência nunca é fixada uma vez por todas. Vive em permanente dialogação com o meio. Essa troca não deixa ninguém imune. Cada um vive exposto. Fidelidades mútuas são postas à prova. No matrimônio, passada a paixão, inicia a vida cotidiana com sua rotina cinzenta. Ocorrem desencontros na convivência a dois. irrompem paixões vulcânicas pelo fascínio de outra pessoa. Não raro o êxtase é seguido de decepção. Há voltas, perdões, renovação de promessas e reconciliações. Sempre sobram, no entanto, feridas que, mesmo cicatrizadas, lembram que um dia sangraram.
 
O amor é uma chama viva que arde mas que pode bruxolear e lentamente se cobrir de cinzas e até se apagar. Não é que as pessoas se odeiam. Elas ficaram indiferentes umas às outras. É a morte do amor. O verso 11 do Cântico Espiritual do místico São João da Cruz, que são canções de amor entre a alma a Deus, diz com fina observação: “a doença de amor não se cura sem a presença e a figura”. Não basta o amor platônico, virtual ou à distância. O amor exige presença. Quer a figura concreta que é mais mais que o pele-a-pele mas o cara-a-cara e o coração sentindo o palpitar do coração do outro.
 
Bem diz o místico poeta: o amor é uma doença que, nas minhas palavras, só se cura com aqulo que eu chamaria de ternura essencial. A ternura é a seiva do amor. “Se quiseres guardar, fortalecer, dar sustentabilidade ao amor seja terno para com o teu companheiro oua tua companheira”. Sem o azeite da ternura não se alimenta a chama sagrada do amor. Ela se apaga.
 
Que é a ternura? De saida, descartemos as concepções psicologizantes e superficiais que identificam a ternura como mera emoção e excitação do sentimento face ao outro. A concentração só no sentimento gera o sentimentalismo. O sentimentalismo é um produto da subjetividade mal integrada. É o sujeito que se dobra sobre si mesmo e celebra as suas sensações que o outro provocou nele. Não sái de si mesmo.
 
Ao contrário, a ternura irrompe quando a pessoa se descentra de si mesma, sái na direção do outro, sente o outro como outro, participa de sua existência, se deixa tocar pela sua história de vida. O outro marca o sujeito. Esse demora-se no outro não pelas sensações que lhe produz, mas por amor, pelo apreço de sua pessoa e pela valorização de sua vida e luta. “Eu te amo não porque és bela; és bela porque te amo”.
 
A ternura é o afeto que devotamos às pessoas nelas mesmas. É o cuidado sem obsessão. Ternura não é efeminação e renúncia de rigor. É um afeto que, à sua maneira, nos abre ao conhecimento do outro. O Papa Francisco no Rio falando aos bispos latinoamericanos presentes cobrou-lhes “a revolução da ternura” como condição para um encontro pastoral verdadeiro.
 
Na verdade só conhecemos bem quando nutrimos afeto e nos sentimos envolvidos com a pessoa com quem queremos estabelecer comunhão. A ternura pode e deve conviver com o extremo empenho por uma causa, como foi exemplarmente demonstrado pelo revolucionário absoluto Che Guevara (1928-1968). Dele guardamos a sentença inspiradora: ”hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás”. A ternura inclui a criatividade e a auto-realização da pessoa junto e através da pessoa amada.
 
A relação de ternura não envolve angústia porque é livre de busca de vantagens e de dominação. O enternecimento é a força própria do coração, é o desejo profundo de compartir caminhos. A angústia do outro é minha angústica, seu sucesso é meu sucesso e sua salvação ou perdição é minha salvação e minha perdição e, no fundo, não só minha mas de todos.
 
Blaise Pascal(1623-1662), filósofo e matemático francês do século XVII, introduziu uma distinção importante que nos ajuda a entender a ternura: o esprit de finesse e o esprit de géometrie.
 
O esprit de finesse é o espírito de finura, de sensibilidade, de cuidado e de ternura. O espírito não só pensa e raciocina. Vai além porque acrescenta ao raciocínio sensibilidade, intuição e capacidade de sentir em profundidade. Do espírito de finura nasce o mundo das excelências, das grandes sonhos, dos valores e dos compromissos para os quais vale dispender energias e tempo.
 
O esprit de géometrie é o espírito calculatório e obreirista, interessado na eficácia e no poder. Mas onde há concentração de poder aí não há ternura nem amor. Por isso pessoas autoritárias são duras e sem ternura e, às vezes, sem piedade. Mas é o modo-de-ser que imperou na modernidade. Ela colocou num canto, sob muitas suspeitas, tudo o que tem a ver com o afeto e a ternura.
 
Daí se deriva também o vazio aterrador de nossa cultura “geométrica” com sua pletora de sensações mas sem experiências profundas; com um acúmulo fantástico de saber mas com parca sabedoria, com demasiado vigor da musculação, do sexualismo, dos artefatos de destruição mostrados nos serial killer mas sem ternura e cuidado de uns para com os outros, para com a Terra, para com seus filhos e filhas, para com o futuro comum de todos.
 
O amor é a vida são frágeis. Sua força invencível vem da ternura com a qual os cercamos e sempre os alimentamos.
 
Leonardo Boff
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Conceição Evaristo – A noite não adormece nos olhos das mulheres – Poesia

A noite não adormece nos olhos das mulheres
Conceição EvaristoPicasso,Arte,Mulher Chorando,blog do Mesquita
 
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
 
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso

de nossas molhadas lembranças

Foto: Kylere

William Gibson e a idiotice do patriotismo

Em 1984, o escritor norte-americano William Gibson publicou Neuromancer, obra que viria a compor a sua aclamada “trilogia do ciberespaço” (contando também com Count Zero e MonaLisa Overdrive).

No livro, Gibson mostra uma realidade cyberpunk, um futuro em que as pessoas buscariam de forma insaciável a conexão a um mundo virtual, através do qual fugiriam da realidade e teriam acesso a uma quantidade inimaginável de informações.

A trama, que acompanha o errático personagem Case em suas viagens alucinógenas pelo matrix e sua relação complicada com o uso de tóxicos, já foi mote para diversas discussões. Não é preciso muito esforço para encontrar textos falando sobre a capacidade premonitória de Gibson ao descrever, nos anos 1980, nossa relação com a tecnologia e a informação no século XXI. Porém, há outro aspecto da obra que merece atenção e reflexão, sobretudo em ano de eleições e copa do mundo.

No mundo de Gibson, as fronteiras nacionais foram praticamente limadas, e cidades outrora grandiosas viraram grandes amontoados de lixo e desordem (qualquer referência a Blade Runner, Ghost in the Shell e outras obras não é coincidência). Grandes conglomerados e corporações misteriosas são, finalmente, quem comandam o mundo, tanto em nível macroestrutural, moldando a economia, a política e a cultura; quanto em âmbito individual, intervindo na vida diária de cada pessoa (como mostrado na história de Case). Na estória, a companhia Tessier-Ashpool é quase onipresente e onipotente, chegando a ser capaz de controlar até mesmo as intrigas que põem em xeque a existência da corporação.

Mas, afinal, o que isso tem a ver com nossas eleições e a copa do mundo?

Em Neuromancer, Gibson, através de sua escrita confusa e das várias viradas narrativas, nos mostra aspectos de um mundo onde as corporações exercem grandes poderes, levando à sublimação da ideia de identidade nacional, dos mitos de congregação em torno de comunidades. Franceses bronzeados, jamaicanos alucinados, japoneses irados e pessoas sem nenhuma distinção identitária se confundem e misturam em uma realidade onde nada disso importa; somente os interesses individuais.

William Gibson escreveu essa história no momento de estruturação do neoliberalismo como agenda política e econômica no ocidente, e sua leitura sobre como o mundo caminharia nesse sentido nos leva a muitas reflexões. O avanço neoliberal das últimas décadas nos coloca frente à presença de grandes corporações nas entranhas dos estados nacionais, movendo a máquina política, articulando interesses que pouco tem a ver com o bem público, e sim, com as motivações das próprias empresas.

A realidade, finalmente, é que vivemos em um mundo governado pelas grandes empresas. Não é preciso grande esforço para perceber que essa afirmação não é conspiratória ou fantasiosa. Como no mundo de Gibson, grandes conglomerados influenciam nossa vida em tantos níveis que não somos capazes de realmente vê-los, apenas sentir o impacto de algumas de suas ações. Por outro lado, alguns ritos e tradições de nossa vida em comunidade levam as pessoas a um estado catártico de patriotismo que parece apagar toda a realidade das nossas mentes. A cada quatro anos, pessoas vestem a camisa literal e sentimental da pátria, esbravejando um sentimento de comunidade que não existe em nível individual, tampouco coletivo. É o típico abraço desordenado em desconhecidos após um gol da seleção brasileira, ou após a vitória de seu candidato salvador da pátria na eleição.

Essa é a idiotice do patriotismo. Através dele, compartilhamos um sentimento forçado de comunidade que não vivemos no cotidiano, somente em ocasiões pontuais da vida. Ao fim do dia, somos como os personagens de Gibson, procurando simplesmente suprir necessidades e desejos individuais (ou de uma coletividade muito pequena – família, amigos etc.). O sentimento de comunidade que pressupõe o patriotismo é ilusório, uma piada de mau gosto.

Não é que acredite ser preciso negar a vida em comunidade. Pelo contrário, é preciso viver de forma comunitária sem se apegar a símbolos tão voláteis como uma bandeira ou hino. Essas coisas, em muitas vezes, criam mais sensos de diferença do que pertencimento, e nos tiram o foco de questões mais profundas e sérias. Em vez de procurar nos ver como amantes da bandeira, poderíamos nos sentir todos trabalhadores, explorados pelos interesses do grande capital. Em vez de votar em pessoas que beijam bandeiras e cantam hinos enquanto desmontam a máquina pública às escondidas, poderíamos optar por aqueles que articulam propostas para o bem público, mesmo sem esbravejar o amor ao país.

Bandeiras e hinos são tradições, invenções (como já mostram Eric Hobsbawm e Michel de Certeau), e servem muito pouco à vida prática. Ainda mais se levarmos em conta o fato de serem atos automatizados: são poucos os que já pararam para ler o hino, ou mesmo que conhecem a história da bandeira, do lema “ordem e progresso”; que dirá a história do país. No fim das contas, estamos no mesmo ponto da história de Gibson: torcemos e bradamos por um jogo, enquanto quem exerce grande poder está jogando outro esporte.


Textos referenciados;

Gibson, William. Neuromancer. São Paulo: Editora Aleph, 2016. 5ª ed.

Certeau, Michel. A invenção do cotidiano. Vol. 1. Artes de fazer. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2012.

Hobsbawm, Eric J e Ranger, Terrence. A invenção das tradições. São Paulo: Paz & Terra, 2012. 11ª edição.

O tempo na era digital

A evolução da tecnologia proporciona o acesso ilimitado à informação. No entanto, a velocidade e a quantidade com que o conteúdo é disseminado no ambiente digital, causam uma sensação geral de falta de tempo para que possamos assimilar tudo.

Evolução,Tempo,Era digital, Blog do Mesquita

Com isso, as ferramentas facilitadoras, como sites de busca, entretenimento, institucionais, lojas virtuais que comparam produtos e preços, TV digital com programação definida pelo consumidor, redes sociais, ganham espaço e audiência pelo fato de proporcionarem uma otimização de tempo aos usuários e consumidores. Para empresas, instituições ou entidades utilizar essas ferramentas da tecnologia da informação, para apresentar seus produtos ou serviços, auxilia no ganho de tempo dos seus públicos respectivos.

Hoje em dia não precisamos nos ausentar da mesa de trabalho, ou ficarmos pendurados ao telefone para obter determinadas informações do que desejamos.

Melhor ainda, podemos realizar cursos online, comprar ingressos para shows pela internet, comprar DVDs e a grande novidade: já é possível comprar ou alugar downloads de filmes.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Daqui a pouco, quem sabe, poderemos até comprar a transmissão de palestras ou espetáculos culturais para assistir de onde estivermos, assim como já podemos fazer com partidas de futebol. Assistir ao show da banda preferida, que está acontecendo em outro estado, no lugar mais vip que podemos encontrar, a nossa casa, será maravilhoso. Temos tudo, a qualquer tempo na internet.

O empreendedorismo digital ganha atenção especial e aumenta a concorrência no mercado como um todo. O consumidor quer conhecer tal produto previamente, em todos os âmbitos, sem ter que pagar pra ver. E quanto a isso, as novas ferramentas contribuem e muito. As possibilidades de ampliar negócios, expor idéias, divulgar trabalho, se relacionar no meio digital são inúmeras e muito criativas, e os apostadores não precisam ser técnicos ou especialistas nesse ambiente, para fazer uso.

O comportamento dos internautas brasileiros vem mudando e devemos acompanhar atentamente tais modificações, pois os acessos não se limitam mais somente às redes de relacionamento ou entretenimento, inclusive entre os jovens. Segundo pesquisas realizadas por entidades competentes, um jovem no Brasil acessa mais de 2.000 mil páginas de internet por mês, 56% mais que um adulto.

Além disso, o número de idosos fazendo uso da internet também vem crescendo. Um cenário que se modifica rapidamente e requer cada vez mais facilitadores para que possam absorver tudo que está sendo oferecido. Se “tempo é dinheiro”, cada segundo é uma cifra, então devemos fazer uso de toda ferramenta que agregue serviço e também agregue valor ao caixa.
por Roberto Soares Costa/Especialista em projetos na web

Ensaio sobre nossa cegueira

Cegueira,Blog do MesquitaHá um surto de falta de visão em Brasília. O poder não percebe que vem se descolando progressivamente do cidadão médio. E os políticos acreditam que o povo aceitará isso para sempre.

O jornal O Estado de S.Paulo trouxe neste domingo a informação de que aumentaram os casos de cegueira no país. Uma explicação é o fim dos mutirões para cirurgia de catarata.

Certo dia, um burocrata qualquer decidiu que seria melhor remodelar o sistema, colocando em uma cesta de intervenções cirúrgicas de média complexidade os recursos que antes serviam para pagar as operações de catarata.

Ah, uma coisa assim absurda deveria trazer duras consequências aos responsáveis. Alguém deveria ser punido. De preferência, quem teve a ideia e a implementou. Seria lógico. Mas se você apostar que nada irá acontecer certamente vai ganhar a aposta. Quem é que se preocupa com os portadores de catarata que não podem pagar uma cirurgia para retomar a visão? O que é o simples cego pobre quando comparado com o burocrata cheio de razão e poder “normatizante”?

É um caso pontual, mas emblemático. Ontem, o Correio Braziliense exibiu reportagens sobre como o dinheiro dos ministérios é generosamente destinado a organizações supostamente “não governamentais”, comandadas por aliados políticos dos ministros. É difícil arrumar dinheiro público para tornar mais ágeis as operações de catarata nos pobres, mas é fácil mobilizar dinheiro do povo para lubrificar os projetos dos donos do poder.

Assim como tampouco escasseiam os recursos para que deputados e senadores viajem com suas famílias ao exterior à custa do Tesouro. No que essas viagens ajudam o parlamentar a bem cumprir o mandato? O que tais passeios têm a ver com a tarefa de representar o eleitor no Congresso Nacional? Nada. Uma coisa é usar o dinheiro da cota de passagens aéreas para fazer andar o trabalho político. Outra é torrar o dinheiro dos impostos em atividades de lazer para suas excelências.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

E o senador, riquíssimo, que converteu suas passagens e gastou meio milhão de reais com jatinhos? E o outro senador, morto há pouco, cuja viúva obteve do Senado, em dinheiro bem vivo, o saldo das passagens não utilizadas pelo falecido? Para essas coisas não falta verba. Mas se o sujeito é pobre, precisa operar a catarata e agora não tem mais o mutirão, que aguarde sentado. De preferência trancado em casa. Ouvindo rádio e tevê. Pois o governo decidiu combater o “populismo”.

Já nos estados, virou hábito o candidato derrotado a governador assumir o cargo quando o vencedor é cassado pela Justiça Eleitoral. Nada contra as cassações. Que os maus políticos sejam removidos. O problema começa quando os tribunais eleitorais passam a ocupar o lugar do eleitor. O que isso tem a ver com democracia? Nada.

Não estou aqui a criticar os tribunais. Eles apenas cumprem a função constitucional de interpretar e fazer valer a legislação. Se a lei diz que o segundo colocado deve assumir o cargo nessas situações, que a lei seja cumprida. O problema está no Congresso Nacional, que assiste passivamente ao absurdo e nada faz. Por que senadores e deputados não votam em regime de urgência uma norma que determine novas eleições quando o titular perde o cargo? Qual é a dificuldade de fazer isso num país de voto eletrônico universal, e cujas campanhas eleitorais acontecem praticamente só na mídia?

Mas isso significaria ampliar a soberania popular, aumentar o controle do povo sobre os políticos. E a coisa mais difícil de encontrar hoje em dia em Brasília é alguém sinceramente preocupado com o que o povo acha das coisas. Infelizmente, os nossos políticos parecem tomados por um espírito de gafanhoto. Comportam-se como enxames de gafanhotos. Por onde passam, não sobra nada. O normal seria eu escrever aqui “com as honrosas exceções de praxe”. Mas vai que amanhã a tal exceção aparece no noticiário mostrando que não é tão exceção assim?

Este texto começou tratando de pobres que ficam cegos porque não conseguem se operar de catarata na rede pública. Pensando bem, a doença não é só deles. Há um surto de cegueira em Brasília. O poder não percebe que vem se descolando progressivamente do cidadão médio. Em parte porque não há uma força real a se contrapor – como fazia o PT no passado. Em parte porque os políticos acreditam piamente que o povo aceitará isso para sempre.

O título da coluna eu tomei emprestado, é claro. Que o Saramago me desculpe, mas não achei um melhor.

blog do Alon

Nelson Mota – Reflexões na tarde – 02/01/2015

Simpáticos, cordiais e canalhas
Nelson Mota

Cuidado com os simpáticos e cordiais, sempre advirto minhas filhas, e mais ainda com os bajuladores e paparicadores: são condições básicas necessárias para o exercício da canalhice. Claro, se além de canalha o cara é antipático, grosso, mal-educado, fica bem mais difícil encontrar vítimas para suas canalhices. Poderá ser apenas um bandido óbvio. Canalhas não, eles podem ser vistos até como pessoas “respeitáveis”, podem ser muito queridos pela família, pelos amigos e aliados, que se beneficiam das suas canalhices, sem passar vergonha na rua, na escola e no trabalho. É o canalha gente boa.

Nada contra a simpatia ou a cordialidade, pelo contrário, com elas a vida e a convivência se tornam muito mais agradáveis, civilizadas e produtivas, e me esforço diariamente para usá-las como um estilo de vida. Não uma arma.

Assim como o psicanalista Hélio Pellegrino dizia que a inteligência voltada para o mal é pior do que a burrice, a simpatia e a cordialidade, quando usadas para o exercício da canalhice, são piores do que a secura e a dureza no trato. É o estilo preferido dos políticos brasileiros, dos grandes ladrões públicos, dos oligarcas que enriquecem com a política, mas não abrem mão de uma aura de respeitabilidade e prestígio — que lhes permite continuar nas canalhices.

São pessoas aparentemente doces e carinhosas, paizões e vovôzinhos, que defendem o clã em qualquer circunstância. São generosos e tolerantes com familiares, amigos e agregados, mas sempre com dinheiro público. São contadores de causos pitorescos, gostam de citar provérbios populares de suas regiões, aparentam simplicidade interiorana, mas são raposas urbanas vorazes e vaidosas. Espertos, bem informados e maledicentes, são fontes disputadas por jornalistas, que em troca os poupam de maiores criticas. Católicos fervorosos, mantêm laços estreitos com o candomblé, mas jamais o admitem.

Eles são muitos, estão no Senado, na Câmara, em altos cargos da administração pública, estão todos ricos, poderosos e impunes. Em Brasília, os que os conhecem pessoalmente confirmam que são simpáticos e cordiais. Embora canalhas.


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Regime militar brasileiro e as ditaduras do cone sul

É rotineira a associação do regime militar brasileiro com as ditaduras do Cone Sul (Argentina, Uruguai, Chile e Paraguai). Nada mais falso.

Por Marco Antônio Villa¹

O regime militar brasileiro teve características próprias, independentes até da Guerra Fria.
Fez parte de uma tradição anti- democrática solidamente enraizada e que nasceu com o positivismo, no final do Império. O desprezo pela democracia foi um espectro que rondou o nosso país durante cem anos de república.
Tanto os setores conservadores como os chamados progressistas transformaram a democracia em um obstáculo à solução dos grandes problemas nacionais, especialmente nos momentos de crise política.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O regime militar brasileiro não foi uma ditadura de 21 anos. Não é possível chamar de ditadura o período 1964-1968 (até o AI-5), com toda a movimentação político-cultural. Muito menos os anos 1979-1985, com a aprovação da Lei de Anistia e as eleições para os governos estaduais em 1982. Mas as diferenças são maiores.
Enquanto a ditadura argentina fechou cursos universitários, no Brasil ocorreu justamente o contrário.

Houve uma expansão do ensino público de terceiro grau por meio das universidades federais, sem esquecer várias
universidades públicas estaduais que foram criadas no período, como a Unicamp e a Unesp, em São Paulo.

Ocorreu enorme expansão na pós-graduação por meio da ação do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior),especialmente, e da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), em São Paulo.

Ou seja, os governos militares incentivaram a formação de quadros científicos em todas as áreas do conhecimento concedendo bolsas de estudos no Brasil e no exterior. As ditaduras do Cone Sul agiram dessa forma?

A Embrafilme – que teve importante papel no desenvolvimento do cinema nacional – foi criada no auge do regime militar, em 1969. Financiou a fundo perdido centenas de filmes, inclusive de obras críticas ao governo (o ministro Celso Amorim presidiu a Embrafilme durante o regime militar).

A Funarte foi criada em 1975 -quem pode negar sua importância no desenvolvimento da música, das artes plásticas e do teatro brasileiros? E seus projetos de grande êxito, como o Pixinguinha, criado em 1977, para difundir a música nacional?

No Brasil, naquele período, circularam jornais independentes – da imprensa alternativa – com críticas ao regime (evidentemente, não deve ser esquecida a ação nefasta da censura contra esses periódicos).

Isso ocorreu no Chile de Pinochet? E os festivais de música popular e as canções-protesto? Na Argentina de Videla esse fato se repetiu? E o teatro de protesto? A ditadura argentina privatizou e desindustrializou a economia. Quem não se recorda do ministro Martinez de Hoz? Já o regime militar brasileiro estatizou grande parte da economia.

Somente o presidente Ernesto Geisel criou mais de uma centena de estatais.
Os governos militares industrializaram o país, modernizaram a infraestrutura, romperam os pontos de estrangulamento e criaram as condições para o salto recente do Brasil, como por meio das descobertas da Petrobras nas bacias de Santos e de Campos nos anos 1970.

É sabido que o crescimento econômico foi feito sem critérios, concentrou renda, criou privilégios nas empresas estatais (que foram denunciados, ainda em 1976, nas célebres reportagens de Ricardo Kotscho sobre as mordomias) e estabeleceu uma relação nociva com as empreiteiras de obras públicas. Porém, é inegável que se enfrentaram e se venceram vários desafios econômicos e sociais.

É curioso o processo de alguns intelectuais de tentarem representar o papel de justiceiros do regime militar. Acaba sendo uma ópera-bufa. Estranhamente, omitiram-se quando colegas foram aposentados compulsoriamente pelo AI-5, como Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Emilia Viotti da Costa, entre outros; ou quando colegas foram presos e condenados pela “Justiça Militar”, como Caio Prado Júnior.

Muitos fizeram carreira acadêmica aproveitando-se desse vazio e “resistiram” silenciosamente. A história do regime militar ainda está presa numa armadilha. De um lado, pelos seus adversários. Alguns auferem altos dividendos por meio de generosas aposentadorias e necessitam reforçar o caráter retrógrado e repressivo do regime, como meio de justificar as benesses.

De outro, por civis (estes, esquecidos nas polêmicas e que alçaram altos voos com a redemocratização) e militares que participaram da repressão e que necessitam ampliar a ação opositora – especialmente dos grupos de luta armada – como justificativa às graves violações dos direitos humanos.

¹MARCO ANTONIO VILLA, 52, é professor de história do Departamento de Ciências Sociais da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e autor,entre outros livros, de “Jango, um Perfil”.

Independência ou morte social e econômica

Foto Metáfora 7 de SetembroNo dia 7 de setembro de 1822 o Brasil declara-se independente da coroa portuguesa para se tornar um país livre e soberano, portanto, no dia 7 de setembro, a nação brasileira comemora o dia da independência.

Porém, qual independência comemoramos?

Mais um feriado nacional a ser comemorado por uma sociedade que se diz “patriota e supostamente independente”, que faz cálculos para ver se a data cairá próxima a um final de semana para que se tenha um feriado prolongado.

Temos uma constituição que prevê a instituição de um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, garantindo-se, ainda aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade.

Por isso, torna-se prioridade fazer um apelo a todos os Brasileiros para algumas reflexões através do seguinte questionamento: Quais são os direitos previstos na constituição que temos hoje?

Direitos que garantem que nossa população, sejam idosos, jovens ou crianças, morram sem atendimento médico nas filas de hospitais públicos.

Direitos que garantem 4 meses de trabalho por ano, apenas para pagar impostos, em um Pais que possui o privilégio de se destacar internacionalmente por ter a maior carga tributária do mundo, hoje em aproximadamente 40% (quarenta por cento) de tudo que se produz internamente (PIB); Direitos que garantem ações meramente políticas e demagógicas, criando cotas em universidades públicas se valendo de preconceitos como a distinção de raças em que se menospreza a condição intelectual do individuo pela cor de sua pele.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Direitos que garantem, que, o cidadão não retorne para sua casa, ou mesmo sem sair se torne vítima de um “bala perdida” por falta de uma política que direcione recursos apropriados para a segurança social. Isto envolve também uma política mais séria e determinante nos quesitos condição social e educação. Vemos a impunidade imperar e o crime se organizar e muitas vezes somos governados por poderes paralelos.

Na realidade, infelizmente, pode-se enumerar diversas garantias de direitos não oficiais e negativas em uma sociedade que se diz em “desenvolvimento” e que perde a batalha para um “mosquito” como o caso da dengue, para que a municipalidade recebe mais verbas para a saúde, que via de regra são desviadas para outras finalidades.

Sabe-se que nosso País possui uma das economias mais rica do mundo, somos o maior produtor e exportador de trigo, soja, carne bovina, café, minério de ferro, celulose etc. Mas infelizmente a nação se vangloria por valorizar a produção e exportação de “craques de futebol”, fator este que orgulha uma sociedade portadora de uma cultura pobre imposta por uma política covarde.

Um Pais que é auto-suficiente em produção de petróleo, a matriz energética do mundo, um País que possui tecnologia de ponta na geração de combustíveis alternativos, sendo um bom exemplo para o resto do mundo e mesmo assim, pagamos o combustível mais caro da América do Sul; pagamos os impostos mais elevados do mundo que somados aos problemas sociais temos um indicador cruel chamado “Risco País” que influencia diretamente no Índice de Desenvolvimento Humano – IDH.

Uma nação onde a classe trabalhadora é referenciada por um salário mínimo, onde esse salário deveria suportar todas as necessidades básicas de um cidadão, mas que não suporta o mínimo do direito a alimentação básica, muito menos ao direito a saúde, segurança, educação e ao lazer, dentre outros.

Qual o direito a diversão, a arte, quando não temos nem mesmo como pagar as contas básicas de água a luz e dependemos de uma cesta básica doada pela empresa que trabalhamos para complementar o sustento de nossas familias?

Qual o direito de adquirir um produto novo, uma geladeira, quando comprando a prazo, pagamos o dobro do preço por conta da altíssima taxa de juros praticados por bancos e instituições financeiras, sempre amparados pelo governo, que deveria zelar pelos direitos da população?

Qual a igualdade e justiça que temos hoje?

Quando os julgados, são detentores de mandatos políticos, nunca são penalizados de acordo com os preceitos da Lei, que penaliza alguém que comete um furto de uma lata de leite em pó, para que seus filhos(as) não passem fome, ou o que tenta a todo custo, como ambulante nas ruas, sustentar sua família vendendo produtos sem nota fiscal e assim, formalizando a economia informal.

Qual inviolabilidade do direito a vida que temos? Qual o direito a liberdade que temos?

Qual o direito a igualdade que temos? Qual o direito a segurança que temos? Qual o direito a propriedade que temos?

É por pensar que o Brasil nunca sairá do quadro vergonhoso em que se encontra que a sociedade brasileira, não se mobiliza ou simplesmente desconhece o seu dever cívico e moral de tomar uma atitude, usando, na maioria das vezes, o famoso jargão “isso não é da minha conta”.

A sociedade é a única responsável por tudo isso, respaldada pelo estado democrático de direito através do voto.

Ser patriota e comemorar a Independência vai muito alem de honrar nossa Bandeira apenas em copas do mundo quando a maioria da população reverencia seu símbolo nacional na janela de suas casas e nos seus carros.

Portanto, se realmente amamos a nossa pátria, amamos a nós próprios, amamos a nossa família, devemos praticar nosso patriotismo todos os dias do ano e por que não recomeçarmos no dia 7 de setembro, estando em qualquer local do pais, indo para as ruas, ocupando praças, convocando a sua comunidade, seus familiares, seus amigos, igrejas, instituições, partidos políticos, agremiações etc, afim de mostrarmos a nossa indignação e vontade de acertar o cenário político social do Brasil não só contra a corrupção impregnada, mas também, contra a falta de direitos básicos justos e perfeitos na vida de uma sociedade.

Em resumo, a independência de uma nação não se faz com belos discursos de palanque frases de efeito ou artigos como este. A independência de uma nação se faz através de atitudes coesas com a responsabilidade de gerir uma sociedade saudável, livre de discriminações, injustiças e desigualdade o que a tornará verdadeiramente livre.
Sandro Ronaldo Rizzato – Advogado
Richard Moreira – Economista

Petróleo. O pré-sal e capacidade militar

A dimensão militar da pré-sal

Blog do Mesquita,Soberania Nacionjal,Brasil,Forças Armadas,Petróleo,Pre-sal

Em breve, o governo apresenta o novo marco regulatório para explorar a camada pré-sal sem ter estimulado o debate público sobre as graves implicações de o Brasil se transformar em um dos maiores produtores mundiais de óleo. A história prova que integrar o grande jogo mundial do petróleo gera repercussões geopolíticas, militares e financeiras globais.

Porém, a informação de que petróleo e guerra necessariamente andam juntos está sendo escamoteada pelo discurso ufanista de que os recursos advindos da exploração do petróleo resolverão todos as injustiças sociais que marcam a trajetória do povo brasileiro. Falta a grandeza dos estadistas para tornar público o debate sobre os rumos que esta nação deseja para si. A mobilização em torno da institucionalidade do pré-sal seria um ótimo momento para fazê-lo.

Explorar estas reservas, que podem chegar à onírica marca dos 100 bilhões de baris de óleo de excelente qualidade, não vai apenas garantir o ingresso de centenas de bilhões de dólares para o Estado brasileiro. Petróleo não é uma mercadoria como outra qualquer. Fundamentalmente, ele é o principal energético utilizado no mundo e tudo que o envolve impacta as finanças internacionais, podendo gerar crises de resultados imprevisíveis.

[ad name=”Retangulo – Anuncios – Esquerda”]A exploração desta riqueza nos dará a responsabilidade de integrar o reduzido grupo de nações que definem os rumos de toda a humanidade. Teremos bônus e ônus decorrentes da condição de grande jogador e precisamos ter ciência e consciência do que isto representa. Mas, quantas pessoas sabem disso?

Ter reservas extraordinárias de petróleo e exportá-las mundo afora exige vontade de Nação de usar capacidade militar para garantir os canais de comercialização do óleo em qualquer parte do mundo. Frequentemente estaremos em guerra e seremos convocados a intervir com força sempre que nosso petróleo estiver ameaçado.

Essa é a lógica desse setor, estimulada inclusive porque as indústrias militar e de petróleo são interconectadas. Fazer guerra para garantir o óleo dá um enorme ganho de escala ao seleto grupo de empresas como a estadunidense Halliburton, que lucram em ambos os lados do problema e chegam a influenciar eleições presidenciais.

A defesa e a exploração da pré-sal, além da exportação em larga de óleo, abre espaço para que alguém reivindique a adoção pelo Brasil de capacidade atômica para dissuadir outros atores internacionais interessados em projetar o seu próprio poder sobre nossas reservas, meios de transporte e armazenamento de petróleo (cerca de 2/3 do petróleo brasileiro já são armazenadas nos navios da Petrobras, o que coloca a suscita o desenvolvimento de submarinos atômicos).

Seguindo a lógica do petróleo&guerra, teríamos até de modificar a Constituição para permitir a adoção do poder atômico militar pelo País. Eventualmente, mesmo a ratificação do Tratado de Não Proliferação de Armas Atômicas seria questionada.

É isso o que realmente desejamos?

Só para se ter uma idéia do terreno que estamos adentrando. Nos anos 1980, os EUA pressionaram legal e também ilegalmente os grandes em níveis baixos os preços do produto. O objetivo era enfraquecer economicamente a então União Soviética, que tinha na exportação de gás natural e petróleo sua maior fonte de divisas internacionais, e que a duras penas conseguia até aquele momento rivalizar militarmente com os americanos.

Com os preços mantidos artificialmente em baixa durante anos, devido à grande disponibilidade no mercado internacional, o ingresso de moedas fortes para os soviéticos caiu e, com ele, a própria URSS se desmanchou em 1991.

Além do aumento das emissões de gases causadores do Efeito Estufa (uma contradição com a aposta no etanol) a discussão sobre a dimensão militar da pré-sal é tão difícil quanto urgente. O Brasil está às vésperas de tomar decisões que terão impacto sobre a atual e as futuras gerações de brasileiros, mas nenhuma instituição se dispõe à trabalhosa e inadiável tarefa de ouvir o povo brasileiro.

Carlos Tautz é jornalista
blog do Noblat

Roberto DaMatta e o valor das idéias

Competências,Ideias,Educação, Blog do MesquitaOpinião: O valor das idéias
Roberto DaMatta ¹

“O livro é, entre nós, um mistério e um atrapalhador. A ele somos avessos como é o Diabo da cruz.”

No Brasil as idéias têm, como tudo o mais, poder, mas não têm valor. Com elas – supõe-se – se fazem revoluções, promove-se a justiça e liquida-se a fome. Mas ninguém sabe muito bem quem as inventou: se são inatas ou aprendidas; se fazem parte de algum sistema ou conjunto; se saem diretamente da cabeça das pessoas ou das televisões, das telas dos cinemas, das igrejas ou dos livros.

O poder – e estamos, mais uma vez, aprendendo a lição porque agora somos nós e não eles – é complicado (são muitas disputas), difícil (há inúmeros projetos), árduo (toda decisão implica reflexão, tempo e conhecimento mínimo do assunto), ingrato (eu dou tudo, e eles querem sempre mais) duro (como é que eu vou dizer não para o fulano?), caro (tenho muito mais ambições do que meios para realizá-las) e ambíguo (eu posso tudo, mas falar de mim desse jeito é falta de respeito institucional: temos que processar, expulsar, prender ou dar uma lição)…

Para quem tem poder, o sucesso não se explica pelo domínio abstrato das idéias, mas por meio de uma misteriosa ‘prática’ ou ‘conhecimento da realidade’ da ‘vida’. É o saber do propalado caminho das pedras que não se ensina a ninguém.[ad#Retangulo – Anuncios – Direita]

Todos os poderosos dizem que ‘lutaram muito’, que foram ‘muito ajudados’, que souberam ‘aproveitar oportunidades’. Poucos falam de idéias. Uma microminoria fala, quando fala, de que essas idéias saíram das salas de aula e dos livros.

Como um povo que, na sua longa fase escravista, cultivou o analfabetismo e a mais bestial ignorância e, na modernidade republicana, a desigualdade social baseada no ‘diploma’, as ‘letras’ sempre foram vistas com desconfiança.

Eram, primeiramente, femininas; depois, se concretizaram em poesia que comoviam mas não resolviam; finalmente porque levavam a uma fuga do mundo real e, pior que isso, revelavam aquela face da realidade que ninguém queria enxergar.

Contra o mundo das ‘letras’, repetia-se a fórmula da ‘dura realidade’ que obriga a trocar os versos pela tal ‘prática da vida’.

Afinal, como disse um poeta (o grande Gonçalves Dias) muito lembrado, porque, na realidade, cantou o que está em nossas cabeças: ‘A vida é combate/Que os fracos abate,/Que os fortes, os bravos/ Só pode exaltar.’

A única idéia que adotamos é que o importante na vida é a sua dura e dolorosa prática. Daí, a popularidade da boutade que conforta e faz a glória de todos os que vivem dos livros e, sobretudo, dos professores: quem sabe faz; quem não sabe, ensina!

Haveria, algo mais expressivo da glorificação da tal ‘prática da vida’?

Os que sabem, fazem porque (na ausência do muito ler e refletir que enlouquece), simplesmente executam e praticam; já os que não sabem – os que lidam apenas com as teorias ou as idéias que geralmente não levam a nada ou trazem um mundo de problemas – ensinam.

São meros repetidores que, nas salas de aula, falam de coisas abstratas (e dispensáveis) que, por serem virtuais, atrapalham os que querem ir em frente, com a sua maravilhosa prática, mudando radicalmente o mundo, guiados por suas poderosas experiências, como sempre ocorreu na nossa exemplar história social e política.

Descobrindo, por exemplo, que a gente moderniza o País tratando os adversários políticos como inimigos; ou acaba com a burocracia criando um Ministério da Desburocratização; ou aceitando o ilegal como legal; ou processando os que nos criticam…

Em suma: as idéias são péssimas e seus carregadores, os livros, uns criadores de caso. Aliás, o livro é, entre nós, um mistério e um atrapalhador. A ele somos avessos como é o Diabo da cruz.

De fato, como não ser desfavorável ao livro se ele desdiz a tal ‘prática da vida’, indicando novos caminhos, revelando erros, denunciando um autoritarismo de raiz e formação, em perpétuo combate com as liberdades individuais, e supersensível a qualquer chamada à responsabilidade, sobretudo a que se imprime no cargo público?

Ademais, como não suspeitar desses objetos quadrados que, fechados, são tão mudos quantos as pedras, mas abertos, soltam gritos, soluços e – sobretudo – os imensos silêncios da humanidade nas suas diferenças e semelhanças?

A autoridade – pelo menos no Brasil, faz: tenta fechar, proibir, prender, calar. Um dos seus trunfos é o argumento da prática contra o poder das idéias.

Da caneta contra a letra; do regimento constitucional (as idéias feitas), contra o livro que ensina não apenas o poder das idéias, mas as suas implicações e responsabilidades.

A ambigüidade do livro é o símbolo vivo dessa intolerável desvalorização das idéias em nosso país.

Essas idéias que são também englobadas pelo credo jamais discutido, segundo o qual, quem ensina é a vida, a experiência e uma prática proto-sociológica que promove certezas e que tem como função naturalizar e tornar indiscutível tanto o poder dos poderosos quanto o dinheiro dos ricos.

¹Roberto DaMatta é um dos mais ilustres antropólogos brasileiros. Ocupa a Cátedra Reverend Edmund P. Joyce, CSC da Universidade Notre Dame, em Indiana, Estados Unidos. É autor de vários estudos importantes, entre os quais se destacam “Carnavais”, “Malandros e Heróis”, “A Casa & a Rua” e “O que faz o brasil, Brasil?”.