Fernando Pessoa – Reflexões

Aprenda para que não pensem por você.
Somos Vítimas de uma Prolongada Servidão Coletiva

Produto de dois séculos de falsa educação fradesca e jesuítica, seguidos de um século de pseudo-educação confusa, somos as vítimas individuais de uma prolongada servidão coletiva. Fomos esmagados (…) por liberais para quem a liberdade era a simples palavra de passe de uma seita reacionária, por livres-pensadores para quem o cúmulo do livre-pensamento era impedir uma procissão de sair, de maçons para quem a Maçonaria (longe de a considerarem a depositária da herança sagrada da Gnose) nunca foi mais do que uma Carbonária ritual. Produto assim de educações dadas por criaturas cuja vida era uma perpétua traição àquilo que diziam que eram, e às crenças ou ideias que diziam servir, tínhamos que ser sempre dos arredores.
Fernando Pessoa

Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog do Mesquita 00 B

Afonso Duarte – Provençal – Poesia

Provençal
Afonso Duarte

Em um solar de algum dia
Cheiinho de alma e valia,
Foi ali
Que ao gosto de olhos a vi

Como dantes inda vasto
Agora
Não tinha pombas nem mel.
E à opulência de outrora,
Esmoronado e já gasto,
Pedia mãos de alvenel.

Foi ali
Que ao gosto de olhos a vi.

O seu chapéu, que trazia
Do calor contra as ardências,
Era o que a pena daria
Num certo sabor e arrimo
Com jeitos de circunferências
A morrer todas no cimo.

Davam-lhe franco nos ombros
As pontas do lenço branco:
E sem que ninguém as ouça,
Eram palavras da moça
Com a voz alta de chamar;

Palavras feitas em gesto,
Igualzinho e manifesto,
Como um relance de olhar.

E bela, fechada em gosto,
Fazia o seu rosto dela
A gente mestre de amar.

Foi num solar de algum dia,
Cheiinho de alma e valia,
Que eu disse de mim para ela
Por este falar assim:

Vem, meu amor!

E os dois iremos juntos pelos montes;
E o Sol abençoará, nosso tesoiro,
A seara, o pão da terra, o trigo loiro,
E como nós hão-de falar as fontes.

Vem, meu amor!

E terás os meus cantos, o que eu valho;
Vem: serás do meu sangue e meu suor!
Dê-me beijos e graça o teu amor
E encherás de ternura o meu trabalho.

Vem, meu amor!

E o fim do nosso dia, o sol poente,
Sem más obras na mente e coração,
Há-de sorrir à nossa casa, à gente.

Vem, meu amor!

Vem como o Sol doirado quando brilha
De juntinho da terra e em devoção
Ele a beija e fecunda à maravilha.

Pintura de Èduard Manet

Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog do Mesquita (9)

Guilherme Pavarin – Farol do sono

Farol do sono
Guilherme Pavarin

lua oculta, novo enigma:
entre os calos das falhas
as valas das dúvidas
desacatam o agora

na forja das grutas
cubro com dorflex e saliva
a coceira de lapidar
uma nova pedra bruta

hoje não há saída:
vedam-se os vagões
o aquário das intuições
partidas, bebidas

amanhã — torço —
os trilhos estarão a postos
um farol iluminará o fosso
a bússola virá como sopro

que a noite germine o ócio
da carne, cresçam os ossos
e o impensável
se torne óbvio

Foto de Gilbert Garcin

Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog-do-Mesquita 10

Leonardo Boff – A ternura: a seiva da amor

Aprenda para que não pensem por você.
A ternura: a seiva da amorJardin Japonêns,Pedras,Blog do Mesquita
 
Mesmo no coração da atual crise social não podemos esquecer da ternura que subjaz a todos os empreendimentos que envolvem valores e afetam o coração humano.
 
São misteriosos os caminhos que vão do coração de um homem na direção do coração da mulher e do coração da mulher na direção do coração homem. Igualmente misteriosas são as travessias do coração de dois homens e respectivamente de duas mulheres que se encontram e declaram seus mútuos afetos. Desse ir e vir nasce o enamoramento, o amor e por fim o casamento ou a união estável. Como temos a ver com liberdades, os parceiros se encontram inevitavelmente expostos a eventos imponderáveis.
 
A própria existência nunca é fixada uma vez por todas. Vive em permanente dialogação com o meio. Essa troca não deixa ninguém imune. Cada um vive exposto. Fidelidades mútuas são postas à prova. No matrimônio, passada a paixão, inicia a vida cotidiana com sua rotina cinzenta. Ocorrem desencontros na convivência a dois. irrompem paixões vulcânicas pelo fascínio de outra pessoa. Não raro o êxtase é seguido de decepção. Há voltas, perdões, renovação de promessas e reconciliações. Sempre sobram, no entanto, feridas que, mesmo cicatrizadas, lembram que um dia sangraram.
 
O amor é uma chama viva que arde mas que pode bruxolear e lentamente se cobrir de cinzas e até se apagar. Não é que as pessoas se odeiam. Elas ficaram indiferentes umas às outras. É a morte do amor. O verso 11 do Cântico Espiritual do místico São João da Cruz, que são canções de amor entre a alma a Deus, diz com fina observação: “a doença de amor não se cura sem a presença e a figura”. Não basta o amor platônico, virtual ou à distância. O amor exige presença. Quer a figura concreta que é mais mais que o pele-a-pele mas o cara-a-cara e o coração sentindo o palpitar do coração do outro.
 
Bem diz o místico poeta: o amor é uma doença que, nas minhas palavras, só se cura com aqulo que eu chamaria de ternura essencial. A ternura é a seiva do amor. “Se quiseres guardar, fortalecer, dar sustentabilidade ao amor seja terno para com o teu companheiro oua tua companheira”. Sem o azeite da ternura não se alimenta a chama sagrada do amor. Ela se apaga.
 
Que é a ternura? De saida, descartemos as concepções psicologizantes e superficiais que identificam a ternura como mera emoção e excitação do sentimento face ao outro. A concentração só no sentimento gera o sentimentalismo. O sentimentalismo é um produto da subjetividade mal integrada. É o sujeito que se dobra sobre si mesmo e celebra as suas sensações que o outro provocou nele. Não sái de si mesmo.
 
Ao contrário, a ternura irrompe quando a pessoa se descentra de si mesma, sái na direção do outro, sente o outro como outro, participa de sua existência, se deixa tocar pela sua história de vida. O outro marca o sujeito. Esse demora-se no outro não pelas sensações que lhe produz, mas por amor, pelo apreço de sua pessoa e pela valorização de sua vida e luta. “Eu te amo não porque és bela; és bela porque te amo”.
 
A ternura é o afeto que devotamos às pessoas nelas mesmas. É o cuidado sem obsessão. Ternura não é efeminação e renúncia de rigor. É um afeto que, à sua maneira, nos abre ao conhecimento do outro. O Papa Francisco no Rio falando aos bispos latinoamericanos presentes cobrou-lhes “a revolução da ternura” como condição para um encontro pastoral verdadeiro.
 
Na verdade só conhecemos bem quando nutrimos afeto e nos sentimos envolvidos com a pessoa com quem queremos estabelecer comunhão. A ternura pode e deve conviver com o extremo empenho por uma causa, como foi exemplarmente demonstrado pelo revolucionário absoluto Che Guevara (1928-1968). Dele guardamos a sentença inspiradora: ”hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás”. A ternura inclui a criatividade e a auto-realização da pessoa junto e através da pessoa amada.
 
A relação de ternura não envolve angústia porque é livre de busca de vantagens e de dominação. O enternecimento é a força própria do coração, é o desejo profundo de compartir caminhos. A angústia do outro é minha angústica, seu sucesso é meu sucesso e sua salvação ou perdição é minha salvação e minha perdição e, no fundo, não só minha mas de todos.
 
Blaise Pascal(1623-1662), filósofo e matemático francês do século XVII, introduziu uma distinção importante que nos ajuda a entender a ternura: o esprit de finesse e o esprit de géometrie.
 
O esprit de finesse é o espírito de finura, de sensibilidade, de cuidado e de ternura. O espírito não só pensa e raciocina. Vai além porque acrescenta ao raciocínio sensibilidade, intuição e capacidade de sentir em profundidade. Do espírito de finura nasce o mundo das excelências, das grandes sonhos, dos valores e dos compromissos para os quais vale dispender energias e tempo.
 
O esprit de géometrie é o espírito calculatório e obreirista, interessado na eficácia e no poder. Mas onde há concentração de poder aí não há ternura nem amor. Por isso pessoas autoritárias são duras e sem ternura e, às vezes, sem piedade. Mas é o modo-de-ser que imperou na modernidade. Ela colocou num canto, sob muitas suspeitas, tudo o que tem a ver com o afeto e a ternura.
 
Daí se deriva também o vazio aterrador de nossa cultura “geométrica” com sua pletora de sensações mas sem experiências profundas; com um acúmulo fantástico de saber mas com parca sabedoria, com demasiado vigor da musculação, do sexualismo, dos artefatos de destruição mostrados nos serial killer mas sem ternura e cuidado de uns para com os outros, para com a Terra, para com seus filhos e filhas, para com o futuro comum de todos.
 
O amor é a vida são frágeis. Sua força invencível vem da ternura com a qual os cercamos e sempre os alimentamos.
 
Leonardo Boff
Literatura,Poesia,Cultura,Filosofia,Frases,Blog-do-Mesquita 10

Conceição Evaristo – A noite não adormece nos olhos das mulheres – Poesia

A noite não adormece nos olhos das mulheres
Conceição EvaristoPicasso,Arte,Mulher Chorando,blog do Mesquita
 
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
 
A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso

de nossas molhadas lembranças

Foto: Kylere

William Gibson e a idiotice do patriotismo

Em 1984, o escritor norte-americano William Gibson publicou Neuromancer, obra que viria a compor a sua aclamada “trilogia do ciberespaço” (contando também com Count Zero e MonaLisa Overdrive).

No livro, Gibson mostra uma realidade cyberpunk, um futuro em que as pessoas buscariam de forma insaciável a conexão a um mundo virtual, através do qual fugiriam da realidade e teriam acesso a uma quantidade inimaginável de informações.

A trama, que acompanha o errático personagem Case em suas viagens alucinógenas pelo matrix e sua relação complicada com o uso de tóxicos, já foi mote para diversas discussões. Não é preciso muito esforço para encontrar textos falando sobre a capacidade premonitória de Gibson ao descrever, nos anos 1980, nossa relação com a tecnologia e a informação no século XXI. Porém, há outro aspecto da obra que merece atenção e reflexão, sobretudo em ano de eleições e copa do mundo.

No mundo de Gibson, as fronteiras nacionais foram praticamente limadas, e cidades outrora grandiosas viraram grandes amontoados de lixo e desordem (qualquer referência a Blade Runner, Ghost in the Shell e outras obras não é coincidência). Grandes conglomerados e corporações misteriosas são, finalmente, quem comandam o mundo, tanto em nível macroestrutural, moldando a economia, a política e a cultura; quanto em âmbito individual, intervindo na vida diária de cada pessoa (como mostrado na história de Case). Na estória, a companhia Tessier-Ashpool é quase onipresente e onipotente, chegando a ser capaz de controlar até mesmo as intrigas que põem em xeque a existência da corporação.

Mas, afinal, o que isso tem a ver com nossas eleições e a copa do mundo?

Em Neuromancer, Gibson, através de sua escrita confusa e das várias viradas narrativas, nos mostra aspectos de um mundo onde as corporações exercem grandes poderes, levando à sublimação da ideia de identidade nacional, dos mitos de congregação em torno de comunidades. Franceses bronzeados, jamaicanos alucinados, japoneses irados e pessoas sem nenhuma distinção identitária se confundem e misturam em uma realidade onde nada disso importa; somente os interesses individuais.

William Gibson escreveu essa história no momento de estruturação do neoliberalismo como agenda política e econômica no ocidente, e sua leitura sobre como o mundo caminharia nesse sentido nos leva a muitas reflexões. O avanço neoliberal das últimas décadas nos coloca frente à presença de grandes corporações nas entranhas dos estados nacionais, movendo a máquina política, articulando interesses que pouco tem a ver com o bem público, e sim, com as motivações das próprias empresas.

A realidade, finalmente, é que vivemos em um mundo governado pelas grandes empresas. Não é preciso grande esforço para perceber que essa afirmação não é conspiratória ou fantasiosa. Como no mundo de Gibson, grandes conglomerados influenciam nossa vida em tantos níveis que não somos capazes de realmente vê-los, apenas sentir o impacto de algumas de suas ações. Por outro lado, alguns ritos e tradições de nossa vida em comunidade levam as pessoas a um estado catártico de patriotismo que parece apagar toda a realidade das nossas mentes. A cada quatro anos, pessoas vestem a camisa literal e sentimental da pátria, esbravejando um sentimento de comunidade que não existe em nível individual, tampouco coletivo. É o típico abraço desordenado em desconhecidos após um gol da seleção brasileira, ou após a vitória de seu candidato salvador da pátria na eleição.

Essa é a idiotice do patriotismo. Através dele, compartilhamos um sentimento forçado de comunidade que não vivemos no cotidiano, somente em ocasiões pontuais da vida. Ao fim do dia, somos como os personagens de Gibson, procurando simplesmente suprir necessidades e desejos individuais (ou de uma coletividade muito pequena – família, amigos etc.). O sentimento de comunidade que pressupõe o patriotismo é ilusório, uma piada de mau gosto.

Não é que acredite ser preciso negar a vida em comunidade. Pelo contrário, é preciso viver de forma comunitária sem se apegar a símbolos tão voláteis como uma bandeira ou hino. Essas coisas, em muitas vezes, criam mais sensos de diferença do que pertencimento, e nos tiram o foco de questões mais profundas e sérias. Em vez de procurar nos ver como amantes da bandeira, poderíamos nos sentir todos trabalhadores, explorados pelos interesses do grande capital. Em vez de votar em pessoas que beijam bandeiras e cantam hinos enquanto desmontam a máquina pública às escondidas, poderíamos optar por aqueles que articulam propostas para o bem público, mesmo sem esbravejar o amor ao país.

Bandeiras e hinos são tradições, invenções (como já mostram Eric Hobsbawm e Michel de Certeau), e servem muito pouco à vida prática. Ainda mais se levarmos em conta o fato de serem atos automatizados: são poucos os que já pararam para ler o hino, ou mesmo que conhecem a história da bandeira, do lema “ordem e progresso”; que dirá a história do país. No fim das contas, estamos no mesmo ponto da história de Gibson: torcemos e bradamos por um jogo, enquanto quem exerce grande poder está jogando outro esporte.


Textos referenciados;

Gibson, William. Neuromancer. São Paulo: Editora Aleph, 2016. 5ª ed.

Certeau, Michel. A invenção do cotidiano. Vol. 1. Artes de fazer. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2012.

Hobsbawm, Eric J e Ranger, Terrence. A invenção das tradições. São Paulo: Paz & Terra, 2012. 11ª edição.

O tempo na era digital

A evolução da tecnologia proporciona o acesso ilimitado à informação. No entanto, a velocidade e a quantidade com que o conteúdo é disseminado no ambiente digital, causam uma sensação geral de falta de tempo para que possamos assimilar tudo.

Evolução,Tempo,Era digital, Blog do Mesquita

Com isso, as ferramentas facilitadoras, como sites de busca, entretenimento, institucionais, lojas virtuais que comparam produtos e preços, TV digital com programação definida pelo consumidor, redes sociais, ganham espaço e audiência pelo fato de proporcionarem uma otimização de tempo aos usuários e consumidores. Para empresas, instituições ou entidades utilizar essas ferramentas da tecnologia da informação, para apresentar seus produtos ou serviços, auxilia no ganho de tempo dos seus públicos respectivos.

Hoje em dia não precisamos nos ausentar da mesa de trabalho, ou ficarmos pendurados ao telefone para obter determinadas informações do que desejamos.

Melhor ainda, podemos realizar cursos online, comprar ingressos para shows pela internet, comprar DVDs e a grande novidade: já é possível comprar ou alugar downloads de filmes.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

Daqui a pouco, quem sabe, poderemos até comprar a transmissão de palestras ou espetáculos culturais para assistir de onde estivermos, assim como já podemos fazer com partidas de futebol. Assistir ao show da banda preferida, que está acontecendo em outro estado, no lugar mais vip que podemos encontrar, a nossa casa, será maravilhoso. Temos tudo, a qualquer tempo na internet.

O empreendedorismo digital ganha atenção especial e aumenta a concorrência no mercado como um todo. O consumidor quer conhecer tal produto previamente, em todos os âmbitos, sem ter que pagar pra ver. E quanto a isso, as novas ferramentas contribuem e muito. As possibilidades de ampliar negócios, expor idéias, divulgar trabalho, se relacionar no meio digital são inúmeras e muito criativas, e os apostadores não precisam ser técnicos ou especialistas nesse ambiente, para fazer uso.

O comportamento dos internautas brasileiros vem mudando e devemos acompanhar atentamente tais modificações, pois os acessos não se limitam mais somente às redes de relacionamento ou entretenimento, inclusive entre os jovens. Segundo pesquisas realizadas por entidades competentes, um jovem no Brasil acessa mais de 2.000 mil páginas de internet por mês, 56% mais que um adulto.

Além disso, o número de idosos fazendo uso da internet também vem crescendo. Um cenário que se modifica rapidamente e requer cada vez mais facilitadores para que possam absorver tudo que está sendo oferecido. Se “tempo é dinheiro”, cada segundo é uma cifra, então devemos fazer uso de toda ferramenta que agregue serviço e também agregue valor ao caixa.
por Roberto Soares Costa/Especialista em projetos na web

Ensaio sobre nossa cegueira

Cegueira,Blog do MesquitaHá um surto de falta de visão em Brasília. O poder não percebe que vem se descolando progressivamente do cidadão médio. E os políticos acreditam que o povo aceitará isso para sempre.

O jornal O Estado de S.Paulo trouxe neste domingo a informação de que aumentaram os casos de cegueira no país. Uma explicação é o fim dos mutirões para cirurgia de catarata.

Certo dia, um burocrata qualquer decidiu que seria melhor remodelar o sistema, colocando em uma cesta de intervenções cirúrgicas de média complexidade os recursos que antes serviam para pagar as operações de catarata.

Ah, uma coisa assim absurda deveria trazer duras consequências aos responsáveis. Alguém deveria ser punido. De preferência, quem teve a ideia e a implementou. Seria lógico. Mas se você apostar que nada irá acontecer certamente vai ganhar a aposta. Quem é que se preocupa com os portadores de catarata que não podem pagar uma cirurgia para retomar a visão? O que é o simples cego pobre quando comparado com o burocrata cheio de razão e poder “normatizante”?

É um caso pontual, mas emblemático. Ontem, o Correio Braziliense exibiu reportagens sobre como o dinheiro dos ministérios é generosamente destinado a organizações supostamente “não governamentais”, comandadas por aliados políticos dos ministros. É difícil arrumar dinheiro público para tornar mais ágeis as operações de catarata nos pobres, mas é fácil mobilizar dinheiro do povo para lubrificar os projetos dos donos do poder.

Assim como tampouco escasseiam os recursos para que deputados e senadores viajem com suas famílias ao exterior à custa do Tesouro. No que essas viagens ajudam o parlamentar a bem cumprir o mandato? O que tais passeios têm a ver com a tarefa de representar o eleitor no Congresso Nacional? Nada. Uma coisa é usar o dinheiro da cota de passagens aéreas para fazer andar o trabalho político. Outra é torrar o dinheiro dos impostos em atividades de lazer para suas excelências.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

E o senador, riquíssimo, que converteu suas passagens e gastou meio milhão de reais com jatinhos? E o outro senador, morto há pouco, cuja viúva obteve do Senado, em dinheiro bem vivo, o saldo das passagens não utilizadas pelo falecido? Para essas coisas não falta verba. Mas se o sujeito é pobre, precisa operar a catarata e agora não tem mais o mutirão, que aguarde sentado. De preferência trancado em casa. Ouvindo rádio e tevê. Pois o governo decidiu combater o “populismo”.

Já nos estados, virou hábito o candidato derrotado a governador assumir o cargo quando o vencedor é cassado pela Justiça Eleitoral. Nada contra as cassações. Que os maus políticos sejam removidos. O problema começa quando os tribunais eleitorais passam a ocupar o lugar do eleitor. O que isso tem a ver com democracia? Nada.

Não estou aqui a criticar os tribunais. Eles apenas cumprem a função constitucional de interpretar e fazer valer a legislação. Se a lei diz que o segundo colocado deve assumir o cargo nessas situações, que a lei seja cumprida. O problema está no Congresso Nacional, que assiste passivamente ao absurdo e nada faz. Por que senadores e deputados não votam em regime de urgência uma norma que determine novas eleições quando o titular perde o cargo? Qual é a dificuldade de fazer isso num país de voto eletrônico universal, e cujas campanhas eleitorais acontecem praticamente só na mídia?

Mas isso significaria ampliar a soberania popular, aumentar o controle do povo sobre os políticos. E a coisa mais difícil de encontrar hoje em dia em Brasília é alguém sinceramente preocupado com o que o povo acha das coisas. Infelizmente, os nossos políticos parecem tomados por um espírito de gafanhoto. Comportam-se como enxames de gafanhotos. Por onde passam, não sobra nada. O normal seria eu escrever aqui “com as honrosas exceções de praxe”. Mas vai que amanhã a tal exceção aparece no noticiário mostrando que não é tão exceção assim?

Este texto começou tratando de pobres que ficam cegos porque não conseguem se operar de catarata na rede pública. Pensando bem, a doença não é só deles. Há um surto de cegueira em Brasília. O poder não percebe que vem se descolando progressivamente do cidadão médio. Em parte porque não há uma força real a se contrapor – como fazia o PT no passado. Em parte porque os políticos acreditam piamente que o povo aceitará isso para sempre.

O título da coluna eu tomei emprestado, é claro. Que o Saramago me desculpe, mas não achei um melhor.

blog do Alon

Nelson Mota – Reflexões na tarde – 02/01/2015

Simpáticos, cordiais e canalhas
Nelson Mota

Cuidado com os simpáticos e cordiais, sempre advirto minhas filhas, e mais ainda com os bajuladores e paparicadores: são condições básicas necessárias para o exercício da canalhice. Claro, se além de canalha o cara é antipático, grosso, mal-educado, fica bem mais difícil encontrar vítimas para suas canalhices. Poderá ser apenas um bandido óbvio. Canalhas não, eles podem ser vistos até como pessoas “respeitáveis”, podem ser muito queridos pela família, pelos amigos e aliados, que se beneficiam das suas canalhices, sem passar vergonha na rua, na escola e no trabalho. É o canalha gente boa.

Nada contra a simpatia ou a cordialidade, pelo contrário, com elas a vida e a convivência se tornam muito mais agradáveis, civilizadas e produtivas, e me esforço diariamente para usá-las como um estilo de vida. Não uma arma.

Assim como o psicanalista Hélio Pellegrino dizia que a inteligência voltada para o mal é pior do que a burrice, a simpatia e a cordialidade, quando usadas para o exercício da canalhice, são piores do que a secura e a dureza no trato. É o estilo preferido dos políticos brasileiros, dos grandes ladrões públicos, dos oligarcas que enriquecem com a política, mas não abrem mão de uma aura de respeitabilidade e prestígio — que lhes permite continuar nas canalhices.

São pessoas aparentemente doces e carinhosas, paizões e vovôzinhos, que defendem o clã em qualquer circunstância. São generosos e tolerantes com familiares, amigos e agregados, mas sempre com dinheiro público. São contadores de causos pitorescos, gostam de citar provérbios populares de suas regiões, aparentam simplicidade interiorana, mas são raposas urbanas vorazes e vaidosas. Espertos, bem informados e maledicentes, são fontes disputadas por jornalistas, que em troca os poupam de maiores criticas. Católicos fervorosos, mantêm laços estreitos com o candomblé, mas jamais o admitem.

Eles são muitos, estão no Senado, na Câmara, em altos cargos da administração pública, estão todos ricos, poderosos e impunes. Em Brasília, os que os conhecem pessoalmente confirmam que são simpáticos e cordiais. Embora canalhas.


[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Regime militar brasileiro e as ditaduras do cone sul

É rotineira a associação do regime militar brasileiro com as ditaduras do Cone Sul (Argentina, Uruguai, Chile e Paraguai). Nada mais falso.

Por Marco Antônio Villa¹

O regime militar brasileiro teve características próprias, independentes até da Guerra Fria.
Fez parte de uma tradição anti- democrática solidamente enraizada e que nasceu com o positivismo, no final do Império. O desprezo pela democracia foi um espectro que rondou o nosso país durante cem anos de república.
Tanto os setores conservadores como os chamados progressistas transformaram a democracia em um obstáculo à solução dos grandes problemas nacionais, especialmente nos momentos de crise política.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Direita”]

O regime militar brasileiro não foi uma ditadura de 21 anos. Não é possível chamar de ditadura o período 1964-1968 (até o AI-5), com toda a movimentação político-cultural. Muito menos os anos 1979-1985, com a aprovação da Lei de Anistia e as eleições para os governos estaduais em 1982. Mas as diferenças são maiores.
Enquanto a ditadura argentina fechou cursos universitários, no Brasil ocorreu justamente o contrário.

Houve uma expansão do ensino público de terceiro grau por meio das universidades federais, sem esquecer várias
universidades públicas estaduais que foram criadas no período, como a Unicamp e a Unesp, em São Paulo.

Ocorreu enorme expansão na pós-graduação por meio da ação do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior),especialmente, e da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), em São Paulo.

Ou seja, os governos militares incentivaram a formação de quadros científicos em todas as áreas do conhecimento concedendo bolsas de estudos no Brasil e no exterior. As ditaduras do Cone Sul agiram dessa forma?

A Embrafilme – que teve importante papel no desenvolvimento do cinema nacional – foi criada no auge do regime militar, em 1969. Financiou a fundo perdido centenas de filmes, inclusive de obras críticas ao governo (o ministro Celso Amorim presidiu a Embrafilme durante o regime militar).

A Funarte foi criada em 1975 -quem pode negar sua importância no desenvolvimento da música, das artes plásticas e do teatro brasileiros? E seus projetos de grande êxito, como o Pixinguinha, criado em 1977, para difundir a música nacional?

No Brasil, naquele período, circularam jornais independentes – da imprensa alternativa – com críticas ao regime (evidentemente, não deve ser esquecida a ação nefasta da censura contra esses periódicos).

Isso ocorreu no Chile de Pinochet? E os festivais de música popular e as canções-protesto? Na Argentina de Videla esse fato se repetiu? E o teatro de protesto? A ditadura argentina privatizou e desindustrializou a economia. Quem não se recorda do ministro Martinez de Hoz? Já o regime militar brasileiro estatizou grande parte da economia.

Somente o presidente Ernesto Geisel criou mais de uma centena de estatais.
Os governos militares industrializaram o país, modernizaram a infraestrutura, romperam os pontos de estrangulamento e criaram as condições para o salto recente do Brasil, como por meio das descobertas da Petrobras nas bacias de Santos e de Campos nos anos 1970.

É sabido que o crescimento econômico foi feito sem critérios, concentrou renda, criou privilégios nas empresas estatais (que foram denunciados, ainda em 1976, nas célebres reportagens de Ricardo Kotscho sobre as mordomias) e estabeleceu uma relação nociva com as empreiteiras de obras públicas. Porém, é inegável que se enfrentaram e se venceram vários desafios econômicos e sociais.

É curioso o processo de alguns intelectuais de tentarem representar o papel de justiceiros do regime militar. Acaba sendo uma ópera-bufa. Estranhamente, omitiram-se quando colegas foram aposentados compulsoriamente pelo AI-5, como Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Emilia Viotti da Costa, entre outros; ou quando colegas foram presos e condenados pela “Justiça Militar”, como Caio Prado Júnior.

Muitos fizeram carreira acadêmica aproveitando-se desse vazio e “resistiram” silenciosamente. A história do regime militar ainda está presa numa armadilha. De um lado, pelos seus adversários. Alguns auferem altos dividendos por meio de generosas aposentadorias e necessitam reforçar o caráter retrógrado e repressivo do regime, como meio de justificar as benesses.

De outro, por civis (estes, esquecidos nas polêmicas e que alçaram altos voos com a redemocratização) e militares que participaram da repressão e que necessitam ampliar a ação opositora – especialmente dos grupos de luta armada – como justificativa às graves violações dos direitos humanos.

¹MARCO ANTONIO VILLA, 52, é professor de história do Departamento de Ciências Sociais da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e autor,entre outros livros, de “Jango, um Perfil”.