Em Buenos Aires: a “livraria mais bonita do mundo” completa 20 anos

El Ateneo Grand Splendid

Dezembro de 2000. Para alguns, o terceiro milênio já havia começado, para outros ainda estava por vir. Enquanto isso, continuava o discurso do início do século 21. Em Buenos Aires, outro evento chamou a atenção de moradores e estrangeiros: a inauguração da livraria El Ateneo Grand Splendid na Avenida Santa Fe 1860, entre Callao e Riobamba, no Bairro Norte. , Recoleta.

O edifício Grand Splendid foi construído para funcionar como teatro no início dos anos 1900. Atraído por sua majestade, Max Glücksmann, um imigrante austríaco reconhecido por suas contribuições para a indústria do cinema e da música, adquiriu-o em 1919.

Com um estilo eclético, o Grande Esplêndido se tornou, desde o início, um símbolo da cultura portenha, não só por seu valor arquitetônico, mas também por estabelecer o padrão em cinema, rádio e gravação musical. No Teatro Splendid, como Glücksmann o chamou, foram ouvidas as primeiras audições da Rádio Splendid, uma das primeiras emissoras do país. Mais tarde, o visionário austríaco daria o tom novamente ao criar a gravadora El Nacional Odeón com a qual promoveu o tango e, portanto, intérpretes como Carlos Gardel.

Em 1926 o espaço voltou a dar o tom com a estreia de Juan sin ropa, um clássico do cinema mudo argentino. Três anos depois, foi exibido La divina dama, o primeiro filme falado lançado na cidade. O ano de 1964 marca o retorno do conceito teatral quando o empresário Clemente Lococo adquire o local e o transforma em um dos mais conceituados teatros. No entanto, a sétima arte retorna na década de 1970 até fevereiro de 2000, quando os espectadores se aglomeram para ver o último filme exibido: American Beauty, do diretor britânico Sam Mendes.

Rosa Montero, 2016. Fotografía cortesía de Grupo Ilhsa SA

Foi quando o Grupo Ilhsa, dono da El Ateneo (livraria e editora), Yenny (uma das maiores redes de livrarias da Argentina), do site Tematika e da revista literária Quid, investiu US $ 3.000.000. na renovação do teatro para que se parecesse com o que é hoje.

Em seus dois mil metros quadrados, El Ateneo Grand Splendid recebeu destacados escritores, artistas, turistas, bibliófilos e o público em geral. Estar em Buenos Aires e não visitar esta joia artística é como sair de Roma sem ver o Coliseu ou viajar para Paris sem ver a Torre Eiffel.

Antes da pandemia, cerca de duzentos eventos eram realizados a cada ano: apresentações de livros, concertos, assinaturas de discos, palestras, bem como exposições de artes plásticas e fotografia. Ernesto Sábato, Paul Auster, Mario Benedetti, Quino, Rosa Montero, Mario Vargas Llosa, Fito Páez, Gustavo Santaolalla, Isabel Allende. Emma Shapplin, Augusto Pérez Reverte, John Katzenbach, Les Luthiers, Chayanne, Ricardo Montaner, Florencia Bonelli, Eduardo Sacheri, Anthony Browne, Benjamín Lacombe, Soda Stereo são algumas das figuras que El Ateneo escolheu para mostrar seu talento ou simplesmente para comprovar se é tão bonito quanto dizem.

Soda Stereo, 2017. Fotografía cortesía de Grupo Ilhsa SA

Em novembro de 2018, o presidente francês Emmanuel Macron pediu que sua primeira atividade na agenda do G20 fosse tomar café da manhã na livraria. Além de comprar vários livros de escritores argentinos e um da fotógrafa Sara Facio, elogiou a proposta original de colocar o café bem no palco, de cortina aberta. Através de selfies, Macron validou entre suspiros e sorrisos que Buenos Aires tem um tesouro a mais que Paris.

Não em vão, a revista americana National Geographic considerou em 2019 como a “livraria mais bonita do mundo”. E embora este ano as mais de 3.000 pessoas que entraram diariamente nos seus espaços não tenham desfilado, manteve as portas abertas com horários restritos e tempo máximo de quinze minutos … ou um pouco mais se os guardas os ignorarem. A regra de não fotografar livros permanece em vigor, nem podem ser tiradas notas deles.

O curto tempo de permanência não permite mais sentar em uma das caixas originais para ler o exemplar preferido ou caminhar com deleite por seus quatro andares até encontrar um acaso entre os mais de noventa mil títulos e duzentos mil livros que repousam nas estantes. Da Bíblia de Gutenberg —em uma edição luxuosa, cara e pesada da Taschen— ao curto Che Boludo, um guia de bolso em inglês para falantes de inglês entenderem os idiomas argentinos, é possível encontrar de tudo … ou quase.

Isabel Allende, 2009. Foto cortesia do Grupo Ilhsa SA

A Literatura Latino-Americana tem as empresas mais reconhecidas. “Da Venezuela quase não entra nada”, diz um dos solícitos vendedores ao indagar sobre qualquer autor dessa nacionalidade. “Pare, aqui está um … ah, mas ele é argentino: Gabriel Payares.” Depois retifica e admite que é venezuelano, o livro em questão é Lo irreparable (Corregidor), o terceiro compêndio de contos do autor.

No lado oposto da literatura latina está a seção de comunicação e jornalismo; há uma estante estelar para jornalismo investigativo e uma seção separada com o rótulo “ditadura militar argentina”. Jorge Luis Borges escreveu que encomendar bibliotecas é exercer a arte da crítica de forma silenciosa e modesta. Classifique as livrarias também.

O quarto Ateneo Junior, no porão, hoje em dia não mostra a riqueza das famílias lendo Mary Poppins, The Jungle Book ou uma história de Paw Patrol em uníssono. Não há amantes da música vasculhando vinis ou cinéfilos que, com sorte, procuram em DVDs outras propostas além da Netflix. Mas estudantes, amantes de livros e curiosos continuam a comparecer.

Para este aniversário, não haverá brinde cara a cara, sem multidões ou chamadas em massa. Você tem que obedecer ao distanciamento social. As palestras continuarão sendo no Facebook e Instagram, em homenagem a Stephen King. Autores nacionais e internacionais continuarão saudando a aniversariante com pequenos vídeos caseiros. Quem colocar nas redes sua melhor foto do estabelecimento terá o merecido prêmio. Macron saberia sobre este concurso? A festa começou há dias e segue até o final do ano.

John Katzenbach, 2010. Foto cortesia do Grupo Ilhsa SA

É dezembro de 2021. O Ateneo Grand Splendid comemora duas décadas sob a cúpula projetada por Nazareno Orlandi. A pintura alegórica da paz, criada pelo muralista italiano para celebrar o fim da Primeira Guerra Mundial, representa diferentes culturas e épocas históricas, apela ao diálogo e à conciliação. Da mesma forma, há uma figura feminina que poderia muito bem ser Atenas, uma feroz deusa grega da inteligência, sabedoria, civilização e artes. Orlandi incluiu em sua criação uma máquina de projeção com uma longa tira de filme, pombas com ramos de oliveira, querubins e símbolos da abundância como o trigo, a videira, seus frutos. Seu trabalho se tornou um encanto, pois quem o aprecia se entrega a essa perfeição.

Talvez sejam os feromônios que emanam dos livros, a proteção da prodigiosa Atenas, o consolo que a alma, a mente e o coração sentem assim que cruzam a janela da entrada ou seja o que o britânico George Holbrook Jackson expressou: “Amor pelos livros, Repito, dura a vida inteira, nunca falha ou falha, mas como a própria beleza, é sempre um prazer ”. Parabéns pra você!

Argentina aprova imposto sobre grandes fortunas para financiar a luta contra o coronavírus

Iniciativa oficial impõe alíquota de até 3,5% a fortunas declaradas equivalentes a mais de 13 milhões de reais

A Argentina cobrará um imposto extraordinário sobre grandes fortunas para financiar a luta contra a pandemia. Depois de um acirrado debate, os senadores que se alinham com o Governo aprovaram por 42 votos a 26 uma lei que tributa uma única vez patrimônios de mais de 200 milhões de pesos (cerca de 13 milhões de reais). O percentual de taxação varia entre 2% e 3,5%, quando a fortuna declarada ao Tesouro ultrapassar 35 milhões de dólares (181 milhões de reais). O Executivo espera arrecadar cerca de 3,5 bilhões de dólares que prometeu destinar a planos produtivos e de saúde. A oposição considerou o imposto “confiscatório” e alertou que isso desestimularia os investimentos.

Governo argentino acelera agenda legislativa com projeto de lei sobre o aborto e imposto sobre grandes fortunas.

O imposto passou por um áspero debate na Câmara dos Deputados, onde o kirchnerismo o apresentou como um ato de justiça diante de uma das piores crises econômicas. A última previsão da OCDE é de queda de 12,9% no PIB argentino, a maior para um país do G20. O último relatório de pobreza elaborado pela Universidade Católica Argentina, que costuma antecipar os dados oficiais, constatou que 44,2% dos argentinos, o equivalente a 18 milhões de pessoas, não obtêm o suficiente para viver com dignidade. A cifra pressupõe que dois milhões de pessoas entraram na pobreza desde o início da pandemia, um número que poderia ter sido maior sem a ajuda do Governo. A Argentina é o nono país com o maior número de casos de coronavírus, com 1,5 milhão de infecções e quase 40.000 mortes.

A nova lei, que as autoridades chamaram de Aporte Solidário e Extraordinário, alcançará cerca de 12 mil pessoas, segundo cálculos provisórios da AFIP, a agência de arrecadação do Estado. Desse total, 380 pessoas estão no topo da escala de contribuição, com ativos declarados de mais de 35 milhões de dólares. O dinheiro que pagarem ao Fisco representará 55% do total arrecadado pelo novo imposto.

A lei aprofundou o fosso político que separa o kirchnerismo da oposição de direita. Em sua apresentação ao Senado, o governista Carlos Caserío disse que o imposto é “único, para uma única vez, em uma situação trágica que o mundo vive e, evidentemente, em uma situação excepcional”. “É uma contribuição que pedimos aos altos e grandes patrimônios do país. Se considerarmos as pessoas alcançadas, teremos que os que têm que pagar são 0,02%. Para que as pessoas não se deixem enganar, porque parece que estamos perseguindo os ricos, 99,98% dos argentinos não precisam dar essa contribuição”, afirmou.

Para a oposição, que votou contra, o imposto vai contra os investimentos, é confiscatório e vai gerar um aumento irracional à já altíssima carga tributária da Argentina”, segundo o senador de San Juan, Roberto Basualdo. O senador Esteban Bullrich, ex-ministro da Educação de Mauricio Macri, acrescentou que o problema subjacente é que “o sistema tributário argentino deveria ser progressivo e não regressivo”. “Acreditamos que este Governo enfrentou muitos problemas e que a pandemia trouxe mais, mas a verdade é que mostrou uma grande falta de criatividade diante desses problemas”, disse. Um dos promotores da iniciativa foi o deputado Máximo Kirchner, filho da vice-presidenta Cristina Fernández de Kirchner.

Argentina,G20,Política Internacional

Argentina recebe G20 em clima de crise

País que sedia o encontro luta contra recessão. Governo espera que evento atraia oportunidades, mas nas ruas de Buenos Aires poucas pessoas creem que cúpula mudará algo na situação delas.Argentina,G20,Política Internacional

Militantes seguram faixas e cartazes em protesto contra realização da cúpula do G20
Nas vésperas do G20, militantes de movimentos sociais protestam em Buenos Aires contra realização do encontro

Há anos que as máquinas das Industrias Klammer não produzem mais nada. Não que estejam quebradas: não há ninguém para operá-las. Trinta anos atrás, um casal de alemães fundou a empresa metalúrgica em San Martín, na periferia de Buenos Aires. Nos bons tempos, a empresa tinha até 12 funcionários, agora apenas um permanece. “Boa parte de nosso trabalho é feito agora, por exemplo, na China. Então, os serviços vêm de fora, são mais baratos, e eles têm melhores condições do que nós”, diz o fundador da empresa, Juan Beck, de 70 anos.

A renda dele e de sua esposa, Gertrud, depois de décadas de trabalho, mal se equiparam ao salário mínimo. Dessa forma, a família tem dificuldade para sobreviver. “Em vez de comprar roupas novas, continuamos usando as antigas”, diz Gertrud. “Quando meu neto tem um buraco na calça, colocamos um remendo”.

Argentina,G20,Política InternacionalEmpresário argentino Juan Beck
“Mal conseguimos viver do próprio trabalho”, reclama o empresário argentino Juan Beck

Mas o destino das Industrias Klammer também afeta as famílias de ex-funcionários. Eduardo García foi demitido após 28 anos na empresa. Aos 55 anos, ele dificilmente consegue emprego em outro lugar. Como muitos argentinos, ele agora tenta ganhar a vida como motorista do Uber. “Não apenas este, mas também o governo anterior trabalhou contra as indústrias e contra as pequenas e médias empresas, que até agora vinham dando emprego à maioria das pessoas”.

Devido à crise que atinge muitas empresas, a União Industrial Argentina (UIA) quer propor ao governo medidas de socorro. O mais urgente é reduzir os encargos fiscais. As altas tributações também quase arruinaram as Industrias Krammer. “Isso e a constante desvalorização do peso argentino fazem com que mal consigamos viver do nosso trabalho”, reclama Juan Beck.

Argentina,G20,Política InternacionalLuciana Ghiotto, ativista do ATTAC
“Cúpula não ajuda ninguém”, diz Luciana Ghiotto, ativista da ONG Attac na Argentina

A Argentina está em profunda crise econômica e depende de ajuda externa: empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial. Milhares de cidadãos protestam contra essa situação há meses, inclusive no período que antecede a cúpula do G20, que ocorre pela primeira vez em um país sul-americano.

O FMI ajudou a Argentina liberando em setembro um novo empréstimo de bilhões de dólares e terá um papel importante também na cúpula deste ano. O G20 foi originalmente criado para resolver as crises financeiras globais. “Mas, na realidade, a cúpula não ajuda ninguém”, diz Luciana Ghiotto, da ONG Attac da Argentina.

Juntamente com outras organizações de direitos humanos, ela quer participar do protesto agendado para o primeiro dia da cúpula, nesta sexta-feira (30/11). “A Argentina posa de boa aluna do FMI, mas a visita de Christine Lagarde e a realização da cúpula do G20 aqui em Buenos Aires são vistas por muitas pessoas como uma provocação.”

O governo Macri espera que a cúpula traga novos ares e atenção para o país. Novos acordos, por exemplo, para exportações de carne para os EUA, foram assinados alguns dias antes da cúpula. Miguel Braun, secretário de Política Econômica, também considera o evento uma “grande oportunidade para o turismo” e acredita que a Argentina pode se apresentar como “franca mediadora de posições díspares em uma situação global muito complexa”.

Nas ruas de Buenos Aires, entretanto, poucas pessoas acreditam que a cúpula poderá mudar alguma coisa na situação delas. As despesas para o encontro são estimadas em cerca de 200 milhões de dólares. “O dinheiro deveria ser investido em educação, onde ele seria urgentemente necessário”, opina a estudante Mariana Arboledas, de 25 anos. “A única esperança é que esta cúpula não termine em um enorme caos, como no ano passado em Hamburgo.”
DW

Jorge Luis Borges,Poesia,Argentina,Literatura

Literatura: Jorge Luis Borges e a teoria dos mundos paralelos

Jorge Luis Borges,Poesia,Argentina,Literatura

O escritor Jorge Luis Borges ALICIA DAMICO

Em ‘O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam’, Borges antecipa a incerteza do entorno combinando literatura com a forma mais prestigiosa de conhecimento, isto é, a ciência.

– por Montero Glez/ El País Brasil**

Jorge Luis Borges lidou com a capacidade antecipatória da literatura com a maestria própria de um homem de ciência. Por essa razão, é o autor favorito dos cientistas.

Um dos exemplos mais notáveis de seu espírito profético, no que se refere ao desenvolvimento científico, temos no conto intitulado O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam, datado de 1941, no qual Borges se antecipa com lucidez extrema à ideia dos universos paralelos que se multiplicam.

É curioso comprovar como, no citado conto, o autor argentino nos mostra a maneira como duas opções, com uma mesma origem, podem desenvolver-se ao mesmo tempo em torno dessa mesma origem e em um futuro próximo, de tal maneira que duas realidades opostas chegariam a existir de modo simultâneo. Com seu conto, o que Borges consegue é nos mostrar que se pode estar e não estar ao mesmo tempo, tornando ambas as opções, a de estar e a de não estar, em probabilidade cósmica.

Em ‘O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam’, Borges anteciparia a incerteza do entorno combinando literatura com a mais prestigiosa forma de conhecimento, isto é, a ciência. Ele consegue isso percorrendo um labirinto temporário, uma composição imaginária na qual é necessário enfrentar várias encruzilhadas ao mesmo tempo; alternativas que deixam de ser alternativas quando se opta simultaneamente por todas ao mesmo tempo, criando assim diversos tempos que se multiplicam e se bifurcam, pois, como nos diz Borges, todos os desenlaces acontecem e cada um é o ponto de partida de outras bifurcações.

Hugh Everett
Com tal ação, aparentemente contraditória, Borges se adianta alguns anos à chamada Interpretação de Muitos Mundos, mais conhecida como a Teoria dos Universos Paralelos, uma hipótese da Física Quântica desenvolvida pelo físico norte-americano Hugh Everett, que a introduziu em 1957 e que, para dar um exemplo, quer dizer que uma mesma partícula pode ser encontrada em uma infinidade de lugares ao mesmo tempo.

Porque toda vez que ocorre um evento quântico o universo se divide em dois universos paralelos e opostos entre si, de tal modo que, enquanto o evento ocorre em um, o contrário ocorrerá no outro.

Com essas coisas, eventos quânticos acontecem e não acontecem ao mesmo tempo, dependendo do grau de sua probabilidade. Por isso é exemplar o conto O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam, cuja leitura é tão perturbadora como enigmática.

Há um momento em que o próprio conto profetiza o seu clímax quando, em um dos diálogos, há uma referência à obra de Ts’ui Pen, astrólogo chinês e personagem borgiano que se propusera empreender a aventura de duas tarefas bizarras. Por um lado, a de construir um invisível labirinto do tempo, estritamente infinito e, por outro, escrever um romance labiríntico e, portanto, também infinito e que teria como título O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam. Um livro em que todos os desenlaces ocorrem porque cada um deles é o ponto de partida de outras bifurcações.

“Em algumas ocasiões os caminhos desse labirinto convergem; por exemplo, o senhor chega a esta casa, mas em um dos passados possíveis o senhor é meu inimigo, em outro, meu amigo. Cria, assim, vários futuros, diversos tempos, que também proliferam e se bifurcam”, afirma Yu Tsun bisneto de Ts’ui Pen, espião e protagonista da história borgiana. Chegados aqui, não é possível imaginar duas obras, pois labirinto infinito e livro infinito constituem um mesmo objeto no desenlace borgiano.

E para terminar, algumas palavras anedóticas sobre Hugh Everett, ateu convencido da não existência de Deus tanto quanto da existência de universos paralelos, e que morreu empenhado em demonstrar que, quando morresse, viveria para sempre nos labirintos de outro ramo quântico, já distante de seu corpo inerte. Talvez por causa disso, seu último desejo foi tão bizarro que suas cinzas acabaram na lata de lixo.

A PROFECIA CIBERNÉTICA
Embora vivesse na penumbra de sua cegueira, ele nunca deixaria de ver a si mesmo como um modesto Alonso Quijano que não se atreve a ser Quixote. Para dizer à maneira dele, Borges foi um homem cordato que inventou uma desordem de mundos a partir de seu lugar na ordem do universo.

Acima de tudo, concebeu a arte da fabulação como extensão mágica do ser humano e o labirinto como símbolo evidente de perplexidade infinita. Talvez por isso, sua obra seja uma extensão labiríntica do nosso inconsciente, onde não falta a inversão alquímica e onde também não faltam simetrias que nos mostrem Torquemada como o reverso de Cristo.

Atualmente, sua dimensão literária ultrapassou os limites da literatura e sua obra nos serve como ponte para a era cibernética. Antes da chegada da Internet, seu espírito profético sintonizou com as novas tecnologias de nossa era, antecipando-nos uma biblioteca infinita.

* O Machado de Pedra é uma seção em que Montero Glez, com o desejo de prosa, exerce sua pressão particular à realidade científica para manifestar que ciência e arte são formas complementares de conhecimento

** Originalmente publicado em El País.

Temer do Brasil catapulta Macri da Argentina

Declínio de imagem do Brasil no exterior ajuda Macri a projetar Argentina

Foto: Washington Costa / Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços

Longa crise política interna tem afetado protagonismo do Brasil; nos últimos meses, Macri recebeu líderes internacionais importantes, como Angela Merkel, da Alemanha, Sergio Mattarella, da Itália, enquanto o Brasil ficou de fora da lista dos dois.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

O presidente Mauricio Macri, no cargo desde dezembro de 2015, tem despertado a curiosidade e a empatia de chefes de Estado e de Governo, como a chanceler alemã, Angela Merkel, o chinês Xi Jinping e até o ex-presidente dos Estados Unidos Barack Obama – que o chamou de “líder” da região.

Nos últimos meses, Macri recebeu líderes internacionais importantes, como a própria Merkel e o presidente da Itália, Sergio Mattarella. Já o Brasil ficou de fora da lista dos dois.

Macri fez viagens ao exterior, como Washington, para se reunir com o presidente norte-americano, Donald Trump, e Pequim, além de ter sido altamente requisitado em reuniões bilaterais durante a cúpula do G20.

Até o ano que vem, a Argentina terá dois eventos mundiais de peso: sediará a conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), em dezembro, e o próximo G20, em 2018. Os dois encontros são inéditos na América do Sul.

Mas essa nova postura do governo argentino pode tirar a tradicional liderança do Brasil? Para o coordenador do MBA em Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), Oliver Stuenkel, “a longo prazo, não”.

“Não se pode comparar os dois países, porém em função da crise política, em curto prazo, o presidente Macri tem uma visibilidade e uma presença internacional maior porque a situação da Argentina é, digamos, menos pior do que no Brasil”, disse Stuenkel à ANSA.

O especialista explicou que, apesar dos problemas econômicos e também políticos da nação vizinha, “Macri representa uma narrativa muito clara sobre como a Argentina pretende superar as dificuldades”, coisa que não existe no Brasil.

“O presidente Michel Temer até tentou construir essa narrativa, mas não funcionou porque este governo dificilmente pode ser visto como um governo que pode fazer o país sair da situação em que se encontra. Alguns passos corretos podem ser dados, mas há a percepção de que o Brasil não tem um caminho para sair da crise”, ressalta.

Já para Reinaldo Dias, especialista em Ciência Política da Universidade Presbiteriana Mackenzie em Campinas, o governo brasileiro atual tem um problema de “legitimidade”. “O grande problema do Brasil é a legitimidade. É uma diferença bastante grande, já que Macri venceu eleições e Temer não. Mas, não é só isso que dá a legitimidade a um governo, que pode ser conseguida através de boas ações. Mas, do ponto de vista global, Temer não tem isso”, afirmou Dias à ANSA.

Segundo o especialista do Mackenzie, esse processo de perda de liderança do Brasil já vem desde o governo da ex-presidente Dilma Rousseff, que “não adotou uma postura de líder regional na América Latina”, e piorou com o atual mandatário. “Não existe vácuo na política porque sempre esse lugar será ocupado por algum ator”, destaca. Para Dias, os líderes ao redor mundo “aguardam” uma postura do Brasil como líder, já que é a nação que faz fronteira com praticamente todos os países sul-americanos.

No entanto, a ausência já se fez presente em acordos recentes importantes para todo o continente, como ocorreu no pacto de paz firmado entre o governo de Juan Manuel Santos e as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e que foi finalizado no ano passado.

Outro ponto em que o Brasil não tem postura ativa, conforme Dias, é a crise na Venezuela, que já causa um fluxo migratório maior para o norte do país. “Isso pode custar muito caro no futuro porque já estamos com problemas nas fronteiras que podem se agravar se não tiver uma liderança ativa”, acrescenta.

“O pragmatismo de Macri é bastante significativo. É um perfil de líder, que busca de fato a liderança. Por exemplo, ele participou da posse do novo presidente do Equador, Lenín Moreno, que tem ideologia oposta a ele; ele se ofereceu para intermediar o problema que envolve a construção do muro entre Estados Unidos e México. Ele é proativo”, destaca ainda Dias.

Já Stuenkel lembrou outro ponto importante da governança do presidente argentino, que é o de que líderes de outros países o veem como uma liderança de longo prazo. “A Argentina é um pouco bola da vez. É um governo relativamente recente e tem uma expectativa de poder. Ou seja, Temer chegou no poder quando o Macri já estava lá e vai sair antes do Macri deixar o cargo”, destacou Stuenkel à ANSA.

No entanto, na contramão dessa liderança, o governo brasileiro assumirá a Presidência rotativa do Mercosul nesta sexta-feira (21/07), justamente após Macri liderar o bloco.
Tatiana Girardi/ANSA/OperaMundi

Alejandra Pizarnik – Versos na tarde – Poesia – 02/07/2017

La última inocencia – extrato
Alejandra Pizarnik ¹

esta lúgubre manía de vivir
esta recôndita humorada de vivir
te arrasta alejandra no lo nieques.
 
hoy te miraste en el espejo
y te fue triste estabas sola
la luz rugía en el aire cantaba
pero tu amado no volvió
 
enviarás mensajes sonreás
tremolarás tus manos así volverá
tu amado tan amado
 
oyes la desmente sirena que lo robô
el barco con barbas de espuma
donde murieron las risas
recuerdas el último abrazo
oh nada de angustias
rie en el pañuelo llora a carcajadas
pero cierra las puertas de tu rostro
para que no digam luego
que aquella mujer enamorada fuiste tú
 
te remuerden los dias
te culpan las noches
te duele la vida tanto tanto
desesperada adónde vas?
desesperada nada mas!
 
¹ Flora Alejandra Pizarnik
* Buenos Aires, Argentina – 29 de Abril de 1936
+ Buenos Aires, Argentina – 25 de Setembro de 1972
Ps. não ousei traduzir.
[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Macri e Bachelet aproximam o Mercosul e a Aliança do Pacífico em resposta a Trump

Os dois presidentes promovem uma grande reunião para coordenar os dois principais grupos latino-americano.

Bachelet e Macri em Colina, no Chile, durante a comemoração do 200º aniversário da batalha de Chacabuco.
Bachelet e Macri em Colina, no Chile, durante a comemoração do 200º aniversário da batalha de Chacabuco. PRESIDÊNCIA

A chegada de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos está provocando um grande movimento de fundo em toda a América Latina. E Mauricio Macri, presidente da Argentina, parece estar no centro desse impulso.

Na semana passada, viajou para Brasília e afirmou, com Michel Temer a seu lado, que os dois gigantes sul-americanos dariam um “impulso histórico” ao Mercosul.[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Na próxima semana irá à Espanha para, entre outras coisas, acelerar o acordo UE-Mercosul que está parado há 15 anos. Mariano Rajoy – presidente do Governo espanhol – está muito disposto a apoiá-lo nessa tarefa.

E na noite de domingo, para finalizar a jogada, Macri foi a Colina, perto de Santiago do Chile, para se encontrar com Michelle Bachelet e lançar a aproximação entre o Mercosul e a Aliança do Pacífico, o outro grande bloco econômico da América Latina liderado por México, Colômbia, Peru e Chile.

Enquanto os Kirchner estavam à frente da Argentina e o Partido dos Trabalhadores governava o Brasil, Mercosul e Aliança do Pacífico se olhavam com cautela. O segundo grupo era a estrela em ascensão da ortodoxia e do livre comércio contra o Mercosul mais protecionista. Mas a chegada de Macri, e mais recentemente de Temer, mudou as coisas.

O argentino já assistiu como observador a última cúpula, precisamente no Chile, onde foi a grande estrela com o peruano Pedro Pablo Kuczynski, que ainda não tinha assumido, e anunciou sua intenção de fortalecer os laços. A chegada de Trump acelerou os tempos e todos os países da América Latina, que em boa medida vivem da exportação de matérias-primas, buscam alternativas caso Trump cumpra suas promessas e comece a fechar suas fronteiras aos produtos de outros territórios.

Macri e Bachelet, que neste momento presidem as duas alianças centrais da América Latina, organizaram para abril uma reunião em Buenos Aires de chanceleres do Mercosul e da Aliança do Pacífico que será um marco e poderia abrir caminho para uma fusão no futuro. Ainda persistem muitas dificuldades pelas diferentes políticas econômicas – o Chile tem acordos de livre comércio com 180 países do mundo, algo semelhante acontece no Peru e na Colômbia, Argentina e Brasil são duas economias muito fechadas e os argentinos viajam a Santiago para comprar roupas mais baratas em redes internacionais, como H&M, que nunca se instalou em Buenos Aires – mas a vontade política de aproximação é muito evidente e a mudança ideológica na Argentina e no Brasil também.

Ninguém quer enfrentar diretamente Trump e, na verdade, Macri busca formalmente um bom relacionamento. Esta semana manteve conversas com o vice-presidente Michael Pence. Mas a preocupação é evidente.

A América Latina está em pleno giro para a abertura e Trump vai na direção oposta. A declaração conjunta deixa clara a rejeição às políticas dos EUA: “As tendências protecionistas observadas internacionalmente contradizem o esforço para alcançar um crescimento sustentável e o desenvolvimento inclusivo”. O Mercosul acaba de eliminar a única oposição real a essa aproximação com a mais liberal Aliança do Pacífico: a Venezuela de Nicolás Maduro foi suspensa do grupo com o apoio de Temer e Macri, embora o maior promotor de sua expulsão tenha sido o conservador paraguaio Horacio Cartes.

Macri e Bachelet se encontraram no Chile por uma questão especialmente simbólica: a comemoração dos 200 anos da travessia dos Andes de General San Martín, que primeiro liderou a liberação de Argentina e depois do Chile com uma ousada operação militar através de uma das cordilheiras mais altas do planeta.

Em Colina, onde aconteceu a batalha chave de Chacabuco, Bachelet lançou uma mensagem de unidade contra Trump: “Nos dias em que o planeta vive segregação, xenofobia e protecionismo, Chile e Argentina iniciam um caminho de colaboração”, concluiu.

Argentina e Chile são dois vizinhos com relações às vezes complicadas – tiveram disputas no passado pelos territórios na Patagônia – e com dois modelos econômicos quase opostos: o chileno, herdeiro de Pinochet, é muito liberal, com educação universitária pública paga – Bachelet está tendo dificuldades para cumprir sua promessa de aumentar a gratuidade –, aposentadorias privadas e sindicatos fracos.

A Argentina tem ensino superior gratuito e aposentadorias públicas e sindicatos onipresentes. O Chile teve uma inflação de 3% em 2016 e a Argentina, de 40%. Mas ambos estão se aproximando gradualmente – o Chile aumenta lentamente o peso do Estado enquanto a Argentina reduz e inicia uma lenta abertura – e deram início a uma nova fase de aproximação. A chegada de Trump está fazendo com que o resto do mundo se una para combater o protecionismo.
ElPais

Lock, Smith e Hulme estouram “champã” nas respectivas tumbas

Temer faz de Macri seu grande aliado para uma guinada liberal.Michel Temer e Mauricio Macri, nesta segunda-feira.

Michel Temer e Mauricio Macri, nesta segunda-feira.
Foto: ENRIQUE MARCARIAN REUTERS

Michel Temer deixou claro: seu grande aliado na guinada liberal que busca dar ao Brasil é Mauricio Macri. O novo presidente brasileiro procura desde o primeiro momento a proximidade do colega argentino, fazendo de Buenos Aires o destino da sua primeira visita oficial a um país – e não a uma cúpula internacional – desde a destituição definitiva de Dilma Rousseff. Macri, enquanto isso, mantém certa ambiguidade.

[ad name=”Retangulo – Anuncios – Duplo”]

Por um lado, foi o primeiro a cumprimentar Temer pela efetivação no cargo, mas, por outro, tenta evitar comparações com o brasileiro, que prometeu uma onda de privatizações que Macri não tem margem para realizar. “Temer é mais de direita do que nós”, afirma um membro da cúpula macrista.

O argentino foge de definições ideológicas para ganhar espaço político, e a aliança com Temer o empurra para a direita. “Escolhi que o primeiro país ao qual viajaria seria a Argentina pelos laços históricos, mas sobretudo pela identidade de posições que encontramos com Macri”, disse o brasileiro, tendo ao seu lado o argentino, menos enfático.
Ambos, no entanto, demonstravam grande sintonia na aparição conjunta da residência presidencial de Olivos, nos arredores de Buenos Aires, para uma foto que coroa essa etapa da viagem. Há apenas um ano, eram Rousseff e Cristina Kirchner que comandavam seus respectivos países; antes delas, Luiz Inácio Lula da Silva e Néstor Kirchner, os protagonistas, ao lado de Hugo Chávez, da década dourada da esquerda latino-americana.

Durante a entrevista coletiva, Macri e Temer demonstraram grande concordância em dois assuntos cruciais: o Mercosul e a possível saída da Venezuela. “O Brasil é um país irmão. Temos um grande eixo que é reduzir a pobreza em nossos países. Valoramos muito a sua visita”, disse-lhe o argentino. Ambos expressaram “uma grande preocupação com os direitos humanos na Venezuela” e insistiram que, se Caracas não cumprir as exigências do bloco até 13 de dezembro, o país petroleiro será suspenso do Mercosul.

Os dois presidentes também exibiram sintonia no apoio à paz na Colômbia, depois da vitória do não no referendo deste domingo, mas sobretudo se mostraram a favor de revitalizar o Mercosul e acelerar os acordos com a União Europeia, negociados infrutiferamente há 20 anos. Temer, muito criticado internamente, também comentou que as eleições municipais deste domingo, com sua enorme abstenção, mostram que “há uma decepção com a classe política em geral”. Ambos evitaram qualquer polêmica pela chegada ao poder de Temer, sem o voto popular e depois de um processo de impeachment da titular.

“Para nós com o Brasil está tudo bem, tudo legal”, buscou descontrair Macri, em português, ao final da coletiva.

Vídeo do coletivo Passarinho, com protesto contra Temer na residência oficial da presidente argentino.

Temer teve na Argentina o primeiro cenário bilateral para se mostrar como presidente do Brasil depois da questionada destituição de Dilma Rousseff, em 31 de agosto. E seu interlocutor foi Macri, um presidente que, como ele, representa a guinada regional da América do Sul para a direita.

A rigor, a viagem de Temer a Buenos Aires não foi oficial, porque isso teria exigido uma visita do brasileiro ao Congresso. O Governo argentino quis evitar esse trâmite ao convidado, para que não precisasse enfrentar parlamentares kirchneristas e de outras correntes de esquerda que consideram que a interrupção do mandato de Rousseff foi um golpe de Estado.

A chegada de Temer provocou um protesto na praça de Mayo, em frente à Casa Rosada, enquanto os mandatários estavam em Olivos, bem longe dali.  “Se consegui evitar os protestos, melhor para mim e para a democracia”, brincou Temer. Um grupo pequeno de um coletivo de manifestantes chamado Passarinho, porém, foi também a Olivos (veja o vídeo).

A estratégia da Casa Rosada foi transmitir a ideia de unidade entre os dois principais sócios do Mercosul, o contraponto político a um bloco bolivariano em declínio, sob a liderança da Venezuela.

Argentina e Brasil já se mostraram anteriormente dispostos a isolar Caracas após impedirem a tentativa venezuelana de assumir a presidência do Mercosul sem o consenso dos sócios. Nessa lista também está o Paraguai, país que Temer incluiu em sua primeira viagem regional, mas não o Uruguai, que ficou sozinho na sua defesa da transmissão automática da presidência à Venezuela, seguindo a ordem alfabética.

O encontro bilateral foi também uma demonstração do tom a ser adotado nas novas relações bilaterais. Falou-se muito de comércio e investimentos, e pouco de política, o eixo que estruturou os últimos 10 anos de desenvolvimento do bloco.

Tanto Néstor e Cristina Kirchner como Lula e Rousseff passaram por cima das respectivas chancelarias e assumiram como uma questão pessoal qualquer solução para os problemas bilaterais. Macri e Temer retrocederam nesse caminho para recuperar o espírito comercial do Mercosul.
Frederico Molina/ElPais